Blog Católico, para os Católicos

"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

quinta-feira, 4 de junho de 2015

As Inesgotáveis Riquezas do Sagrado Coração de Jesus (Ensaio em Fase de Conclusão) 6

 

Labaredas do Sagrado Coração de Jesus
ao longo dos Séculos



Santa Gertrudes,
Apóstola do Sagrado Coração de Jesus


Lemos na vida de Santa Gertrudes1, que um dia foi arrebatada em altíssima contemplação, na qual lhe apareceu São João Evangelista. E perguntou-lhe a Santa, porque razão sendo ele o Discípulo da Caridade, a quem coube a fortuna de reclinar a cabeça sobre o peito de Jesus na última Ceia, e de sentir os movimentos daquele Coração, não escrevera no seu Evangelho uma palavra, ao menos, desse bendito Coração, para edificação dos fiéis; o Santo Evangelista respondeu-lhe com estas memoráveis palavras:

Eu devia escrever para a Igreja nascente a Palavra do Verbo Divino Incriado, mas Deus se tinha reservado revelar nos últimos tempos do mundo a suavidade e o amor ardente desse Coração, e assim acender a Caridade quase apagada nos corações dos mortais.

Somos chegados aos tempos, de que fala o Discípulo predileto. O fogo da Caridade está apagado no coração de muitos cristãos. Como se poderá tornar a acender? Por meio desta santa devoção. Experimente vós também; e haveis de confessar esta verdade”.2

Do Segundo Livro das Revelações
de Nosso Senhor Jesus Cristo a Santa Gertrudes3

No Domingo seguinte, da Quinquagésima4, durante a Missa, Vós estimulastes e aumentastes os desejos de minha alma, para que ela quisesse favores mais sublimes que tínheis intenção de lhe conceder. Foi especialmente com estas duas palavras do Responsório: “Bendizendo, eu te bendirei”5, e o versículo do nono Responsório: “Darei esta terra a ti e à tua raça”6. Então, com a Vossa venerável mão em Vosso Peito Sagrado, mostrastes onde se encontram essas regiões prometidas por Vossa infinita liberalidade.

Ó terra bem-aventurada, que encheis de felicidade todos os que em Vós habitam! Campo de delícias, da qual a menor partícula pode satisfazer abundantemente a fome de todos os eleitos e dar ao coração humano tudo o que lhe pode ser doce e agradável!

Eu considerava, com atenção talvez insuficiente, mas ao menos tanto quanto podia, esse espetáculo tão digno de atrair meu olhar. Então, apareceu-me a Bondade e a Humanidade de Deus Nosso Salvador, não por causa das obras de justiça pelas quais minha indignidade tivesse podido merecer esse favor, mas devido à Sua inefável misericórdia, que me justificava pela regeneração adotiva7 e me preparava para a união mais íntima convosco, ó meu Deus! União, em verdade, espantosa e temível, digna de admiração, celeste e inestimável!

Ó meu Deus! Em virtude de que méritos de minha parte e por que misterioso juízo, recebi tão grande favor? Certamente, o amor que esquece a dignidade do próprio sangue e se mostra cheio de condescendência, o amor que se precipita sem esperar a reflexão e o julgamento da razão, Vos inebriou até à loucura, se ouso assim falar, ó meu dulcíssimo Senhor, para que chegásseis a unir duas coisas tão diferentes. Ou melhor, para empregar linguagem mais respeitosa para com Vossa Majestade, essa suave bondade que é inata em Vós e faz parte de Vossa essência, foi abalada pelo contato da terna caridade que operou a salvação do gênero humano e em virtude da qual Vós não apenas amais, mas Sois o próprio Amor.

Será, pois, essa caridade, que Vos terá levado a tirar de Sua extrema indignidade uma miserável criatura, desprezível por sua vida e seus maus hábitos, para elevá-la à participação de Vossa real e divina grandeza? Vos quisestes com isto aumentar a confiança de todos os membros da Igreja, e é o que quero e desejo para todo o cristão, esperando que ninguém fará, como eu, tão mau uso dos dons de Deus nem dará tanto escândalo ao próximo.

Mas como as coisas invisíveis de Deus podem ser percebidas pela inteligência por meio de imagens sensíveis, pareceu-me que jorravam gotas de suor da parte do Peito Sagrado do Senhor em que Ele havia recebido minha alma, sob a forma de cera amolecida ao fogo, no dia da Purificação. Era como se a substância dessa cera tivesse sido inteiramente liquefeita pelo excesso do calor encerrado no Seio de meu Deus. O Divino Coração absorvia essas gotas com inefável e incompreensível virtude. Parecia que o amor, expansivo por natureza, encerrara sua força vitoriosa nas profundidades do Sagrado Coração.

Ó Solstício Eterno, Moradia segura que contém todas as delícias, Paraíso das alegrias eternas, Fonte de onde jorram indescritíveis deleites. Vós atraís, com abundantes flores de suave primavera; encantais, com as suaves notas de uma harmonia toda espiritual; reanimais, com uma brisa perfumada de vivificantes aromas; inebriais, com a doçura envolvente de sabores místicos; transformais, com as maravilhosas carícias de Vossos santos abraços.

Oh, três vezes feliz, quatro vezes bem-aventurado e, se posso dizer, mil vezes santo aquele que, dirigido pela graça, merece aproximar-se desse lugar abençoado com coração puro, mãos inocentes e lábios sem mancha! Como descrever o que ele vê, ouve, respira, prova e sente? Por que minha língua impotente se esforçaria por balbuciar algo disso? É verdade que, por efeito da Bondade divina, fui admitida a gozar desses favores. Mas, envolvida pelo espesso manto de minhas faltas e negligências, só podia recebê-los muito imperfeitamente, porque toda a ciência reunida dos Anjos e dos homens não poderia produzir uma só palavra que exprimisse, ainda que pouco, a supereminente grandeza de tão sublime união”.

Dos Exercícios Espirituais de Santa Gertrudes8

Exercício Primeiro: … Eu Vos saúdo, ó Santo Anjo de Deus, guarda de minha alma e de meu corpo. Pelo dulcíssimo Coração de Jesus Cristo, Filho de Deus, recebei-me sob a proteção de vossa fiel paternidade por amor Daquele que nos criou, e que no dia de meu Batismo me colocou sob a vossa guarda. Ajudai-me a atravessar sem manchar-me a torrente desta vida, até que seja admitida a contemplar convosco e como vós esta deleitável Face, esta Beleza cheia de delícias da Soberana Divindade, cuja vista excede infinitamente as mais doces felicidades (p. 116)... 

Conservai no santuário de Vosso Coração, tão cheio de bondade, ó meu dulcíssimo Jesus, a pureza de minha inocência batismal e o juramento de minha fé, a fim de que estejam abrigados sob a Vossa fiel proteção, e que eu possa apresentar-Vo-los, em sua integridade, na hora de minha morte. Imprimi sobre meu coração o selo de Vosso Coração, a fim de que eu viva segundo Vossa Vontade, e que depois deste exílio chegue a Vós, sem obstáculo e cumulada de alegria (p. 127)...

Exercício Segundo: … Ocultai-me na rocha inquebrantável de Vossa paternal proteção. Recolhei-me longe de tudo, na abertura do Vosso Coração Dulcíssimo, oh! O mais querido dos amados (p. 131)!...

Exercício Terceiro: … Qual é a Vossa grandeza, ó Rei dos reis, Senhor dos senhores! Todo o exército dos astros está às Vossas ordens, e é ao homem que prendestes o Vosso Coração (p. 143)... Fonte da Luz Eterna, Trindade Santa, ó Deus! Sustentai-me com Vosso Divino poder; governai-me com Vossa Divina Sabedoria; e por Vossa Divina Bondade tornai-me conforme ao Vosso Coração (p. 145)...

Exercício Quarto: … Nesse túmulo de amor envolvei-me na mortalha da Vossa preciosa Redenção; embalsamai-me com os preciosos perfumes da Vossa morte; colocai-me no Vosso Coração lanceado como num sepulcro de mármore do mais alto valor (p. 197)... Agora pois, ó amor! Ó meu Rei e meu Deus! Agora, ó meu Jesus, recebei-me sob a guarda do Vosso Divino Coração. Ali me unireis a Vós por Vosso amor, afim de que para Vós viva inteiramente (p. 202)...

Exercício Quinto: … Oh! Abri-me, como um asilo de salvação, Vosso Coração tão amante. Quanto ao meu, já não o possuo mais; sois Vós, ó meu caro Tesouro, quem o tomastes e o guardais em Vós (p. 217)... Bem-aventurada a alma que Vos tem cativo pelo seu inseparável amor! Feliz o coração que sente imprimir-se nele o beijo do Vosso Sagrado Coração, penhor de indissolúvel aliança, ó Deus amor! (p. 236)... Ó Deus amor, Vós me adotastes por Vossa filha: nutri-me segundo o Vosso Coração (pp. 237-238)...

Exercício Sexto: … Abri-me o tesouro de Vosso misericordioso Coração; nele é que reside o objeto dos meus desejos (p. 240)... Ó amor! Encarrega-te de responder por mim a Jesus, meu Deus, Verbo de vida. Comove em meu favor este Coração Divino, no qual o Teu Poder se mostra com tanto brilho (p. 242)... Eis que a minha alma se enfraquece e desmaia por causa do tédio desta vida, e desejo ardentemente morrer e estar convosco, para que possa oferecer-Vos os doces holocaustos de alegria, no Céu, entre as multidões bem-aventuradas que jubilam em Vosso louvor. Aí queimarei sobre o altar de ouro do Vosso Coração Divino o incenso que Vos é agradável; isto é, o de minha alma e do meu espírito imolados, com delícias, em troca de tantos favores extraordinários com os quais me consolastes, ó meu Pai e Mestre, em todas as tribulações e angústias (p. 250)... Assentado à direita do Pai na minha própria natureza humana, ó meu Amado, aí demonstrais o poder do Vosso amor. Aí é que me trazeis escrita sobre as Vossas mãos9, sobre os Vossos pés e em Vosso dulcíssimo Coração, para nunca esquecerdes a minha alma que resgatastes por preço tão elevado (p. 253)... Deus do meu coração, objeto querido dos meus votos! Pelo Vosso poder infinito admiti, desde esta hora, nas melodias que emanam de Vosso Divino Coração, uma nova nota para exprimir o meu indigno louvor, a minha impotente ação de graças. Que esta nova nota, encerrada no Vosso harmonioso canto, seja a homenagem que Vos devo em troca dos Vossos benefícios, por me haverdes criado, resgatado, eleito e retirado do mundo (pp. 261-262)... Mas desde já lanço no turíbulo de ouro do Vosso Coração Divino (no qual arderá em Vossa glória o suavíssimo perfume do eterno amor) o meu coração, qual mínimo grão de incenso, ardentemente desejando que, não obstante a sua indignidade, o sopro de Vosso Espírito o acenda com a Sua vida, consumindo-o unicamente em Vossa glória (p. 270)... Alegria e jubilo a Vós, neste Coração amantíssimo e fidelíssimo que para mim foi aberto pela lança, para que o meu coração aí pudesse entrar e nele repousar. Alegria e jubilo a Vós, neste dulcíssimo Coração, meu único refúgio em meu exílio; esse Coração tão cheio de terna solicitude para comigo, tão alterado em Seu amor por mim; que jamais repousará até que nEle me haja recebido para a eternidade (pp. 274-275)... Fazei-me sentir os efeitos desta bondade que se mostrou tão misericordiosa para comigo, quando, quando para o meu resgate, o Vosso dulcíssimo Coração foi partido de amor sobre a Cruz! (p. 293)...

