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"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

sábado, 26 de janeiro de 2019

A Conversão de São Paulo, Apóstolo.


A conversão de São Paulo deu-se no mesmo ano em que Cristo foi crucificado e em que Estêvão foi lapidado. Não no mesmo ano calendarial, e sim no intervalo de um ano, porque Cristo foi crucificado no dia 8 antes das calendas de abril, Estêvão foi lapidado no dia 3 de agosto do mesmo ano e Paulo foi convertido no dia 8 antes das calendas de fevereiro.1

Celebra-se sua conversão, mas não a de outros Santos, por três razões. A primeira, para servir de exemplo, a fim de que ninguém, por mais pecador que seja, desespere por perdão ao ver que aquele homem tão cheio de culpa foi depois tão cheio de graça. A segunda, para lembrar a alegria da Igreja, muito triste anteriormente quando perseguida por ele, e depois muito alegre por sua conversão. A terceira, pelo milagre que o Senhor manifestou nele, ao fazer do mais bárbaro perseguidor o mais fiel pregador. De fato, sua conversão foi milagrosa por quem a fez, pela maneira com que foi feita e pelo seu sujeito.

Aquele que realizou a conversão foi Cristo, mostrando assim três atributos. Primeiro, seu admirável poder, quando disse a Saulo: “É duro para você resistir ao aguilhão”, e quando o transformou subitamente, levando-o a perguntar: “Senhor, que quer que eu faça?”.2 Comentando essas palavras, Agostinho disse: “O cordeiro morto pelos lobos transformou os lobos em cordeiros, e já se prepara a obedecer Àquele que antes perseguia furiosamente”. Segundo atributo, sua admirável sabedoria, porque demoliu o orgulho, aparecendo-lhe não na sua sublime majestade e sim em ínfima humildade. “Eu sou o Jesus de Nazaré que você persegue”, disse a ele. A Glosa acrescenta: “Ele não diz que é Deus, nem mesmo Filho de Deus, e para incitá-lo a se despojar das escamas do orgulho, mostra sua humildade”. Terceiro atributo, sua admirável clemência, pois a conversão ocorreu no próprio momento em que se dava a perseguição, quando por iniciativa própria ele “fazia ameaças, prometia carnificina”, pedia autorização do sumo sacerdote para fazer prisioneiros e levá-los a Jerusalém, e apesar disso foi convertido pela divina misericórdia.

A maneira como se deu a conversão também foi milagrosa, através da luz, uma luz súbita, imensa e celestial. Súbita, pois “ele foi de repente envolto por uma luz que vinha do Céu”. Paulo tinha três vícios. O primeiro era a audácia, como atestam as palavras: “Ele foi encontrar o grão-sacerdote etc.”, sobre as quais diz a Glosa: “Ninguém o tinha instado a isso, ele foi por si mesmo, seu zelo é que o moveu”. O Segundo era o orgulho, provado pelas palavras: “Ele fazia ameaças, prometia carnificina”. O terceiro era a interpretação material que dava à Lei, o que faz a Glosa dizer: “Sou Jesus, sou Deus do Céu, Aquele que como judeu você acredita estar morto”. Portanto, a luz divina foi súbita para aterrorizar o audacioso; foi imensa para lançar esse altivo, esse soberbo, nas profundezas da humildade; foi celestial para tornar celeste aquela inteligência carnal. Ou, pode-se dizer, a conversão foi milagrosa pelos três meios utilizados: a voz que chamou, a luz que brilhou e a força que alterou.

A conversão foi milagrosa quanto ao sujeito convertido, isto é, o próprio Paulo. Em sua pessoa deram-se três milagres externos: sua queda do cavalo, sua cegueira e seu jejum de três dias. Ele foi derrubado para se reerguer mudado. Agostinho disse: “Paulo foi derrubado para ser cegado; foi cegado para ser mudado; foi mudado para ser enviado; foi enviado para que a verdade aparecesse”. O mesmo autor ainda diz: “O cruel foi esmagado e tornou-se crente; o lobo foi abatido e reergueu-se cordeiro; o perseguidor foi derrubado e tornou-se pregador; o filho da perdição foi quebrado e transformou-se em vaso eleito”.

Foi cegado para ser iluminado em sua inteligência cheia de trevas. O Evangelho diz que durante três dias ele ficou cego para ser instruído. De fato, ele não recebeu o Evangelho da boca de uma homem, nem por meio de um homem, e sim, ele mesmo assegura, por revelação de Jesus Cristo. Agostinho diz em outra passagem: “Considero Paulo o verdadeiro atleta de Cristo, que o instruiu, que o ungiu com a substância com a qual foi crucificado, que se glorificou nele”. Ele mortificou sua carne para que ela colaborasse na realização de boas obras. Desde então seu corpo ficou perfeitamente apto a toda sorte de boas obras, sabendo viver tanto na penúria quanto na abundância, pois tinha experimentado de tudo e suportava facilmente todas as adversidades. Crisóstomo diz: “Os tiranos e os povos enfurecidos pareciam-lhe mosquitos. A morte, tormentos e milhares de suplícios eram para ele como brincadeiras de crianças. Ele os acolhia de bom grado, e retirava mais glória das correntes que o prendiam do que se estivesse coroado com preciosos diademas. Aceitava torturas com mais satisfação do que outros aceitam presentes”.

Estes três estados, queda, cegueira, jejum, podem ser contratados com as três atitudes de nosso primeiro pai (Adão). Enquanto este se ergueu contra Deus, Paulo ao contrário foi jogado ao solo; enquanto os olhos daquele foram abertos, os de Paulo ao contrário foram fechados, enquanto aquele comeu o fruto proibido, Paulo ao contrário, absteve-se até mesmo de alimentos lícitos.


Fonte: Jacopo de Varazze, Arcebispo de Gênova (1229-1298), “Legendae sanctorum, vulgo historia lombardica dicta”; tradução do latim, apresentação, notas e seleção iconográfica por Hilário Franco Júnior, Cap. A Conversão de São Paulo, Apóstolo, pp. 206-208; Editora Schwarcz Ltda – Companhia das Letras, São Paulo/SP, 2003.


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1No calendário juliano implantado em 46 a.C. e vigente na Idade Média, calendas era o primeiro dia do mês. Assim, pelo calendário gregoriano adotado em 1582 e ainda hoje utilizado no mundo ocidental cristão, as datas referidas pela Legenda áurea correspondem a 25 de março no caso da Crucifixão e a 25 de janeiro no da conversão de São Paulo.

2Este e os demais versículos bíblicos citados por Jacopo de Varazze neste capítulo, são de Atos dos Apóstolos, capítulo 9.


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