Blog Católico, para os Católicos

"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

sexta-feira, 12 de junho de 2015

As Inesgotáveis Riquezas do Sagrado Coração de Jesus (Ensaio em Fase de Conclusão) 13



O Sagrado Coração de Jesus
nos diz, que o Amor não é amado1

A famosa imagem infame de um grupo de comunistas espanhóis a fuzilar

a imagem do Santíssimo Sagrado Coração de Jesus em agosto de 1936.

Consolemos ao Santíssimo Coração de Jesus: Almas piedosas, sinceras amantes de Jesus, em união com a dileta Vítima, entrai confiantes neste divino Santuário do Sagrado Coração de Jesus, para lhe ouvir os dolorosos queixumes, queixumes longos, dilacerantes; Jesus se queixa porque depois de nos ter feito tantos benefícios, seu amor não é correspondido. Jesus não é amado, e não só não é amado, mas desprezado! E isto pelas almas mesmo a Ele consagradas. Escutemos, ó almas amantes de Jesus, estas queixas e depois de as termos bem meditado, tais quais nô-las apresenta, por meio de uma sua vítima de expiação, nós seremos impulsionados a reparar-lhe as feridas, dando-lhe amor por amor, sacrifício por sacrifício.

Sim, coragem e constância, ó almas piedosas; Jesus, Sumo Bem, ouve todos os corações, mas especialmente atende a vós, que lhe avaliais a bondade. E enquanto fazemos uma resenha dos lamentos de Jesus pensemos que estes gemidos são dirigidos não somente aos grandes pecadores, aos que esqueceram e negam a existência de Deus, mas principalmente a nós, que passamos por almas a Ele consagradas e que, contudo, O ofendemos tão ingratamente. Sim, Jesus, como fruto desta obrinha, espera de nós grande conforto, amor, reparação, expiação!...

Oh! Quão felizes se deverão sentir aquelas almas que conseguirem reparar e assim fazer com que cessem, de uma vez para sempre, as queixas de nosso querido Jesus! Oh! Pudera seu Sacratíssimo Coração voltar-se para nós e deixar brotar de sua caridade uma palavra de louvor pelo grande amor que havemos de lhe demonstrar!

Sim, sim, unânimes, demos nosso amor reconhecido a Jesus. Tudo o que fizermos e sofrermos, tudo seja por seu amor. Amemo-lO em união com sua eleita Vítima, por aqueles também que O não amam e, ao menos em parte, cessarão seus lamentos dolorosos.

As muitas causas das queixas do Santíssimo Coração de Jesus: Antes de anunciar as queixas do Ss. Coração de Jesus, como as patenteou à querida Vítima, para que as tornasse conhecidas a todos os fiéis, a fim de que Jesus tivesse conforto, reparação e mais amor, é bom formar delas um tríplice quadro: o primeiro é para os simples fiéis, o segundo toca às almas religiosas, e aos Sacerdotes se refere o terceiro. De seu diário me é lícito tirar só o quanto é necessário para secundar a divina intenção de Jesus, prestando atenção especialmente às vezes em que disse a sua vítima de expiação: Escreve, filha minha, porque gostaria que se tornasse útil também a tantas almas sedentas das Minhas exortações, tudo o que Te ensino; teu Padre espiritual propagará tudo pela imprensa... Dentre os lamentos de Jesus, seja no tocante aos simples fiéis, às almas Religiosas ou aos Sacerdotes, transcrevi as breves, mas, substanciosas instruções que Ele deu até agora e que poderão ser de grande vantagem às almas de boa vontade.

Noto ainda que, dentre as queixas de Jesus, algumas há, principalmente quando se mostra desgostoso por certas culpas, a que ajunta ameaças de castigos terríveis se os homens não se repuserem no caminho do bem... e alguma vez lhes une ainda a data... e que, se não se realizam, como já aconteceu mais vezes em outras aparições e sinais milagrosos, é porque esparsas providencialmente pelo mundo há dessas almas vítimas expiatórias, que aplacam a cólera divina... Mas certamente, se o homem não cair em si, Deus recorrerá à sua divina justiça para o atingir e assim, se o Amor não consegue corrigi-lo, se converta pelo medo de seus castigos.

É verdade, contudo, que por causa dos maus sofrerão os bons, mas seu padecer será uma preciosa e aceitável expiação a Deus, por Ele piedosa e grandemente recompensada com uma glória muito grande no Céu.

Causa dos Lamentos de Jesus: Voltando, portanto, o pensamento aos fiéis em geral, se compreende que a causa primordial dos lamentos do Sagrado Coração de Jesus, é a guerra sacrílega e infernal movida a Deus por diversas nações alucinadas por vícios odiosos e por um orgulho diabólico. Derribam igrejas, destroem santas imagens, profanam os sacrossantos Tabernáculos, aprisionam Sacerdotes, Bispos e maltratam e expulsam dos Institutos de Educação aos Religiosos e Religiosas, para substituí-los por indivíduos ímpios, irreligiosos, imorais, blasfemadores, e vendo que este amor pela religião e pela piedade não se pode desarraigar dos povos cristãos, criaram uma Seita nova, cujo Chefe não pode ser senão um demônio em carne humana, a Seita dos “Sem Deus”; e assim, penetram nas famílias para despedaçar os crucifixos, prender e torturar os fiéis que ocultamente procuram honrar a Deus por ocasião das Solenidades religiosas, especialmente da S. Páscoa e do S. Natal. Seita vergonhosa e perturbadora de toda a paz, de todo o bem, e que já, se ouve dizer, procura infiltrar-se ocultamente também em algumas cidades da Itália, introduzindo, a despeito da grande vigilância das autoridades civis e das graves penas infligidas pela lei, a obstinação nas blasfêmias e desacreditando com falsas afirmações a Religião e as autoridades da Pátria, infiltram a desconfiança na gente simples e ignorante, para melhor abrir o caminho a seus pérfidos intentos... Sequaz da Rússia, é o México, em que cada um pode ver até que excesso chegaram as ímpias facções, ao martírio de tantas pessoas pias e inocentes. E o mesmo se diga de alguma outra nação... Que terrível luta é esta contra Deus!... A quão grande nova Paixão é condenado o Sagrado Coração de Jesus!

Mas não duvidem estes, que não se zomba de Deus, – a seu tempo, se não se converterem, os fulminará o raio da cólera divina e compreenderão o poder invencível contra o qual querem lutar.

Miseráveis rastejantes vermes, contra o Onipotente!... E é por essas culpas obstinadamente cometidas, que Jesus confia a sua Vítima querida, a Sua queixa, o transbordar de Sua cólera, como veremos em lugar oportuno.

E aqui devemos acrescentar, que também nossas culpas, em que obstinadamente caímos, impedem as graças divinas e sobre atraem as vinganças do Céu... Jesus Sacramentado, por exemplo, quanto é desconhecido, profanado! Tantos se aproximam da Santa Comunhão com uma irreverência que penaliza... lábios sujos de um vermelho pegajoso, cara luzente, besuntada como um selvagem... Vestes decotadas, pernas e braços nus... Outros se lhe aproximam como a uma coisa qualquer e, muitas vezes, recebida apenas a Santa Hóstia, saem da igreja sem uma prece ao menos e levam Jesus às praças de suas distrações, de seus pecados. Outras almas, em vez de se aproximarem da Mesa Sagrada com fé viva, amor ardente e esperança de alcançar as graças necessárias, o fazem com fins profanos, para se darem ares de pessoas devotas, ao mesmo tempo que durante o dia, transgridem qualquer um dos Preceitos de Deus e da Igreja: comparecem a visitas e convites com maneiras e vestidos imodestos, organizam recepções e banquetes com iguarias proibidas em dias de abstinência, e não querem ouvir sermões, porque receiam ouvir alguma sentença divina que perturbe e entristeça com remorsos o seu coração. Mais: quando estas pessoas estão em veraneio, nas praias, nos banhos, porque a moda quer assim, (como se a moda fosse um preceito de maior autoridade que os Mandamentos divinos) seguem costumes indecentes, tomam parte nas conversas indecorosas e depois, de manhã, ei-las ajoelhadas à Mesa Eucarística, escandalizando deste modo aos bons fiéis!... Oh, quão grande erro nessa conduta, querendo agradar a Deus e seguir as máximas do mundo!... A estas profanações devemos acrescentar o grande número de sacrilégios que se cometem, secretamente embora, nas mesmas Comunidades Religiosas, por tantas comunhões feitas com Pecado Mortal na consciência, por causa, somente, do terror e pânico de serem observadas, notadas e mal julgadas!... (Não duvidando, em tal suposição, faltar à caridade com o pensar tão mal do próximo; o qual conscientemente não poderia fazer tal juízo temerário e culpável!...)...

