Blog Católico, para os Católicos

"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

sábado, 27 de junho de 2015

Nossa Senhora, a Mãe de Deus, avisou sobre o Comunismo no Brasil.



Os 3 Grandes Castigos Para o Brasil!


Fez-se inexplicável silêncio sobre as aparições de Nossa Senhora no agreste pernambucano em 1936 e caíram no esquecimento. Mas a Ssma. Virgem anunciara que viriam tempos calamitosos e três grandes castigos para o Brasil.

No primeiro artigo, reproduzido abaixo, seu autor comenta essas previsões sobre o prisma da crise da Igreja e a ameaça comunista ao Brasil.

O segundo texto, do grande lutador Pe. Júlio Maria, apresenta uma pormenorizada narração dessas aparições de 1936 em que Nossa Senhora anunciou que o sangue inundará o Brasil.


A VIRGEM SANTÍSSIMA AFIRMA QUE O BRASIL PASSARÁ POR UMA SANGRENTA REVOLUÇÃO PROMOVIDA PELO COMUNISMO!
    
FRANCISCO ALMEIDA ARAÚJO *

Todos quantos me conhecem através de meus escritos, palestras, cursos e programas de Rádio e Televisão promovidos em todas as regiões do nosso querido Brasil, sabem da minha relutância em divulgar revelações particulares ainda não reconhecidas pelo Magistério da Igreja. No entanto, de todas as “revelações particulares” que tem sido divulgada em nosso país, a única que apresenta séria evidência de veracidade é a que transcrevo abaixo, de forma resumida, a partir do que foi dado a público pelo saudoso e combativo Pe. Júlio Maria, em seu livro “O Fim do Mundo está Próximo”, editado (2ª edição) em julho de 1939, pela Livraria Boa Imprensa – RJ.

A Virgem Santíssima, mãe de nosso Deus e redentor Jesus Cristo, apareceu no dia 6 de agosto de 1936, para duas meninas, Maria da Luz e Maria da Conceição, num lugarejo denominado Sítio da Guarda, localizado no Distrito de Cimbres, pertencente a cidade de Pesqueira, no agreste pernambucano.

Naquele dia, enquanto trabalhavam na colheita de mamona, conversavam sobre o que se passava na região e é neste momento que Maria da Conceição, olhando para uma pequena montanha bem próxima do local onde estavam, disse para Maria da Luz: “Veja lá uma Senhora”. Era uma Senhora com um belo menino segurado pelo braço esquerdo e que acenava para elas, chamando-as. Enquanto falavam entre si como chegariam até o local, a mãe de Maria da Luz chamou-as para almoçarem. Eram onze horas da manhã. As meninas disseram-lhe que queriam antes subir até a montanha, contando tudo o que viam para a mãe de Maria da Luz. O assunto chegou ao conhecimento do pai de Maria da Luz, o senhor Artur. Este interrogou as meninas e dando crédito às meninas, tomou uma foice para abrir uma trilha e foi com elas até o local. Logo seguiu a eles a mãe de Maria da Luz com demais filhos menores.

Maria da Luz e Maria da Conceição alegavam estarem vendo diante delas uma bela senhora com um belíssimo menino. Nada, no entanto viam os demais. O pai de Maria da Luz mandou então que perguntassem àquela senhora o que desejava. Ao fazerem a pergunta, a senhora respondeu: “Minhas filhas, virão tempos calamitosos para o Brasil! Dizei a todo o povo que se aproximam três grandes castigos, se não fizer muita penitência e oração”.

Logo a notícia se espalhou por toda a redondeza, chegando ao conhecimento do Pároco e do Bispo da Diocese.

As advertências de Nossa Senhora eram reiteradas. Ela sempre pedia insistentemente que era preciso rezar e fazer penitência caso contrário o Brasil receberia um severo castigo.

O bispo diocesano designou um sacerdote para investigar o caso e este padre entregou às meninas, seis perguntas que elas deveriam apresentar à Senhora. Mencionarei apenas a quarta e a sexta pergunta e as respostas dadas pela Senhora.

º Dizei quem sois e que quereis? – “Sou a Mãe da Graça e venho avisar ao povo que se aproximam três grandes castigos”.
º Que significa o sangue das vossas mãos? – “Representa o sangue que será derramado no Brasil”.

O mesmo sacerdote designado pelo bispo, por várias vezes, interrogou as meninas, em separado, e por fim, foi ao local com elas e fez cerca de noventa perguntas em alemão, língua que as meninas nada compreendiam e a Senhora respondia, através das videntes, em português. Dentre estas perguntas, em alemão, o padre procurou saber por que Nossa Senhora estava aparecendo ali e esta respondeu: “Para avisar ao povo que três grandes castigos cairão sobre o Brasil”. Por mais duas vezes, em dias diferentes, a mesma pergunta foi feita e a mesma resposta foi dada. O sacerdote perguntou também, sempre em alemão, o seguinte:

º Que é necessário fazer para desviar os castigos? – “Penitência e oração”.
º Qual a invocação desta aparição? – “Das Graças”.
º Que significa o sangue que corre das vossas mãos? – “O sangue que inundará o Brasil”.
º Virá o comunismo a penetrar no Brasil? – “Sim”.
º Em todo o País? – “Sim”.
º Os padres e os bispos sofrerão muito? – “Sim”.
º Será como na Espanha? – “Quase”.
º Quais as devoções que se devem praticar para afastar esses males?  - “ Ao coração de Jesus e a mim”.
º Esta aparição é a repetição de La Salette? – “Sim”.

Aqui termino o resumo que fiz do texto do intrépido Pe. Júlio Maria e passo a comentar esta aparição de Nossa Senhora da Graças. Chamo a atenção para o seguinte:

1ª) São três castigos, sendo um deles uma sangrenta revolução promovida por homens ímpios para implantar no Brasil uma ditadura comunista; 2ª) Será semelhante à revolução espanhola de 1936 e, 3ª) É uma repetição da aparição de Nossa Senhora em La Salette, França, aparição esta devidamente reconhecida pela Igreja.

Quem conhece as revelações de Nossa Senhora em Fátima, Portugal, em 1917, percebe que há uma grande semelhança entre esta, a de La Sallete e a que estamos comentando, aqui do Brasil.

Em Fátima Nossa Senhora apareceu para alertar o mundo e a Igreja do perigo da ideologia comunista, e que esta se espalharia pelo mundo todo. Vale lembrar que a Igreja, por várias vezes, já condenou o comunismo e o socialismo, de sorte que um católico fiel não pode jamais apoiar qualquer forma de socialismo, marxismo, comunismo. Nomes diferentes para o mesmo mal, o mesmo veneno.

Relembremo-nos das palavras da Virgem Santíssima, em Fátima: “Se atenderem a meus pedidos a Rússia se converterá e terão paz. Se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja. Os bons serão martirizados...”.

A história revela-nos que Nossa Senhora não foi atendida e o comunismo, o socialismo, se espalhou como uma terrível peste pelo mundo todo.

O socialismo com suas sangrentas revoluções e sua ideologia é um dos três castigos mencionados pela Virgem Maria, em 6 de agosto de 1936 no Estado de Pernambuco.

Um outro castigo, o principal, o mais terrível, do qual os demais são mera consequência, mencionado em La Salette, Fátima e Brasil é a apostasia, a perda da Fé, com sua corrupção moral.

Já mencionamos as palavras de Nossa Senhora aqui no Brasil e em Fátima; mencionaremos agora o que ela disse em La Salette: “ Os sacerdotes, ministros de meu Filho, os próprios sacerdotes, por suas más vidas, por suas irreverências e impiedades ao celebrar os Santos Mistérios, por seu amor ao dinheiro, as honras e aos prazeres converteram-se em cloacas (esgotos) de impureza (...) Deus vai castigar o mundo de uma maneira sem precedentes”.

O cardeal Mario Luigi Ciappi disse, em março de 2002: “ No terceiro segredo (de Fátima) é predito, entre outras coisas, que a grande apostasia na Igreja começaria pela hierarquia”.

Outras semelhanças entre as aparições mencionadas: “Para se evitar o castigo é preciso rezar o santo rosário, fazer penitência, ter devoção ao Sagrado Coração de Jesus e ao Imaculado Coração de Maria”.

