Blog Católico, para os Católicos

"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

domingo, 18 de junho de 2017

Uma Aparição de Santo Tomás de Aquino


Madre Jacinta de São José

Encontramos este fato na vida da serva de Deus, Madre Jacinta de São José, carmelita descalça, fundadora do Convento de Santa Teresa, no Rio de Janeiro e falecida em odor de santidade a 2 de Outubro de 1768.

No dia 5 de Janeiro de 1745, aprouve ao Senhor revelar à sua fidelíssima Serva a Imaculada Conceição da Virgem Maria, não sendo naquela época declarada ainda Dogma de fé. Eram duas horas da madrugada, quando ouviu uma voz que a chamava sem ver ninguém. Imediatamente perdeu os sentidos e sua alma foi levada à augusta presença da Santíssima Trindade, onde conheceu distintamente as Três Divinas Pessoas e o Ser infinito de Deus. Foi-lhe em seguida mostrada a criação da Virgem Maria, formada por Deus com todo o primor, sem mancha alguma de Pecado Original e toda Pura e Imaculada na sua Conceição, porque havia de ser sua Santíssima Mãe segundo a natureza humana.

Nesta visão tão clara, achava-se presente Santo Tomás de Aquino, de cuja presença teve ela certeza, e quando perdeu de vista a Nossa Senhora, ficou com o Santo, comunicando-se por conceitos. Então, lhe disse S. Tomás, que Deus a elevava a ver a criação da Senhora, para que testemunhasse o que vira e fosse aceito e recebido na Igreja Católica seu testemunho. Desejava e suspirava que a Igreja se resolvesse logo a declarar a Conceição Imaculada de Maria Santíssima e que para esse fim rogasse continuamente a Deus. Jacinta ofereceu-se prontamente; e o Santo tornou, que quando escrevesse sobre o que tinha visto da Conceição da Senhora (sabendo já como havia de explicar tal assunto) assistiria com especial cuidado sua alma”. (Vida da Serva de Deus, Madre Jacinta, por Frei Nicolau de São José, C.D., pág. 77).

Fonte: Mensário “Mensageiro do Santo Rosário”, de Março de 1936; Redação e Administração no Convento dos Dominicanos – Uberaba/MG.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Os Hereges Estão Mais Afastados da Fé do Que os Demônios


Vitória de Santo Tomás sobre os Hereges

Do livro “A Suma Teológica em Forma de Catecismo”, obra da qual escreveu o Santo Padre Bento XV, em carta ao autor, que este soube “acomodar ao alcance de sábios e ignorantes os tesouros daquele gênio excelso [São Tomás de Aquino], condensando em fórmulas claras, breves e concisas, o que ele com maior amplitude e abundância escreveu”.

P. Existe algum compêndio das verdades essenciais da fé?

R. Sim, senhor; o Credo o Símbolo dos Apóstolos. Ei-lo aqui conforme o reza diariamente a Igreja:

Creio em Deus Pai Todo Poderoso,
Criador do Céu e da terra;
e em Jesus Cristo seu único Filho, Nosso Senhor,
o qual foi concebido do Espírito Santo;
nasceu de Maria Virgem;
padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos,
foi crucificado, morto e sepultado;
desceu aos infernos;
ao terceiro dia ressuscitou de entre os mortos;
subiu aos céus
e está sentado à mão direita de Deus Pai, Todo Poderoso;
donde há de vir a julgar os vivos e os mortos.
Creio no Espírito Santo,
na Santa Igreja Católica,
na Comunhão dos Santos,
na remissão dos pecados,
na ressurreição da carne,
na vida eterna.
Amém.

P. É a recitação do Credo ou Símbolo dos Apóstolos o ato de fé por excelência?

R. Sim, senhor; e nunca devemos cessar de recomendar aos fiéis a sua prática diária.

P. Podereis indicar-me alguma outra fórmula breve, exata e suficiente para praticar a virtude da fé sobrenatural?

R. Sim, senhor; eis aqui uma, em forma de súplica: “Deus e Senhor meu; confiado em vossa divina palavra, creio tudo o que haveis revelado para que os homens, conhecendo-Vos, Vos glorifiquem na terra e gozem um dia de Vossa presença no Céu”.

P. Quem pode fazer atos de fé?

R. Somente os que possuem a correspondente virtude sobrenatural.

P. Logo, não podem os infiéis fazer atos de fé?

R. Não, senhor; porque não creem na Revelação, ou seja, porque ignorando-a, não se entregam confiadamente nas mãos de Deus, nem se submetem ao que deles exige, ou porque, conhecendo-a, recusam prestar-lhe assentimento.

P. Podem fazê-lo os ímpios?

R. Tampouco, porque, se bem que têm por certas as verdades reveladas, fundadas na absoluta veracidade divina, a sua fé não é efeito de acatamento e submissão a Deus, a Quem detestam, ainda que com pesar seu se vejam obrigados a confessá-Lo.

P. É possível que haja homens sem fé sobrenatural, e que creiam desta forma?

R. Sim, senhor; e nisto imitam a fé dos Demônios.

P. Podem crer os hereges com fé sobrenatural?

R. Não, senhor; porque, embora admitam algumas verdades reveladas, não fundam o assentimento na autoridade divina, senão no próprio juízo.

P. Logo, os hereges estão mais afastados da verdadeira fé, que os ímpios e que os mesmos Demônios?

R. Sim, senhor; porque não se apoiam na autoridade de Deus.

P. Podem crer com fé sobrenatural os apóstatas?

R. Não, senhor; porque desprezam o que haviam crido por virtude da palavra divina.

P. Podem crer os pecadores com fé sobrenatural?

R. Podem, contanto que conservem a fé, como virtude sobrenatural; e podem tê-la, se bem que em estado imperfeito, ainda quando, por efeito do pecado mortal, estejam privados da caridade.

P. Logo, nem todos os pecados mortais destroem a fé?

R. Não, senhor.

P. Em que consiste o pecado contra a fé chamado infidelidade?

R. Em recusar submeter o entendimento, por veneração e amor de Deus, às verdades sobrenaturalmente reveladas.

P. E sempre que isto acontece, é por culpa do homem?

R. Sim, senhor; porque resiste à graça atual com que Deus o convida e impele a submeter-se.

P. Concede Deus esta graça atual a todos os homens?

R. Com maior ou menor intensidade e em medida prefixada nos decretos de sua providência, sim, senhor.

P. É grande e muito estimável a mercê que Deus nos faz, ao infundir-nos a virtude da fé?

R. É em certo modo a maior de todas.

P. Por quê?

R. Porque, sem fé sobrenatural, nada podemos intentar em ordem à nossa salvação, e estamos perpetuamente excluídos da glória, se Deus não se digna conceder-no-la antes da morte.

P. Logo, quando se tem a dita de possuí-la, que pecado será, frequentar companhias, manter conversações ou dedicar-se a leituras capazes de fazê-la perder?

R. Pecado gravíssimo, fazendo-o espontânea e conscientemente, e de qualquer modo ato reprovável, que sempre o é, expor-se a semelhante perigo.

P. Logo, importa sobremaneira escolher com acerto as nossas amizades e leituras, para encontrar nelas, não embaraços, mas estímulos para arraigar a fé?