Jesus, portanto, se queixa ainda porque os seus Sacramentos são profanados!... Que diremos do Santo Sacramento do Matrimônio? Em nossos dias principalmente se diria que é recebido, não já com o fim sublime para o qual foi instituído, isto é, para dar ao Céu muitos eleitos e para gozar da doce companhia duma criatura dócil, modesta, prudente; mas antes, para satisfazer paixões brutais, que acabam por ser uma profanação do Sacramento e causa de males gravíssimos no corpo e na alma... Escreveu bem o sábio e religioso médico Dr. Descureth, quando disse que se tantos, que morreram prematuramente ou repentinamente, ressuscitassem por um instante e declarassem a causa de sua morte diriam, na maior parte, ter sido o abuso do sensualismo...

Ah, quão grande aviltamento chegou o Gênero Humano! Quão sacrilegamente se profana este santo Sacramento do Matrimônio, cujo fim é dar santos ao Céu! Que desprezo das graças divinas! E que dolorosas, que terríveis contas deverão prestar a Deus na hora de sua morte aqueles cônjuges que não se corrigiram, respeitando o justo fim deste santo Sacramento! E daqui aprendam os jovens noivos a se preparar para tão escabroso passo, instruindo-se convenientemente e adequadamente comportando-se para não se enlamearem no pecado...

E se nos voltarmos às Mães Cristãs, delas há, sem dúvida, um bom número que zelam pela educação religiosa de sua família; estas mães piedosas, venerandas matronas, tem um santo zelo por este fim delicado, e rezam e choram, se dentre seus filhos descobrem falta de prática da religião ou qualquer outro abuso; Deus as abençoa generosamente, a estas almas tão preocupadas com a salvação de sua família e com a maior glória de Deus... Mas, há um número muito maior de mães, que em nada praticam a religião; e de cristãs só o nome conservam e a este o desonram com o descuido da prática dos deveres religiosos, dos santos Preceitos, e com educar tão mal sua prole, pessimamente influenciada por seus maus exemplos. Ah! Quantas culpas cometem essas, culpas que transpassam o Sagrado Coração de Jesus e o constrangem a queixas amargurosíssimas! Ah! Causa repugnância ver estas mães, estes pais, favorecer a imodéstia da juventude, desde a infância!

De fato, se observe em que revoltante nudismo estes progenitores desgraçados criam seus filhos! É uma coisa que repugna, a indecência com que andam vestidos!... Então, as belas palavras pureza, modéstia, pudor, verecúndia serão condenadas ao arcaísmo, proscritas do vocabulário?... Seria este um doloroso, pérfido indício de total corrupção, que acabará provocando os castigos divinos.

Reflitam bem sobre isto aqueles cuja consciência lhes incrimina uma tal desordem uma tal profanação do Sacramento. O mesmo afirmou em sua célebre Encíclica o Sumo Pontífice Pio XI, de santa memória. Jesus está dolorosamente sentido também porque os progenitores, ligados por este Sacramento, não correspondem a seu fim, educando seus filhos cristãmente, dando-lhes bom exemplo. Quantos pais de família não mostram costumes tão degradados que deixam a oração, esquecem a Santa Missa dominical, não ouvem a Palavra de Deus, de que tanta necessidade teriam; são intemperados no beber, maltratam a mulher, batem desumanamente nos filhos, blasfemam impiamente, zombam da religião e dos que a praticam! Que horror!

Ainda não é tudo; quantas mães, por seu mau exemplo, não são causa de escândalo para a família? Estas mulheres desgraçadas, em vez de acostumar os filhos à prática da religião, à frequência dos Sacramentos, à fidelidade em ouvir a Palavra divina que consola e ilumina, ao invés de os levar consigo às funções religiosas, para habituá-los à observância dos deveres cristãos, os conduzem aos cinemas, aos teatros, aos bailes; em vez de cuidar da boa ordem da casa e fazer dela um ninho de agradável descanso e paz, cuidam unicamente em se enfeitar com ambição, em se arrebicar, em se perfumar, em se espelhar e tornar a espelhar; e quando o marido chega, é obrigado a praguejar, porque não há nada de pronto, falta até o mais necessário!!... Daí discórdias, trocas de palavras contínuas, com que ficam os filhos escandalizados. Que responsabilidade diante de Deus!

Mas, então, que dolorosa degradação é esta do Sacramento do Matrimônio! Quão justamente o bom Deus deverá se sentir indignado!... E não se deixem depois estes pais infelizes, se tiverem algum dia que se sujeitar a dolorosos e humilhantes sofrimentos.

E, agora, falemos daquelas senhoras que se prezam do honroso nome de católicas. Um bom número destas, é verdade, se mostram verdadeiramente dignas de tal nome e das bênçãos que o bom Deus prodigaliza àquelas que tão bem trabalham para a glória do Senhor e salvação das almas. Mas, dentre elas, quantas não há, que em suas reuniões não sabem apresentar senão nobres propostas e depois, na prática, não são capazes de as fazer executar nem mesmo em sua família; e não se esforçam, na medida do possível, para impedir certos escândalos, o imodesto nudismo, avisando caridosamente às pessoas que não tem bastante discernimento moral, religioso, sacrificando o respeito humano, inimigo acérrimo de todo o bem. O mesmo se poderia dizer também de tantas almas agregadas a Pias Associações, Ordens Terceiras, Filhas de Maria, etc., pois muitas nem sempre edificam, com seu porte, suas palavras, e acabam por cair no vício abominável da hipocrisia. Oh! Que sobejos motivos de queixa dão essas almas ao Sagrado Coração de Jesus, que é honrado somente à flor dos lábios, mas seus corações bem longe estão dEle, como o testemunha seu comportamento repreensível.


Os Últimos Papas e o Coração de Jesus

Depois das revelações de Jesus a Santa Margarida Maria Alacoque, o primeiro Papa a pronunciar-se sobre esta devoção foi Clemente XIII, que declara que ao Coração de Jesus trespassado pela lança do soldado, é tributada adoração, aprovando assim o respectivo culto.
O Papa Pio VI na sua Constituição Apostólica “Auctorem fidei”, de 28 de Agosto de 1794, dá um novo contributo, voltando a declarar que a esta devoção é algo de essencial e que “ a doutrina que rejeita o Sacratíssimo Coração de Jesus, é falsa, temerária, nociva, ofensiva para os ouvidos piedosos e ofensiva para a Sé Apostólica.

O Papa Pio IX, grande devoto do Sagrado Coração de Jesus, estendeu a Festa a toda a Igreja Universal. A este Papa deve-se a aprovação da prática do mês de Junho em honra do Coração de Jesus, bem como a divulgação do uso da imagem segundo as revelações de Santa Margarida Maria.
Leão XIII, em 11 de Junho de 1899 consagra todo o gênero humano ao Coração de Jesus, anunciada na Carta Encíclica Annum Sacrum, de 25 de Maio de 1899. A 21 de Junho, o mesmo Papa aprova as ladainhas do Coração de Jesus, e no mesmo texto da Congregação dos Ritos, com essa data, aparece a exortação para os fiéis viverem as Primeiras Sextas-Feiras, prática que Jesus tinha pedido a Santa Margarida Maria Alacoque.

Mais tarde, S. Pio X dispôs que a consagração ao Coração de Jesus se renovasse todos os anos, e Bento XV aprovou o culto ao Coração de Jesus, com Missa e Ofício próprio, num decreto datado de 1921. Foi também célebre a Encíclica de Pio XI, Miserentissimus Redemptor, datada de 8 de Maio de 1928.

Por sua vez, Pio XII, na encíclica Haurietis Aquas de 15 de Maio de 1956, toda dedicada ao Coração de Jesus, afirmou o seguinte:

- “O Coração de Cristo é o Coração da Pessoa divina, isto é, do Verbo incarnado, e portanto representa e quase põe diante dos nossos olhos todo o amor que Ele teve e tem ainda por nós. Precisamente por esta razão, o culto ao Coração Sacratíssimo de Jesus deve merecer tanto a nossa estima, que o consideremos a profissão mais completa de toda a religião cristã… Por conseguinte, é fácil concluir que, afinal, o culto ao Coração Sacratíssimo de Jesus é o culto do amor com o qual Deus nos amou, por meio de cristo, e é também a prática do nosso amor a Deus e aos outros”.
O Papa Paulo VI, na carta apostólica, Investigabiles Divitias Christi, de 6 de Fevereiro de 1965, escreveu:

- “É absolutamente necessário que os fiéis prestem homenagem do culto, com práticas de piedade privadas e manifestações públicas, ao Coração de cuja plenitude todos nós recebemos, e d’Ele aprendam a maneira perfeita de ordenar a sua vida, para que esta corresponda plenamente às exigências dos nossos tempos…”.
Estes e muitos outros textos colocam diante de nós o pensamento da Igreja. É urgente intensificar e renovar a devoção ao Coração de Jesus. Precisamos de falar dela, de exortar a vivê-la, de a dar a conhecer. É esta uma das grandes missões do Apostolado da Oração, e também de todos os pastores e de todos os fiéis. Urge cumpri-la. Daqui virá a “civilização do amor”.