Nos anos noventa estive em Cimbres, diocese de Pesqueira, Pernambuco, dirigindo uma peregrinação ao local das aparições, conforme fotos em meu poder. Com a vidente Maria da Luz que se tornou religiosa do Instituto das Damas da Instrução Cristã, onde recebeu o nome religioso de Irmã Adélia, estive por três vezes. A última vez que a entrevistei foi em onze de dezembro de 2003, uma quinta- feira, à tarde, no Colégio das Damas, em Recife PE, onde reside. Nesta ocasião mostrei a ela o número de julho de 2003 do Jornal Inconfidência e que trazia um artigo intitulado “Profecia e Vigília”, de autoria do General de Exército Sérgio Augusto de Avellar Coutinho, sobre a aparição da Virgem Maria a ela – Irmã Adélia –, na época a menina Maria da Luz. Irmã Adélia se encontrava adoentada, fazendo uso de uma cadeira de rodas, mas perfeitamente lúcida, e tão logo terminei a leitura do artigo para ela, a mesma, com voz embargada, pela emoção, me confirmou tudo e me disse que estava muito breve a se realizar o castigo da revolução comunista no Brasil e por três vezes repetiu para mim: “Diga ao povo que reze o rosário e que faça penitência”. Tirei fotos com ela nesta ocasião, pois julgava que fosse, quem sabe, a última vez que estaria falando com ela. A poucos dias telefonei para amigos em Recife e tive a alegria de saber que Irmã Adélia está viva.

Em seu artigo o General Avellar Coutinho, lembrava a triste e covarde Intentona comunista em novembro de 1935, a revolução comunista na Espanha, a qual teve início em 17 de julho de 1936 e que poucos dias depois deste acontecimento, Nossa Senhora aparece no agreste pernambucano e ele “arrisca uma especulação” (são palavras dele), fazendo uso do número setenta tão significativos na simbologia das profecias bíblicas e faz uma “ilação arbitrária” (palavras dele) concluindo que 2006 poderia ser o ano do cumprimento da profecia dada em 1936. Eu também me atrevo a fazer uma pergunta. Por que Nossa Senhora apareceu no nordeste brasileiro, mais precisamente em Pernambuco? Que ligação tem com a revolução em marcha? Será que de lá do nordeste se iniciará esta revolução? Será que um dos líderes é um pernambucano? Só Deus sabe!

Penso e tomara Deus eu esteja enganado, a semelhança entre a revolução comunista denunciada por Nossa Senhora no agreste pernambucano e a revolução comunista na Espanha em 1936 é, além da crueldade, a presença de comunistas de várias partes do mundo que lutarão contra os brasileiros patriotas.

O fato a se lamentar é que estamos presenciando com toda clareza um processo revolucionário em marcha aqui no Brasil e em vários países da América Latina. Querem implantar aqui o que não conseguiram continuar no leste europeu.

O que fazer? Obedecer Nossa Senhora! Rezar o rosário em praças públicas, nas igrejas, nas escolas, nos locais de serviços, em casas, em todo lugar e fazer penitência. Não colaborar com o mal apoiando o comunismo e o socialismo.

Nossa Senhora já salvou o Brasil de dois ataques do comunismo (1935 e 1964). Em 1964 foram as mulheres brasileiras, com a reza do terço que enfrentaram o comunismo e o Brasil venceu. Naquela época tínhamos o apoio da Igreja e das Forças Armadas. E agora? Onde estão os bispos, os padres, os militares, as mulheres católicas do nosso País? Quando a CNBB sairá a público para defender o rebanho da ação maléfica do comunismo?

Não nos devemos deixar ser enganados e para tanto termino narrando um fato assombroso: a infiltração do comunismo na Igreja Católica e em outras religiões. Já dizia Lênin, fundador do comunismo russo, nos anos 20, que infiltraria a Igreja Católica, particularmente o Vaticano.

Recentemente tivemos a confirmação com Douglas Hyde, ex-comunista revelando que nos anos 30 os chefes comunistas enviaram uma diretiva à escalada mundial sobre a infiltração na Igreja Católica. No início dos anos 50 a Dra. Bella Dodd, advogada, funcionária de destaque do Partido Comunista Americano, deu informações pormenorizadas sobre esta infiltração. Ouçamos suas próprias palavras: “Nos anos 30 pusemos mil e cem homens no sacerdócio para destruir a Igreja a partir do seu interior”. Dez anos antes do Vaticano II ela declarou: “Nesse momento estão nos cargos mais altos da Igreja”. Afirmou ainda que aqueles infiltrados iriam provocar mudanças tão radicais que “não reconhecerão a Igreja Católica”.

Na primavera de 1962, na cidade de Metz, na França, o cardeal Eugène Tisserant encontrou-se, nada mais nada menos, com o Metropolita Nikodin, da “igreja ortodoxa russa”, um conhecido agente do KGB e negociaram o que viria a ser conhecido como o Pacto de Metz, ou, mais popularmente, o Acordo Vaticano – Moscou.  Este é um triste e irrefutável fato histórico. Dá-se a infiltração comunista na Igreja.

Que Nossa Senhora Aparecida – Rainha do Brasil nos salve do perigo socialista, comunista. Que o padre Cícero e frei Damião, missionários nordestinos, que tanto combateram o comunismo, protejam e iluminem o sofrido e ordeiro povo nordestino.

      _________
 * Francisco Almeida Araújo, ex- pastor batista, depois converteu-se ao catolicismo e foi ordenado diácono permanente por D. José Pestana, então Bispo de Anápolis. Faleceu em 2012, após receber os sacramentos de Reconciliação, Eucaristia e Unção dos Enfermos. Fonte: Diácono Francisco de Almeida Araújo morre aos 72 anos.


Aparições de  Maria Santíssima
no norte do Brasil

Pe. Júlio Maria de Lombaerde

A primeira edição deste livro estava no prelo quando tive notícia de uma das aparições de Maria Santíssima no norte do Brasil.

A notícia foi-me transmitida por um sacerdote exemplar, incapaz de ilusão ou de fraude.

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Preferi esperar e deixar para mais tarde a divulgação do fato, que a autoridade eclesiástica, sempre prudente e justamente desconfiada, conservava secreta, para evitar precipitações ou juízos mal fundados.

Eis que perto de dois anos depois, um amigo enviou-me uma revista alemã, de responsabilidade e de orientação segura: Konnesreuthes Jahrbuch - 1936, onde encontrei a narração resumida, mas completa, destas aparições.

É desta revista que traduzo o fato, sem mudar nem acrescentar uma vírgula. Achei as aparições revestidas de todos os requisitos de veracidade, cabendo à autoridade eclesiástica pronunciar-se a respeito, o que cedo ou tarde ela fará, seguindo como sempre segue, as normas do tempo e da prudência.

Sendo aparições e revelações privadas, estas têm apenas um valor humano, e merecem só uma fé humana; porém mesmo assim vale a pena citá-las e meditá-las, porque se a mesma credulidade é um mal, a incredulidade sistemática é um mal maior.

Haverá qualquer coisa de tão singular numa aparição da Mãe de Deus em terras brasileiras?

Não somos nós uma nação consagrada à Virgem Imaculada da Aparecida?

Não somos nós, também, um povo amoroso e dedicado ao culto de nossa Mãe Celeste?

Se ela se dignou mostrar-se um dia em Lourdes, La Salette, Pontmain, Pellevoisin, na França; em Fátima (Portugal) e ultimamente em Bauraing e Baneaux, na Bélgica, porque ela não se mostraria também no Brasil, dando-nos deste modo, uma prova de seu amor maternal e da sua solicitude para com o povo brasileiro?

Cada um poderá acreditar ou não acreditar nos fatos aqui narrados. A Igreja nada determinou; há, pois, liberdade de aceitá-los ou de rejeitá-los; como há liberdade de silenciar os fatos ou de publicá-los.

É apoiado sobre esta liberdade, sem querer adiantar os julgamentos da autoridade eclesiástica, que aqui publico a tradução da Revista de Koeningsreuth:

I. PRIMEIRA APARIÇÃO

Maria Santíssima apareceu ultimamente num lugarejo do norte, em agosto de 1936. Se omito o nome do lugar, é atendendo aos desejos das autoridades eclesiásticas.

Era a 6 de agosto de 1936.

Duas meninas foram mandadas ao campo a fim de colher mamona. Uma chama-se Maria da Luz, a outra Maria da Conceição. Esta é de família pobre e conta 16 anos de idade, filha de um empregado do pai de Maria da Luz.

Na ocasião das aparições, aquelas redondezas eram perturbadas por bandos de gatunos que roubavam e saqueavam a valer, causando grande inquietação nos habitantes.

