O
Discípulo que Jesus Amava
e
o Sagrado Coração
“Erat
ergo recumbens unus ex discipulis ejus in sinu Jesu, quem diligebat
Jesus. Innuit ergo huic Simon Petrus, et dixit ei: Quis est, de quo
dicit? Itaque cum recubuisset ille supra pectus Jesu, dicit ei:
Domine, quis est? Respondit Jesus: ille est cui ego intinctum panem
porrexero. Et cum intinxisset panem, dedit Judae Simonis Iscariotae.
Et post buccellam, introivit in eum Satanas”1.
“Ora
um dos seus discípulos, ao qual Jesus amava, estava recostado
sobre o seio de Jesus. A este, pois, fez Simão Pedro sinal, e
disse-lhe: De quem fala Ele? Aquele (discípulo), pois,
tendo-se reclinado sobre o peito de Jesus, disse-lhe: Senhor,
quem é esse? Jesus respondeu: É aquele a quem Eu der um bocado de
pão molhado. E tendo molhado um bocado de pão, deu-o a Judas
Iscariotes, filho de Simão. E, atrás do bocado, entrou nele
Satanás”2.
1
– “João foi o único
Evangelista que recebeu do Senhor o dom extraordinário e exclusivo
de dizer, acerca do Filho de Deus, coisas que podiam excitar as
inteligências atentas dos pequeninos, embora estes não fossem
capazes de as pôr em prática. Quanto às inteligências dos mais
adiantados, que estão prestes a atingir na vida interior a idade
viril, dá-lhes nestas palavras, alguma coisa de que podem tirar
objeto de meditação e de alimento. Durante a Ceia
reclinou-se sobre o Peito do Senhor,3
o que mostra que bebeu do íntimo do Seu Coração, mistérios
bastante profundos”.4
2
– “Não vos afanais, meus Amigos da Cruz, de ser amigos de
Deus, ou de tal querer-vos tornar? Resolvei, pois, beber o cálice
que é preciso, necessariamente, beber, para se tornar amigo de Deus.
Calicem Domini biberunt et amici Dei facti sunt – Beberam o
cálice do Senhor e se tornaram amigos de Deus5.
O bem-amado Benjamin teve o cálice e seus outros irmãos tiveram
apenas o fermento6.
O grande favorito de Jesus Cristo teve o seu Coração, subiu
o Calvário e bebeu do cálice7.
Potestis bibere calicem – Podeis beber o cálice que eu
beberei?8
É bom desejar a glória de Deus; mas desejá-la e pedi-la sem se
resolver a tudo sofrer é fazer um pedido louco e extravagante:
nescitis quid petatis - Não sabeis o que pedis9.10
3
– “Um
dos seus discípulos”,
São João Evangelista.11
4
– “Recostado...
no seio de Jesus... – Era
costume antigo, aceito entre os judeus, tomarem-se as refeições
recostados sobre leitos. Deste modo, João necessariamente devia
repousar a testa no regaço de Cristo, pois estava ao seu lado”.12
5
– “Os
Hebreus costumavam pôr-se à mesa em leitos guarnecidos de coxins,
firmando-se nos braços esquerdo a fim de terem o braço direito
livre para tomar a comida e estendendo os pés em direção à
parede. Nessa posição, a cabeça do que estava adiante vinha a
tocar no peito do que lhe ficava imediato, de modo que se reclinava
em seu seio”.13
6
– “Os convivas se punham à
mesa, reclinados sobre uma espécie de leito ou sofá, de tal modo
que o segundo tinha naturalmente a cabeça à altura do peito do
primeiro conviva. O discípulo que assim se tinha recostado sobre o
Coração de Jesus, era S. João, o Apóstolo virgem,
aquele a quem, por isso, amava Jesus de modo particular. Que outro,
aliás, teria tomado tanta liberdade? Os puros amam os
puros, compreendem-se e
naturalmente se procuram. Por ser puro
ousa S. João
interrogar o Mestre e
somente a ele disse Jesus quem havia de traí-lo.
Pensam
os intérpretes que o discípulo amado transmitiu a S. Pedro a
revelação do Salvador. – S. João que, no Cenáculo,
tomou posse, por assim dizer, do Coração de Jesus, foi também o
Apóstolo do Coração de Jesus”.14
7
– “Como os convivas estavam
todos encostados nos leitos, apoiados no cotovelo esquerdo para
conservarem livre a mão direita, voltavam-se as costas uns aos
outros; bastava, porém, um leve movimento para trás para recostar a
cabeça no peito do que estava atrás: chamava-se isto estar
no seio dele. Era o caso de
São João”.15
8
– “Estaba recostado delante
de Jesús, pudiendo hablarle en secreto con sólo volver la cabeza, y
Jesús a él al oído con sólo inclinarse hacia adelante”.16
9
– “Provavelmente o único
Apóstolo que não perguntou: Sou eu?
Foi João, porque tinha naquele momento recostada a cabeça sobre o
Sagrado Peito do Divino Salvador. João mostrou-se sempre orgulhoso
deste fato e todas as vezes que fala de si diz que é aquele
a quem Jesus amava...”.17
10
– “Nos Evangelistas algo de
mais solene anuncia aqui a Hora Sagrada e a aproximação do
Mistério. Para esta Ceia augusta, vemos os discípulos, segundo o
costume do Oriente, meio deitados sobre uma espécie de leitos. Os
convidados de ordinário tomavam lugar três a três, e estes leitos
de festa chamavam-se: triclinia,
por causa do uso e da disposição.18
É o que indica S. João, quando diz que tinha o rosto voltado ao
Peito e à Face do Mestre. Pedro estava do outro lado do triclinium,
como veremos mais longe; Jesus entre os dois. O lugar do jovem
discípulo era o que se chamava o seio do pai de família,
a que o Evangelho faz alusão. Além disso havia aqui uma
significação mística; Orígenes compara o repouso
sagrado de João no seio do Verbo, ao repouso do próprio Verbo no
seio de seu Pai”19.20
Jesus
Crucificado
recebe
no lado
o
golpe da lança21
1ª
Meditação: Opinam os judeus que Jesus leva muito tempo a
morrer, por isso, insistem junto de Pilatos para que lhe sejam
quebradas as pernas provocando assim mais rapidamente a morte com
novos espasmos e novos tormentos.
Alegam
como motivo a iminente solenidade22
aparentando escrúpulo em deixar pendurado na cruz o condenado,
durante o dia festivo, eles que nenhum escrúpulo tiveram em condenar
um inocente.23
Pilatos acedendo ao pedido deles, manda uma decuria de legionários
que após haverem despedaçado os ossos aos infelizes ladrões,
verificando que Jesus já estava morto, passam além sem tocá-Lo.24
Há, todavia, entre eles um mais cruel, o qual suspeitando esteja
Jesus ainda vivo, para lisonjear os bárbaros instintos dos judeus,
que continuam com infernal algazarra a insultar o Nazareno, com forte
e firme golpe de lança, lhe transpassa o peito.25
Observemos
como no fato de não se quebrarem os ossos de Jesus e de transpassar
o cadáver, está a realização de mais uma profecia26
registrada nos livros de Moisés e confirmada pelo mesmo Salvador.27
Não obstante isso, a alma, apaixonada do judaísmo nada enxerga
continuando no mesmo ódio intransigentemente feroz, na mesma
cegueira, na mesma dureza de coração.