Exercício Sétimo: … O seio de Vossa misericórdia, ó amável Jesus, tornar-se-á minha doce prisão; sentir-me-ei presa em Vosso Coração Divino (p. 302)... E tu, ó amor, tu te atacas até ao próprio Coração do meu Jesus, e com tanto vigor que, em sua dedicação por nós, sucumbe transpassado, e não é mais do que um coração aniquilado (p. 321)... Essa dedicação, digna de um Deus, ó amor, me abriu a entrada do terno Coração do meu Jesus. Ó Coração cheio de doçura! Ó Coração transbordando de compaixão! Ó Coração superabundante de Caridade! Ó Coração de onde destilam como o orvalho a suavidade e a misericórdia! Ó Coração, objeto da minha ternura, dignai-Vos absorver meu próprio coração em Vós mesmo. Vós que sois mais caro ao meu coração do que a Peroba mais preciosa, convidai-me ao festim da vida (p. 324)... Ó amor, tomai este Divino Coração, este turibulo onde arde tão suave incenso, esta hóstia tão nobre: oferecei-O por mim sobre o altar de ouro onde está selada a reconciliação do homem; oferecei-O para suprir o que dia a dia me faltou em todo o curso da minha vida, durante a qual fui tão estéril para Vós. Ó amor! Mergulhai minha alma nas ondas que rebentam deste Coração tão cheio de bondade; sepultai toda a multidão de minhas iniquidades e negligências nas profundezas de Sua Divina Misericórdia... Ó Coração mais amado do que todas as coisas, o clamor do meu próprio coração chega até Vós. Lembrai-Vos de mim; que a doçura de Vossa caridade dê coragem a este culpado coração (pp. 325-326)... Na hora da minha morte abri-me sem demora a porta do Vosso Coração tão cheio de bondade, e dignai-Vos fazer com que nada retarde a minha entrada no santuário secreto de Vosso Coração, de Vosso Amor, onde gozarei de Vós, onde Vos possuirei, ó Vós que Sois a alegria verdadeira do meu coração! Amém (p. 338)... Levai-me prontamente a unir-me a Vós, ó encanto eterno de minha alma, único amor de meu coração! Vós cujas feições são tão amáveis e cujo Coração tão terno, longe de Vós minha alma está exilada. Deus de meu coração, meu espírito entregou-se à dissipação: dignai recolhê-lo em Vós. Meu Bem-amado, pela pureza de intenção que reinou sempre em Vossos Santos pensamentos, pelo ardente amor de Vosso Coração transpassado pelo ferro, purificai todos os perversos pensamentos do meu coração culpado. Que Vossa amargurada Paixão seja para mim um amparo no momento da minha morte; que o Vosso coração despedaçado pelo amor torne-se a minha eterna morada; pois Sois amado por mim acima de toda a criatura (pp. 340-341)...

Santo Agostinho e Santo Ambrósio
doutrinando sobre
o Lado aberto de Cristo na Cruz

Este começo e crescimento (da Igreja) são ambos significados pelo Sangue e pela Água que brotaram do Lado aberto de Jesus Crucificado”.10 “Pois do lado de Cristo dormindo na Cruz nasceu o admirável Sacramento de toda a Igreja”.11 “Da mesma forma que Eva foi formada do lado de Adão adormecido, assim a Igreja nasceu do Coração transpassado de Cristo morto na Cruz”.12

O Doutor Angélico
comenta sobre o Sagrado Coração de Jesus

O Coração13 de Cristo designa a Sagrada Escritura, que dá a conhecer o Coração de Cristo. O Coração estava fechado antes da Paixão, pois a Escritura era obscura. Mas a Escritura foi aberta após a Paixão, pois os que a partir daí tem a compreensão dela consideram e discernem de que maneira as profecias devem ser interpretadas”.14

O Doctor Evangelicus
doutrina-nos sobre o
Sagrado Coração de Jesus

No reino glorioso do Céu não há um só Santo, que não houvesse sido devoto do Sagrado Coração. Este amor era tão ardente em São Francisco que o transformou num Serafim abrasado, e fê-lo digno de trazer em seu corpo, as Chagas de Jesus Cristo, Senhor nosso.

Este amor seráfico, para com o Divino Coração, é característico de Santo Antônio.

Deus mesmo acendeu as belas chamas do amor sobrenatural e divino no santuário do seu coração inocente e puro.

Fazer que jamais se apagassem, era a solicitude contínua, nutri-las e aumentá-las, o supremo desejo da sua pura alma. Para consegui-lo contemplava, de preferência a outros Mistérios, os do Nascimento de Jesus, da Dolorosa Paixão e Morte, e em particular, do Sacramento Augustíssimo do Altar.

Não se contentava, porém, com isso. Nos seus Sermões enaltecia as perfeições e celebrava os louvores do Sagrado Coração, a fim de abrasar de amor para com Ele todos os corações.

Mais ainda! As poucas obras de Santo Antônio, que chegaram até nós são provas irrefutáveis, de que se salientou, visivelmente, na devoção de Jesus, sob a terno culto do seu amabilíssimo Coração. A cada passo, exalam ativamente os perfumes deste amantíssimo Coração.

A alma piedosa, assim escreve ele, a alma piedosa encontrará no Coração de Jesus um delicioso retiro, um asilo seguro contra todas as tentações do mundo; no mais íntimo do Coração de Jesus, ela encontrará a paz, as consolações, a luz e inefáveis delícias. O Coração de Jesus é como que o princípio da vida sobrenatural, é como que o altar de ouro, onde, de noite e de dia um incenso odorífero se evola até aos Céus e perfumes suavíssimos embalsamam a terra.

A meditação dos sofrimentos exteriores de Jesus Cristo é santa e meritória, sem dúvida, mas, se queremos encontrar ouro puro, necessitamos de ir ao altar interior, ao Coração mesmo de Jesus, e ali estudar as riquezas do seu amor”.

Palavras belíssimas que só podiam sair de um coração angélico e seráfico, como o de Santo Antônio”15.

Em outro lugar, diz: “Assim como no ano há quatro estações: o Inverno, a Primavera, o Verão e o Outono, também na vida de Cristo houve o inverno da perseguição de Herodes, por causa da qual fugiu para o Egito; a primavera da pregação, e então apareceram as flores16, isto é, as promessas da vida eterna17, e a voz da rola, isto é, do Filho de Deus, se ouviu na nossa terra: Fazei penitência, pois que está próximo o Reino dos Céus18; o estio da Paixão, de que escreve Isaías: Meditou no seu espírito austero num dia de ardência19. Cristo, num dia de ardência, isto é, da Sua Paixão20, meditou no Seu Espírito austero, inflexível para suportar a Paixão, enquanto pendia na Cruz, como condenaria o Diabo, livraria o gênero humano do seu poder e infligiria aos pecadores obstinados a pena eterna. Isto dizia noutro lugar o mesmo Profeta: O dia da vingança está no Meu Coração21...22

São Bernardo de Claraval,
o Poeta do Sagrado Coração de Jesus.23

São Bernardo, esta alma tão terna e afetuosa para com Jesus Cristo, não podia deixar de ter devoção particular ao Coração de Jesus. Também ele nos deixou sobre este Coração adorável palavras tão belas, que não podemos furtar-nos ao prazer de citá-las: “Pois que, diz ele, chegamos ao Coração dulcíssimo de Jesus e é bom ficarmos Nele, não nos deixemos facilmente arrancar, porque Dele é que está escrito: Aqueles que de vós se separam, terão seu nome traçado na poeira, que um ligeiro sopro faz desaparecer.

Mas qual será a sorte dos que se aproximarem? Ensinai-nos Vós mesmo, ó bom Salvador. Àqueles que a Vós se chegavam dizeis: Regozijai-vos, porque vossos nomes estão escritos no Céu. Nós então nos aproximamos de Vós, a fim de nos rejubilarmos com a lembrança de vosso Coração. Oh! Quanto é bom, quanto é doce morrer neste Coração! Oh! Que rico tesouro é vosso Coração, ó Jesus! Darei tudo o que tenho, meus pensamentos e meus afetos, para O adquirir, lançando todas as minhas inquietações no Coração do meu Senhor Jesus, que me nutrirá e me assistirá em todas as minhas necessidades. Neste Templo, neste Santo dos santos, diante desta Arca do testamento, adorarei e louvarei o Nome do Senhor, dizendo com Davi: Achei meu coração para rogar a meu Deus. Eu também achei o Coração de meu Rei, de meu Irmão, de meu terno Amigo Jesus. E com este Coração, ouso dizê-lo, é meu, porque se Jesus Cristo é minha cabeça, como o que é de minha cabeça, não seria também meu? Da mesma sorte que os olhos da minha cabeça são verdadeiramente meus, assim este Coração espiritual é meu coração. Que felicidade para mim! Eu, pois, possuo um só Coração com Jesus. E não nos admiremos, pois São Lucas nos diz que os primeiros cristãos não tinham senão um coração. Tendo então achado vosso Coração que é também o meu, a Vós, amável Jesus que Sois meu Deus, humildemente rogarei. Permiti somente que minhas súplicas sejam admitidas nesse Santuário para serem ouvidas, ou antes, atraí-me todo para o vosso Coração. Ó Vós, que Sois o mais belo dos filhos dos homens, lavai-me cada vez mais de minhas iniquidades, a fim de que mereça habitar todos os dias de minha vida no vosso Coração. Vosso lado foi aberto para que possamos ter entrada livre em vosso Coração, e Nele habitarmos abrigados das agitações do mundo. Vosso Coração foi ferido, para que esta Chaga visível nos revelasse a Chaga invisível do amor. Quem então poderá não amar um Coração assim ferido? Quem poderá não pagar amor com amor?” Esta bela passagem mostra a evidência, quanto o santo abade de Claraval amava o Coração de Jesus. Sente-se que ele procura repetir muitas vezes a palavra Coração de Jesus, a fim de saborear-lhe toda a doçura, fazer penetrar mais profundamente na alma de seus piedosos ouvintes a terna devoção de que vivia cheio.

Madre Mariana de Jesus Torres,
a Mensageira Profética do Sagrado Coração de Jesus.