Durante esta saída, Maria da Conceição, perguntou a sua companheira: "Que farias se os ladrões nos encontrassem agora?"

Ficaria muito quieta, pois Nossa Senhora nos protegeria, respondeu Maria da Luz.

Casualmente aquela, olhando para uma montanha próxima, exclamou: "Veja lá uma Senhora". De fato lá se achava uma Senhora que as chamava por acenos, tendo nos braços um belo menino.

Do lado em que as meninas estavam, era impossível a subida: as rochas e ramos emaranhados impediam a passagem; foi-lhes necessário tomar um desvio, passando perto de sua casa para poderem subir com mais facilidade. Como fossem onze horas da manhã, a mãe de Maria chamou-as para almoçarem. Elas não quiseram ir, contando o que tinham visto e queriam seguir o caminho até aquele lugar.

A mãe – boa senhora, vice-presidente do Apostolado da Oração – disse muito simplesmente: "É história, venham almoçar." Neste momento, chega o pai, Arthur Teixeira, para almoçar. As meninas sentadas de fronte à casa, falavam sobre aquela senhora tendo a criança nos braços, a qual lhes acenara. A janela estando aberta, a mãe de Maria da Luz ouviu a conversa e narrou-a ao pai desta.

O sr. Arthur pediu-lhes que contassem o que haviam visto; as meninas lhe disseram tudo, asseverando com tal segurança que ele quis acompanhá-las. Tomando de uma foice, começou a limpar o caminho, quando, quase sem saber como, as meninas já haviam alcançado o cume do monte.

De lá as meninas lhe gritavam, apontando em direção de uma pedra branca. Com dificuldade ele alcançou o alto, mas nada via do que lhe diziam.

Entretanto, a mãe não ficou tranquila em casa; trouxe consigo as crianças, em número de cinco ou seis. Destas últimas, ninguém conseguiu ver coisa alguma.

Apesar das meninas sustentarem que viam diante de si uma senhora com um menino, o pai, para mais segurança, mandou que elas lhe perguntassem o que desejava.

Perguntaram e a visão respondeu: "Minhas filhas, virão tempos calamitosos para o Brasil! Dizei a todo o povo que se aproximam três grandes castigos, se não fizer muita penitência e oração."

Restava-lhe muito que dizer ainda, mas ficou para mais tarde. As notícias corriam de boca em boca e os homens se aglomeravam naquele lugar onde fora vista aquela senhora com a criancinha, esperando ver qualquer coisa, mas nada viam.

II. PRIMEIRAS AVERIGUAÇÕES

Entretanto, o vigário da Paróquia mandou chamar o pai de Maria da Luz, aconselhando-lhe que trouxesse a menina a fim de participar do retiro espiritual das Filhas de Maria, desde o dia 10 a 15 de agosto, preparando-se então para a primeira comunhão. Nesta ocasião o pai poderia estar com o sr. Bispo.

Mas não foi somente esta a singular aparição da Senhora. Na passagem diária das meninas naquele lugar, ela lhes aparecia.

As opiniões eram, como sói acontecer em tais casos, sempre divididas; uns acreditavam, outros zombavam.

As advertências de Nossa Senhora eram reiteradas: pedia sempre e insistia que era preciso rezar; senão seu Filho castigaria severamente o País.

Certo dia houve um garoto naquele lugar, que atirou uma pedra em direção à aparição. As meninas disseram que a pedra atingiu a mão de Nossa Senhora e que jorrava muito sangue.

Como dizíamos, atendendo o pedido do vigário, o pai levou a menina para P., apresentando-a ao sr. Bispo, mas este mandou seu secretário ouvi-la, pois estava muito ocupado.

Após a audiência, o padre disse: "Vocês estão enganadas." Porém Maria da Luz sustentou a palavra. Terminou-se a conversa entregando o padre umas perguntas, das quais ela devia pedir resposta à Senhora e enviá-las em seguida, na primeira ocasião, por escrito.

A menina enviou a resposta pedida. Apesar de ela ser um tanto atrasada, não houve a menor inexatidão.

Eram as seguintes as perguntas formuladas:

1 – Quem pode mais que Deus?
2 – Quantas pessoas há em Deus?
3 – Quais são estas pessoas?
4 – Em nome de Deus dizei quem sois e que quereis?
5– Quereis falar com um padre?
6 Que significa o sangue que jorra da vossa mão?
    
Após dois dias, o padre recebeu da menina as seguintes respostas:

1 – Ninguém.
2 – Três.
3 – Pai, Filho e Espírito Santo.
4 – Sou a Mãe da graça e venho avisar ao povo que se aproximam três grandes castigos.
5 – Sim.

Então a menina perguntou com qual padre, enumerando diversos. A aparição respondeu:

Quero falar com o padre que lhe fez estas perguntas.

6 – Representa o sangue que será derramado no Brasil.

Estas respostas fizeram o Padre refletir e decidir-se ir àquele lugar para examinar se encontraria provas ou se eram ilusões ou falsidades.

III. APARIÇÃO DE JESUS E MARIA

O lugar das aparições – "Guarda" – é localizado num alto, circundado de montanhas. Em baixo da montanha, num vale, está a casa dos pais de Maria da Luz, a 500 metros de distância. A subida é muito penosa.

"Só com muita dificuldade cheguei em cima, escreve o sacerdote. Foi-me necessário tirar os sapatos para poder subir. O calor era insuportável. Numa distância de 40 a 50 metros, divisei o lugar das aparições e as duas meninas com o pai, os quais já estavam em cima; elas me diziam que a Senhora olhava para mim de cima, enquanto eu subia.

Que está fazendo a aparição? – perguntei.
'Está sorrindo', disseram elas.

Eu olhei primeiro, examinando o que havia por ali: tudo era pedra e entulho; na nossa frente estava um formidável abismo; no lugar das aparições notava-se um como número em forma de quatro (4); ao lado esquerdo outros números como um (1-1); no meio, uma linha branca, um pouco mais alta, que se podia alcançar só por meio de uma escada.

'Lá está a aparição', diziam as meninas; mas eu nada via. Sob a pedra que se achava diante de mim, numa abertura, corria um pouco d'água.

Perguntei ao pai de Maria da Luz se aquela água sempre existiu ali. Ele me disse: 'não; mas como muitos não acreditassem nas aparições, as meninas pediram um sinal; desde então começou a brotar água'.

Fiquei em cima com Maria da Luz e pedi que Maria da Conceição, com o sr. Arthur, se retirasse um pouco abaixo, na montanha. Assim eles dois nos podiam ver, mas não ouvir. Então, eu disse à Maria da Luz: – 'Dize-me agora a verdade e não pregues mentiras, pois do contrário serás infeliz para toda a tua vida'.

Eu queria fazê-la confessar que nada via. Ela, porém, permaneceu inabalável. Quando eu perguntei o que a aparição estava fazendo, disse-me ela, olhando em direção do lugar:

'Ela olha para cá e está sorrindo'.
'Agora dize-me: como está Ela?'

Maria da Luz olha e diz:

'Vejo uma bela Senhora, cujo vestido é creme, quase como vosso capote. O manto é azul celeste, pendendo do pescoço, onde está seguro por uma fivela, com pedras preciosas. Num braço está a criança'.

'Em que braço? No direito ou no esquerdo?'

A menina não sabia distinguir o braço direito do esquerdo. Fez uma viravolta com o corpo e mostrou-me o braço esquerdo.

'Ela, como o menino, traz uma coroa de ouro na cabeça', disse-me a jovem.
'E a outra mão?' - perguntei.

Fez então uma nova viravolta (apontando-me) mostrando-me o braço direito estendido para baixo.

'A criancinha enlaça o pescoço da mãe com o bracinho direito", disse ela, dando uma vira-volta e apontando o braço. A senhora tem na cinta uma fita da mesma fazenda e da mesma cor que a do vestido. Vejo somente um dos pés.

'Qual deles?' - perguntei.

Ela mostrou o pé direito, fazendo outra vira-volta.

'Atrás da Senhora vê-se um bonito oratório com duas torres fechadas. O oratório, que tem a forma de uma casinha, tem pedras preciosas nas suas torres'."

IV. NOVAS INVESTIGAÇÕES

"Chamei então o pai com a outra menina, ao qual, tendo chegado, eu disse: 'o senhor tome Maria da Luz e vá ficar no mesmo lugar. Eu fico com Maria da Conceição'.

'Compreendeste alguma coisa do que eu disse a tua companheira?', perguntei à mocinha.
'Não senhor', disse ela.

