Blog Católico, para os Católicos

"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

“Se eu não fosse Católico…”


A Sé de Pedro
Se eu não fosse Católico e estivesse procurando a verdadeira Igreja no mundo de hoje, eu iria em busca da única Igreja que não se dá muito bem com o mundo. Em outras palavras, eu procuraria uma Igreja que o mundo odiasse. Minha razão para fazer isso seria que, se Cristo ainda está presente em qualquer uma das igrejas do mundo de hoje, Ele ainda deve ser odiado como o era quando estava na terra, vivendo na carne.
Dom Fulton Sheen
Dom Fulton Sheen
Se você tiver que encontrar Cristo hoje, então procure uma Igreja que não se dá bem com o mundo. Procure por uma Igreja que é odiada pelo mundo como Cristo foi odiado pelo mundo. Procure pela Igreja que é acusada de estar desatualizada com os tempos modernos, como Nosso Senhor foi acusado de ser ignorante e nunca ter aprendido. Procure pela Igreja que os homens de hoje zombam e acusam de ser socialmente inferior, assim como zombaram de Nosso Senhor porque Ele veio de Nazaré. Procure pela Igreja, que é acusada de estar com o diabo, assim como Nosso Senhor foi acusado de estar possuído por Belzebu, príncipe dos demônios .
Procure a Igreja que em tempos de intolerância (contra a sã doutrina,) os homens dizem que deve ser destruída em nome de Deus, do mesmo modo que os que crucificaram Cristo julgavam estar prestando serviço a Deus.
Procure a Igreja que o mundo rejeita porque ela se proclama infalível, pois foi pela mesma razão que Pilatos rejeitou Cristo: por Ele ter se proclamado a si mesmo A VERDADE. Procure a Igreja que é rejeitada pelo mundo assim como Nosso Senhor foi rejeitado pelos homens. Procure a Igreja que em meio às confusões de opiniões conflitantes, seus membros a amam do mesmo modo como amam a Cristo e respeitem a sua voz como a voz do seu Fundador.
E então você começará a suspeitar que se essa Igreja é impopular com o espírito do mundo é porque ela não pertence a esse mundo e uma vez que pertence a outro mundo, ela será infinitamente amada e infinitamente odiada como foi o próprio Cristo. Pois só aquilo que é de origem divina pode ser infinitamente odiado e infinitamente amado. Portanto, essa Igreja é divina .”
Arcebispo Fulton J. Sheen, Radio Replies, Vol. 1, p IX, Rumble & Carty, Tan Publishing - Tradução: Gercione Lima