Chegada a hora de comungar, tão logo recebeu ela a Santa Hóstia viu a Jesus Cristo, nosso Bem, reclinado em seu Coração, mas todo Ele feito uma chaga, e de modo especial o seu Santíssimo Coração, repleto de pequenos mas pungentes espinhos que O atormentavam com extraordinária crueldade. Com inefável ternura, Ele derramava um dilúvio de lágrimas, acompanhado de ternos lamentos e suspiros.

Madre Mariana estreitou-O em seu coração, com aquela ternura e adoração que nesta santa alma abrasavam por seu Dono e Senhor, e num frêmito de doloroso amor disse:

'Bem meu, Amor querido e adorado de minha alma, se sois servido, dizei-me: por que causa, ou causas, sofreis tão cruéis e íntimos martírios? Não foram bastantes os que padecestes em Vossa amargurosíssima e dolorosíssima Paixão, na qual até o presente século não se fez referência a espinhos tão miúdos e em Vosso Coração? Os Santos Evangelistas só nos dizem de grossos e longos espinhos, com que Vos coroaram como Rei de irrisão com tanta ignomínia? Vós sabeis que no longo curso de minha vida, Vos hei seguido muito de perto em cada um dos passos de Vossa dolorosa Paixão, sofrendo conVosco à medida que me dáveis forças, e compartilhando as Vossas dores internas e externas. Agora vejo Vosso Divino Coração coalhado de pequenos espinhos, que Vos atormentam pertinazmente!'

Jesus Cristo olhou-a com amorosa ternura e lhe disse soltando um profundo suspiro:

'Ai, esposa querida! Ai! Este Coração tão ofendido por tantos espinhos cruéis e pequenos, como agora o vês, fica reservado para ser mostrado aos mortais por meio de uma alma religiosa de tua própria Família. Será depois de alguns séculos e quando ela for purificada com incríveis provações, que lhe enviarei por meio de suas próprias irmãs, dos Prelados e mesmo do público em geral. Oh! Quanto Me comprazo nela! Olha-a'.

E Madre Mariana viu entre suas filhas essa feliz mensageira de Deus, que em tempo extremamente calamitoso, na sua solidão, a sós com Deus, santificava-se sob seu único olhar. Era o desprezo de suas irmãs e de todos quantos com ela tratavam, permanecendo do seu lado, entretanto, Sacerdotes, tanto do Clero secular como do regular, os quais, com luz divina, penetrando no interior de sua alma, conhecerão as maravilhosas obras de Deus, que pródigo em Suas misericórdias, confia Seus segredos e árduas empresas àqueles que o mundo despreza e reputa vis e estultos, pois estes são os simples a quem Deus se comunica.

Madre Mariana humilhou-se e submissa deu graças a seu Amado pelo insigne benefício feito em sua Casa e Família.”

O Significado dos Espinhos Miúdos

Nosso Senhor Jesus Cristo prosseguiu:

Pois bem, estás vendo como estes pequenos espinhos Me pungem com crueldade. Faço-te saber que são eles as faltas graves e leves de Meus Sacerdotes, seculares e religiosos, e de Minhas almas religiosas, que tirarei do mundo para trazer aos claustros. Derramarei sobre elas uma chuva de graças espirituais, servindo-Me também de enfermidades graves e prolongadas a fim de torná-las semelhantes a Mim. Mas elas, ingratas e sem coração, queixar-se-ão de Minha amorosa Providência, considerar-Me-ão cruel para com elas, e, retirando-se de Mim com indiferença, deixar-Me-ão só.

O espírito dessas almas minguará como uma flor murcha e secará e tornar-se-á inadequado para dar aroma no jardim de Minha Mãe Imaculada para o qual foram chamadas. E cravarão com este ingrato proceder estes espinhos miúdos que ferem tão cruelmente Meu Coração, todo ele amor e carinho para as Minhas almas prediletas. Elas frustrarão ao mesmo tempo grandes desígnios que Eu possuía em relação a elas, ao prová-las daquela forma, porque a cruz e a tribulação são o patrimônio dos justos aqui na terra.

Inculca a tuas filhas atuais o amor à cruz e ao sacrifício, para que o possam ir transmitindo de geração em geração, tanto neste Meu querido Convento quanto na Ordem em geral, e também o amor à vocação religiosa e à observância regular, a caridade e o amor fraterno, bem como para com os pobres pecadores, e a fiel correspondência às inspirações da graça.

Tempos haverá em que a doutrina será moeda corrente entre sábios e ignorantes, nos Sacerdotes e nos religiosos, e mesmo entre as pessoas comuns do povo. Serão escritos muitos livros. Mas a prática das virtudes e dessas doutrinas se encontrará apenas em almas contadas: esta será a causa de os Santos se tornarem raros, e precisamente por isso os Meus Sacerdotes e Minhas religiosas cairão numa indiferença fatal, cujo gelo apagará o fogo do amor divino, afligindo Meu Coração amoroso com estes pequenos espinhos que vês.

Por esta razão, quero que aqui haja almas nas quais Eu descanse das Minhas fadigas e nelas coloque Minhas complacências. Suas vidas atribuladas e sacrificadas serão as mãos caridosas e compassivas que Me tirarão estes espinhos miúdos e Me darão o bálsamo de que necessito.

Ai! Se soubesses, se te fosse dado compreender o intenso sofrimento interior – que Me acompanhou desde a Encarnação no puríssimo seio de Minha Virgem Mãe até o momento em que Minha Alma saiu de Meu Corpo destroçado, cravado na Cruz – causado pela falta de correspondência ao dilúvio de graças que inunda os Meus Sacerdotes e as pessoas religiosas, e, em consequência, pelos pecados que eles cometem!”24

O Doctor Mysticus
eleva a nossa alma ao
Sagrado Coração de Jesus

Explicando sobre os Cânticos Espirituais XIV e XV, ensina-nos que: “Notemos que na Arca de Noé havia muitas mansões para numerosas espécies de animais, e todos os manjares necessários à sua alimentação, conforme diz a Sagrada Escritura.25 Assim também nesse voo que faz até a Divina Arca do Peito de Deus, a alma vê claramente as muitas moradas que Sua Majestade afirmou existirem na Casa de Seu Pai, como lemos no Evangelho de São João.26 E, mais ainda, percebe e conhece ali todos os manjares, isto é, todas as grandezas que a mesma alma pode gozar, as quais estão contidas nessas duas sobreditas canções...”.27

O Doutor do Amor Divino
ensina-nos a amar o Sagrado Coração de Jesus

'Amarás ao Senhor teu Deus, diz, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças: é este o primeiro e o maior dos Mandamentos'. Ó Teótimo! Quão amoroso está o Coração Divino do nosso amor! Não bastava que desse licença que o amássemos? Mas não; declara a Sua paixão amorosa para conosco e manda-nos que O amemos quanto pudermos para que nem a consideração da Sua Majestade e da nossa miséria, que nos fazem ficar tão distante d'Ele, nem outro qualquer pretexto, nos proíba de O amarmos”.28

E em outro lugar: “Considera o amor com o qual Jesus Cristo tanto sofreu neste mundo, principalmente no Jardim das Oliveiras e no Calvário. Esse amor tinha a nós em mira e nos impetrava do Pai eterno, por tantos sofrimentos e trabalhos, as boas resoluções e protestos que fizemos de coração e as graças necessárias para as nutrir, fortificar e realizar. Ó santas resoluções, quão preciosas sois, sendo o fruto da Paixão de Nosso Senhor! Oh! Quanto minha alma vos deve apreciar, pois que tanto custastes a Jesus! Ó Senhor de minha alma, Vós morrestes para me conceder a graça de fazê-las; dai-me, pois, a graça de antes morrer do que perdê-las!

Pondera bem, Filotéia; é certo que o Coração de Nosso Jesus pregado na Cruz estava considerando o teu, que Ele amava e para o qual impetrava por este seu amor todos os bens que tens recebido e receberás no futuro. Sim, Filotéia, bem podemos dizer com Jeremias: Senhor, antes de eu ter nascido, olhavas para mim e me chamavas pelo nome. Não duvidemos; o bom Jesus, que nos regenerou na Cruz, nos leva em seu Coração, como uma mãe ao filho em seu seio; a Bondade divina preparou-nos aí todos os meios gerais e particulares de nossa salvação, todos os atrativos e graças de que Ele se serve agora para conduzir nossa alma à perfeição: como uma mãe que prepara para seu filho tudo que sabe lhe poderá ser necessário depois do nascimento.

Ah! Meu Deus, devíamos gravar isso profundamente em nossa memória! É impossível que eu tenha sido amado e amado tão ternamente de meu Salvador, que Ele tenha pensado em mim individualmente e em todas as pequenas ocasiões pelas quais Ele me quis atrair a Si? Na verdade, quanto devemos amar, apreciar e empregar utilmente tudo isso! Dulcíssimo pensamento: o Coração terníssimo de Jesus pensava em Filotéia, amava-a e lhe procurava mil meios de salvação, como se não houvesse no mundo, outras almas em que Ele tivesse que pensar; o sol, iluminando um único lugar na terra, não seria mais claro que agora, quando a ilumina toda inteira. Ele me amou, diz S. Paulo, e se entregou por mim; como se Ele nada tivesse feito para os outros homens. Eis aí, Filotéia, o que deves gravar em tua alma, para apreciar devidamente e nutrir a tua resolução, que foi tão estimada e preciosa ao Coração do Salvador.”29

A uma viúva ele afirmou: “... No sè donde estareis esta Quaresma segund el cuerpo, segun el espiritu espero estareis dentro de la caverna de la tortolilla, y en el Costado abierto de nuestro querido Salvador. Bien quiero procurar muchas vezes estar alli con vos. Dios por su soberana bondad nos haga esta gracia. Ayer os vi (assi me lo parece) que viendo el Costado de nuestro Señor abierto, queriais coger su Corazon para meterle dentro del vuestro, como un Rey dentro de un pequeño Reyno; y aunque el suyo es mas grande que el vuestro, no obstante, èl le estrecharà por acomodarse ahì. Què bueno es este Señor, amada hija! Què amable su Corazon! Estemonos en este santo domicilio, para que este Corazon viva siempre dentro de nuestros corazones, y esta sangre hierva siempre dentro de las venas de nuestras almas...”30

E em outro lugar: “... En lo demàs conviene siempre tener animo, y si nos viniere alguna flaqueza, ò desfallecimiento de espiritu, corramos al pie de la Cruz, y metamonos entre aquellos santos olores, entre aquellos celestiales perfumes; y sin duda seremos confortados y refrigerados por ellos. Yo presento todos los dias vuestro corazon al Padre Eterno con el de su Hijo nuestro Salvador en la santa Missa; èl no podrà desecharle por causa de esta santa union, em cuya virtud hago la oferta; mas yo presupongo, que hareis lo mismo de vuestra parte...”31

Santa Teresinha do Menino Jesus
a Missionária do Sagrado Coração de Jesus


Estribilho

Teu átomo, Divino Coração,
Te consagra sua vida;
Esta é a sua paz feliz:
Só dar-Te prazer, Senhor...