R. Sim, senhor; e especialmente nesta época, em que o desenfreio de expressão, chamado liberdade de imprensa, oferece tantas ocasiões e meios de perdê-la.

P. Existe algum outro pecado contra a fé?

R. Sim, senhor; o pecado da blasfêmia.

P. Por que a blasfêmia é pecado contra a fé?

R. Por ser diretamente oposta ao ato exterior da fé, que consiste em confessá-la por palavras, e a blasfêmia consiste em proferir palavras injuriosas contra Deus e seus Santos.

P. É sempre pecado grave a blasfêmia?

R. Sim, senhor.

P. O costume de proferi-las escusa ou atenua a sua gravidade?

R. Em vez de atenuá-la, agrava-a, pois o costume demonstra que se deixou arraigar o mal, em lugar de dar-lhe remédio.


Fonte: Rev. Pe. Thomás Pègues, O.P., “A Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino em Forma de Catecismo”, 2ª Parte, 2ª Secção, Cap. II, pp. 91-94, da Edição Brasileira.

A Suma Teológica, principal documento, do Santo Angélico, foi resumida com a melhora da linguagem para iniciantes pelo Pe. Tomás Pègues, O.P. em francês em 1919 e traduzido ao português por anônimo em 1942 e reproduzido pela Editora SCJ, de Taubaté e já extinta, em forma de catecismo. Esta obra tem o beneplácito de Dom Gil Antônio Moreira e do Santo Padre Bento XV.


sexta-feira, 2 de junho de 2017

As Inesgotáveis Riquezas do Sagrado Coração de Jesus (Ensaio Completo) 15



A Segunda Vinda de Jesus Cristo
e a Devoção do Sagrado Coração1


Ai, dos habitantes da terra, porque, presentemente, mesmo nos cristãos e católicos, a fé é fraca, vacilante, tíbia; e semelhante tibieza não é senão isso que Deus detesta, como ensina a Escritura, por não ser frio, nem quente, mas propício ao vômito.

Onde o vigor, a energia, a coragem, a intrepidez de que outrora se revestia a fé, não só agitando os espíritos, mas movendo povos, nações inteiras à reivindicação dos princípios ou das coisas da religião?! Que entusiasmo há hoje pelos grandes ideais religiosos que encheram belos períodos da história?! Que homens se destacam hoje à frente das nações e que personifiquem na política, na diplomacia ou na ciência uma ideia cristã?!

O mesmo Apóstolo que, com tão belas palavras, fez isso que se pode chamar o hino da Caridade, ensinando que ela é mais que a compaixão, mais que a lágrima, mais que a dor, mais que a tortura física, mais que o sangue derramado, mais que o martírio, porque é o amor, e sem o amor nenhuma dessas coisas tem valor; o mesmo Apóstolo também entoou o que se pode chamar o cântico triunfal da Fé, quando no-la descreve como a visão do que não se vê, como a posse do que não se tem, como a certeza do que nos é prometido, e como gozo do que esperamos ainda!!

É desta fé que se pode perguntar: onde está ela hoje?! A fé que contemplamos, e de que podemos julgar pelos atos da maioria dos cristãos e católicos, não é uma fé raquítica, acanhada, sem elevação nem grandeza?! E não é tão excepcional hoje a fé inteira, ardente, intrépida e valorosa, que se alguns a têm ainda, e dela dão testemunho, o mundo se admira e não acredita?!

E porque não mais acredita o mundo nos entusiasmos da fé, senão porque ele verdadeiramente tocou ao período da vida em que o organismo, esgotada a seiva, enfraquecido o sangue, enervada a sensibilidade, atinge a decrepitude?

A fisiologia nos ensina que o homem tem infância, mocidade, virilidade e velhice com decrepitude, que o impele para a morte. Estes são os períodos da vida do homem, que a filosofia verifica igualmente na vida das nações.

As nações são o homem coletivamente considerado. As mesmas leis de vida e de morte regem o homem individual e o homem coletivo. Não só a fisiologia proclama estas verdades; a história nos mostra que o mundo tem percorrido estes períodos: infância, mocidade, virilidade e velhice.

A grande tradição universal, de que já vos falei, dá para a existência do mundo o percurso de seus mil anos, e fixa o nosso milênio, que terminará no prazo de um século, como o último.

É direito de qualquer católico, principalmente de um pregador, insistir no que pela Igreja não é proibido crer, antes permitido, e além disso autorizado com o exemplo de Padres e Doutores da Igreja.

Insisto, pois, no que diz respeito a essa tradição, repetindo com o grande e insigne comentador Cornélio a Lapide: – é comum aos Judeus, aos Gregos, aos Pagãos, aos Latinos, e portanto, antiga e universal; – é uma opinião provável.

Cornélio a Lapide dá a lista numérica dos Doutores e Padres da Igreja, que adotam a tradição, afirmando que, desde que não se marque DIA E HORA para o fim dos tempos, lícito é acreditar que este se verifique no sexto milênio.

O Cardeal Belarmino, no livro De Summi Pontificis potestate, sustenta e defende a tradição, a qual é adotada e aceita nos Esplendores da Fé por um dos maiores sábios da nossa época, – Moigno; desenvolvida e defendida, ainda no século passado, pelo ilustre publicista católico – Gaume, em dois livros: Onde estamos? e Para onde vamos?; aceita pelo Cardeal Manning, no seu livro: – Domínio temporal de Jesus Cristo – e bem recentemente por duas glórias da Igreja Católica: Faber, o insigne místico, e Desurmont, o insigne asceta.

Perante a tradição, portanto, não é aceitável a mocidade do mundo. Mas essa pretensa mocidade tem sido negada também pela história.

A história nos mostra como o mundo revestiu sucessivamente as indicações, as ideias e os hábitos característicos das diferentes idades da vida no homem individual, já porque ele foi sucessivamente sociedade doméstica, sociedade civil, sociedade nacional, sociedade universal; já porque finalmente, e este é o fato principal comprobatório da decrepitude do mundo, ele começou desde quatro séculos a decair, chegando, pela apostasia da fé e repúdio de Deus, aos limites que a revelação e a tradição universal lhe assinam.

Abri a história! Que vedes? No fim do século XV, uma só família de povos cristãos, o mesmo Símbolo, o mesmo Culto, a mesma Lei; em toda a parte um só Deus, uma só Fé, um só Batismo! E depois?… Que sucedeu a essa Unidade: Renascença… Reforma… Revolução… Socialismo…

Desde o fim do século XV caminha ou não o mundo, de grau em grau, invariavelmente, numa decadência, num abatimento contínuo? Que foi a Renascença? A ressurreição do paganismo na literatura. A Reforma? A ressurreição do paganismo na religião. A Revolução Francesa? A ressurreição do paganismo na política. Que é o Socialismo? A ressurreição da barbárie.

São ou não sintomas de morte?! Como negar que a velhice do mundo tocou à decrepitude?! Que se pode imaginar para evitar a catástrofe?… O rejuvenescimento do mundo, porque nada na criação rejuvenesce. Como os rios não voltam para a sua nascente, como o homem não volta da velhice para a virilidade, nem da virilidade para a mocidade, nem da mocidade para a infância, também as nações não retrogradam de uma para outra idade. Nunca tal se viu na história; nem mesmo com a invasão dos bárbaros, ou com o Dilúvio, pois que, num como noutro caso, o mundo não foi remoçado, foi absorvido.

