Blog Católico, para os Católicos

"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

domingo, 31 de dezembro de 2017

Exercícios de Ação de Graças para o Último Dia do Ano


Reflexão[1]

Mais um ano a cair no oceano da eternidade. Estará essa gota de tempo pura de todo pecado meu? Que coisa fiz por Deus, por minha alma? Serei porventura melhor no fim deste ano do que era quando principiou? Qual seria hoje a conta dos meus méritos em vista das graças que recebi?

Mui bem lembrados andam alguns que, nos extremos do ano, se confessam e recebem a Sagrada Comunhão, como se fosse em viático. Depois de suficiente exame de consciência, rezam as orações da Agonia, preparam-se para morrer, ajustam as contas da alma, como acertam as suas os negociantes na mesma época.

Até quando, ó Deus meu! Serão mais prudentes os filhos do século do que os filhos da luz?! 

Oração para o Fim do Ano[2]

V. Ao findar este ano, ó Deus Trino e Uno, venho prestar-Vos contas sobre esse período de vida que em Vossa graça e misericórdia me concedestes. Lançando um olhar retrospectivo sobre o ano findo, meu primeiro sentimento é de uma gratidão sincera para conVosco, meu divino Benfeitor.

R. De todo o coração vos agradeço por me terdes dado a vida e preservado da morte imprevista e má. Graças vos rendo por todos os benefícios corporais e espirituais que me concedestes, por vossa proteção e assistência, pelas alegrias, consolações e sofrimentos, sobretudo pela recepção dos Santos Sacramentos e por todas as graças de que me cumulastes.

V. Também vos suplico perdão de minhas numerosas infidelidades e pecados que cometi no ano findo e em toda a minha vida. Fostes sempre tão bondoso para comigo e eu tão infiel, contristando-Vos tantas e tantas vezes.

R. Pesa-me de todo o coração por ter sido tão ingrato para conVosco, ó meu Celeste Benfeitor! Arrependo-me ainda de ter aproveitado mal o tempo precioso que me destes para trabalhar por vossa glória e pela salvação de minha alma. Tende piedade de mim e reparai os prejuízos que causei a vossa glória, à minha alma e à de meu próximo.

V. O fim do ano lembra-me quão breve é a vida terrena, para cujo termo caminho rapidamente. Meu Deus, dentro em pouco, minha peregrinação terminará. Então há de chegar o momento em que deverei prestar contas diante de vosso Tribunal, a hora em que se decidirá minha sorte eterna.

R. Deus Onipotente e Eterno, só Vós sois imutável e imortal, meu único repouso, minha verdadeira finalidade, minha consumação bendita. Multiplicai em mim os efeitos de vosso auxílio, para que aproveite melhor o tempo que ainda me resta para viver, para vossa glória e minha salvação. Fazei com que todo o meu ser se dirija somente para Vós.

V. Ó Maria, minha querida Mãe, meu Santo Anjo da Guarda, São José e todos os meus Santos Padroeiros, graças vos dou, por me haverdes protegido e intercedido por mim no decorrer do ano que ora termina.

R. Acompanhai-me através de novo ano e auxiliai-me, a fim de que ele seja realmente um ano de graças e de salvação. Amém.

Glória ao Pai...

No Dia de Ano Bom


Reflexão[3]

Neste dia 1º de Janeiro, começa o ano civil, como o Eclesiástico na 1ª Dominga do Advento. agradeçamos a Deus o ter-nos concedido iniciar mais este ano que é de graça e de misericórdia, como todos os da presente vida nossa; ponderemos que talvez não lhe vejamos o fim, e firmemos a resolução de reparar o passado e preparar o futuro, fazendo todo bem que está em nossas mãos, fugindo do pecado e das ocasiões de pecado, conforme a experiência adquirida, talvez bem cara, nos anos passados.

São louváveis os cumprimentos e votos que se costumam oferecer mutuamente os Cristãos neste dia, com tal, porém, que sejam cordiais e sinceros sinais de afeto e caridade, sem o que não passariam de cerimônia pagã, sem préstimo algum.

Oração para o Início do Ano[4]

V. Deus Trino e Uno, sois meu Criador, Redentor e Santificador. Adoro-Vos humildemente e confesso que sois meu Senhor Supremo. Consagro-Vos este novo ano: sou todo vosso; para Vós vivo, só vosso quero ser para sempre.

R. Ó Santíssima Trindade, graças vos rendo por todos os vossos benefícios e em particular pela graça de poder iniciar este novo ano. Acrescentai ainda a este favor o de saber aproveitar-me bem desta dádiva.

V. Ó Jesus, que no dia de hoje derramastes as primeiras gotas de vosso Sangue, proponho-me viver muito fielmente durante este novo ano. Espero que seja verdadeiramente um ano bom e assim vos possa preparar muitas alegrias.

R. Ofereço-Vos tudo o que este novo ano consiga trazer; ponho em vosso Coração adorável todos os meus trabalhos, orações, fadigas, penas e alegrias. Abençoai cada uma de suas horas e cada um de seus dias, preservai-me do pecado e aumentai em mim o amor e o zelo por vossa glória.

V. Dai-me todas as graças corporais e espirituais que me forem necessárias, a fim de que possa aproveitar conscienciosamente este ano.

R. Abençoai meu corpo, conservai-me puro e casto em vosso santo serviço. Abençoai minha alma com todas as suas potências; iluminai meu entendimento, dirigi minha vontade e dai-me zelo e fidelidade na prática do bem.

V. Rogo-Vos também por toda a humanidade: por meus parentes, por todos os membros da Congregação, tanto os que se acham aqui como os que trabalham nas Missões, por todos os nossos benfeitores, amigos e inimigos, pelos gentios e pelas Almas do Purgatório. Que este ano seja rico em bênçãos para todos!

R. Finalmente, me coloco e a todos os que vos recomendei sob o patrocínio da Santíssima Virgem Maria, Mãe de Deus, de São José, nossos Santos Padroeiros e de todos os Anjos e Santos do Céu. Amém.

Glória ao Pai…


Te Deum Laudamus

A Vós, ó Deus, louvamos; a Vós por Senhor confessamos.
A Vós, ó eterno Pai, adora toda a terra.
A Vós todos os Anjos; a vós os Céus e todas as potestades.
A Vós os Querubins e Serafins proclamam com incessantes vozes:
Santo, Santo, Santo é o Senhor, Deus dos Exércitos.
Cheios estão os Céus e a terra da Majestade de vossa glória.
A Vós o glorioso coro dos Apóstolos.
A Vós o louvável número dos profetas.
A Vós confessa a Santa Igreja por toda a redondeza da terra.
Pai de imensa Majestade.
Ao vosso adorável, verdadeiro e único Filho.
E também ao Espírito Santo Consolador.
Vós. ó Cristo, Rei da glória.
Vós sois eterno Filho do Pai.
Vós, para remirdes o homem, havendo de tomar sua carne, não duvidastes entrar no Ventre de uma Virgem.
Vós, triunfando da espada da morte, abristes aos fiéis o reino dos Céus.
Vós estais sentado à Mão direita de Deus, na glória do Pai.
Cremos que haveis de vir como Juiz.

Por isso, Vos rogamos, socorrais a vossos servos, remidos com o Vosso precioso Sangue. (diz-se de joelhos)

Fazei com que sejamos do número dos vossos Santos na glória eterna.
Salvai, Senhor, o vosso povo e abençoai a vossa herança.
E governai-os e exaltai-os eternamente.
Todos os dias vos bendizemos.
E louvamos vosso Nome sem fim, pelos séculos dos séculos.
Dignai-vos, Senhor, preservar-nos de todo o pecado neste dia.
Tende misericórdia de nós, Senhor, compadecei-vos de nós.
Venha, Senhor, a vossa misericórdia sobre nós, segundo temos esperado em Vós.
Em Vós, Senhor, esperei, não seja eu confundido eternamente.

V. Salvai o vosso servo.
R. Que espera em Vós, meu Deus.
V. Ouvi, Senhor, a minha oração.
R. E chegue a Vós o meu clamor.
V. O Senhor seja convosco.
R. E com o vosso espírito.

