Blog Católico, para os Católicos

"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

quinta-feira, 11 de junho de 2015

As Inesgotáveis Riquezas do Sagrado Coração de Jesus (Ensaio em Fase de Conclusão) 12



A Primeira Grande Revelação1


Durante a Oitava do Santíssimo Sacramento, no ano de 1675, Nosso Senhor comunicou à Santa (Margarida Maria) numa só aparição, a “Grande Revelação”, confiando-lhe de novo os Seus desígnios, e fazendo-lhe conhecer os principais motivos, objetos e práticas da Devoção ao Seu Sagrado Coração, e pediu-lhe transmiti-los ao Padre Cláudio de la Colombière, S.J., que escolhera a fim de servir em parte ao estabelecimento da nova devoção. Esse eminente religioso tinha chegado pouco antes a Paray, onde ocupava o cargo de Superior dos Jesuítas. Ela obedeceu, e Padre de la Colombière consagrou-se logo inteiramente ao Sagrado Coração de Nosso Senhor, e ordenou a Santa Margarida Maria que escrevesse a narração da “Grande Revelação”, o que ela fez imediatamente.

Esse religioso procurou desde logo divulgar o novo Culto. Enviado pouco tempo depois para a Inglaterra na qualidade de Confessor de S. A. R. a duquesa de York, que foi mais tarde Rainha da Inglaterra, conseguiu durante a sua permanência em Londres inspirá-la a diversas pessoas, como refere nos seus escritos. Ao concluir então o Diário de seus “Retiros Espirituais”, nele transcreveu o escrito de Santa Margarida Maria, assim como uma Oblação ao Sagrado Coração de Jesus Cristo que compôs ao consagrar-se ali novamente a Ele.

Vindo a falecer o Bem-aventurado Padre de la Colombière em 1682, alguns anos após ter regressado à França, todas as suas obras foram publicadas em 1684; pelo seu singular valor, e por ser esse Padre muito conhecido e estimado pelo seu fervor e pela sua eloquência, gozando mesmo de fama de santidade, lograram imediatamente grande sucesso; e foi desta forma que, pela leitura dos “Retiros Espirituais” desse venerando religioso, o público teve pela primeira vez conhecimento de uma aparição de Nosso Senhor Jesus Cristo relativa à instituição da Devoção ao Seu Sagrado Coração.

É o seguinte o trecho em apreço que reproduz o escrito de Santa Margarida Maria:

Acabando, diz ele, este retiro, cheio de confiança na Misericórdia de meu Deus, fiz-me lei procurar por todos os meios possíveis, a execução do que me foi prescrito da parte de meu adorável Mestre, com relação ao Seu precioso Corpo no Santíssimo Sacramento do Altar, onde o creio Verdadeira e Realmente presente; cumulado das doçuras em que posso tomar gosto e que posso receber da Misericórdia de meu Deus sem as poder explicar, reconheci que Deus queria que O servisse procurando o cumprimento de Seus desejos relativos à Devoção que sugeriu a uma pessoa a quem se comunica muito confiadamente, e para a qual quis servir-se de minha fraqueza. Já a inspirei a muitas pessoas na Inglaterra, e escrevi a respeito para a França, e roguei a um de meus amigos fazê-la ali muito útil, e o grande número de almas escolhidas que há naquela Comunidade me faz crer que a prática nessa Casa santa será muito agradável a Deus. Pudesse eu, meu Deus, estar em toda parte, e publicar o que esperais de Vossos servos e amigos?

Tendo-se Deus manifestado, pois, à pessoa que se tem motivo de crer estar conforme ao Seu Coração, pelas grandes Graças que lhe fez, ela explicou-se comigo a respeito, e obriguei-a a escrever o que me dissera, que de boa mente quis escrever eu mesmo no diário dos meus retiros, porque o Bom Deus quer na execução deste desígnio, servir-se das minhas fracas dedicações (esforços).

Estando, diz esta santa alma, diante do Santíssimo Sacramento num dia de Sua Oitava, recebi de meu Deus Graças excessivas de Seu Amor; tocada do desejo de usar de algum retorno, e de pagar amor por amor, Ele me disse: Não Me podes corresponder melhor, que fazendo o que tantas vezes Te pedi; e descobrindo-me Seu divino Coração: Eis este Coração que tanto amou os homens, que nada poupou, até exaurir-se e consumir-se para lhes testemunhar o Seu Amor; e em reconhecimento não recebo da maior parte, senão ingratidões, pelos desprezos, irreverências, sacrilégios e friezas que eles tem para Comigo neste Sacramento de Amor; porém, o que mais Me desgosta, é que são corações que Me são consagrados. É por isso, que te peço que a Primeira Sexta-feira depois da Oitava do Santíssimo Sacramento, seja dedicada a uma Festa Particular para honrar o Meu Coração, fazendo-lhe reparação de honra com um Ato de Desagravo, comungando nesse dia, para reparar as indignidades que recebeu durante o tempo que esteve exposto nos Altares; e Eu te prometo que Meu Coração se dilatará para derramar com abundância aos influxos do Seu divino Amor sobre os que lhe prestarem esta honra. – Mas, meu Senhor, a quem Vos dirigis, lhe disse essa pessoa, a tão fraca criatura e tão pobre pecadora, que sua indignidade seria mesmo capaz de impedir o cumprimento de Vosso desígnio? Tendes tantas almas generosas para executar os Vossos desígnios. – Pois, que, não sabes que Me sirvo dos mais fracos seres para confundir os fortes? Que é ordinariamente sobre os mais pequenos e pobres de espírito, sobre os quais faço ver o Meu poder com mais fulgor, a fim de que nada se atribuam a si mesmo? – Dai-me pois, disse-lhe eu, o meio de fazer o que Me ordenais; – por então Ele acrescentou: Dirige-te a Meu servo N. e dize-lhe de Minha parte, que faça o que puder para estabelecer esta Devoção, e dar este prazer ao Meu divino Coração; que não esmoreça pelas dificuldades que há de encontrar nisto, pois elas não faltarão, mas ele deve saber que é todo-poderoso aquele que desconfia inteiramente de si mesmo, para confiar-se inteiramente a Mim”2.


Devoção Para os Últimos Tempos

Mas Deus não deixou a Sua Obra imperfeita, inspirou Ele mesmo esta Devoção, que fizera conhecer a Santa Gertrudes ser particularmente reservada para estes últimos tempos, a fim de excitar com este meio a tibieza e a covardia dos fiéis; e por meio de um pequeno livro composto quase por acaso, sem estudo, sem arte, sem desígnio, inspirou esta Devoção mesmo às pessoas que nunca a tinham apreciado, e que outrora sem saber quase de que se tratava, a haviam, por assim dizer, desacreditado, e Deus serviu-se mesmo particularmente destas para inspirá-la quase por toda parte... Enfim, a aprovação universal que teve esta Devoção, a estima que dela fazem pessoas de um mérito e de uma virtude universalmente reconhecidos, faz esperar que Jesus Cristo será de ora em diante menos esquecido, melhor servido, e muito mais amado”.3


Objeto Particular desta Devoção

O objeto particular desta Devoção é o Amor imenso do Filho de Deus, que O levou a entregar-se por nós à morte, e a Dar-se inteiramente a nós no Santíssimo Sacramento do Altar, sem que a vista de todas as ingratidões e de todos os ultrajes que devia receber nesse Estado de Vítima Imolada até o fim dos séculos, tivesse podido impedi-lo de fazer este prodígio: preferindo expôr-se todos os dias aos insultos e aos opróbrios dos homens, do que não lhes testemunhar, pela maior de todas as maravilhas, até que excesso Ele nos ama”4.


Agraciamento de Santa Margarida Maria

Pode-se dizer que este amável Salvador reuniu em nosso tempo na pessoa desta santa religiosa, todas aquelas Graças extraordinárias, que fizera nos séculos passados às maiores Servas de Deus. (Ela) Teve a felicidade de conversar diversas vezes intimamente com Jesus Cristo como Santa Mechtilde e como Santa Gertrudes. O Filho de Deus deu-lhe o Seu Coração da mesma maneira que O havia dado a Santa Catarina de Sena, tendo-lhe tomado o seu que purificou, e que o abrasou com Seu puro Amor, como fizera àquela grande Santa. Quis deixar-lhe, como a Santa Teresa, uma prova contínua e sensível desta Graça extraordinária, por uma dor no lado muito sensível, que nenhum remédio humano jamais pode aliviar, e que a acompanhou até o túmulo...”5.

S. Margarida Maria

Procuro uma Vítima

Dir-vos-ei pois, que este Divino Salvador, tendo um dia aparecido a sua indigna escrava, Me disse: – Procuro uma vítima para o Meu Coração, a qual queira se sacrificar como uma hóstia de imolação ao cumprimento dos Meus desígnios; – e então sentindo-me toda penetrada da grandeza daquela Soberana Majestade, prosternei-me humildemente a Seus pés, e apresentei-lhe diversas santas almas que corresponderiam fielmente aos Seus desígnios. – Não, outra não quero senão a ti, disse-Me este amável Salvador, e é por isso que Te escolhi. – Então desfazendo-me em lágrimas, repliquei-lhe que bem sabia Ele ser eu uma criminosa, e que as vítimas deviam ser inocentes, que na verdade não tinha outra vontade senão a Dele, mas que não me podia resolver a fazer outra coisa do que aquilo que a minha Superiora me ordenasse: ao que consentiu... Mas era em vão que Lhe resistia, porquanto, não me deu descanso, até que por ordem da obediência, me tivesse imolado a tudo aquilo que desejava de mim, que era me tornar uma vítima imolada a toda sorte de sofrimentos, de humilhações, de contradições, de dores e de desprezos sem outra pretensão que a de cumprir os Seus desígnios; tendo-me oferecido a isto de todo o meu coração, disse-Me saber quais eram meus receios; mas que Me prometia (como creio já vo-lo ter dito) ajustar de tal forma as Suas Graças ao espírito de minha Regra, à obediência devida às minhas Superioras, à minha fraqueza e enfermidade, que um não impediria ao outro”6.


Aprendei de Mim,
que Sou Manso e Humilde de Coração,
e achareis descanso para as vossas almas.

Quanto ao que concerne aos assinalados favores que meu Salvador me fez a respeito da Devoção ao Seu Sagrado Coração, eu não saberia empreender relatá-los pormenorizadamente. Eis a respeito para satisfazer às ordens de minha Superiora. Foi que num dia de São João Evangelista, após ter recebido de meu divino Salvador uma Graça, pouco mais ou menos semelhante àquela que recebeu na noite da Ceia, esse bem-amado Discípulo, este divino Coração foi-me representado como num trono todo de fogo e de chamas, radiando de todo lado, mais brilhante que o sol, e transparente como um cristal. A Chaga que recebeu na Cruz, nEle aparecia visivelmente; havia uma coroa de espinhos ao redor deste Sagrado Coração, e uma Cruz em cima; e meu divino Salvador fez-Me conhecer que estes instrumentos de Sua Paixão significavam, que o imenso Amor que teve para com os homens, havia sido a Fonte de todos os Seus sofrimentos, e de todas as humilhações que quis sofrer por nós: que desde o primeiro instante de Sua Incarnação, todos estes tormentos e estes desprezos lhe haviam estado presentes, e que foi desde este primeiro momento que a Cruz foi, por assim dizer, plantada no Seu Sagrado Coração, que aceitou desde então para nos testemunhar Seu Amor, todas as humilhações, a pobreza, as dores, que a Sagrada Humanidade devia sofrer durante todo o curso de Sua Vida mortal, e os ultrajes a que o Amor O devia expôr até o fim dos séculos sobre os altares no Santíssimo e Augustíssimo Sacramento.