O Papa João Paulo II ao longo do seu pontificado falou e escreveu muito sobre o Coração de Jesus. Parecia ser uma das suas devoções, uma das suas “paixões”. Na grande encíclica “Dives in misericórdia”, (Deus rico em misericórdia) escreveu que “a Igreja parece professar de modo particular a misericórdia de Deus e venerá-la, voltando-se para o Coração de Cristo. De fato, a aproximação de Cristo, no mistério do seu Coração, permite-nos deter-nos neste ponto da revelação do amor misericordioso do Pai, que constitui, em certo sentido, o núcleo central – e, ao mesmo tempo, o mais acessível no plano humano – da missão messiânica do Filho do Homem”.

Mais tarde, a 19 de Outubro de 1985, o Papa afirmou que “do Coração trespassado de Cristo crucificado, brota a civilização do amor: No santuário daquele Coração, Deus inclinou-Se sobre o homem e fez-lhe o dom da sua misericórdia, capacitando-o a abrir-se, por sua vez, em misericórdia e em perdão para com os outros”.

Posteriormente, em 11 de Junho de 1999, no centenário da Consagração do gênero humano ao Coração de Jesus, João Paulo II, voltou a manifestar-se a propósito deste tema: “Por ocasião da solenidade do Sagrado Coração e do mês de Junho, exortei muitas vezes os fiéis a perseverarem na prática deste culto, que contem uma mensagem especial que é, no nossos dias, de extraordinária atualidade”, porque do Coração do Filho de Deus morto na cruz surgiu a fonte perene de vida que dá esperança a cada homem. Do Coração de Cristo crucificado nasce a humanidade, redimida do pecado. Diante da tarefa da nova evangelização, o cristão olhando para o Coração de Cristo, Senhor do tempo e da história, a Ele se consagra e, ao mesmo tempo, consagra os próprios irmãos, redescobre-se portador da sua luz”. Como afirmou João Paulo II, a nova civilização e a nova evangelização nascem do Coração de Cristo trespassado.

O Papa Bento XVI, que no cinquentenário da encíclica de Pio XII, “Haurietis Aquas”, escreveu ao P. Geral da Companhia de Jesus, responsável pela devoção ao Coração de Jesus, retoma o tema desta devoção e impulsiona a que não se afrouxe no desejo de dar a conhecer o Coração de Cristo. Apóstolos destemidos deste Divino Coração pois n’Ele estão todos os tesouros da sabedoria e da ciência. E na sua primeira encíclica afirma:

- “O olhar fixo no lado trespassado de Cristo”, de que fala S. João (cf. 19,17), compreende o que serviu de ponto de partida a esta carta Encíclica: “Deus é Amor. É lá que esta verdade pode ser contemplada. E começando de lá, pretende-se agora definir em que consiste o amor. A partir daquele olhar, o cristão encontra o caminho do seu viver e amar (nº 12)”.

Para Bento XVI, até o núcleo central da encíclica nasce do Coração trespassado. E mais adiante volta ao tema ao afirmar: “Ao longo das reflexões anteriores, pudemos fixar o nosso olhar no Trespassado, reconhecendo o desígnio do Pai que, movido pelo amor, enviou o Filho ao mundo para redimir o mundo” (nº19). Com estas palavras somos novamente convidados a olhar Aquele que trespassaram. Aliás, Bento XVI, convidou-nos a passar toda a Quaresma de 2007 a contemplar Aquele que trespassaram, pois só assim nos podemos converter ao amor, só assim amar o amor de Deus, só assim ter um coração que vai amando ao jeito de Jesus.



Cinquenta anos da encíclica Haurietis aquas, do papa Pio XII. Uma meditação do cardeal Carlo Maria Martini.


A Devoção ao Sagrado Coração de Jesus

Em 15 de maio o papa Bento XVI enviou ao superior-geral da Companhia de Jesus uma carta por ocasião dos cinquenta anos da encíclica Haurietis aquas. Pio XII, por sua vez, havia escrito essa encíclica para celebrar e recordar a todos o primeiro centenário da extensão a toda a Igreja da festa do Sagrado Coração de Jesus. Dessa forma, aproveitando a concatenação dos aniversários, o Papa quis religar-se ao fio ininterrupto dessa devoção que há séculos acompanha e conforta tantos cristãos em seu caminho. Nesta ocasião, pedimos algumas reflexões ao cardeal Martini, e ele nos enviou o texto que segue do cardeal Carlo Maria Martini, S.J.

Lembro-me muito bem do tempo em que saiu a encíclica Haurietis aquas in gaudio. Eu era então estudante de Sagrada Escritura e membro da comunidade do Pontifício Instituto Bíblico, onde era professor o ilustre biblista padre Agostino Bea, depois criado cardeal pelo papa João XXIII. Padre Bea era um estreito colaborador do papa Pio XII, e na comunidade se dizia, penso que com boas razões, que ele havia contribuído para preparar esse documento. Certamente impressionava a orientação bíblica de todo o texto, a partir do título, que é uma citação do livro de Isaías (12,3). Por isso, a encíclica (que trazia a data de 15 de maio de 1956) foi lida com muita atenção pela comunidade do Instituto Bíblico, que apreciava em particular o seu embasamento nos textos da Escritura. No passado, essa devoção, que de per si tem uma longa história na Igreja, se desenvolveu entre o povo a partir sobretudo das chamadas “revelações” de tipo particular, como a revelação a Santa Margarida Maria, no século XVII. A percepção de como nessa devoção tradicional estava sintetizada concretamente a mensagem bíblica do amor de Deus era algo que nos reaproximava dela, uma devoção que no passado recente havia sido muito cara sobretudo à Companhia de Jesus, em particular em sua luta contra o rigorismo jansenista.

O fato de o papa Bento ter desejado escrever uma carta para lembrar justamente essa encíclica ao superior-geral da Companhia de Jesus se deve certamente também a que os jesuítas se consideravam particularmente responsáveis pela difusão dessa devoção na Igreja. Isso também era afirmado por Santa Margarida Maria, segundo a qual esse encargo fora desejado pelo próprio Senhor, que se manifestava a ela.

Foi assim que a devoção ao Sagrado Coração me foi apresentada no noviciado dos jesuítas, na década de 1940. Isto me levava a refletir sobre a maneira como era possível viver uma devoção como essa e, ao mesmo tempo, deixar-se inspirar na vida espiritual pela riqueza e pela maravilhosa variedade da palavra de Deus contida nas Escrituras.

E essa pergunta se impunha com ainda maior insistência, na medida em que o meu caminho cristão pessoal também se deparou de certa forma desde a infância com essa devoção. Ela me havia sido infundida por minha mãe, com a prática das primeiras sextas-feiras do mês. Nesse dia, minha mãe nos fazia levantar cedo para ir à missa na igreja paroquial e tomar a comunhão. A promessa era que quem se confessasse e tomasse a comunhão seguidamente nas nove primeiras sextas-feiras do mês (não era permitido pular nenhuma!) podia estar certo de obter a graça da perseverança final. Essa promessa era muito importante para minha mãe. Lembro-me de que, para nós, jovens, havia também um outro motivo para ir tão cedo à missa. De fato, na época tomávamos o café da manhã num bar com um bom brioche.

Depois de tomar a comunhão em nove primeiras sextas-feiras seguidas, era oportuno repetir a série, para ter a certeza de obter a graça desejada. Disso veio depois também o hábito de dedicar esse dia ao Sagrado Coração de Jesus, hábito que depois, de mensal, se tornou semanal: toda sexta-feira do ano era dedicada de certa forma ao Coração de Cristo.

Assim era na minha lembrança a devoção daquela época. Ela estava concentrada sobretudo no louvor e na entrega ao Coração de Jesus, visto um pouco em si mesmo, quase separado do resto do corpo do Senhor. Algumas imagens reproduziam de fato apenas o Coração do Senhor, coroado de espinhos e atravessado pela lança.

Um dos méritos da encíclica Haurietis aquas era justamente ajudar a pôr todos esses elementos em seu contexto bíblico e sobretudo pôr em relevo o significado profundo dessa devoção, ou seja, o amor de Deus, que desde a eternidade ama o mundo e deu por ele o seu Filho (Jo 3, 16; cf. Rm 8,32, etc.).

Assim, o culto do Coração de Jesus cresceu em mim com o passar do tempo. Talvez se tenha atenuado um pouco, no que diz respeito a seu símbolo específico, ou seja, o coração de Jesus. E se tornou, para mim e para muitos outros na Igreja, uma devoção pelo íntimo da pessoa de Jesus, por sua consciência profunda, sua escolha de dedicação total a nós e ao Pai. Nesse sentido, o coração é considerado biblicamente como o centro da pessoa e o lugar das suas decisões. E é assim que vejo como essa devoção nos ajuda ainda hoje a contemplar o que é essencial na vida cristã, ou seja, a caridade. Compreendo também melhor como ela está em estreita relação com a Companhia de Jesus, a qual é gerada espiritualmente pelos Exercícios de Santo Inácio de Loyola. De fato, os Exercícios são o convite a contemplar longamente Jesus nos mistérios da sua vida, morte e ressurreição, para poder conhecê-lo, amá-lo e segui-lo.