Então eu lhe disse: 'Maria da Luz já me disse tudo e confessou a verdade: tudo o que vós arranjastes é mentira e invenção. Agora quero que me digas também a verdade: não é certo que nada vês?' A menina ficou como aterrorizada e olhando para o ponto das aparições, disse-me em tom choroso: 'Se Maria da Luz disse isto ou não, eu não sei; mas agora eu vejo a Senhora como antes'.

Procurei embaraçá-la por meio de muitas perguntas, a fim de averiguar se era imaginação. 'Eu que sou padre, nada vejo! Tu que nada és, dizes que vês Nossa Senhora?' Ela permaneceu sempre firme.

'Está bem – disse eu – dize-me o que vês agora'.

Ela narrou tudo minuciosamente e fielmente como a sua companheira.

Quando ela indigitava o lugar da aparição no ponto, eu dizia, para experimentá-la: 'Maria da Luz me disse que é noutro lugar, lá do outro lado'. Então ela olhava para o lugar que eu dizia e respondia: 'Não, eu vejo Nossa Senhora naquele lugar branco. No lugar que Maria da Luz indicou ao senhor, eu nada vejo.'

Não encontrei sequer uma contradição no que as meninas me diziam.

Chamei então Maria da Luz – deixando o pai onde estava – e perguntei a ambas se viam a Senhora. Ambas responderam: 'Sim, vemos'

'Perguntem a Nossa Senhora se ela me vê', disse eu. Perguntaram, e Ela respondeu que sim.
Perguntem a Nossa Senhora se eu posso formular algumas perguntas numa língua estrangeira.
'Sim', responderam, por Ela.

Fiz então umas oitenta ou noventa perguntas em alemão, que as meninas não compreendem e recebi todas as respostas certas. Eu recebia as respostas por intermédio das meninas, em português, fielmente conforme eu perguntava em alemão, como: 'Wer bist du?' (quem sois vós?) – 'A Mãe do Céu'. 'Wie heisst das Kind auf deinem Arm?' (como se chama a criança em seu braço?) – 'Jesus'.

'Porque apareceis aqui?'
'Para avisar ao povo que três grandes castigos cairão sobre o Brasil'.
'Quais são os castigos?'.

Não respondeu, fazendo sinal com a mão para fazer entender, ou que não podia falar, ou que não queria.

'Podeis então dizê-lo mais tarde?'
'Sim'.
'Por que não dais um sinal visível, para que o mundo possa ver que sois a Mãe de Deus?'
'Já o dei'.
'Qual é o sinal?'
'A água que está correndo em baixo'.
'Para que serve esta água?'
'Para remédio'.
'Para todas as doenças?'
'Sim, mas para quem tem fé'.
'Quem quiser pode tirar daquela água?'
'Não, só as duas meninas'.
'Porque não podem tirar quem quiser?'
'Para que todos creiam'."

Cortemos aqui as respostas, para destacar bem o que segue, pois é a parte essencial das revelações da Mãe de Deus.

V. AMEAÇAS E REMÉDIOS

O Sacerdote continua o mesmo interrogatório, penetrando cada vez mais no âmago das questões palpitantes que a Virgem Santa quer revelar.

Qual é o fim da vossa aparição aqui?
Avisar que três grandes castigos virão sobre o Brasil.
Quais castigos?

De novo ela fez sinais, fazendo entender que não podia ou não queria falar.

Que é necessário fazer para desviar os castigos?
Penitência e oração.
Qual a invocação desta aparição?
Das Graças.
Que significa o sangue que corre das vossas mãos?
O sangue que inundará o Brasil.
Virá o comunismo a penetrar no Brasil?
Sim.
Em todo o País?
Sim.
Também no interior?
Não.
Os padres e os bispos sofrerão muito?
Sim.
Será como na Espanha?
Quase.
Quais são as devoções que se devem praticar para afastar estes males?
Ao Coração de Jesus e a mim.
Não basta só uma?
Não.
Quereis que se pregue sobre este assunto?
Sim.
Permiti-lo-ão as autoridades eclesiásticas?

Fez um gesto como se não quisesse dizê-lo.

Darão licença mais tarde?
Sim.
Quereis que se construa uma igreja aqui?
Não.
Quereis mais tarde?

Fez os mesmos gestos.

Esta aparição é a repetição de La Salette?
Sim.
Haverá uma romaria aqui?
Sim.
Por que apareceis neste lugar, cuja subida é tão difícil?
Para o povo romeiro poder fazer penitência.
Quanto tempo faz que estais aqui?

Fez um gesto com o dedo, com se quisesse dizer: "há muito tempo".

Se sois a Mãe de Deus, então dai-nos vossa bênção.

Instantaneamente as duas videntes exclamam: "Olha lá!!! Está nos abençoando"... e fizeram o sinal da cruz.

Se sois a Mãe de Deus e a criança é o Menino Jesus, manda que Ele nos dê a bênção.

Neste momento, as duas pobres camponesas, admiradas e transportadas de júbilo, exclamaram: "Ele já sabe dar a bênção também!" Fizeram mais uma vez o sinal da cruz.

Uma das meninas exclamou ainda: "Agora vimos a outra mãozinha do menino. Até agora ela estava enlaçada ao pescoço da Mamãe. Ele estende para o senhor os dois bracinhos."

Fiz ainda muitas perguntas, obtendo respostas certas.

Descendo eu, disse às duas meninas: "Agora vejam se a Senhora ainda está lá". Responderam ambas: "Sim, Ela está em frente de sua casinha, abençoando-nos".

Para que tanta bênção? disse eu, como se estivesse amolado e em tom grave.

As meninas ficaram trêmulas e atemorizadas.

Pergunta a Ela, para que tanta bênção!
Para que sejais felizes, disse Ela.

Perguntei de novo, em alemão: "Somente as duas ou eu também?"

Responderam elas: "Para o senhor também".

Tudo o que vi impressionou-me muito, excedendo as minhas expectativas. Umas das perguntas versou sobre os acontecimentos de Koenigsreuth, perguntando se aqueles fatos eram de Deus ou do demônio.

"É de Deus", disse a aparição.

VI. PROVIDÊNCIAS E OPOSIÇÕES

As providências do Bispo foram as seguintes: que as meninas fossem examinadas pelo médico. Procedeu-se ao exame e averiguou-se que ambas são completamente sãs.

A aparição repetia-se. Mas as contradições surgiam à medida que se falava nas aparições.

A água corria constantemente, em pouca quantidade, e como que saindo da pedra.

Começaram as curas extraordinárias; foi pena que os médicos não fossem avisados para examiná-las. Em todo o caso, o povo dá veracidade aos fatos e neles crê.

Opinam que tenha havido profanação da fonte, embora não se saiba ao certo; e Nossa Senhora pediu que se fizesse um muro ou uma cerca, pois só as almas contritas e piedosas podiam assim aproximar-se a fim de fazerem orações e penitências.

Fez-se a cerca, visto as pessoas se aglomerarem sempre mais em romaria. Veio a polícia e derrubou a cerca. Imediatamente secou a água até então corrente.

O sacerdote mandou de novo construí-la e fechou as portas; logo depois a água brotou.

Após oito dias veio a polícia novamente, destruiu a cerca e, como na outra vez, desapareceu a água.

Falou-se que houvera sido o Bispo quem mandou a polícia.

Este negou-o, dizendo que não sabia de nada.

A aparição repetidas vezes veio e as meninas afirmaram que a Senhora lhes dissera: "Tenham paciência; as coisas que vêm de Deus são mesmo assim".

Mandou então o padre que as meninas perguntassem a Nossa Senhora quem havia mandado os soldados, e a resposta foi esta: "Quem mandou foi um padre!"

Quinze dias depois, uma carta das meninas chegou, dando-me o nome do culpado.

Entretanto, a água não corria mais naquele lugar, mas um pouquinho acima. As meninas afirmaram que tinham pedido a Nossa Senhora para fazer a água sair novamente; então começou a correr.

Nossa Senhora recomendou que não se dissesse isto a qualquer pessoa, para que só os bons recebessem da água.

Maria da Luz entrou num colégio, a pedido de Maria Santíssima, para mais tarde, após ter adquirido um pouco de instrução, entrar no convento. A aparição pediu que as despesas necessárias fossem feitas pelo Padre, autor daquelas perguntas.

Maria da Conceição está ainda com seus pais, em casa: parece-me que ela nunca mais viu a aparição.

Outro fato sobre Maria da Luz: em todas as festas de Nossa Senhora, ela a viu na montanha de Guarda.