Fez-me conhecer em seguida que o grande desejo que tinha de ser perfeitamente amado dos homens, Lhe fizera formar o desígnio de Lhes manifestar o Seu Coração, abrindo-lhes todos os tesouros de Amor, de Misericórdia, de Graças, de Santificação e de Salvação que contém, a fim de que todos os que quiserem prestar-Lhe e procurar-Lhe todo o amor e toda a honra que lhes fosse possível, fossem enriquecidos com profusão de Seus divinos tesouros de que este Sagrado Coração é a Fonte, assegurando-Me que tinha um prazer especial em ser honrado na Figura deste Coração de Carne, do qual queria que fosse a Imagem exposta em público: a fim, acrescentou, de tocar com este objeto o coração insensível dos homens, prometendo-Me que derramaria com abundância no coração de todos aqueles que O honrassem, (com) todos os Dons de que está cheio, e que em todas as partes onde esta Imagem fosse exposta para ser especialmente honrada, Ela atrairia toda a sorte de bênçãos: que, aliás, esta Devoção era como um último esforço de Seu Amor, que queria favorecer os Cristãos nestes últimos séculos, propondo-Lhes um objeto e um meio ao mesmo tempo tão próprios para convidá-los amorosamente a amá-Lo, e a amá-Lo solidamente.

Depois disto este divino Salvador me disse pouco mais ou menos estas palavras: “Eis, minha filha, o desígnio para o qual Te escolhi; é por isto que Te fiz tão grandes graças, e que tomei um cuidado tão particular de ti, desde o berço. Tornei-Me Eu mesmo teu Mestre e teu Diretor, só para dispôr-te a receber todas estas grandes graças, entre as quais deves contar esta, como uma das mais assinaladas, pela qual Te descubro, e Te dou o maior de todos os tesouros, mostrando-Te, e dando-Te ao mesmo tempo o Meu Coração”. Então, prostrando-me com a face em terra foi-me impossível expressar meus sentimentos de outro modo que pelo meu silêncio, que interrompi em breve com as minhas lágrimas e com os meus suspiros.

Desde aquele tempo as graças de meu Soberano Mestre tornaram-se mais abundantes, o que fez que não podendo conter os sentimentos do ardente amor que sentia para com Jesus Cristo, eu procurava difundi-los pelas minhas palavras em todas as ocasiões, com o pensamento que tinha de que os outros recebendo as mesmas graças que eu, estivessem com os mesmos sentimentos. Mas fui disto dissuadida tanto pelo Reverendo Padre de la Colombière, quanto pelas grandes oposições que a isto encontrei...

O tempo que o meu divino Salvador havia destinado para esta Obra ainda não chegara; entretanto, cuidou Ele mesmo, como Me havia prometido, de me dispôr segundo o Seu desejo, às graças que me queria fazer, mas só foi fazendo-Me graças ainda maiores do que aquelas que já me fizera. A primeira, foi que depois de uma Confissão Geral de toda a minha muito criminosa vida, logo após a absolvição, fez-Me ver um vestido mais branco que a neve ao qual chamava o vestido de Inocência, de que Me revestiu, dizendo-Me, parece-me, pouco mais ou menos estas palavras: “Minha filha, de agora em diante as faltas que cometeres, humilhar-te-ão muito, mas não Me obrigarão a afastar-Me de ti”. Em seguida, abrindo-Me pela segunda vez o Seu adorável Coração, acrescentou: “Eis aqui, o lugar de tua morada eterna, onde poderás conservar sem mácula, o vestido de Inocência de que revesti tua alma”. Desde aquele tempo não me lembro de ter jamais saído deste amável Coração. Encontro-me sempre Nele, mas de um modo e com sentimentos que não me é permitido exprimir: tudo o que posso dizer, é que habitualmente me encontro Nele como numa fornalha ardente de puro amor...”7.

Revelação da Hora Santa

Minha filha, esteja atenta à Minha Voz, e ao que Te peço para dispôr-te ao cumprimento dos Meus desígnios: Receber-Me-ás no Santíssimo Sacramento tão frequentemente quanto a obediência te o quiser permitir, por mais mortificações e humilhações que disto te devam advir, as quais receberás como um penhor do Meu Amor; comungarás além disso, todas as primeiras Sextas-feiras de cada mês: e todas as noites de Quinta-feira para Sexta-feira far-Te-ei participar daquela mortal tristeza, que aceitei sofrer no Jardim das Oliveiras, e a qual te reduzirá a uma espécie de agonia mais dura de suportar que a morte. E para acompanhar-Me naquela humilde prece que apresentei então a Meu Pai no lastimoso estado a que estive reduzido, levantar-te-ás entre onze horas e meia-noite, para passar uma hora em oração, prosternada, com a face por terra, tanto para aplacar a Minha Cólera pedindo misericórdia pelos pecadores, quanto para adoçar de algum modo a amargura que senti então, vendo-Me abandonado de Meus Apóstolos: o que Me obrigou a lhes censurar a sua covardia dizendo-Lhes que não haviam podido vigiar uma hora Comigo; e durante aquela hora Eu mesmo Te ensinarei o que tiveres de fazer.

Mas no meio de todas as graças que Te faço, tem muito cuidado, Minha filha, em não crer ligeiramente em todo espírito, e nele não te fies, pois o Demônio nada esquecerá para te enganar; por isso nunca faças nada sem a aprovação daqueles que te dirigem, a fim de que tendo o consentimento de tuas Superioras, jamais caias nos laços que te arma, porque ele não tem poder sobre os verdadeiros obedientes”8.


O Amor Não é Amado:
Amorosas Queixas de Nosso Senhor.

Os homens, tem apenas friezas e recusa por todas as Minhas solicitudes para lhes fazer o bem...”9.

Olha como os pecadores Me tratam... Meu povo escolhido Me persegue...”10.

Não haverá ninguém que tenha piedade de Mim e que queira compadecer-se de Mim e tomar parte na Minha dor, no lastimável estado em que os pecados Me colocam, sobretudo nestes tempos?”11.

Satanás “precipita (as almas) aos montes no caminho da perdição...” É necessário, pois, “retirar as almas do caminho da perdição eterna...”, e as “colocar no caminho da salvação”12.

Ardentes Desejos de Nosso Senhor

Se soubesses como estou ansioso por Me fazer amar pelos homens, nada pouparias... Tenho sede, abraso-Me em desejos de ser amado!”13.

Meu divino Coração anda tão apaixonado de amor pelos homens...”14.

O adorável Coração de Jesus quer estabelecer Seu Reino de amor em todos os corações, (e com isso) destruir e arruinar o (reino) de Satanás. Parece-me que O deseja tanto, que promete grandes recompensas aos que de bom grado se dedicarem a isso de todo coração, segundo a capacidade e as luzes que Lhes der”15.

É preciso que Meu Coração difunda por meio de ti as chamas de sua ardente Caridade e se manifeste aos homens para enriquecê-los com Seus preciosos tesouros... que contêm as graças santificantes e salutares, para retirá-los do abismo da perdição”16. Tal é “o derradeiro esforço de Seu amor...” para “favorecer os homens, nesses últimos séculos, com Sua Redenção amorosa”17.


A Entronização da Imagem do Sagrado Coração
de Jesus Cristo nos Lares Cristãos

A Entronização pode definir-se: o reconhecimento oficial e social da Soberania do Coração de Jesus sobre uma família cristã.

Reconhecimento afirmado, tornado sensível e permanente pela instalação solene da Imagem desse Coração Divino, no lugar de honra e pelo Ato de Consagração.

Foi o próprio Deus de Misericórdia que disse: que, 'sendo a Fonte de todas as bênçãos, Ele as distribuiria em abundância em todos os lugares onde fosse colocada a Imagem do Seu Coração, para ser amada e honrada'.18

Disse ainda: 'Eu reinarei apesar dos Meus inimigos e de todos aqueles que quiserem se opôr'.19

A Entronização não é, então, outra coisa senão, a inteira realização do conjunto dos pedidos feitos pelo Sagrado Coração em Paray-le-Monial e das Promessas magníficas que acompanharam esses pedidos.

Digo o conjunto, porque a família a santificar é o objeto transcendente de todo esse apostolado: célula social, ela deve ser o primeiro trono vivo do Rei de Amor.

Para transformar, para salvar de novo o mundo, é preciso que o Natal se perpetue, que o Emanuel, o Jesus do Evangelho, habite sempre entre nós.

É preciso, para se chegar ao Reino Social de Jesus Cristo, retomar a Sociedade pela base e refazer a família cristã.

É pela família que se afirma e se mede o valor de um povo. O povo vale o que vale a família.

Dizia-me um grande convertido: 'Padre, o senhor nunca poderá exagerar a importância da Cruzada que está pregando. Deixamos de boa vontade para os católicos as igrejas, as capelas, as catedrais; basta-nos, para perverter a Sociedade, possuir as famílias. Se nisso formos bem sucedidos, acabou-se a vitória da Igreja'.

Oh! Como será sempre verdadeira esta Palavra de Jesus: 'Os filhos deste século são mais prudentes que os Filhos da Luz'.20

O grande mal da nossa Sociedade é que Ela perdeu o sentido do Divino. Que remédio dar a esse mal?

Voltar a Nazaré.

Foi por Nazaré, fundando a Santa Família, que o Verbo começou a Redenção do Mundo. As Sociedades para serem redimidas deverão voltar para lá.

Mostraram-vos quadros horríveis da devastação das igrejas nos países invadidos; vossas almas de católicos ficaram revoltadas. Pois bem, a ruína da família cristã é um ainda maior... A família é um templo dos templos. Não são essas igrejas esplêndidas, essas igrejas de pedra que salvarão o mundo, são as famílias cristãs, é Nazaré.

A família é a fonte da vida, a primeira escola da criança. Se a fonte da vida nacional for envenenada, a nação perecerá. O que queremos é inocular nas famílias a Fé e o Amor ao Sagrado Coração. Se Jesus Cristo for inoculado nas raízes, toda a árvore será de Jesus Cristo.

Ora, a Entronização é Nosso Senhor vindo reclamar Seu lugar no lar; como outrora, no fim de Suas viagens apostólicas, Ele pedia hospitalidade em Betânia; lugar de honra, porque Ele é Rei21 e, --- nós o repetimos --- Ele deve reinar sobre cada família em particular, a fim de vir a reinar bem cedo sobre a Sociedade... lugar íntimo e familiar porque Ele é Amigo22 e é pelo Seu Coração, pelo Seu Amor que Ele quer reinar.

A Entronização é, portanto, de fato, o Emanuel, o Jesus do Evangelho habitando ainda entre nós.