Oremos: Ó Deus, cuja misericórdia não tem limites e cujo tesouro de bondade é infinito, nós redemos graças a vossa piíssima Majestade pelos benefícios que nos haveis concedido, suplicando sempre a vossa clemência, para que, aos que concedeis o que pediram, não desampareis jamais, e os disponhais para receberem os prêmios eternos. Por Cristo nosso Senhor. R. Amém.


[1]     Goffiné – Manual do Cristão, traduzido da 14ª Edição francesa, por um Padre da Congregação da Missão, pp. 275-276. Colégio da Imaculada Conceição (Botafogo), Rio de Janeiro, 1940.
[2]     “Vademecum”, 3ª Parte, Cap. “Tempo do Natal”, pp. 290-292; Editado pela Direção Geral das Missionárias “Servas do Espírito Santo”, Tipografia do “Lar Católico”, Juiz de Fora-MG, 1958.
[3]     Goffiné… ob. cit., pp. 272-273.
[4]     “Vademecum”… ob. cit., pp. 292-293.

domingo, 24 de dezembro de 2017

Verbum caro factum est, et habitavit in nobis.


Sobre a Festividade do Natal

Para o Dia 25 de Dezembro

Verbum caro factum est,
et habitavit in nobis.

O Divino Verbo tomou nossa carne,
e veio habitar entre nós.
(S. João 1, 14)


Que prodígio, que maravilha é esta, que hoje nasce com o dia? Que noite tão alegre, que aurora tão brilhante, que dia tão venturoso? Que novidade é esta, que hoje nos é anunciada? Ah! É que o único Filho de Deus tomou nossa carne, e veio nascer entre nós – Verbum caro factum est, et habitavit in nobis. Nova esta, na verdade, que deve encher-nos de alegria e consolação, porque o mesmo Deus humanado vem fazer a nossa Redenção, libertar-nos do poder do Demônio, abrir-nos à custa de Seus padecimentos as portas do Céu, e ensinar-nos com Seus exemplos e lições, o caminho por onde devemos conduzir-nos; vem, finalmente, fazer toda a nossa felicidade. Consolai-vos, consolai-vos, povo meu; tinha já dito o mesmo Deus pelo seu Profeta Isaías, falando deste dia; adorna-te com os vestidos de alegria; desata as cadeias com que te prendeu o Demônio, teu vencedor; porque de graça ou por engano do mesmo Demônio fostes vendidos, mas sem prata, nem algum dinheiro sereis resgatados.


Alegremo-nos, diz por isso também o grande Leão Papa, alegremo-nos, porque hoje é nascido o nosso Divino Salvador – Salvator noster, dilectissimi, hodie natus est: gaudeamus. Não há lugar de tristeza quando se celebra o Nascimento do Autor da nossa felicidade. Todos devemos exultar de prazer, vai ele dizendo, porque assim como ninguém é isento do pecado, também Ele vem para resgatar a todos. Exulte o Santo, diz mais, porque está perto de receber o prêmio das suas virtudes; alegre-se o pecador, porque é convidado ao perdão; anime-se o gentio, porque é chamado à vida da Religião Santa; consolemo-nos todos, porque, enfim, o Filho de Deus, tomando nossa carne e aparecendo hoje entre nós, vem acudir a todo o Gênero Humano perdido pelo pecado. Eis aqui o motivo da nossa alegria; eis o que hoje nos quer fazer ver a Santa Igreja, nossa cara Mãe; e eis o que eu mesmo hoje quero expor-vos. O venturoso Mistério desta festividade natalícia, o benefício que com ela nos vem, é o que tenho a mostrar-vos. – Eu principio.

Estando todo o gênero humano cativo do Demônio, e inteiramente desgraçado pelo pecado de nossos primeiros pais Adão e Eva, todo ele esperava o seu Libertador, qual era o Divino Messias, o verdadeiro Filho de Deus, aqu’Ele mesmo que tinha sido anunciado e predito pelos Profetas. As orações dos mesmos Profetas e Patriarcas se multiplicavam, os seus suspiros e gemidos aumentavam, implorando a vinda do mesmo Salvador. E quando Ele se comoveu por tantos clamores, e quis usar da Sua grande misericórdia, depois de Encarnar no ventre de Maria, passados os nove meses, e chegado o tempo d’Ele vir à luz, nasce do seguinte modo: Tendo César Augusto, imperador dos romanos, decretado que todas as pessoas sujeitas ao seu império dessem seus nomes nas capitais do seu distrito, por isso, José e Maria partem de Nazaré para Belém, onde deviam comparecer para darem seus nomes.


Ainda que a Senhora andasse já no fim do tempo da sua gravidez, e tinha, além do mais, de sofrer uma jornada não menos de trinta léguas, Ela obedece prontamente aos decretos do imperador de Roma, e muito melhor aos destinos do Altíssimo, que assim dispõe as coisas para certos fins que ireis vendo. Depois de tantas fadigas do caminho, chega José com Maria à cidade de Belém; mas chegando tarde, procuram dormida ou agasalho, e não acham aonde; as estalagens estavam já todas ocupadas pelas muitas pessoas que aí concorriam; e das casas particulares nem uma só abre as portas da caridade para hospedar estas duas melhores Criaturas do mundo. Deste modo, a Rainha dos Céus e da terra, a Mãe de um Deus, e juntamente José, seu Esposo, não acham onde se recolher; não tem remédio senão retirar-se aos arredores da cidade para ver se encontram algum abrigo. Acham um presépio, isto é, um pobre lugar, onde se abrigavam os animais do frio da noite, e onde não tem mais do que um pouco de feno ou palha. Mas é esse o lugar pobre que Deus tem destinado nos Seus decretos para nascer, e começar a dar-nos as provas mais claras do Seu amor por nós.

Chegada a hora da meia-noite, de vinte e quatro para vinte e cinco de Dezembro, o Filho do Eterno, revestido do glorioso dote de sutileza que lhe é próprio, bem como os raios do sol que entram e saem pelo vidro sem o ofenderem, assim Ele saiu do ventre puríssimo de Maria, nascendo sem o menor detrimento da Virgindade da Senhora. Esta porém, depois de O tomar em seus ternos braços, depois de O abraçar com o maior carinho, toda abrasada no seu Divino amor, O enfaixa em pobres paninhos, e depois O deita em duras palhas no mesmo presépio – Pannis eum involvit, et reclinavit eum in praesepio. Os habitantes de Belém O desprezam, mas os pastores das montanhas O vem adorar. Um Anjo baixou do Céu, apareceu a esses pobres pastores, que vigiavam, guardando seu gado; eles vendo tão brilhante luz celeste, se assustam; mas o mesmo Anjo os anima, dizendo: “Não temais; eu vos trago uma feliz novidade, a qual vos encherá de alegria e a todo o povo que quiser acreditar; sabei, lhe disse o Anjo, que é nascido o Salvador do mundo, que é Cristo Divino Senhor, Deus feito homem, em Belém, cidade de Davi; correi pois a vê-lO e adorá-lO; eu vos dou um sinal certo por onde O conhecereis; vós achareis um Menino, não em dourados berços, ainda que seja o Rei dos Céus e da terra, mas sim envolto em pobres panos; não O achareis em algum magnífico palácio, mas sim reclinado num humilde presépio; não O encontrareis acompanhado dos grandes do mundo, mas sim cercado de brutos animais, que lhe fazem companhia”.


E apenas isto acaba de lhes dizer, uma grande multidão de outros Anjos se lhes deixa ver, e todos juntos entoam hinos ou cânticos de louvores, dizendo: “Glória a Deus nas alturas, e na terra paz aos homens, que de mui boa vontade lhes é dada – Gloria in excelsis Deo, et in terra pax hominibus bonae voluntatis”. À vista disto os mesmos pastores não se demoram, deixam seus gados, deixam seu repouso, e todos animados apressadamente correm a Belém; chegam à cabana, entram, e veem a José e a Maria ajoelhados com a maior reverência; e diante destas tão Santas Criaturas o Menino Deus, deitado nas ásperas palhas, e enfaixado em pobres panos, gemendo e chorando com frio. Eles O adoram também prostrados por terra, sendo os primeiros que tem esta dita; tributam-lhe as suas homenagens, e não cessam depois de publicar por toda a parte esta grande e feliz novidade.