Transborda ternura
Tua voz que me encanta;
Só o Teu Coração,
Doce Amigo, me impele!...”32

No santo sepulcro, Maria Madalena
Procurando seu Jesus, curvava-se em prantos;...

E Jesus, ao mostrar seu Divino Semblante,
Um nome, apenas um, lhe sai do Coração,
Dizendo-lhe: Maria! E foi bem nesse instante
Que a encheu toda de paz e de consolação.

Se não posso ver o brilho de Tua Face,
Ouvir Tua voz de plena mansidão,
Posso, ó Deus, viver de Tua Graça,
Posso repousar em Teu Sagrado Coração.

É na Tua bondade sempre infinitamente
Que me quero perder, Coração de Jesus!

Bem sei que todas as nossas justiças
Aos Teus olhos não têm nenhum valor.
Para valorizar meus sacrifícios
Eu os quero lançar em Teu Divino Coração.
Encontraste defeito até em Teus Anjos;
No seio dos trovões emites Tua lei!...
Em Teu Coração Sagrado, Jesus, me escondo,
E nada temo, minha virtude és Tu!...

Para poder contemplar Tua glória,
Eu sei que deverei passar pelo fogo,
Mas escolho sofrer a chama purgatória
Do Teu ardente Amor, Coração de Meu Deus!
A minha alma, ao deixar o exílio desta vida,
Quer fazer um ato de puro amor,
E voando ao Céu, sua Pátria,
Entrar no Teu Coração sem olhar para trás.33

Outubro ou Junho de 1895.

São Luís Maria Grignion de Montfort,
Pregador do Sagrado Coração de Jesus.

Saúdo com muito profundo respeito o Sr. Du Portail, e todas estas boas almas que entram conosco na caridade do Coração de Jesus, o mais crucificado dentre os homens”34.

E, neste outro lugar: “Adoro a disposição justa e amorosa da Divina Sabedoria sobre o meu pequeno rebanho, que está alojado bem estreito entre os homens para ser alojado e escondido bem ao largo no Seu Divino Coração, que acaba de ser transpassado para este fim. Oh! Como este Sagrado Recinto é salutar e agradável para uma alma verdadeiramente sábia. Ela saiu com o Sangue e a Água quando a lança O feriu, ela encontra aí o seu refúgio garantido quando é perseguida por seus inimigos, e ela aí permanece oculta com Jesus Cristo em Deus, porém, mais conquistadora que os heróis, mais coroada que os reis, mais brilhante que o sol e mais elevada que os Céus.

Se sois discípula da Sabedoria e a eleita entre mil, como vossos abandonos, vossos desprezos, vossa pobreza e vosso pretenso cativeiro vos parecerão doces, já que, com todas estas coisas preciosas, comprais a Sabedoria, as riquezas, a liberdade, a Divindade do Coração de Jesus Crucificado35.



São João Bosco, exímio propagador
da Devoção ao Sagrado Coração de Jesus36

Propaguem esta devoção que resume todas: a devoção ao Sagrado Coração de Jesus” (XV, 195). “Propaguem a devoção ao Sagrado Coração de Jesus. Tenham sempre diante o pensamento do amor de Deus” (XVI, 195).37

Ó Coração pacientíssimo de meu Jesus, venero humildemente a invencível paciência que teve para suportar, por meu amor, tantas dores na Cruz. Já que não posso lavar com o meu sangue aqueles lugares onde foi tão maltratado, prometo-lhe usar de todo o meio para ressarcir seu Divino Coração de tantas ofensas” (Uma das orações sugeridas por Dom Bosco, no O Jovem Instruído).

Entre seus Corações, Jesus e Maria, ponham meu pobre coração, para que se inflame de todo seu amor” (de O Jovem Instruído).



Santo Cura D'Ars
o catequista do Sagrado Coração de Jesus38

No Céu, a fé e a esperança não existirão mais; porquanto as névoas que nos obscurecem a razão serão dissipadas. O nosso espírito terá a inteligência das coisas que lhe são ocultas neste mundo. Não esperaremos mais nada, visto que teremos tudo. Ninguém espera adquirir um tesouro que possui... Mas o amor! Oh! Seremos inebriados dele! Seremos afogados, perdidos nesse oceano de amor divino, aniquilados nessa imensa caridade do Coração de Jesus!... Por isto, a caridade é um antegozo do Céu. Se soubéssemos compreendê-la, senti-la, saboreá-la, oh! como seríamos felizes! O que faz que sejamos infelizes, é não amarmos a Deus.”




Santa Faustina
a Confidente do
Sagrado Coração de Jesus39

No começo do retiro disse-me Jesus: Nesse retiro Eu mesmo guiarei tua alma; quero confirmar-te na paz e no amor. – E assim passei os primeiros dias. No quarto dia começaram a atormentar-me dúvidas se por acaso não me encontro em alguma falsa paz? – Então ouvi estas palavras: Minha filha, imagina que és a soberana da terra toda e tens o poder de dispor de tudo de acordo com a tua vontade, tens toda a possibilidade de fazer o bem de acordo com a tua vontade e então bate a tua porta uma criancinha, toda tremendo, com lágrimas nos olhos, mas com muita confiança em tua bondade, e pede um pedaço de pão, para não morrer de fome, como procederias com esta criança? Responda-me Minha filha. – E eu disse: “Jesus, dar-lhe-ia tudo que me pede e mil vezes mais”. E disse-me o Senhor: Assim Eu procedo em relação à tua alma. Neste retiro não apenas estou te concedendo paz, mas uma tal disposição de alma que, mesmo que quisesses inquietar-te, não poderias. O Meu amor tomou conta da tua alma e quero que te confirmes nele. Aproxima o teu ouvido do Meu Coração e esquece de tudo e reflete sobre a Minha inconcebível misericórdia. O Meu amor te dará a força e a coragem que te são necessárias nessas questões...

Com alegria e desejo aproximei os lábios do amargor do cálice que tomo diariamente da Santa Missa. É o quinhão que Jesus me destinou para todo o tempo, e esse não entregarei a ninguém. Consolarei sem cessar o Dulcíssimo Coração Eucarístico, tocarei canções de gratidão nas cordas do meu coração; o sofrimento é a melodia mais graciosa. Procurarei sentir diligentemente com que poderei hoje alegrar o Vosso Coração.

Os dias na vida são uniformes; quando nuvens negras me cobrem o sol, procurarei atravessar a onda como uma águia e dar a conhecer aos outros que o sol não se apaga...

Jesus, Vós sabeis como desejo ardentemente ocultar-me para que ninguém me conheça, apenas o Vosso Dulcíssimo Coração. Desejo ser uma pequenina violeta oculta na grama, desconhecida em meio ao magnífico jardim fechado onde crescem belas rosas e lírios. A bela rosa e o maravilhoso lírio podem ser vistos de longe, mas para ver a pequeno violeta é preciso inclinar-se bastante – apenas o perfume a denuncia. Oh, como me alegro por poder ocultar-me assim. Ó meu divino Esposo, é Vossa a flor do meu coração e o perfume do meu amor puro. A minha alma mergulhou em Vós, Deus eterno; desde o momento em que Vós mesmo me atraístes a Vós, ó meu Jesus, quanto mais Vos conheço tanto mais ardentemente Vos desjo. Conheci no Coração de Jesus que para as almas escolhidas no Céu mesmo existe um outro Céu, aonde nem todos tem acesso, mas apenas as almas escolhidas. Felicidade inconcebível em que a alma estará submersa. Oh, meu Deus, não sou capaz de descrevê-lo, ainda que na mínima parte. As almas estão embebidas da Sua divindade, passam de claridade em claridade, uma luz imutável mas nunca monótona, sempre nova e sempre sem mudança. Ó Santíssima Trindade, dai-Vos a conhecer às almas...

25/03/1937. Quinta-feira santa. Durante a Santa Missa vi o Senhor, que me disse: Reclina a tua cabeça no Meu peito e descansa. – O Senhor estreitou-me ao Seu Coração e disse: Dar-te-ei uma parcela da Minha Paixão, mas não tenhas medo e sê corajosa. Não busques alívio, mas aceita tudo com submissão à Minha vontade...

+
J.M.J.

Saúdo-Vos, Coração misericordiosíssimo de Jesus,
Fonte viva de todas as graças,
Nossa única proteção e refúgio,
Em Vós tenho o brilho da esperança.

Saúdo-Vos, Coração misericordiosíssimo de meu Deus,
Inescrutável fonte viva de amor,
Da qual brota a vida para o homem pecador,
E a fonte de toda a doçura.

Saúdo-Vos, Chaga aberta do Coração Santíssimo,
Do qual saíram os raios da misericórdia,
E da qual foi-nos dado haurir a vida,
Instrumento de confiança único.

Saúdo-Vos, bondade divina, inconcebível,
Jamais medida nem aprofundada,
Cheia de amor e misericórdia, mas sempre santa,
E no entanto, estais como uma boa mãe, para nós inclinada.

Saúdo-Vos, trono de misericórdia, Cordeiro de Deus,
Que por mim destes a vida em sacrifício,
Diante do qual minha alma todos os dias se humilha,
Vivendo em fé profunda...

Ó Jesus, eu me fecho em Vosso Coração misericordiosíssimo como numa fortaleza inexpugnável contra os ataques dos inimigos...

Hoje durante a hora santa Jesus se queixou diante de mim da ingratidão das almas.

Pelos benefícios, recebo a ingratidão; pelo amor, recebo o esquecimento e a indiferença. O Meu Coração não pode suportar isso.



Santa Bernadette Soubirous
devotíssima do Sagrado Coração40

A seguinte carta foi escrita por Santa Bernadette no convento Saint Gildard de Nevers, em 17 de dezembro de 1876.

A santa já sofria o mal que a levaria deste mundo dois anos e quatro meses depois.

O Beato Pio IX também faleceu não muito depois: em 7 de fevereiro de 1878. Ele deixou a Terra em meio a grandes sofrimentos provocados pelos inimigos da Igreja que invadiram e usurparam os Estados Pontifícios, dos quais o Papa é rei.

Naquela data brilharam pelo seu heroísmo os zuavos pontifícios, muitos dos quais morreram em combate defendendo o reino do Papa.

A eles se refere Santa Bernadette quando diz “há já alguns anos que eu me constituí pequeno zuavo”. Seu coração estava junto com aqueles bravos soldados que davam sua vida pela Igreja no campo de batalha.

Para os inimigos da Igreja Santa Bernadette tem essa frase de conteúdo profético que faz pensar em La Salette e Fátima: Nossa Senhora “se dignará colocar ainda mais uma vez Seu pé sobre a cabeça da Serpente maldita, e dar assim um termo às cruéis provações da Santa Igreja e às dores de seu Augusto e Bem-amado Pontífice”.

Eis a carta:

Santíssimo Padre, eu jamais teria ousado tomar a caneta para escrever a Vossa Santidade, eu, pobre Irmãzinha, se nosso digno bispo, Mons. de Ladoue, não me tivesse encorajado. (…)

Eu temi, de início, ser demasiado indiscreta; depois me veio ao pensamento que Nosso Senhor ama de ser importunado, tanto pelos pequenos quanto pelos grandes, pelo pobre e pelo rico, e que Ele se dá a cada um de nós sem distinção.