Um milagre a regeneração cristã do mundo! E que milagre extraordinário, descomunal, inaudito! O mundo, repudiando tudo o que adora presentemente; revogando, nas diferentes nações, todas as leis, todas as constituições, todos os códigos; substituindo em tudo isso pelos princípios católicos que abomina, os princípios revolucionários que glorifica no Governo, na administração, na política, no ensino, na educação; transformando radicalmente as suas letras, as suas ciências, as suas artes, as suas indústrias em arautos da religião, que está banida de todas essas esferas da atividade humana na nossa época; substituindo, nas democracias e monarquias, a soberania do povo, que é o seu ídolo, pela soberania de Deus, que é o seu fantasma; não só libertando a Igreja, mas dando à Igreja a vida doméstica, na vida civil, na vida política o lugar que lhe pertenceu e de onde foi expelida; o mundo, enfim, erguendo sobre as ruínas e os destroços desta civilização uma civilização completamente católica, simbolizada, não mais nos estandartes de suas seitas anti-cristãs e de suas lojas maçônicas, mas na Cruz de Jesus Cristo!

Que milagre! Que milagre extraordinário, descomunal, inaudito!… E onde está escrita a promessa deste milagre? Pois não é irrisório substituir, pela quimera de um milagre que não foi prometido, a segunda vinda de Jesus Cristo prometida para triunfo definitivo da Igreja e castigo do mundo, quando chegasse à apostasia completa?!

Resta ainda uma das três hipóteses formuladas: a regeneração do mundo por uma nova religião. Uma nova religião! Mas isto é uma blasfêmia, porque a hipótese de uma nova religião implica a afirmativa de que o Cristianismo não é uma religião divina e revelada; de que Jesus Cristo não é Deus; de que a Igreja não é a Mestra da Verdade; de que o Evangelho não basta para a salvação das almas; de que o mundo deve esperar um novo Messias, nova Igreja, novo Evangelho!

O que o mundo deve esperar, bem o vedes, é o seu julgamento, a sua sentença, a sua condenação. E, para regenerá-lo, compadecido dele, é que Deus lhe tem enviado, nas grandes crises e nos momentos históricos mais oportunos, ora esses que se podem chamar – enviados da verdade, ora esses que se podem chamar – enviados do Amor.

Convencer da verdade, ou persuadir do amor, – tal se nos manifesta, na evolução histórica da humanidade, o desígnio principal da Providência Divina, suscitando na Igreja, em todas as épocas, esses, de quem já se vos disse, o conveniente e o necessário.

É o sofisma, é o erro, é a heresia que oprimem o mundo? Deus suscita os Santo Agostinho, os São Bento, os São Bernardo, os Santo Inácio de Loiola, os São Domingos, os Francisco de Sales, os Afonso de Ligório, enviados da verdade, que a proclamam, defendem, vingam!

É a tibieza que faz esfriar as almas? Deus suscita os Francisco de Assis, os Vicente de Paulo, os D. Bosco, as Helena, as Juliana, as Santa Teresa de Jesus, as Clara de Montefalco, as Margarida Maria, enviados do Amor, que o reacendem e o fazem reviver em chamas fulgurantes!

Solicitudes divinas em revelações carinhosas não têm faltado ao mundo em nenhuma época; mas, na idade moderna, de todas as revelações do Amor, a maior e a mais estupenda de todas é, sem dúvida, a do século XVII. A revelação do Sagrado Coração de Jesus é verdadeiramente o grande e divino remédio oferecido ao mundo para que, no meio da tibieza que o resfria, se inflamem, ao menos, as almas que não perderam ainda o senso do divino e o instinto da salvação.

Preciso expender algumas considerações sobre a origem, a beleza, a necessidade, a harmonia, o objeto e a oportunidade desta Devoção; e terei, assim, pela grandeza e magnificência do assunto, dado um complemento condigno a esse outro, que foi o tema da presente série de prédicas, a qual não concluirei hoje sem primeiro dar bem alto testemunho do meu contentamento em relação ao bom Pároco desta Paróquia e aos auditórios que tantas vezes encheram o templo. Do zelo do Pároco, de seu manifesto interesse pela doutrinação, do muito que fez pela eficácia e o êxito das prédicas; igualmente, do silêncio e do respeito, da compostura e atitude sempre nobre dos auditórios tão numerosos que as têm ouvido, levo a mais grata impressão.

A origem da devoção ao Sagrado Coração de Jesus, pode-se dizer que remonta ao Calvário onde, segundo a expressão do Evangelista, em relação a Jesus Crucificado: “um dos soldados lhe abriu o lado com uma lança, e imediatamente saiu sangue e água”.

Impossível era que este episódio não preocupasse sempre, em todos os séculos, a piedade católica; e por isso, em todas as épocas, o Coração transpassado de Jesus foi objeto das mais belas e doces meditações. Cipriano, Ambrósio, Agostinho, os Doutores e Padres da Igreja, sempre contemplaram com enlevo o Sagrado Coração, que também dos fiéis recebeu, não um Culto explícito e formal como nos nossos dias, mas as efusões mais delicadas da ternura que sempre despertou. Na doutrina dos Doutores e na piedade dos fiéis também, antes da nossa, em todas as épocas cristãs, a arte se inspirou, representando o Coração de Jesus como o grande manancial do amor, que corre na torrente do Precioso Sangue. Quantas almas ardentes e apaixonadas se extasiaram diante do Coração de Jesus, ainda mesmo antes dele ser pregado como objeto de uma devoção especial! Nunca, é certo, ele deixou de ser contemplado, adorado, amado; e nem o contrário se pode compreender, pois que, desde o Calvário, o Coração de Jesus ferido, deixando correr Sangue e Água, fascinou as almas; a umas suscitou contemplações sublimes; a outras, êxtases terníssimos; a não poucas, desejos inflamados de penetrarem bem fundo nesse Sagrado Coração, o qual a numerosos servos se revelou, mas sobretudo, com extremos de ternura inaudita, no século XVII, a essa que Ele próprio tinha, desde longo tempo, preparado para ser numa grande revelação, a Apóstola de uma devoção nova, que desse ao mundo o testemunho mais alto, depois de Pentecostes, da misericórdia de Deus. Essa Apóstola, essa enviada do amor, é Margarida Maria, cuja vida chamaria um romance, se não fosse antes um poema ao mesmo tempo divino e humano, porque é um poema escrito com lágrimas de uma mulher e o Sangue de um Deus.

Não! Não pude, sem a mais viva emoção, que ainda neste momento se reproduz em minha alma, contemplar, há poucos anos, em Parai-le-Monial, pequena, mas, célebre cidade francesa, o Santuário em que um Deus esquecido pelo homem, pelo homem desprezado no seu amor, sem poder resignar-se a esse desprezo e a esse esquecimento, vem, não mais como um Deus que exige e ordena, mas como um mendigo que suplica, pedir, rogar, suplicar o amor dos homens, fazer de órgão dessa súplica, não mais Doutores ilustres, Teólogos iluminados, Apóstolos impelidos pelo ardor do proselitismo, mas uma mulher, uma virgem, uma religiosa.