Aqui tendes uma simples narração do grande e admirável Mistério deste dia. Mas ah! Quantos benefícios e lições as mais proveitosas para nós se encerram neste Mistério? Todo o mundo estava desgraçado pelo pecado. Apenas Adão e Eva desobedeceram ao Preceito que Deus lhes tinha imposto, logo sobre eles e sobre toda a sua descendência caiu o raio da indignação Divina; os trabalhos, as enfermidades, as tribulações, as calamidades, as mais terríveis tentações, as criminosas paixões, a maior inclinação para o pecado, e finalmente, a morte, e a lamentável sorte de jamais ver e gozar a Deus no Céu, eis aqui o que veio sobre todo o gênero humano. Nenhuma criatura humana, por mais justa ou santa que parecesse, podia dar remédio a tantos males; nem os zelosos Elias, nem os ternos Jeremias, nem os fervorosos Moisés, nem estes, nem outros eram capazes por suas virtudes de abrandar a ira de Deus contra o mundo, nem comovê-lO ao perdão das ofensas que lhe tinham feito.


A sua justiça pedia vingança, e só a sua grande misericórdia podia valer-nos. Para satisfazer, porém, a pena merecida pelo pecado, e acudir aos miseráveis pecadores, lançou mão da Sua bondade, veio tomar nossa carne, nascer do ventre de Maria, e padecer frio, necessidades e dores; veio pagar em Si mesmo o castigo, que nós e todo o gênero humano tinha merecido. Um Deus eterno se faz Menino no tempo, o Onipotente se faz fraco; o Imortal e Impassível se faz mortal e passível; o Senhor dos Céus e da terra se faz servo; e tudo isto é só para dar remédio aos nossos males, abrir-nos as portas do Céu, as quais estavam fechadas, e mostrar-nos o verdadeiro caminho para lá, pelos Seus exemplos e lições.

Na verdade, irmãos meus, este bom Deus, nascendo em nossa carne, não veio só remir-nos do pecado, veio também ensinar-nos a combater nossas criminosas paixões e o maldito mundo, para depois gozarmos o mesmo Deus no Céu: veio sim logo, desde Menino ensinar-nos a guerrear o amor desordenado das riquezas, o amor desordenado dos gostos, e o amor desordenado das honras. Sim, imensas pessoas julgam possuir todo o bem nas riquezas temporais; para adquirirem estas, empregam quase todo o tempo, esquecidos do bem das suas almas. Mas o Filho de Deus baixa dos Céus para arrancar de nossos corações esta maldita cobiça das coisas do mundo, nascendo na maior pobreza. Podia muito bem nascer com pompa e comodidades, escolher um palácio magnífico, jazer num preciosíssimo berço, e envolver-se em finíssimos panos; e com isto mesmo nos mostraria grande amor, porque tudo era pouco ou nada, devido a tão Soberana Majestade. Mas Ele logo no seu Nascimento escolheu um presépio por palácio, uma mangedoura por berço, umas duras palhas por leito, e uns brutos animais por companheiros.


Em tão pobre estado quis nascer, que permitiu não achar quem O recolhesse em casa na cidade de Belém, nem ser recebido ou hospedado de alguém de seu povo. Ó avarentos, que não desejais senão riquezas, trabalhando tanto por estas, e pouco ou nada pela vossa salvação, ponde aqui os olhos, e envergonhai-vos: ou Jesus Cristo engana, ou vós ides errados – Aut Christus fallitur, aut mundus errat. Mas Cristo não engana, nem pode enganar; enganai-vos vós. Ele logo no seu Nascimento veio também ensinar-nos com a Sua mortificação a guerrear o amor desordenado dos gostos. Imensas pessoas julgam que não há outros gostos mais do que os dos sentidos, e por isso correm sempre a buscá-lo; deleites para a sua carne, delícias para o seu corpo, teatros, assembleias, bailes, banquetes, tudo buscam, e se isto podem achar, se cevam continuamente com esses prazeres, fugindo sempre a tudo quanto é mortificação. Deus porém, compadecido desta cegueira de tantos pecadores, vem logo desde Menino remediar tão grande mal, mortificando-se tão cedo por nosso respeito.

Ele não quis esperar pelo fim da vida, em que havia de ser submergido num mar de dores e agonias; o excessivo amor, que nos professava, não lhe permitia esperar tanto; mas quis logo no princípio começar a sofrer. Por isso, escolheu para nascer no inverno, que é a parte mais incômoda do ano; do inverno, escolheu o mais rigoroso; e do mês, a hora mais áspera, qual é a meia-noite. Nesta hora saiu o Menino Jesus das puríssimas entranhas de Maria; teve logo por primeira cama, a dura terra, apenas coberta com umas poucas palhinhas, por casa uma pobre cabana aberta à inclemência do tempo. Aí começou logo a tremer de frio, a gemer e chorar no meio de tantos incômodos. Mas vós, ó pecadores sensuais, que fazeis? Vós pelo contrário não buscais senão regalos para o vosso corpo; quereis passar uma vida toda cheia de delícias, quantas podeis encontrar. Porém, aí de vós, diz o Senhor por São Lucas, ai de vós, que tendes neste mundo tantos contentamentos – Vae vobis, qui habetis hic consolationem vaestram![1] Ou Cristo engana, ou vós errais, ainda repito – Aut Christus fallitur, aut mundus errat.


O mesmo Deus Menino além de nos ensinar tão cedo a combater as riquezas e os prazeres, nos ensina também a combater as honras. Podendo Ele nascer em majestosos palácios, à vista de muita gente, servido e assistido dos grandes da terra, e fazer brilhantes milagres logo desde a sua infância, pelo contrário, escolhe para nascer o lugar mais humilde, o silêncio da noite, onde não é visto de mais alguém do que de sua Mãe e de São José, e onde não tem quem lhe assista senão brutos animais; e sendo Rei dos Céus e da terra, é reputado pelo povo por nada, ou quase nada. Que lições estas de humildade e desprezo para nós! Muitas pessoas, porém, ambiciosas da glória deste mundo; não buscam senão honras, não desejam senão ser estimadas, respeitadas e servidas, e não querem senão mandar, e nunca obedecer senão à força. Cristo tanto se humilha logo desde Menino, e vós, miseráveis pecadores, tanto vos exaltais! Que contradição esta, entre o Mestre e os discípulos! Ou Cristo nos engana, ou vós errais, ainda torno a dizer – Aut Christus fallitur, aut mundus errat. Deus, desde o seu Nascimento empenhando-se em nos dar tão santas e importantes lições para nosso bem e salvação, e tanta gente seguindo o contrário, em tudo e por tudo! Oh! Que miséria, e que cegueira a mais pasmosa!

Causa pasmo ou admiração, ver um Deus por nosso amor, nascendo tão pobre, tão mortificado e tão abatido; mas também, causa pasmo ou grande admiração ver tão pouco quem O siga e imite, ver pelo contrário, tanta ingratidão para com Ele. Ah! Já não me admiro, dizia São Cipriano, e digo eu com ele, já não me admiro de ver a terra firmada sobre seus eixos, e no meio de um grande vazio que a cerca; já não me admiro de ver sobre nós tantas e tão brilhantes estrelas; de ver o sol sempre da mesma grandeza e calor, e de ver a lua com suas mudanças, e todos estes astros fazerem sempre o seu curso sem a menor interrupção; já não me admiro de ver a variedade dos tempos, e que estes fazem renascer, e reflorescer na primavera o que parecia estar seco; admiro-me, sim, diz ele e digo eu, admiro-me de que Deus se fizesse homem e fosse Menino no tempo – Miror Deum hominum, miror Deum in cunabulis. Admiro-me de ver um Deus imenso, a quem os Céus não podem compreender, metido numa cabana; o que adorna os mesmos Céus de estrelas, os campos de flores, e O que tudo sustenta, deitado num tosco presépio, enfaixado em pobres panos; O que consola os aflitos, chorar; O que inflama os Serafins, tremer de frio; e O que dá todos os bens, padecer suma pobreza – Miror Deum hominum, miror Deum in cunabulis. Admiro-me ainda mais, digo, de ver a par de tantas lições de amor, tanta cegueira, tanta maldade, tanta ingratidão da nossa parte.