Certo dia, perguntando algo a Nossa Senhora, recebeu esta resposta: "Nunca mais me manifestarei aqui em Guarda e os três castigos não virão já, porque o povo está melhor; mas é necessário ainda rezar muito e fazer penitência".

Recomendou de novo a devoção ao Coração de Jesus e a Ela.

VII. CONCLUSÃO

Tal é a narração publicada na revista Koenigsreuth. As relações escritas que me foram transmitidas, sendo recolhidas dos lábios do próprio sacerdote que formulou as perguntas são mais extensas, porém a narração acima é o resultado fiel do conjunto, e outros pormenores nada de essencial ajuntam ao fato.

     _________

* Padre Júlio Maria de Lombaerde. O Fim do Mundo está próximo! Profecias antigas e recentes. Livraria Boa Imprensa, Rio de Janeiro, 2ª edição, 1939, cap. VI, pp. 71 e ss.  Nihil obstat dado pelo Cônego José de Lima em 10 de julho de 1936, e Carta de Aprovação do Bispo de Caratinga, de 31 de julho de 1936.

Os destaques em negrito são do Editor deste site.


sexta-feira, 12 de junho de 2015

As Inesgotáveis Riquezas do Sagrado Coração de Jesus (Ensaio em Fase de Conclusão) 13



O Sagrado Coração de Jesus
nos diz, que o Amor não é amado1

A famosa imagem infame de um grupo de comunistas espanhóis a fuzilar

a imagem do Santíssimo Sagrado Coração de Jesus em agosto de 1936.

Consolemos ao Santíssimo Coração de Jesus: Almas piedosas, sinceras amantes de Jesus, em união com a dileta Vítima, entrai confiantes neste divino Santuário do Sagrado Coração de Jesus, para lhe ouvir os dolorosos queixumes, queixumes longos, dilacerantes; Jesus se queixa porque depois de nos ter feito tantos benefícios, seu amor não é correspondido. Jesus não é amado, e não só não é amado, mas desprezado! E isto pelas almas mesmo a Ele consagradas. Escutemos, ó almas amantes de Jesus, estas queixas e depois de as termos bem meditado, tais quais nô-las apresenta, por meio de uma sua vítima de expiação, nós seremos impulsionados a reparar-lhe as feridas, dando-lhe amor por amor, sacrifício por sacrifício.

Sim, coragem e constância, ó almas piedosas; Jesus, Sumo Bem, ouve todos os corações, mas especialmente atende a vós, que lhe avaliais a bondade. E enquanto fazemos uma resenha dos lamentos de Jesus pensemos que estes gemidos são dirigidos não somente aos grandes pecadores, aos que esqueceram e negam a existência de Deus, mas principalmente a nós, que passamos por almas a Ele consagradas e que, contudo, O ofendemos tão ingratamente. Sim, Jesus, como fruto desta obrinha, espera de nós grande conforto, amor, reparação, expiação!...

Oh! Quão felizes se deverão sentir aquelas almas que conseguirem reparar e assim fazer com que cessem, de uma vez para sempre, as queixas de nosso querido Jesus! Oh! Pudera seu Sacratíssimo Coração voltar-se para nós e deixar brotar de sua caridade uma palavra de louvor pelo grande amor que havemos de lhe demonstrar!

Sim, sim, unânimes, demos nosso amor reconhecido a Jesus. Tudo o que fizermos e sofrermos, tudo seja por seu amor. Amemo-lO em união com sua eleita Vítima, por aqueles também que O não amam e, ao menos em parte, cessarão seus lamentos dolorosos.

As muitas causas das queixas do Santíssimo Coração de Jesus: Antes de anunciar as queixas do Ss. Coração de Jesus, como as patenteou à querida Vítima, para que as tornasse conhecidas a todos os fiéis, a fim de que Jesus tivesse conforto, reparação e mais amor, é bom formar delas um tríplice quadro: o primeiro é para os simples fiéis, o segundo toca às almas religiosas, e aos Sacerdotes se refere o terceiro. De seu diário me é lícito tirar só o quanto é necessário para secundar a divina intenção de Jesus, prestando atenção especialmente às vezes em que disse a sua vítima de expiação: Escreve, filha minha, porque gostaria que se tornasse útil também a tantas almas sedentas das Minhas exortações, tudo o que Te ensino; teu Padre espiritual propagará tudo pela imprensa... Dentre os lamentos de Jesus, seja no tocante aos simples fiéis, às almas Religiosas ou aos Sacerdotes, transcrevi as breves, mas, substanciosas instruções que Ele deu até agora e que poderão ser de grande vantagem às almas de boa vontade.

Noto ainda que, dentre as queixas de Jesus, algumas há, principalmente quando se mostra desgostoso por certas culpas, a que ajunta ameaças de castigos terríveis se os homens não se repuserem no caminho do bem... e alguma vez lhes une ainda a data... e que, se não se realizam, como já aconteceu mais vezes em outras aparições e sinais milagrosos, é porque esparsas providencialmente pelo mundo há dessas almas vítimas expiatórias, que aplacam a cólera divina... Mas certamente, se o homem não cair em si, Deus recorrerá à sua divina justiça para o atingir e assim, se o Amor não consegue corrigi-lo, se converta pelo medo de seus castigos.

É verdade, contudo, que por causa dos maus sofrerão os bons, mas seu padecer será uma preciosa e aceitável expiação a Deus, por Ele piedosa e grandemente recompensada com uma glória muito grande no Céu.

Causa dos Lamentos de Jesus: Voltando, portanto, o pensamento aos fiéis em geral, se compreende que a causa primordial dos lamentos do Sagrado Coração de Jesus, é a guerra sacrílega e infernal movida a Deus por diversas nações alucinadas por vícios odiosos e por um orgulho diabólico. Derribam igrejas, destroem santas imagens, profanam os sacrossantos Tabernáculos, aprisionam Sacerdotes, Bispos e maltratam e expulsam dos Institutos de Educação aos Religiosos e Religiosas, para substituí-los por indivíduos ímpios, irreligiosos, imorais, blasfemadores, e vendo que este amor pela religião e pela piedade não se pode desarraigar dos povos cristãos, criaram uma Seita nova, cujo Chefe não pode ser senão um demônio em carne humana, a Seita dos “Sem Deus”; e assim, penetram nas famílias para despedaçar os crucifixos, prender e torturar os fiéis que ocultamente procuram honrar a Deus por ocasião das Solenidades religiosas, especialmente da S. Páscoa e do S. Natal. Seita vergonhosa e perturbadora de toda a paz, de todo o bem, e que já, se ouve dizer, procura infiltrar-se ocultamente também em algumas cidades da Itália, introduzindo, a despeito da grande vigilância das autoridades civis e das graves penas infligidas pela lei, a obstinação nas blasfêmias e desacreditando com falsas afirmações a Religião e as autoridades da Pátria, infiltram a desconfiança na gente simples e ignorante, para melhor abrir o caminho a seus pérfidos intentos... Sequaz da Rússia, é o México, em que cada um pode ver até que excesso chegaram as ímpias facções, ao martírio de tantas pessoas pias e inocentes. E o mesmo se diga de alguma outra nação... Que terrível luta é esta contra Deus!... A quão grande nova Paixão é condenado o Sagrado Coração de Jesus!

Mas não duvidem estes, que não se zomba de Deus, – a seu tempo, se não se converterem, os fulminará o raio da cólera divina e compreenderão o poder invencível contra o qual querem lutar.

Miseráveis rastejantes vermes, contra o Onipotente!... E é por essas culpas obstinadamente cometidas, que Jesus confia a sua Vítima querida, a Sua queixa, o transbordar de Sua cólera, como veremos em lugar oportuno.