domingo, 1 de dezembro de 2013

TROPEÇOS DE UM EXORCISTA



Um padre, experiente e muito amigo, confessou-me recentemente: vêm aumentando os casos de pessoas que o procuram devido a sinais de infestação demoníaca.
Ao mesmo tempo, após um longo inverno racionalista – quando anjos e demônios foram reduzidos a meras manifestações mitológicas ou lucrativos espetáculos de cinema – algumas editoras se animam a publicar estudos sobre exorcismo e libertação espiritual.
Pena que existe o risco de cair de Caribde em Cila, trocando o extremo do ceticismo racionalista pelo extremo do demonismo alucinatório. Aliás, todos sabem que o demônio gosta de duas atitudes de nossa parte: negar a sua existência ou vê-lo presente em tudo, mesmo onde ele não está.
Mas o que me move, neste artigo, é o livro “Cura do mal e libertação do maligno”, de Elias Vella, OFM Conv [São Paulo, Ed. Canção Nova-Palavra e Prece, 2008]. Já em terceira edição, o livro adota uma linguagem simples, com intenção de atingir o público mais amplo, evitando um discurso mais estrito do ponto de vista teológico. Entre outros temas, trata do sofrimento humano e do pecado, das doenças interiores e sua cura, da ação demoníaca e do combate espiritual.
Sem discutir sua “teologia” – e ela é discutível! -, não posso ficar indiferente ao lamentável equívoco cometido pelo Autor em duas diferentes passagens da obra. Vou citá-las literalmente:
1) “Padre René Laurentin escreveu um livro belíssimo sobre Marta Robin com o título La Passion de Madame R. É um estudo teológico científico sobre essa mulher que era possuída pelo demônio, mas este ser possuída era um degrau na direção de uma santidade mais elevada. E, de fato, ela, apesar de todos os exorcismos, é morta, possuída pelo demônio.” (Cf. p. 147.)
2) “O perito sobre este tema [possessão de uma pessoa santa] é René Laurentin, teólogo especializado em mariologia. Escreveu muito sobre este tema e provavelmente o livro mais clássico (que já mencionei) é La Passion de Madame R., em que explica e aprofunda o estudo sobre a mística Marta Robin. Era uma mulher santa, mas possuída pelo diabo, e Laurentin concluiu que essa possessão era uma cruz que o Senhor permitia praticamente para conduzi-la ao cume da mística.” (Cf. p. 179.)
Pois o Autor, ainda que exorcista e professor de Teologia na Ilha de Malta, foi muito mal informado. Para encurtar a conversa, Madame R. e Marthe Robin são duas pessoas diferentes. Marthe Robin, a co-fundadora dos Foyers de Charité, cujo processo de beatificação prossegue em Roma, nasceu em 1902 e faleceu em fevereiro de 1981. Madame R. (inicial de seu nome Rolande) morreria mais tarde, em janeiro de 2000, e foi o seu “Diário” que Laurentin publicou e analisou. Podemos encontrar traços comuns na experiência das duas místicas, como a saúde precária, os longos períodos sem qualquer alimentação (mais de 50 anos, no caso de Marthe) e as agressões físicas por parte do demônio. O Pe. Bernard Peyrous, postulador da causa de Marthe e um de seus biógrafos, recorda que tal tipo de agressão é “clássico em certos místicos”, como Padre Pio della Pietrelcina, o Cura d’Ars e Madre Yvonne-Aimée de Malestroit.
Marthe Robin recebia as pessoas para aconselhamento, entre as quais o filósofo Jean Guitton, da Academia Francesa, e o famoso teólogo dominicano Garrigou-Lagrange. Madame R. atendia pelo telefone “SOS Libertação” [SOS Délivrance]. Nos dois casos, há numerosos depoimentos de pessoas que testemunham as graças recebidas através desse aconselhamento.
Enfim, como tradutor de dois livros sobre Marthe Robin [A Vida Silenciosa de Marthe Robin, Foyer de Mendes, RJ, e Em Caminho para Deus, Ed. Cidade Nova, São Paulo], e depois de ter lido mais de uma dezena de livros sobre ela, posso afirmar que o termo “possessão” nem de longe pode ser atribuído à sua experiência mística.
Com todo o respeito, um exorcista que chega a confundir duas pessoas de carne e osso, como Marthe e Madame R., não me parece o mais indicado para o discernimento dos espíritos desencarnados...
1 Antônio Carlos Santini Licenciado em letras – Português e Francês pela FFCL da Fundação Rosemar Pimentel, Barra do Piraí, RJ. Professor de Artes e Ciências Humanas. É membro da Comunidade Católica Nova Aliança, evangelizador, compositor, autor de vários livros de catequese e poesia, tradutor de francês, italiano e espanhol, colabora em vários jornais e revistas.


sábado, 23 de novembro de 2013

Beato João Paulo II: O Homem das Dores e dos Milagres.


Depois do atentado de 1981, soube que lhe foi fornecido sangue infectado por um vírus não descoberto. O Papa teve que lutar durante meses contra o vírus. Eu tentava me lembrar se o Papa parecia sofrer, especialmente nas últimas semanas e nos últimos dias, mas eu sabia que era um esforço sem esperança. Karol Wojtyla nunca deixava transparecer o sofrimento. Eu me lembro de uma recepção na Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO). O Papa proferiu um discurso, depois desceu as escadas e caiu no chão. Parecia mal, seu Secretário, D. Stanislaw Dziwisz queria levá-lo imediatamente ao hospital, mas o Papa se recusou. Ele insistiu em cumprimentar pessoalmente todos os aproximadamente duzentos Delegados da FAO, apertar a mão de cada um. Somente depois deixou que o levassem ao hospital. E se revelou que ele dera a mão aos Delegados com um braço quebrado. O Papa João Paulo II não era homem inclinado a reclamar.

“Esse Karol Wojtyla sofredor se tornou uma potência. Desde a operação no intestino, em 1992, dizem que sempre tem febre, e desde a operação nos quadris, em abril de 1994, parece que nunca mais ficou sem dores, ele não consegue sentar, nem andar, nem ficar em pé sem sentir dores”.

“Eu sei”, disse eu, “ninguém pode dizer, mas todos sabem que a operação nos quadris foi um erro, alguém cometeu um engano aí”.

“Mas exatamente esse Papa sofredor e lutador”, completou meu interlocutor; “se tornou uma incrível potência. Pense! Hoje as coisas acontecem como antigamente seria inconcebível. Mesmo a Ortodoxia, que nos odeia há quase mil anos, de repente quer se reconciliar com Roma, os Chefes de Estado aparecem no Vaticano, novamente temos a juventude ao nosso lado. Pela primeira vez desde séculos somos alguém no cenário político mundial, e isso graças a um homem e seu sofrimento, porque ele é tão infinitamente convincente, um lutador que mostra algo único: que a Religião pode fazer bem, que Papas podem fazer mais do que se deixar carregar numa cadeira na Basílica de São Pedro, que podem criar paz sem possuir um exército. Os soviéticos passaram por isso”...