Deus assim quis nascer, porque por este modo quer ser amado, diz São Pedro Crisólogo – Sic voluit nasci voluit amari. Porém, muitos cristãos nem assim O amam. Se viesse como Grande Deus, com pompa e majestade, mostrando-nos a sua grandeza, nos aterraria; mas Ele veio como Menino pequenino, manso, pobre e humilde, gemendo e chorando para desterrar dos nossos corações o temor, e estampar neles a suave lei do Seu amor; veio como Menino, diz mais São Bernardo, porque um Menino rouba muitos afetos: mas este Deus Menino não rouba os afetos de muitos corações para O amar e servir; antes, se lhe corresponde com tantos pecados e ingratidões. Ó verdadeira e pasmosa cegueira! Como não sai fora de si o coração humano, considerando estes tão grandes excessos? Deus em uma cabana, e deitado em duras palhas! Deus enfaixado em pobres panos, tremendo de frio, gemendo, chorando! Deus cercado e assistido de brutos animais! Quem fez estes inauditos prodígios, senão o excesso do Seu amor por nós? Quem obrou estas maravilhas, senão o desejo que Ele tem de nos ensinar a Sua Lei, e de nos conduzir ao Céu?

Mas desgraçadamente, de nada disto se admiram os miseráveis pecadores; nada disto os obriga a servir e amar tão bom Deus. O Nascimento de Jesus Cristo é a morte dos vícios e a vida das virtudes, diz São Leão Magno – Nativitas Christi mors est vitiorum, et vita virtutum. Este Divino Mestre e Médico celestial, conhecendo que os nossos males eram os desordenados apetites das riquezas, dos prazeres ou gostos sensuais, e das honras, veio assim aplicar os remédios contrários para dar saúde às nossas almas enfermas: porém nem assim mesmo muitos cristãos aprendem, nem assim mesmo se emendam de seus vícios, e abraçam a virtude. Ele contrapôs à avareza a maior pobreza, aos gostos a mortificação, e à soberba a humildade. Porque, como Deus, bem sabia que os exemplos são mais eficazes do que os conselhos, e as obras mais do que as palavras; logo, desde a sua entrada no mundo começou a praticar o que mais tarde nos havia de ensinar pela Sua divina boca. Que causa, diz São Bernardo no seu primeiro Sermão do Natal, que causa, que necessidade tinha o Senhor da Glória de se humilhar, e padecer tanto, logo desde o seu Nascimento, senão a fim de que nós façamos o que Ele tão cedo começou a fazer? Prega já com o seu exemplo o mesmo que mais tarde há de pregar com palavras. “Aprendei de Mim, diz Ele, que Sou manso e humilde de coração”.


Ah! Tudo nestes dias está clamando, e ensinando o modo como devemos adorar e amar o nosso Deus nascido. O mesmo pobre presépio nos clama, que aprendamos a amar a Deus: clamam também os pobres panos em que foi enfaixado, as duras palhas em que foi deitado – Clamant stabulum, clamor panni, clamant paleae, discite; tudo, finalmente, nestes dias primeiros da nossa Redenção nos está clamando e ensinando como devemos adorar, servir e amar tão bom Senhor; tudo nos está ensinando a desprezar o mundo, as suas riquezas, ao menos no afeto, os seus divertimentos, as suas modas e as suas máximas: tudo nos está ensinando a mortificar as nossas paixões desordenadas e a nossa soberba.

Aprendei pois, homens e mulheres, que só trabalhais para o corpo, que só cuidais em riquezas, em aumentar cabedais, e pouco ou nada em servir a Deus e em salvar as vossas almas, aprendei sim hoje em Jesus Menino o desapego das riquezas. Aprendei, homens e mulheres, que viveis com o mundo, que andais nos seus divertimentos, nos teatros, nos bailes, nas assembleias, no jogo e na taberna, e que andais com luxo, com modas e mais modas, aprendei sim em Deus Menino como Ele reprova tudo isso logo com o seu Nascimento, e como deveis viver de hoje em diante. Aprendei, criaturas desonestas; vós que não procurais senão gostos para a vossa carne, pecando já convosco, já com outras criaturas, aprendei sim em Jesus, que logo desde Menino tanto mortifica o Seu corpinho numas palhinhas, gemendo de frio; aprendei, digo, a mortificar essa maldita carne, a não lhe fazerdes a vontade com esses gostos torpes e abomináveis. Aprendei, soberbos, que só quereis governais, ser respeitados e temidos, aprendei sim em Deus Menino, tão abatido e humilhado, como haveis de humilhar-vos também, e sofrer com paciência e humildade qualquer ação, palavra ou desprezo que vos façam. Enfim, aprendamos todos no Nascimento do nosso Deus Salvador, como devemos viver para bem O adorar, servir e amar; tomemos todos as importantes lições que começa a dar-nos logo desde que nasceu; acabemos todos de abrir os olhos à luz da verdade; determinemos não querer outra vida contrária aquela que o nosso Redentor vem ensinar-nos, para nos aproveitarmos de tão copiosa Redenção.


Mas, se até agora nos temos afastado, de seguir os exemplos que tão bom Mestre nos deu, desde o seu Nascimento, arrependamo-nos de coração, choremos nossos males passados, e voltemo-nos a Deus com um vivo desejo e sincero propósito de O servirmos e amarmos de hoje em diante; vamos pois aos seus pés adorá-lO e pedir-lhe que nos perdoe as nossas ingratidões para com Ele; digamos-lhe: Ó meu Deus Menino, ainda que nascido em tanto desprezo, pobreza e mortificação, eu vos reconheço como Rei dos Céus e da terra, e como verdadeiro Deus e Senhor; eu vos adoro como meu único Redentor e Salvador; eu vos amo por isso, como meu único bem, e muito me pesa de não vos ter amado até agora; muito me pesa de não ter seguido tão santas lições, que desde o presépio me tendes dado, e de vos ter correspondido com tantos pecados e ingratidões. Ajudai-me agora, meu Jesus Menino; ajudai-me com a vossa graça a servir-Vos e amar-Vos para me aproveitar o benefício da Redenção, que neste dia trouxestes à terra. Ajudai-me também, Maria, Mãe de Deus; Vós que fostes a mesma que O trouxestes no Vosso casto ventre, e que O destes à luz e adorastes com tanto amor, ajudai-me também a adorá-lO e servi-lO; alcançai-me hoje e sempre graças para isto mesmo; mostrai também que Sois minha Mãe, e eu mostrarei igualmente que sou vosso filho. Amém.



Fonte: Rev. Pe. Fr. Manoel da Madre de Deus, O.C.D., “Práticas Mandamentais ou Reflexões Morais, sobre os Mandamentos da Lei de Deus e os Abusos que lhes são Opostos”, Outras Práticas e Missões, Prática 16ª, pp. 618-627; 3ª Edição; Em Casa de Cruz Coutinho – Editor, Porto, 1871.






Desejo a Todos, 
um Santo e Feliz Natal
e um Abençoado 2018,
Cheio de Realizações
para Honra e Glória de Deus.




[1]     Luc., 6, 24-26.

domingo, 10 de dezembro de 2017

Singulares Homenagens à Imaculada Conceição de Maria


de um Poeta Excepcional


Estamos na pequena cidade de Ariano di Puglia, na atual Província de Avelino, no ano de 1823.

Havia ali um rapaz de 12 anos, analfabeto, possesso do Demônio.

Todos os remédios foram baldados. Recorreu-se ao exorcismo da Igreja. Ora, achando-se presentes aos exorcismos os Padres dominicanos Gassiti e Pignataro, estes, não sem inspiração do alto, impuseram a Satanás, que em Nome de Deus, provasse teologicamente, com um Soneto de rimas acertadas, a Imaculada Conceição da Mãe Celeste, que naquele tempo tão disputada, apesar dos irrefragáveis argumentos dos Santos e dos Doutores, máxime de Santo Afonso.