Todos os dias os milagres mais esplêndidos, mais inesperados, vem corresponder à confiança das famílias que souberam dizer 'Mane nobiscum!'.23 Sim, fica conosco! Fica... fecharemos a porta depois que entrares, queremos guardar-Te conosco para sempre!...”.24

* Chamai um Sacerdote amigo e fazei o quanto antes a Entronização da imagem do Sagrado Coração de Jesus em sua casa. “Venha a nós o Vosso Reino, seja feita a Vossa Vontade, assim na terra como no Céu”.25


Devoção da Guarda de Honra
do Sagrado Coração de Jesus26

Eu quero formar ao redor de Meu Coração uma coroa de doze estrelas, composta dos Meus mais queridos e fiéis servos* (Nosso Senhor a S. Margarida Maria Alacoque).

*Aqueles fiéis servos repartidos às doze horas são:

I. São José. II. Os Justos. III. Os Serafins. IV. Os Querubins. V. Os Tronos. VI. As Dominações. VII. As Virtudes. VIII. As Potestades. IX. Os Principados. X. Os Arcanjos. XI. Os Anjos. XII. Nossa Senhora.

Devem ser recitados diariamente pelos Guardas de Honra o Pai Nosso, a Ave Maria, o Glória ao Pai, o Credo, e a jaculatória: “Doce Coração de Jesus, fazei que eu Vos ame sempre cada vez mais” (300 dias de indulgência).


Guarda de Honra

A Associação da Guarda de Honra foi instituída para consolar ao Divino Salvador da ingratidão e ultrajes dos homens, dar-Lhe glória, tributar-Lhe amor e fazer a Seu Divino Coração reparação dos desacatos que continuamente recebe no Santíssimo Sacramento. É a Guarda de Honra uma piedosa milicia que se revesa ao redor do Trono Eucarístico de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Foi a Guarda de Honra do Sagrado Coração de Jesus erigida por Leão XIII, em Arquiconfraria na igreja das Religiosas da Visitação, em Bourg (Ain), para a França e Bélgica, e em Roma na igreja dos Santos Vicente e Anastácio para a Itália. Foi esta Associação enriquecida de muitas indulgências por Pio IX que considerava “uma das suas maiores glórias ser o primeiro Guarda de Honra do Sagrado Coração de Jesus; e que um dos seus mais ardentes votos (dizia ele) era ver propagada a Guarda de Honra por todo o mundo”.

Os Protetores especiais da Guarda de Honra são: Nossa Senhora do Sagrado Coração, cuja Festa é a 31 de Maio; S. José, a 19 de Março; S. Francisco de Assis, a 4 de Outubro; S. Francisco de Sales, a 29 de Janeiro, e S. Margarida Maria Alacoque, a 27 de Outubro.

Oferecimento da Hora de Guarda

Ó Divino Jesus, meu dulcíssimo Salvador, eu Vos ofereço esta hora de guarda, durante a qual em união com os Protetores (nomeie-se o Protetor da hora que se tiver escolhido), desejo muito do fundo do coração amar-Vos, glorificar-Vos e principalmente consolar o Vosso Adorável Coração com meu amor. Aceitai, pois, nesta intenção os meus pensamentos, as minhas palavras, as minhas ações, e minhas penas. Recebei sobretudo o meu coração: eu vo-Lo ofereço sem reserva, suplicando-Vos que o inflameis no fogo do Vosso Amor. Amém.

Oração Para se Recitar no Fim da Hora de Guarda

Ó Jesus, meu amantíssimo e dulcíssimo Salvador, permiti que Vos ofereça a Vós, e por Vosso intermédio ao Pai Eterno, o Preciosíssimo Sangue e Água que manaram da Chaga aberta em Vosso Divino Coração, na Árvore da Cruz. Dignai-Vos de aplicar eficazmente este Sangue e esta Água a todas as almas, e principalmente às dos pobres pecadores, e à minha. Purificai, regenerai, salvai a todos os homens pelos Vossos merecimentos infinitos. Concedei-Nos, enfim, ó Jesus, entrar em Vosso Coração amantíssimo e nele habitar para todo sempre! Amém. (100 dias de indulgências)

Jaculatória

Louvado, adorado, amado seja a todo momento o Santíssimo Coração Eucarístico de Jesus em todos os tabernáculos do mundo até a consumação dos séculos. Amém. (Indulgenciada)

O Sagrado Coração de Jesus
conquista e santifica o
Presidente da República
do Equador27

Garcia Moreno foi um cristão digno desse nome; desde sua viagem a Paris, nunca mais foi vítima do respeito humano.

Aquele, cuja virtude não tem por fundamento a graça de Deus, obtida pela oração e humildade, é sempre pequeno e vicioso por muitos lados.

A piedade num Estadista é hoje um fato raro e excepcional. Onde se acha um São Luís, um São Fernando, um Santo Eduardo nos tronos do nosso mundo moderno?

A piedade em Garcia Moreno não era cega. Baseava-se numa fé viva e esclarecida: viva como os filhos da Católica Espanha; refletida como a de um sem número de inteligências de primeira ordem de todos os séculos, de sábios sem par em todos os ramos da ciência. Pouca ciência afasta de Deus, muita ciência faz a Ele voltar”. E, com efeito, nunca tem brilhado, como hoje, a verdade desse axioma, porquanto, ao passo que os grandes sábios se prostram humildes diante do Altíssimo, a turbamulta dos que tem apenas um vislumbre de ciência, anda por toda a parte a atacar e blasfemar o que jamais estudaram.

Tal não era Garcia Moreno.

Filósofo de uma lógica de ferro, dotado de bom senso admirável, iniciado em todos os segredos das ciências históricas, naturais e físicas, sentia-se antes movido à compaixão, quando lia ou ouvia as discussões absurdas e afirmações infundadas de certos jornais e livros inimigos do Catolicismo. Quando alguém se atrevia a repetir diante dele aquelas objeções, que apenas servem a muitos de pretexto, para não cumprirem os seus deveres de cristãos, ele as pulverizava com tanta erudição e lógica, que até os mais ilustrados ficavam atônitos.

Ao ouvir certos católicos, que ousavam atacar o Syllabus, mal podia conter a sua indignação. “O Syllabus, dizia ele, deve ser o Credo dos povos, que não querem perecer”. E, com efeito, poderá haver erros mais perniciosos para a sociedade do que o Panteísmo, a Liberdade Absoluta de pensar e escrever, o Naturalismo, o Socialismo, etc.!

Não era, porém, só com as luzes da ciência e da razão que Garcia Moreno procurava fortalecer em sua alma o dom preciosíssimo da fé; era mais ainda recorrendo à fonte das luzes sobrenaturais, à oração e a meditação.

Se os reis, dizia Santa Teresa, fizessem todos os dias, meia hora de oração, quão depressa seria transformada a face da terra!” Garcia Moreno realizou o desejo da grande Santa, e daí lhe veio sem dúvida a inspiração das suas empresas tão bem sucedidas pela regeneração da Pátria.

Fossem quais fossem as suas ocupações, fazia todos os dias meia-hora de meditação nos seus livros de predileção: o Evangelho e a Imitação de Cristo. Nos seus últimos anos nunca deixou de fazer retiro espiritual.

Concebeu assim tão grande ideia da Majestade Divina e dos seus atributos que, em todas as dificuldades, repetia a sua divisa familiar, que também havia de ser a sua última palavra neste mundo: Deus não morre!

A Deus só, atribuía tudo o que fazia. Numa mensagem ao Congresso, depois de dizer os grandes progressos realizados, assim concluía: “Se falo destes felizes resultados, não é para glória minha, mas para a glória d'Aquele a quem tudo devemos, e a quem adoramos como nosso Redentor, nosso Pai, nosso Salvador, nosso Deus.

Tinha para com os Sacerdotes, extraordinária veneração. Um pobre capuchinho, de passagem em Quito, indo lhe fazer uma visita, apresentou-se com o solidéu na mão. – “Cobri-vos, meu Padre”, disse o Presidente logo que o viu, e descobriu-se a si mesmo.

– “Um pobre religioso, atalhou o frade, não pode estar de cabeça coberta diante do Presidente da República”.

Não, Padre, respondeu Garcia Moreno, o Chefe do Equador nada é na presença de um Sacerdote do Altíssimo” e colocou-lhe o solidéu sobre a cabeça.

Foi também na meditação que hauriu o desapego dos bens terrenos que o fazia dar o seu dinheiro sem contar para alívio dos pobres e doentes, viúvas e órfãos.

Foi nela que hauriu a paciência admirável, de que deu prova nas tribulações, que lhe amarguraram a vida.

Onde poderia ele aprender, a não na meditação, a sofrer por Jesus Cristo as maiores afrontas e a dizer aos amigos palavras sublimes, como as seguintes:

A injúria é meu salário. Se meus inimigos me perseguissem pelos meus crimes, pedir-lhes-ia perdão. Mas eles me odeiam, porque amo a minha Pátria; porque quero conservar-lhe o seu mais precioso tesouro, a Fé; porque sou e me mostro filho submisso da Igreja. A esses homens de ódio nada tenho a dizer, senão: Deus não morre!”

Para darmos ideia adequada da firmeza da sua fé, nada podemos dar mais probante do que as resoluções, que ele próprio escrevera na última página da sua Imitação de Cristo.

Todas as manhãs farei oração e pedirei particularmente a virtude da humildade. Todos os dias assistirei à Missa, rezarei o Rosário, lerei um capítulo da Imitação e este Regulamento.

Cuidarei em me conservar o mais possível na Presença de Deus, sóbrio nas conversas, a fim de não dizer palavra alguma demais! Oferecerei muitas vezes meu coração a Deus, principalmente, no começo das minhas ações.

Direi cada vez que soar a hora: sou pior do que um Demônio e o Inferno devia ser a minha morada. Estando no meu aposento, nunca rezarei sentado, podendo fazê-lo de pé.

Fazer atos de humildade, beijar a terra, desejar toda a sorte de humilhações, alegrar-me, quando censurarem minha pessoa ou meus atos. Nunca falar de mim, a não ser para confessar meus defeitos e faltas.

Todas as manhãs porei por escrito aquilo que tiver de fazer no dia. Observarei escrupulosamente as leis em todos os meus atos. Confessar-me-ei todas as semanas. Não passarei mais de uma hora a jogar e nunca antes da 8 horas da noite”.

Este Regulamento foi sempre cumprido à risca por Garcia Moreno, até na guerra e em viagem, com suma edificação de todos aqueles que o viam ou tinham a felicidade de ser hospedado em sua casa.

De manhã, ele mesmo preparava o Altar e os Paramentos para a Missa, ajudando-a em presença de toda a família e hóspedes. De noite, cercado da família, criados e ajudantes de ordens, ele rezava a oração. Aos Domingos jamais deixava de assistir aos Ofícios da Igreja e ensinava o Catecismo aos criados.

Viam-no sempre a seu posto nas demonstrações religiosas, acompanhado dos ministros e de todas as autoridades civis e militares.

Visitava frequentemente a Jesus Cristo Sacramentado; fazia a Santa Comunhão todos os Domingos, e às vezes na semana. Quando levavam o Santíssimo a um doente, apressava-se em escoltar ao seu Deus no meio do povo com todo o recolhimento.

Como todo católico, tinha Garcia Moreno especial devoção para com Maria Santíssima. Já vimos que, depois da tomada de Guayaquil, atribuindo a vitória à proteção da Virgem, obteve que o Congresso declarasse Nossa Senhora das Mercês Padroeira da República.

