Blog Católico, para os Católicos

"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

domingo, 25 de agosto de 2013

Bispos Eméritos Querem Revitalizar o Concílio

D. Pedro Casaldáliga

D. José M. Pires
“Arcebispo emérito da Paraíba e Bispos eméritos de Goiás e São Félix do Araguaia (MT), Dom José Maria Pires, Dom Tomás Balduíno e Dom Pedro Casaldáliga, respectivamente, enviaram uma carta a todos os Bispos do País conclamando ao diálogo e pedindo que os princípios do Concílio Vaticano II, convocado pelo então Papa João XXIII e levado à frente pelo seu sucessor à época, Papa Paulo VI, sejam retomados pela Igreja Católica.

-        A primeira geração que teve contato com o Concílio tentou segui-lo com muito ardor. Gostaríamos de retomar este ardor, essa capacidade de nos reajustar à realidade das pessoas, de estar mais perto do povo, seja rico ou pobre – diz Dom José Maria Pires, que completa:


D. Tomás Balduíno
-        À época do Concílio, os Bispos deixaram os palácios e foram viver em casas. Quando viajavam, eles deixaram de ficar hospedados nas melhores casas e passaram a se aproximar mais das pessoas. Queremos que o diálogo sobre essas questões seja retomado e que, na Igreja, as pessoas sintam que não há distinção entre elas” (Trecho de Matéria publicada no Jornal, “O Globo”, em 23/08/2013).


Um Testemunho das Incertezas do Pós-Concílio

“Conceituada revista espanhola, conhecida pela seriedade e segurança de suas informações, a “CIO”, publica a carta que abaixo, com a devida vênia, transcrevemos, pois ilustra a maneira como se realiza na Igreja a palavra autorizada de Paulo VI, quando, falando ao Seminário Lombardo, lamentou sua auto-demolição (1969):

Uma Religiosa Secularizada: “A Revista de Teologia mística 'A vida sobrenatural', no seu último número, reproduz a seguinte carta de uma religiosa secularizada:

“Passei 17 anos como religiosa professa em uma Congregação de Ensino. Foram os anos mais felizes de minha vida. Amava a Congregação pelo muito que significava para mim. Um irmão meu é missionário na Austrália; e um tio, sacerdote numa diocese americana. A religião teve sempre um papel muito importante na nossa família; minha mãe era muito piedosa; e meu pai, converteu-se do protestantismo à nossa Religião, antes de casar-se. Tive uma infância baseada numa fé firme e vivida.

Sempre gostei da docência e, por isso, ingressei numa Congregação de Ensino. O noviciado, passei-o sem contratempo algum. A mestra de noviça me estimava muito”.

Reciclagem pós-Conciliar: “ Nos anos pós-conciliar, minhas superioras julgaram que eu devia adquirir um máximo de experiência. Tive que assistir a vários seminários, a muitas conferências e reuniões que me deixavam, cada vez, menos tempo para minhas rezas, a meditação e o Ofício divino. Fiz, no entanto, quanto pude para combinar o trabalho com a vida espiritual.

A mudança na minha vida começou como fruto de umas conferências que nos fez um jovem sacerdote, na Escola de Magistério. Pela primeira vez conheci noites de insônia, ao recordar constantemente as coisas ouvidas nessas conferências.

Senti dificuldade para desabafar-me com a Superiora. E eis que um dia encontrei uma religiosa chorando amargamente. Não era de nossa Congregação. Éramos amigas e ela confiou-me as angústias que estava atravessando. Eram iguais às minhas: seria Cristo Deus e Homem? Estaria Ele realmente na Eucaristia? Teria havido algum tempo algo como Pecado Original?

Estas e outras questões propôs o sacerdote à nossa consideração, para darmos uma resposta pessoal. Sempre pensei que todas estas respostas, já as havia dado a Igreja, de uma vez para sempre, sem deixar lugar à dúvida. Porém, o sacerdote insistia que os teólogos modernos tinham projetado novas luzes sobre estas doutrinas. E, ao final destas conferências, achei que nenhuma doutrina da Igreja oferecia segurança”.

