Blog Católico, para os Católicos

"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

"Quem respeita o Bispo, é respeitado por Deus; quem faz algo às ocultas do Bispo, serve ao Diabo...” (Santo Inácio de Antioquia, “Carta aos Esmirniotas”).


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A Submissão ao Bispo
é uma Bem-aventurança antecipada


Diante da ignorância, invencível ou culposa, de muitos católicos em relação da submissão dos leigos às Autoridades Eclesiásticas, passo a expor alguns lampejos de doutrina certa e segura sobre o assunto.

Eis a Doutrina do Novo Testamento:

► “O que vos ouve, a Mim ouve, e o que vos despreza, a Mim despreza. E quem Me despreza, despreza aquEle que Me enviou” (S. Luc. 10, 16).

► “O que vos recebe, a Mim recebe; e o que Me recebe, recebe aquEle que Me enviou” (S. Mat. 10, 40; S. Jo. 13, 20).

► “... E, se não ouvir a Igreja, considera-o como um gentio e um publicano...” (S. Mat. 18, 15-18).

► “Toda a alma esteja sujeita aos Poderes Superiores, porque não há poder que não venha de Deus; e os (poderes) que existem foram instituídos por Deus. Aquele, pois, que resiste à Autoridade, resiste à ordenação de Deus. E os que resistem, atraem sobre si próprios a condenação” (Rom. 13, 1-2; 16, 17-20; 1ª Cor. 5, 9-13).

► “Alexandre, o latoeiro, fez-me muitos males; o Senhor lhe pagará segundo as suas obras. Tu também guarda-te dele, porque opõe uma forte resistência às nossas palavras” (2ª Tim. 4, 14-15).

► “... Ninguém te despreze” (Tit. 2, 9-10.15).

► “Igualmente vós, ó jovens, obedecei aos Sacerdotes” (1ª S. Ped. 5, 5).

Caso alguns menos favorecidos não tenham ainda entendido, passo a expor com maior clareza.

► “É preciso glorificar de todos os modos a Jesus Cristo... a fim de que... reunidos na mesma obediência, submetidos ao Bispo e ao Presbítero, sejais santificados em todas as coisas... Convém caminhar de acordo com o pensamento de vosso Bispo... Está claro, portanto, que devemos olhar o Bispo como ao próprio Senhor...” (Santo Inácio de Antioquia, “Carta aos Efésios”).

► “Convém que não abuseis da idade do vosso Bispo, mas, pelo poder de Deus Pai, lhe tributeis toda reverência... Portanto, para honra daquEle que nos amou, é preciso obedecer sem nenhuma hipocrisia, porque não é ao Bispo visível que se engana, mas é ao invisível que se mente... É preciso não só levar o nome de cristão, mas ser de fato. Alguns falam sempre do Bispo, mas depois agem de modo independente. Estes não me parecem ter boa consciência... Por isso vos peço que estejais dispostos a fazer todas as coisas na concórdia de Deus, sob a presidência do Bispos, que ocupa o lugar de Deus... Que não haja nada entre vós que vos possa dividir, mas uni-vos ao Bispo e aos chefes como sinal e ensinamento de incorruptibilidade... Assim como o Senhor nada fez, nem por Si mesmo nem por meio de seus Apóstolos, sem o Pai, com O qual Ele é um, também vós não façais nada sem o Bispo e os Presbíteros. Não tenteis fazer passar por louvável coisa alguma que fizerdes sozinhos... Sejam submissos ao Bispo...” (Santo Inácio de Antioquia, “Carta aos Magnésios”; cfr. Carta do Beato João Paulo II a todos os Sacerdotes da Igreja por ocasião da 5ª Feira Santa de 1979).

► “Quando vos submeteis ao Bispo como a Jesus Cristo, demonstrais a mim que não viveis segundo os homens, mas segundo Jesus Cristo... Da mesma forma, todos respeitem... ao Bispo, que é a imagem do Pai... Sem eles (Bispos, Presbíteros e Diáconos), não se pode falar de Igreja... Aquele que age sem o Bispo, sem o Presbítero e os Diáconos, esses não tem consciência pura...” (Santo Inácio de Antioquia, “Carta aos Tralianos”).

► “Com efeito, todos aqueles que são de Deus e de Jesus Cristo, esses estão também com o Bispo... Foi o Espírito que me anunciou, dizendo: 'Não façais nada sem o Bispo...' ...” (Santo Inácio de Antioquia, “Carta aos Filadelfienses”).