O Demônio compôs e recitou então, pela boca do ignorante possesso, o Soneto abaixo, improvisado e de admirável exatidão teológica. Provou assim, ao mesmo tempo, a sua estada no rapaz, o poder da Igreja e a certeza do grande privilégio de Maria.

Eis como, com as duas rimas “Mãe” e “Filho” aquele genial e singular poeta do Inferno fez falar a Maria:

“Sou verdadeira Mãe de um Deus, que é Filho,
E sou sua Filha ainda, ao ser-lhe Mãe;
Ele de eterno existe, e é meu Filho,
E eu nasci no tempo, e sou sua Mãe.

Ele é meu Criador, e é meu Filho,
E eu sou sua criatura, e sua Mãe;
Foi divinal prodígio, ser meu Filho,
Um Deus eterno, e ter a mim por Mãe.

O ser da Mãe, é quase o ser do Filho,
Visto que o Filho, deu o ser à Mãe,
E foi a Mãe, que deu o ser ao Filho.

Se pois do Filho, teve o ser a Mãe,
Ou há de se dizer, manchado o Filho,
Ou se dirá, Imaculada a Mãe”.

Trinta anos mais tarde, em 1854, Pio IX promulgou, na majestade de seu poder Supremo e de seu Magistério infalível, entre as aclamações do Céu e da terra, o Dogma da Imaculada Conceição de Maria Virgem. Estabeleceu também a festa para o dia 8 de Dezembro e ordenou, sob pena de exclusão do Reino de Deus, que todos acreditassem no grande privilégio de Maria.

No mesmo ano foi apresentado ao Venerável Pontífice da Imaculada, o Soneto composto no Inferno, em honra da pureza virginal de Maria. O piedoso Pontífice, profundamente comovido, chorou ao ler os versos do excepcional poeta da Imaculada.

Jaculatória: Ó Maria, concebida sem pecado, rogai por nós, que recorremos a Vós.

30 Anos Depois


El caso muy especial de Antoine Gay (1790-1871)
  
"La reputación del santo cura de Ars era tan grande y esta localidad se hallaba tan próxima a Lyon que hubiera sido muy sorprendente que Antoine Gay no fuera presentado al abate Vianney. De hecho fué a Ars en 1853 y prolongó su peregrinaje durante quince días. Al hacer esto obedecía al arzobispo de Lyon, monseñor de Bonald en persona, quien había dicho al señor Goussard, uno de los familiares de Gay: 'Lo llevará usted donde el cura de Ars y se quedará allí varios días con él'. El señor Houzelot, siempre atento al caso Gay, era de la partida. Esto ocurría a fines de noviembre. El domingo próximo siguiente, cuatro de diciembre, la humilde parroquia de Ars celebraba la fecha de la Inmaculada Concepción.

No olvidemos que el dogma de la Concepción Inmaculada de la Virgen no estaba todavia proclamado. Debía serlo el 8 de diciembre de 1854. Se produjo - volviendo a Ars - un acontecimiento inesperado. Antoine Gay, arrodillado al pie de la imagen de la Virgen, con los brazos en cruz y los ojos llenos de lágrimas, pronunciaba una declaración solemne, que, con toda evidencia, emanaba del espíritu infernal que estaba en él, puesto que Antoine Gay no tenía una formación teológica suficiente para que del fondo de su alma saliera un discurso tan impresionante:

'Oh, María! Oh, María! Obra maestra de las manos divinas! Tú eres lo que Dios ha hecho de más grande.

Criatura incomparable, tú eres la admiración de todos los habitantes del Cielo; todos te honran, todos te obedecen y te reconocen por la Madre del Creador. Tú has sido elevada por encima de los ángeles y de toda la Corte celestial; estás sentada junto a Dios, eres el Templo de la divindad, has llevado en tu seno todo lo que hay de más fuerte, de más grande, de más poderoso y de más amable! ... María, has recibido en tu seno virginal a Aquel que te ha creado, eres Virgen y eres Madre; no hay nada que pueda comparársete. Después de Dios, tú eres todo lo que hay de más grande; tú eres la Mujer fuerte; tú sola das más gloria a Dios que todos los habitantes del Cielo juntos…

En ti no ha habido jamás ninguna mancha. Que todos los que digan que no eres Virgen y Madre sean excomulgados; tú has concebido sin pecado, tú eres inmaculada!…

Te alabo, oh, María! Pero todas las alabanzas que te doy remontan a Dios, el Autor de todo bien!... Después del corazón de tu divino Hijo, ninguno hay que pueda ser comparado al tuyo. Oh, corazón bueno! Oh corazón tierno! No abandonas ni siquiera a los más ingratos y los más culpables de los mortales! Tu corazón está penetrado de dulzura para con los miserables que no merecen gracia ni misericordia; los infames pecadores son convertidos por ti!

Ah, si los habitantes de la tierra te conocieran! Si supieran apreciar tu ternura, tu poder, tu bondad, ninguno perecería! Todos los que recurren a ti con una entera confianza y que te rezan continuamente, sea cual fuere el estado en que se hallan, tú los salvarás y los bendecirás eternamente... Me veo obligado a humillarme a tus plantas y a pedirte perdón por todos los ultrajes que hago soportar al poseído!

Confieso hoy, día de una de tus fiestas más solemnes del año, que tu divino Hijo me obliga a decir que ésta es la más solemne de todas tus fiestas'.

Así habló Isacaron, Demonio de la impureza, por boca de Antoine Gay, y sus palabras fueron rocogidas por el señor Houzelot, del cual las hemos extraído. Y comprendemos mejor, depués de esta confesión obligada de un Demonio, que María, cinco años más tarde, haya dicho a Bernadette quien, suplicante, le preguntaba su nombre: Soy la Inmaculada Concepción!

El abate Toccanier, auxiliario del cura de Ars, estaba presente cuando las memorables alabanzas a la Virgen fueron proclamadas por Isacaron en la forma que acabamos de consignar.

Houzelot tuvo la idea de pedirle a este último que le dictara más lentamente lo que acababa de decir, con el fin de anotar sus palabras, e Isacaron accedió. El abate Toccanier no podia ocultar su emoción. 'No existe nada comparable si no es en los Padres de la Iglesia', dijo a los presentes, con respecto a la larga proclamación del Demonio. Quiso, por lo demás, tener con éste una discusión teológica sintética, otro dia, y quedó estupefacto de la seguridad de las respuestas que le fueron hechas en las más pura ortodoxia"(Monseñor Cristiani, "Presencia de Satán en el Mundo Moderno", Cap. IV, pp. 81-83; Ediciones PEUSER, Buenos Aires, 1962).

Oração do Dia

Ó Deus, que pela Imaculada Conceição da Virgem preparastes para Vosso Filho digna morada, nós Vos suplicamos humildemente que, assim como, em atenção aos merecimentos desse mesmo Filho, Vos dignastes preservá-La de Toda a mácula, nos concedais igualmente, por Sua intercessão, a graça de chegarmos a Vós limpos do pecado. Pelo mesmo Nosso Senhor Jesus Cristo. Amém!

Sub tuum praesidium

À Vossa proteção nos refugiamos, ó Santa Mãe de Deus; não desprezeis as nossas súplicas em nossas necessidades; mas livrai-Nos sempre de todos os perigos, ó Virgem gloriosa e bendita.


sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Sobre a Conceição de Maria Santíssima


Para o Dia 8 de Dezembro

De qua natus est Jesus.
Maria, de quem nasceu Jesus.
(S. Mat., 1, 16).

Ser Maria aquela, que abrangeu em Seu ventre o que é Imenso; ser Ela a que deu ao mundo um Redentor Divino; ser Ela Filha, Esposa e Mãe do Seu mesmo Deus, ser Ela de quem nasceu Jesus – De qua natus est Jesus; eis aqui o mais alto grau a que podia ser elevada uma filha de Adão; eis aqui uma qualidade altíssima, que não podia unir-se em Maria com a Culpa Original. Não, irmãos meus, a Primogênita do Eterno não podia ser em tempo algum o objeto do Seu ódio; a Mãe de um Deus Santíssimo não devia contrair alguma culpa; a Esposa de um Deus Santificador devia ser santificada em todo o tempo; a Libertadora da nossa escravidão não devia arrastar as nossas tristes cadeias; a Vencedora da Serpente não convinha ser ferida de suas setas; Maria, finalmente, não devia contrair a Culpa Original.

