Blog Católico, para os Católicos

"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

quinta-feira, 7 de maio de 2015

O BEBÊ E A ÁGUA DO BANHO




Tem havido ultimamente insultos à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, que me atingem também, pois dela faço parte por ser Bispo católico, pela graça de Deus, em plena comunhão com a Santa Igreja. A CNBB é o conjunto dos Bispos do Brasil que, exercem conjuntamente certas funções pastorais em favor dos fiéis do seu território (CIC cân. 447).  Conforme explicou São João Paulo II na Carta Apostólica Apostolos suos, é “muito conveniente que, em todo o mundo, os Bispos da mesma nação ou região se reúnam periodicamente em assembleia, para que, da comunicação de pareceres e experiências, e da troca de opiniões, resulte uma santa colaboração de esforços para bem comum das Igrejas”. “O Espírito Santo vos constituiu Bispos para pastorear a Igreja de Deus, que ele adquiriu com o seu próprio sangue” (At 20, 28).
           
Quero deixar bem claro que, por ser Bispo da Santa Igreja Católica, dou minha adesão a tudo o que ensina o seu Magistério, nas suas diferentes formas e na proporção da exigência de suas expressões doutrinárias, sem restrições mentais ou subterfúgios.

Em matéria de política ou questões sociais, minha posição é a da Doutrina Social da Igreja. Por isso, defendo a subordinação da ordem social à ordem moral estabelecida por Deus, a dignidade da pessoa humana, a busca do bem comum, a atenção especial aos pobres, a rejeição do socialismo e do marxismo, nas suas diferentes formas, o direito de propriedade, o princípio da subsidiariedade e os legítimos direitos humanos, principalmente a defesa da vida desde a concepção até o seu término natural.

Ademais, ainda na questão agrária, compartilho com a posição de São João Paulo II quando ensinou: “É necessário recordar a doutrina tradicional de que a posse da terra ‘é ilegítima quando não é valorizada ou quando serve para impedir o trabalho dos outros, visando somente obter um ganho que não provém da expansão global do trabalho humano e da riqueza social, mas antes de sua repressão, da exploração ilícita, da especulação e da ruptura da solidariedade no mundo do trabalho’ (Centesimus Annus 43). Mas recordo, igualmente, as palavras do meu predecessor Leão XIII quando ensina que ‘nem a justiça, nem o bem comum consentem danificar alguém ou invadir a sua propriedade sob nenhum pretexto’ (Rerum Novarum, 30). A Igreja não pode estimular, inspirar ou apoiar as iniciativas ou movimentos de ocupação de terras, quer por invasões pelo uso da força, quer pela penetração sorrateira das propriedades agrícolas” (Discurso aos Bispos do Regional Sul 1 da CNBB, na sua visita ad limina, 21março de 1995).

Assim, quem quer que defenda partidos ou grupos que pregam a revolução social, a luta de classes, o igualitarismo total, a negação do direito de propriedade e a ideologia de gênero, não me representa nem pode falar em meu nome nem em nome da Igreja.

Ademais, conforme ensina a Igreja, como Bispo, quero ter sempre uma “prudente solicitude pelo bem comum” (Laborem exercens, 20), “não estou ligado a qualquer sistema político determinado” (Gaudium et Spes, 76), não me intrometo no trabalho político, “por este não ser competência imediata da Igreja”, “nem me identifico com os interesses de partido algum”, ensinando, porém, os grandes critérios e os valores irrevogáveis, orientando as consciências e oferecendo uma opção de vida que vai além do âmbito político” (Bento XVI, Aparecida, 13-5-2007, Disc. Inaug. do CELAM).

Defendo a mesma posição do Catecismo da Igreja Católica quando diz: “Não cabe aos pastores da Igreja intervir diretamente na construção política e na organização da vida social. Essa tarefa faz parte da vocação dos fiéis leigos, que agem por própria iniciativa com seus concidadãos” (n. 2442).

Compartilho também com a posição do Papa Bento XVI, hoje emérito, quando ensinou que “a Igreja não tem soluções técnicas para oferecer e não pretende de modo algum imiscuir-se na política dos Estados, mas tem uma missão ao serviço da verdade para cumprir, em todo o tempo...” (Caritas in Veritate, 9).

É claro que, na crise atual, há quem não siga nessa matéria o critério do Magistério da Igreja. Mas são vozes fora do caminho, mesmo que muitas. Não se pode apoiá-las.

Se há pessoas na Igreja que não seguem seus ensinamentos, temos a obrigação de não segui-las e, se tivermos ciência e competência para tal, de respeitosamente manifestar isso aos Pastores da Igreja (CIC cânon 212, §3), ressalvando a reverência que lhes é devida.  

É nesse último ponto que pecam gravemente alguns que se intitulam católicos. Na ânsia de defender coisas corretas, perdem o respeito devido às autoridades da Igreja e as desprestigiam, para alegria dos inimigos dela.

Junto com o combate ao erro, até querendo fazer o bem, acabam destruindo a autoridade, com ofensas, exageros, meias verdades e até mentiras, caindo assim em outro erro. A meia verdade pode ser pior do que a mentira deslavada.

Não quero dizer que não existam os erros que combatem. O que é preciso é evitar as generalizações, ampliações e atribuições indevidas e injustas, onde acontecem faltas ou excessos. A justiça e a caridade, mesmo no combate, são imprescindíveis. Qualquer pessoa não católica que lesse certos sites e postagens de alguns católicos críticos, injuriando os Bispos e autoridades da Igreja, certamente iria raciocinar: “é impossível que tais pessoas sejam católicas, pois não se fala assim da própria família!”.

Como diz o provérbio: “Não se pode jogar fora o bebê, junto com a água suja do banho!”.





