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"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Um Dom das Línguas, um tanto... inusitado




“Poderemos ainda, a não negar a evidência, recusar o milagre dos católicos, aos quais Hunerico, rei dos Hunos, fez arrancar em Typaso, na África, a língua até a raiz, e que viveram ainda muitos anos, falando com a mesma facilidade, como antes disso, e deixar de confessar que é um prodígio, cujo autor só Deus pode ser? Se, com efeito, é verdade que se apontam alguns casos excepcionalmente raros, em que a perda mais ou menos importante, mas sempre parcial da língua, não impede o uso da palavra, há entre esses fatos e o Typaso, diferenças que excluem todo o confronto, e cujo conjunto é verdadeiramente decisivo.



Esses fatos raros não são verificados, como foi o de Typaso, cuja certeza histórica assenta no testemunho de seis autores contemporâneos, que escreveram em lugares diferentes e em anos diversos, os quais todos viram esses homens, que tinham o cunho do milagre: São Víctor de Vite, o Imperador Justiniano, Enéas de Gare, Procópio, o Conde Marcellino e Víctor de Tunone.



Que testemunho mais formal e oferecido oficialmente à verdade deste fato pelo Imperador Justiniano no Código das suas Leis?



'Nós mesmos vimos, diz ele, esses homens venerandos, que havendo sofrido a amputação da língua até a raiz, narravam a história tocante dos males que haviam padecido'.[1] E que depoimento mais concludente do que o de Enéas de Gare, filósofo platônico convertido? 'Vi com os meus olhos esses homens e os ouvi falar; e não dando crédito aos meus ouvidos, quis apreciar pelos meus olhos. Fazendo-lhes abrir a boca, vi que a língua tinha sido completamente amputada até a raiz; e na minha surpresa achei inconcebível, não que pudessem falar, mas que tivessem podido resistir a essa cruel operação'.[2]



O próprio Gibbon confessa que esse milagre das línguas arrancadas se realizou no teatro mais vasto e esclarecido do mundo, e foi submetido durante muitos anos ao exame dos incrédulos. 'Todos esses homens, acrescenta ele, atestaram o prodígio, quer como testemunhas oculares, quer como sendo assunto de notoriedade pública'.[3]



Esses fatos são individuais, isolados, ao passo que o de Typaso, é fato coletivo e simultâneo em um número considerável de vítimas da crueldade de Hunerico, de modo que o que não é senão exceção raríssima em diversos lugares e tempos, se produziu em grande número de indivíduos simultaneamente na mesma cidade.



Nestes fatos só se trata de uma articulação mais ou menos imperfeita da palavra depois de longo lapso de tempo, e por esforços repetidos; nos Mártires de Typaso, é outra coisa: eles continuaram a falar tão fácil e distintamente como antes da amputação, e tudo isso três dias depois do suplício, como atesta Enéas de Gare, que os havia examinado.



Em nenhum desses fatos a falta completa da língua se acha provada, e o uso da palavra, mais ou menos imperfeito, pode explicar-se naturalmente pela porção de língua, que restava aos indivíduos de que se trata, a qual conservava uma parte do seu jogo mecânico.



Todos os autores contemporâneos, que referem o fato de Typaso, afirmam unanimemente que a língua dos supliciados havia sido cortada até a raiz. E esta circunstância é de tal modo demonstrativa, que eles continuaram a falar de modo tão claro e distinto como antes, enquanto todos sabem que basta um leve tumor na língua para impedir o livre e expressivo exercício da palavra.



Nesses fatos nada há que tenha referência ao sobrenatural; enquanto que no sucesso de Typaso, Procópio, historiador distinto, companheiro de Belisário nas guerras, que este general fez na Pérsia, na Itália e na África, senador e governador de Constantinopla, honrado com o epiteto de Ilustre, relata que dois dos que receberam o milagre perderam o uso da palavra em castigo de um pecado de impureza em que caíram.



Deste modo, não só o grande sucesso de Typaso, revestido da mais elevada certeza histórica, repele toda a explicação natural, mas é derrogação manifesta à lei constante da natureza a respeito do uso da palavra; verdadeiro milagre, cujo autor só Deus podia ser, que o operou em prova da verdade da Religião Católica, porque os supliciados de Typaso padeceram a amputação da língua por haverem confessado altamente a Fé Católica, a Divindade de Jesus Cristo, sendo o primeiro uso que fizeram do dom miraculoso, que lhes fora concedido, o dar graças e glória a Deus; milagre tanto mais saliente e demonstrativo, que ele foi permanente e cosmopolita, tendo os agraciados abandonado a África para escaparem aos furores dos vândalos arianos, e tendo-se disseminado em vários países onde sabiam que podiam estar ao abrigo da raiva dos seus inimigos.



Por isso, o sábio Barônio, chamou este prodígio 'estrondo de trovão do Espírito Santo, ouvido em todo o universo, equivalente ao do Pentecostes; porque, acrescenta ele, não se trata aqui nem de uma só testemunha, nem de muitas, mas de uma província inteira, ou antes, não se trata de uma província, nem da África, mas de todos os países; nem de um dia, nem de um mês, mas de um século inteiro, isto é, até à morte do último desses Mártires dispersos no mundo inteiro. E, finalmente, Deus quis que todos os historiadores contemporâneos, mais autorizados, e de todas as opiniões, o atestassem, usando dos mesmos termos'.[4][5]



“Ano de Cristo 484. A história da África deste século, apoiada em testemunhas oculares da máxima credibilidade, aponta-nos o horroroso reinado de Hunerico como uma série não interrompida de crimes atrocíssimos. O arianismo foi não menos violento do que o paganismo na perseguição contra os católicos, aos quais aqueles chamavam os homousios, isto é, os que confessavam a unidade de substância entre o Verbo e o Pai, e os sete anos e alguns meses, que este tirano reinou, são dos mais tenebrosos nos anais eclesiástico. Nessas épocas funestas sempre Deus manifesta o poder da verdade por meio de prodígios assombrosos, porque é então, que racionalmente eles são necessários. Os Mártires de Typaso, que era uma cidade na Mauritânia cesariana, hoje a colônia francesa de Argel, são uma dessas maravilhas, que espantaram o mundo; mas não fora esta a única: houve muitas outras, perfeitamente autênticas, que se podem ler em todas as histórias eclesiásticas e profanas. Pode ler-se o Tomo VIII da História da Igreja, de Rohrbacher, Livro XLII; o Tomo II da História da Igreja, pelo barão Henrion; Victor de Vite, Livro II, etc. Os horrores da perseguição eram acompanhados de milagres de toda a sorte, que confirmavam sempre a grande verdade Católica da Divindade de Jesus Cristo” (Nota do tradutor).


[1]   A Religião Cristã provada por um fato só.
[2]   Enéas de Gare, no diálogo intitulado Theophrasto, junto ao fim.
[3]   História da Decadência.
[4]   Annaes, Tomo VI. 
[5]   Côn. E. Barthe, “Motivos da Minha Fé Religiosa”, 3ª Parte, Cap. V, § 2º, ponto II; tradução do original, prefaciada e anotada por Francisco de Azeredo Teixeira de Aguiar (Conde de Samodães), 2ª Edição – correta, Porto, 1883. 

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