Como não podemos negar a glória de ser Mãe de Deus, devemos por isso mesmo acreditar, que Ela foi concebida em Graça, e que desde o primeiro momento da sua Conceição Ela foi pura, imaculada, isto é, isenta do Pecado Original. Os Santos Padres assim o tem acreditado e ensinado; e a Santa Igreja finalmente assim o definiu há pouco como Ponto de Fé, a que não podemos faltar. Não espereis pois, que eu hoje venha provar-vos um Dogma ultimamente definido; falando o Oráculo da Verdade, nada mais é preciso; a vossa mesma piedade e devoção para com Maria, invocando-A e festejando-A como pura e imaculada desde a sua Conceição, me escusa disto mesmo. Eu me contento somente de mostrar-vos a singularidade da Graça Original em Maria, ou, o grande privilégio com que o Criador a enriqueceu na sua Conceição. Quanto Ela foi feliz desde sua origem, e quanto nós somos infelizes, eis o que mostrarei. – Eu principio.

Para formarmos alguma ideia da singularidade da graça, que santificou a Maria na sua Conceição milagrosa, é necessário conhecermos a desgraça do Pecado Original, de que todos nascemos réus, e de que o Senhor excetuou esta feliz Criatura. Ah! Que horroroso espetáculo exporia eu aos vossos olhos, se pudesse descrever com clareza a deformidade enormíssima deste monstro detestável! Ele é um dragão venenoso, que nutrindo-se conosco desde o ventre de nossas mães, nos despedaça as entranhas com mordeduras mortais; é uma maldição inevitável, a qual, contraído logo desde o princípio da nossa existência, nos faz objetos odiosos do nosso Deus, indignos das suas graças, e excluídos do Reino do Céu; é um contágio universal, que infeccionando toda a humanidade, chama sobre ela as enfermidades, as paixões, as desgraças, e finalmente, a morte; em poucas palavras, é aquele primeiro pecado de desobediência, que Adão e Eva cometeram, e que todos nós deles herdamos como filhos ou descendentes, e que desgraçou a eles e a toda a sua descendência.

Fatal herança, quem poderá escapar-te? Virgem Santa, quem senão Vós, que fostes criada para ser Mãe do vosso mesmo Criador, e que não tendes semelhante na vossa origem, e que sois Bendita entre todas as mulheres, quem senão Vós poderá ficar isenta de tão perniciosa lei?


Mas, com efeito, ainda que no princípio da nossa origem, logo que somos concebidos no ventre de nossas mães, ficamos todos sendo réus do pecado, escravos do Demônio, marcados com o seu selo; Maria sem exemplo é concebida em Graça, e entra no mundo cheia de inocência e santidade; o seu mesmo Criador por um raro privilégio a susteve nos Seus braços para não cair na massa da perdição; no mundo apareceu uma nova Criatura dotada desde a sua Conceição, das melhores perfeições por um raro privilégio. Infernal Serpente, enganadora de uma incauta Eva, confunde-te com a existência desta nova Criatura, foge, foge envergonhada para esses abismos de tormentos; tuas forças e teu poder não tiveram parte em Maria; tuas duras cadeias não prenderam esta Virgem; se procuraste com uma só lança ferir toda a humanidade, se pensavas ganhar num só combate todas as vitórias, aterra-te, ainda digo, pois, é Maria quem alcançou sobre ti uma completa derrota; é Maria a quem não prenderam teus laços; é Maria, finalmente, que te esmagou a cabeça, e abateu tua soberba – Ipsa conteret caput tuum.

Maria é sim essa valorosa Judite, que confundiu e derrotou o soberbo Holofernes do Inferno; Maria é a única que não arrastou seus ferros. E que glória esta para Maria! Que glória para Ela, alcançar uma completa derrota de tamanho Adversário! Que glória para esta Virgem, confundir logo no princípio da Sua existência um Inimigo, que tinha zombado do mundo todo! Ah! O Demônio tinha subjugado ao seu império toda a descendência de Adão, mas só esta Virgem pode escapar-se à tirania de seus ferros; tudo havia sucumbido às leis deste soberbo vencedor, mas só esta forte Torre de Davi despreza as suas bandeiras. O soberbo Assuero tinha condenado à morte todo o povo hebreu, mas uma formosa Ester é excetuada deste decreto; todos somos concebidos em pecado, réus e escravos do Demônio; Maria tão somente é excetuada desta lei. Que privilégio, que glória para Maria!

Ah! Todos os demais privilégios, todas as demais graças que o Senhor lhe concedeu, por muito grandes que sejam, não excedem, nem chegam a este dom da sua Conceição Imaculada; é esta uma graça onde não tem chegado alguma criatura humana: Ela, ainda que procedida de um princípio imundo, de uma carne corrupta, como nós outros, é concebida e criada por Deus toda bela como a brilhante aurora; saindo do meio das trevas da obscura noite da culpa, apareceu toda luminosa: começando a existir entre os espinhos do pecado, é uma Rosa sempre cheirosa, agradável e imarcescível; entre a nossa natureza toda estragada por causa de Adão e Eva, veio esta Flor toda bela, toda formosa e graciosa.

Virgem Santa, criatura imaculada, formosa Filha de Jerusalém, a quem Vos compararei? Ai! Se a fé não me ensinasse que há Um só Deus na essência, e Trino em Pessoas, eu diria com São Dionísio, que Maria era uma segunda Divindade – Nizi unam tantummodo Divinitatem esse crederem, hanc mulierem Divinum esse dicerem. Mas, não larguemos os voos do nosso pensamento mais acima do que deve ser; basta dizer que Maria pela sua Conceição Imaculada excede a tudo quanto é criado, e que assim como o sol brilha entre todos os demais astros, também Ela resplandece e sobressai a tudo quanto é grande diante de Deus: Ela é um Castelo fortíssimo, uma Torre inexpugnável, que nunca pagou algum tributo ao Demônio, diz S. Tomás de Vilanova, isto é, nunca cometeu pecado, nem houve momento desde a sua Conceição em que estivesse no poder do Demônio – Ecce castellum fortissimum, ecce turrim inexpugnabitem, quae nunquam diabolo praestitit tributum.

Oh! Quanto pois Maria é feliz desde o primeiro instante da sua existência! E quanto nós todos somos infelizes, desgraçados desde o primeiro momento em que fomos concebidos no ventre de nossas mães! Maria é concebida em graça, e nós em pecado mortal; Maria apenas começa a existir, é livre do poder do Demônio, e nós desde o primeiro momento da nossa existência começamos a ser escravos do seu infame poder; Maria desde então Santíssima, perfeitíssima, sumamente agradável a Deus, e nós desde o primeiro instante da nossa criação, pecadores, miseráveis, feios e desagradáveis aos olhos de Nosso Senhor: que diferentes sortes! Que desgraçada condição humana! Mas desta infeliz sorte, fomos por Deus resgatados nas sagradas águas do Batismo; então o nosso Divino Criador por meio desse Santo Sacramento, nos livrou da escravidão do Demônio, e lavou nossas almas dessa mancha do pecado; então ficamos cheios de graça e inocência, amados de Deus, agradáveis aos seus olhos, e herdeiros do Seu Reino do Céu; enfim, pela sua infinita misericórdia ficamos sendo seus filhos, e inteiramente felizes pela Graça da Regeneração. Mas esta graça e felicidade tornamos a perder por nossa culpa, se cairmos em pecado mortal, e ficamos depois, ainda mais infelizes e desgraçados do que da primeira vez, porque fomos infiéis às nossas promessas, e ingratos ao nosso bom Deus.

