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"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Como se Há de Resistir às Tentações



1 – Enquanto vivemos neste mundo, não podemos estar sem trabalhos e tentações, pois está escrito em Jó: tentação é a vida do homem sobre a terra.1

Por isso, deve cada um ser cuidadoso nas tentações e muito vigilante na oração; para que o Demônio, que nunca dorme, não ache lugar para seu engano, ele que por todas as vias busca vítimas.2

Ninguém existe tão perfeito e santo que não padeça algumas vezes tentações, e, finalmente, não podemos viver sem elas.

2 – São, contudo, as tentações muitas vezes utilíssimas ao homem, posto que lhe sejam molestas e pesadas; porque com elas se humilha, purifica e instrui.

Todos os santos passaram por muitas tribulações e tentações, e com elas aproveitaram; e os que não as puderam levar tornaram-se réprobos e pereceram.

Não há Ordem tão santa, nem lugar tão secreto, onde não se achem tentações e adversidades.

3 – Nenhum homem está de todo livre das tentações enquanto vive; porque em nós mesmos está o princípio de onde procedem, pois nascemos com inclinação para o pecado.

Mal uma tentação ou tribulação é passada, já sobrevêm outra, e sempre teremos que padecer, pois perdemos o bem da nossa felicidade.

Muitos pretendem fugir às tentações, e caem nelas mais gravemente.

Não as podemos vencer fugindo-lhes somente; mas com paciência e verdadeira humildade nos fazemos mais fortes que todos os nossos inimigos.

4 – O que somente modera as aparências e não arranca as raízes, pouco aproveitará: antes lhe voltarão depressa as tentações e se achará pior.

Melhor as vencerás com o favor divino, pouco a pouco, com paciência e longanimidade, que com importuna contenda.

Toma muitas vezes conselho na tentação e não sejas desabrido e áspero com o que está tentado; mas trata de o consolar, como desejarias ser consolado.

5 – A inconstância de ânimo e pouca confiança em Deus é o princípio de todas as tentações.

Porque assim como as ondas lançam de uma parte para outra a nau a que falta o leme, assim as tentações combatem de diversos modos o homem descuidado e inconstante em seu propósito.

O fogo prova o ferro e a tentação o justo.

Muitas vezes ignoramos o que podemos, mas a tentação nos mostra o que somos.

Devemos, porém, vigiar principalmente no princípio da tentação; porque então mais facilmente se vencerá o inimigo, quando não consentirmos que entre as portas da nossa alma, mas logo que bater a elas lhe sairmos ao encontro.

De onde veio a dizer alguém: “resiste ao princípio: porque vem fora de tempo o remédio, quando os males tem cobrado forças com as detenças”.3

Pois, primeiramente, se oferece à alma um simples pensamento, depois a importuna imaginação, logo a deleitação, e o movimento torpe, e finalmente, o consentimento: e assim pouco a pouco entra de todo o malvado inimigo, porque não se lhe resistiu no princípio.

E quanto mais tempo alguém se descuidar em lhe resistir, tanto se tornará cada dia mais fraco, e o inimigo contra ele mais poderoso.

6 – Alguns padecem graves tentações no princípio, da sua conversão, outros no fim, e muitos quase por toda a vida.

Alguns são tentados brandamente, e conforme a sabedoria e equidade da Providência divina, que pondera o estado e o merecimento dos homens, e tudo ordena para salvação dos seus escolhidos.

7 – Por isso não devemos desesperar, quando estamos tentados; mas antes com mais fervor pedir a Deus que se digne ajudar-nos em toda a tribulação, e como diz São Paulo: “Ele fará que tiremos da mesma tentação tal força, que a possamos levar com paciência”.4

Humilhemos, pois, a nossa alma debaixo da Mão de Deus, em toda a tentação e tribulação, porque Ele há de salvar e engrandecer os humildes de espírito.

8 – Nas tentações e tribulações se vê quanto cada um tem aproveitado; nelas se colhe maior merecimento, e se conhece melhor a virtude.

Não é muito ser um homem devoto e fervoroso, quando não sente pesar; mas se no tempo da adversidade sofre com paciência, dá esperanças de grande aproveitamento.

Alguns há que vencem as grandes tentações e muitas vezes das ordinárias e pequenas são vencidos, para que humilhando-se não confiem em si mesmos nas coisas grandes, pois sucumbem nas pequenas.
Reflexão de Monsenhor Manuel Marinho5

A tentação é um incitamento da vontade para o mal. Não é pecado sentir tentações, quando o senti-las não dependeu do nosso querer. Neste caso, os atos da sensibilidade operam-se em nós e não por nossa culpa. Ninguém peca contra sua vontade. Podem representar-se à tua imaginação os pecados mais repelentes, podes sentir as tentações mais violentas; se a tua vontade não quer o pecado, nem os meios que a ele conduzem, não pecas. Nenhuma tentação há que não possas vencer com a graça de Deus, que está sempre à tua disposição: Fiel é o Senhor e não permitiria que sejais tentados acima das vossas forças; mas enviará juntamente com a tentação o seu auxílio, para que possais resistir”.6 Que doutrina consoladora!

Permitiu Jesus Cristo ser tentado no deserto, por diversos modos, e quando estava entregue ao jejum e à oração, para que nós não estranhássemos ser tentados, em qualquer lugar. Nenhuma pessoa há tão privilegiada que esteja isenta de tentações, em algum período da vida ou em algum lugar do mundo; sempre e em toda a parte podemos ser tentados.