Esse pensamento me deu coragem e, portanto, não tenho mais medo. Aproximo-me de Vós, Santíssimo Padre, como uma criancinha pobre até ao mais tenro dos Pais, cheia de abandono e de confiança.
O que poderia eu fazer, Santíssimo Padre, para Vos testemunhar o meu amor filial?

Eu não posso senão continuar o que fiz até o presente, isto é, sofrer e rezar.

Há já alguns anos que eu me constituí, apesar de indigna, pequeno zuavo [tropa de elite do exército pontifício] de Vossa Santidade; minhas armas são a oração e o sacrifício, que conservarei até o meu último suspiro.

Somente então cairá a arma do sacrifício, mas a da oração me acompanhará até o Céu, onde será bem mais poderosa do que nesta terra de exílio.

Eu rezo todos os dias ao Sagrado Coração de Jesus e ao Coração Imaculado de Maria para que Vos conservem ainda por muito tempo entre nós, porquanto, Vós Os fazeis conhecer e amar tão bem.

Eu tenho a doce confiança de que esses Corações Sagrados se dignarão de atender este desejo, que é o mais querido do meu coração.

Parece-me, quando rezo nas intenções de Vossa Santidade, que do Céu a Santíssima Virgem deve com frequência pousar seu olhar materno sobre Vós, Santíssimo Padre, porque Vós A proclamastes Imaculada.

Gosto de pensar que Vós sois particularmente amado por esta boa Mãe porque, quatro anos depois, Ela própria veio a esta terra para dizer: “Eu sou a Imaculada Conceição”.

Eu não sabia o que isso significava, eu nunca havia ouvido esta palavra.

Depois, refletindo, eu me disse com frequência: como é boa a Santíssima Virgem. Dir-se-ia que Ela veio confirmar a palavra do nosso Santo Padre.

É isso que me faz acreditar que Ela deve Vos proteger muito especialmente.

Espero que esta boa Mãe tenha piedade de seus filhos, e que Ela se dignará colocar ainda mais uma vez Seu pé sobre a cabeça da Serpente maldita, e dar assim um termo às cruéis provações da Santa Igreja e às dores de seu augusto e Bem-Amado Pontífice.

Ósculo humildemente os vossos pés e sou, com o mais profundo respeito, Santíssimo Padre, de Vossa Santidade a humílima e muito submissa filha.

Irmã Marie-Bernard Soubirous


Ven. Pe. Manuel Bernardes
irradia-nos Luz e Calor
sobre o Sagrado Coração de Jesus41

É próprio de quem espera, pôr-se à porta. O mendigo põem-se à porta do rico, esperando esmola; o litigante à do ministro, esperando despacho; o amante à da esposa, esperando a fala. Logo, se neste mundo só vivo das esperanças de algum dia ver a Deus, Expectantes beatam spem, et adventum gloriae magni Dei;42 quero pôr-me também às portas da Divindade, que espero se me há de revelar. Quais são estas, senão as preciosas Chagas de meu Jesus Crucificado? Cinco são as portas deste sagrado Templo: dai-Me, Senhor, licença para me chegar à principal; não porque eu me veja mais digno, senão porque a vejo mais aberta. Chegarei pecador, e poderá ser que entre justo: pecador por misericórdia Vossa: Haec porta Domini, justi intrabunt in eam.43 Aqui farei a minha assistência e morada: como lá Mardoqueu fez a sua à porta do Palácio de Assuero: Mardocheus manebat ad januam Regis.44

Adoro-te ó Chaga preciosíssima do Lado de meu Senhor Jesus Cristo. Tu és verdadeiramente a porta do meio, que disse o Profeta Jeremias: Porta media;45 pois, foste à violência de uma lança rasgada no meio do Corpo do Senhor, e no meio das outras quatro portas. E, contudo, também és verdadeiramente a porta do Ângulo: Porta anguli;46 porque és porta daquele Divino Coração, em cuja caridade se juntam, e concorrem, como em pedra angular, as linhas do edifício místico da Igreja dos Anjos e dos homens, dos Israelitas e das Gentes: Lapis angularis qui facis utraque unum.

Adoro-te, e te dou reverentes ósculos, ó Chaga de meu amorosíssimo Jesus; porque Tu és a porta do juízo que diz a Escritura: Porta judicij;47 pois, em ti e por ti podem os homens fazer juízo do amor que nos teve este Senhor: e este Senhor o fará da ingratidão com que O tratam os homens.

Adoro-te e glorifico, ó Chaga amorosíssima e suavíssima, em ti assento os fundamentos da minha esperança; porque tu verdadeiramente és a porta do fundamento: Porta fundamenti;48 pois, de ti saiu Sangue e Água; Sangue, que é o fundamento de nossa Redenção; e Água, que representa o Batismo, fundamento de toda a Religião Cristã.

Adoro-te e te dedico todos os meus afetos, ó Chaga amorosíssima e suavíssima, porque tu és a porta que leva e guia para o jardim do Rei: Porta quae ducit ad hortum Regis.49 Pois, guias e levas, para o Coração de Cristo, que é o jardim das delícias de Deus; guias e levas para a Divindade, que é o jardim onde o Rei da Glória introduz as almas puras.

Adoro-te, ó Chaga preciosíssima, em ti me banho e refresco, porque tu és mui propriamente a porta da fonte e aqueduto real: Porta fontis et aquaedctus Regis;50 pois, por ti sairão e se nos comunicarão as fontes do Salvador, donde bebem e se refrigeram todos os que tem sede da vida eterna.

Adoro-te, ó Chaga formosíssima, e contigo me abraço confiadamente, em ti me revejo, consolo e glorio: porque tu és certamente a porta de Jerusalém fabricada de safira e esmeralda, como disse Tobias: Porta Jerusalem ex sapphiro et smaragdo;51 pois, em ti temos a esperança de lograrmos o Céu, e no Céu ver ao mesmo Deus, que é visão de paz: Jerusalem, id est visio pacis; e também, porque em ti se mostra a Divindade e a Humanidade de Cristo; aquela figurada na cor celeste da safira, esta na cor terrena da esmeralda.

Adoro-te e te magnífico, ó Chaga santíssima de meu Senhor Jesus Cristo; junto a ti quero assistir e morar, porque tu és a porta da Casa do Deus das Conversões e Sumo Sacerdote: Porta domus Eliasib, Sacerdotis magni.52 Ó quantas conversões admiráveis, tem feito Deus desde a porta desta casa e com a Chaga do seu Lado! Oh, quantas almas chama desta porta, e reconcilia com Deus, este Sumo Sacerdote!

Adoro-te, e de todo meu coração te amo, ó Chaga formosíssima e nobilíssima; tu me arrebatas os olhos e os afetos, porque tu és verdadeiramente a porta especiosa, que estava no Templo de Salomão;53 não só por tua incomparável formosura, senão, porque junto a ti se põem os necessitados a pedir esmola dos favores e graças celestiais.

Adoro-te, ó Chaga seguríssima do Lado de meu Salvador Jesus Cristo: por ti e em ti quero me recolher, porque tu és a porta do rebanho: Porta gregis;54 pois, por ti entram nos pastos da vida eterna todas as ovelhas do rebanho escolhido do Senhor: Per me si quis ingredietur, inveniet pascua.

Adoro-te, ó Chaga amabilíssima e suavíssima do Lado de meu Senhor Jesus Cristo: em ti quero me recolher, defender e assegurar dos perigos deste mundo, porque tu és a porta dos arraiais em campo: Porta castrorum;55 pois, em ti se recolhem, alojam e fortificam todos os justos da Igreja militante, a quem o mesmo Senhor comparou a arraiais em campo e esquadrões formados: Ut castrorum acies ordinata.

Eu vos adoro, glorifico e exalto, ó Chagas Santíssimas, cinco siclos da Redenção humana,56 cinco pedras de Davi figurado, cinco pórticos da melhor piscina, cinco talentos da negociação das almas. Em meu peito guardo as esperanças de algum dia ver-vos e tocar na Pátria bem-aventurada, porque vós sois as portas eternas: Portae aeternales da Jerusalém viva, que é a Humanidade sacrossanta de meu Salvador Jesus Cristo, as quais não se hão de fechar jamais: Portae ejus non claudentur;57 pois, vos conservará para sempre o Senhor em seu Corpo sacratíssimo, para selos do seu amor e memorial da nossa Redenção.

Agora, Senhor, já que estou aqui a vossa porta como mendigo, mandai-me dar esmola da vossa graça: não despeças este pobre desconsolado. Já que espero a vossa porta, como litigante ou pretendente, sede servido de despachar minhas súplicas, fundadas na vossa justiça que me concedestes por vossa misericórdia. Peço, amorosíssimo Jesus, que me ponhais no número de vossos fiéis servos; peço que me deis coração benigno, manso, fiel, humilde, sofredor e constante; peço que se logre em minha alma o fruto dos Sacramentos que desse Lado saíram. Finalmente, já que estou a vossa porta esperando como amante (ou como quem o deseja ser) abri-me, Senhor, e fazei-me digno de que ouça eu a vossa voz suave e doce, e de que sinta a vossa presença santa e amável; para que me unais convosco por transformação de amor perfeito.