A Igreja não é Mestra da Verdade: “Depois de falar com aquela religiosa amiga, decidimos convidar aquele sacerdote a uma entrevista particular. Aceitou logo e, durante a conversa, demo-nos conta, com horror, de que ele não somente estava duvidando da doutrina da Igreja, mas mesmo de toda a autoridade desta como Mestra da verdade. Para ele, não existia pecado, pois o considerava como restos da idade do medo; era coisa que tinha passado com o Vaticano II, que havia mudado tudo.

Acrescentou que a verdade devia evoluir e mudar constantemente. Ao lhe perguntarmos de onde tinha tirado todas essas ideias e como as conciliava com o ensinamento da Igreja, respondeu: 'Elaborei minhas ideias estudando Teilhard de Chardin e Hans Küng'.

Dava grandíssima importância ao tema da instrução sexual, dizendo que, sem isso, não pode haver desenvolvimento da personalidade. Resisto a aduzir mais pormenores neste particular. Minha amiga perguntou-lhe que diria o Bispo se soubesse dessas coisas que ele ensinava. Sua resposta foi: 'Estou numa das Comissões que assessoram e informam o Bispo sobre o desenvolvimento da doutrina'.

Convento subvertido: ”Ao voltar ao convento, minha vida tinha mudado. Minha alegria e minha paz tinham-se evaporado. Tratei de confiar minhas inquietações à Superiora. Parece que não fez caso. No fim de três meses, trasladaram-me para outra casa. Vi que ali, várias religiosas já estavam infectadas com as novas doutrinas. Não por influência daquele sacerdote, mas de um outro que tinha as mesmas ideias.

Nesta nova Comunidade, ninguém observava a Regra. Cada uma fazia o que lhe desse na gana. Apenas umas poucas ainda se confessavam e faziam visita ao Santíssimo. A única ocupação depois das aulas era televisão. Pouco tempo depois de estar ali, um sacerdote jovem, que costumava visitar a Comunidade, casou-se no civil com uma religiosa, fato que todas ali julgaram a coisa mais natural do mundo. A Superiora não se atrevia a dar ordens a ninguém.

As coisas iam de mal a pior. Eu era a única que cuidava de observar a Regra e as companheiras riam-se de mim. Ao cabo de um ano, todas as religiosas, menos eu e uma irmã, já mais idosa, tinham abandonado o hábito.

O Abandono das Almas: “Ao expor, por carta, à Madre Provincial minhas dificuldades, respondeu-me muito secamente, dizendo-me que duvidava de minha vocação. Na minha angústia, decidi pedir conselho ao diretor espiritual que nos confessava. Ele me disse estas palavras textuais: 'as religiosas, hoje, devem amoldar-se às exigências do tempo e libertar-se da escravidão do passado'. Era Cônego e acrescentou que o Bispo me diria a mesma coisa. Perguntei-lhe se todos os anos de vida religiosa antes do Vaticano II – procedente do Espírito Santo – a Igreja reconhecia os erros do passado”. (Quer dizer que o Espírito Santo, antes do Vaticano II, teria, segundo este Cônego, abandonado sua Igreja!) [parêntese do Boletim Diocesano e D. Antônio].

“Então, pedi a dispensa dos Votos. Conheço a muitas que fizeram o mesmo (…). Conheço, agora, o poder de Satanás, que destruirá a Igreja se seguir por este caminho”. (N.N.)

(D. Antônio de Castro Mayer, Boletim Diocesano, nº 46, de Outubro/1975).

Fonte: Instrução Dominical para os Fiéis – 25 de Agosto de 2013 (Igreja de São José, da Administração Apostólica São João Maria Vianney, em Campos dos Goytacazes/RJ).

“Não será um dos benefícios da História
o ensinar-nos a não renovar
os erros do passado?”