Sim, irmãos meus, o pecado é Original e Pessoal; o Original, é aquele com que somos concebidos no ventre de nossas mães, e que nos vem de nossos primeiros Pais, Adão e Eva como origem, e de que só Maria Santíssima ficou livre por um raro privilégio; o pecado Pessoal, é aquele que comete a própria pessoa, ou o que nós praticamos depois do uso da razão. Do Original somos livres pelo Batismo, como já vos disse; e se morrermos sem sermos batizados não poderemos ir para o Céu, nem também sofreremos as penas do Inferno, porque o Pecado Original não é cometido por vontade própria. Mas, se depois do Batismo e do uso da razão nós cometemos algum pecado mortal, ao qual não damos remédio pela Confissão e Penitência, não poderemos também ir ao Céu gozar a Deus, iremos sem remédio algum ao Inferno padecer tormentos eternos; porque este pecado jé cometido por nós, por vontade própria, por malícia pessoal, de que não há desculpa diante de Deus.

Assim pois, se desgraçados éramos pelo Pecado Original antes de sermos batizados, muito mais desgraçados somos depois do Batismo, se cairmos em pecado mortal, que não remediemos. Estes pecados pessoais nos fazem muito mais aborrecidos de Deus, e merecedores de tremendos castigos pela nossa infidelidade e ingratidão. Sim, o sagrado Batismo além de ser um Sacramento de Regeneração, pelo qual somos lavados do Pecado Original, como já vos disse, é também, como dizem os Santos, um contrato que Deus faz conosco e nós com Ele. Deus promete, e nós prometemos; Deus obriga-se, e nós obrigamo-nos também; damos palavra pela boca de nossos Padrinhos como fiadores, estando presentes os Ministros da Igreja, testemunhas os Anjos e os homens; faz-se disto escritura, a qual se guarda no arquivo da Igreja e nos registros de Deus. O Senhor te colheu a palavra que tu deste no Batismo, diz por isso Santo Ambrósio, escrita está não no livro dos mortos, mas sim, no livro dos vivos; diante dos Anjos pronunciaste a tua obrigação, não a podes negar.

E que nos prometeu Deus no Batismo? Prometeu-nos o Céu, e obrigou-se a dar-no-lo, se O servirmos e amarmos, e se morrermos na Sua graça. Eis a promessa da parte de Deus, e  que de certo há de cumprir. E da nossa parte, que prometemos, e a que ficamos obrigados? Chegando a porta da Igreja, logo nos saiu ao encontro o Ministro do Senhor, o qual nos perguntou, ou aos nossos Padrinhos em nosso lugar:

– Que pedis à Igreja? – E logo responderam por nós: A fé.

– E a fé, que te dá? – A vida eterna, responderam mais.

– Se pois queres entrar na vida eterna, guarda os Mandamentos, disse o mesmo Ministro do Senhor – Si vis ad vitam ingredi, serva mandata. Logo o mesmo Sacerdote mandou ao espírito imundo ou ao Demônio sair fora da nossa alma; logo nos marcou com o Sinal da Cruz na testa, para que sempre nos lembremos da Cruz, e não nos envergonhemos de ser cristão; no coração, para que vivamos sempre com amor e afeto a mesma Cruz e Mortificação.

Tomando depois o Sacerdote um pouco de sal bento, o meteu na nossa boca, e nos disse, que recebêssemos o sal da sabedoria, isto é, que deveríamos saber as nossas obrigações e guardá-las, livrando-nos sempre da corrupção dos costumes e pecados, e que nunca tivéssemos fastio das coisas de Deus, e de O servir. Expeliu outra vez com o sal o Demônio para fora da nossa alma, e lhe mandou que nunca mais tomasse posse dela. Entrando nós na igreja, o mesmo Sacerdote nos fez duas cruzes nos nossos ouvidos para os abrirmos depois à Palavra de Deus, para A ouvirmos com atenção e aproveitamento, e no nariz o mesmo, para percebermos o cheiro da celestial suavidade. Apenas chegamos à Pia Batismal, logo aí nos perguntou o Ministro Sagrado:

– Renuncias a Satanás?

– E nós respondemos por boca de nossos Padrinhos: Renuncio.

– Renuncias também as suas obras?

– Cada um de nós respondeu: Renuncio.

– Renuncias as suas pompas?

– Do mesmo modo respondeu qualquer de nós: Renuncio.

– E logo depois se seguiu o Batismo, a ação mais solene e proveitosa para nós, pela qual a nossa alma foi lavada da Mancha Original em que fomos concebidos e nascidos, ficando logo filhos de Deus e com direito ao Céu.

Eis aqui, irmãos meus, a grande felicidade que nos veio pelo Batismo, onde começamos a viver para Deus, onde Ele nos concedeu tanta graça; nos prometeu tantos bens, e onde nós mesmos lhe fizemos tantas promessas, e contraímos tantas e tão santas obrigações. E dizei-me: vós tendes por ventura cumprido estas obrigações? Ah! De certo não. Deus não falta, nem faltará ao que vos prometeu; mas desgraçadamente tendes vós faltado, e faltais imensas vezes. E se não, dizei-me: que pedistes vós, e que prometestes quando chegastes às portas do templo para receberdes o Batismo? A fé; e prometestes guardá-la. E que tendes vós feito? Talvez a tenhais perdido de todo ou em parte, não acreditando quantos Dogmas a Santa Igreja vos manda; e se os acreditais, desacreditai-los pelo vosso péssimo procedimento.

Diz-me, cristão, pergunta São João Crisóstomo, em que poderei eu conhecer que tu és cristão e tens fé? Pelo lugar em que vives? Pelas tuas roupas? Pelas tuas palavras? Pelo teu sustento? Pelos teus negócios? Oh! Por nenhuma destas coisas se pode conhecer que és um verdadeiro cristão, ou que tens verdadeira fé, como pediste e prometestes; mas tudo pelo contrário. O lugar que buscas é o teatro, o baile, a casa da assembleia, a do jogo, a da prostituta ou concubina, a da mancebia, a taberna, o lugar do divertimento profano e da desmoralização. A roupa de que usas é uma roupa desnecessária, vestido de luxo, de vaidade, e além do mais, de indecência e sinal de desonestidade. As palavras de que te serves, são muita vezes pragas, juras, nomes injuriosos ao próximo, murmurações e palavras impuras. A comida e bebida de que usas é mais do que a necessária para viver, trabalhar e servir a Deus, um sustento demasiado e brutal, perdendo por isso a sobriedade, e até as vezes a saúde e o juízo. Os negócios em que te empregas são unicamente, ou mais que tudo, os negócios domésticos ou da tua família e do teu interesse temporal; e pouco ou nada no negócio da glória de Deus e da tua salvação.

Se queres gozar a vida eterna, guarda os Mandamentos, te disse mais o Sacerdote quando te batizou. E como os tens tu guardado? Muito mal. Não há talvez Mandamento que tenhas cumprido, nem algum que não tenhas profanado uma e muitas vezes com pecados, e até mortais; a Lei de Deus tem sido para ti coisa do menor preço e valor; a tua vida tem sido uma comprida cadeia de culpas, que chega daqui ao Inferno. Tens desmentido milhares de vezes as tuas promessas do Batismo. O Ministro do Senhor te lançou então fora da alma o Demônio; mas tu O deixaste entrar outra vez, pecando mortalmente, e talvez O tenhas deixado andar sempre contigo sem fazeres uma boa Confissão, nem te emendares. Marcou-te o mesmo Sacerdote com o Sinal da Cruz para viveres debaixo das bandeiras de Jesus Cristo, e passares uma vida mortificada, uma vida de Cruz, como discípulo de tão Santo Mestre.

