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"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

sábado, 15 de dezembro de 2012

Dogma da Imaculada Conceição de Maria, a Mãe de Deus (Circunstâncias e Notícias)



Do Exílio de Gaeta

O ato mais memorável de Gaeta é a Encíclica do dia da Purificação, 2 de fevereiro de 1849, dirigida aos Patriarcas Primazes, Arcebispos e Bispos do Universo, para aceitarem a Tradição Universal tocante à crença da Imaculada Conceição da Mãe de Deus.

Nesta Encíclica, Pio IX afirma, que em toda a Cristandade se operou um movimento espontâneo em favor desta crença, de maneira que uma completa manifestação parece suficientemente preparada, não só pela Liturgia e pelas formais instâncias de numerosos Prelados, como pelos trabalhos dos mais sábios teólogos. E, acrescenta, que esta disposição geral corresponde perfeitamente às suas próprias ideias, e que no meio das horríveis calamidades da Igreja, seria grandemente consolador ajuntar mais um florão à coroa da Virgem poderosa, adquirindo mais um título para a sua especial proteção.

Nestas disposições, declarou mais, que instituiria uma Comissão de Cardeais para estudar a questão, convidando também todos os seus Veneráveis Irmãos no Episcopado, a darem a sua opinião, juntando suas orações às dele, para chamar as luzes do Divino Espírito.

Estas preocupações puramente teológicas, no momento que por assim dizer, lhe fugia a terra debaixo dos pés, acarretaram sobre o Pontífice os sarcasmos da sabedoria humana. Por algum tempo custou a compreender que um Papa é teólogo antes de ser rei, e como teólogo tem a certeza do dia seguinte; sendo, portanto, o solene procedimento de Pio IX uma triunfante resposta a todos os erros do espírito moderno. Com efeito, o Dogma da Imaculada Conceição esmaga e pulveriza todos os sistemas racionalistas, que não querem admitir na Natureza Humana nem Queda nem Redenção sobrenatural. Além disso, o modo como a promulgação se preparava, tendia a aproximar cada vez mais do centro comum todas as igrejas particulares. Logo que a impiedade compreendeu tudo isto, atacou furiosamente o que chamava “o novo dogma”, e tanto a heresia como a falsa filosofia deram a este respeito assaltos de inépcias e ignorâncias. Sem fazer caso destes vãos clamores, Pio IX prosseguiu serenamente na obra inspirada pelo Céu, obstinando-se em depositar sua confiança numa humilde Virgem, antes que nos sufrágios impersistentes dos povos, ou na força dos canhões.

“Temos a firme esperança, escrevia ele, que a Virgem que foi elevada pela grandeza de seu mérito acima de todos os coros dos Anjos até ao Trono de Deus,[1] a Virgem Cheia de Graça e suavidade, Aquela que tem sempre arrancado o Povo Cristão às ciladas do Inimigo..., se dignará com a imensa ternura, que é a natural efusão de seu Coração Maternal, compadecer-se de nós, conseguindo por sua altíssima e soberana proteção livrar-nos das cruéis angústias que sofremos... aplacando a cólera Divina que nos está ferindo, em razão de nossos pecados, apaziguando as terríveis tempestades que de toda a parte assaltam a Igreja, e que finalmente, a imensa dor de nossa alma se transformará em júbilo. Por que, sabeis perfeitamente, Veneráveis Irmãos, que o fundamento da nossa esperança é a Santíssima Virgem, por que é Nela, diz São Bernardo, que Deus concentrou a plenitude de todo o bem, de maneira que se temos alguma esperança, se obtemos algum favor, se há alguma salvação, saibamos que é Dela que nos vem... tal é a vontade Daquele, que quis, que tivéssemos tudo pela intercessão de Maria.[2]


Da Definição do Dogma

Devem lembrar-se que por uma Encíclica, datada de Gaeta, Pio IX tinha interrogado o Episcopado da Igreja Universal a respeito da crença na Imaculada Conceição. As respostas chegaram em número de seiscentas e três. Quinhentas e quarenta e seis pediam instantemente a Definição Doutrinal; e somente algumas, como por exemplo a de Monsenhor Sibour, Arcebispo de Paris, se mostrava hesitante no sentido da oportunidade; todavia, os sentimentos do Mundo Católico a tal respeito não eram duvidosos.

Nestas solenes circunstâncias, Pio IX chamou para seu lado todos os Bispos que pudessem ir à Roma, e ali se reuniram dois mil e noventa e dois de todos os países, à exceção da Rússia, onde o desconfiado despotismo do Imperador Nicolau se opôs à sua viagem.