► “Segui todos ao Bispo, como Jesus Cristo segue ao Pai... Sem o Bispo, ninguém faça nada no que diz respeito à Igreja... Onde aparece o Bispo, aí esteja a multidão, do mesmo modo que onde está Jesus Cristo, aí está a Igreja Católica... Tudo o que ele aprova, é também agradável a Deus... Quem respeita o Bispo, é respeitado por Deus; quem faz algo às ocultas do Bispo, servo ao Diabo...” (Santo Inácio de Antioquia, “Carta aos Esmirniotas”).

► “Atendei ao Bispo, para que Deus vos atenda...” (Santo Inácio de Antioquia, “Carta a São Policarpo”).

► “Devemos honrar não só nossos genitores, mas também os que merecem o nome de pais, como são os Bispos, Sacerdotes... Todos são dignos, uns mais e outros menos, de tirar proveito de nossa caridade, obediência, e fortuna.

Dos Bispos e outros Superiores Eclesiásticos está escrito: 'Sacerdotes, que desempenham bem seu ministério, são dignos de honra dobrada, principalmente os que se afadigam em pregar e ensinar' (1ª Tim. 5, 17). Na verdade, quantas provas de amor não deram os Gálatas ao Apóstolo? Ele próprio lhes rendeu grande preito de gratidão: 'Posso assegurar-vos que, se possível fosse, até os próprios olhos teríeis arrancado, para me fazerdes presente deles' (Gál. 4, 15)...

Deve-se-lhes também obediência, conforme ensina o Apóstolo: 'Obedecei a vossos Superiores, e sujeitai-vos a eles, pois estão vigilantes, como quem deve contas de vossas almas' (Heb. 13, 17). Cristo Nosso Senhor mandou até obedecer aos maus Pastores, quando declara: 'Na cadeira de Moisés estão sentados os escribas e fariseus. Respeitai, pois, e executai tudo o que vos disserem. Mas não façais de acordo com suas obras, porque eles falam e não praticam' (S. Mat. 23, 2-3)” (Catecismo Romano, Part. III, Cap. V, Art. 13-14).

► “Em relação aos Superiores Eclesiásticos, eis o que nos ensina o Espírito Santo: 'Teme ao Senhor com toda a tua alma, e venera os seus Sacerdotes. Honra a Deus de toda a tua alma e reverencia os Sacerdotes' (Eclo. 7, 31.33). Eles representam e ocupam o lugar de Deus (1ª Cor. 4, 1)” (Teól. Giuseppe Perardi, “Novo Manual do Catequista”, Part. II, Cap. I, Art. 2, N. 190, Pont. 3º).

► “Na própria Diocese, o Bispo é visível princípio e fundamento da unidade da Igreja formada à imagem da Igreja Universal, que surge como uma e única do conjunto das igrejas  particulares... É dever dos fiéis acatar, com religiosa submissão, o ensinamento do próprio Bispo, aderindo à sua doutrina, sempre que ensine, em nome de Jesus Cristo, verdades de Fé ou Costumes... Em virtude deste poder, tem os Bispos o direito e o dever sagrado, diante do Senhor, de legislar, de julgar e governar, em tudo quanto se refere ao bem de suas ovelhas, ao culto e ao apostolado... Como Pastores e moderadores da Igreja devem ser os Bispos honrados pelo povo fiel, com obediência, amor e reverencia. A situação singular que tem na Igreja justifica todo o aparato externo que circunda suas pessoas, especialmente nas cerimônias sagradas (D. Antônio de Castro Mayer, “Instrução Pastoral sobre a Igreja”, de 2 de março de 1965).

Não percam ocasião de inculcar verdadeira devoção ao Santo Padre o Papa, e, em grau menor, ao Bispo... (D. Antônio de Castro Mayer, “Carta Pastoral sobre Problemas do Apostolado Moderno”, Diretrizes, nº 7, de 6 de janeiro de 1953; cfr. “Por um Cristianismo Autêntico”, Editora Vera Cruz, São Paulo, 1971).

Estão, portanto, fora do reto caminho os que criticam, tentam desmoralizar e desprestigiar o Bispo, ou diminuir a sua autoridade...

Nem seria necessário lembrar-vos as terríveis ameaças com que Jesus quis proteger a missão dos seus Apóstolos e Sucessores: 'Se não vos receberem nem ouvirem as vossas palavras, ao sair daquela casa ou cidade, sacudi o pó dos vossos pés. Em verdade Vos digo: será menos punida no dia do juízo a terra de Sodoma e Gomorra do que aquela cidade' (S. Mat. 10, 14-15).