E aqui devemos acrescentar, que também nossas culpas, em que obstinadamente caímos, impedem as graças divinas e sobre atraem as vinganças do Céu... Jesus Sacramentado, por exemplo, quanto é desconhecido, profanado! Tantos se aproximam da Santa Comunhão com uma irreverência que penaliza... lábios sujos de um vermelho pegajoso, cara luzente, besuntada como um selvagem... Vestes decotadas, pernas e braços nus... Outros se lhe aproximam como a uma coisa qualquer e, muitas vezes, recebida apenas a Santa Hóstia, saem da igreja sem uma prece ao menos e levam Jesus às praças de suas distrações, de seus pecados. Outras almas, em vez de se aproximarem da Mesa Sagrada com fé viva, amor ardente e esperança de alcançar as graças necessárias, o fazem com fins profanos, para se darem ares de pessoas devotas, ao mesmo tempo que durante o dia, transgridem qualquer um dos Preceitos de Deus e da Igreja: comparecem a visitas e convites com maneiras e vestidos imodestos, organizam recepções e banquetes com iguarias proibidas em dias de abstinência, e não querem ouvir sermões, porque receiam ouvir alguma sentença divina que perturbe e entristeça com remorsos o seu coração. Mais: quando estas pessoas estão em veraneio, nas praias, nos banhos, porque a moda quer assim, (como se a moda fosse um preceito de maior autoridade que os Mandamentos divinos) seguem costumes indecentes, tomam parte nas conversas indecorosas e depois, de manhã, ei-las ajoelhadas à Mesa Eucarística, escandalizando deste modo aos bons fiéis!... Oh, quão grande erro nessa conduta, querendo agradar a Deus e seguir as máximas do mundo!... A estas profanações devemos acrescentar o grande número de sacrilégios que se cometem, secretamente embora, nas mesmas Comunidades Religiosas, por tantas comunhões feitas com Pecado Mortal na consciência, por causa, somente, do terror e pânico de serem observadas, notadas e mal julgadas!... (Não duvidando, em tal suposição, faltar à caridade com o pensar tão mal do próximo; o qual conscientemente não poderia fazer tal juízo temerário e culpável!...)...

Jesus, portanto, se queixa ainda porque os seus Sacramentos são profanados!... Que diremos do Santo Sacramento do Matrimônio? Em nossos dias principalmente se diria que é recebido, não já com o fim sublime para o qual foi instituído, isto é, para dar ao Céu muitos eleitos e para gozar da doce companhia duma criatura dócil, modesta, prudente; mas antes, para satisfazer paixões brutais, que acabam por ser uma profanação do Sacramento e causa de males gravíssimos no corpo e na alma... Escreveu bem o sábio e religioso médico Dr. Descureth, quando disse que se tantos, que morreram prematuramente ou repentinamente, ressuscitassem por um instante e declarassem a causa de sua morte diriam, na maior parte, ter sido o abuso do sensualismo...

Ah, quão grande aviltamento chegou o Gênero Humano! Quão sacrilegamente se profana este santo Sacramento do Matrimônio, cujo fim é dar santos ao Céu! Que desprezo das graças divinas! E que dolorosas, que terríveis contas deverão prestar a Deus na hora de sua morte aqueles cônjuges que não se corrigiram, respeitando o justo fim deste santo Sacramento! E daqui aprendam os jovens noivos a se preparar para tão escabroso passo, instruindo-se convenientemente e adequadamente comportando-se para não se enlamearem no pecado...

E se nos voltarmos às Mães Cristãs, delas há, sem dúvida, um bom número que zelam pela educação religiosa de sua família; estas mães piedosas, venerandas matronas, tem um santo zelo por este fim delicado, e rezam e choram, se dentre seus filhos descobrem falta de prática da religião ou qualquer outro abuso; Deus as abençoa generosamente, a estas almas tão preocupadas com a salvação de sua família e com a maior glória de Deus... Mas, há um número muito maior de mães, que em nada praticam a religião; e de cristãs só o nome conservam e a este o desonram com o descuido da prática dos deveres religiosos, dos santos Preceitos, e com educar tão mal sua prole, pessimamente influenciada por seus maus exemplos. Ah! Quantas culpas cometem essas, culpas que transpassam o Sagrado Coração de Jesus e o constrangem a queixas amargurosíssimas! Ah! Causa repugnância ver estas mães, estes pais, favorecer a imodéstia da juventude, desde a infância!

De fato, se observe em que revoltante nudismo estes progenitores desgraçados criam seus filhos! É uma coisa que repugna, a indecência com que andam vestidos!... Então, as belas palavras pureza, modéstia, pudor, verecúndia serão condenadas ao arcaísmo, proscritas do vocabulário?... Seria este um doloroso, pérfido indício de total corrupção, que acabará provocando os castigos divinos.

Reflitam bem sobre isto aqueles cuja consciência lhes incrimina uma tal desordem uma tal profanação do Sacramento. O mesmo afirmou em sua célebre Encíclica o Sumo Pontífice Pio XI, de santa memória. Jesus está dolorosamente sentido também porque os progenitores, ligados por este Sacramento, não correspondem a seu fim, educando seus filhos cristãmente, dando-lhes bom exemplo. Quantos pais de família não mostram costumes tão degradados que deixam a oração, esquecem a Santa Missa dominical, não ouvem a Palavra de Deus, de que tanta necessidade teriam; são intemperados no beber, maltratam a mulher, batem desumanamente nos filhos, blasfemam impiamente, zombam da religião e dos que a praticam! Que horror!

Ainda não é tudo; quantas mães, por seu mau exemplo, não são causa de escândalo para a família? Estas mulheres desgraçadas, em vez de acostumar os filhos à prática da religião, à frequência dos Sacramentos, à fidelidade em ouvir a Palavra divina que consola e ilumina, ao invés de os levar consigo às funções religiosas, para habituá-los à observância dos deveres cristãos, os conduzem aos cinemas, aos teatros, aos bailes; em vez de cuidar da boa ordem da casa e fazer dela um ninho de agradável descanso e paz, cuidam unicamente em se enfeitar com ambição, em se arrebicar, em se perfumar, em se espelhar e tornar a espelhar; e quando o marido chega, é obrigado a praguejar, porque não há nada de pronto, falta até o mais necessário!!... Daí discórdias, trocas de palavras contínuas, com que ficam os filhos escandalizados. Que responsabilidade diante de Deus!

Mas, então, que dolorosa degradação é esta do Sacramento do Matrimônio! Quão justamente o bom Deus deverá se sentir indignado!... E não se deixem depois estes pais infelizes, se tiverem algum dia que se sujeitar a dolorosos e humilhantes sofrimentos.

E, agora, falemos daquelas senhoras que se prezam do honroso nome de católicas. Um bom número destas, é verdade, se mostram verdadeiramente dignas de tal nome e das bênçãos que o bom Deus prodigaliza àquelas que tão bem trabalham para a glória do Senhor e salvação das almas. Mas, dentre elas, quantas não há, que em suas reuniões não sabem apresentar senão nobres propostas e depois, na prática, não são capazes de as fazer executar nem mesmo em sua família; e não se esforçam, na medida do possível, para impedir certos escândalos, o imodesto nudismo, avisando caridosamente às pessoas que não tem bastante discernimento moral, religioso, sacrificando o respeito humano, inimigo acérrimo de todo o bem. O mesmo se poderia dizer também de tantas almas agregadas a Pias Associações, Ordens Terceiras, Filhas de Maria, etc., pois muitas nem sempre edificam, com seu porte, suas palavras, e acabam por cair no vício abominável da hipocrisia. Oh! Que sobejos motivos de queixa dão essas almas ao Sagrado Coração de Jesus, que é honrado somente à flor dos lábios, mas seus corações bem longe estão dEle, como o testemunha seu comportamento repreensível.


Os Últimos Papas e o Coração de Jesus

Depois das revelações de Jesus a Santa Margarida Maria Alacoque, o primeiro Papa a pronunciar-se sobre esta devoção foi Clemente XIII, que declara que ao Coração de Jesus trespassado pela lança do soldado, é tributada adoração, aprovando assim o respectivo culto.
O Papa Pio VI na sua Constituição Apostólica “Auctorem fidei”, de 28 de Agosto de 1794, dá um novo contributo, voltando a declarar que a esta devoção é algo de essencial e que “ a doutrina que rejeita o Sacratíssimo Coração de Jesus, é falsa, temerária, nociva, ofensiva para os ouvidos piedosos e ofensiva para a Sé Apostólica.

O Papa Pio IX, grande devoto do Sagrado Coração de Jesus, estendeu a Festa a toda a Igreja Universal. A este Papa deve-se a aprovação da prática do mês de Junho em honra do Coração de Jesus, bem como a divulgação do uso da imagem segundo as revelações de Santa Margarida Maria.
Leão XIII, em 11 de Junho de 1899 consagra todo o gênero humano ao Coração de Jesus, anunciada na Carta Encíclica Annum Sacrum, de 25 de Maio de 1899. A 21 de Junho, o mesmo Papa aprova as ladainhas do Coração de Jesus, e no mesmo texto da Congregação dos Ritos, com essa data, aparece a exortação para os fiéis viverem as Primeiras Sextas-Feiras, prática que Jesus tinha pedido a Santa Margarida Maria Alacoque.