(Régine Pernoud, “O Mito da Idade Média”, p. 22,
Coleção “Saber”, nº 125, Publicações Europa-América, Lisboa, 1978).
  

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Ministério Sacerdotal Feminino na Igreja Católica: nunca, jamais. Amém!





Por que não?

Porque “a ordenação sacerdotal, pela qual se transmite a missão que Cristo confiou aos seus Apóstolos, de ensinar, santificar e governar os fiéis, foi na Igreja Católica, desde o início e sempre, exclusivamente reservada aos homens. Esta tradição foi fielmente mantida também pelas igrejas orientais” (Beato João Paulo II, Carta Apostólica Ordinatio Sacerdotalis, de 22 de Maio de 1994).

Então, de onde surgiu esta ideia?

Simplesmente, “sucede que, de alguns anos para cá diversas comunidades cristãs originadas da Reforma do século XVI ou que apareceram em épocas posteriores têm vindo a possibilitar que as mulheres tenham acesso a funções de cura pastoral, com o mesmo título que os homens; a iniciativa de tais comunidades provocou, da parte dos membros das mesmas ou da parte de grupos semelhantes, petições e escritos que tendem a generalizar esta admissão, como também, ao mesmo tempo, reações no sentido contrário” (Declaração “Inter Insigniores”, da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, sobre a Questão da Admissão das Mulheres ao Sacerdócio Ministerial, Introdução; cfr. em “L'Osservatore Romano”, ed. Port. de 30/01/1977, e reproduzido no SEDOC, Vol. 9, nº 99, em Março de 1977, cols. 872-884).

E qual foi a Primeira Reação da Igreja Católica?

Pois bem, “quando surgiu a questão da ordenação das mulheres na Comunhão Anglicana, o Sumo Pontífice Paulo VI, em nome da sua fidelidade ao encargo de salvaguardar a Tradição Apostólica, e também com o objetivo de remover um novo obstáculo criado no caminho para a Unidade dos Cristãos, teve o cuidado de recordar aos irmãos anglicanos qual era a posição da Igreja Católica: 'Ela defende que não é admissível ordenar mulheres para o sacerdócio, por razões verdadeiramente fundamentais. Estas razões compreendem: o exemplo – registrado na Sagrada Escritura – de Cristo, que escolheu os seus Apóstolos só entre os homens; a prática constante da Igreja, que imitou Cristo ao escolher só homens; e o seu Magistério Vivo, o qual coerentemente estabeleceu que a exclusão das mulheres do sacerdócio está em harmonia com o plano de Deus para a sua Igreja' (S.S. Paulo VI, Rescrito à Carta de Sua Graça o Revmo. Dr. F. D. Coggan, Arcebispo de Cantuária, sobre o ministério sacerdotal das mulheres, de 30 de Novembro de 1975; AAS 68 [1976], pp. 599-600).

Mas, dado que também entre teólogos e em certos ambientes católicos o problema fora posto em discussão, Paulo VI deu à Congregação para a Doutrina da Fé mandato de expor e ilustrar a este propósito a Doutrina da Igreja. Isso mesmo foi realizado pela Declaração 'Inter insigniores', que o mesmo Sumo Pontífice aprovou e ordenou publicar (AAS 69 [1977], pp. 98-116) (Carta Apostólica “Ordinatio Sacerdotalis”).

 Algum outro Pontífice se pronunciou?

Com certeza, “eu mesmo escrevi a este respeito: 'Chamando só homens como seus Apóstolos, Cristo agiu de maneira totalmente livre e soberana. Fez isto com a mesma liberdade com que, em todo o seu comportamento, pôs em destaque a dignidade e a vocação da mulher, sem se conformar ao costume dominante e à tradição sancionada também pela legislação do tempo' (Beato João Paulo II, Carta Apostólica “Mulieris dignitatis”, de 15 de Agosto de 1988, 26 [cfr. Doc. Pont., 223]).