Já tinha visto, com estes olhos, em Montefalco, pequena cidade italiana, no coração que lá está intacto, como todo o corpo de Santa Clara da Cruz, falecida no século XIII, todos os instrumentos da Crucificação de Jesus Cristo, formados numa reprodução maravilhosa, com os nervos, as veias, as artérias dessa extraordinária e sublime devota da Paixão. Aproximando, um do outro, os dois estupendos prodígios, e vacilando sobre qual fosse o maior, a mim próprio disse, recordando a incredulidade, a descrença, o ceticismo de tantos espíritos de nosso tempo: “Meu Deus! Como diante destes prodígios poderei compreender que o maior dos labores da Igreja, a mais difícil de suas tarefas, o mais pesado dos seus apostolados, seja, não o de abater as potências da terra, humilhar e vencer os impérios, sair triunfante das revoluções, mas persuadir o homem de que Deus o ama?!

E que maior amor que o do Sagrado Coração?

A beleza desta devoção é a beleza mesma do Coração de Jesus. Pelo muito que num homem nos encante o coração, imaginai que encanto não deve ter para nós o Coração de um Deus.

Se eu fosse obrigado (aproprio-me do pensamento de um belo espírito), se eu fosse obrigado a adorar uma criatura humana, não adoraria nela a inteligência, por mais elevada que fosse, nem mesmo atingindo às raias do gênio; não adoraria nela a eloquência, por mais ardente e remontada que fosse, nem mesmo atingindo o sublime; não adoraria nela a beleza, por mais peregrina e completa que fosse, nem mesmo realizando o ideal da Arte. Não; eu não adoraria também numa criatura humana, nem o poder, nem a fortuna; adoraria o coração!

A ciência, eu sei, pretende que o coração seja simplesmente uma víscera; a fisiologia diz dele que é simplesmente um músculo; a medicina nele não vê senão a caldeira do sangue, o laboratório da vida. Todos os povos, porém, de acordo com Deus, veem no coração de um homem o resumo desse homem.

Tamanha para Deus é a beleza do coração, que não se vê na Escritura, que Deus tenha jamais pedido a um homem sua inteligência, seu valor ou sua glória; ao passo que, frequentemente Ele diz, nos Livros Santos, ao homem: dá-Me o teu coração.

Certo é, entretanto, que, colocado entre duas correntes, uma que o impele para o grande e o mais sublime de todos os devotamentos, e outra que o atrai para todas as misérias da terra, numa multidão de seres humanos, o coração vive repleto de todas essas iniquidades, de que o Divino Mestre fala no Evangelho, e que, segundo a sua expressão, fazem o homem imundo.

O coração do homem necessita, portanto, de um crisol em que se purifique, de uma pira em que se abrase, de um modelo que ele reproduza.

O homem tem tudo isso na devoção do Sagrado Coração.

O Coração do Homem-Deus!… Quem pode descrê-lo?

Se não posso descrever a perfeição da sua inteligência, a perfeição do seu caráter, a perfeição da sua vontade; como poderei descrever a perfeição do seu coração que, em Jesus Cristo, é também, como em todo o homem, o resumo do homem!

O próprio Jesus Cristo disse: “aprendei de Mim que Sou manso e humilde de Coração”.

É preciso, portanto, para satisfazer a necessidade que há desta devoção, considerar certas verdades.

Uns não veem no Coração de Jesus senão um objeto material, isto é, o laboratório carnal do Sangue que resgatou o mundo: é de menos. Outros, referem ao adorável Coração todas as operações da vida teândrica de Jesus: é de mais. O coração, no sentido que nos ocupa, deve ser considerado como o centro da sensibilidade, o órgão do amor e da dor; e devemos no Sagrado Coração de Jesus considerar especialmente, com abstração das outras operações, a sede de suas afeições e sofrimentos; o que não impede outra verdade, isto é, que o objeto da devoção é duplo: espiritual e material. O objeto espiritual, – o amor do Coração de Jesus – é o principal; mas o objeto material, – o coração de carne, a porção material da Santa Humanidade, – não é menos digno de nossas homenagens.

Jesus Cristo, na grande revelação, distinguiu o duplo objeto, o material, dizendo: eis este coração… e o espiritual, acrescentando: que tanto amou os homens.

Desejo, esperança, alegria, tristeza, tudo isso se encontra no Coração de Jesus, fonte de amor, fonte de lágrimas e humilhações, fonte de repouso e de paz.

Fonte de amor, – ele encerra e nos fala do amor de Jesus por seu Pai Eterno, por sua Mãe Imaculada, pela Igreja, sua Esposa imortal, e pelos homens, cujos sofrimentos fez seus.

Fonte de lágrimas e humilhações, – ele nos recorda a dor de Jesus, humilhado no seu amor, na sua dignidade, na sua honra, nenhum homem havendo que tenha sido mais ferido na sua sensibilidade, mais desprezado no seu amor.

Fonte de repouso e de paz, – ele nos mostra a paz e o repouso de Jesus nesse Sagrado Coração, isento de todo o pecado, e por isso mesmo em tranquilidade absoluta.

A devoção do Sagrado Coração é, na época presente, uma devoção de perfeita harmonia com o estado das almas, e a de maior oportunidade nas condições atuais do mundo.

Homem moderno!… o que mais te enfeitiça hoje é o terrestre, o material, o sensível… Pois bem; aí tens um crisol divino, para te purificares.

Mundo!… o que te envolve hoje como num manto de gelo, o que te resfria é a tibieza da fé, tão vacilante, tão fraca, e aliás já tão rara que não podes mais duvidar, serem chegados os últimos tempos profetizados, caracterizados pelo próprio Divino Mestre. Pois bem; foi o próprio Divino Mestre quem mais de uma vez revelou ter sido esta devoção guardada para os últimos tempos; ser ela o remédio oferecido ao mundo para que o mundo se aqueça; o remédio prodigalizado às almas para que as almas se salvem.


Mas, porque está próxima a Segunda Vinda de Jesus Cristo, devem as almas entregar-se à inatividade, sem mais lutar nem combater; e o mundo renunciar, sem esforço, a toda a esperança de se reformar e de se revestir de fé?

Não! Engano completo! A Segunda Vinda de Jesus, pelo contrário, exige das almas e do mundo, melhor e mais clara compreensão de seus deveres.

Da parte das almas, – o cuidado da perfeição individual deve ser mais ativo, a oração mais fervorosa, a penitência mais proporcional aos pecados cometidos; e, outrossim, o combate contra os inimigos da Igreja, a peleja pela Reforma Social, a atividade nas Associações, na Imprensa, na Vida Civil e Política devem ser maiores que nunca.

Da parte do mundo, – suas enormes iniquidades exigem enormes reparações. Para o mundo como para o homem, individualmente considerado, todo tempo é tempo propício para reparar o crime e professar a virtude.

Por pequeno que seja, como é certo, o intervalo que nos separa da Segunda Vinda de Jesus Cristo, nem a morte do homem, nem a morte do mundo justificam a inação, a negligência, a abstenção da luta.

A morte, como disse alguém, é uma ideia forte e viril; é a expressão da energia e da atividade; e eu acrescento: a ideia da morte deve inspirar entusiasmo e não covardia.