A
caridade de Jesus continua a jorrar ondas de calor benéfico do seu
bendito Corpo, ainda que separado da Alma!
Apesar
da perfídia tenaz e dos propósitos de que aninham em seus corações,
Jesus não deixa de estimulá-los com graças interiores,
convidando-os a se penitenciarem e chorarem o grande crime do
deicídio.28
São,
todavia, inúteis esforços.
Vejo
nisto, ó meu Deus, a reprodução fiel das relações que medeiam
entre Vós e minha alma.
Inúmeras
vezes batestes em meu coração, pedindo hospedagem iluminando-me com
inspirações, sacudindo-me com salutares terrores, aliciando-me com
a visão do prêmio, seduzindo-me com os Vossos carinhos. Todavia,
devo confessar que outras tantas vezes resisti, ora abertamente, ora
indireta e hipocritamente: Tenho levado uma vida de vai e vens, de
avançadas e recuos, de passo adiante e passo atrás, um verdadeiro
círculo vicioso... E no entanto, ainda me tolerais!
Jesus,
compreendo afinal o significado sublime que encerra o fato da
integridade dos Vossos ossos.
Quereis
com isso demonstrar que nada é capaz de demover-Vos ou abalar-Vos na
Vossa paciência, humildade e mui principalmente caridade e
misericórdia com que insistis para converter os Vossos inimigos.
De
um lado a maldade humana para provocar-Vos, do outro a solidez das
Vossas virtudes a aumentar, a pacientar, a esperar. De um lado a
obstinação diabólica em preparar um futuro de desgraças e de
calamidade, de outro a santa e incuncussa perseverança do Vosso
amor a pôr barreiras intransponíveis entre as almas pecadoras e o
Inferno.29
Deus Onipotente, que desprezais o pretenso valor dos soberbos e
amparais a aparente fraqueza dos humildes;30
extingui do meu coração a soberba que Vos é tão odiosa31
e concedei-me a santa humildade, que me torne dócil às Vossas
inspirações, que quebre toda resistência das minhas paixões, que
me atire vencido aos braços da Vossa misericórdia.
Arraigai
em meu coração, particularmente, a caridade fraterna, amando
deveras e desinteressadamente a quem teima em me molestar.
E
como está escrito no Profeta Zacarias, que ninguém que Vos
contemple transpassado e crucificado, deixará de comover-se até as
lágrimas,32
rogo-Vos, ó bom Jesus, se cumpra em mim esta piedosa profecia. Que
eu derrame uma torrente de pranto, que me desfaça e derreta na onda
da contrição e compaixão. Ó Chaga sacratíssima do Coração de
Jesus, em ti espero.33
Espero o perdão, a graça da santidade e por fim a graça da
salvação.
Propósito:
A integridade dos ossos de Jesus significa a solidez das virtudes.
Deus me livre de uma virtude feita de carinhos, consolações,
ternuras e doçuras. O de que preciso é do pão forte da humildade,
obediência e caridade. Examinar-me-ei sobre isto.
2ª
Meditação: Não quis Nosso
Senhor que o ferissem enquanto estava vivo, para que ninguém
julgasse sua morte consequência inevitável
do violento golpe da lança. O que levou a morrer foi o amor.34
Após o falecimento quis que lhe abrissem o Coração a fim de que
através da Chaga exterior pudéssemos penetrar no íntimo de sua
Alma e aí contemplar a Chaga espiritual mais profunda e abismal que
o amor para conosco lhe abrira.35
Observa,
ó minha alma, como o agudo ferro romano lançado com pulso forte,
abre-lhe o tórax, interna-se-lhe e transpassa-lhe o Coração de
lado a lado.36
Nota como a ferida é tão ampla e de tal comprimento,37
a deixar passar uma mão.38
E agora que estão descerradas as portas deste Coração divino e
amantíssimo, entra com a tua mente, circunvaga o teu olhar e
contempla extasiado as maravilhas do amor divino.39
Foi esta Chaga invisível e
espiritual que como rios de sua fonte, saíram as Chagas visíveis
das mãos, dos pés, da cabeça e das outras, espalhadas em todo o
Corpo Santíssimo.40
Foi este foco central e
inexaurível que produziu toda a tragédia sangrenta da Paixão.
Haverá quem tais coisas pense e tal cena contemple sem se sentir
violentamente impelido a amar ao bom Deus?41
Mais ainda. Jesus sabe que os meus pecados me enchem de terror e a
minha covardia afasta-me da perseverança da divina Majestade. Ora,
que faz o amável Senhor! Para dissipar os justos temores da divina
justiça, para animar-me a que volte a Ele, me aproxime, e renasça
em mim e se fortaleça a esperança do perdão dos meus crimes, curva
a cabeça, como que acenando-me e convidando: abre-me o Coração
para que aí me acolha como em refúgio seguro.42
Quanta
confiança não suscita a Vossa bondade, ó bom Jesus?
Eis
que me movo, eis que me aproximo, eis que transponho o limiar deste
sancto sanctorum, tremendo de respeito, temeroso, não me
repilais, porquanto, grande é a minha indignidade.43
No universo inteiro não há lugar de tão remansosa paz e tão
tranquila segurança que a este se compare. É a morada do jubilo, é
a fonte da sua vida; é o recreio da alma que procura repouso depois
que volta batida pelas procelas das paixões.44
Jesus dulcíssimo, permiti que fixe aqui neste tabernáculo do amor,
a minha morada eterna.
Coração
puríssimo, trono augusto da Divindade, santuário da caridade,
sacrário do amor, humilde e reverencialmente vos saúdo e vos
adoro.45
Vós sois a fonte da graça; ora, como admitir que o pobre peregrino
que vem da longínqua região do pecado, passe aqui por perto e se
lhe negue um pouco de água bendita e refrigerante que lhe mate a
sede, que o purifique e salve? Coração doce, manso e suave, de Vós
espero a graça da salvação.
Propósito:
A devoção ao Sagrado Coração de Jesus! Eis a
devoção-rainha que me proponho cultivar com todo afinco, porquanto,
ela é a síntese, o conjunto e o resumo de toda nossa fé.