De fato, os Evangelhos e os Atos dos Apóstolos atestam que este chamamento foi feito segundo o eterno desígnio de Deus: Cristo escolheu os que Ele quis (cfr. Mc. 3, 13-14; Jo. 6, 70) e fê-lo em união com o Pai, 'pelo Espírito Santo' (At. 1, 2), depois de passar a noite em oração (cfr. Lc. 6, 12). Portanto, na admissão ao Sacerdócio Ministerial (cfr. Const. Dogm. “Lumen Gentium”, 28; Decreto “Presbyterorum Ordinis”, 2b), a Igreja sempre reconheceu como forma perene o modo de agir do seu Senhor na escolha dos doze homens que Ele colocou como fundamento da sua Igreja (cfr. Ap. 21, 14). Eles, na verdade, não receberam apenas uma função, que poderia depois ser exercida por qualquer membro da Igreja, mas foram especial e intimamente associados à missão do próprio Verbo encarnado (cfr. Mt. 10, 1.7-8; 28, 16-20; Mc. 3, 13-16; 16, 14-15). O mesmo fizeram os Apóstolos, quando escolheram os seus colaboradores (cfr. I Tm. 3, 1-13; II Tm. 1, 6; Tt. 1, 5-9), que lhes sucederia no Ministério (cfr. Catecismo da Igreja Católica, nº 1577). Nessa escolha, estavam incluídos também aqueles que, ao longo da história da Igreja, haveriam de prosseguir a missão dos Apóstolos de representar Cristo Senhor e Redentor (cfr. Const. Dogm. “Lumen Gentium”, 20 e 21).

De resto, o fato de Maria Santíssima, Mãe de Deus e Mãe da Igreja, não ter recebido a missão própria dos Apóstolos, nem o sacerdócio ministerial, mostra claramente que a não-admissão das mulheres à ordenação sacerdotal não pode significar uma menor dignidade nem uma discriminação a seu respeito, mas a observância fiel de uma disposição que se deve atribuir à sabedoria do Senhor do Universo” (Carta Apostólica “Ordinatio Sacerdotalis”).

Então, é Doutrina Definida para Sempre?

Sim, para a glória de Deus e “para que seja excluída qualquer dúvida em assunto da máxima importância, que pertence à própria constituição divina da Igreja, em virtude do meu Ministério de confirmar os Irmãos (cfr. Lc. 22, 32), declaro que a Igreja não têm absolutamente a faculdade de conferir a Ordenação Sacerdotal às mulheres, e que esta sentença deve ser considerada como definitiva por todos os fiéis da Igreja” (Beato João Paulo II, Carta Apostólica Ordinatio Sacerdotalis, de 22 de Maio de 1994).



Resposta da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé
à Dúvida sobre a Doutrina da Carta Apostólica
“Ordinatio Sacerdotalis”


Dúvida: Se a doutrina, segundo a qual a Igreja não têm faculdade de conferir a Ordenação Sacerdotal às mulheres, proposta como definitiva na Carta Apostólica “Ordinatio Sacerdotalis”, deve ser considerada pertencente ao Depósito da Fé.

Resposta: Afirmativa.

Esta Doutrina exige um assentimento definitivo, já que, fundada na Palavra de Deus escrita e constantemente conservada e aplicada na Tradição da Igreja desde o início, é proposta infalivelmente pelo Magistério Ordinário e Universal (cfr. Conc. Vaticano II, Const. Dogm. “Lumen Gentium”, 25, 2).

Portanto, nas presentes circunstâncias, o Sumo Pontífice, no exercício de seu Magistério próprio de confirmar os irmãos (cfr. Lc. 22, 32), propôs a mesma Doutrina, com uma declaração formal, afirmando explicitamente o que deve ser mantido sempre, em todas as partes e por todos os fiéis, enquanto pertencente ao Depósito da Fé.