1Vita, I, 4, c. 3.
2Francisco Vannutelli, S.J., “O Mês de Junho Consagrado ao Santíssimo Coração de Jesus”, 3º Dia, pp. 28-29; 6ª Edição, Casa Duprat, São Paulo, 1934.
3Segredos do Coração de Jesus – Revelações de Santa Gertrudes, Livro II, Cap. VIII; Tradução de Celso da Costa Carvalho Vidigal, Artpres Indústria Gráfica e Editora Ltda., São Paulo, 2004, pp. 33-36.
4Esto mihi..., etc.
5Benedicens benedicam... Versículo do Responsório Locutus est, do mesmo Domingo.
6Tibi enim et semini tuo dabo has regions, do Responsório Movens, que não é citado textualmente.
7Tit. III, 4.
8Manual Gertrudiano ou Exercícios Espirituais de Santa Gertrudes Magna, Virgem da Ordem de São Bento, Edição Portuguesa; Typographia de B. Herder, Friburgo em Brisgau, Alemanha, 1914.
9Isaías 49, 16.
10Constituição Dogmática Lumen Gentium, 3.
11S. Agostinho, Enarr. In Ps.138, 2: Corpus Christianorum, XL, Turnholt 1956, p. 1991; cfr. Constituição Sacrosanctum Concilium, 5.
12S. Ambrósio, , In Luc. II, 85-89: PL 15, 1583-1586; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 766.
13Salm. 22, 15.
14S. Tomás de Aquino, Expositio in Psalmos, 21, 11. Cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 112.
15“A Vida e o Culto de Santo Antônio”, por Fr. Luiz, O.F.M., 1ª Parte, Cap. XXIII, pp. 238-245; 3ª Edição, Kevelaer Butzon e Bercker Editores Pontifícios, 1907.
16Cânt. 2, 12 (Vg. Muda).
17Cfr. Glos. Int., ibidem.
18Mat. 4, 17.
19Is. 27, 8.
20Glos. Int., ibidem.
21Is. 63, 4 (Vg. Dies enim...).
22Santo Antônio de Lisboa, Doutor Evangélico, “Obras Completas – Sermões Dominicais e Festivos”, Vol. I, “Domingo da Sexagésima”, p. 40; Lello & Irmãos Editores, Porto, 1987.
23“O Sagrado Coração de Jesus segundo Santo Afonso de Ligório”, 1ª Parte, Undécimo Dia, pp. 71-77; tradução portuguesa feita da 83ª edição pelo Exmo. Rev. sr. D. Joaquim Silvério de Souza, 5ª edição, Tipografia de Frederico Pustet, Ratisbona, 1926.
24“Vida Admirável da Reverendíssima Madre Mariana de Jesus Torres”, escrita pelo Revmo. Pe. Manuel Sousa Peraira, O.F.M., Tomo Segundo, Cap. XVIII, pp. 184-185; ArtPress – Papéis e Artes Gráficas Ltda, São Paulo – SP, 1983.
25Gên. 6, 19-21.
26Jo. 14, 2.
27S. João da Cruz, “Cântico Espiritual”, Canções XIV e XV, pp. 660-678; cfr. Obras Completas de São João da Cruz, 4ª Edição, Ed. Vozes – Carmelo Descalço do Brasil, Petrópolis, 1996.
28“Pensamentos Consoladores de S. Francisco de Sales”, extraídos e coordenados pelo Pe. P. Huguet, S.M., Liv. I, Cap. V, p. 49; Versão Portuguesa por Vasco de Macedo, Livraria Salesiana Editora, São Paulo, 1946.
29São Francisco de Sales, “Filotéia ou Introdução à Vida Devota”, Parte V, Cap. XIII, pp. 357-358; traduzida por Fr. João José P. Castro, O.F.M., 7ª edição, Editora Vozes Ltda, Petrópolis-RJ, 1958.
32Poesia 15; cfr. Obras Completas (Textos e Últimas Palavras) de Santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face, pp. 703-705; Editora Loyola, São Paulo, 1997.
33Idem, Poesia 23, pp. 723-724.
34S. Luís Mª G. de Montfort, “Carta aos Amigos da Cruz e demais Cartas”, Carta 33, p. 227; 1ª Edição, Edições Monfortinas, João Monlevade – MG, 2005.
35S. Luís Mª G. de Montfort, ob. cit., Carta 34, pp. 230-231.
36Teresio Bosco, “Os Pensamentos de Dom Bosco”, Cap. Letra “C”, pp. 26-27; tradução de Jacy Cogo, ABC Gráfica Editora, Brasília-DF, 2001.
37MB – Memorie Biografiche di Don Giovanni Bosco, Torino, 1898–1939.
38Pe. A. Monnin, “O Espírito do Cura D'Ars”, Cap. II, p. 32; uma publicação de Ontem, Hoje e Sempre, Campos-RJ. www.seminario-campos.org.br/ohs
39“Diário da Serva de Deus Ir. M. Faustina Kowalska, Professa perpétua da Congregação de N. S. da Misericórdia”, Caderno 1 – 229,385; Caderno 2 – 591,592; Caderno 3 – 1053; Caderno 4 – 1321; Caderno 5 – 1535,1537, pp. 88,135,196,313,376,434; tradução de Mariano Kawka, Congregação dos Padres Marianos, Curitiba-PR, 1982.

40Carta de Santa Bernadette Soubirous a Sua Santidade o Beato Pio IX

41“Luz e Calor – Obra Espiritual para os que Tratam do Exercício de Virtudes e Caminho de Perfeição”, 2ª Parte, Opúsculo IV, Solilóquio XV, Ponto 390, pp. 438-440; escrita pelo Rev. Pe. Manoel Bernardes, Oratoriano, Nova Edição, Lisboa, 1871.
42Tit. 2, 13.
43Salm. 17, 20.
44Judit. 21, 9.
45Jer. 39, 3.
46Rs. 14.
47Deut. 21, 19.
48Paralip. 2, 3, 5.
49Jer. 52, 7.
50Esdr. 2, 14.
51Tob. 13, 21.
522 Esdr. 3, 20.
53At. 3, 2.
542 Esdr. 3, 1.
55Êxod. 32.
56Lev. 27, 6.

57Apoc. 21, 25.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

As Inesgotáveis Riquezas do Sagrado Coração de Jesus (Ensaio em Fase de Conclusão) 5



Amorosas Mensagens do Coração de Jesus ao Mundo


1ª Mensagem

Ah! Se as almas soubessem como as espero cheio de misericórdia! Sou o Amor dos amores! E não posso descansar senão perdoando!

Estou sempre esperando com amor que as almas venham a Mim! Venham!... Atirem-se nos Meus braços! Não tenham medo! Conheço o fundo das almas, suas paixões, sua atração pelo mundo e pelos prazeres. Sei, desde toda a eternidade, quantas almas Me hão de encher o Coração de amargura e que, para grande número, Meus sofrimentos e Meu Sangue serão inúteis! Mas, como as amei, assim as amo... Não é o pecado que mais fere Meu Coração... O que O despedaça é não quererem as almas refugiar-se em Mim depois de o terem cometido. Sim, desejo perdoar e quero que Minhas almas escolhidas deem a conhecer ao mundo como Meu Coração, transbordando de amor e de misericórdia, espera os pecadores.

Queria também mostrar às almas que nunca lhes recuso a Minha graça, nem mesmo quando estão carregadas dos mais graves pecados, e que não as separo então daquelas que amo com predileção. Guardo-as todas no Meu Coração, para dar a cada uma os socorros que o seu estado reclama. Queria dar-lhes a compreender que não é pelo fato de estarem em pecado mortal que devem afastar-se de Mim. Não julguem que já não há remédio para elas e que nunca mais serão amadas como o foram outrora! Não, pobres almas, não são estes os sentimentos de um Deus que derramou todo o Seu Sangue por vós!

Vinde a Mim e não temais, porque Eu vos amo! Purificar-vos-ei no Meu Sangue e vos tornareis mais brancas do que a neve. Os vossos pecados serão mergulhados nas águas da Minha misericórdia e não será possível arrancar do Meu Coração o amor que vos tenho.

Vós, que estais mergulhados no mal e que há mais ou menos tempo viveis errantes e fugitivos por causa de vossos crimes... se os pecados de que sois culpados vos endureceram e cegaram o coração; se, para satisfazerdes às vossas paixões, caístes nos piores escândalos... ah! Quando vossa alma reconhecer o seu estado, e os motivos ou os cúmplices de vossas faltas vos abandonarem não deixeis que de vós se apodere o desespero. Enquanto tiver o homem um sopro de vida, poderá ainda recorrer à misericórdia e implorar perdão. Vosso Deus não consentirá que vossa alma seja presa do Inferno.

Pelo contrário, deseja, e com ardor, que dEle vos aproximeis para vos perdoar. Se não ousais falar-Lhe, dirigi para Ele vossos olhares e os suspiros do vosso coração e em breve vereis que Sua mão bondosa e paternal vos conduz à fonte do Perdão e da Vida!

Desejo que as almas creiam na Minha misericórdia, esperem tudo da Minha bondade e não duvidem nunca do Meu perdão. Sou Deus, mas Deus de amor! Sou Pai, mas Pai que ama com ternura e não com severidade.

Meu Coração é infinitamente Sábio, mas também infinitamente Santo, e como conhece a miséria e a fragilidade humana, inclina-se para os pobres pecadores com misericórdia infinita. Amo as almas depois que cometeram o primeiro pecado, se vêm pedir humildemente perdão. Amo-as ainda, quando choraram o segundo pecado e, se isso se repetir, não digo um bilhão de vezes, mas milhões de bilhões. Amo-as e perdôo-lhes sempre, e lavo no mesmo Sangue o último como o primeiro pecado!

Não Me canso das almas, e o Meu Coração sempre espera que venham refugiar-se Nele, por mais miseráveis que sejam. Não tem um pai mais cuidado com filho que é doente, do que com os que têm boa saúde? Para com este filho, não são maiores as suas delicadezas e a sua solicitude. Assim também o Meu Coração derrama sobre os pecadores, com mais liberalidade do que sobre os justos, a Sua compaixão e a Sua ternura.

Deem-me o seu amor e nunca desconfiem do Meu, e sobretudo Me deem a sua confiança e não duvidem da Minha misericórdia. É fácil esperar tudo do Meu Coração!1

Mensagem

Quero que Meu Amor seja o sol que clareia e o calor que aquece as almas. Por isso, desejo que deem a conhecer as Minhas Palavras.

Quero que o mundo inteiro leia o Meu Desejo ardente de perdoar e de salvar, que os mais miseráveis nada receiem!... que os mais culpados não fujam de Mim... venham todos!

Espero-os como um Pai, com os Braços abertos, para lhes dar a Vida e a verdadeira Felicidade!

Para que o mundo conheça a Minha Bondade, preciso de apóstolos que revelem o Meu Coração, mas que primeiro O conheçam... pois pode-se ensinar o que se ignora?

Devem, enfim, formar uma liga de Amor e, unindo-se todas no Meu Coração, implorar para as almas o conhecimento da verdade, a luz e o perdão.2

3ª Mensagem

Quero que o mundo conheça o Meu Coração. Quero que os homens conheçam o Meu amor. Sabem acaso o que Fiz por eles?... Eis que venho dizer-lhes que em vão procuram a felicidade fora de Mim, não a encontrarão.

A todos chamo, aos justos e aos pecadores, aos sábios e aos ignorantes, aos que mandam e aos que obedecem. A todos venho dizer: “Se quereis a felicidade, Eu sou a felicidade! Se desejais a paz, Eu sou a paz! Sou a Misericórdia e o Amor!”

Quero que este Amor seja o sol que ilumine e o calor que aqueça as almas.

Quero que o mundo inteiro Me conheça como Deus de Misericórdia e de Amor.

Quero que os homens saibam do Meu desejo ardente de lhes perdoar e de os salvar... Não se arreceiem os mais miseráveis! Não fujam para longe de Mim os mais culpados! Venham todos a Mim! Eu a todos espero como Pai, de braços abertos, para lhes dar a vida, a paz e a verdadeira felicidade!3

4ª Mensagem

Eu conheço tua miséria, as lutas, as aflições de tua alma, as fraquezas do teu corpo. Conheço também tua covardia, teus pecados e, apesar disso, Eu te digo: Dá-Me o teu coração. Amo-te como tu és!

Se tu esperas nisso: tornar-te um anjo para te entregares ao amor, tu nunca me amarás. Mesmo se também fores covarde no cumprimento de tuas obrigações e nos exercícios das virtudes, mesmo se caíres frequentemente naqueles pecados que não desejas mais cometer, Eu não te permito não Me amares! Ama-Me, como tu és!