Um grande mérito desse devoção foi, portanto, ter chamado a atenção para a centralidade do amor de Deus como chave da história da salvação. Mas, para perceber isso, era necessário aprender a ler as Escrituras, a interpretá-las de maneira unitária, como uma revelação do amor de Deus pela humanidade. A encíclica Haurietis aquas marcou um momento decisivo desse caminho.

Como foi que ocorreu e como ocorrerá ainda no futuro um desenvolvimento positivo das sementes lançadas pela encíclica no terreno da Igreja? Creio que um momento fundamental foi o Concílio Vaticano II, em sua constituição Dei Verbum. Ela exortou todo o povo de Deus a uma familiaridade orante com as Escrituras. Daí também as diversas “devoções” recebem aprofundamento e alimento sólido.

Poderíamos ver o ponto de chegada atual na encíclica do papa Bento XVI Deus caritas est. Ele escreve: “Na história de amor que a Bíblia nos narra, Deus vem ao nosso encontro, procura conquistar-nos - até a Última Ceia, até o Coração trespassado na cruz, até as aparições do Ressuscitado...”; e conclui dizendo: “Cresce então o abandono em Deus, e Deus torna-se a nossa alegria (cf. Sl 73[72],23-28)”. A questão, portanto, é ler com inteligência espiritual cada vez maior as Sagradas Escrituras, tendo desperta a atenção para o que está na raiz de toda a história da salvação, ou seja, o amor de Deus pela humanidade e o mandamento do amor ao próximo, síntese de toda a Lei e dos Profetas (cf. Mt 7,12).

Dessa forma serão caladas também hoje as objeções que ao longo dos séculos foram feitas ao culto do Sagrado Coração, que era acusado de intimismo ou de fomentar uma postura passiva, em prejuízo ao serviço ao próximo. Pio XII lembrava e desmentia essas dificuldades, que não desapareceram nem nos nossos tempos, se Bento XVI pode escrever em sua encíclica: “Chegou o momento de reafirmar a importância da oração diante do ativismo e do secularismo que ameaça muitos cristãos empenhados no trabalho caritativo” (nº 37).

Um outro mérito da encíclica Haurietis aquas consistia em sublinhar a importância da humanidade de Jesus. Nisso retomava as reflexões dos Padres da Igreja sobre o mistério da Encarnação, insistindo no fato de que o Coração de Jesus “devia sem dúvida pulsar de amor e de qualquer outro afeto sensível” (cf. nos 21-28). Por isso a encíclica ajuda a nos defendermos de um falso misticismo que tenderia a deixar de lado a humanidade de Cristo para aproximar-se de maneira de certa forma direta do mistério inefável de Deus. Como afirmaram não apenas os Padres da Igreja, mas também grandes santos como Santa Teresa d’Ávila e Santo Inácio de Loyola, a humanidade de Jesus continua a ser uma passagem ineliminável para compreender o mistério de Deus. Não se trata portanto de venerar apenas o Coração de Jesus como símbolo concreto do amor de Deus por nós, mas de contemplar a plenitude cósmica da figura de Cristo: “Ele é antes de tudo e tudo nele subsiste [...], pois nele aprouve a Deus fazer habitar toda a plenitude” (Cl 1,17.19).

A devoção ao Sagrado Coração nos lembra também como Jesus doou a si mesmo “de todo o coração”, ou seja, de bom grado e com entusiasmo. Assim, nos é dito que o bem deve ser feito com alegria, pois “há mais felicidade em dar que em receber” (At 20,35) e “Deus ama a quem dá com alegria” (2Cor 9,7). Isso todavia não deriva de um simples propósito humano, mas é uma graça que o próprio Cristo nos obtém, é um dom do Espírito Santo que torna fáceis todas as coisas e nos sustenta no caminho cotidiano mesmo nas provações e nas dificuldades.

Enfim, eu gostaria de mencionar aquilo que é chamado apostolado da oração, que nasceu no século XIX, por obra de padres jesuítas, em estreita conexão com a devoção ao Sagrado Coração. Considero que ele ponha à disposição de todos os fiéis, com a oferta cotidiana do dia em união com a oferta eucarística que Jesus faz de si, um instrumento muito simples para pôr em prática o que diz São Paulo no início da segunda parte da Carta aos Romanos, dando uma síntese prática da vida cristã: “Exorto-vos, portanto, irmãos, pela misericórdia de Deus, a que ofereçais vossos corpos como hóstia viva, santa e agradável a Deus: este é o vosso culto espiritual” (Rm 12,1).

Muitas pessoas simples podem encontrar no apostolado da oração uma ajuda para viver o cristianismo de maneira autêntica. Ele nos lembra também a importância da vida interior e da oração. Em Jerusalém se sente de maneira particular como a oração, e em particular a intercessão, constitui uma prioridade. Não naturalmente apenas a pobre oração de cada indivíduo, mas uma oração unida à intercessão de toda a Igreja, a qual, por sua vez, nada mais é que um reflexo da intercessão de Jesus por toda a humanidade.

Essa intercessão se eleva sem interrupção por parte de Jesus ao Pai, pela paz entre os homens e pela vitória do amor sobre o ódio e a violência. Precisamos muito disso em nossos dias, sobretudo nesta “cidade da oração” e “cidade do sofrimento” que é Jerusalém.



P.S.: Até aqui, as Postagens em honra do Sagrado Coração de Jesus. Em breve, sairá o "Ensaio", completo, em formato PDF.

"A Ele (seja dada) glória
por todos os séculos. Amém"
(Rom. 11, 36).

1Teol. Giovanni Bonifetti, “Chamas Divinas ou O Amor não é Amado”, pp. 13-16.19-28; Tradução da 3ª Edição Italiana, Escola Tip. “Santo Antônio” – Patronato – Santa Maria, 1939.


quinta-feira, 11 de junho de 2015

As Inesgotáveis Riquezas do Sagrado Coração de Jesus (Ensaio em Fase de Conclusão) 12



A Primeira Grande Revelação1


Durante a Oitava do Santíssimo Sacramento, no ano de 1675, Nosso Senhor comunicou à Santa (Margarida Maria) numa só aparição, a “Grande Revelação”, confiando-lhe de novo os Seus desígnios, e fazendo-lhe conhecer os principais motivos, objetos e práticas da Devoção ao Seu Sagrado Coração, e pediu-lhe transmiti-los ao Padre Cláudio de la Colombière, S.J., que escolhera a fim de servir em parte ao estabelecimento da nova devoção. Esse eminente religioso tinha chegado pouco antes a Paray, onde ocupava o cargo de Superior dos Jesuítas. Ela obedeceu, e Padre de la Colombière consagrou-se logo inteiramente ao Sagrado Coração de Nosso Senhor, e ordenou a Santa Margarida Maria que escrevesse a narração da “Grande Revelação”, o que ela fez imediatamente.

Esse religioso procurou desde logo divulgar o novo Culto. Enviado pouco tempo depois para a Inglaterra na qualidade de Confessor de S. A. R. a duquesa de York, que foi mais tarde Rainha da Inglaterra, conseguiu durante a sua permanência em Londres inspirá-la a diversas pessoas, como refere nos seus escritos. Ao concluir então o Diário de seus “Retiros Espirituais”, nele transcreveu o escrito de Santa Margarida Maria, assim como uma Oblação ao Sagrado Coração de Jesus Cristo que compôs ao consagrar-se ali novamente a Ele.

Vindo a falecer o Bem-aventurado Padre de la Colombière em 1682, alguns anos após ter regressado à França, todas as suas obras foram publicadas em 1684; pelo seu singular valor, e por ser esse Padre muito conhecido e estimado pelo seu fervor e pela sua eloquência, gozando mesmo de fama de santidade, lograram imediatamente grande sucesso; e foi desta forma que, pela leitura dos “Retiros Espirituais” desse venerando religioso, o público teve pela primeira vez conhecimento de uma aparição de Nosso Senhor Jesus Cristo relativa à instituição da Devoção ao Seu Sagrado Coração.