No homem, a morte é um livramento; no mundo, será uma palingenesia. Livramento deste peso ignóbil que arrasta para o terrestre; palingenesia, isto é, transformação deste estado incompleto, irregular e perturbado do globo e da criação num estado melhor e definitivo. A morte do homem não é somente um livramento; será após uma separação transitória, a reunião da alma e do corpo na perfeição primitiva e adâmica, podendo assim o homem dirigir à morte vencida esta apóstrofe sublime: “morte, onde está a tua vitória?!… morte, onde está o teu aguilhão?!”

A morte do mundo não será uma simples palingenesia, isto é, uma simples renovação física do universo; será, para a humanidade, um novo meio vital, uma nova condição de existência gloriosa, um viver que, sem dúvida, não podemos compreender agora, porque é um Mistério, mas em que devemos crer, porque cremos em tantos outros mistérios, que aliás ninguém nega: a luz, o calor, o movimento, a força.

Não! Nada morre, tudo é imortal!

A morte! Rainha efêmera!

Portanto, ó vós que me ouvis: Sursum corda!

Despedacemos as cadeias do pecado; e não seremos oprimidos pela única morte, que é real e não aparente, a morte que se chama Inferno!

Sursum corda! Calquemos aos pés a mentira, a vaidade, o orgulho; e os nossos corações se elevarão até ao Coração de Jesus!

Sursum corda! Adoremos este Sagrado Coração; e, resgatados e salvos, teremos todos o gozo inefável de contemplá-lo nos esplendores da Segunda Vinda!


*Acessar o Ensaio Completo em PDF: 



Obs: Após 2 anos de provações, consegui terminar, pela graça de Deus, este despretensioso Ensaio. Que Nossa Senhora do Carmo o abençoe e faça fecundar nas almas piedosas. Deo Gratias! Ave Carmelo! Ave Maria!

__________________
1Rev. Pe. Júlio Maria, C.Ss.R., “A Segunda Vinda de Jesus Cristo”, Cap. XII, pp. 152-166; 1º Volume da “Coleção Cristo Redentor”; Estabelecimento de Artes Gráficas – C. Mendes Júnior, Rio de Janeiro, 1932.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

As Inesgotáveis Riquezas do Sagrado Coração de Jesus (Ensaio Completo) 14



Meditações para Todos os Dias da Semana,
e também para uma Novena.1


1º Dia
Domingo


Nosso coração encontra
no Coração de Jesus
o verdadeiro repouso
e a genuína felicidade

1. Jesus. Filho, se queres alcançar a verdadeira felicidade, aplica o teu coração à imitação e à convivência do Meu Coração.

Nele encontrarás a paz e a tranquilidade que o mundo não pode dar nem tomar. Se uma vez entrasses perfeitamente no íntimo do Meu Coração, daí verias todas as coisas terrenas como realmente são e não como as avaliam os insensatos idólatras do mundo.

Facilmente te libertarás dos cuidados supérfluos e penosos das criaturas e só os bens verdadeiros julgarias dignos de ti.

2. Teu coração, sujeito a contínuas vicissitudes, muda sete vezes por dia. Inconstante como o mar, ora está alegre ora triste, tranquilo ou agitado, umas vezes inflamado no amor das criaturas, outras, enfastiado com a sua vaidade; agora, fervoroso, logo depois entibiado.

Se, porém, teu coração estivesse unido ao Meu, far-se-ia subitamente grande e duradoura serenidade.

Seguro por estar unido ao Meu Coração, permanecerias como um porto seguro sempre o mesmo, inabalável e inacessível a qualquer mudança, quer soprasse vento favorável quer contrário.

Se te esconderes no Meu Coração, nenhum inimigo te poderá prejudicar. O Diabo ronda à procura de presa, e arrasta muitos consigo à perdição. De ti, porém, não conseguirá aproximar-se nem perturbar-te a paz.

3. Oxalá conhecesses o dom de Deus e soubesses quantos bens encerra! Na verdade nele se encontra teu repouso e toda a tua felicidade.

A paz constante, a segurança imperturbável, a verdadeira alegria do coração são a partilha de quantos amam e habitam o Meu Coração.

De que servem as riquezas, as honras, os prazeres, se o coração não se sentir tranquilo e satisfeito? Que pode dar-nos o mundo inteiro senão inquietações e dissabores? Por conseguinte, sejam quais forem os teus bens, estarás infeliz até repousares em Mim, que Sou o único capaz de contentar-te.

4. Discípulo. Assim mo atesta a experiência, ó Senhor. Pois em todas coisas busquei a paz e só encontrei contínuas perturbações.

Para vossa glória e nosso bem, quisestes que só em Vós nosso coração encontrasse a paz. Criastes-nos para Vós, ó Senhor, e nosso coração sente-se inquieto e infeliz até descansar em Vós.2

Ó dulcíssimo Coração de Jesus! Delícias da Santíssima Trindade! Alegria de todos os Anjos e Santos! Bem-aventurado paraíso das almas! Que hei de querer fora de Vós, se aí encontro tudo que posso e devo desejar? Em Vós o Céu encontra o seu gozo, a terra a sua felicidade. Sendo Vós a Bem-aventurança de todos, por que não sereis a minha? Sim, ó Jesus dulcíssimo de Coração, sois meu repouso, minha Bem-aventurança para sempre.


2º Dia
Segunda-feira


Para a Salvação é necessário
imitar o Coração de Jesus

1. Jesus. Filho, uma só coisa é, antes de tudo, necessária: salvares a tua alma. Se a perderes, tudo estará perdido; se a salvares, tudo estará salvo.

Não alcançarás, contudo, a eterna salvação da tua alma, se não imitares o Meu Coração. Pois os que Deus conheceu na sua presciência, também predestinou a se tornarem conformes à imagem do seu Filho.3

Qual é, porém, esta imagem do Filho de Deus, à qual todos os eleitos se devem conformar, senão o Meu Coração? A todos não é dado imitar Minhas ações externas, nem depende do homem fazer os milagres por Mim operados. Outrossim, em consequência dos diversos estados da vida humana, não podem todos seguir o Meu modo de viver exterior. Entretanto, todos, grandes e pequenos, doutos e ignorantes, em qualquer estado, podem e devem imitar os sentimentos íntimos do Meu Coração. Se, portanto, desejas a eterna salvação, conforma-te ao Meu Coração e aprende a revestir-te dos Meus sentimentos.

2. Ainda que distribuísses aos pobres todos os teus bens, entregasses o corpo às maiores penitências, conhecesses todos os mistérios e operasses estupendos prodígios, se não tiveres em teu coração semelhança com o Meu, nada serias e todas estas coisas de nada te valeriam eternamente.

Pela semelhança com o Meu Coração, hás de ser julgado e receber tua sorte eterna.

Muitos, na hora do juízo, dir-Me-ão: “Senhor, não foi em Vosso Nome que profetizamos, expulsamos Demônios e fizemos inúmeros milagres?” Eu, porém, lhes responderei: “Não vos conheço. Acaso não vedes as Chagas que Me infligistes? Não reconheceis o Lado por vós transpassado, que por vosso amor permaneceu aberto, sem que consentisses em entrar nele?