… A mídia, naturalmente eu também tinha rido dele. Tinha rido de sua tentativa de alcançar os jovens. Parecia uma piada sem graça que um homem velho quisesse ser aceito em todo o mundo por milhões de jovens, e com algo tão antigo como a mensagem da Igreja Católica. Nem mesmo a  indústria do entretenimento consegue alimentar os jovens do mundo com modas constantemente novas. A moda muda a cada semana, os brinquedos eletrônicos já parecem antigos quando chegam ao mercado, e esse homem da Polônia queria vender a mensagem com dois mil anos de idade de um filho de marceneiro de Nazaré? E quando conseguiu, o mundo não compreendeu que vários milhões de jovens não só iam à Love Parade, mas também peregrinavam para o Papa. Cada um que esteve presente naqueles anos sabe por que Karol Wojtyla conseguiu conquistar os jovens, entusiasmá-los. Ele levava a sério o que dizia. Ele não fazia tudo aquilo para ganhar dinheiro ou ser reeleito; ele não queria ensinar as pessoas. Ele acreditava no que dizia e estava pronto a dar tudo por isso. E ele também sabia que muitos no Vaticano lhe davam as costas exatamente quando era necessário.

Nunca tinha visto isso de maneira tão drástica como no dia 8 de novembro de 1999. A delegação do Vaticano chegou da Índia e todos tinham se intoxicado com a comida na nunciatura em Nova Délhi. Os Cardeais sofriam de dores de barriga, arrepios, febre alta e depois do pouso em Tiflis, na Geórgia, todos fugiram o mais rápido possível para o hotel ou para a nunciatura, para quartos e camas confortáveis. Eles deixaram Karol Wojtyla voar sozinho para a antiquíssima catedral em Mtskheta para um encontro com os Bispos da Geórgia, o Papa que estava igualmente doente, que tremia tanto que não conseguia segurar uma vela. Na época eu temia que ele perdesse a consciência.

Às vezes eu me envergonho por todos esses anos, me envergonho de tê-lo olhado durante duas décadas, de não tê-lo perdido de vista, mesmo quando ele simplesmente não podia mais. Ele não só o suportou como ele assim o quis. Essa era sua mensagem. Teria sido tão fácil para ele dizer simplesmente: agora chega! Eu não posso mais. Eu fico no Vaticano e não quero mais essas centenas de câmeras, mas ele não o fez. Ele queria até o fim ser um pescador de homens, como Pedro. E para mim é muito difícil acreditar que Deus não existe quando me lembro como o vento folheou a Bíblia sobre seu caixão.

Como ele disse no dia 29 de maio de 1994: “Quando estou diante dos poderosos do mundo...” e já essa parte da frase era incrível. Todos os poderosos do mundo, Mikhail Gorbachev, Ronald Reagan e Helmut Kohl e muitos outros já tinham reconhecido que ele era um dos homens mais influentes do mundo. Mas ele mesmo não via a coisa assim, ele não se contava entre os homens poderosos do mundo, ele se via diante dos poderosos como um mendigo. Então, na época, ele disse: “Quando estou diante dos poderosos do mundo, então o que posso dizer a não ser falar sobre o sofrimento? Eu quero lhes dizer: compreendam por que o Papa precisa ir novamente ao hospital, porque ele precisa sofrer, compreendam, pensem sobre isso”. A debilidade do homem Karol Wojtyla tornou-se uma parte importante de sua mensagem, ele parecia ser um montezinho de miséria, mas acompanhado por um Deus todo poderoso. “O Papa escreveu quatorze Encíclicas, e uma, a mais importante e última, ele não escreveu, viveu-a. Seu sofrimento se tornou parte de sua mensagem”. Assim descreveu o então porta-voz do Papa Joaquín Navarro-Valls depois da morte de Karol Wojtyla.

E agora, aparentemente, esse Papa estava novamente doente, tão doente que examinavam em segredo seu sangue. Será que Deus deixava esse homem sofrer para mostrar que o homem era seu instrumento e falava em Seu Nome? Era nisso que o Papa acreditava...

“Quem esquecerá sua última aparição na janela de seus aposentos? Esforça-se para falar, mas não lhe sai a voz. Com um último esforço, então, lança o Sinal da Cruz sobre a multidão reunida na praça e abençoa a todos. Retira-se, mais curvado ainda, como que pedindo desculpas por não poder falar aos seus amados filhos. Mas não se entrega. Precisa deixar sua última mensagem. É seu secretário particular por quase 40 anos que nos conta:

            - Ao deixar a janela, escreve em um papel pela última vez: Totus Tuus.[1][2]

Totus Tuus


Fonte: Andreas Englisch, “O Papa dos Milagres – João Paulo II”, Cap. “O Poder do Papa Sofredor”, pp. 74-82; Universo dos Livros Editora Ltda, São Paulo, 2011.




[1]   Totus Tuus = “Todo Teu”. Esse último Totus Tuus foi escrito a Maria, a Jesus e a todos nós. Expressando que o Papa tinha dado tudo o que poderia ser dado.
[2]   Extraído do Prefácio, p. 11.

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