Em cada momento e em qualquer situação em que te encontrares, no zelo ou na aridez, na fidelidade ou infidelidade: Ama-Me como tu és! Eu quero o amor do teu pobre coração; pois se esperas até que sejas perfeito, tu nunca Me amarás!

Não poderia Eu talvez de cada grão de areia criar um Serafim, irradiante de pureza, de nobreza, e de amor? Não sou Eu o Todo-poderoso? E se Me agradou deixar aqueles maravilhosos seres no Céu, para preferir o teu amor miserável – Não sou Eu o Senhor do Meu amor?

Meu filho, deixa-Me te amar. Eu quero o teu coração. Certamente Eu te transformarei com o tempo, contudo, hoje Eu te amo assim como tu és e Eu desejo, que também tu Me ames assim como tu és. Eu quero do abismo da tua miséria ver o teu amor se elevar.

Eu amo em ti também as tuas fraquezas, Eu amo o amor dos pobres e miseráveis. Eu quero que do miserável suba ininterruptamente o grande grito: Jesus, eu te amo!

Eu quero unicamente o canto do teu coração; Eu não preciso da tua sabedoria e dos teus talentos. Uma só coisa é importante para Mim: Ver-te trabalhar com amor!

Não são as tuas virtudes que Eu desejo. Se Eu tivesse que te dar tais virtudes – tu és tão fraco, isto só nutriria o teu amor-próprio. Porém, não te preocupes com isso. Eu poderia determinar grandes coisas para ti – não, tu serás o servo inútil, e Eu tomarei de ti até mesmo o pouco que tens, porque Eu te criei só para o amor.

Hoje me ponho mendigo na porta do teu coração – Eu o Rei dos reis! Eu bato e espero! Apressa-te para abrir-te para Mim! Não te desculpes com a tua miséria. Se conhecesses a plenitude da tua miséria, morrerias de dor.

O que feriria o Meu Coração seria ver que dúvidas de Mim e deixas de confiar em Mim. Eu quero, que tu também faças, só por amor a Mim, o mais insignificante ato. Eu conto contigo para que Me proporciones alegria.

Não te preocupes se tu não possuis nenhuma virtude – Eu te darei forças para isso. Se tu Me deres o teu amor, dar-te-ei tanto para que entendas o amar, muito mais do que possas imaginar. Pensa porém nisso: Ama-Me como tu és!

Eu te dei a Minha Mãe. Deixa tudo sim, tudo, para passares através do Seu Coração tão puro! Aconteça o que acontecer, não esperes tornar-te santo para te entregares ao amor; tu nunca Me amarias. – E agora vai.4


1Apelo ao Amor – Mensagem do Coração de Jesus ao Mundo e sua mensageira, Soror Josefa Menéndez, Editora Santa Maria, Rio de Janeiro, passim. Texto extraído da obra Sagrado Coração de Jesus – Tesouro de Bondade e de Amor, João S. Clá Dias, pp. 7-9; 1ª Edição, Editora Parma Ltda., São Paulo, 2002.
2“Apelo ao Amor – Mensagem do Coração de Jesus ao Mundo e sua Mensageira, Soror Josefa Menéndez”, pp. 460 e 476; 2ª Edição, Editora Santa Maria, Rio de Janeiro, 1953.
3“Convite a uma Vida de Amor”, Sóror Josefa Menéndez, Cap. “Ouça o mundo e leia!...”, p. 73; 2ª edição, Livraria depositária Gráfica de Coimbra, Coimbra, 1948.
4Fonte: “Ecce Matter Tua”, Nr. 268 (Mons. Lebrum), traduzido do italiano. Outras revelações à alma agraciada não são conhecidas! Pode-se pedir este folheto ao WKS – Sekretariat D – 7955, Ochsenhausen, Postfach 1247 – Deutschland.


As Inesgotáveis Riquezas do Sagrado Coração de Jesus (Ensaio em Fase de Conclusão) 4

 

Introdução

Ninguém põe em dúvida a popularidade da devoção ao Coração de Jesus no século dezenove e nas primeiras décadas do século vinte.

Na primeira sexta-feira de cada mês, numerosos fiéis assistiam à Santa Missa e acorriam à Mesa Eucarística. Floresciam as irmandades. Muitas Congregações de Religiosos entregavam-se a essa devoção. O Diretório Católico para a Inglaterra e o País de Gales arrola seis Congregações de homens e dezessete de mulheres que professam sua fidelidade à devoção, de acordo com o nome que ostentam, e muitas outras sociedades, especialmente os Jesuítas, fizeram (e ainda fazem) grandes esforços para difundir a devoção entre o povo.

Infelizmente, temos que reportar o pensamento ao entusiasmo do passado, visto que a devoção arrefeceu sensivelmente nas últimas décadas, até mesmo entre religiosos pertencentes a Congregações do Sagrado Coração de Jesus. Efetuou-se, em 1966, uma pesquisa na Grã-Bretanha e Irlanda. O resultado foi bastante desanimador, pois, os questionários haviam sido encaminhados unicamente a Congregações de Religiosos, cuja espiritualidade enfoca esse culto. Oitenta por cento dos que responderam ao questionário opinavam que a devoção, como era comumente encarada naquele tempo, carecia de atualização para conservar sua força espiritual e importância na Igreja. Os outros vinte por cento achavam-se divididos em grupos iguais. O primeiro grupo estava totalmente satisfeito com a devoção tradicional e o segundo julgava que a devoção estava simplesmente ultrapassada1. Não ficando a situação restrita a este país, facilmente podemos entender porque a Encíclica Haurietis Acquas” defende longamente a devoção contra ataques e porque o melhor livro escrito sobre o assunto, desde a Segunda Guerra Mundial (“O Coração do Salvador”, por Stierli, Rahner e Gutzwiller) começa por um capítulo intitulado “Objeções”...2

Uma Invenção do Século XVII?

Eis uma acusação frequentemente ouvida: Esta devoção não é verdadeiramente baseada na Escritura e na Tradição; surgiu no século dezessete e procede exclusivamente das revelações particulares a Santa Margarida Maria. Isso é uma grave acusação, pois a vida cristã deve encontrar sua última inspiração na Escritura e na Tradição. Revelações feitas a um Santo não são, por si, base suficiente para solidificar uma devoção. Considerando o assunto de capital importância, estudemos as raízes que esta devoção encontra na Escritura e na Tradição3.


Breve Histórico

A devoção para com o Sagrado Coração de Jesus tem o seu gérmen na origem da humanidade.

Foi no Paraíso, depois da queda primitiva de Adão e Eva, que o Filho de Deus recebeu, pela primeira vez, o justo tributo da veneração e de amor.

Apresentado e prometido por Deus mesmo ao gênero humano, como Redentor, suspiravam por Ele incessante e ardentemente todas as nações. Com seu Nascimento, exultaram de alegria os descendentes de Adão, por virem realizados os seus votos. Desde esta data gloriosa surgiu e foi-se desenvolvendo, rapidamente, a devoção para com o Divino Coração.

O Fundador do Cristianismo ainda não havia instituído os Santos Sacramentos, nem lançado os alicerces inabaláveis destinados a sustentar o edifício grandioso da Igreja Católica, e já se venerava e adorava o seu Sagrado Coração. Já naquele tempo, era este o objeto do amor entranhado da Virgem Mãe de Deus e de São José.

Anjos do Céu aparecem cá na terra convidando os homens a renderem ao Salvador recém-nascido as suas homenagens. Aos coros angélicos se unem os bons pastores, os três Reis Magos do Oriente, porfiando em testemunhar os sentimentos de fé e confiança, de gratidão e respeito, de submissão e amor ao Sagrado Coração de Jesus. Ao contemplá-lO, todos ficaram cativos e extasiados.

E, com efeito, o que há de mais nobre e sublime, se acha concentrado no Amantíssimo Coração de Jesus, como na sua fonte original. O seu amor transcende todos os afetos, por mais puros que sejam. Símbolo tocante, imagem perfeita e personificação do amor infinito de Deus para com os homens é o seu Sagrado Coração.

Nele habita a plenitude da Divindade, estão encerrados todos os tesouros da ciência e sabedoria e o Pai Eterno pôs Nele todas as suas complacências, é portanto, digníssimo de louvor, veneração e adoração.

No reino glorioso do Céu, não há um só Santo, que não houvesse sido devoto do Sagrado Coração”.4

O Novo Testamento: Torrentes de Água Viva

Desde os primórdios do Cristianismo, o Coração transpassado de Cristo foi contemplado como um símbolo de Sua personalidade íntima, principalmente, de Seu amor. Essa Tradição origina-se, preponderantemente, de duas passagens do Evangelho de São João, a saber 7, 37-39; 19, 31-37.

No capítulo sete, São João nos relata os acontecimentos da Festa dos Tabernáculos. Era um dia de ação de graças pela safra. Num país semelhante à Palestina, com suas imensas regiões semi-áridas, isso resultava num agradecimento pela chuva. Nesse dia, as cerimônias no Templo lembravam aos judeus um acontecimento semelhante e particularmente extraordinário, a saber, a intervenção de Deus no deserto do Sinai, quando outorgou a Moisés o poder de produzir água, ferindo a rocha5, e destarte salvou seu povo que estava morrendo de sede.

Nosso Senhor observava as cerimônias e subitamente disse à multidão que tudo isso realizar-se-ia n'Ele mesmo: 'Se alguém tiver sede, venha a Mim, e beba o que crê em Mim!' Pois, a Escritura afirmou isto de Mim: 'Correrão do seu seio rios de água viva'6. E, se alguém não entendesse que essa água é o Espírito Santo, São João acrescenta: 'Referia-se ao Espírito que haviam de receber os que acreditassem n'Ele'7.

Em outras palavras, o Espírito de Deus brotará do Coração de Cristo como água viva, de uma fonte. Como a água traz nova vida à terra ressequida, salvando a colheita e o povo que dela depende, assim Jesus, o novo Moisés, trará salvação para Seu povo. Durante as cerimônias desse dia de ação de graças, os sacerdotes cantavam as palavras de Isaías: 'Com alegria haurireis a água nas fontes da salvação'8. Aqui, no meio deles, estava quem fora esperado, há tantos anos, quem traria salvação por Sua Morte e Ressurreição.

Do Lado Aberto

Há uma íntima relação entre o texto citado e a cena descrita por São João no capítulo dezenove. Lá vemos o Coração de Jesus transpassado, saindo Sangue e Água de Seu lado. Lemos: 'Um soldado lhe transpassou o lado com a lança, e, no mesmo instante, saiu Sangue e Água. Aquele que viu dá testemunho e seu testemunho é verdadeiro. E ele sabe que diz a verdade, a fim de que também vós acrediteis. Pois, tudo isso sucedeu para que se cumprisse a Escritura: 'Nenhum osso lhe será quebrado'. E a Escritura diz também: 'Contemplarão aquele que transpassaram'9. Notemos como São João nos afirma ter presenciado tudo isso com seus próprios olhos. Não apenas para ressaltar que Cristo morreu realmente. A Bíblia de Jerusalém observa: 'A importância do acontecimento é destacada por dois textos da Escritura. O Sangue mostra que o Cordeiro foi verdadeiramente imolado para a salvação do mundo; a Água, símbolo do Espírito, mostra que o Sacrifício é rico manancial de graças'. E assim, o Prefácio da Missa do Sagrado Coração possui verdadeira inspiração bíblica quando anuncia: 'Torrentes de amor e graças brotaram do lado aberto'.