3ª
Meditação: Não sentiu Nosso
Senhor a lançada porque já era cadáver. Mas, assim como tudo que
dEle fora prenunciado se realizou, assim é de supor, seja agora que
se cumpre literalmente a profecia do Santo velho Simeão a Maria,
quando lá no templo,46
fitando-A com olhar fatídico, lhe disse que, uma espada havia de lhe
varar o Coração.47
A Alma de Maria está
alojada bem dentro do Coração de Jesus pelo oceânico amor que liga
a Mãe ao Filho divino;48
daí pois conhecer que o aço que transpassa o Coração do Redentor
transverbere também O da Santíssima Virgem. Por
isso, os Padres da Igreja consideram Nossa Senhora mais do que uma
simples Mártir, visto como Ela além das dores físicas sofre moral
e espiritualmente.49
Grande
foi a dor de Maria ao presenciar a Crucifixão do Filho.50
Maior foi a sua aflição ao assistir no lenho o penoso desenrolar
das suas agonias, pois que sua Alma era o reflexo e o eco da Paixão
do Filho.51
Suma, porém, é a dor atual
provocada pelo golpe da lança que a mão brutal de Longuinho
arremessou contra o cadáver de Jesus. Foi esta a dor máxima
adicionada a inúmeras outras dores, como no corpo de Jesus foi a
ferida máxima comparada as outras.52
Enquanto,
ó minha alma ofereces o tributo de tua compaixão à Rainha dos
Mártires,53
indaga e pesquisa qual a verdadeira causa das dores de Maria
Santíssima. O móvel desta grande pena foi o amor. Muito sofre
porque muito ama. A dor está na razão direta do amor, e na razão
inversa da indiferença. Se portanto pouco ou nenhuma é tua pena, se
diminuta é a tua compaixão, se exíguo e leve o teu tributo de
pesar pela morte do
Salvador, é porque pouco ou nada O amas.
Muito
ingrata e de mui dura fibra és, ó minha alma, se a comover-te não
vale a morte de um Deus, nem a feroz lançada que te descobriu e
revelou em seu Coração o imenso incêndio de amor que teve para
contigo!
Repara,
ó infeliz, que tateais as trevas, e focinhas nos pântanos, repara
que Jesus abrindo-te o peito, oferece-te o Coração.54
Porque não te aproveitas de ocasião tão propícia amando a Jesus
por meio do Coração dEle?
Ele
te o cede, para que faças dele o uso que melhor te aprouver.
Pois
bem, restitui-o, e oferece-o ao Eterno em pagamento da dívida de
gratidão e amor que lhe deves.
Pensamento
consolador! De fato, é certo que vós, ó Jesus, sois a minha
cabeça; ora, se os olhos de
minha face, são meus por serem da minha face, porque não será meu
o Vosso Coração pertencendo a uma Cabeça que é também minha?55
Nunca pensei em tal;
refletindo porém agora, vejo que estou de parabéns, porquanto estou
com a solução do intrincado problema nas mãos, havendo encontrado
um Coração com o qual ser-me-á dado amar-vos solvendo assim o meu
débito. Concedei-me, pois, que por meio do Vosso Coração eu vos
ame, ó caro Jesus.56
Virgem Santa, intercedei por mim e assisti-me: porque reconheço-me
mui capaz de abusar até do Coração de Jesus. Fazei que meu coração
seja todo do vosso Filho, como o de Jesus é todo meu.
Propósito:
Por coração aqui, entendem
os Santos a vontade. Ora, se a vontade de Jesus é toda minha, é
justo que a minha vontade seja toda de Jesus, não à flor de lábios,
mas praticamente e através das provas que me surgirem pela frente.57
4ª
Meditação: Ferido Jesus em
seu lado pela dura lançada, sai-lhe da Chaga um jorro de Sangue
misturado com Água;58
demonstrando mais uma vez sua dúplice Natureza; a Humana pela
presença dos humores que entram a constituir o composto humano;59
a Divina pelo prodígio que acaba de operar,60
porquanto, apesar de picado, cortado e ferido um cadáver, não há
hipótese de nos dar uma gota de água61
ou de sangue.62
É
pois esta uma ferida de origem Divina que o Evangelista, não chama
com o nome de chaga, mas de abertura, como que a significar a porta
da Vida Eterna, aberta à todos que querem salvar-se; a parte mística
donde saíram a flux todas as graças, máxime os Sacramentos,63
simbolizado no Sangue e na
Água64
espadeirando-se em caudal copioso a fecundar o terreno árido do
mundo, a vitalizar a Santa Igreja, a alimentar e confortar os eleitos
que jornadeiam em busca da eternidade feliz.65
Muito
pois devemos a Jesus por esta nova ferida, a máxima, a qual bem que
não lhe fosse dolorosa, não deixou de ser meritória, havendo-a
previsto, aceito e oferecido ao Eterno Pai!
Desta
Chaga saiu o Sangue da minha redenção que saldou minhas dívidas
para com a Justiça Divina. Saiu a Água que me regenerou no Batismo
e repetidas vezes me purificou e me lavou na Confissão.66
Desta fonte bendita e inesgotável rebentam todas as graças, todas
as bênçãos, e misericórdias que me são necessárias para a vida
temporal e eterna.67
Esta
Chaga é a Arca Noética, o místico refúgio, onde posso acolher-me
para evitar o naufrágio universal. É a enseada segura onde guardo o
frágil barquinho da minha alma, quando o mar revolto e encapelado do
mundo e das paixões ameaça tragar-me em seus abismos. É o
recôncavo da rocha granítica, onde
se esconde a ave da minha alma quando regouga o temporal e é batida
pela tempestade.
Mas
ai de mim! Que esta mesma Chaga me será mostrada um dia pelo meu
Salvador transformado em meu Juiz, para convencer-me de ingratidão
indesculpável, de rebelião inescusável, caso não corresponda
agora as divinas inspirações e não ponha mãos a obra, a tratar do
negócio momentoso da minha salvação.68
De
todas as minhas iniquidades, contrito e penalizado acuso-me hoje, ó
Senhor, arrimado no esteio seguro da vossa misericórdia, certo de
que não me serão amanhã lançadas em rosto no tribunal da vossa
inflexível Justiça. Lavai-me com esta deificada Água, limpando-me
e purificando-me ainda mais com o vosso Sangue.
Permiti
escolha o vosso Coração como minha morada permanente.69
Sei
que não possuo a limpidez e pureza necessária para habitar Lugar
tão santo.
Sei
porém, que, se Vós o quiserdes tornareis minha alma inocente e
chamejante pela caridade.
Pelos
merecimentos pois do vosso Coração acudi-me na vida e amparai-me na
morte.
Confio
em Vós, sabendo que, se pela vossa misericórdia, tenho-as muito
maiores para me alentar e consolar.
Propósito:
Belos pensamentos, formosas ideias mas que nada valem sem as obras.
Se quero pois hospedar-me no Coração de Jesus, hei de na medida das
minhas forças, tornar-me semelhante a Jesus!