É o seguinte o trecho em apreço que reproduz o escrito de Santa Margarida Maria:

Acabando, diz ele, este retiro, cheio de confiança na Misericórdia de meu Deus, fiz-me lei procurar por todos os meios possíveis, a execução do que me foi prescrito da parte de meu adorável Mestre, com relação ao Seu precioso Corpo no Santíssimo Sacramento do Altar, onde o creio Verdadeira e Realmente presente; cumulado das doçuras em que posso tomar gosto e que posso receber da Misericórdia de meu Deus sem as poder explicar, reconheci que Deus queria que O servisse procurando o cumprimento de Seus desejos relativos à Devoção que sugeriu a uma pessoa a quem se comunica muito confiadamente, e para a qual quis servir-se de minha fraqueza. Já a inspirei a muitas pessoas na Inglaterra, e escrevi a respeito para a França, e roguei a um de meus amigos fazê-la ali muito útil, e o grande número de almas escolhidas que há naquela Comunidade me faz crer que a prática nessa Casa santa será muito agradável a Deus. Pudesse eu, meu Deus, estar em toda parte, e publicar o que esperais de Vossos servos e amigos?

Tendo-se Deus manifestado, pois, à pessoa que se tem motivo de crer estar conforme ao Seu Coração, pelas grandes Graças que lhe fez, ela explicou-se comigo a respeito, e obriguei-a a escrever o que me dissera, que de boa mente quis escrever eu mesmo no diário dos meus retiros, porque o Bom Deus quer na execução deste desígnio, servir-se das minhas fracas dedicações (esforços).

Estando, diz esta santa alma, diante do Santíssimo Sacramento num dia de Sua Oitava, recebi de meu Deus Graças excessivas de Seu Amor; tocada do desejo de usar de algum retorno, e de pagar amor por amor, Ele me disse: Não Me podes corresponder melhor, que fazendo o que tantas vezes Te pedi; e descobrindo-me Seu divino Coração: Eis este Coração que tanto amou os homens, que nada poupou, até exaurir-se e consumir-se para lhes testemunhar o Seu Amor; e em reconhecimento não recebo da maior parte, senão ingratidões, pelos desprezos, irreverências, sacrilégios e friezas que eles tem para Comigo neste Sacramento de Amor; porém, o que mais Me desgosta, é que são corações que Me são consagrados. É por isso, que te peço que a Primeira Sexta-feira depois da Oitava do Santíssimo Sacramento, seja dedicada a uma Festa Particular para honrar o Meu Coração, fazendo-lhe reparação de honra com um Ato de Desagravo, comungando nesse dia, para reparar as indignidades que recebeu durante o tempo que esteve exposto nos Altares; e Eu te prometo que Meu Coração se dilatará para derramar com abundância aos influxos do Seu divino Amor sobre os que lhe prestarem esta honra. – Mas, meu Senhor, a quem Vos dirigis, lhe disse essa pessoa, a tão fraca criatura e tão pobre pecadora, que sua indignidade seria mesmo capaz de impedir o cumprimento de Vosso desígnio? Tendes tantas almas generosas para executar os Vossos desígnios. – Pois, que, não sabes que Me sirvo dos mais fracos seres para confundir os fortes? Que é ordinariamente sobre os mais pequenos e pobres de espírito, sobre os quais faço ver o Meu poder com mais fulgor, a fim de que nada se atribuam a si mesmo? – Dai-me pois, disse-lhe eu, o meio de fazer o que Me ordenais; – por então Ele acrescentou: Dirige-te a Meu servo N. e dize-lhe de Minha parte, que faça o que puder para estabelecer esta Devoção, e dar este prazer ao Meu divino Coração; que não esmoreça pelas dificuldades que há de encontrar nisto, pois elas não faltarão, mas ele deve saber que é todo-poderoso aquele que desconfia inteiramente de si mesmo, para confiar-se inteiramente a Mim”2.


Devoção Para os Últimos Tempos

Mas Deus não deixou a Sua Obra imperfeita, inspirou Ele mesmo esta Devoção, que fizera conhecer a Santa Gertrudes ser particularmente reservada para estes últimos tempos, a fim de excitar com este meio a tibieza e a covardia dos fiéis; e por meio de um pequeno livro composto quase por acaso, sem estudo, sem arte, sem desígnio, inspirou esta Devoção mesmo às pessoas que nunca a tinham apreciado, e que outrora sem saber quase de que se tratava, a haviam, por assim dizer, desacreditado, e Deus serviu-se mesmo particularmente destas para inspirá-la quase por toda parte... Enfim, a aprovação universal que teve esta Devoção, a estima que dela fazem pessoas de um mérito e de uma virtude universalmente reconhecidos, faz esperar que Jesus Cristo será de ora em diante menos esquecido, melhor servido, e muito mais amado”.3


Objeto Particular desta Devoção

O objeto particular desta Devoção é o Amor imenso do Filho de Deus, que O levou a entregar-se por nós à morte, e a Dar-se inteiramente a nós no Santíssimo Sacramento do Altar, sem que a vista de todas as ingratidões e de todos os ultrajes que devia receber nesse Estado de Vítima Imolada até o fim dos séculos, tivesse podido impedi-lo de fazer este prodígio: preferindo expôr-se todos os dias aos insultos e aos opróbrios dos homens, do que não lhes testemunhar, pela maior de todas as maravilhas, até que excesso Ele nos ama”4.


Agraciamento de Santa Margarida Maria

Pode-se dizer que este amável Salvador reuniu em nosso tempo na pessoa desta santa religiosa, todas aquelas Graças extraordinárias, que fizera nos séculos passados às maiores Servas de Deus. (Ela) Teve a felicidade de conversar diversas vezes intimamente com Jesus Cristo como Santa Mechtilde e como Santa Gertrudes. O Filho de Deus deu-lhe o Seu Coração da mesma maneira que O havia dado a Santa Catarina de Sena, tendo-lhe tomado o seu que purificou, e que o abrasou com Seu puro Amor, como fizera àquela grande Santa. Quis deixar-lhe, como a Santa Teresa, uma prova contínua e sensível desta Graça extraordinária, por uma dor no lado muito sensível, que nenhum remédio humano jamais pode aliviar, e que a acompanhou até o túmulo...”5.

S. Margarida Maria

Procuro uma Vítima

Dir-vos-ei pois, que este Divino Salvador, tendo um dia aparecido a sua indigna escrava, Me disse: – Procuro uma vítima para o Meu Coração, a qual queira se sacrificar como uma hóstia de imolação ao cumprimento dos Meus desígnios; – e então sentindo-me toda penetrada da grandeza daquela Soberana Majestade, prosternei-me humildemente a Seus pés, e apresentei-lhe diversas santas almas que corresponderiam fielmente aos Seus desígnios. – Não, outra não quero senão a ti, disse-Me este amável Salvador, e é por isso que Te escolhi. – Então desfazendo-me em lágrimas, repliquei-lhe que bem sabia Ele ser eu uma criminosa, e que as vítimas deviam ser inocentes, que na verdade não tinha outra vontade senão a Dele, mas que não me podia resolver a fazer outra coisa do que aquilo que a minha Superiora me ordenasse: ao que consentiu... Mas era em vão que Lhe resistia, porquanto, não me deu descanso, até que por ordem da obediência, me tivesse imolado a tudo aquilo que desejava de mim, que era me tornar uma vítima imolada a toda sorte de sofrimentos, de humilhações, de contradições, de dores e de desprezos sem outra pretensão que a de cumprir os Seus desígnios; tendo-me oferecido a isto de todo o meu coração, disse-Me saber quais eram meus receios; mas que Me prometia (como creio já vo-lo ter dito) ajustar de tal forma as Suas Graças ao espírito de minha Regra, à obediência devida às minhas Superioras, à minha fraqueza e enfermidade, que um não impediria ao outro”6.


Aprendei de Mim,
que Sou Manso e Humilde de Coração,
e achareis descanso para as vossas almas.

Quanto ao que concerne aos assinalados favores que meu Salvador me fez a respeito da Devoção ao Seu Sagrado Coração, eu não saberia empreender relatá-los pormenorizadamente. Eis a respeito para satisfazer às ordens de minha Superiora. Foi que num dia de São João Evangelista, após ter recebido de meu divino Salvador uma Graça, pouco mais ou menos semelhante àquela que recebeu na noite da Ceia, esse bem-amado Discípulo, este divino Coração foi-me representado como num trono todo de fogo e de chamas, radiando de todo lado, mais brilhante que o sol, e transparente como um cristal. A Chaga que recebeu na Cruz, nEle aparecia visivelmente; havia uma coroa de espinhos ao redor deste Sagrado Coração, e uma Cruz em cima; e meu divino Salvador fez-Me conhecer que estes instrumentos de Sua Paixão significavam, que o imenso Amor que teve para com os homens, havia sido a Fonte de todos os Seus sofrimentos, e de todas as humilhações que quis sofrer por nós: que desde o primeiro instante de Sua Incarnação, todos estes tormentos e estes desprezos lhe haviam estado presentes, e que foi desde este primeiro momento que a Cruz foi, por assim dizer, plantada no Seu Sagrado Coração, que aceitou desde então para nos testemunhar Seu Amor, todas as humilhações, a pobreza, as dores, que a Sagrada Humanidade devia sofrer durante todo o curso de Sua Vida mortal, e os ultrajes a que o Amor O devia expôr até o fim dos séculos sobre os altares no Santíssimo e Augustíssimo Sacramento.