Estes Prelados contribuíram para terminar o trabalho da Comissão encarregada de preparar a Bula; mas, no momento de assentar numa redação definitiva, consultaram se os Bispos assistiam como juízes, para pronunciar a definição simultaneamente com o Sucessor de São Pedro, devendo mencionar-se sua presença debaixo deste título, ou ser bastante para o julgamento supremo, a palavra do Soberano Pontífice.

A questão terminou repentinamente, como por inspiração do Espírito Divino.

Estava-se na última Sessão, conta Monsenhor Audisio, testemunha presencial, ao toque das badaladas do meio-dia, toda Assembléia ajoelhou para rezar o Angelus. Neste momento, e depois de cada um retomar seu lugar, apenas se tinha trocado algumas palavras, ouviu-se de golpe uma aclamação ao Santo Padre, um brado uníssono de adesão à primazia da Cadeira de São Pedro reboou no espaço, fechando o debate: Petre, doce nos; confirma frates tuos! Pedro, guia-Nos, confirma teus Irmãos. A luz que esses Pastores pediam ao Pastor Supremo, era a definição da Conceição Imaculada.

O dia 8 de dezembro de 1854 foi o grande dia, o dia triunfal que, segundo as formosas palavras de Monsenhor Dupanloup, “coroou as esperanças dos séculos passados, abençoou o século presente, atraiu para si o reconhecimento do futuro, legando-lhe uma lembrança imorredoura; o dia finalmente em que foi pronunciada a primeira definição de Fé, sem contestação, e que nenhuma heresia maculou. Roma inteira exultava. Uma imensa multidão de todos os países se apertava nas proximidades da ampla Basílica de São Pedro, demasiado pequena para acolher tanta gente. De repente, viu-se desfilar processionalmente os Bispos, por ordem de antiguidade e seguidos dos Cardeais. O Soberano Pontífice, no centro de um brilhante cortejo, fechava o préstito, enquanto que o canto das litanias dos Santos convidava a Corte Celestial a ajuntar-se à Igreja Militante, para honrar a Rainha dos Anjos e dos Homens. Sentado no Trono, Pio IX recebeu a obediência dos Cardeais e dos Bispos, e em seguida começou a Missa Pontifical.

Quando o Evangelho foi cantado em grego e em latim, o Cardeal Macchi, Decano do Sagrado Colégio, acompanhado dos Decanos, dos Arcebispos e Bispos presentes, de um Arcebispo do rito grego e de um Arcebispo Armênio, apresentou-se ao pé do Trono rogando à Sua Santidade, em nome de toda a Igreja, para que elevasse sua Voz Apostólica, pronunciando o Decreto Dogmático da Imaculada Conceição”. O Papa respondeu que alegremente acolhia este pedido, mas ainda uma vez, queria invocar o auxílio do Espírito Santo. Todas as vozes se uniram no cântico Veni Creator, e logo que este terminou, Sua Santidade de pé, e com aquela voz grave, sonora, e majestosa de que tantos milhares de fiéis conhecem a profunda magia, começou a leitura da Bula.

Em primeiro lugar estabelecia as razões teológicas da crença no privilégio de Maria; em seguida, evocava as Tradições Antigas e Universais, tanto no Oriente como no Ocidente,  o testemunho das Ordens Religiosas e dos Colégios de Teologia, dos Santos Padres e dos Concílios, e finalmente, os Atos Pontificais, tanto antigos como recentes.

Enquanto que o Papa expendia esses piedosos e magníficos Documentos, seu rosto denotava uma profunda comoção. Por muitas vezes teve de interromper-se. Depois de, dizia ele, ter oferecido sem descanso, na oração e no jejum, nossas próprias orações e as orações públicas da Igreja a Deus, o Pai Eterno por seu Filho, afim de que se dignasse dirigir e confirmar nossos pensamentos pela virtude do Espírito Santo; depois de ter invocado o auxílio de toda a Corte Celestial...; em honra da Santa e Indivisível Trindade, para glória da Virgem Mãe de Deus, pela exaltação da Fé Católica e aumento da Religião Cristã; por Autoridade de Nosso Senhor Jesus Cristo, dos Bem-aventurados Apóstolos Pedro e Paulo, e pela Nossa...”.

Neste ponto faltava-lhe a voz, parando para limpar as lágrimas.