Coração
Aflito de Jesus, Vítima Universal.70
Assim
como todas as águas vão lançar-se no mar, assim todas as aflições
se reuniram no Coração de Jesus. Ele as aceitou com o mais sublime
devotamento, impelido por Seu amor para conosco, amor que chegou ao
excesso e, perdoem-nos a expressão, à loucura: pois, não é uma
loucura de amor da parte de Deus, ter querido se carregar de todas as
iniquidades do mundo, a fim de sofrer o castigo delas?
Jesus
Cristo sabia que todos os sacrifícios dos animais, oferecidos a Deus
no passado, não tinham podido satisfazer pelos pecados dos homens,
mas que era necessária uma Pessoa Divina para pagar o preço da
Redenção: que fez? Ofereceu-Se a Seu Pai, para aplacar Sua ira e
obter nosso perdão. Dois caminhos, então, apresentavam-se ante Ele,
um, de prazer e glória, outro, de padecimentos e opróbrios; qual
deles foi escolhido? Como Ele queria não só nos resgatar da morte,
mas ainda conseguir o amor de nossos corações, renunciou ao
prazer e à glória, e escolheu os padecimentos e opróbrios.71
Assim é que este amável Senhor, sem ser obrigado, tomou sobre Si
todas as nossas dívidas, como claramente se exprime o Profeta
Isaías: Vere languores nostros ipse tulit - Verdadeiramente Ele
foi o que tomou sobre si as nossas fraquezas.72
Eis
que, então, o Coração de Jesus, a Inocência, a Pureza, a
Santidade mesma, é carregado de todas as blasfêmias, de todas as
torpezas, de todos os sacrilégios, de todos os roubos, de todas as
impurezas e de todos os crimes dos homens; ei-Lo tornado, por nosso
amor, objeto das maldições divinas, por causa de nossos pecados
pelos quais Se obrigou a satisfazer à eterna Justiça; ei-Lo
carregado de tantas maldições quantos pecados mortais foram, são e
serão cometidos sobre a Terra. Neste estado é que Ele se apresenta
a Seu Pai, como culpado e responsável por todos os nossos crimes, e
Deus, Seu Pai, O condena por isso a padecer morte infame da cruz.
Então, foi que nosso Salvador se prostrou com a Face por terra,73
como se tivesse vergonha de levantar os olhos para o Céu, vendo-se
carregado de tantas iniquidades. Então, foi que Ele experimentou
aquela imensa angústia que lhe fez dizer: Minha Alma está triste
até a morte.74
Ó Pai eterno, como podeis ver Vosso Filho amadíssimo em tão grande
aflição? Bem sei, diz o Padre eterno, que Meu Filho é inocente,
mas, pois que Ele se encarregou de satisfazer à Minha Justiça por
todos os pecados dos homens, convém que Eu O abandone a todas às
aflições que esses pecados merecem: Eu O feri por causa da
iniquidade de Meu Povo.75
Ó
caridade incomparável do Coração de Jesus! Ele, nosso Deus, fez-Se
nosso Fiador, obrigando-Se a pagar nossas dívidas, segundo a bela
expressão do Apóstolo;76
e, depois de ter satisfeito por nós, prometeu-Nos da parte de Deus a
Vida Eterna. Também o Eclesiástico nos recomendou, há muitos
séculos, nunca nos esquecermos do benefício que devemos a Este
Celeste Fiador,77
que quis padecer tanto para nos obter a salvação.
Ó
caridade infinita do Coração de Jesus! Os médicos fazem todos os
esforços para curarem o enfermo por quem se interessam. Mas, qual é
o médico que toma sobre si a enfermidade de outrem, para o curar?
Jesus Cristo é o único Médico que tomou sobre Si nossas
enfermidades para as curar. O Verbo Divino não quis enviar outrem
para fazer este misericordioso ofício; Ele mesmo se dignou vir, para
ganhar todo nosso amor.
Ó
caridade verdadeiramente divina do Coração de Jesus! Ele não se
contentou de oferecer à Justiça Divina uma satisfação suficiente,
quis que ela fosse superabundante; digo superabundante,
porque, para nos resgatar, uma simples súplica do Homem Deus
bastava; mas, o que era suficiente, não satisfazia o Coração mais
amante que tem havido e pode haver.
Ó
caridade verdadeiramente inefável e inaudita do Coração de Jesus,
Vós nos obrigais a pormos em Vós confiança sem limites, pois nada
pode nos perturbar tanto, quanto Vós nos podeis sossegar. Cerquem-me
os pecados que tenho cometido, apertem-me os temores do futuro, armem
laços contra mim os Demônios; se peço misericórdia a Jesus Cristo
que me consagrou Seu Amor até morrer por mim, não posso perder a
confiança. Como, com efeito, poderia me abandonar o Deus, que por
amor de mim se entregou à morte? Ò Coração de Jesus, Vós sois o
Porto Seguro daqueles que, na tempestade, recorrem a Vós! Ó Pastor
vigilante, é errar, não esperar em Vós, uma vez que se tenha
vontade séria de se corrigir. Vós dissestes: “Sou Eu, não
temais, Sou Eu que aflijo e consolo. Eu envio algumas vezes a Meus
servos tribulações que se assemelham com o Inferno; mas, não tardo
em os livrar delas e consolá-los.
Eu
Sou vosso Advogado: vossa causa é Minha. Eu Sou vossa caução: vim
pagar vossas dívidas. Sou vosso Salvador: resgatei-Vos com o Meu
Sangue, não para vos abandonar, mas para vos enriquecer, tendo vós
Me custado tão alto preço.
Como
fugirei de quem Me busca, Eu que saí ao encontro daqueles que
queriam me ultrajar? Eu não voltei Meu rosto daqueles que Me feriam;
voltá-lo-ei daquele que quer Me adorar? Como Meus filhos podem
duvidar que os amo, vendo-Me entre as mãos de Meus inimigos por seu
amor? Já Me viram desprezar aquele que Me deu seu amor, ou aquele
que implorava Meu socorro? Eu chego ao ponto de ir à procura de quem
não Me busca”.
Prática
Minha
confiança no Coração de Jesus será sem limites, pois o amor que
Ele me tem, é sem limites. Venham perseguições, securas,
escrúpulos, tentações, temores de perder-me, direi sempre com o
Salmista: Ponho, Senhor, minha alma entre vossas Mãos; confio
plenamente em Vós, porque me resgatastes.78
Afetos
e Súplicas
Meus
Jesus, se Deus Vos carregou de todos os pecados dos homens,79
com que peso não aumentei pelos meus a Cruz que levastes até ao
Calvário? Ah! Meu terno Salvador, Vós víeis já, então, as
injúrias que eu vos havia de fazer: apesar disto, não deixastes de
amar-me e preparar-me estas grandes misericórdias, de que me
cumulastes depois. Se, então, vos tenho sido tão caro, eu, o mais
vil e ingrato dos pecadores, que tanto Vos ofendi, justo é que, a
vosso turno, Vós me sejais caro, ó meu Deus, Bondade e Beleza
infinitas. Ah! Oxalá nunca Vos houvesse contristado! Agora, meu
Jesus, vejo toda a indignidade de meu procedimento. Malditos pecados,
enchestes de amargura o Coração tão terno e amante do meu
Redentor! Perdoai-Me, meu Jesus, arrependo-me de Vos ter ofendido: no
futuro sereis o único objeto de meu amor. Ó Amabilidade infinita,
eu Vos amo de todo o meu coração, resolvido a não amar mais senão
a Vós. Senhor, com Santo Inácio Vos digo: Dai-Me vossa Graça e
vosso Amor, e satisfeito fico.