Mais tarde, S. Pio X dispôs que a consagração ao Coração de Jesus se renovasse todos os anos, e Bento XV aprovou o culto ao Coração de Jesus, com Missa e Ofício próprio, num decreto datado de 1921. Foi também célebre a Encíclica de Pio XI, Miserentissimus Redemptor, datada de 8 de Maio de 1928.

Por sua vez, Pio XII, na encíclica Haurietis Aquas de 15 de Maio de 1956, toda dedicada ao Coração de Jesus, afirmou o seguinte:

- “O Coração de Cristo é o Coração da Pessoa divina, isto é, do Verbo incarnado, e portanto representa e quase põe diante dos nossos olhos todo o amor que Ele teve e tem ainda por nós. Precisamente por esta razão, o culto ao Coração Sacratíssimo de Jesus deve merecer tanto a nossa estima, que o consideremos a profissão mais completa de toda a religião cristã… Por conseguinte, é fácil concluir que, afinal, o culto ao Coração Sacratíssimo de Jesus é o culto do amor com o qual Deus nos amou, por meio de cristo, e é também a prática do nosso amor a Deus e aos outros”.
O Papa Paulo VI, na carta apostólica, Investigabiles Divitias Christi, de 6 de Fevereiro de 1965, escreveu:

- “É absolutamente necessário que os fiéis prestem homenagem do culto, com práticas de piedade privadas e manifestações públicas, ao Coração de cuja plenitude todos nós recebemos, e d’Ele aprendam a maneira perfeita de ordenar a sua vida, para que esta corresponda plenamente às exigências dos nossos tempos…”.
Estes e muitos outros textos colocam diante de nós o pensamento da Igreja. É urgente intensificar e renovar a devoção ao Coração de Jesus. Precisamos de falar dela, de exortar a vivê-la, de a dar a conhecer. É esta uma das grandes missões do Apostolado da Oração, e também de todos os pastores e de todos os fiéis. Urge cumpri-la. Daqui virá a “civilização do amor”.

O Papa João Paulo II ao longo do seu pontificado falou e escreveu muito sobre o Coração de Jesus. Parecia ser uma das suas devoções, uma das suas “paixões”. Na grande encíclica “Dives in misericórdia”, (Deus rico em misericórdia) escreveu que “a Igreja parece professar de modo particular a misericórdia de Deus e venerá-la, voltando-se para o Coração de Cristo. De fato, a aproximação de Cristo, no mistério do seu Coração, permite-nos deter-nos neste ponto da revelação do amor misericordioso do Pai, que constitui, em certo sentido, o núcleo central – e, ao mesmo tempo, o mais acessível no plano humano – da missão messiânica do Filho do Homem”.

Mais tarde, a 19 de Outubro de 1985, o Papa afirmou que “do Coração trespassado de Cristo crucificado, brota a civilização do amor: No santuário daquele Coração, Deus inclinou-Se sobre o homem e fez-lhe o dom da sua misericórdia, capacitando-o a abrir-se, por sua vez, em misericórdia e em perdão para com os outros”.

Posteriormente, em 11 de Junho de 1999, no centenário da Consagração do gênero humano ao Coração de Jesus, João Paulo II, voltou a manifestar-se a propósito deste tema: “Por ocasião da solenidade do Sagrado Coração e do mês de Junho, exortei muitas vezes os fiéis a perseverarem na prática deste culto, que contem uma mensagem especial que é, no nossos dias, de extraordinária atualidade”, porque do Coração do Filho de Deus morto na cruz surgiu a fonte perene de vida que dá esperança a cada homem. Do Coração de Cristo crucificado nasce a humanidade, redimida do pecado. Diante da tarefa da nova evangelização, o cristão olhando para o Coração de Cristo, Senhor do tempo e da história, a Ele se consagra e, ao mesmo tempo, consagra os próprios irmãos, redescobre-se portador da sua luz”. Como afirmou João Paulo II, a nova civilização e a nova evangelização nascem do Coração de Cristo trespassado.

O Papa Bento XVI, que no cinquentenário da encíclica de Pio XII, “Haurietis Aquas”, escreveu ao P. Geral da Companhia de Jesus, responsável pela devoção ao Coração de Jesus, retoma o tema desta devoção e impulsiona a que não se afrouxe no desejo de dar a conhecer o Coração de Cristo. Apóstolos destemidos deste Divino Coração pois n’Ele estão todos os tesouros da sabedoria e da ciência. E na sua primeira encíclica afirma:

- “O olhar fixo no lado trespassado de Cristo”, de que fala S. João (cf. 19,17), compreende o que serviu de ponto de partida a esta carta Encíclica: “Deus é Amor. É lá que esta verdade pode ser contemplada. E começando de lá, pretende-se agora definir em que consiste o amor. A partir daquele olhar, o cristão encontra o caminho do seu viver e amar (nº 12)”.

Para Bento XVI, até o núcleo central da encíclica nasce do Coração trespassado. E mais adiante volta ao tema ao afirmar: “Ao longo das reflexões anteriores, pudemos fixar o nosso olhar no Trespassado, reconhecendo o desígnio do Pai que, movido pelo amor, enviou o Filho ao mundo para redimir o mundo” (nº19). Com estas palavras somos novamente convidados a olhar Aquele que trespassaram. Aliás, Bento XVI, convidou-nos a passar toda a Quaresma de 2007 a contemplar Aquele que trespassaram, pois só assim nos podemos converter ao amor, só assim amar o amor de Deus, só assim ter um coração que vai amando ao jeito de Jesus.



Cinquenta anos da encíclica Haurietis aquas, do papa Pio XII. Uma meditação do cardeal Carlo Maria Martini.


A Devoção ao Sagrado Coração de Jesus

Em 15 de maio o papa Bento XVI enviou ao superior-geral da Companhia de Jesus uma carta por ocasião dos cinquenta anos da encíclica Haurietis aquas. Pio XII, por sua vez, havia escrito essa encíclica para celebrar e recordar a todos o primeiro centenário da extensão a toda a Igreja da festa do Sagrado Coração de Jesus. Dessa forma, aproveitando a concatenação dos aniversários, o Papa quis religar-se ao fio ininterrupto dessa devoção que há séculos acompanha e conforta tantos cristãos em seu caminho. Nesta ocasião, pedimos algumas reflexões ao cardeal Martini, e ele nos enviou o texto que segue do cardeal Carlo Maria Martini, S.J.

Lembro-me muito bem do tempo em que saiu a encíclica Haurietis aquas in gaudio. Eu era então estudante de Sagrada Escritura e membro da comunidade do Pontifício Instituto Bíblico, onde era professor o ilustre biblista padre Agostino Bea, depois criado cardeal pelo papa João XXIII. Padre Bea era um estreito colaborador do papa Pio XII, e na comunidade se dizia, penso que com boas razões, que ele havia contribuído para preparar esse documento. Certamente impressionava a orientação bíblica de todo o texto, a partir do título, que é uma citação do livro de Isaías (12,3). Por isso, a encíclica (que trazia a data de 15 de maio de 1956) foi lida com muita atenção pela comunidade do Instituto Bíblico, que apreciava em particular o seu embasamento nos textos da Escritura. No passado, essa devoção, que de per si tem uma longa história na Igreja, se desenvolveu entre o povo a partir sobretudo das chamadas “revelações” de tipo particular, como a revelação a Santa Margarida Maria, no século XVII. A percepção de como nessa devoção tradicional estava sintetizada concretamente a mensagem bíblica do amor de Deus era algo que nos reaproximava dela, uma devoção que no passado recente havia sido muito cara sobretudo à Companhia de Jesus, em particular em sua luta contra o rigorismo jansenista.

O fato de o papa Bento ter desejado escrever uma carta para lembrar justamente essa encíclica ao superior-geral da Companhia de Jesus se deve certamente também a que os jesuítas se consideravam particularmente responsáveis pela difusão dessa devoção na Igreja. Isso também era afirmado por Santa Margarida Maria, segundo a qual esse encargo fora desejado pelo próprio Senhor, que se manifestava a ela.

Foi assim que a devoção ao Sagrado Coração me foi apresentada no noviciado dos jesuítas, na década de 1940. Isto me levava a refletir sobre a maneira como era possível viver uma devoção como essa e, ao mesmo tempo, deixar-se inspirar na vida espiritual pela riqueza e pela maravilhosa variedade da palavra de Deus contida nas Escrituras.