Mas que vida é a tua, cristão? Não é vida de Cruz, é vida de delícias, porque em lugar de buscares mortificação para o teu corpo, só buscas gostos e prazeres, e só aborreces a Cruz ou a Penitência; tu até te envergonhas talvez de ser cristão, ou ao menos te envergonhas algumas vezes de fazer boas obras, obras de cristão, de fazer o Sinal da Cruz, de trazer o Escapulário de Maria ao pescoço, de pegar num Rosário ou numas contas, de fazer oração, confessar, comungar, de fazer estas e outras obras de cristão. Toda a vida de um cristão, se vive conforme o Evangelho, é uma vida de Cruz, diz Santo Agostinho. Porém, a tua vida é uma vida laxa, uma vida conforme as tuas paixões, e cheia de preguiça e vergonha para seguir as lições de Jesus Cristo, e só diligente e de pouca vergonha para seguir as coisas do mundo, do Demônio, da carne. Lançou-te o Sacerdote do Senhor o sal bento na boca para gostares da verdadeira sabedoria, para depois procurares saber as tuas obrigações que contraias, para te livrares da corrupção dos maus costumes, e para não te enfastiares das coisas de Deus. Mas tu nem sabes, nem procuras saber o que te convém para a salvação; nem buscas um bom Diretor ou Mestre que ensine; antes buscas Confessores passageiros, que te deixem na ignorância, que não te mostrem o que deves fazer, que por tudo te passem e te deixem viver conforme as tuas paixões; e assim, em lugar de te livrares da corrupção do pecado, vives cada vez mais empestado, enfermo na alma, cada vez pior. Se aparece, porém, ou encontras algum Confessor que te expõe a verdade, e te quer livrar do pecado e do Inferno, apertando mais algumas coisas contigo, demorando-te a santa absolvição, fazendo-te entrar em Confissão Geral, ou mandando-te fugir da ocasião, restituir o alheio e fazer, finalmente, o que deves, logo te aborreces, foges dele, e não tornas a buscá-lo.

Se aparece algum pregador, que com eficácia te expões a gravidade das tuas culpas, e te quer conduzir ao Céu, não o queres ouvir, ou ao menos te enfastias de o escutar; nem uma Prática, nem um Catecismo queres ouvir, ficando muitas vezes fora da igreja; tudo, tudo quanto é Palavra de Deus e para tua salvação te aborreces, te causa fastio, e por isso nunca saras dessa peste dos teus vícios, e nunca gostarás das delícias da vida eterna. Este soberano sal nada te aproveita, porque tens fastio de ouvir a Palavra de Deus, e pouco ou nenhum apetite da doutrina do Céu. Tardes e noites inteiras em uma comédia, assembleia ou baile e na casa do jogo ou da taberna, horas e horas a conversar, tudo isto te causa gosto e te faz parecer pouco tempo; e uma hora ou meia numa Prática ou Sermão, já te enfada, cansa e enfastia: ó gravíssima enfermidade, e execranda miséria! Tens na verdade o gosto estragado; não há sal que te cure; assim viverás e morrerás, e assim te condenarás ao Inferno.

Perguntou-te mais o Sacerdote, quando te batizou: “Renuncias a Satanás, às suas obras, e às suas pompas?” E tu pela boca dos teus Padrinhos, como fiadores às tuas promessas, respondeste, que a tudo isso renunciavas. Mas que tens tu feito? Tudo pelo contrário. Em lugar de renunciares o Demônio, tens seguido as suas tentações ou enganos, e tens feito quanto ele quer; em lugar de aborreceres as suas pompas, tens vivido com luxo e mais luxo, tens andado à moda, e com a maior vaidade. Estas pompas de Satanás, diz Santo Agostinho, São Jerônimo e outros Padres, são pompas do mundo, a ambição, a soberba, a vaidade, a superfluidade, a vanglória, em preciosas alfaias, em coches, em criados, em galas, em banquetes, em teatros e em jogos; são estas as pompas do Demônio, que tu renunciaste; mas são estas as que tens seguido, e segues desgraçadamente contra as tuas promessas.

A tudo renunciaste, e a tudo faltaste, fazendo o contrário. Ungiu-te depois o Sacerdote com o óleo, que era o símbolo da graça de Deus, que entrava na tua alma para sará-la da enfermidade do pecado, para moderar as tuas paixões, e fortalecer-te nas batalhas contra a tua salvação; mas nem isto te aproveitou; porque com a maior fraqueza te deixaste depois arrastar dos teus apetites, e tens caído em imensas misérias. Em seguida, foste logo batizado, lavada a tua alma nessas águas puras da tua regeneração, e ficaste logo filho de Deus, e com direito ao Céu; mas tudo isto perdeste pelo pecado mortal que depois cometeste; pela tua infidelidade a tantas promessas que fizeste, ficaste privado de tantos e tão grandes bens; ó miséria das misérias, ó grande infelicidade! A tua alma depois do Batismo ficou toda pura, mais branca do que a neve, mais formosa do que o sol; mas tu depois do uso da razão a manchaste com pecados mortais em que caíste por tua malícia, e a fizeste mais feia e horrorosa do que um Demônio, ficaste mil vezes pior do que antes do Batismo; Deus te aborreceu muito mais por causa da tua ingratidão ao benefício que te fez; e assim te tirará rigorosas contas das tuas infidelidades, da falta de observância das tuas promessas no Batismo, e te castigará com muito maior rigor.

Ele te dirá no dia do Juízo: “Tu no Batismo tomaste o nome de tal Santo ou Santa para imitar as suas virtudes; mas seguiste uma vida contrária: tu foste marcado com a Minha Cruz para levá-la com vontade e paciência, e seguir a mortificação; mas tu quiseste antes passar uma vida de delícias, e aborrecias tudo quanto era pena, dor e penitência, e te declaraste inimigo da mesma Cruz: tu recebeste o sal bento na boca para gostar da Palavra de Deus e te livrar da corrupção do pecado; mas tu te aborrecias de ouvir a sã doutrina, e te deixaste corromper dos vícios: tu renunciaste as obras e pompas de Satanás; mas seguiste depois tudo quanto ele te ensinou, as vaidades e modas infames: tu foste ungido com o óleo para te fortalecer contra as criminosas paixões, e tu cada vez te fizeste mais fraco: enfim, tu foste então batizado para ganhares o Céu, e tu mereces o Inferno”.

E que responderás ao Senhor? Como te desculparás de tantas infidelidades às tuas promessas no Batismo? Maria foi concebida em graça sem a menor mancha de pecado, por um raro privilégio, e foi sempre fiel a Deus; mas tu, se foste concebido em pecado, e nascido em pecado, Deus pela sua grande bondade te livrou no Batismo, e te fez seu filho e cristão, e a tua alma pura; mas tu como tens correspondido a tão bom Senhor? Por que tens faltado tantas vezes às promessas que Lhe fizeste, e desgraçado a tua alma? Oh! Envergonha-te, pecador, e muda de vida: até quando hás de abusar da bondade de Deus, que te resgatou no Batismo do poder do Demônio? Até quando hás de ser infiel ao que então Lhe prometeste? Olha que se antes de batizado eras desgraçado e infeliz pelo Pecado Original, agora mais desgraçado e infeliz estás pelos Pecados Mortais que tens cometido; olha que agora mereces de mais a mais o Inferno, se não lhes dás remédio. Este remédio, que agora te resta, é o Arrependimento com uma boa Confissão e com a Emenda.

Anda pois à Presença do Senhor chorar teus pecados pessoais, e diz assim: Ó meu Deus, eu vejo-me carregado de crimes, de que não tenho desculpa; eu tenho-Vos sido infiel e ingrato milhares de vezes; mas eu me arrependo agora e me pesa muito de tantas maldades. Tenho profanado o meu Batismo, tenho desgraçado a minha alma; mas agora proponho viver como cristão, e nunca mais pecar. Ajudai-Me com a Vossa graça para que leve a efeito estes meus desejos. Ó Maria, ajudai-Me também; Vós que fostes sempre pura e Santa desde o primeiro momento da Vossa vida, alcançai-Me graça para viver e morrer santamente. Ó Maria, concebida sem pecado, rogai por nós, que recorremos a Vós. Amém.


Fonte: Rev. Pe. Fr. Manoel da Madre de Deus, O.C.D., “Práticas Mandamentais ou Reflexões Morais sobre os Mandamentos da Lei de Deus e os Abusos que lhe são Opostos”, Prática 15ª, pp. 607-617; 3ª Edição; Em Casa de Cruz Coutinho – Editor, Porto, 1871.

Redes Sociais

Continue Acessando

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...