Depositava na Mãe de Deus, toda a sua confiança e trazia sobre si o bentinho e o terço que rezava todos os dias. Quis também entrar na Congregação de Nossa Senhora; havendo, porém, duas seções, sendo uma para pessoas de distinção e outra para operários, escolheu esta, dizendo: “O meu lugar está no meio do povo”. Imagine-se a alegria desses bons operários, vendo o Presidente alistar-se nas suas fileiras.

Da sua devoção para com São José deu prova pela inscrição da Festa desse glorioso Santo entre os dias santificados.

Ainda mais notável foi a sua devoção para com o Sagrado Coração de Jesus, e bem o provou pela Consagração Oficial da República do Equador ao Divino Coração, declarando que a sua Festa seria festa nacional.

Por inspiração de Garcia Moreno, o terceiro Concílio Nacional de Quito, lavrou um Decreto, mandando consagrar o Equador ao Coração de Jesus.

Por seu lado, apresentou ele ao Congresso uma Moção, pedindo que o Estado se unisse oficialmente à Igreja nesse ato solene. Esta Moção foi votada por unanimidade.

Pouco tempo depois, no mesmo dia e hora, em todas as Igreja da República, teve lugar e cerimônia da Consagração.

Em Quito o ato foi imponentíssimo.

Quando o Arcebispo acabou de pronunciar a fórmula em nome da Igreja, Garcia Moreno, cercado de todas as autoridades, a pronunciou em nome da Nação.

Tal foi o entusiasmo produzido por esta grande manifestação de fé dos Equatorianos que diversos membros do Congresso pensaram em erigir, em nome da Nação, um templo ao Sagrado Coração, sendo, porém, este projeto adiado até 1884 por motivo de economia.


1Pe. João Croiset, S.J., ob. cit., “Prólogo”, X-XIII.
2B. Padre C. de la Colombière, “Retraite Spirituelle”.
3Pe. J. Croiset, S.J., “La Dévotion au Sacré-Coeur de Notre-Christ”, Lion, 1698, pp. 16-17.
4Pe. J. Croiset, S.J., ob. cit., “Prólogo”, XXVIII.
5Pe. J. Croiset, S.J., ob. cit., pp. 59-60.
6Pe. J. Croiset, S.J., ob. cit., pp. 68-70; Carta 5.
7Carta 5, de S. Margarida M. Alacoque ao seu Confessor, o Padre João Croiset, S.J.; cfr. Pe. J. Croiset, S.J., ob. cit., pp. 75-80.
8Pe. J. Croiset, S.J., ob. cit., pp. 81-82.
9S. Margarida M. Alacoque, Autobiografia, 56.
10S. Margarida M. Alacoque, Escritos por ordem de Madre de Saumaise, 34; Fragmentos, III.
11S. Margarida M. Alacoque, “Vie et Oeuvres”, 2, 115.
12S. Margarida M. Alacoque, Cartas 97, 100, 102, 131-133.
13S. Margarida M. Alacoque, Carta 135.
14S. Margarida M. Alacoque, Autobiografia, 53.
15S. Margarida M. Alacoque, Carta 118.
16S. Margarida M. Alacoque, Autobiografia, 53.
17S. Margarida M. Alacoque, Carta 133.
18Vie et Oeuvres de Ste. Marguerite-Marie, por Mons. Guathey, II, 296.
19Mons. Guathey, II, 104.
20Luc. 16, 8.
21Jo. 18, 37.
22Cânt. 5, 16.
23Luc. 14, 20.
24Pe. Mateo Crawley-Boevey, “Jesus, Rei de Amor”, 1ª Parte, Cap. I, pp. 15-24; 2ª Edição, Ed. Vozes, Petrópolis, 1939.
25Mat. 6, 10.
26“Manual das Missões e Devocionário Popular”, por um Padre da Missão, pp. 223-232; 1908.
27Pe. Desidério Deschand, “Garcia Moreno – Presidente da República do Equador (1821-1875)”, pp. 177-182; 2ª Edição, Typographia “Vozes de Petrópolis”, Petrópolis, 1912. Cfr. também Pe. Saint-Omer, C.Ss.R., “O Sagrado Coração de Jesus segundo Santo Afonso de Ligório”, “1ª Sexta-feira do Mês de Fevereiro”, pp. 299-302; 5ª Edição, Typographia de Frederico Pustet, Ratisbona, 1926.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

As Inesgotáveis Riquezas do Sagrado Coração de Jesus (Ensaio em Fase de Conclusão) 11



O Discípulo que Jesus Amava
e o Sagrado Coração

Erat ergo recumbens unus ex discipulis ejus in sinu Jesu, quem diligebat Jesus. Innuit ergo huic Simon Petrus, et dixit ei: Quis est, de quo dicit? Itaque cum recubuisset ille supra pectus Jesu, dicit ei: Domine, quis est? Respondit Jesus: ille est cui ego intinctum panem porrexero. Et cum intinxisset panem, dedit Judae Simonis Iscariotae. Et post buccellam, introivit in eum Satanas”1.

Ora um dos seus discípulos, ao qual Jesus amava, estava recostado sobre o seio de Jesus. A este, pois, fez Simão Pedro sinal, e disse-lhe: De quem fala Ele? Aquele (discípulo), pois, tendo-se reclinado sobre o peito de Jesus, disse-lhe: Senhor, quem é esse? Jesus respondeu: É aquele a quem Eu der um bocado de pão molhado. E tendo molhado um bocado de pão, deu-o a Judas Iscariotes, filho de Simão. E, atrás do bocado, entrou nele Satanás”2.

1 – “João foi o único Evangelista que recebeu do Senhor o dom extraordinário e exclusivo de dizer, acerca do Filho de Deus, coisas que podiam excitar as inteligências atentas dos pequeninos, embora estes não fossem capazes de as pôr em prática. Quanto às inteligências dos mais adiantados, que estão prestes a atingir na vida interior a idade viril, dá-lhes nestas palavras, alguma coisa de que podem tirar objeto de meditação e de alimento. Durante a Ceia reclinou-se sobre o Peito do Senhor,3 o que mostra que bebeu do íntimo do Seu Coração, mistérios bastante profundos”.4

2 – “Não vos afanais, meus Amigos da Cruz, de ser amigos de Deus, ou de tal querer-vos tornar? Resolvei, pois, beber o cálice que é preciso, necessariamente, beber, para se tornar amigo de Deus. Calicem Domini biberunt et amici Dei facti sunt – Beberam o cálice do Senhor e se tornaram amigos de Deus5. O bem-amado Benjamin teve o cálice e seus outros irmãos tiveram apenas o fermento6. O grande favorito de Jesus Cristo teve o seu Coração, subiu o Calvário e bebeu do cálice7. Potestis bibere calicem – Podeis beber o cálice que eu beberei?8 É bom desejar a glória de Deus; mas desejá-la e pedi-la sem se resolver a tudo sofrer é fazer um pedido louco e extravagante: nescitis quid petatis - Não sabeis o que pedis9.10

3 – Um dos seus discípulos”, São João Evangelista.11

4 –Recostado... no seio de Jesus... – Era costume antigo, aceito entre os judeus, tomarem-se as refeições recostados sobre leitos. Deste modo, João necessariamente devia repousar a testa no regaço de Cristo, pois estava ao seu lado”.12

5 – “Os Hebreus costumavam pôr-se à mesa em leitos guarnecidos de coxins, firmando-se nos braços esquerdo a fim de terem o braço direito livre para tomar a comida e estendendo os pés em direção à parede. Nessa posição, a cabeça do que estava adiante vinha a tocar no peito do que lhe ficava imediato, de modo que se reclinava em seu seio”.13

6 – “Os convivas se punham à mesa, reclinados sobre uma espécie de leito ou sofá, de tal modo que o segundo tinha naturalmente a cabeça à altura do peito do primeiro conviva. O discípulo que assim se tinha recostado sobre o Coração de Jesus, era S. João, o Apóstolo virgem, aquele a quem, por isso, amava Jesus de modo particular. Que outro, aliás, teria tomado tanta liberdade? Os puros amam os puros, compreendem-se e naturalmente se procuram. Por ser puro ousa S. João interrogar o Mestre e somente a ele disse Jesus quem havia de traí-lo.

Pensam os intérpretes que o discípulo amado transmitiu a S. Pedro a revelação do Salvador. – S. João que, no Cenáculo, tomou posse, por assim dizer, do Coração de Jesus, foi também o Apóstolo do Coração de Jesus”.14

7 – “Como os convivas estavam todos encostados nos leitos, apoiados no cotovelo esquerdo para conservarem livre a mão direita, voltavam-se as costas uns aos outros; bastava, porém, um leve movimento para trás para recostar a cabeça no peito do que estava atrás: chamava-se isto estar no seio dele. Era o caso de São João”.15

8 – “Estaba recostado delante de Jesús, pudiendo hablarle en secreto con sólo volver la cabeza, y Jesús a él al oído con sólo inclinarse hacia adelante”.16

9 – “Provavelmente o único Apóstolo que não perguntou: Sou eu? Foi João, porque tinha naquele momento recostada a cabeça sobre o Sagrado Peito do Divino Salvador. João mostrou-se sempre orgulhoso deste fato e todas as vezes que fala de si diz que é aquele a quem Jesus amava...”.17

10 – “Nos Evangelistas algo de mais solene anuncia aqui a Hora Sagrada e a aproximação do Mistério. Para esta Ceia augusta, vemos os discípulos, segundo o costume do Oriente, meio deitados sobre uma espécie de leitos. Os convidados de ordinário tomavam lugar três a três, e estes leitos de festa chamavam-se: triclinia, por causa do uso e da disposição.18 É o que indica S. João, quando diz que tinha o rosto voltado ao Peito e à Face do Mestre. Pedro estava do outro lado do triclinium, como veremos mais longe; Jesus entre os dois. O lugar do jovem discípulo era o que se chamava o seio do pai de família, a que o Evangelho faz alusão. Além disso havia aqui uma significação mística; Orígenes compara o repouso sagrado de João no seio do Verbo, ao repouso do próprio Verbo no seio de seu Pai”19.20


Jesus Crucificado
recebe no lado
o golpe da lança21

1ª Meditação: Opinam os judeus que Jesus leva muito tempo a morrer, por isso, insistem junto de Pilatos para que lhe sejam quebradas as pernas provocando assim mais rapidamente a morte com novos espasmos e novos tormentos.

Alegam como motivo a iminente solenidade22 aparentando escrúpulo em deixar pendurado na cruz o condenado, durante o dia festivo, eles que nenhum escrúpulo tiveram em condenar um inocente.23 Pilatos acedendo ao pedido deles, manda uma decuria de legionários que após haverem despedaçado os ossos aos infelizes ladrões, verificando que Jesus já estava morto, passam além sem tocá-Lo.24 Há, todavia, entre eles um mais cruel, o qual suspeitando esteja Jesus ainda vivo, para lisonjear os bárbaros instintos dos judeus, que continuam com infernal algazarra a insultar o Nazareno, com forte e firme golpe de lança, lhe transpassa o peito.25

Observemos como no fato de não se quebrarem os ossos de Jesus e de transpassar o cadáver, está a realização de mais uma profecia26 registrada nos livros de Moisés e confirmada pelo mesmo Salvador.27 Não obstante isso, a alma, apaixonada do judaísmo nada enxerga continuando no mesmo ódio intransigentemente feroz, na mesma cegueira, na mesma dureza de coração.

A caridade de Jesus continua a jorrar ondas de calor benéfico do seu bendito Corpo, ainda que separado da Alma!