Os assistentes, tão enternecidos como ele, mas mudos de respeito e admiração, escutavam no mais profundo silêncio. De repente, Pio IX continuou com voz forte, e elevando-a gradualmente numa espécie de entusiasmo:

“Nós declaramos, pronunciamos e definimos, que a doutrina que afirma que a Bem-aventurada Virgem Maria foi preservada e limpa de toda a mancha do Pecado Original, desde o primeiro instante de sua conceição, em vista dos merecimentos de Jesus Cristo, Salvador dos Homens, é uma doutrina revelada por Deus e por essa razão, todos os fiéis devem crer nela com firmeza e constância. Pelo que, se alguém tiver a presunção, o que Deus não permita, de admitir uma crença em contrário de Nossa definição, saiba que deslizou da Fé e se acha separado da Unidade da Igreja!...” .

O Cardeal Decano, prostrado segunda vez aos pés do Pontífice, suplicou-lhe então, que publicasse as Cartas Apostólicas contendo a Definição; e o Promotor da Fé, acompanhado dos Protonotários Apostólicos, pediu também que se lavrasse um Processo Verbal desse grande Ato. Ao mesmo tempo, o canhão de Santo Ângelo e todos os sinos da cidade eterna anunciavam a glorificação da Virgem Imaculada.

À noite, Roma, cheia de ruidosas e alegres orquestras, embandeirada, iluminada, coroada de inscrições e de transparentes emblemáticos foi imitada por milhares de vilas e cidades em toda a superfície do globo.

Se tentássemos contar todas as piedosas manifestações que então se deram, não só encheríamos volumes, mas bibliotecas.

As respostas dos Bispos ao Papa antes da definição foram publicadas em nove volumes; a Bula só por si, traduzida em todas as línguas e em todos os idiomas do universo, pelos cuidados de um sábio sulpiciano francês[3], encheu uma dezena; as Instruções Pastorais publicando e explicando a Bula, assim como os artigos religiosos formariam evidentemente muitas sentenças, sobretudo se lhe ajuntassem as poesias, os raptos de eloquência, e a descrição dos monumentos e dos festejos. Não esqueceria por certo notar as espontâneas e incomparáveis iluminações periódicas de Lyão, todas as vezes que o curso do ano tocou a meta do memorável dia 8 de dezembro.

A Virgem Imaculada recompensou visivelmente seu servidor,, estendendo sobre ele sua proteção de uma maneira quase miraculosa.

Passados alguns meses, em uma festa religiosa na igreja de Santa Inêz, próximo da Via Nomentana, achava-se o Pontífice sobre um tablado com algumas pessoas da sua corte, quando este abateu, arrastando na queda, da altura de quinze à vinte pés, todos os que ali se achavam. Este incidente podia ter sérias consequências; felizmente apenas se deram algumas contusões sem gravidade. Roma festejou estrepitosamente a preservação da vida de seu Soberano.

Vinte anos depois, a 12 de abril de 1875, reuniu-se ainda a Nobreza Romana para celebrar este aniversário, que era ao mesmo tempo o da chegada triunfal de Gaeta em 1852.

Em resposta aos protestos de dedicação que lhe foram lidos por tal motivo no Vaticano, Pio IX fez alusão aos meios empregados misteriosamente pela Providência. Disse ele: “A nossa queda em Santa Inêz pareceu-nos a princípio um desastre, aterrou-nos a todos extraordinariamente, mas no fundo, não teve outro resultado senão dar mais forte impulso aos trabalhos de solidez e aformoseamento da antiga Basílica. Agora sucederá o mesmo, acrescentou ele. Das ruínas morais que o Inferno acumula de todas as partes sobre nós e em redor de nós, a Igreja sairá rejuvenescida, mais vigorosa e mais bela do que nunca”.


Fonte: J. M. Villefranche, Pio IX – Sua Vida, Sua História e Seu Século, Cap. VIII, pp. 133-135; Cap. X, pp. 153-157. Livraria Editora de Mattos Moreira & C.ª, Lisboa, 1877.

Esta Edição Portuguesa Prefaciada por Camillo Castello Branco, está com data de 1877, e cuja Casa Editora em tela, principiou a série da sua Biblioteca Religiosa.

Obs.: Esta portentosa obra foi escrita, quando o Beato Pio IX ainda vivia. Ouçamos o Autor: “Escrever a história de um homem enquanto vivo, é uma empresa delicadíssima senão impossível: todavia, neste caso, como se trata de Pio IX, a natural curiosidade e avidez do público custa-lhe a esperar pela posteridade” (Prefácio).    


[1]   São Gregório, Papa, De Expositione in livros Regnum.
[2]   São Bernardo, In Nativit. B. Mariae.
[3]   M. o abade Sire.

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