E todos ouvimos, na cerimônia da Sagração, em defesa do Bispo, a séria advertência da Igreja aos maledicentes: 'Quem falar mal dele seja amaldiçoado; quem dele disser bem seja cumulado de bênçãos!' (Pontifical Romano – Rito da Sagração Episcopal)” (D. Fernando Arêas Rifan, “Mensagem Pastoral sobre o Início do Ministério Episcopal do Novo Administrador Apostólico”, de 5 de janeiro de 2003).

Pastores do rebanho,
os Bispos sabem que podem contar
com uma graça divina especial
no cumprimento de seu ministério”
(Beato João Paulo II, Exortação Apostólica “Pastores Gregis”,
dirigida aos Bispos em 16 de outubro de 2003).

Se alguns não obedecerem às palavras que Cristo pronunciou por nossa boca, saibam que se tornam réus de culpa mortal, e incorrem em extremo perigo” (Papa S. Clemente de Roma, 59, 1). Ou ainda este outro:

Tudo o que é contra a consciência leva ao Inferno” (Papa Inocêncio III, Decret. Lib., II, Tit. 3, c. 3).

E, por fim, se apesar de todo este aparato doutrinal, na tentativa de formar uma boa consciência, ainda persistirem no erro, não resta mais nada a fazer do que rezar a Deus por todos, e deixar estas últimas palavras:

Neste ponto, faço minhas as palavras que um dia Santa Bernadete Soubirous dirigiu a alguém, que quis ouvir de seus lábios a história das aparições, mas que, depois de ouvi-la, declarou descortesmente: 'Não acredito'.

A esse alguém, disse Santa Bernadete à queima-roupa: 'Estou encarregada de contar-lhe o que lhe contei. Não estou, porém, encarregada de fazê-lo crer'.

Crer não é tarefa só do homem. É tarefa de dois: do homem e de Deus” (Rev. Pe. João José Cavalcante, “As Aparições de Lourdes, maravilha do século XIX”, p. 7).

Tratando da obediência devida à Hierarquia Eclesiástica,
assim ensinou o, então, Cardeal Albino Luciani:

Querida Santa Teresa, outubro é o mês da tua festa; pensei que me permitirias entreter-me contigo por escrito.

Quem olha para o famoso grupo de mármore no qual Bernini te representa ao seres transpassada pelo dardo de um Serafim, pensa nas tuas visões e êxtases. E faz bem: a Teresa mística dos arroubos é uma Teresa verdadeira.

Mas também verdadeira é a outra Teresa, a que mais me agrada: aquela mais chegada a nós, tal como se depara na Autobiografia e nas Cartas. É a Teresa da vida prática; que passa pelas mesmas dificuldades que nós e sabe superá-las com destreza; que sabe sorrir, rir e fazer rir; que se movimenta com desembaraço no meio do mundo e dos acontecimentos mais diversos, e tudo isso graças a numerosos dons naturais, mas sobretudo à sua constante união com Deus.

Explode a Reforma Protestante, a situação da Igreja na Alemanha e na França é crítica. Tu te preocupas e escreves: 'Nem que fosse para salvar uma só alma das muitas que lá se perdiam!'

Mulher! Mas que vale por vinte homens, que não deixa nenhum meio por experimentar, e consegue realizar uma reforma interna magnífica e, com sua obra e seus escritos, influi na Igreja inteira; a primeira e única mulher que – com Santa Catarina de Sena – haja sido proclamada Doutor da Igreja.

Mulher de linguajar sincero e de pena aparada e incisiva. Tinhas um altíssimo conceito da missão das religiosas, mas escreveste ao Padre Graciano: 'Pelo amor de Deus, atente bem ao que está fazendo! Não acredite jamais nas freiras, porque se elas querem uma coisa, recorrerão a todos os meios possíveis'. E, ao Padre Ambrósio, recusando uma postulante, dizes: 'O senhor me faz rir quando afirma que compreendeu aquela alma só de vê-la. Não é tão fácil conhecer as mulheres'.

É tua a lapidar definição do Demônio: 'Aquele pobre desgraçado que não pode amar'.