O Sumo Pontífice João Paulo II, durante a Audiência concedida ao abaixo assinado Cardeal Prefeito, aprovou a presente Resposta, decidida na reunião ordinária desta Congregação, e ordenou sua publicação.

Roma, da Sede da Congregação para a Doutrina da Fé, aos 28 de outubro de 1995.

Joseph Cardeal Ratzinger
Prefeito
† Tarcísio Bertone
Arc. Emérito de Vercelli
Secretário

Obs.: A presente Resposta foi publicada em “L'Osservatore Romano”, ed. Port. De 25/11/1995.

Fonte consultada: Documentos Pontifícios, 268, Sacerdócio de Mulheres?; Ed. Vozes, Petrópolis, 1996.

  

domingo, 18 de agosto de 2013

Louvores em Honra da Mãe de Deus - 1





Notas Escriturísticas sobre
Nossa Senhora, a Mãe de Deus.

“Entre as suaves e sublimes figuras, que as Memórias Evangélicas apenas descobrem de relance, a da Mãe de Jesus é a primeira, que a nossa veneração e o nosso culto procuram com extremo, depois de consumado diante da sua vista o Holocausto do Messias.

Trespassado de fundos golpes, aquele Coração tão fino no afeto, e tão sublime nas virtudes, gotejando em lágrimas todo o sangue da sua alma, que os tratos esgotaram das veias do Redentor, como suportou o Sacrifício, e até à hora, em que deixou a terra para gozar a celeste morada, de que maneira existiu, aceitando a cruel separação de um Filho amado?

Na sua humildade, cheia de graça, rodeada, como consoladora e luz de esperança, de todos os pobres e infelizes, que o mundo desamparava, assegura-nos a Tradição, que foi para os homens na terra a mesma estrela protetora, que os aflitos invocam hoje no Paraíso, como intercessora compadecida dos infortúnios, que atribulam o desterro da vida.

Mais venturosos, os primeiros cristãos gozaram da presença, e benigna influência da Esposa do Espírito Santo. Os Apóstolos tiraram da vista Daquela, que padeceu tanto sem se queixar, a força necessária para arrostarem animosos com as tempestades e cruezas do mundo. Os desgraçados acharam Nela conforto e refúgio. Os convertidos, pegando na sua cruz, e seguindo A de Cristo, tinham na Mãe de Deus o exemplo de todas as perfeições, e por Ele se confirmavam na abnegação, e na perseverança.

Um escritor do quinto século, São Cirilo de Alexandria, celebrando os louvores da Virgem dá-nos exata ideia do grande respeito, que os cristãos lhe tributaram sempre.

Tratando das prerrogativas de Maria, o eloquente Doutor eleva-se, e exclama, ardendo em entusiasmo: 'Salve, Maria, Mãe de Deus, tesouro precioso do universo, luz eterna, e puríssima coroa de virgindade, cetro da Lei da Graça!... Salve tu, que trouxeste nas castas entranhas o Imenso e o Incompreensível!... por amor de ti a Santíssima Trindade foi glorificada e a Cruz do Redentor se exaltou em toda a terra! Salve, triunfo glorioso dos Céus, jubilo dos Anjos, e terror dos Infernos... venceste o Tentador, mostrando às criaturas, apesar da culpa, as portas do Paraíso, abertas para recebê-las! Por ti reina o conhecimento da verdade sobre as ruínas da idolatria; os fiéis são regenerados com o Batismo, as nações do mundo arrependem-se e choram penitentes os seus erros!... Por ti, o Filho Unigênito de Deus, facho do mundo, iluminou os que jaziam debaixo das trevas da morte... Quem poderá louvar-Te dignamente, Mãe incomparável, Virgem puríssima?'[1]

São Dionísio Areopagita, escritor do primeiro século, na Carta que se lhe atribui, dirigida a seu mestre São Paulo, Apóstolo, refere-nos o que experimentou, quando pôs os olhos na Virgem.