Oração
Jaculatória
Cordeiro
sem mancha, tantos padecimentos que sofrestes por mim, não fiquem
perdidos!
Exemplo
Joaquim
Gaudiello, irmão leigo da Congregação do Santíssimo Redentor, foi
toda a sua vida ardente amigo da cruz, o que o tornou singularmente
caro ao Coração generoso de Jesus.
Quando
ele se resolveu a ser religioso, perguntaram-lhe porque queria
abraçar condição tão humilde: “É porque, respondeu ele,
quero com o desprezo do mundo seguir a Jesus Cristo vilipendiado e
desprezado”. Joaquim não cessou de fazer a seu corpo guerra
cruel, sujeitando-o à mortificação e ao trabalho, e, o que é
digno dos maiores elogios, soube unir os trabalhos manuais com o mais
alto espírito de oração. Recorria a Deus em todas as suas
necessidades, “porque Ele é meu Pai, dizia, a Ele
recorro como filho Seu”. Jesus no Santíssimo Sacramento tinha
absorvido seu coração; ele vivia tão ávido da Santa Comunhão,
que lhe permitiram fazê-la todos os dias. Em seus momentos de lazer,
recolhia-se à igreja para derramar seu coração no Coração do
amável Jesus. Como Jesus era toda a sua glória, Joaquim não tinha
em conta alguma as vaidades do mundo, e punha toda a sua felicidade
nas humilhações e nos desprezos. “Que é o mundo,
costumava dizer, ainda às mais altas personagens, que é o mundo
senão uma sombra, um fumo, mas, fumo do Inferno?” Apenas na
idade de 22 anos, enfermou-se, e dessa doença morreu. Interrogado
como passava no leito de dores: “contemplo no meu espelho”,
respondeu mostrando o crucifixo. Seu amor dos padecimentos e sua
conformidade com a vontade de Deus eram verdadeiramente admiráveis.
A um padre que lhe perguntou certo dia, quando ele queria ir para o
Céu, respondeu todo alegre: “Quero ir, quando meu Jesus o
quiser”. Seu amor ao Santíssimo Sacramento era tão terno, que
parecia transformá-lo em serafim, quando diante do tabernáculo. Um
dia num transporte de amor, ele disse ao padre Mazzini: “Tomai
um cutelo, abri meu peito, tirai meu coração e colocai-o no
tabernáculo junto do Santíssimo Sacramento”. Sua tristeza era
não poder morrer crucificado como Jesus Cristo. Dizia-se-lhe, para o
consolar, que seu leito era uma cruz: “Não, respondia
gemendo, não é cruz para mim, porque sou fortificado por Jesus
crucificado e consolado nas amarguras”. Puseram diante dele uma
pequena estátua de Jesus atado à coluna; apenas a viu, desfez-se em
lágrimas, e disse suspirando: “Ai! Não poder eu tornar-me
semelhante a Vós, ó meu Jesus flagelado por mim! Enviai-me
padecimentos e chagas, ó meu Salvador!” Sentindo que a morte
se aproximava, ele testemunhou desejo de receber a Extrema Unção,
dizendo: “É a última consolação que Jesus Cristo nos deixou
na Sua bondade”. Depois de ter recebido a Santa Comunhão,
ficou arrebatado fora de si; sua figura assumiu ar angélico, e todo
o dia ele ficou neste estado sobrenatural. Pela tarde,
perguntaram-lhe como estava: “Eu sinto, disse, Jesus no
meu coração”. Na véspera de sua morte, exclamava em celeste
transporte: “Paraíso! Paraíso!” Sendo o primeiro
redentorista que morria, ele dizia a seus irmãos, por último adeus,
estas luminosas palavras: “Eu sou o porta-estandarte!” Sua
agonia foi um ato ininterrupto de amor, e ele expirou pronunciando os
Santos Nomes de Jesus e Maria, em 1741. O Senhor se dignou
manifestar, por diversos prodígios, a santidade de Seu servo. Santo
Afonso lhe chamava “moço dotado de todas as virtudes”.
A
Humildade de Coração
Segundo
o Sagrado Coração de Jesus80
Ó
Jesus manso e humilde de Coração, fazei o meu coração semelhante
ao Vosso.
1
– Só uma vez Jesus disse expressamente: aprendei de Mim, e disse-o
a propósito da humildade: “Aprendei
de Mim que Sou manso e humilde de Coração”.81
Sabendo bem como
seria difícil à nossa natureza orgulhosa, a prática da verdadeira
humildade, parece ter querido dar-nos assim um particular estímulo.
O Seu exemplo, as Suas inauditas humilhações que O tornaram “o
opróbrio dos homens e a abjeção da plebe”,82
que por nós O “fizeram
pecado83
e que O carregaram com todas as nossas iniquidades, até ao ponto de
ser “contado entre
os maus”,84
são o maior estímulo e o maior convite à prática da humildade.
Jesus
fala-nos diretamente da humildade do coração porque toda a virtude,
toda a reforma de vida, para serem sinceras devem
provir do coração, de onde vêm os pensamentos e as ações. Uma
atitude exterior, um modo de falar humilde, são vãos sem a
humildade de coração e são muitas vezes a máscara de um orgulho
refinado e por isso mais perigoso. “Purificai
primeiro o que está dentro –
dizia Jesus condenando a hipocrisia dos fariseus – para
que também o que está fora fique limpo”.85
E Santo Tomás ensina que “da
disposição interior para a humildade procedem certos sinais nas
palavras, nos gestos, nas ações, mediante os quais se manifesta no
exterior o que está escondido no interior”.86
Se
queres, pois, ser verdadeiramente humilde, exercita-te acima de tudo
na humildade do coração, aprofundando cada vez mais o conhecimento
sincero do teu nada e da tua pequenez. Aprende a reconhecer
sinceramente os teus defeitos, as tuas faltas, sem as quereres
atribuir senão à tua miséria, e reconhece o bem que está em ti
como puro dom de Deus, nunca o julgando propriedade tua.
2
– A humildade do coração é uma virtude difícil e fácil ao
mesmo tempo; difícil, porque contraria o orgulho que nos leva a
exalta-nos; fácil, porque não precisamos de ir longe procurar-lhe
as causas, já que as temos – e com que abundância! – em nós
próprios, na nossa miséria. Para sermos humildes, porém, não
basta sermos miseráveis; só é humilde quem reconhece sinceramente
a própria miséria e age em consequência.