A Dom Sancho D'Ávila: 'Distrações na reza do Ofício Divino, eu também as tenho... confessei-me disso com o Padre Domingos (Bañez, teólogo famoso, N. do A.) e este me disse que não fizesse caso. O mesmo digo ao senhor, pois o mal é incurável'. Conselho espiritual é este, mas tu esparziste conselhos a mancheias e de todo o tipo; ao Padre Graciano, chegaste a aconselhar que, em suas viagens, montasse um burrinho mais manso, que não tivesse o vezo de atirar os frades no chão, ou então se deixasse amarrar no próprio burro para não cair!

Insuperável, todavia, te demonstras na hora da batalha. Nada menos que o Núncio ordena que te encerrem no convento de Toledo, chamando-te de 'mulher irrequieta, vagabunda, desobediente e contumaz...' Mas, do convento, os mensageiros que envias a Felipe II, a Príncipes e Prelados, resolvem toda a embrulhada.

Conclusão tua: 'Teresa sozinha não vale nada; Teresa mais um centavo valem menos do que nada; Teresa mais um centavo e Deus, podem tudo!'

A meu ver, és um caso notável de um fenômeno que se repete regularmente na vida da Igreja Católica.

E é que as mulheres, de per si, não governam – isto pertence à Hierarquia – mas elas muitas vezes inspiram, promovem e, às vezes, dirigem.

De fato, se por um lado o Espírito 'sopra onde quer', por outro, a mulher é mais sensível à religião e mais capaz de se consagrar generosamente às grandes causas. Daí o exército numerosíssimo de Santas, de místicas e de fundadoras surgidas na Igreja Católica.

Ao lado destas, seria mister recordar as mulheres que iniciaram movimentos ascético-teológicos cujo raio de ação foi vastíssimo.

A nobre Marcela, que dirigiu no Aventino uma espécie de convento formado de ricas e cultas patrícias romanas, colaborou com São Jerônimo na tradução da Bíblia.

Madame Acarie influenciou ilustres personagens, tais como o jesuíta Coton, o capuchinho de Canfelt, o próprio Francisco de Sales e muitos outros, influindo em toda a espiritualidade francesa do início do século XVII.

A princesa Amália de Gallitzin, desde o seu 'Círculo de Münster' estimado até por Goethe, difundiu em toda a Alemanha setentrional uma corrente de vida intensamente espiritual. Sofia Swetchine, russa convertida, surgiu na França no início do século passado como 'diretora espiritual' dos leigos e Sacerdotes mais representativos.

Eu poderia citar mais casos, mas torno a ti que, mais do que filha, foste mãe espiritual de São João da Cruz e das primeiras Carmelitas reformadas. Hoje, tudo está claro e aplainado a este respeito, mas no teu tempo houve o desencontro acima relatado.

De uma parte estavas tu, rica em carismas, energia ardente e luminosa, que te havia sido concedida em proveito da Igreja de Deus; da outra, estava o Núncio, isto é, a Hierarquia, a quem se impunha julgar da autenticidade dos teus carismas. Num primeiro momento, devido a informações distorcidas, o parecer do Núncio foi negativo. Uma vez de posse das devidas explicações e examinando melhor as coisas, estas se esclareceram: a Hierarquia aprovou tudo e os teus dons puderam, assim, expandir-se em prol da Igreja.

٭٭٭

Mas de carismas e de Hierarquia muito se ouve falar hoje também. Especialista que foste no assunto, tomo a liberdade de tirar das tuas obras os seguintes princípios:

1 – Acima de tudo, encontra-se o Espírito Santo. Dele provém tanto os carismas como os poderes dos Pastores; cabe ao Espírito realizar o acordo harmônico entre Hierarquia e carisma e promover a unidade da Igreja.

2 – Carismas e Hierarquia são ambos necessários à Igreja, mas de maneira diferente. Os carismas agem como acelerador, favorecendo o progresso e a renovação. A Hierarquia deve antes servir de freio, em proveito da estabilidade e da prudência.

3 – Por vezes, carismas e Hierarquia se entrelaçam e sobrepõem. Alguns carismas, de fato, são concedidos em especial aos Pastores, como os 'dons de governo' lembrados por São Paulo na 1ª Carta aos Coríntios. E vice-versa, tendo a Hierarquia obrigação de regular todas as principais fases da vida eclesiástica, os carismáticos não se podem subtrair à sua direção, a pretexto de que possuem carismas.

4 – Os carismas não são caça privilegiada de ninguém: podem ser concedidos a todos, Padres e leigos, homens e mulheres. Uma coisa, porém, é poder ter carismas, outra tê-los de fato.