Eis as suas palavras, viva expressão dos sentimentos: 'Diante de Deus, confesso, que não se pode perceber pelos homens Aquela, que eu vi e contemplei... porque apenas João, alteza do Evangelho, me levou à presença da Senhora, rodeou-me tão imenso resplendor, foi tão copiosa a luz interior, e sobreveiu-me tanta fragrância de todas as coisas, que nem o infeliz corpo, nem o meu espírito pode sofrer os efeitos insignes de tão suprema ventura. Desfaleceu o coração, e desfaleceu o ânimo, oprimidos com a majestade de tanta glória. Deus que habitava na Virgem, me é testemunha de que se a vossa doutrina não me tivesse ensinado, chegaria a crer que Maria era o verdadeiro Deus!'[2]

Alguns autores, citados por Macedo na sua obra, Eva e Maria, acrescentam, sem hesitar, que São Dionísio, apenas se achou na presença da Virgem, caiu em terra, sem sentidos, e como morto, não podendo suportar os raios de tanta majestade, e o esplendor da luz, que o cegava, o que ele mesmo parece significar, quando assevera, que na sua fraqueza corpórea não pudera sofrer os efeitos daquela felicidade, desfalecendo-lhe o coração e o espírito, deslumbrados, e oprimidos de tamanha glória.

Estas Tradições, porém, não são mais do que notícias, filhas de crenças, que devemos supor sinceras mas que de nenhum modo obrigam.

No mesmo caso está, a todos os respeitos, a Carta atribuída à Senhora, e que certos escritores dizem enviada diretamente a Santo Inácio, Bispo e Mártir de Antioquia, na qual com palavras graves e eficazes a Mãe de Deus o exortava a acreditar firmemente para tudo no Evangelista São João, conformando sempre a vida e os costumes pelo seu voto de Cristão.

A mesma força tem a outra Epístola, que afirmam ter sido escrita à cidade de Messina, na qual, em prêmio de haver abraçado a Fé, a Senhora lhe promete a sua proteção perpétua, e lhe manda a sua bênção.

Florença gloriou-se, muito tempo, de possuir uma Carta quase semelhante, em que a concisão dos termos não fica inferior em nada à brevidade das duas que notamos.

'Florença, amada de Deus, de Jesus meu Filho, e de Mim, sustenta a Fé; insta com orações: esforça-te com paciência: porque assim alcançarás perdurável saúde diante do Senhor.'...

Em todo o tempo, que se demorou na terra, Maria não cessou de ser Aquela rosa, nascida em Jessé, e anunciada pelos Profetas como alegria do mundo: e o aroma de tantas virtudes e perfeições, enchendo tudo de pureza e fragrância, esforçava a devoção e piedade dos verdadeiros discípulos de Jesus.

Antes de cerrar os olhos, a Senhora não viu cumpridas as terríveis palavras de Seu Filho sobre Jerusalém.

O seu Coração mavioso não teve de chorar a dor e a amargura de infelizes mães, forçadas pelas angústias de um cerco sem misericórdia a amaldiçoar a fecundidade das suas entranhas, secando-se-lhe o leite nos peitos, e pendendo-lhes sem vida o tenro fruto dos castos amores!

Mas ainda nos seus dias, não se assistiu ao castigo da cidade orgulhosa, viu florescer a promessa, e crescer a seara a tal ponto, que os ceifeiros dificultosamente bastavam para a colher.

Em fim, bateu a hora destinada para a Mãe de Deus deixar a terra; e a Tradição refere-nos que um Anjo foi o núncio dos decretos do Altíssimo.

Retirando-se à montanha de Sião, a curta distância dos paços arruinados dos príncipes da sua raça, e para o mesmo Cenáculo sobre o qual baixara ao Espírito Santo, Maria humilde e conforme com a vontade do Eterno, esperou ali o instante desejado de se unir para sempre ao Filho amado.

A idade não murchou no seu rosto a formosura angélica. Os anos sem força contra Ela, passaram deixando-A bela como antes. Assim o afirma São Dionísio, testemunha ocular da sua morte.