E essa pergunta se impunha com ainda maior insistência, na medida em que o meu caminho cristão pessoal também se deparou de certa forma desde a infância com essa devoção. Ela me havia sido infundida por minha mãe, com a prática das primeiras sextas-feiras do mês. Nesse dia, minha mãe nos fazia levantar cedo para ir à missa na igreja paroquial e tomar a comunhão. A promessa era que quem se confessasse e tomasse a comunhão seguidamente nas nove primeiras sextas-feiras do mês (não era permitido pular nenhuma!) podia estar certo de obter a graça da perseverança final. Essa promessa era muito importante para minha mãe. Lembro-me de que, para nós, jovens, havia também um outro motivo para ir tão cedo à missa. De fato, na época tomávamos o café da manhã num bar com um bom brioche.

Depois de tomar a comunhão em nove primeiras sextas-feiras seguidas, era oportuno repetir a série, para ter a certeza de obter a graça desejada. Disso veio depois também o hábito de dedicar esse dia ao Sagrado Coração de Jesus, hábito que depois, de mensal, se tornou semanal: toda sexta-feira do ano era dedicada de certa forma ao Coração de Cristo.

Assim era na minha lembrança a devoção daquela época. Ela estava concentrada sobretudo no louvor e na entrega ao Coração de Jesus, visto um pouco em si mesmo, quase separado do resto do corpo do Senhor. Algumas imagens reproduziam de fato apenas o Coração do Senhor, coroado de espinhos e atravessado pela lança.

Um dos méritos da encíclica Haurietis aquas era justamente ajudar a pôr todos esses elementos em seu contexto bíblico e sobretudo pôr em relevo o significado profundo dessa devoção, ou seja, o amor de Deus, que desde a eternidade ama o mundo e deu por ele o seu Filho (Jo 3, 16; cf. Rm 8,32, etc.).

Assim, o culto do Coração de Jesus cresceu em mim com o passar do tempo. Talvez se tenha atenuado um pouco, no que diz respeito a seu símbolo específico, ou seja, o coração de Jesus. E se tornou, para mim e para muitos outros na Igreja, uma devoção pelo íntimo da pessoa de Jesus, por sua consciência profunda, sua escolha de dedicação total a nós e ao Pai. Nesse sentido, o coração é considerado biblicamente como o centro da pessoa e o lugar das suas decisões. E é assim que vejo como essa devoção nos ajuda ainda hoje a contemplar o que é essencial na vida cristã, ou seja, a caridade. Compreendo também melhor como ela está em estreita relação com a Companhia de Jesus, a qual é gerada espiritualmente pelos Exercícios de Santo Inácio de Loyola. De fato, os Exercícios são o convite a contemplar longamente Jesus nos mistérios da sua vida, morte e ressurreição, para poder conhecê-lo, amá-lo e segui-lo.

Um grande mérito desse devoção foi, portanto, ter chamado a atenção para a centralidade do amor de Deus como chave da história da salvação. Mas, para perceber isso, era necessário aprender a ler as Escrituras, a interpretá-las de maneira unitária, como uma revelação do amor de Deus pela humanidade. A encíclica Haurietis aquas marcou um momento decisivo desse caminho.

Como foi que ocorreu e como ocorrerá ainda no futuro um desenvolvimento positivo das sementes lançadas pela encíclica no terreno da Igreja? Creio que um momento fundamental foi o Concílio Vaticano II, em sua constituição Dei Verbum. Ela exortou todo o povo de Deus a uma familiaridade orante com as Escrituras. Daí também as diversas “devoções” recebem aprofundamento e alimento sólido.

Poderíamos ver o ponto de chegada atual na encíclica do papa Bento XVI Deus caritas est. Ele escreve: “Na história de amor que a Bíblia nos narra, Deus vem ao nosso encontro, procura conquistar-nos - até a Última Ceia, até o Coração trespassado na cruz, até as aparições do Ressuscitado...”; e conclui dizendo: “Cresce então o abandono em Deus, e Deus torna-se a nossa alegria (cf. Sl 73[72],23-28)”. A questão, portanto, é ler com inteligência espiritual cada vez maior as Sagradas Escrituras, tendo desperta a atenção para o que está na raiz de toda a história da salvação, ou seja, o amor de Deus pela humanidade e o mandamento do amor ao próximo, síntese de toda a Lei e dos Profetas (cf. Mt 7,12).

Dessa forma serão caladas também hoje as objeções que ao longo dos séculos foram feitas ao culto do Sagrado Coração, que era acusado de intimismo ou de fomentar uma postura passiva, em prejuízo ao serviço ao próximo. Pio XII lembrava e desmentia essas dificuldades, que não desapareceram nem nos nossos tempos, se Bento XVI pode escrever em sua encíclica: “Chegou o momento de reafirmar a importância da oração diante do ativismo e do secularismo que ameaça muitos cristãos empenhados no trabalho caritativo” (nº 37).

Um outro mérito da encíclica Haurietis aquas consistia em sublinhar a importância da humanidade de Jesus. Nisso retomava as reflexões dos Padres da Igreja sobre o mistério da Encarnação, insistindo no fato de que o Coração de Jesus “devia sem dúvida pulsar de amor e de qualquer outro afeto sensível” (cf. nos 21-28). Por isso a encíclica ajuda a nos defendermos de um falso misticismo que tenderia a deixar de lado a humanidade de Cristo para aproximar-se de maneira de certa forma direta do mistério inefável de Deus. Como afirmaram não apenas os Padres da Igreja, mas também grandes santos como Santa Teresa d’Ávila e Santo Inácio de Loyola, a humanidade de Jesus continua a ser uma passagem ineliminável para compreender o mistério de Deus. Não se trata portanto de venerar apenas o Coração de Jesus como símbolo concreto do amor de Deus por nós, mas de contemplar a plenitude cósmica da figura de Cristo: “Ele é antes de tudo e tudo nele subsiste [...], pois nele aprouve a Deus fazer habitar toda a plenitude” (Cl 1,17.19).

A devoção ao Sagrado Coração nos lembra também como Jesus doou a si mesmo “de todo o coração”, ou seja, de bom grado e com entusiasmo. Assim, nos é dito que o bem deve ser feito com alegria, pois “há mais felicidade em dar que em receber” (At 20,35) e “Deus ama a quem dá com alegria” (2Cor 9,7). Isso todavia não deriva de um simples propósito humano, mas é uma graça que o próprio Cristo nos obtém, é um dom do Espírito Santo que torna fáceis todas as coisas e nos sustenta no caminho cotidiano mesmo nas provações e nas dificuldades.

Enfim, eu gostaria de mencionar aquilo que é chamado apostolado da oração, que nasceu no século XIX, por obra de padres jesuítas, em estreita conexão com a devoção ao Sagrado Coração. Considero que ele ponha à disposição de todos os fiéis, com a oferta cotidiana do dia em união com a oferta eucarística que Jesus faz de si, um instrumento muito simples para pôr em prática o que diz São Paulo no início da segunda parte da Carta aos Romanos, dando uma síntese prática da vida cristã: “Exorto-vos, portanto, irmãos, pela misericórdia de Deus, a que ofereçais vossos corpos como hóstia viva, santa e agradável a Deus: este é o vosso culto espiritual” (Rm 12,1).

Muitas pessoas simples podem encontrar no apostolado da oração uma ajuda para viver o cristianismo de maneira autêntica. Ele nos lembra também a importância da vida interior e da oração. Em Jerusalém se sente de maneira particular como a oração, e em particular a intercessão, constitui uma prioridade. Não naturalmente apenas a pobre oração de cada indivíduo, mas uma oração unida à intercessão de toda a Igreja, a qual, por sua vez, nada mais é que um reflexo da intercessão de Jesus por toda a humanidade.

Essa intercessão se eleva sem interrupção por parte de Jesus ao Pai, pela paz entre os homens e pela vitória do amor sobre o ódio e a violência. Precisamos muito disso em nossos dias, sobretudo nesta “cidade da oração” e “cidade do sofrimento” que é Jerusalém.



P.S.: Até aqui, as Postagens em honra do Sagrado Coração de Jesus. Em breve, sairá o "Ensaio", completo, em formato PDF.

"A Ele (seja dada) glória
por todos os séculos. Amém"
(Rom. 11, 36).

1Teol. Giovanni Bonifetti, “Chamas Divinas ou O Amor não é Amado”, pp. 13-16.19-28; Tradução da 3ª Edição Italiana, Escola Tip. “Santo Antônio” – Patronato – Santa Maria, 1939.


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