Apesar da perfídia tenaz e dos propósitos de que aninham em seus corações, Jesus não deixa de estimulá-los com graças interiores, convidando-os a se penitenciarem e chorarem o grande crime do deicídio.28

São, todavia, inúteis esforços.

Vejo nisto, ó meu Deus, a reprodução fiel das relações que medeiam entre Vós e minha alma.

Inúmeras vezes batestes em meu coração, pedindo hospedagem iluminando-me com inspirações, sacudindo-me com salutares terrores, aliciando-me com a visão do prêmio, seduzindo-me com os Vossos carinhos. Todavia, devo confessar que outras tantas vezes resisti, ora abertamente, ora indireta e hipocritamente: Tenho levado uma vida de vai e vens, de avançadas e recuos, de passo adiante e passo atrás, um verdadeiro círculo vicioso... E no entanto, ainda me tolerais!

Jesus, compreendo afinal o significado sublime que encerra o fato da integridade dos Vossos ossos.

Quereis com isso demonstrar que nada é capaz de demover-Vos ou abalar-Vos na Vossa paciência, humildade e mui principalmente caridade e misericórdia com que insistis para converter os Vossos inimigos.

De um lado a maldade humana para provocar-Vos, do outro a solidez das Vossas virtudes a aumentar, a pacientar, a esperar. De um lado a obstinação diabólica em preparar um futuro de desgraças e de calamidade, de outro a santa e incuncussa perseverança do Vosso amor a pôr barreiras intransponíveis entre as almas pecadoras e o Inferno.29 Deus Onipotente, que desprezais o pretenso valor dos soberbos e amparais a aparente fraqueza dos humildes;30 extingui do meu coração a soberba que Vos é tão odiosa31 e concedei-me a santa humildade, que me torne dócil às Vossas inspirações, que quebre toda resistência das minhas paixões, que me atire vencido aos braços da Vossa misericórdia.

Arraigai em meu coração, particularmente, a caridade fraterna, amando deveras e desinteressadamente a quem teima em me molestar.

E como está escrito no Profeta Zacarias, que ninguém que Vos contemple transpassado e crucificado, deixará de comover-se até as lágrimas,32 rogo-Vos, ó bom Jesus, se cumpra em mim esta piedosa profecia. Que eu derrame uma torrente de pranto, que me desfaça e derreta na onda da contrição e compaixão. Ó Chaga sacratíssima do Coração de Jesus, em ti espero.33 Espero o perdão, a graça da santidade e por fim a graça da salvação.

Propósito: A integridade dos ossos de Jesus significa a solidez das virtudes. Deus me livre de uma virtude feita de carinhos, consolações, ternuras e doçuras. O de que preciso é do pão forte da humildade, obediência e caridade. Examinar-me-ei sobre isto.

2ª Meditação: Não quis Nosso Senhor que o ferissem enquanto estava vivo, para que ninguém julgasse sua morte consequência inevitável do violento golpe da lança. O que levou a morrer foi o amor.34 Após o falecimento quis que lhe abrissem o Coração a fim de que através da Chaga exterior pudéssemos penetrar no íntimo de sua Alma e aí contemplar a Chaga espiritual mais profunda e abismal que o amor para conosco lhe abrira.35

Observa, ó minha alma, como o agudo ferro romano lançado com pulso forte, abre-lhe o tórax, interna-se-lhe e transpassa-lhe o Coração de lado a lado.36 Nota como a ferida é tão ampla e de tal comprimento,37 a deixar passar uma mão.38 E agora que estão descerradas as portas deste Coração divino e amantíssimo, entra com a tua mente, circunvaga o teu olhar e contempla extasiado as maravilhas do amor divino.39 Foi esta Chaga invisível e espiritual que como rios de sua fonte, saíram as Chagas visíveis das mãos, dos pés, da cabeça e das outras, espalhadas em todo o Corpo Santíssimo.40 Foi este foco central e inexaurível que produziu toda a tragédia sangrenta da Paixão. Haverá quem tais coisas pense e tal cena contemple sem se sentir violentamente impelido a amar ao bom Deus?41 Mais ainda. Jesus sabe que os meus pecados me enchem de terror e a minha covardia afasta-me da perseverança da divina Majestade. Ora, que faz o amável Senhor! Para dissipar os justos temores da divina justiça, para animar-me a que volte a Ele, me aproxime, e renasça em mim e se fortaleça a esperança do perdão dos meus crimes, curva a cabeça, como que acenando-me e convidando: abre-me o Coração para que aí me acolha como em refúgio seguro.42

Quanta confiança não suscita a Vossa bondade, ó bom Jesus?

Eis que me movo, eis que me aproximo, eis que transponho o limiar deste sancto sanctorum, tremendo de respeito, temeroso, não me repilais, porquanto, grande é a minha indignidade.43 No universo inteiro não há lugar de tão remansosa paz e tão tranquila segurança que a este se compare. É a morada do jubilo, é a fonte da sua vida; é o recreio da alma que procura repouso depois que volta batida pelas procelas das paixões.44 Jesus dulcíssimo, permiti que fixe aqui neste tabernáculo do amor, a minha morada eterna.

Coração puríssimo, trono augusto da Divindade, santuário da caridade, sacrário do amor, humilde e reverencialmente vos saúdo e vos adoro.45 Vós sois a fonte da graça; ora, como admitir que o pobre peregrino que vem da longínqua região do pecado, passe aqui por perto e se lhe negue um pouco de água bendita e refrigerante que lhe mate a sede, que o purifique e salve? Coração doce, manso e suave, de Vós espero a graça da salvação.

Propósito: A devoção ao Sagrado Coração de Jesus! Eis a devoção-rainha que me proponho cultivar com todo afinco, porquanto, ela é a síntese, o conjunto e o resumo de toda nossa fé.

3ª Meditação: Não sentiu Nosso Senhor a lançada porque já era cadáver. Mas, assim como tudo que dEle fora prenunciado se realizou, assim é de supor, seja agora que se cumpre literalmente a profecia do Santo velho Simeão a Maria, quando lá no templo,46 fitando-A com olhar fatídico, lhe disse que, uma espada havia de lhe varar o Coração.47 A Alma de Maria está alojada bem dentro do Coração de Jesus pelo oceânico amor que liga a Mãe ao Filho divino;48 daí pois conhecer que o aço que transpassa o Coração do Redentor transverbere também O da Santíssima Virgem. Por isso, os Padres da Igreja consideram Nossa Senhora mais do que uma simples Mártir, visto como Ela além das dores físicas sofre moral e espiritualmente.49

Grande foi a dor de Maria ao presenciar a Crucifixão do Filho.50 Maior foi a sua aflição ao assistir no lenho o penoso desenrolar das suas agonias, pois que sua Alma era o reflexo e o eco da Paixão do Filho.51 Suma, porém, é a dor atual provocada pelo golpe da lança que a mão brutal de Longuinho arremessou contra o cadáver de Jesus. Foi esta a dor máxima adicionada a inúmeras outras dores, como no corpo de Jesus foi a ferida máxima comparada as outras.52

Enquanto, ó minha alma ofereces o tributo de tua compaixão à Rainha dos Mártires,53 indaga e pesquisa qual a verdadeira causa das dores de Maria Santíssima. O móvel desta grande pena foi o amor. Muito sofre porque muito ama. A dor está na razão direta do amor, e na razão inversa da indiferença. Se portanto pouco ou nenhuma é tua pena, se diminuta é a tua compaixão, se exíguo e leve o teu tributo de pesar pela morte do Salvador, é porque pouco ou nada O amas.

Muito ingrata e de mui dura fibra és, ó minha alma, se a comover-te não vale a morte de um Deus, nem a feroz lançada que te descobriu e revelou em seu Coração o imenso incêndio de amor que teve para contigo!

Repara, ó infeliz, que tateais as trevas, e focinhas nos pântanos, repara que Jesus abrindo-te o peito, oferece-te o Coração.54 Porque não te aproveitas de ocasião tão propícia amando a Jesus por meio do Coração dEle?

Ele te o cede, para que faças dele o uso que melhor te aprouver.

Pois bem, restitui-o, e oferece-o ao Eterno em pagamento da dívida de gratidão e amor que lhe deves.

Pensamento consolador! De fato, é certo que vós, ó Jesus, sois a minha cabeça; ora, se os olhos de minha face, são meus por serem da minha face, porque não será meu o Vosso Coração pertencendo a uma Cabeça que é também minha?55 Nunca pensei em tal; refletindo porém agora, vejo que estou de parabéns, porquanto estou com a solução do intrincado problema nas mãos, havendo encontrado um Coração com o qual ser-me-á dado amar-vos solvendo assim o meu débito. Concedei-me, pois, que por meio do Vosso Coração eu vos ame, ó caro Jesus.56 Virgem Santa, intercedei por mim e assisti-me: porque reconheço-me mui capaz de abusar até do Coração de Jesus. Fazei que meu coração seja todo do vosso Filho, como o de Jesus é todo meu.

Propósito: Por coração aqui, entendem os Santos a vontade. Ora, se a vontade de Jesus é toda minha, é justo que a minha vontade seja toda de Jesus, não à flor de lábios, mas praticamente e através das provas que me surgirem pela frente.57

4ª Meditação: Ferido Jesus em seu lado pela dura lançada, sai-lhe da Chaga um jorro de Sangue misturado com Água;58 demonstrando mais uma vez sua dúplice Natureza; a Humana pela presença dos humores que entram a constituir o composto humano;59 a Divina pelo prodígio que acaba de operar,60 porquanto, apesar de picado, cortado e ferido um cadáver, não há hipótese de nos dar uma gota de água61 ou de sangue.62

É pois esta uma ferida de origem Divina que o Evangelista, não chama com o nome de chaga, mas de abertura, como que a significar a porta da Vida Eterna, aberta à todos que querem salvar-se; a parte mística donde saíram a flux todas as graças, máxime os Sacramentos,63 simbolizado no Sangue e na Água64 espadeirando-se em caudal copioso a fecundar o terreno árido do mundo, a vitalizar a Santa Igreja, a alimentar e confortar os eleitos que jornadeiam em busca da eternidade feliz.65

Muito pois devemos a Jesus por esta nova ferida, a máxima, a qual bem que não lhe fosse dolorosa, não deixou de ser meritória, havendo-a previsto, aceito e oferecido ao Eterno Pai!

Desta Chaga saiu o Sangue da minha redenção que saldou minhas dívidas para com a Justiça Divina. Saiu a Água que me regenerou no Batismo e repetidas vezes me purificou e me lavou na Confissão.66 Desta fonte bendita e inesgotável rebentam todas as graças, todas as bênçãos, e misericórdias que me são necessárias para a vida temporal e eterna.67

Esta Chaga é a Arca Noética, o místico refúgio, onde posso acolher-me para evitar o naufrágio universal. É a enseada segura onde guardo o frágil barquinho da minha alma, quando o mar revolto e encapelado do mundo e das paixões ameaça tragar-me em seus abismos. É o recôncavo da rocha granítica, onde se esconde a ave da minha alma quando regouga o temporal e é batida pela tempestade.