Fez-me conhecer em seguida que o grande desejo que tinha de ser perfeitamente amado dos homens, Lhe fizera formar o desígnio de Lhes manifestar o Seu Coração, abrindo-lhes todos os tesouros de Amor, de Misericórdia, de Graças, de Santificação e de Salvação que contém, a fim de que todos os que quiserem prestar-Lhe e procurar-Lhe todo o amor e toda a honra que lhes fosse possível, fossem enriquecidos com profusão de Seus divinos tesouros de que este Sagrado Coração é a Fonte, assegurando-Me que tinha um prazer especial em ser honrado na Figura deste Coração de Carne, do qual queria que fosse a Imagem exposta em público: a fim, acrescentou, de tocar com este objeto o coração insensível dos homens, prometendo-Me que derramaria com abundância no coração de todos aqueles que O honrassem, (com) todos os Dons de que está cheio, e que em todas as partes onde esta Imagem fosse exposta para ser especialmente honrada, Ela atrairia toda a sorte de bênçãos: que, aliás, esta Devoção era como um último esforço de Seu Amor, que queria favorecer os Cristãos nestes últimos séculos, propondo-Lhes um objeto e um meio ao mesmo tempo tão próprios para convidá-los amorosamente a amá-Lo, e a amá-Lo solidamente.

Depois disto este divino Salvador me disse pouco mais ou menos estas palavras: “Eis, minha filha, o desígnio para o qual Te escolhi; é por isto que Te fiz tão grandes graças, e que tomei um cuidado tão particular de ti, desde o berço. Tornei-Me Eu mesmo teu Mestre e teu Diretor, só para dispôr-te a receber todas estas grandes graças, entre as quais deves contar esta, como uma das mais assinaladas, pela qual Te descubro, e Te dou o maior de todos os tesouros, mostrando-Te, e dando-Te ao mesmo tempo o Meu Coração”. Então, prostrando-me com a face em terra foi-me impossível expressar meus sentimentos de outro modo que pelo meu silêncio, que interrompi em breve com as minhas lágrimas e com os meus suspiros.

Desde aquele tempo as graças de meu Soberano Mestre tornaram-se mais abundantes, o que fez que não podendo conter os sentimentos do ardente amor que sentia para com Jesus Cristo, eu procurava difundi-los pelas minhas palavras em todas as ocasiões, com o pensamento que tinha de que os outros recebendo as mesmas graças que eu, estivessem com os mesmos sentimentos. Mas fui disto dissuadida tanto pelo Reverendo Padre de la Colombière, quanto pelas grandes oposições que a isto encontrei...

O tempo que o meu divino Salvador havia destinado para esta Obra ainda não chegara; entretanto, cuidou Ele mesmo, como Me havia prometido, de me dispôr segundo o Seu desejo, às graças que me queria fazer, mas só foi fazendo-Me graças ainda maiores do que aquelas que já me fizera. A primeira, foi que depois de uma Confissão Geral de toda a minha muito criminosa vida, logo após a absolvição, fez-Me ver um vestido mais branco que a neve ao qual chamava o vestido de Inocência, de que Me revestiu, dizendo-Me, parece-me, pouco mais ou menos estas palavras: “Minha filha, de agora em diante as faltas que cometeres, humilhar-te-ão muito, mas não Me obrigarão a afastar-Me de ti”. Em seguida, abrindo-Me pela segunda vez o Seu adorável Coração, acrescentou: “Eis aqui, o lugar de tua morada eterna, onde poderás conservar sem mácula, o vestido de Inocência de que revesti tua alma”. Desde aquele tempo não me lembro de ter jamais saído deste amável Coração. Encontro-me sempre Nele, mas de um modo e com sentimentos que não me é permitido exprimir: tudo o que posso dizer, é que habitualmente me encontro Nele como numa fornalha ardente de puro amor...”7.

Revelação da Hora Santa

Minha filha, esteja atenta à Minha Voz, e ao que Te peço para dispôr-te ao cumprimento dos Meus desígnios: Receber-Me-ás no Santíssimo Sacramento tão frequentemente quanto a obediência te o quiser permitir, por mais mortificações e humilhações que disto te devam advir, as quais receberás como um penhor do Meu Amor; comungarás além disso, todas as primeiras Sextas-feiras de cada mês: e todas as noites de Quinta-feira para Sexta-feira far-Te-ei participar daquela mortal tristeza, que aceitei sofrer no Jardim das Oliveiras, e a qual te reduzirá a uma espécie de agonia mais dura de suportar que a morte. E para acompanhar-Me naquela humilde prece que apresentei então a Meu Pai no lastimoso estado a que estive reduzido, levantar-te-ás entre onze horas e meia-noite, para passar uma hora em oração, prosternada, com a face por terra, tanto para aplacar a Minha Cólera pedindo misericórdia pelos pecadores, quanto para adoçar de algum modo a amargura que senti então, vendo-Me abandonado de Meus Apóstolos: o que Me obrigou a lhes censurar a sua covardia dizendo-Lhes que não haviam podido vigiar uma hora Comigo; e durante aquela hora Eu mesmo Te ensinarei o que tiveres de fazer.

Mas no meio de todas as graças que Te faço, tem muito cuidado, Minha filha, em não crer ligeiramente em todo espírito, e nele não te fies, pois o Demônio nada esquecerá para te enganar; por isso nunca faças nada sem a aprovação daqueles que te dirigem, a fim de que tendo o consentimento de tuas Superioras, jamais caias nos laços que te arma, porque ele não tem poder sobre os verdadeiros obedientes”8.


O Amor Não é Amado:
Amorosas Queixas de Nosso Senhor.

Os homens, tem apenas friezas e recusa por todas as Minhas solicitudes para lhes fazer o bem...”9.

Olha como os pecadores Me tratam... Meu povo escolhido Me persegue...”10.

Não haverá ninguém que tenha piedade de Mim e que queira compadecer-se de Mim e tomar parte na Minha dor, no lastimável estado em que os pecados Me colocam, sobretudo nestes tempos?”11.

Satanás “precipita (as almas) aos montes no caminho da perdição...” É necessário, pois, “retirar as almas do caminho da perdição eterna...”, e as “colocar no caminho da salvação”12.

Ardentes Desejos de Nosso Senhor

Se soubesses como estou ansioso por Me fazer amar pelos homens, nada pouparias... Tenho sede, abraso-Me em desejos de ser amado!”13.

Meu divino Coração anda tão apaixonado de amor pelos homens...”14.

O adorável Coração de Jesus quer estabelecer Seu Reino de amor em todos os corações, (e com isso) destruir e arruinar o (reino) de Satanás. Parece-me que O deseja tanto, que promete grandes recompensas aos que de bom grado se dedicarem a isso de todo coração, segundo a capacidade e as luzes que Lhes der”15.

É preciso que Meu Coração difunda por meio de ti as chamas de sua ardente Caridade e se manifeste aos homens para enriquecê-los com Seus preciosos tesouros... que contêm as graças santificantes e salutares, para retirá-los do abismo da perdição”16. Tal é “o derradeiro esforço de Seu amor...” para “favorecer os homens, nesses últimos séculos, com Sua Redenção amorosa”17.


A Entronização da Imagem do Sagrado Coração
de Jesus Cristo nos Lares Cristãos

A Entronização pode definir-se: o reconhecimento oficial e social da Soberania do Coração de Jesus sobre uma família cristã.

Reconhecimento afirmado, tornado sensível e permanente pela instalação solene da Imagem desse Coração Divino, no lugar de honra e pelo Ato de Consagração.

Foi o próprio Deus de Misericórdia que disse: que, 'sendo a Fonte de todas as bênçãos, Ele as distribuiria em abundância em todos os lugares onde fosse colocada a Imagem do Seu Coração, para ser amada e honrada'.18

Disse ainda: 'Eu reinarei apesar dos Meus inimigos e de todos aqueles que quiserem se opôr'.19

A Entronização não é, então, outra coisa senão, a inteira realização do conjunto dos pedidos feitos pelo Sagrado Coração em Paray-le-Monial e das Promessas magníficas que acompanharam esses pedidos.

Digo o conjunto, porque a família a santificar é o objeto transcendente de todo esse apostolado: célula social, ela deve ser o primeiro trono vivo do Rei de Amor.

Para transformar, para salvar de novo o mundo, é preciso que o Natal se perpetue, que o Emanuel, o Jesus do Evangelho, habite sempre entre nós.

É preciso, para se chegar ao Reino Social de Jesus Cristo, retomar a Sociedade pela base e refazer a família cristã.

É pela família que se afirma e se mede o valor de um povo. O povo vale o que vale a família.