Como
o homem é soberbo por instinto, não pode chegar a este
reconhecimento sem a graça de Deus. Mas como Deus não recusa a
ninguém as graças necessárias, dirigi-te a Ele e, com confiança e
constância, pede-lhe a humildade do coração. Pede-lha em nome de
Jesus que tanto Se humilhou para a glória do Pai e para tua
salvação, “pede em seu nome e receberás”. 87
Se apesar do desejo sincero de te tornares humilde, sentes,
muitas vezes, agitarem-se em ti movimentos de orgulho, de vanglória,
de vã complacência, em vez de desanimares, reconhece-os como fruto
da tua má natureza e serve-te deles como de um novo motivo para te
humilhares.
Lembra-te,
além disso, de que podes praticar sempre a humildade do coração,
mesmo quando não puderes fazer atos particulares e exteriores de
humildade, quando ninguém te humilha, quando até pelo contrário,
és alvo da confiança, da estima, do louvor dos outros. Santa Teresa
do Menino Jesus dizia em tais circunstâncias: “Isto não
poderia inspirar-me vaidade, tenho continuamente presente no
pensamento, a lembrança do que sou”;88
e tu pensa que “não és mais santo por ser louvado ou mais
pecador por ser censurado”.89
Assim quanto mais te exaltarem, mais te deves humilhar em teu
coração. Praticada desta maneira, a humildade do coração far-te-á
conceber tão baixo conceito de ti mesmo, que jamais serás capaz de
preferir-te a alguém, pois todos julgarás melhores do que tu, mais
dignos de estima, de respeito, de consideração; assim estarás em
paz, nunca sendo perturbado pelo desejo de superar os outros nem
pelas humilhações recebidas. A paz interior é fruto da humildade,
pois Jesus disse: “Aprendei de Mim que sou manso e
humilde de coração e achareis descanso para as vossas almas”.90
O
Sagrado Coração de Jesus
não
Pode nos Enganar
“Consideremos,
que não é só a excelência do Coração de Jesus, por ser Coração
de um Deus, como... meditamos, que nos deve determinar a abraçar a
Sua Devoção; mas, também, as Promessas das Graças com que o
próprio Jesus afirmou estar disposto a enriquecer os devotos do Seu
Coração. E quanto necessitamos nós dessas graças, sem as quais
nada podemos nós, bem no-lo ensina a Fé e o Evangelho, que
registrou estas palavras saídas de Seus lábios divinos: 'Sem Mim,
sem a Minha Graça, nada podereis fazer'91.
Despertemos, pois, a nossa Fé, lembrados de que Jesus é a Verdade,
e que, por conseguinte, não pode mentir, nem faltar à palavra dada
em favor dos devotos de Seu Coração, a não ser que deixemos de
praticar com fervor, sinceridade e perseverança esta Devoção; e,
para estimular cada vez mais a nossa piedade, recordemos (sempre)
estas Promessas.
Está,
pois, em nossas mãos enriquecermo-nos com tamanhos Tesouros. Se,
porventura, não temos visto realizadas em nós estas Promessas,
examinemos, se a nossa devoção tem sido constante, ou se depois de
empreendida, não a temos descuidado; se tem sido verdadeira, a
saber, se temos acompanhado a sua prática com a emenda da nossa vida
e com a fuga dos pecados voluntários; se tem sido sempre acompanhada
de confiança e alimentada pela firme esperança de conseguir o que
temos pedido, pelos merecimentos do Divino Coração. Não nos
afastemos hoje dos pés de Jesus Cristo, sem tomar a firme resolução
de acabar com os defeitos cometidos até ao presente, na prática
desta santa Devoção, e confiemos em Sua Palavra, que não deixará
de conceder-nos as Graças prometidas”.92
“Eu
o Senhor, a seu tempo farei (tudo) isto subitamente”.93
“Por
amor de Mim, por amor de Mim o farei, para que Eu não seja
blasfemado (pelos teus inimigos)”.94
“Se
não cremos, Ele permanece fiel, não pode negar-Se a Si mesmo”.95
“Deus
é verdadeiro”.96
A
Chave do Céu
Alma
cristã, queres de hoje em diante viver segura, garantindo o
importante negócio da tua salvação eterna? Queres adquirir o
direito à glória eterna do Céu? Pois bem, tu já viste que o
Sagrado Coração de Jesus, no excesso da misericórdia do Seu amor,
pôs em tuas mãos a chave de ouro que te abrirá as portas do Céu,
no último instante de tua vida. Esta chave de ouro está à tua
disposição, basta que a queiras, basta que faças as nove
sextas-feiras em honra do Sacratíssimo Coração Jesus. Podia bem o
Bom Jesus liberalizar-te, melhor do assim, a salvação de tua alma?
Grata e reconhecida, prostra-te a Seus pés, agradece-Lhe de todo o
coração por ter posto a teu dispor um meio tão fácil de salvação
e promete-Lhe que hás de começar já esta devoção. Feliz de ti se
perseverares: o Paraíso será teu galardão, porque bem o sabes,
Jesus é fiel em Suas promessas.97
Os
Emblemas do Santíssimo Coração de Jesus98
As
Chamas
Considerações:
É manifesta a significação das chamas que cercam o Sagrado
Coração. Santa Margarida viu-as já envolvendo toda a Pessoa de
Jesus Cristo, já agitando-se como labareda dentro do seu Peito
aberto pela Chaga do Lado. – O
meu divino Salvador, diz
a Santa, significou-me
que as chamas simbolizam a abundância dos tesouros, cujo manancial
se encontra no seu Coração. Numa
palavra, todos os instrumentos da Paixão que o rodeiam, mas,
sobretudo, as chamas, significam
que o amor imenso deste divino Coração para com os homens foi a
causa de todos os sofrimentos e amarguras que por nós quis sofrer.
Aplicações:
O amor do Coração de Jesus, tanto o amor eterno do Verbo Divino,
como o seu amor humano depois de incarnar, mostrou-se por obras
admiráveis, que os Santos chamam loucuras de amor. Sendo Deus, tomou
por nosso amor a forma de servo, quis ser menino, padecer pobreza e
fadiga... sofreu todas as nossas misérias, exceto o pecado.
Afetos:
O vosso Coração Divino vos levou, meu Salvador, a morrer entre
atrozes tormentos por nós escravos e pecadores! E subindo ao Céu
achastes modo de ficar ao mesmo tempo na terra embora escondido no
Sacramento dos nossos altares, onde sois o viático da nossa alma! E
lá no Seio do Eterno Pai intercedeis por nós e mandais à nossa
alma o vosso Divino Espírito.
O
amor mostra-se por obras, não consiste em palavras apenas.
E quais são as obras com que temos correspondido ao amor do Coração
de Jesus? Como estará queixoso da nossa frieza e ingratidão!