Mas ai de mim! Que esta mesma Chaga me será mostrada um dia pelo meu Salvador transformado em meu Juiz, para convencer-me de ingratidão indesculpável, de rebelião inescusável, caso não corresponda agora as divinas inspirações e não ponha mãos a obra, a tratar do negócio momentoso da minha salvação.68

De todas as minhas iniquidades, contrito e penalizado acuso-me hoje, ó Senhor, arrimado no esteio seguro da vossa misericórdia, certo de que não me serão amanhã lançadas em rosto no tribunal da vossa inflexível Justiça. Lavai-me com esta deificada Água, limpando-me e purificando-me ainda mais com o vosso Sangue.

Permiti escolha o vosso Coração como minha morada permanente.69

Sei que não possuo a limpidez e pureza necessária para habitar Lugar tão santo.

Sei porém, que, se Vós o quiserdes tornareis minha alma inocente e chamejante pela caridade.

Pelos merecimentos pois do vosso Coração acudi-me na vida e amparai-me na morte.

Confio em Vós, sabendo que, se pela vossa misericórdia, tenho-as muito maiores para me alentar e consolar.

Propósito: Belos pensamentos, formosas ideias mas que nada valem sem as obras. Se quero pois hospedar-me no Coração de Jesus, hei de na medida das minhas forças, tornar-me semelhante a Jesus!


Coração Aflito de Jesus, Vítima Universal.70

Assim como todas as águas vão lançar-se no mar, assim todas as aflições se reuniram no Coração de Jesus. Ele as aceitou com o mais sublime devotamento, impelido por Seu amor para conosco, amor que chegou ao excesso e, perdoem-nos a expressão, à loucura: pois, não é uma loucura de amor da parte de Deus, ter querido se carregar de todas as iniquidades do mundo, a fim de sofrer o castigo delas?

Jesus Cristo sabia que todos os sacrifícios dos animais, oferecidos a Deus no passado, não tinham podido satisfazer pelos pecados dos homens, mas que era necessária uma Pessoa Divina para pagar o preço da Redenção: que fez? Ofereceu-Se a Seu Pai, para aplacar Sua ira e obter nosso perdão. Dois caminhos, então, apresentavam-se ante Ele, um, de prazer e glória, outro, de padecimentos e opróbrios; qual deles foi escolhido? Como Ele queria não só nos resgatar da morte, mas ainda conseguir o amor de nossos corações, renunciou ao prazer e à glória, e escolheu os padecimentos e opróbrios.71 Assim é que este amável Senhor, sem ser obrigado, tomou sobre Si todas as nossas dívidas, como claramente se exprime o Profeta Isaías: Vere languores nostros ipse tulit - Verdadeiramente Ele foi o que tomou sobre si as nossas fraquezas.72

Eis que, então, o Coração de Jesus, a Inocência, a Pureza, a Santidade mesma, é carregado de todas as blasfêmias, de todas as torpezas, de todos os sacrilégios, de todos os roubos, de todas as impurezas e de todos os crimes dos homens; ei-Lo tornado, por nosso amor, objeto das maldições divinas, por causa de nossos pecados pelos quais Se obrigou a satisfazer à eterna Justiça; ei-Lo carregado de tantas maldições quantos pecados mortais foram, são e serão cometidos sobre a Terra. Neste estado é que Ele se apresenta a Seu Pai, como culpado e responsável por todos os nossos crimes, e Deus, Seu Pai, O condena por isso a padecer morte infame da cruz. Então, foi que nosso Salvador se prostrou com a Face por terra,73 como se tivesse vergonha de levantar os olhos para o Céu, vendo-se carregado de tantas iniquidades. Então, foi que Ele experimentou aquela imensa angústia que lhe fez dizer: Minha Alma está triste até a morte.74 Ó Pai eterno, como podeis ver Vosso Filho amadíssimo em tão grande aflição? Bem sei, diz o Padre eterno, que Meu Filho é inocente, mas, pois que Ele se encarregou de satisfazer à Minha Justiça por todos os pecados dos homens, convém que Eu O abandone a todas às aflições que esses pecados merecem: Eu O feri por causa da iniquidade de Meu Povo.75

Ó caridade incomparável do Coração de Jesus! Ele, nosso Deus, fez-Se nosso Fiador, obrigando-Se a pagar nossas dívidas, segundo a bela expressão do Apóstolo;76 e, depois de ter satisfeito por nós, prometeu-Nos da parte de Deus a Vida Eterna. Também o Eclesiástico nos recomendou, há muitos séculos, nunca nos esquecermos do benefício que devemos a Este Celeste Fiador,77 que quis padecer tanto para nos obter a salvação.

Ó caridade infinita do Coração de Jesus! Os médicos fazem todos os esforços para curarem o enfermo por quem se interessam. Mas, qual é o médico que toma sobre si a enfermidade de outrem, para o curar? Jesus Cristo é o único Médico que tomou sobre Si nossas enfermidades para as curar. O Verbo Divino não quis enviar outrem para fazer este misericordioso ofício; Ele mesmo se dignou vir, para ganhar todo nosso amor.

Ó caridade verdadeiramente divina do Coração de Jesus! Ele não se contentou de oferecer à Justiça Divina uma satisfação suficiente, quis que ela fosse superabundante; digo superabundante, porque, para nos resgatar, uma simples súplica do Homem Deus bastava; mas, o que era suficiente, não satisfazia o Coração mais amante que tem havido e pode haver.

Ó caridade verdadeiramente inefável e inaudita do Coração de Jesus, Vós nos obrigais a pormos em Vós confiança sem limites, pois nada pode nos perturbar tanto, quanto Vós nos podeis sossegar. Cerquem-me os pecados que tenho cometido, apertem-me os temores do futuro, armem laços contra mim os Demônios; se peço misericórdia a Jesus Cristo que me consagrou Seu Amor até morrer por mim, não posso perder a confiança. Como, com efeito, poderia me abandonar o Deus, que por amor de mim se entregou à morte? Ò Coração de Jesus, Vós sois o Porto Seguro daqueles que, na tempestade, recorrem a Vós! Ó Pastor vigilante, é errar, não esperar em Vós, uma vez que se tenha vontade séria de se corrigir. Vós dissestes: “Sou Eu, não temais, Sou Eu que aflijo e consolo. Eu envio algumas vezes a Meus servos tribulações que se assemelham com o Inferno; mas, não tardo em os livrar delas e consolá-los.

Eu Sou vosso Advogado: vossa causa é Minha. Eu Sou vossa caução: vim pagar vossas dívidas. Sou vosso Salvador: resgatei-Vos com o Meu Sangue, não para vos abandonar, mas para vos enriquecer, tendo vós Me custado tão alto preço.

Como fugirei de quem Me busca, Eu que saí ao encontro daqueles que queriam me ultrajar? Eu não voltei Meu rosto daqueles que Me feriam; voltá-lo-ei daquele que quer Me adorar? Como Meus filhos podem duvidar que os amo, vendo-Me entre as mãos de Meus inimigos por seu amor? Já Me viram desprezar aquele que Me deu seu amor, ou aquele que implorava Meu socorro? Eu chego ao ponto de ir à procura de quem não Me busca”.

Prática

Minha confiança no Coração de Jesus será sem limites, pois o amor que Ele me tem, é sem limites. Venham perseguições, securas, escrúpulos, tentações, temores de perder-me, direi sempre com o Salmista: Ponho, Senhor, minha alma entre vossas Mãos; confio plenamente em Vós, porque me resgatastes.78

Afetos e Súplicas

Meus Jesus, se Deus Vos carregou de todos os pecados dos homens,79 com que peso não aumentei pelos meus a Cruz que levastes até ao Calvário? Ah! Meu terno Salvador, Vós  víeis já, então, as injúrias que eu vos havia de fazer: apesar disto, não deixastes de amar-me e preparar-me estas grandes misericórdias, de que me cumulastes depois. Se, então, vos tenho sido tão caro, eu, o mais vil e ingrato dos pecadores, que tanto Vos ofendi, justo é que, a vosso turno, Vós me sejais caro, ó meu Deus, Bondade e Beleza infinitas. Ah! Oxalá nunca Vos houvesse contristado! Agora, meu Jesus, vejo toda a indignidade de meu procedimento. Malditos pecados, enchestes de amargura o Coração tão terno e amante do meu Redentor! Perdoai-Me, meu Jesus, arrependo-me de Vos ter ofendido: no futuro sereis o único objeto de meu amor. Ó Amabilidade infinita, eu Vos amo de todo o meu coração, resolvido a não amar mais senão a Vós. Senhor, com Santo Inácio Vos digo: Dai-Me vossa Graça e vosso Amor, e satisfeito fico.

Oração Jaculatória

Cordeiro sem mancha, tantos padecimentos que sofrestes por mim, não fiquem perdidos!

Exemplo

Joaquim Gaudiello, irmão leigo da Congregação do Santíssimo Redentor, foi toda a sua vida ardente amigo da cruz, o que o tornou singularmente caro ao Coração generoso de Jesus.

Quando ele se resolveu a ser religioso, perguntaram-lhe porque queria abraçar condição tão humilde: “É porque, respondeu ele, quero com o desprezo do mundo seguir a Jesus Cristo vilipendiado e desprezado”. Joaquim não cessou de fazer a seu corpo guerra cruel, sujeitando-o à mortificação e ao trabalho, e, o que é digno dos maiores elogios, soube unir os trabalhos manuais com o mais alto espírito de oração. Recorria a Deus em todas as suas necessidades, “porque Ele é meu Pai, dizia, a Ele recorro como filho Seu”. Jesus no Santíssimo Sacramento tinha absorvido seu coração; ele vivia tão ávido da Santa Comunhão, que lhe permitiram fazê-la todos os dias. Em seus momentos de lazer, recolhia-se à igreja para derramar seu coração no Coração do amável Jesus. Como Jesus era toda a sua glória, Joaquim não tinha em conta alguma as vaidades do mundo, e punha toda a sua felicidade nas humilhações e nos desprezos. “Que é o mundo, costumava dizer, ainda às mais altas personagens, que é o mundo senão uma sombra, um fumo, mas, fumo do Inferno?” Apenas na idade de 22 anos, enfermou-se, e dessa doença morreu. Interrogado como passava no leito de dores: “contemplo no meu espelho”, respondeu mostrando o crucifixo. Seu amor dos padecimentos e sua conformidade com a vontade de Deus eram verdadeiramente admiráveis. A um padre que lhe perguntou certo dia, quando ele queria ir para o Céu, respondeu todo alegre: “Quero ir, quando meu Jesus o quiser”. Seu amor ao Santíssimo Sacramento era tão terno, que parecia transformá-lo em serafim, quando diante do tabernáculo. Um dia num transporte de amor, ele disse ao padre Mazzini: “Tomai um cutelo, abri meu peito, tirai meu coração e colocai-o no tabernáculo junto do Santíssimo Sacramento”. Sua tristeza era não poder morrer crucificado como Jesus Cristo. Dizia-se-lhe, para o consolar, que seu leito era uma cruz: “Não, respondia gemendo, não é cruz para mim, porque sou fortificado por Jesus crucificado e consolado nas amarguras”. Puseram diante dele uma pequena estátua de Jesus atado à coluna; apenas a viu, desfez-se em lágrimas, e disse suspirando: “Ai! Não poder eu tornar-me semelhante a Vós, ó meu Jesus flagelado por mim! Enviai-me padecimentos e chagas, ó meu Salvador!” Sentindo que a morte se aproximava, ele testemunhou desejo de receber a Extrema Unção, dizendo: “É a última consolação que Jesus Cristo nos deixou na Sua bondade”. Depois de ter recebido a Santa Comunhão, ficou arrebatado fora de si; sua figura assumiu ar angélico, e todo o dia ele ficou neste estado sobrenatural. Pela tarde, perguntaram-lhe como estava: “Eu sinto, disse, Jesus no meu coração”. Na véspera de sua morte, exclamava em celeste transporte: “Paraíso! Paraíso!” Sendo o primeiro redentorista que morria, ele dizia a seus irmãos, por último adeus, estas luminosas palavras: “Eu sou o porta-estandarte!” Sua agonia foi um ato ininterrupto de amor, e ele expirou pronunciando os Santos Nomes de Jesus e Maria, em 1741. O Senhor se dignou manifestar, por diversos prodígios, a santidade de Seu servo. Santo Afonso lhe chamava “moço dotado de todas as virtudes”.