A Tradição

Os Primeiros Séculos: Nas obras de Santo Irineu, Bispo de Lyon, morto em 202, encontramos a referência mais antiga ao mistério do Coração de Cristo. Era ele discípulo de São Policarpo de Esmirna, o qual, por sua vez, conhecera pessoalmente a São João. Ele escreveu: 'A Igreja é o manancial de água-viva que mana do Coração de Cristo para nós. Onde estiver a Igreja, aí estará também o Espírito de Deus, e onde estiver o Espírito de Deus, aí estará a Igreja e toda a graça. Mas o Espírito é verdade. Portanto, quem não participar deste Espírito não é alimentado no seio da Mãe Igreja e não pode beber da fonte cristalina que emana do Corpo de Cristo'.

Alguns dos antigos Padres desenvolveram mais amplamente essa ideia. A água-viva torna-se o símbolo de todos os dons que de Cristo vem até nós: os Sacramentos, e até mesmo a Igreja.

A Idade Média: A Idade Média acrescenta um elemento muito pessoal e subjetivo à doutrina. As ideias dos Teólogos moveram os Místicos medievais a uma veneração pessoal do Coração de Cristo. Descobriram, no lado aberto, o coração do esposo ferido com amor; e as dádivas que fluem deste Coração eram consideradas dádivas do amor pessoal de Cristo. Grandes místicos e Santos, como Bernardo e Boaventura, Gertrudes e Matilde, Alberto Magno, Suso, Catarina de Sena, e, mais tarde, os Cartuxos, praticaram essa devoção com grande fervor e entusiasmo.

Pelo fim da Idade Média, a contemplação do Coração alanceado de Cristo começou a difundir-se entre o povo mais simples. Tudo corria maravilhosamente. É digno de nota que a Companhia de Jesus, então recentemente fundada, foi fortalecida por uma devoção sempre maior ao Coração de Cristo. Foi isso bastante providencial, pois, preparou o terreno e favoreceu a missão de Santa Margarida Maria”.10

A devoção ao Sagrado Coração de Jesus Cristo não era inteiramente desconhecida, quando Nosso Senhor a revelou à Santa Margarida Maria Alacoque.

No século XIII, Santa Gertrudes e Santa Matilde a haviam praticado com grande fervor, após terem recebido a respeito revelações sensíveis de Nosso Senhor, e mencionaram-na nos seus escritos. Nos séculos seguintes Jesus Cristo favoreceu ainda diversos Santos com a visão de Seu divino Coração, os quais praticaram também esta devoção, relatando às vezes nas suas obras as graças que haviam recebido.

São Francisco de Sales, que fundou em 1610, com Santa Joana de Chantal, a Ordem da Visitação de Santa Maria, tinha uma ardente devoção ao Sagrado Coração de Jesus, do qual fala diversas vezes em seus escritos.

O Bispo de Coûtance, na Normandia, dedicou em 1688 a igreja de seu Seminário aos Corações de Jesus e de Maria; o Padre J. de Galliffet relata a respeito o seguinte, no seu notável livro 'L'excellence de la dévotion au Coeur adorable de Jésus-Christ':

'Nela foi celebrada separadamente, com grande solenidade, a Festa destes Sagrados Corações, com Oitava e Ofícios próprios: e nela foi estabelecida, com o título dos Corações de Jesus e de Maria, uma Confraria que o Papa Clemente X já permitira erigir com uma Bula de indulgências, datada de 4 de outubro de 1674 e que só foi publicada em 1688'11.

São João Eudes pediu e obteve em 1674, por seis Breves do mesmo Papa Clemente X, a autorização de celebrar separadamente a Festa dos Sagrados Corações de Jesus e de Maria, para as igrejas de sua Congregação, 'com permissão de erigir nelas Confrarias com o título dos Sagrados Corações de Jesus e Maria'12.

A Ordem de São Bento, na França, começava também a celebrar naquela época essa mesma Devoção, com Missas e Ofícios próprios, e o mesmo faziam os Irmãos Menores da Grande Província de França, com um Ofício particular13.

Desde várias décadas, muitos Arcebispos e Bispos vinham concedendo aprovações pastorais relativas à Devoção, ao Ofício e à Festa dos Sagrados Corações de Jesus e de Maria, todos eles confirmados por um legado 'a latere', e mesmo pela Santa Sé Apostólica14.

Constata-se pois, que as revelações de Nosso Senhor a Santa Margarida Maria, para a instituição da Devoção ao Sagrado Coração, foram feitas numa época em que os católicos começavam a aspirar por esta devoção”.15

Devoção Franciscana16

Entre os franciscanos, como em toda a Igreja, o culto ao Coração de Jesus teve duas origens: alguns chegaram a ele através da meditação privada da Paixão; outros, através da revelação bíblica ou particular.

No século XII, os teólogos transmitiram a tradição da Teologia do Coração de Jesus. Nos séculos seguintes (XIII e XIV), essa planta cresceu e tornou-se uma árvore. Esse desenvolvimento foi preparado por uma grande devoção à Paixão de Cristo, por um amor especial ao apóstolo João e por um grande número de comentários sobre o Cântico dos Cânticos. Os grandes responsáveis por isso foram os franciscanos, as religiosas de Helfta e os dominicanos. Vamos nos ocupar agora com os franciscanos.

A Ordem Seráfica contribuiu muito para a preparação e propagação do atual culto ao Coração de Cristo. Isso aconteceu no longo período de transição da idade patrística até as ‘revelações’ de Margarida Maria, com afirmações de ordem doutrinal, ascética e devocional, que se inserem particularmente no apogeu da devoção mística medieval (1250-1350) e constituem, para a própria ordem, a base das sucessivas manifestações e práticas de piedade. Dois fatos suscitaram e favoreceram essa contribuição: a espiritualidade e devoção de são Francisco à humanidade de Cristo, particularmente aos mistérios da Paixão, e a renovação desses mistérios na própria vida do Patriarca estigmatizado – dois fatos novos e inspirantes que mantiveram a atenção dos franciscanos voltada para o Redentor e para são Francisco.

A representação característica de são Francisco abraçado pelo crucificado e querendo beijar-lhe a chaga do lado (pintura de Murilo) encontrou, assim, uma feliz correspondência na apaixonada contemplação franciscana dos sofrimentos e das cinco chagas de Cristo, especialmente da chaga do lado. Dessa contemplação, aconteceu uma passagem, fácil e natural, ao próprio Coração de Cristo, em si mesmo e como símbolo do amor e fonte de toda a graça. Podemos dizer que uma devoção explícita ao Coração de Jesus nasceu no ambiente de espiritualidade cristocêntrica e de misticismo criado em torno às ordens beneditina e franciscana.

O franciscano São Boaventura, no seu Itinerarium Mentis in Deum, guia do coração do peregrino em seu itinerário em busca de Deus, afirma que o único caminho para o Pai é um grande amor ao Senhor crucificado. Esse amor deve levar a uma verdadeira comunhão de corações, com Cristo e os irmãos. E no seu livro Vitis Mystica, encontramos um primeiro aceno explícito à devoção ao Coração de Jesus: “O Coração de nosso Senhor foi transpassado por uma lança para que através da ferida visível possamos ver a ferida invisível do seu amor”. São Boaventura pode ser considerado um dos primeiros devotos do Coração de Jesus.

Muito cedo, os frades menores fizeram do Coração de Cristo objeto de meditação e pregação, de estudo e ilustração ascético-doutrinal, de invocação e culto, chegando a ver no Coração de Cristo a síntese e a verdadeira meta de toda a sua espiritualidade ligada ao divino Redentor. Com Boaventura, a verdadeira devoção, a espiritualidade e o culto do Coração de Jesus começam a tomar forma concreta na Ordem Seráfica. Ele já falava de um duplo objeto do culto ao Coração de Jesus: o Coração físico e o simbólico. Tratou ainda da finalidade do culto e das práticas devocionais. Afirmou que o objeto desse culto é o infinito amor, a infinita ternura do Coração de Cristo. Que o Coração de Jesus é o símbolo de seu grande amor pela humanidade. É um amor pleno, total e permanentemente novo. Disse também que o nosso amor por Cristo também precisa ser assim, porque a finalidade da devoção ao Coração de Cristo é exatamente a resposta de amor a esse amor do Senhor.

Constata-se assim, as Revelações do Divino Espírito Santo:

Sou Eu que te falei pelos Profetas,
e multipliquei-lhes as visões;
e por meio dos mesmos Profetas
Me descobri (a vós) sob diferentes figuras.
Acaso poderei Eu ocultar a Abraão
o que estou para fazer...
O Senhor Deus não faz nada sem
ter revelado antes o Seu segredo
aos Profetas Seus Servos;
porque (é Ele) quem anuncia
a Sua Palavra ao homem,
(e) o Seu Nome é: Senhor Deus dos Exércitos”17.


1N. Harnan, M.S.C., na Revista do Clero – Clergy Review – 1967, p. 621.
2C. Sondermeijer, S.C.J., “A Devoção ao Sagrado Coração de Jesus em Nossos Dias”, pp. 5-6; Traduzido do inglês por Pe. Otto Seidel, S.C.J., Edições Paulinas, 1975.
3C. Sondermeijer, S.C.J., ob. cit., p. 9.
4“A Vida e o Culto de Santo Antônio”, por Fr. Luiz, O.F.M., 1ª Parte, Cap. XXIII, pp. 238-240; 3ª Edição, Kevelaer Butzon e Bercker Editores Pontifícios, 1907.
5Êxod. 17, 1-7.
6Jo. 7, 38.
7Jo. 7, 39.
8Is. 12, 3.
9Jo. 19, 34-37.
10C. Sondermeijer, S.C.J., ob. cit., pp. 9-14.
11Pág. 25, Paris.
12Pe. J. de Galliffet, op. cit., p. 25-26.
13Pe. J. de Galliffet, op. cit., p. 26.
14Pe. J. de Galliffet, op. cit., p. 132.
15“Compêndio da Vida da Irmã Margarida Maria Alacoque, Religiosa da Visitação de Santa Maria”, pelo Pe. João Croiset, S.J., “Prólogo”, XIII-XV, Tradução do Texto Original Francês por Roberto de Vasconcellos; Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro, 1950.
16http://sagradocoracaobebedouro.com.br/devocao.php
17Os. 12, 10; Gên. 18, 17; Am. 3, 7; 4, 13.


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