Conforme o seu temperamento, estado, condição e meio em que vive, assim cada pessoa é tentada de diversos modos. Permitindo-nos as tentações, oferece-nos Deus ocasião propícia para nos enriquecer de merecimentos a cada instante. “Porque tu eras querido de Deus”, dizia o Anjo Rafael a Tobias, “foi necessário, que a tentação te experimentasse”.7 São diversas as tentações, mas os remédios que Jesus Cristo nos aponta para elas reduzem-se a dois: vigiai e orai para que não entreis em tentação. A vigilância contínua avisa-nos dos perigos; a oração bem feita consegue-nos a força necessária para resistirmos aos inimigos.

Compadecei-Vos de mim, Senhor, segundo a Vossa grande misericórdia”.8

Reflexão do Presbítero J. I. Roquette9

Nenhum homem está isento de tentações. Permite-as Deus para que nos provem, nos purifiquem, nos instruam e nos humilhem.

Não é só pela fugida ou por uma resistência violenta que venceremos, senão também por uma paciência sossegada, por uma inteira confiança em Deus.

Vigiemos, contudo, segundo o Preceito do divino Mestre: “Vigiemos e oremos para não cairmos em tentação”.

Vence-se facilmente a tentação quando nasce, mas se a deixarmos crescer e fortificar, não teremos bastante forças para resistir-lhe, e sucumbindo seremos punidos de nossa negligência ou de nossa presunção. Assim sucumbiu São Pedro, porque teve demasiada confiança em si mesmo, e se expôs ao perigo sem se fortificar com a vigilância e a oração.

Se, como Pedro, formos descuidados ou presunçosos, sejamos como ele contritos e arrependidos. Reconheçamos nossa fraqueza e pouco préstimo, e humilhemo-nos cada vez mais. A humildade será o fundamento de nossa segurança, de nosso aproveitamento, de nossa paz e de toda perfeição.

Bem sei, Senhor, que aos que vos amam e temem tudo se lhes converte em bem; não vos peço, Deus meu, ser isento de tentações, mas luz para conhecê-las, fortaleza para resistir-lhes, humildade para não confiar em mim, conforto para não desfalecer e vencimento no combate; permiti, Senhor, desarmem em vão todas as ciladas do inimigo, e dele vencedor possa eu colher os saudáveis frutos da santa humildade, que são a paz interior neste mundo e a exaltação na Pátria dos Bem-aventurados.

Reflexão de São Francisco de Sales10

Minha Filotéa, esses grandes assaltos e essas tentações tão violentas nunca são permitidas por Deus, senão contra as almas que Ele quer elevar a seu puro e excelente amor; mas não se segue que depois disto estejam elas seguras de lá subir, pois às vezes, aqueles que tinham sido constantes em tão rijos assaltos, não correspondendo depois fielmente ao favor divino, se acharão vencidos em pequeninas tentações.11

Quem sente o inimigo fazer a escalada pelo lado da impureza, deve fugir as ocasiões e as companhias, e ao menor pensamento deve dar rebate à guarnição, recorrendo às disciplinas, jejuns e cilício, etc. Quem sente o assalto da avareza, há de recorrer à esmola, à consideração da vaidade dos bens deste mundo, etc. Quem se sente levado à vingança, necessita de recorrer à amizade, mansidão. Enfim, é necessário rondar cem vezes por dia, nessa pequena cidadela e reforçá-la, ora daqui, ora dali, pôr sentinelas aos olhos, boca, ouvidos, mãos, olfato, para não deixar entrar coisa que não saiba pronunciar bem Scibboleth.12

Oração13


Eterno Pai, eu ofereço a vossa honra e glória e para minha salvação e para a de todo o mundo, os quarenta dias e quarenta noites, que Vosso Filho jejuou no deserto; a fome e a sede que Ele ali sofreu; seu dormir sobre a terra nua, na companhia das bestas selvagens; os suspiros que Ele exalou do fundo do Coração, e as lágrimas que seus olhos puríssimos derramaram; as fervorosíssimas preces que Ele Vos ofereceu pela salvação do mundo e principalmente de Vossos caros escolhidos, e as penosas e importunas tentações do Demônio, que Ele sofreu lá; por todas estas coisas eu vos dou graças, eu vos amo e bendigo infinitamente, pedindo-vos pelos merecimentos delas, o amor da penitência e mortificação de minhas paixões, de aplicar-me à oração e de ter a força de vencer todas as tentações.


1Jó 7, 1.
21 Ped. 5, 8.
3Ovi. De Remed. 1, V. 91).
41 Cor. 10, 13.
5Mons. Manuel Marinho, “Imitação de Cristo”, Liv. I, Cap. XIII, pp. 29-32; 11ª edição, Editora Viúva de José Frutuoso da Fonseca, Porto, 1925.
61 Cor. 10, 13.
7Tob. 12, 13.
8Salm. 50.
9Presbítero J. I. Roquette, “Imitação de Cristo”, Liv. I, Cap. XIII, pp. 33-38; Ed. Aillaud & Cia, Lisboa.
10“Imitação de Cristo”, Versão Portuguesa por um Padre da Missão, Tornai (Belgia), Imprenta Desclée, Lefebvre y Ca., 1904.
11São Francisco de Sales, “Introdução à Vida Devota”, IV Parte.
12São Francisco de Sales, “2º Sermão para o Domingo de Ramos”.
13São Francisco de Sales, “Opusc.”, iii.

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