No teu livro das Fundações, acho escrito o seguinte (c. VIII, n. 7): 'Uma penitente afirmava a seu Confessor que Nossa Senhora vinha visitá-la com frequência e com ela se entretinha a falar por mais de uma hora, revelando-lhe o futuro e muita coisa mais. E, visto que no meio de tanto dislate saía alguma coisa verdadeira, tudo se tinha em conta de verdade. Logo entendi do que se tratava... mas limitei-me a dizer ao Confessor que olhasse para o êxito das profecias, que se informasse do estilo de vida da penitente e exigisse outros sinais de santidade. Afinal... viu-se que tudo eram extravagâncias'.

Querida Santa Teresa, se voltasses hoje! A palavra 'carisma' anda num desperdício; distribuem-se diplomas de 'profeta' a mancheias, concedendo esse título até aos estudantes que enfrentam a polícia nas praças e aos guerrilheiros da América Latina. Pretende-se opor os carismáticos aos Pastores. Que dirias tu, que obedecias aos teus Confessores mesmo quando os conselhos deles contrastavam com os conselhos que Deus te outorgava na oração?

E não penses que eu seja pessimista. Isso de ver carismas por toda a parte, espero seja somente moda passageira. Por outro lado, bem sei que os dons autênticos do Espírito sempre são acompanhados de abusos e falsos dons; não obstante, a Igreja sempre progride de igual maneira.

Na jovem igreja de Corinto, por exemplo, havia grande florescimento de carismas, mas São Paulo ficou bastante preocupado com alguns abusos ali descobertos. O fenômeno repetiu-se depois em formas aberrantes mais vistosas.

Duas mulheres, Priscila e Maximila, que sustentavam e financiavam o Montanismo na Ásia, começaram pregando 'carismaticamente' uma renovação moral baseada em grande austeridade, na renúncia total ao Matrimônio, na prontidão absoluta para o Martírio. Acabaram contrapondo aos Bispos os 'novos profetas', homens e mulheres que, 'investidos do Espírito', pregavam, administravam sacramentos, aguardavam a Cristo que, de uma hora para outra, deveria vir inaugurar o reino milenar.

No tempo de Santo Agostinho, houve Lucila de Cartago, rica senhora que o Bispo Ceciliano repreendera porque, antes da Comunhão, costumava apertar ao peito um ossinho não se sabe de que Mártir. Irritada e ressentida, Lucila induziu um grupo de Bispos a se oporem ao seu Bispo; tendo perdido um processo perante o Episcopado africano, o grupo protestou sem sucesso perante o Papa, depois perante o Concílio de Arles, depois perante o próprio Imperador e deu início a uma nova igreja. Com isso, havia em quase todas as cidades africanas dois Bispos, duas catedrais, frequentadas por categorias antagônicas de fiéis que, ao se encontrarem, chegavam às vias de fato; dum lado os católicos e do outro os donatistas, seguidores de Donato e Lucila.

Os donatistas denominavam-se 'puros'; não se assentavam em lugar antes ocupado por um católico, sem primeiro limpá-lo com a manga; evitavam os Bispos católicos como pesteados; apelavam para o Evangelho contra a Igreja, que diziam estar amparada pela autoridade imperial; constituíram tropas de assalto. Certa vez, o santíssimo Bispo Agostinho foi forçado a enfrentá-los: 'Se tanto desejam o martírio, por que não tomam uma corda e não se enforcam?'

No século XVIII tivemos as religiosas de Port Royal. Uma sua abadessa, Madre Angélica, começara bem; tinha 'carismaticamente' reformado a si mesma e o convento, chegando a expulsar da clausura os próprios pais. Escudada por grandes dons, nascida para governar, tornou-se, porém, a alma da resistência jansenista, intransigente até o fim perante a Autoridade Eclesiástica. Dela e de suas religiosas costumava-se dizer: 'Puras como Anjos, soberbas como Demônios'.

Como tudo isso fica longe do teu espírito! Que abismo entre essas mulheres e tu! 'Filha da Igreja' era o nome de que mais gostavas. Murmuraste-o no leito de morte, ao passo que, durante a vida, tanto labutaste pela Igreja e com a Igreja, aceitando mesmo sofrer alguma coisa da parte da Igreja.

E se ensinasses um pouco o teu método às 'profetizas' de hoje?!

Outubro, 1974”.

(Cardeal Albino Luciani, “Ilustríssimos Senhores”, Cap. Teresa, um centavo e Deus, pp. 201-205; Edições Loyola, São Paulo, 1979).


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