 Dom Fernando Arêas Rifan
Bispo da Administração Apostólica Pessoal

São João Maria Vianney





segunda-feira, 4 de maio de 2015

As mulheres na Idade Média

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Recentemente, fui surpreendido por uma afirmação que não chamaria minha atenção caso se limitasse a representar apenas a opinião de uma pessoa isolada. Chama atenção, justamente, por ser difundida como suposta opinião crítica a respeito da condição das mulheres na Idade Média: “na idade média não tinham direito a voto, não tinham direito de estudo, não tinham direito de se expressar através das palavras, eram destinadas a servirem as suas famílias, apenas.”

Pensando nisso, resolvi fazer uma série de posts acerca das notáveis mulheres da Idade Média. Antes, gostaria de responder o seguinte:

1) Nem homem nem mulher tinham direito a voto na Idade Média. A ideia de “sufrágio universal” só apareceu muito tardiamente na história do Ocidente. Para ser exato, a primeira nação a adotar foi a Primeira República Francesa em 1792 (lembrando que o símbolo era uma Mulher imortalizada na obra de Delacroix). No entanto, para surpresa de muitos, a Nova Zelândia em 1893 se tornou a primeira nação do mundo a conceder o sufrágio universal para mulheres e homens. A ordem política medieval não é fixa, pois o período durou mais ou menos mil anos. Para quem se interessar, há grandes estudos sobre isso, recomendo, embora não seja uma leitura tão fácil, o livro História das Ideias Políticas, volumes II e III, de Eric Voegelin. Sobre a importância política das mulheres, recomendo o livro “The Fourth Estate: A History of Women in the Middle Ages” da importante porém ainda pouco conhecida aqui no Brasil historiadora Shulamith Shahar.

2) A ideia de que mulheres não podiam se expressar através das palavras pode ser facilmente refutada com os fatos. Basta SÓ lembrarmos da atividade intelectual de uma única mulher notável como Hildegarda de Bingen (1098-1179), autora de obras filosóficas (trilogia Liber scivias Domini, Liber vitae meritorum e Liber divinorum operum), ciências naturais (escreveu uma grande chamada: Liber subtilitatum diversarum naturarum creaturarum) e uma quantidade significativa de músicas e poesias por ela publicada (eu tenho obras completas em CD, a Ordo virtutum é a mais famosa).

3) Para refutar a ideia de que mulheres eram destinadas a servir apenas às suas famílias numa submissa vida doméstica, citarei também um exemplo: a Duquesa Leonor da Aquitânia. Ela foi, sem dúvida, uma das mulheres mais poderosas da Idade Média. Para um outro relato a respeito da vida cotidiana das mulheres na Idade Média, recomendo o livro “Women’s Lives in Medieval Europe: A Sourcebook” da medievalista Emilie Amt, publicado em 2009. O livro traz uma série de fontes primarias sobre a influência das mulheres na sociedade.

Quando o assunto é Idade Média algumas pessoas levantam da cadeira para “esbravejar verdades”. Todos têm um palpite sobre a terrível “Idade das Trevas” (bocejos). Agora, quando o assunto é Idade Média e Mulher, prepare-se, será bem provável arrumar um inimigo fundamentalista defendendo a “opressão machista” medieval. Muita informação acerca da Idade Média chegou mediante os críticos e não os estudiosos sérios. Levante a mão quantos medievalistas você realmente conhece.

O Iluminismo francês foi uma verdadeira máquina de propaganda anticlerical — sem contar a ajudinha da Reforma protestante. Tudo o que era relacionado à Igreja, portanto a Idade Média, tornou-se motivo de chacota: sinal de ignorância, medo e escuridão. Nada ficaria em pé até que o último rei fosse enforcado nas tripas do último padre. Arroga-se ao Iluminismo francês ter sido o primeiro movimento intelectual a produzir uma Enciclopédia: “Encyclopédie, ou dictionnaire raisonné des sciences, des arts et des métiers”. Na verdade, já haviam sido produzidas enciclopédias antes, sobretudo na Idade Média.

No século XII há uma profusão delas. Honório de Autun (1080–1154) escreveu a “Imago mundi”, uma verdadeira crônica da história universal. Arnold Saxon escreve a “De Rerum naturalium Floribus”. William de Auvergne publica “De universo creaturarum” em 1231. Entre tantas outras.

Mas é de uma mulher que precisamos lembrar: a abadessa Herrade de Landsberg. Nascida em 1167, na França, foi responsável pela primeira enciclopédia ilustrada do século XII, intitulada Jardim das Delícias Terrenas (Hortus Deliciarum), reuniu estudos sobre teologia, astronomia, agricultura, artes, história e direitos. O livro servia para instrução de outras freiras do convento. Sua obra é de 1169 e 1175. Além disso, dedicou-se à poesia e ao ensino. São atribuídas a ela as ilustrações de sua enciclopédia. Herrade Landsberg figura o medalhão na fachada da Biblioteca Nacional e da Universidade de Strasbourg. Quanta opressão essas mulheres sofriam! Só comparada com opressão da nossa ignorância.

Para quem realmente deseja conhecer o papel das mulheres na Idade Média, e conhecer por meio da obra de uma verdadeira ESPECIALISTA no assunto “mulheres na Idade Média”, e não especialista em preconceituosas generalidades sobre Idade Média, recomendo o livro da Régine Pernoud “As mulheres no tempo das Catedrais”. Há outros sobre as mulheres: “Aliénor d’Aquitaine”, “Jeanne d’Arc”, “Hildegarde de Bingen : conscience inspirée du XIIe siècle”, “Visages de femmes au Moyen âge” etc.

Fonte: Francisco Razzo


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