Dizia-me um grande convertido: 'Padre, o senhor nunca poderá exagerar a importância da Cruzada que está pregando. Deixamos de boa vontade para os católicos as igrejas, as capelas, as catedrais; basta-nos, para perverter a Sociedade, possuir as famílias. Se nisso formos bem sucedidos, acabou-se a vitória da Igreja'.

Oh! Como será sempre verdadeira esta Palavra de Jesus: 'Os filhos deste século são mais prudentes que os Filhos da Luz'.20

O grande mal da nossa Sociedade é que Ela perdeu o sentido do Divino. Que remédio dar a esse mal?

Voltar a Nazaré.

Foi por Nazaré, fundando a Santa Família, que o Verbo começou a Redenção do Mundo. As Sociedades para serem redimidas deverão voltar para lá.

Mostraram-vos quadros horríveis da devastação das igrejas nos países invadidos; vossas almas de católicos ficaram revoltadas. Pois bem, a ruína da família cristã é um ainda maior... A família é um templo dos templos. Não são essas igrejas esplêndidas, essas igrejas de pedra que salvarão o mundo, são as famílias cristãs, é Nazaré.

A família é a fonte da vida, a primeira escola da criança. Se a fonte da vida nacional for envenenada, a nação perecerá. O que queremos é inocular nas famílias a Fé e o Amor ao Sagrado Coração. Se Jesus Cristo for inoculado nas raízes, toda a árvore será de Jesus Cristo.

Ora, a Entronização é Nosso Senhor vindo reclamar Seu lugar no lar; como outrora, no fim de Suas viagens apostólicas, Ele pedia hospitalidade em Betânia; lugar de honra, porque Ele é Rei21 e, --- nós o repetimos --- Ele deve reinar sobre cada família em particular, a fim de vir a reinar bem cedo sobre a Sociedade... lugar íntimo e familiar porque Ele é Amigo22 e é pelo Seu Coração, pelo Seu Amor que Ele quer reinar.

A Entronização é, portanto, de fato, o Emanuel, o Jesus do Evangelho habitando ainda entre nós.

Todos os dias os milagres mais esplêndidos, mais inesperados, vem corresponder à confiança das famílias que souberam dizer 'Mane nobiscum!'.23 Sim, fica conosco! Fica... fecharemos a porta depois que entrares, queremos guardar-Te conosco para sempre!...”.24

* Chamai um Sacerdote amigo e fazei o quanto antes a Entronização da imagem do Sagrado Coração de Jesus em sua casa. “Venha a nós o Vosso Reino, seja feita a Vossa Vontade, assim na terra como no Céu”.25


Devoção da Guarda de Honra
do Sagrado Coração de Jesus26

Eu quero formar ao redor de Meu Coração uma coroa de doze estrelas, composta dos Meus mais queridos e fiéis servos* (Nosso Senhor a S. Margarida Maria Alacoque).

*Aqueles fiéis servos repartidos às doze horas são:

I. São José. II. Os Justos. III. Os Serafins. IV. Os Querubins. V. Os Tronos. VI. As Dominações. VII. As Virtudes. VIII. As Potestades. IX. Os Principados. X. Os Arcanjos. XI. Os Anjos. XII. Nossa Senhora.

Devem ser recitados diariamente pelos Guardas de Honra o Pai Nosso, a Ave Maria, o Glória ao Pai, o Credo, e a jaculatória: “Doce Coração de Jesus, fazei que eu Vos ame sempre cada vez mais” (300 dias de indulgência).


Guarda de Honra

A Associação da Guarda de Honra foi instituída para consolar ao Divino Salvador da ingratidão e ultrajes dos homens, dar-Lhe glória, tributar-Lhe amor e fazer a Seu Divino Coração reparação dos desacatos que continuamente recebe no Santíssimo Sacramento. É a Guarda de Honra uma piedosa milicia que se revesa ao redor do Trono Eucarístico de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Foi a Guarda de Honra do Sagrado Coração de Jesus erigida por Leão XIII, em Arquiconfraria na igreja das Religiosas da Visitação, em Bourg (Ain), para a França e Bélgica, e em Roma na igreja dos Santos Vicente e Anastácio para a Itália. Foi esta Associação enriquecida de muitas indulgências por Pio IX que considerava “uma das suas maiores glórias ser o primeiro Guarda de Honra do Sagrado Coração de Jesus; e que um dos seus mais ardentes votos (dizia ele) era ver propagada a Guarda de Honra por todo o mundo”.

Os Protetores especiais da Guarda de Honra são: Nossa Senhora do Sagrado Coração, cuja Festa é a 31 de Maio; S. José, a 19 de Março; S. Francisco de Assis, a 4 de Outubro; S. Francisco de Sales, a 29 de Janeiro, e S. Margarida Maria Alacoque, a 27 de Outubro.

Oferecimento da Hora de Guarda

Ó Divino Jesus, meu dulcíssimo Salvador, eu Vos ofereço esta hora de guarda, durante a qual em união com os Protetores (nomeie-se o Protetor da hora que se tiver escolhido), desejo muito do fundo do coração amar-Vos, glorificar-Vos e principalmente consolar o Vosso Adorável Coração com meu amor. Aceitai, pois, nesta intenção os meus pensamentos, as minhas palavras, as minhas ações, e minhas penas. Recebei sobretudo o meu coração: eu vo-Lo ofereço sem reserva, suplicando-Vos que o inflameis no fogo do Vosso Amor. Amém.

Oração Para se Recitar no Fim da Hora de Guarda

Ó Jesus, meu amantíssimo e dulcíssimo Salvador, permiti que Vos ofereça a Vós, e por Vosso intermédio ao Pai Eterno, o Preciosíssimo Sangue e Água que manaram da Chaga aberta em Vosso Divino Coração, na Árvore da Cruz. Dignai-Vos de aplicar eficazmente este Sangue e esta Água a todas as almas, e principalmente às dos pobres pecadores, e à minha. Purificai, regenerai, salvai a todos os homens pelos Vossos merecimentos infinitos. Concedei-Nos, enfim, ó Jesus, entrar em Vosso Coração amantíssimo e nele habitar para todo sempre! Amém. (100 dias de indulgências)

Jaculatória

Louvado, adorado, amado seja a todo momento o Santíssimo Coração Eucarístico de Jesus em todos os tabernáculos do mundo até a consumação dos séculos. Amém. (Indulgenciada)

O Sagrado Coração de Jesus
conquista e santifica o
Presidente da República
do Equador27

Garcia Moreno foi um cristão digno desse nome; desde sua viagem a Paris, nunca mais foi vítima do respeito humano.

Aquele, cuja virtude não tem por fundamento a graça de Deus, obtida pela oração e humildade, é sempre pequeno e vicioso por muitos lados.

A piedade num Estadista é hoje um fato raro e excepcional. Onde se acha um São Luís, um São Fernando, um Santo Eduardo nos tronos do nosso mundo moderno?

A piedade em Garcia Moreno não era cega. Baseava-se numa fé viva e esclarecida: viva como os filhos da Católica Espanha; refletida como a de um sem número de inteligências de primeira ordem de todos os séculos, de sábios sem par em todos os ramos da ciência. Pouca ciência afasta de Deus, muita ciência faz a Ele voltar”. E, com efeito, nunca tem brilhado, como hoje, a verdade desse axioma, porquanto, ao passo que os grandes sábios se prostram humildes diante do Altíssimo, a turbamulta dos que tem apenas um vislumbre de ciência, anda por toda a parte a atacar e blasfemar o que jamais estudaram.

Tal não era Garcia Moreno.

Filósofo de uma lógica de ferro, dotado de bom senso admirável, iniciado em todos os segredos das ciências históricas, naturais e físicas, sentia-se antes movido à compaixão, quando lia ou ouvia as discussões absurdas e afirmações infundadas de certos jornais e livros inimigos do Catolicismo. Quando alguém se atrevia a repetir diante dele aquelas objeções, que apenas servem a muitos de pretexto, para não cumprirem os seus deveres de cristãos, ele as pulverizava com tanta erudição e lógica, que até os mais ilustrados ficavam atônitos.

Ao ouvir certos católicos, que ousavam atacar o Syllabus, mal podia conter a sua indignação. “O Syllabus, dizia ele, deve ser o Credo dos povos, que não querem perecer”. E, com efeito, poderá haver erros mais perniciosos para a sociedade do que o Panteísmo, a Liberdade Absoluta de pensar e escrever, o Naturalismo, o Socialismo, etc.!

Não era, porém, só com as luzes da ciência e da razão que Garcia Moreno procurava fortalecer em sua alma o dom preciosíssimo da fé; era mais ainda recorrendo à fonte das luzes sobrenaturais, à oração e a meditação.

Se os reis, dizia Santa Teresa, fizessem todos os dias, meia hora de oração, quão depressa seria transformada a face da terra!” Garcia Moreno realizou o desejo da grande Santa, e daí lhe veio sem dúvida a inspiração das suas empresas tão bem sucedidas pela regeneração da Pátria.