De nada servirá o que fizerdes, se não for feito segundo o Meu Coração”.

3. Não é a aparência exterior de piedade, porém, o coração devoto que torna o homem bom e caro diante de Mim.

Tua salvação estará segura na medida em que conformares o teu coração ao Meu.

Faze por tua salvação quanto te for possível. Não pode haver solicitude excessiva, quando se acha em perigo a eternidade.

No momento da morte descobrirás estar perdido tudo o que houveres feito sem referi-lo a Mim e à salvação. Se tão grande é a importância da salvação eterna, lembra-te que o valor da imitação do Meu Coração é proporcionado ao da salvação da tua alma.

4. Discípulo. Ó Salvação eterna da alma, única coisa que me é sumamente necessária! Por que estou neste mundo, senão para salvar a minha alma? E por que fui resgatado, provido de tantos socorros, cumulado de tantos benefícios divinos, senão para mais fácil e suavemente salvar a minha alma?

Mas, ai de mim! Ainda não comecei seriamente a obra, para a qual me acho neste mundo. Depois de remido, novamente tornei-me vil escravo e pereci, abusando dos meios e benefícios que tão facilmente me poderiam fazer feliz e salvo.

Ó Senhor Deus! Com toda a justiça poderíeis ter permitido que me perdesse eternamente e sofresse perpétuo infortúnio, bem merecido por minha malícia e pelo abuso de vossos dons. Mas, já que a infinita bondade do Vosso Coração assim não permitiu, mas, ao contrário, com novo e maior benefício, incitou-me a apreciar e amar a eterna salvação da minha alma, não serei mais ingrato nem me exporei à perdição eterna. Deliberadamente prometo cooperar com as suavíssimas inspirações de Vosso Coração, conducentes à Bem-aventurança e salvação da minha alma.


3º Dia
Terça-feira


Toda a nossa Perfeição consiste
em imitar o Coração de Jesus

1. Jesus. Filho, toda a tua perfeição consiste em te assemelhares com o Meu divino Coração. Meu Coração é o Coração do Verbo de Deus, a norma de todas as virtudes, a própria Santidade.

Por conseguinte, quem imita o Meu Coração, imita seu Deus e Salvador, que é a mesma Santidade.

Sendo, portanto, o Meu Coração o Modelo da perfeição e a Fonte de toda graça, dele aprenderás os meios para santificar-te, haurindo ao mesmo tempo a fortaleza para bem proceder.

Se queres, pois, ser perfeito, imita o Meu Coração e, quanto mais lhe fores semelhante, tanto mais perfeito serás.

2. Meu Coração é humilde, e a humildade é a base da verdadeira santificação. Se não aprenderes do Meu Coração a humildade, jamais possuirás esta virtude e apenas de nome a conhecerás.

Se quiseres colocar sobre outro fundamento o edifício da perfeição, não permanecerá de pé, mas ao sopro do menor vento desabará, sendo grande sua ruína.

Meu Coração também é manso e cheio de caridade: a caridade, porém, é a perfeição da santidade.

Teu coração nunca arderá nas chamas da verdadeira caridade, se não for inflamado por aquele fogo de amor que abrasa o Meu.

Ai de ti, se outro fogo se acender em teu coração, abrasando-te, porém, para tua perdição!

3. Jamais alcançarás virtudes sólidas, nem atingirás a santidade, a não ser imitando o Meu Coração.

Embora deres sinais de virtude e pareceres Meu devoto, sem que teu coração imite o Meu, toda a tua piedade será apenas mera atitude exterior.

Não há esperança de perfeição, se não tomares por modelo o Meu Coração.

4. Assim foi desde o princípio do mundo, pois já a Lei Antiga prenunciava quais seriam os sentimentos do Meu Coração, e ninguém foi admitido entre os eleitos, sem ter impressas no seu coração as qualidades do Meu.

Desde o início da Igreja até hoje, sempre foi o Meu Coração a santificação dos Apóstolos, a fortaleza dos Mártires, a constância dos Confessores, a pureza das Virgens, a perseverança dos Justos e a perfeição de Todos os Santos.

Coragem, pois, meu filho! Segue o Meu Coração para onde quer que Ele te conduza. Quanto de mais perto O seguires, tanto mais te aproximarás da perfeição consumada.

Da imitação do Meu Coração provém o cumprimento perfeito da Lei inteira e toda a santidade.

É sinal certo de predestinação o esforço assíduo para imitar o Meu Coração.

5. Discípulo. Ó doce Jesus, Fonte de vida e graça, animai-me com Vosso auxílio a estudar e imitar o Vosso Coração, norma de virtude e exemplar da santidade. Libertai o meu coração de toda ilusão ou empecilho. Fazei que Vos procure com afeto puro e simples, revestindo-me de Vossos sentimentos interiores e das disposições do Vosso Coração e assim assemelhando-me profundamente a Vós.

Ai, Senhor! Quão dissemelhante é o meu coração do Vosso! Quão pouco até hoje trabalhei para reproduzir em minha vida a vida do Vosso Coração!

Oxalá não me houvesse esforçado por perverter o meu coração e afastá-lo do Vosso! Ó cegueira e insensatez da minha alma! Compadecei-Vos de mim, Senhor Jesus, compadecei-Vos de mim segundo a grande misericórdia de Vosso Coração!

Quantos homens não viveram tanto tempo como eu, nem tiveram os mesmos meios, e todavia se santificaram, tornando-se fervorosos discípulos do Vosso Coração! E eu ainda não possuo sequer o início da santidade, pois sou pecador.

É tempo, Senhor, é tempo que comece a obra da minha santificação até hoje negligenciada. Anima-me e estimula-me o pensamento de que ainda posso santificar-me, tornar-me discípulo do Vosso Coração, distinguir-me por esse felicíssimo sinal de predestinação.

Levantai-me o ânimo, ó Bom Jesus, dai-me auxílio e coragem. Eis que agora vou começar.


4º Dia
Quarta-feira


Deve purificar o coração
quem deseja imitar
o Coração de Jesus

1. Jesus. Filho, se queres granjear a amizade do Meu Coração e gozar a inefável doçura da sua familiaridade, purifica de todo mal o teu coração.

Teu Amado, puro e sem mácula, compras-se entre os lírios.

Como poderá haver união entre Meu Coração e o teu, se não o purificares assiduamente?

Ai, meu filho! Que coração é o teu! Nascido no pecado, morada dos Demônios, poluído e deformado por tantas máculas, inclinado com veemência ao mal e tristemente afastado dos bens superiores, fomentando afeições desordenadas, geradoras de pecados, cheio do mundo e de si mesmo, habituado a considerar-se como fim de todas as suas ações!

2. É para admirar que ouses convidar-me a visitar um tal coração, a morar entre tantas imundícies.

O coração perverso me é abominável, o coração impuro provoca-Me náuseas. Como poderia comprazer-Me em tê-lo por morada? Busco um coração puro. Minhas delícias consistem em habitar nele e recrear-Me entre os lírios.

Por conseguinte, quem ama a pureza do coração gozará da Minha Presença e por experiência conhecerá a ternura e divina suavidade do Meu Coração.

3. Não te iludas, filho, julgando andar bem, quando teu proceder exterior é correto, visto ser principalmente o coração que Eu considero.