A Humildade de Coração
Segundo o Sagrado Coração de Jesus80

Ó Jesus manso e humilde de Coração, fazei o meu coração semelhante ao Vosso.

1 – Só uma vez Jesus disse expressamente: aprendei de Mim, e disse-o a propósito da humildade: “Aprendei de Mim que Sou manso e humilde de Coração”.81 Sabendo bem como seria difícil à nossa natureza orgulhosa, a prática da verdadeira humildade, parece ter querido dar-nos assim um particular estímulo. O Seu exemplo, as Suas inauditas humilhações que O tornaram “o opróbrio dos homens e a abjeção da plebe”,82 que por nós O “fizeram pecado83 e que O carregaram com todas as nossas iniquidades, até ao ponto de ser “contado entre os maus”,84 são o maior estímulo e o maior convite à prática da humildade.

Jesus fala-nos diretamente da humildade do coração porque toda a virtude, toda a reforma de vida, para serem sinceras devem provir do coração, de onde vêm os pensamentos e as ações. Uma atitude exterior, um modo de falar humilde, são vãos sem a humildade de coração e são muitas vezes a máscara de um orgulho refinado e por isso mais perigoso. “Purificai primeiro o que está dentro – dizia Jesus condenando a hipocrisia dos fariseus – para que também o que está fora fique limpo”.85 E Santo Tomás ensina que “da disposição interior para a humildade procedem certos sinais nas palavras, nos gestos, nas ações, mediante os quais se manifesta no exterior o que está escondido no interior”.86

Se queres, pois, ser verdadeiramente humilde, exercita-te acima de tudo na humildade do coração, aprofundando cada vez mais o conhecimento sincero do teu nada e da tua pequenez. Aprende a reconhecer sinceramente os teus defeitos, as tuas faltas, sem as quereres atribuir senão à tua miséria, e reconhece o bem que está em ti como puro dom de Deus, nunca o julgando propriedade tua.

2 – A humildade do coração é uma virtude difícil e fácil ao mesmo tempo; difícil, porque contraria o orgulho que nos leva a exalta-nos; fácil, porque não precisamos de ir longe procurar-lhe as causas, já que as temos – e com que abundância! – em nós próprios, na nossa miséria. Para sermos humildes, porém, não basta sermos miseráveis; só é humilde quem reconhece sinceramente a própria miséria e age em consequência.

Como o homem é soberbo por instinto, não pode chegar a este reconhecimento sem a graça de Deus. Mas como Deus não recusa a ninguém as graças necessárias, dirigi-te a Ele e, com confiança e constância, pede-lhe a humildade do coração. Pede-lha em nome de Jesus que tanto Se humilhou para a glória do Pai e para tua salvação, “pede em seu nome e receberás”. 87 Se apesar do desejo sincero de te tornares humilde, sentes, muitas vezes, agitarem-se em ti movimentos de orgulho, de vanglória, de vã complacência, em vez de desanimares, reconhece-os como fruto da tua má natureza e serve-te deles como de um novo motivo para te humilhares.

Lembra-te, além disso, de que podes praticar sempre a humildade do coração, mesmo quando não puderes fazer atos particulares e exteriores de humildade, quando ninguém te humilha, quando até pelo contrário, és alvo da confiança, da estima, do louvor dos outros. Santa Teresa do Menino Jesus dizia em tais circunstâncias: “Isto não poderia inspirar-me vaidade, tenho continuamente presente no pensamento, a lembrança do que sou”;88 e tu pensa que “não és mais santo por ser louvado ou mais pecador por ser censurado”.89 Assim quanto mais te exaltarem, mais te deves humilhar em teu coração. Praticada desta maneira, a humildade do coração far-te-á conceber tão baixo conceito de ti mesmo, que jamais serás capaz de preferir-te a alguém, pois todos julgarás melhores do que tu, mais dignos de estima, de respeito, de consideração; assim estarás em paz, nunca sendo perturbado pelo desejo de superar os outros nem pelas humilhações recebidas. A paz interior é fruto da humildade, pois Jesus disse: Aprendei de Mim que sou manso e humilde de coração e achareis descanso para as vossas almas”.90


O Sagrado Coração de Jesus
não Pode nos Enganar

Consideremos, que não é só a excelência do Coração de Jesus, por ser Coração de um Deus, como... meditamos, que nos deve determinar a abraçar a Sua Devoção; mas, também, as Promessas das Graças com que o próprio Jesus afirmou estar disposto a enriquecer os devotos do Seu Coração. E quanto necessitamos nós dessas graças, sem as quais nada podemos nós, bem no-lo ensina a Fé e o Evangelho, que registrou estas palavras saídas de Seus lábios divinos: 'Sem Mim, sem a Minha Graça, nada podereis fazer'91. Despertemos, pois, a nossa Fé, lembrados de que Jesus é a Verdade, e que, por conseguinte, não pode mentir, nem faltar à palavra dada em favor dos devotos de Seu Coração, a não ser que deixemos de praticar com fervor, sinceridade e perseverança esta Devoção; e, para estimular cada vez mais a nossa piedade, recordemos (sempre) estas Promessas.

Está, pois, em nossas mãos enriquecermo-nos com tamanhos Tesouros. Se, porventura, não temos visto realizadas em nós estas Promessas, examinemos, se a nossa devoção tem sido constante, ou se depois de empreendida, não a temos descuidado; se tem sido verdadeira, a saber, se temos acompanhado a sua prática com a emenda da nossa vida e com a fuga dos pecados voluntários; se tem sido sempre acompanhada de confiança e alimentada pela firme esperança de conseguir o que temos pedido, pelos merecimentos do Divino Coração. Não nos afastemos hoje dos pés de Jesus Cristo, sem tomar a firme resolução de acabar com os defeitos cometidos até ao presente, na prática desta santa Devoção, e confiemos em Sua Palavra, que não deixará de conceder-nos as Graças prometidas”.92

Eu o Senhor, a seu tempo farei (tudo) isto subitamente”.93

Por amor de Mim, por amor de Mim o farei, para que Eu não seja blasfemado (pelos teus inimigos)”.94

Se não cremos, Ele permanece fiel, não pode negar-Se a Si mesmo”.95

Deus é verdadeiro”.96


A Chave do Céu

Alma cristã, queres de hoje em diante viver segura, garantindo o importante negócio da tua salvação eterna? Queres adquirir o direito à glória eterna do Céu? Pois bem, tu já viste que o Sagrado Coração de Jesus, no excesso da misericórdia do Seu amor, pôs em tuas mãos a chave de ouro que te abrirá as portas do Céu, no último instante de tua vida. Esta chave de ouro está à tua disposição, basta que a queiras, basta que faças as nove sextas-feiras em honra do Sacratíssimo Coração Jesus. Podia bem o Bom Jesus liberalizar-te, melhor do assim, a salvação de tua alma? Grata e reconhecida, prostra-te a Seus pés, agradece-Lhe de todo o coração por ter posto a teu dispor um meio tão fácil de salvação e promete-Lhe que hás de começar já esta devoção. Feliz de ti se perseverares: o Paraíso será teu galardão, porque bem o sabes, Jesus é fiel em Suas promessas.97


Os Emblemas do Santíssimo Coração de Jesus98

As Chamas

Considerações: É manifesta a significação das chamas que cercam o Sagrado Coração. Santa Margarida viu-as já envolvendo toda a Pessoa de Jesus Cristo, já agitando-se como labareda dentro do seu Peito aberto pela Chaga do Lado. – O meu divino Salvador, diz a Santa, significou-me que as chamas simbolizam a abundância dos tesouros, cujo manancial se encontra no seu Coração. Numa palavra, todos os instrumentos da Paixão que o rodeiam, mas, sobretudo, as chamas, significam que o amor imenso deste divino Coração para com os homens foi a causa de todos os sofrimentos e amarguras que por nós quis sofrer.

Aplicações: O amor do Coração de Jesus, tanto o amor eterno do Verbo Divino, como o seu amor humano depois de incarnar, mostrou-se por obras admiráveis, que os Santos chamam loucuras de amor. Sendo Deus, tomou por nosso amor a forma de servo, quis ser menino, padecer pobreza e fadiga... sofreu todas as nossas misérias, exceto o pecado.

Afetos: O vosso Coração Divino vos levou, meu Salvador, a morrer entre atrozes tormentos por nós escravos e pecadores! E subindo ao Céu achastes modo de ficar ao mesmo tempo na terra embora escondido no Sacramento dos nossos altares, onde sois o viático da nossa alma! E lá no Seio do Eterno Pai intercedeis por nós e mandais à nossa alma o vosso Divino Espírito.

O amor mostra-se por obras, não consiste em palavras apenas. E quais são as obras com que temos correspondido ao amor do Coração de Jesus? Como estará queixoso da nossa frieza e ingratidão!

Propósitos: Acendamos o nosso amor na devoção ao Sagrado de Jesus, na meditação e sobretudo na comunhão, que é o Sacramento do amor. As faltas voluntárias são grande impedimento ao fervor da caridade. Examinemo-nos. Tenhamos confusão e pesar. Supliquemos ao Coração de Jesus que mande ao nosso coração, como fez a Santa Margarida Maria, uma das chamas que O abrasam!

A Cruz

Considerações:A Cruz”, segundo Santa Margarida Maria, “significa que desde o primeiro instante da Incarnação, isto é, desde que foi formado o Santíssimo Coração, lhe estiveram presentes e aceitou por nosso amor todas as humilhações e dores que havia de sofrer na sua Humanidade Sagrada, no curso da sua vida mortal e durante a Paixão, e os ultrajes a que havia de estar exposto pela maldade dos homens até ao fim dos séculos no Sacramento Augustíssimo dos nossos altares – Com batismo de sangue hei de ser batizado e como estou cheio de ânsias até alcançar esse meu desejo”, disse Jesus.99

Aplicações: Sem amor à cruz, isto é, sem espírito de sacrifício, não pode haver progresso na virtude nem zelo da glória de Deus. Quem ama a sua vida, diz Jesus, perdê-la-á. Qual é o nosso amor à cruz? Estamos dispostos a sacrificar por amor de Jesus a nossa reputação, a desprezar a estima das criaturas, a vencer os respeitos humanos? Aceitamos com paciência e até com amor as pequenas cruzes que o Senhor nos manda cada dia? Estamos prontos a sacrificar comodidades e tudo quanto há neste mundo e a mortificar as nossas paixões desordenadas, para conservar a graça de Deus, imitar a Jesus... mostrar-lhe o nosso amor? Estaríamos dispostos a dar por Ele a nossa vida, como os Mártires? Quem foge da Cruz, foge de Jesus.