Propósitos:
Acendamos o nosso amor na devoção ao Sagrado de Jesus, na meditação
e sobretudo na comunhão, que é o Sacramento do amor. As
faltas voluntárias são grande impedimento ao fervor da caridade.
Examinemo-nos. Tenhamos confusão e pesar. Supliquemos ao Coração
de Jesus que mande ao nosso coração, como fez a Santa Margarida
Maria, uma das chamas que O abrasam!
A
Cruz
Considerações:
“A
Cruz”, segundo Santa Margarida Maria, “significa que desde o
primeiro instante da Incarnação, isto é, desde que foi formado o
Santíssimo Coração, lhe estiveram presentes e aceitou por nosso
amor todas as humilhações e dores que havia de sofrer na sua
Humanidade Sagrada, no curso da sua vida mortal e durante a Paixão,
e os ultrajes a que havia de estar exposto pela maldade dos homens
até ao fim dos séculos no Sacramento Augustíssimo dos nossos
altares – Com
batismo de sangue hei de ser batizado e como estou cheio de ânsias
até alcançar esse meu desejo”,
disse Jesus.99
Aplicações:
Sem amor à cruz, isto é, sem espírito de sacrifício, não pode
haver progresso na virtude nem zelo da glória de Deus. Quem
ama a sua vida, diz
Jesus, perdê-la-á.
Qual é o nosso amor à cruz? Estamos dispostos a sacrificar por amor
de Jesus a nossa reputação, a desprezar a estima das criaturas, a
vencer os respeitos humanos? Aceitamos com paciência e até com amor
as pequenas cruzes que o Senhor nos manda cada dia? Estamos prontos a
sacrificar comodidades e tudo quanto há neste
mundo e a mortificar as nossas paixões desordenadas, para conservar
a graça de Deus, imitar a Jesus... mostrar-lhe o nosso amor?
Estaríamos dispostos a dar por Ele a nossa vida, como os Mártires?
Quem foge da
Cruz, foge de Jesus.
Afetos:
Peçamos instantemente ao Sagrado Coração o espírito de
sacrifício.
A
Coroa de Espinhos e a Ferida do Coração
Considerações:
Segundo o Divino Salvador explicou a Santa Margarida Maria, a coroa
de espinhos significa
os desgostos e amarguras que lhe causaram nossos pecados.
Os
soldados no pretório de Pilatos puseram na Cabeça de Jesus uma
coroa de agudos espinhos, mas
bem mais cruéis são os espinhos que nós ousamos cravar no seu
Coração, caindo em novos pecados.
A
ferida aberta mostra-nos que esse Coração foi ferido para ser o
nosso asilo e refúgio. O
vosso lado, ó Jesus, diz
São Bernardo, foi
atravessado para nos abrir a entrada do Vosso Coração.
Aplicações:
Jesus, no Jardim das Oliveiras, vendo a ingratidão com que os homens
haviam de corresponder ao seu amor, a impiedade dos idólatras e
infiéis, as heresias, blasfêmias e sacrilégios e toda a sorte de
abominações dos mesmos batizados, e mais ainda as friezas e pecados
das almas que lhe são consagradas, sentia no seu Coração uma
agonia de morte. À Santa Margarida Maria pedia que as almas que mais
o conhecem arrancassem esses espinhos com atos de desagravo e de amor
e emendando-se de suas culpas voluntárias.
Temos
procurado desagravar ou consolar assim o Sagrado Coração de Jesus?
A Chaga aberta está nos convidando à confiança. Quem há de temer
vendo que o Coração de Jesus está aberto para nosso refúgio? Nada
nos assuste, nem mesmo os nossos enormes pecados. Esse Coração
aberto é abrigo seguro, tanto na vida, como na morte. Procuremos
esconder-nos nessa Chaga quando os trabalhos e tentações nos
expuserem ao perigo de
perder a paciência e a graça de Deus.
Colóquio:
Façamos fervorosas atos de desagravo e reparação pelos espinhos
que os homens e nós mesmos continuamos a cravar nesse Coração
Divino. Pratiquemos a Comunhão reparadora e façamos-lhe visitas de
desagravo.100
Excitemo-nos à confiança. Repitamos muitas vezes a
jaculatória indulgenciada: Sagrado
Coração de Jesus, tenho confiança em Vós.
1Biblia
Sacra Juxta Vulgatam Clementinam, Evangelium Secundum Joannem, Cap.
XIII, 23-27; Typis Societatis S. Joannis Evang., Desclée et Socii
Edit. Pont., Romae – Tornaci – Parisiis, 1927.
2Bíblia
Sagrada – Traduzida da Vulgata e Anotada pelo Pe. Matos Soares,
Evangelho de Jesus Cristo Segundo São João, Cap. 13, 23-27; 13ª
Edição, Edições Paulinas, São Paulo, 1961.
3Jo.
13, 25.
4“Evangelho
de S. João Comentado por S. Agostinho”, Vol. II, Tratado XVIII,
p. 27; versão do latim por Pe. José Augusto Rodrigues Amado,
editora Casa do Castelo, Coimbra, 1945.
5Este
texto, inspirado em várias passagens da Escritura, foi tirado do
Ofício Comum dos Apóstolos, responsório breve da 7ª lição.
6Gên.
44, 1-14.
7Aqui
se reconhece o Apóstolo amado, São João Evangelista.
8Mat.
20, 22; Marc. 10, 38.
9Mat.
20, 22.
10S.
Luís Mª G. de Montfort, “Carta Circular aos Amigos da Cruz”,
parág. 24, p. 33; Editora Santa Maria Ltda, Rio de Janeiro.
11“O
Santo Evangelho de Jesus Cristo”, Evangelho de S. João, Cap. 13,
23, p. 375; pelo Revmo. Pe. José Lourenço, O.P., 3ª edição,
edição da União Gráfica, Lisboa, 1939.
12“Novo
Testamento”, Evangelho de S. João, Cap. 13, 23, p. 297; verão da
Vulgata por D. Vicente M. Zioni com comentário do Pe. E. Tintori,
O.F.M., Edições Paulinas, S. Paulo, 1964.
13“Novo
Testamento”, 1ª Parte, Evangelhos e Atos dos Apóstolos,
Evangelho de S. João, Cap. 13, 23-27, pp. 250-251; tradução
segundo a Vulgata e resumo do comentário de Mons. Dr. José Basílio
Pereira, Editores – Os Religiosos Franciscanos, Typ. de S.
Francisco, Bahia, 1920.
14“Concordância
dos Santos Evangelhos ou Os Quatro Evangelhos Reunidos em um Só”,
Evangelho de S. João, Cap. 13, 23, p. 337; por Cônego Duarte
Leopoldo, 4ª edição, Linográfica, S. Paulo, 1951.