Fossem quais fossem as suas ocupações, fazia todos os dias meia-hora de meditação nos seus livros de predileção: o Evangelho e a Imitação de Cristo. Nos seus últimos anos nunca deixou de fazer retiro espiritual.

Concebeu assim tão grande ideia da Majestade Divina e dos seus atributos que, em todas as dificuldades, repetia a sua divisa familiar, que também havia de ser a sua última palavra neste mundo: Deus não morre!

A Deus só, atribuía tudo o que fazia. Numa mensagem ao Congresso, depois de dizer os grandes progressos realizados, assim concluía: “Se falo destes felizes resultados, não é para glória minha, mas para a glória d'Aquele a quem tudo devemos, e a quem adoramos como nosso Redentor, nosso Pai, nosso Salvador, nosso Deus.

Tinha para com os Sacerdotes, extraordinária veneração. Um pobre capuchinho, de passagem em Quito, indo lhe fazer uma visita, apresentou-se com o solidéu na mão. – “Cobri-vos, meu Padre”, disse o Presidente logo que o viu, e descobriu-se a si mesmo.

– “Um pobre religioso, atalhou o frade, não pode estar de cabeça coberta diante do Presidente da República”.

Não, Padre, respondeu Garcia Moreno, o Chefe do Equador nada é na presença de um Sacerdote do Altíssimo” e colocou-lhe o solidéu sobre a cabeça.

Foi também na meditação que hauriu o desapego dos bens terrenos que o fazia dar o seu dinheiro sem contar para alívio dos pobres e doentes, viúvas e órfãos.

Foi nela que hauriu a paciência admirável, de que deu prova nas tribulações, que lhe amarguraram a vida.

Onde poderia ele aprender, a não na meditação, a sofrer por Jesus Cristo as maiores afrontas e a dizer aos amigos palavras sublimes, como as seguintes:

A injúria é meu salário. Se meus inimigos me perseguissem pelos meus crimes, pedir-lhes-ia perdão. Mas eles me odeiam, porque amo a minha Pátria; porque quero conservar-lhe o seu mais precioso tesouro, a Fé; porque sou e me mostro filho submisso da Igreja. A esses homens de ódio nada tenho a dizer, senão: Deus não morre!”

Para darmos ideia adequada da firmeza da sua fé, nada podemos dar mais probante do que as resoluções, que ele próprio escrevera na última página da sua Imitação de Cristo.

Todas as manhãs farei oração e pedirei particularmente a virtude da humildade. Todos os dias assistirei à Missa, rezarei o Rosário, lerei um capítulo da Imitação e este Regulamento.

Cuidarei em me conservar o mais possível na Presença de Deus, sóbrio nas conversas, a fim de não dizer palavra alguma demais! Oferecerei muitas vezes meu coração a Deus, principalmente, no começo das minhas ações.

Direi cada vez que soar a hora: sou pior do que um Demônio e o Inferno devia ser a minha morada. Estando no meu aposento, nunca rezarei sentado, podendo fazê-lo de pé.

Fazer atos de humildade, beijar a terra, desejar toda a sorte de humilhações, alegrar-me, quando censurarem minha pessoa ou meus atos. Nunca falar de mim, a não ser para confessar meus defeitos e faltas.

Todas as manhãs porei por escrito aquilo que tiver de fazer no dia. Observarei escrupulosamente as leis em todos os meus atos. Confessar-me-ei todas as semanas. Não passarei mais de uma hora a jogar e nunca antes da 8 horas da noite”.

Este Regulamento foi sempre cumprido à risca por Garcia Moreno, até na guerra e em viagem, com suma edificação de todos aqueles que o viam ou tinham a felicidade de ser hospedado em sua casa.

De manhã, ele mesmo preparava o Altar e os Paramentos para a Missa, ajudando-a em presença de toda a família e hóspedes. De noite, cercado da família, criados e ajudantes de ordens, ele rezava a oração. Aos Domingos jamais deixava de assistir aos Ofícios da Igreja e ensinava o Catecismo aos criados.

Viam-no sempre a seu posto nas demonstrações religiosas, acompanhado dos ministros e de todas as autoridades civis e militares.

Visitava frequentemente a Jesus Cristo Sacramentado; fazia a Santa Comunhão todos os Domingos, e às vezes na semana. Quando levavam o Santíssimo a um doente, apressava-se em escoltar ao seu Deus no meio do povo com todo o recolhimento.

Como todo católico, tinha Garcia Moreno especial devoção para com Maria Santíssima. Já vimos que, depois da tomada de Guayaquil, atribuindo a vitória à proteção da Virgem, obteve que o Congresso declarasse Nossa Senhora das Mercês Padroeira da República.

Depositava na Mãe de Deus, toda a sua confiança e trazia sobre si o bentinho e o terço que rezava todos os dias. Quis também entrar na Congregação de Nossa Senhora; havendo, porém, duas seções, sendo uma para pessoas de distinção e outra para operários, escolheu esta, dizendo: “O meu lugar está no meio do povo”. Imagine-se a alegria desses bons operários, vendo o Presidente alistar-se nas suas fileiras.

Da sua devoção para com São José deu prova pela inscrição da Festa desse glorioso Santo entre os dias santificados.

Ainda mais notável foi a sua devoção para com o Sagrado Coração de Jesus, e bem o provou pela Consagração Oficial da República do Equador ao Divino Coração, declarando que a sua Festa seria festa nacional.

Por inspiração de Garcia Moreno, o terceiro Concílio Nacional de Quito, lavrou um Decreto, mandando consagrar o Equador ao Coração de Jesus.

Por seu lado, apresentou ele ao Congresso uma Moção, pedindo que o Estado se unisse oficialmente à Igreja nesse ato solene. Esta Moção foi votada por unanimidade.

Pouco tempo depois, no mesmo dia e hora, em todas as Igreja da República, teve lugar e cerimônia da Consagração.

Em Quito o ato foi imponentíssimo.

Quando o Arcebispo acabou de pronunciar a fórmula em nome da Igreja, Garcia Moreno, cercado de todas as autoridades, a pronunciou em nome da Nação.

Tal foi o entusiasmo produzido por esta grande manifestação de fé dos Equatorianos que diversos membros do Congresso pensaram em erigir, em nome da Nação, um templo ao Sagrado Coração, sendo, porém, este projeto adiado até 1884 por motivo de economia.


1Pe. João Croiset, S.J., ob. cit., “Prólogo”, X-XIII.
2B. Padre C. de la Colombière, “Retraite Spirituelle”.
3Pe. J. Croiset, S.J., “La Dévotion au Sacré-Coeur de Notre-Christ”, Lion, 1698, pp. 16-17.
4Pe. J. Croiset, S.J., ob. cit., “Prólogo”, XXVIII.
5Pe. J. Croiset, S.J., ob. cit., pp. 59-60.
6Pe. J. Croiset, S.J., ob. cit., pp. 68-70; Carta 5.
7Carta 5, de S. Margarida M. Alacoque ao seu Confessor, o Padre João Croiset, S.J.; cfr. Pe. J. Croiset, S.J., ob. cit., pp. 75-80.
8Pe. J. Croiset, S.J., ob. cit., pp. 81-82.
9S. Margarida M. Alacoque, Autobiografia, 56.
10S. Margarida M. Alacoque, Escritos por ordem de Madre de Saumaise, 34; Fragmentos, III.
11S. Margarida M. Alacoque, “Vie et Oeuvres”, 2, 115.
12S. Margarida M. Alacoque, Cartas 97, 100, 102, 131-133.
13S. Margarida M. Alacoque, Carta 135.
14S. Margarida M. Alacoque, Autobiografia, 53.
15S. Margarida M. Alacoque, Carta 118.
16S. Margarida M. Alacoque, Autobiografia, 53.
17S. Margarida M. Alacoque, Carta 133.
18Vie et Oeuvres de Ste. Marguerite-Marie, por Mons. Guathey, II, 296.
19Mons. Guathey, II, 104.
20Luc. 16, 8.
21Jo. 18, 37.
22Cânt. 5, 16.
23Luc. 14, 20.
24Pe. Mateo Crawley-Boevey, “Jesus, Rei de Amor”, 1ª Parte, Cap. I, pp. 15-24; 2ª Edição, Ed. Vozes, Petrópolis, 1939.
25Mat. 6, 10.
26“Manual das Missões e Devocionário Popular”, por um Padre da Missão, pp. 223-232; 1908.
27Pe. Desidério Deschand, “Garcia Moreno – Presidente da República do Equador (1821-1875)”, pp. 177-182; 2ª Edição, Typographia “Vozes de Petrópolis”, Petrópolis, 1912. Cfr. também Pe. Saint-Omer, C.Ss.R., “O Sagrado Coração de Jesus segundo Santo Afonso de Ligório”, “1ª Sexta-feira do Mês de Fevereiro”, pp. 299-302; 5ª Edição, Typographia de Frederico Pustet, Ratisbona, 1926.

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