Todas as graças a ornavam, e no tremendo lance, que faz gemer todas as criaturas, a serenidade, que resplandecia no Seu semblante, comovia e assombrava ao mesmo tempo.

Os Apóstolos, e muitos discípulos, congregados miraculosamente para a despedida da Rainha dos Anjos, mal podiam reprimir as lágrimas de saudade, arrancadas por esta separação. De pé, ao lado do leito, contemplavam silenciosos e imóveis, a face da Virgem, notando consigo mesmos quanto era semelhante nas feições a Jesus Cristo.[3]

A posição, em que estava o Corpo da Senhora, com a cabeça inclinada, como Seu Filho, durante a última Ceia, ainda tornava mais notável  a aparência.

Depois de comungar interiormente com a Sua Alma, a Senhora, correndo a vista pelos fiéis que  perseveravam com tanto valor no seu afeto a Cristo, e que daí a pouco o haviam de provar ainda mais, desprezando tudo, consolou-os com meigas palavras e reflexões ditadas por uma sabedoria sublime; e estendendo as mãos sobre os discípulos de Seu Filho, que deixava órfãos do seu amor de Mãe, elevou os olhos aos Céus, que se abriram, descendo Jesus Cristo em uma nuvem luminosa para A receber nos confins da eternidade.

O seu rosto corou, então, o íntimo ardor da sua infinita adoração, e despindo o invólucro terrestre, o espírito jubiloso subiu ao Trono de Deus, caindo o seu Corpo em sono suave, e repousando com 61, ou 66 anos de idade, no ano 798 de Roma, e 45 da era vulgar.

Os discípulos conduziram o Corpo, rescendente de aromas, e coberto de um véu riquíssimo, ao túmulo, transformado em verdadeiro berço de flores; e Herotheu, pronunciando o panegirico da Rainha dos Anjos, parecia inspirado, e fora de si. As lágrimas do auditório manavam rápidas como as palavras de fogo do orador. Depois de velarem três, ou quatro dias, orando sobre o sepulcro, os Apóstolos despediram-se partindo cada um em busca da coroa do seu martírio e da sua glória. Mas antes, e quando ainda estavam reunidos, São Tomé, que era o último que tinha chegado e que não assistira ao trânsito da Senhora, desejoso de beijar pela derradeira vez as mãos à Mãe do Redentor, tanto pediu, e tantas súplicas amiudou, que vencidos cederam todos aos seus prantos, e levantaram a tampa, que cerrava o jazigo.

Apenas o lugar se patenteou à vista, recuaram pasmados!

O Corpo não estava lá, e somente se encontraram murchas as flores, em que o haviam pousado, e fragrante de celeste perfume o alvo sudário de linho, em que fora envolto.

É a razão, porque nenhum reino, ou cidade se louvou nunca de possuir a menor relíquia do Corpo da Virgem. A Tradição da Igreja é constante em nos afirmar, que o Céu o chamou todo a si para O glorificar!” (“Fastos da Igreja”, Escritos Religiosos – Vida de Jesus Cristo, Vol. IV, pp. 84-91; cfr. Obras Completas de Luiz Augusto Rebello da Silva, Tom. XXII, Empreza da Historia de Portugal Sociedade Editora – Livraria Moderna, Lisboa, 1907).                                                                                                                



[1]   Div. Gr. Tom. V. P. II. p. 380; item conc. Tom. III, p. 589, apud Alb. Butler. Tom. I, p. 369.
[2]   Dionys. Areopag. Epist. Ad Paulum apud Ferreolum de Maria, Macedo – Eva e Ave, Part. II, Cap. LXIV, p. 446.
[3]   Jesus inclinava um pouco a cabeça, o que O fazia parecer mais baixo, e no rosto, sobretudo na parte inferior dele, parecia-se muito com Sua Mãe. Niceph. Hist. Eccl. T. I, p. 125.


Redes Sociais

Continue Acessando

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...