15“Synopse
Evangélica ou Texto harmonizado dos Quatro Evangelhos – segundo
os Últimos Dados da Ciência”, Evangelho de S. João, Cap. 13,
23, p. 313; por um Pe. da Congregação da Missão, Estabelecimentos
Brepols, A. G., Turnhout – Bélgica, 1911.
16“Nuevo
Testamento”, Ev. S. Juan, 13, 23, p. 344; Versíon directa del
texto original griego por Eloíno Nácar Fuster y Alberto Colunga
Cueto, O.P., Biblioteca de Autores Cristianos – BAC, Madrid, 1960.
17“Vida
de Cristo”, Cap. 38 – Judas, p. 421; por Fulton J. Sheen,
tradução de M. Gonçalves da Costa, Editora Educação Nacional,
Porto, 1959.
18V.
Mauduit, Analys. De l'Evang., t. IV, dissertação XXXIV, p. 620.
19Origen.
In Joan.
20“O
Apóstolo S. João”, Cap. VII, II, p. 104; por Mons. Baunard,
tradução de T.C.M., 2ª edição, Irmãos Pongetti – Editores,
Rio de Janeiro, 1951.
21Rev.
Pe. Fr. Caetano Maria de Bergamo, OFM.Cap., “Pensamentos e Afetos
sobre a Paixão de Jesus Cristo para cada dia do ano – Extraídos
da Sagrada Escritura e dos Santos Padres”, Vol. 2, Cap. CCCLIV,
pp. 991-1001; tradução de Frei Marcellino de Milão, OFM.Cap.,
Escola Tipográfica Salesiana, Bahia, 1933.
22Jo.
19, 31.
23S.
Agostinho, Tract. 120 in Jo.
24Jo.
19, 32.
25Jo.
19, 34. S. Cyrill. Alex.., in Jo. 19. Theoph., in Jo. 19.
26S.
João Crisóstomo, Hom. 84 in Jo.
27Num.
9, 12. S. Beda in Jo. 19.
28S.
Cipriano, Serm. De pass. Dom.
29S.
Agostinho, in psalm. 52.
30Psalm.
52, 2; Os. 33, 21.
31S.
Bernardo, Serm. De Adv.
32Zac.
12, 10.
33S.
Agostinho, Manu., cap. 21.
34S.
Agostinho, Manu., cap. 21.
35S.
Bernardo, Tract. De pass. Dom., cap. 3.
36S.
Brígida, Lib., 2 Revel., cap. 21.
37S.
Boaventura, Medit., vit. Christ., cap. 80.
38Jo.
20, 27.
39S.
Bernardo, loc. cit.
40S.
Agostinho, Manu., cap. 21.
41S.
Bernardo, loc. cit.
42Is.
2, 10; Abb. Guerric., Serm. 4 in ram. palm.
43S.
Bernardo, eod. Loc; S. Anselmo, de Redempt., cap. 7.
44S.
Agostinho, in Manu., cap. 33.
45S.
Bernardo, Orat. rhythm. De pass. Dom.
46S.
Bernardo, Serm. Signum mag. de B. Virg.
47Luc.
2, 35.
48S.
Bernardo, loc., cit.
49S.
Bernardo, loc., cit.
50S.
Lourenço Justiniano, de Triumph. Chr. Ago.., cap. 6.
51S.
Laur. Just. eod. Loc. cap. 18.
52S.
Boaventura, Medit. Vit. Chr. c. 80.
53S.
Boaventura, Stim. am., p. 1, c. 4.
54S.
Lourenço Justiniano, de incend. Dib. am., cap. 1.
55S.
Bernardo, tract., de pass., Dom., cap. 8.
562
Reg. 7, 27.
57S.
Bernardo, Rhythm., de pass. Dom.
58Jo.
19, 34.
59S.
Tomás, 3 p., qu. 66, art. 4 ad 3.
60Idem,
ibid.
61Euthym.,
in Jo. 19.
62Theoph.,
in Jo. 19.
63S.
Agostinho, tract., 120, in Jo.
64S.
Cipriano, serm. De pass. Dom.
65Theoph.,
loc. cit.
66S.
Atanásio, serm. De pass. Dom.
67S.
Cipriano, serm. De pass. Dom.
68S.
Agostinho, tract. 110, in Jo.; Idem in Symbolo.
69S.
Bernardo, tract. De pass. Dom., c. 3.
70
“O Sagrado Coração de Jesus, segundo Santo Afonso de
Ligório...”, pelo Pe. Saint-Omer, CSsR, Cap. “Hora Santa de
Março”, pp. 218-225; 5ª Edição, Tipografia de Frederico
Pustet, Ratisbona, 1926. Tradução Portuguesa feita da 83ª Edição,
pelo Exmo. Revmo. Sr. D. Joaquim Silvério de Souza, Arcebispo de
Diamantina.
71Heb.
12, 2.
72Is.
53, 4.
73Mat.
26, 39.
74Mat.
26, 37-38.
75Is.
53, 8.
76Heb.
7, 22.
77Eclo.
29, 20.
78Salm.
30, 6.
79Is.
53, 6.
80Administração
Apostólica Pessoal São João Maria Vianney, “Vivendo a
Quaresma”, Meditação sobre “A Humildade de Coração”, pp.
175-176; Edições Apostólicas, Campos dos Goytacazes-RJ, 2010.
81Mat.
11, 29.
82Salm.
21, 7.
83II
Cor. 5, 21.
84Marc.
15, 28.
85Mat.
23, 26.
86Iia
Iae, q. 161, a 6.
87Jo.
16, 24.
88M.C.
pág. 297.
89Imit.
II, 6, 3.
90Mat.
11, 29.
91Jo.
15, 5.
92Francisco
Vannutelli, S.J., “O Mês de Junho Consagrado ao Santíssimo
Coração de Jesus”, Segundo Dia, pp. 19-22; Traduzida da 2ª
Edição Italiana por D. Francisco do Rego Maia, 6ª Edição
Brasileira, Casa Duprat, São Paulo, 1934.
93Is.
60, 22.
94Is.
48, 11.
95II
Tim. 2, 13.
96Rom.
3, 4.
97Frei
Salvador do Coração de Jesus (Terceiro dos Menores Capuchinhos),
“A Grande Promessa do Sacratíssimo Coração de Jesus”, p. 19;
Tradução do italiano, com autorização do Autor, por uma zeladora
do Apostolado da Oração, Edições A Nação, Porto Alegre, 1944.
98Pe.
Bruno Vercruysse, S.J., “Meditações Práticas para Todos os Dias
do Ano”, Tomo II, Meditações Suplementares – Outubro, pp.
528-531; Terceira Edição, Livraria Apostolado da Imprensa, Porto,
1950.
99Luc.
12, 50.
100São
práticas muito indulgenciadas para todos os fiéis. Os associados
do Apostolado da Oração podem lucrar uma Indulgência Plenária,
tanto pela Comunhão reparadora, como pela Hora Santa.