De que te servirá agradar pelo exterior a todas as criaturas, se no íntimo Me desagradares?

Se teu coração for puro, serás todo puro. Pois do teu íntimo procedem os maus pensamentos, impurezas, fraudes, detrações, enfim, todos os males.

Torne-se puro o teu coração, e nada te impedirá de alcançar suavemente a íntima união Comigo e saborear plenamente a doçura do Meu Coração. Se, porém, te afastares do mal apenas exteriormente e não extirpares do teu coração o pecado, nunca estarás isento de vícios. Mas estes propagar-se-ão dez vezes mais no teu íntimo do que os poderias evitar no exterior. E enquanto tua conduta externa parece irrepreensível, és oprimido sob o peso dos males internos.

4. Eia, meu filho, prepara-Me em teu coração límpida morada, e Eu, a ele vindo, serei todo teu e tu todo Meu. Haverá entre nós admirável intimidade e união só conhecida dos que a experimentaram.

Sê generoso e começa sem detença esta obra de tão grande importância. Não sentirás verdadeira alegria, enquanto não a completares.

A muitos o receio da dificuldade impede a perfeita purificação do coração. É astúcia do Demônio. Este antigo Inimigo da salvação humana, sabendo que da verdadeira e total purificação do coração dependem não só a tua salvação e perfeição, mas também a do próximo e principalmente a Minha glória, envida todos os esforços para impedi-la. Não prestes ouvidos às sugestões do artificioso Inimigo, a quem pouco importa obter o seu fim por meio de verdades ou mentiras.

Reza, porém, pede a graça divina e com ela põe virilmente mãos à obra. Verás todas as dificuldades dissiparem-se diante da tua intrepidez e até ficarás maravilhado, encontrando maiores consolações onde julgavas haver maiores obstáculos.

5. Discípulo. Rogo-Vos com instância, ó Senhor, criai em mim um coração puro e renovai no meu íntimo o espírito de retidão.4

Todo o meu coração está coberto de máculas. Sua infecção contaminou-me as faculdades da alma e os sentidos do corpo. Ai, Senhor! Que há em mim isento de mácula ou absolutamente puro? Enviai, eu vo-lo rogo, a luz da Vossa graça a iluminar-me o espírito, para que conheça e chore todos os males praticados e todos os bens omitidos.

Oh! Quanto me arrependo, ó dulcíssimo Jesus, de ter profanado indignamente a Vossa morada, de Vos ter ofendido, afligindo o Vosso Coração! Lamento, ó meu Sumo Bem, lamento e detesto todos os meus pecados. Confesso minha malícia e ingratidão, implorando a misericórdia do Vosso Coração.

Senhor, se quiserdes, podeis limpar-me. Lavai-Me, eu vo-lo rogo, da minha iniquidade e purificai-Me do meu pecado. E mesmo dos delitos ocultos e das faltas alheias, purificai-Me o coração.

Vinde, Jesus, vinde ao meu coração. Fazei um chicote com as cordas do santo temor, da viva gratidão e do puro amor, e expulsai todos os que profanam essa Vossa morada. A nenhum deles darei jamais entrada. Vossa casa chamar-se-á casa de oração; aí Vos hei de oferecer minhas homenagens e meu amor e entreter-me Convosco.


5º Dia
Quinta-feira


Nosso coração deve estar puro
principalmente do Pecado Grave,
que é o Mal Supremo.
 
1. Jesus. Acautela-te, meu filho, para que não haja em teu coração pecado mortal.

Como podes ou ousas amar ou hospedar em teu coração o Inimigo figadal que, uma vez admitido, indubitavelmente te fará escravo do Inferno, o mais miserável dos homens, mais vil que os próprios seres irracionais?

Muitos dizem: “Oh! Quantos males devastam a terra!” Contudo, há um só mal: o pecado. E fora dele não há outro mal.

Evita o pecado, e tudo o que te acontecer contribuirá para o teu bem.

2. É para admirar que um ser racional espontaneamente cometa o pecado, o qual, por natureza, é tão indigno e abominável que, mesmo se não houvesse Céu nem Inferno, deveria ser evitado por causa da sua fealdade intrínseca. Se considerares a infinita dignidade do ofendido e a imensa baixeza do ofensor, verás que o pecado é um mal em certo modo infinito.

Quem peca mortalmente ataca o próprio Deus e, se possível fosse, o destruiria. Pois não falta ao pecador a vontade de aniquilar o Deus do Céu e da terra.

3. Tão grande mal é o pecado que, para exterminar este monstro infernal e satisfazer à justiça divina, eu, Filho do Altíssimo, desci do trono da Minha Majestade. Fazendo-Me homem, sofri durante a vida contínuo martírio e finalmente expirei na Cruz, consumido de dores.

Homem infeliz! Como te apraz cometer o que tantos sofrimentos Me custou? Como queres, por um prazer momentâneo, renovar todos os Meus trabalhos, dores e morte acerbíssima?

Pelo pecado mortal, tornas-te réu de crime muito mais grave do que o dos judeus, Meus carrascos. Se estes Me houvessem reconhecido como o Senhor de eterna glória, nunca Me teriam condenado à morte. Tu, porém, conheces quem Sou e qual a Minha dignidade, pelos benefícios de Mim recebidos.

4. Não foi só por amor que, além de te haver criado, remido e conservado, sempre, qual o mais terno dos pais, te protegi, vigiei e afaguei?

Tudo o que és e tens, Eu te dei, e, acima de todos os dons, prodigalizei-Me a ti. E é assim que Me retribuis todos esses benefícios?

O animal irracional mostra-se grato pelo bocado de alimento que lhe atiras. Tu, porém, persegues-Me até a morte, embora te haja Eu concedido bens infinitos.

Considera atentamente o que deves pensar a teu respeito.

5. Ó filho da Minha eterna dileção, a quem amei mais que a própria vida, não tornes a pecar!

Se Me amas a Mim e mesmo se te amas a ti verdadeiramente, foge do pecado.

Quando cometes pecado grave, morres à vida sobrenatural, perdes todos os méritos adquiridos, anulas o direito à celeste herança, tornas-te co-herdeiro dos espíritos infernais, antepões a desgraça à Bem-aventurança, o Inferno ao Céu, o Demônio a Mim.

Medita nisso, meu filho, para aprenderes cabalmente, segundo a capacidade da tua inteligência humana, quão grande é a malícia do pecado. Destarte evitarás o único mal que te pode tornar eternamente infeliz.

6. Discípulo. Ó minha alma! O pecado, eis o mal supremo que desonra o homem, colocando-o abaixo dos irracionais, fecha as portas do Céu e abre os abismos do Inferno! Ó monstro abominável, mil vezes mais horrendo que o próprio Demônio! Ó meu Deus, sou obrigado a confessar, coberto de vergonha, que me tornei vil escravo do pecado. Com suma loucura, ingratidão e malícia, insultei frequentemente, pelo pecado, Vossa tremenda Majestade, que os próprios Anjos adoram cheios de temor.

Sinto-me profundamente confuso por me ter tornado mais vil que os seres irracionais, cometendo a iniquidade que a própria razão reprova, e abusando quer de todas as faculdades da alma, quer dos sentidos do corpo.

