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"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Carta de um Bom Pastor a um Sacerdote Caído


Foto de D. Vital 


(Que serviria a todos os Sacerdotes desviados,

ou, para aqueles, que ainda hão de desviar-se)





Mas voltemos ao Sr. Bispo D. Vital. Um rasgo muito para notar em sua fisionomia moral, tão desfigurada pelo sr. Barão de Penedo, e que vamos agora fazer sobressair, é a caridade terna, afetuosíssima deste virtuoso Prelado, para os mesmos que tanto o amarguravam e perseguiam. Era um coração que nunca se azedou contra ninguém, e que as mais desvairadas ovelhas tratou com mimos e afetos que lembram o Bom Pastor. Como este, soube repreender áspero a hipocrisia dos fariseus, enxotar a látego os profanadores do Templo; mas todo se desfazia em doçura e misericórdia com os pobres pecadores, para os reconduzir à penitência.



Eis aqui uma carta que ele escreveu de sua prisão a um Sacerdote caído. Não sabemos que haja nas vidas dos grandes Bispos nada mais comovente:



De minha prisão, a 16 de Maio de 1875.



Meu caro Padre e Irmão, com o coração dilacerado de mágoa, dirijo a V. Rvm. do fundo de minha prisão um conselho de amigo, uma súplica de irmão, uma afetuosa advertência de pai estremecido. Não bastavam já tantas e tão dolorosas angústias que torturam o coração terníssimo de nossa caridosa Mãe, a Santa Igreja de Deus? Não bastava que Ela fosse injustamente perseguida em todas as nações pelo poder das trevas? Não bastava a imensa dor de ver o seu Patrimônio Temporal usurpado, seu Augusto Chefe prisioneiro, suas Ordens Religiosas abolidas ou proscritas, seus Pastores encarcerados ou desterrados, seus filhos atormentados e oprimidos?



Ah! Como se fosse ainda pouco tudo isto, um novo golpe vem feri-lA, desfechado não por mão estranha ou inimiga, mas pela de um de seus filhos mais caros, pela de um de seus Ministros, pela sua!



Meu caro Irmão, que fez? Porque se revoltou contra a Autoridade da Igreja? Se se julga injustamente suspenso pelo governador do Bispado, porque em lugar de resistir-lhe em face, não se dirigiu ao seu humilde Prelado? Porque, se queria desconhecer a jurisdição de seu Bispo, não recorreu, como sempre é lícito, ao Sumo Pontífice, nosso Superior espiritual e Chefe supremo da Igreja Católica?



Ah! Nada tinha-me ainda tanto afligido, nem as injúrias e as calúnias da impiedade, nem a injusta sentença dos homens, nem os sofrimentos da prisão, nem a iniquidade cometida contra os heroicos governadores de minha Diocese, nem a violenta deportação dos inocentes Padres Jesuítas, nem a perseguição de meus Sacerdotes e leigos fiéis!



Não, nada disto abalou-me a coragem, pelo contrário, tudo me alegrava no Senhor. Eu lhe dava mil ações de graças; eu derramava doces lágrimas de consolação à vista da inabalável constância do rebanho fiel, cometido a minha ternura e vigilância; à vista da firmeza apostólica e união admirável do Clero de Olinda, que se serrava em torno de seu humilde Pastor, como as cordas estão unidas a lira, segundo a bela expressão de Santo Inácio, Mártir.



Mas, oh dor! O ato de V. Rvm. meu filho, é sem dúvida, efeito da humana fragilidade, fruto de um momento de irreflexão e de cólera. O dardo atirado justo e, vindo direto ao meu coração, enterrou-se em minha alma, feriu-me dolorosamente, fez-me mais profunda ferida que a rebeldia de um filho querido pode abrir no peito de um pai amante.



V. Rvm. saiu do caminho da verdade, para seguir o declive vertiginoso do erro! Vejo bem agora a gravidade de sua triste e perigosa posição!



Oh! Meu caro filho, do mais íntimo de minha alma, rogo a V. Rvm. com toda a veemência de que é capaz o coração de um Bispo, não fique neste declive escorregadio! Ah! Não vá mais longe, não desça até o fundo do abismo! Por piedade, poupe este golpe ao peito já tão aflito de nossa querida Mãe, a Igreja Católica! Poupe esta dor ao Vigário de Jesus Cristo, já saciado de tantas amarguras! Poupe esta angústia à infeliz Diocese de Olinda! Poupe este escândalo ao Brasil, nossa Pátria entristecida! Não aumente a aflição ao aflito, traspassando o coração de vosso Pai e Pastor.



Meu Irmão, é tempo, não vá mais longe; pare, volte a casa paterna. Lance-se contrito nos braços de nossa terna Mãe, que será indulgente e terá entranhas de misericórdia para o arrependido.



Oh! Pelo precioso Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo amor da Imaculada Virgem Maria, pela salvação eterna de sua alma, não vá mais longe, eu lhe peço com as lágrimas nos olhos!



Sim, eu, seu Pastor, seu Pai, seu Bispo, rogo-lhe por quanto há de mais sagrado, não resista à vontade de Deus, não dispense o chamado do Céu, não feche os ouvidos à voz do Senhor que o exorta por minha boca. – Vinctus Christi Jesu.



Fr. Vital. Bispo de Olinda.





Quanto isto é belo! Quanto é sublime! Nada aqui de concertado. É uma ingênua expressão. É um grito eloquente, como o que escapa do peito da mãe ao ver o filho precipitar-se em medonha voragem!



 
Brasão de D. Vital

Fonte: D. Antônio de Macedo Costa, Bispo do Pará, “A Questão Religiosa – Perante a Santa Sé, ou, A Missão Especial a Roma em 1873, a Luz de Documentos Publicados e Inéditos”, Cap. VIII, pp. 139-141; Imp. na Tipografia da “Civilização”, Maranhão, 1886.

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