Afetos: Peçamos instantemente ao Sagrado Coração o espírito de sacrifício.

A Coroa de Espinhos e a Ferida do Coração

Considerações: Segundo o Divino Salvador explicou a Santa Margarida Maria, a coroa de espinhos significa os desgostos e amarguras que lhe causaram nossos pecados. Os soldados no pretório de Pilatos puseram na Cabeça de Jesus uma coroa de agudos espinhos, mas bem mais cruéis são os espinhos que nós ousamos cravar no seu Coração, caindo em novos pecados.

A ferida aberta mostra-nos que esse Coração foi ferido para ser o nosso asilo e refúgio. O vosso lado, ó Jesus, diz São Bernardo, foi atravessado para nos abrir a entrada do Vosso Coração.

Aplicações: Jesus, no Jardim das Oliveiras, vendo a ingratidão com que os homens haviam de corresponder ao seu amor, a impiedade dos idólatras e infiéis, as heresias, blasfêmias e sacrilégios e toda a sorte de abominações dos mesmos batizados, e mais ainda as friezas e pecados das almas que lhe são consagradas, sentia no seu Coração uma agonia de morte. À Santa Margarida Maria pedia que as almas que mais o conhecem arrancassem esses espinhos com atos de desagravo e de amor e emendando-se de suas culpas voluntárias.

Temos procurado desagravar ou consolar assim o Sagrado Coração de Jesus? A Chaga aberta está nos convidando à confiança. Quem há de temer vendo que o Coração de Jesus está aberto para nosso refúgio? Nada nos assuste, nem mesmo os nossos enormes pecados. Esse Coração aberto é abrigo seguro, tanto na vida, como na morte. Procuremos esconder-nos nessa Chaga quando os trabalhos e tentações nos expuserem ao perigo de perder a paciência e a graça de Deus.

Colóquio: Façamos fervorosas atos de desagravo e reparação pelos espinhos que os homens e nós mesmos continuamos a cravar nesse Coração Divino. Pratiquemos a Comunhão reparadora e façamos-lhe visitas de desagravo.100 Excitemo-nos à confiança. Repitamos muitas vezes a jaculatória indulgenciada: Sagrado Coração de Jesus, tenho confiança em Vós.


1Biblia Sacra Juxta Vulgatam Clementinam, Evangelium Secundum Joannem, Cap. XIII, 23-27; Typis Societatis S. Joannis Evang., Desclée et Socii Edit. Pont., Romae – Tornaci – Parisiis, 1927.
2Bíblia Sagrada – Traduzida da Vulgata e Anotada pelo Pe. Matos Soares, Evangelho de Jesus Cristo Segundo São João, Cap. 13, 23-27; 13ª Edição, Edições Paulinas, São Paulo, 1961.
3Jo. 13, 25.
4“Evangelho de S. João Comentado por S. Agostinho”, Vol. II, Tratado XVIII, p. 27; versão do latim por Pe. José Augusto Rodrigues Amado, editora Casa do Castelo, Coimbra, 1945.
5Este texto, inspirado em várias passagens da Escritura, foi tirado do Ofício Comum dos Apóstolos, responsório breve da 7ª lição.
6Gên. 44, 1-14.
7Aqui se reconhece o Apóstolo amado, São João Evangelista.
8Mat. 20, 22; Marc. 10, 38.
9Mat. 20, 22.
10S. Luís Mª G. de Montfort, “Carta Circular aos Amigos da Cruz”, parág. 24, p. 33; Editora Santa Maria Ltda, Rio de Janeiro.
11“O Santo Evangelho de Jesus Cristo”, Evangelho de S. João, Cap. 13, 23, p. 375; pelo Revmo. Pe. José Lourenço, O.P., 3ª edição, edição da União Gráfica, Lisboa, 1939.
12“Novo Testamento”, Evangelho de S. João, Cap. 13, 23, p. 297; verão da Vulgata por D. Vicente M. Zioni com comentário do Pe. E. Tintori, O.F.M., Edições Paulinas, S. Paulo, 1964.
13“Novo Testamento”, 1ª Parte, Evangelhos e Atos dos Apóstolos, Evangelho de S. João, Cap. 13, 23-27, pp. 250-251; tradução segundo a Vulgata e resumo do comentário de Mons. Dr. José Basílio Pereira, Editores – Os Religiosos Franciscanos, Typ. de S. Francisco, Bahia, 1920.
14“Concordância dos Santos Evangelhos ou Os Quatro Evangelhos Reunidos em um Só”, Evangelho de S. João, Cap. 13, 23, p. 337; por Cônego Duarte Leopoldo, 4ª edição, Linográfica, S. Paulo, 1951.
15“Synopse Evangélica ou Texto harmonizado dos Quatro Evangelhos – segundo os Últimos Dados da Ciência”, Evangelho de S. João, Cap. 13, 23, p. 313; por um Pe. da Congregação da Missão, Estabelecimentos Brepols, A. G., Turnhout – Bélgica, 1911.
16“Nuevo Testamento”, Ev. S. Juan, 13, 23, p. 344; Versíon directa del texto original griego por Eloíno Nácar Fuster y Alberto Colunga Cueto, O.P., Biblioteca de Autores Cristianos – BAC, Madrid, 1960.
17“Vida de Cristo”, Cap. 38 – Judas, p. 421; por Fulton J. Sheen, tradução de M. Gonçalves da Costa, Editora Educação Nacional, Porto, 1959.
18V. Mauduit, Analys. De l'Evang., t. IV, dissertação XXXIV, p. 620.
19Origen. In Joan.
20“O Apóstolo S. João”, Cap. VII, II, p. 104; por Mons. Baunard, tradução de T.C.M., 2ª edição, Irmãos Pongetti – Editores, Rio de Janeiro, 1951.
21Rev. Pe. Fr. Caetano Maria de Bergamo, OFM.Cap., “Pensamentos e Afetos sobre a Paixão de Jesus Cristo para cada dia do ano – Extraídos da Sagrada Escritura e dos Santos Padres”, Vol. 2, Cap. CCCLIV, pp. 991-1001; tradução de Frei Marcellino de Milão, OFM.Cap., Escola Tipográfica Salesiana, Bahia, 1933.
22Jo. 19, 31.
23S. Agostinho, Tract. 120 in Jo.
24Jo. 19, 32.
25Jo. 19, 34. S. Cyrill. Alex.., in Jo. 19. Theoph., in Jo. 19.
26S. João Crisóstomo, Hom. 84 in Jo.
27Num. 9, 12. S. Beda in Jo. 19.
28S. Cipriano, Serm. De pass. Dom.
29S. Agostinho, in psalm. 52.
30Psalm. 52, 2; Os. 33, 21.
31S. Bernardo, Serm. De Adv.
32Zac. 12, 10.
33S. Agostinho, Manu., cap. 21.
34S. Agostinho, Manu., cap. 21.
35S. Bernardo, Tract. De pass. Dom., cap. 3.
36S. Brígida, Lib., 2 Revel., cap. 21.
37S. Boaventura, Medit., vit. Christ., cap. 80.
38Jo. 20, 27.
39S. Bernardo, loc. cit.
40S. Agostinho, Manu., cap. 21.
41S. Bernardo, loc. cit.
42Is. 2, 10; Abb. Guerric., Serm. 4 in ram. palm.
43S. Bernardo, eod. Loc; S. Anselmo, de Redempt., cap. 7.
44S. Agostinho, in Manu., cap. 33.
45S. Bernardo, Orat. rhythm. De pass. Dom.
46S. Bernardo, Serm. Signum mag. de B. Virg.
47Luc. 2, 35.
48S. Bernardo, loc., cit.
49S. Bernardo, loc., cit.
50S. Lourenço Justiniano, de Triumph. Chr. Ago.., cap. 6.
51S. Laur. Just. eod. Loc. cap. 18.
52S. Boaventura, Medit. Vit. Chr. c. 80.
53S. Boaventura, Stim. am., p. 1, c. 4.
54S. Lourenço Justiniano, de incend. Dib. am., cap. 1.
55S. Bernardo, tract., de pass., Dom., cap. 8.
562 Reg. 7, 27.
57S. Bernardo, Rhythm., de pass. Dom.
58Jo. 19, 34.
59S. Tomás, 3 p., qu. 66, art. 4 ad 3.
60Idem, ibid.
61Euthym., in Jo. 19.
62Theoph., in Jo. 19.
63S. Agostinho, tract., 120, in Jo.
64S. Cipriano, serm. De pass. Dom.
65Theoph., loc. cit.
66S. Atanásio, serm. De pass. Dom.
67S. Cipriano, serm. De pass. Dom.
68S. Agostinho, tract. 110, in Jo.; Idem in Symbolo.
69S. Bernardo, tract. De pass. Dom., c. 3.
70 “O Sagrado Coração de Jesus, segundo Santo Afonso de Ligório...”, pelo Pe. Saint-Omer, CSsR, Cap. “Hora Santa de Março”, pp. 218-225; 5ª Edição, Tipografia de Frederico Pustet, Ratisbona, 1926. Tradução Portuguesa feita da 83ª Edição, pelo Exmo. Revmo. Sr. D. Joaquim Silvério de Souza, Arcebispo de Diamantina.
71Heb. 12, 2.
72Is. 53, 4.
73Mat. 26, 39.
74Mat. 26, 37-38.
75Is. 53, 8.
76Heb. 7, 22.
77Eclo. 29, 20.
78Salm. 30, 6.
79Is. 53, 6.
80Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney, “Vivendo a Quaresma”, Meditação sobre “A Humildade de Coração”, pp. 175-176; Edições Apostólicas, Campos dos Goytacazes-RJ, 2010.
81Mat. 11, 29.
82Salm. 21, 7.
83II Cor. 5, 21.
84Marc. 15, 28.
85Mat. 23, 26.
86Iia Iae, q. 161, a 6.
87Jo. 16, 24.
88M.C. pág. 297.
89Imit. II, 6, 3.
90Mat. 11, 29.
91Jo. 15, 5.
92Francisco Vannutelli, S.J., “O Mês de Junho Consagrado ao Santíssimo Coração de Jesus”, Segundo Dia, pp. 19-22; Traduzida da 2ª Edição Italiana por D. Francisco do Rego Maia, 6ª Edição Brasileira, Casa Duprat, São Paulo, 1934.
93Is. 60, 22.
94Is. 48, 11.
95II Tim. 2, 13.
96Rom. 3, 4.
97Frei Salvador do Coração de Jesus (Terceiro dos Menores Capuchinhos), “A Grande Promessa do Sacratíssimo Coração de Jesus”, p. 19; Tradução do italiano, com autorização do Autor, por uma zeladora do Apostolado da Oração, Edições A Nação, Porto Alegre, 1944.
98Pe. Bruno Vercruysse, S.J., “Meditações Práticas para Todos os Dias do Ano”, Tomo II, Meditações Suplementares – Outubro, pp. 528-531; Terceira Edição, Livraria Apostolado da Imprensa, Porto, 1950.
99Luc. 12, 50.
100São práticas muito indulgenciadas para todos os fiéis. Os associados do Apostolado da Oração podem lucrar uma Indulgência Plenária, tanto pela Comunhão reparadora, como pela Hora Santa.


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