7. Ó Senhor Deus! Gravastes em mim Vossa amável imagem, e eu deformei-a, cobrindo-a com a hedionda efígie do Demônio, e de muitos modos tornei-me ainda mais horrível do que ele.

Pecou o Demônio por orgulho, quando nenhum castigo precedente o escarmentara. Eu, porém, conhecendo a pena do pecado, por desprezo pequei. Ele, só uma vez, esteve em estado de inocência, enquanto eu inúmeras vezes a recuperei. Ele se rebelou contra seu Criador, e eu contra o meu Redentor.

Mísero pecador, por um nada ou coisa mais vil que o nada, rejeitei espontaneamente a Vossa amizade, a feliz paz da alma, o direito à eterna Bem-aventurança. Entreguei-me como infortunado escravo ao Demônio, compartilhando desde agora sua desgraça e destinado a participar um dia dos seus eternos tormentos, se não me arrepender e encontrar misericórdia no Vosso Coração.

8. Na verdade, Senhor Jesus, não sou digno desta misericórdia, da qual tantas vezes abusei. Não sou digno de Vos servir, já que me escravizei ao Demônio. Se quiserdes tratar-me como mereci, minha morada será o Inferno.

Porém, ó Deus, meu Salvador, infinita é a misericórdia do Vosso Coração, como o provam meus próprios pecados; pois, se não fosse infinita, jamais teria suportado o mal infinito dos meus pecados. Ó Jesus, tende piedade de mim, segundo a Vossa grande misericórdia. Com instância peço indulgência e espero que perdoeis a este mísero pecador. Pesa-me sinceramente dos pecados cometidos e proponho firmemente servir-Vos dora em diante com fidelidade e amar-Vos com fervor.


6º Dia
Sexta-feira


Nosso coração deve estar Puro
mesmo do Mínimo Pecado

1. Jesus. Filho, purifica teu coração de toda culpa e evita com diligência a mácula, mesmo do menor pecado. Nada há, nada pode haver que nos torne lícito cometer um pecado, embora leve.

Se deste modo pudesses salvar o mundo inteiro, ainda assim seria ilícito ofender-Me mesmo na menor coisa, visto ser eu infinitamente superior ao universo.

Há pessoas que evitam pecados graves, mas sem escrúpulos cometem leves. O que é sinal evidente de se deixarem governar mais pelo amor-próprio do que pelo Meu amor.

Estes infelizes, porém, hão de conhecer, com prejuízo seu, quanto se iludiram.

2. O que despreza as coisas pequenas, aos poucos cairá nas grandes. Habituado gradualmente a julgar tudo leve, pensará andar bem, quando cometer, sem muito remorso de consciência, culpas maiores. Se apraz ao insensato caminhar à beira do precipício, com justiça acontecerá que, escorregando-lhe o pé, caia no abismo. Evita, por conseguinte, o pecado venial, se não queres cometer o mortal.

Exporás ao perigo tua salvação, enquanto consentires mesmo na mais leve culpa.

3. Muitos parecem sentir profundo horror de renovar a Minha morte com um pecado mortal. Contudo, não cessam de causar acerba amargura ao Meu Coração e afligi-lo com dores contínuas por meio de culpas leves.

Ah! Meu filho! Considera sempre mais e reflete atentamente no que fazes. Querendo causar apenas leve ferimento ao Meu Coração, talvez te enganes, como a muitos acontece, e com golpe mortal O transpasses.

Ó insensatez do coração humano! Muitos receiam mais ofender a um homem do que a Mim, seu Deus e Salvador.

4. Enquanto continuares a pecar, mesmo venialmente, andarás mal e não gozarás a verdadeira felicidade.

Se tens empenho, como convém, em alcançar a perfeição, hás de trabalhar em vão, por mais que a ela aspires, enquanto não evitares todo pecado voluntário.

Pois o pecado venial diminui a caridade, causa tibieza, corrompe os atos de virtude, obstrui a fonte das graças e socorros especiais, enfim, privando aos poucos a alma de todos os bens, deixa-a vazia.

5. Na maioria das vezes, por que se torna o homem culpado de tantos e tão grandes males, senão por causa de algum vão interesse ou prazer?

Reflete, porém, no real prejuízo que daí procede e nas graves penas a sofrer no Purgatório.

Aí se padecem tormentos maiores que todos os suplícios deste mundo e superiores a quaisquer males desta vida. E de lá não sairás, até haveres pago o último vintém.5

Com que veemência então te há de pesar haveres cometido mesmo o menor pecado, que sentirás ser a causa de estares ainda privado do Céu e sofrer severo castigo! Não queiras, meu filho, frustrar os desejos e esforços do Meu Coração para tornar-te feliz. Não sejas tão irrefletido que prefiras, contra a Minha vontade, ser infeliz.

6. Discípulo. Senhor, não é pequeno mal o pecado venial, pois, que ofende Vossa divina Majestade, fere Vosso Coração, priva a alma de graças e socorros especiais, impede o desejável progresso, corrompe o bem, abre caminho para a perdição, expõe a salvação à eterna ruína e fecha o Céu ao culpado.

E eu julguei pequenos tão grandes males! Oh! Que insensatez! E, o que é pior, cometi tais pecados sem número, sem medida, chegando ao excesso as minhas transgressões!

Onde tiveram termo? Quantas são as potências da minha alma, os sentidos do meu corpo, tantos são os gêneros de pecado. Quantos foram Vossos dons e benefícios, tantos foram meus abusos e ingratidões. A cada espécie de ocupação corresponde uma multidão de faltas. Ai, qual a minha ação, mesmo entre os exercícios de religião ou piedade, em que não se encontre defeito?

Ó minha alma! Cometemos tantos pecados por inadvertência, surpresa, fragilidade. Não deveriam bastar? Seria ainda necessário acrescentar a estes outros mais graves, provenientes de negligência, livre vontade, malícia?

Eis o que retribuímos ao Senhor, cuja bondade nos faz viver, a cujo amor devemos quanto somos e possuímos!

7. Ó Senhor Deus, meu Salvador! Se, pela gravidade e multidão de minhas culpas, não me perdi completamente, reconheço devê-lo à benignidade do Vosso Coração. Foram Vossas misericórdias, Senhor, que não me deixaram ser consumido.

Mergulhado no lodo, faltou-me a força, envolveram-me as trevas, desfaleceu-me o coração. Sempre mais me afundo e, em consequência da fraqueza, não consigo libertar-me. Quão grande é a minha miséria!

Oh! Quem me dará lágrimas aos olhos e vigor ao coração para chorar e mover-Vos, Senhor, a socorrer-me!

Tende piedade de mim, ó Bom Jesus, e livrai-Me; purificai-Me e renovai-Me totalmente.

Inflamai o meu coração no amor do Vosso Coração. Neste divino fogo, consumi as minhas faltas e não as reserveis para as chamas do Purgatório. Rogo-Vos seja eu aqui abrasado e purificado no fogo do Vosso doce amor, e não nas chamas expiatórias.

Dulcíssimo Jesus, por Vosso amor farei o que até agora não fiz por temor: por Vosso amor evitarei todo pecado, mesmo o mais leve.


7º Dia
Sábado


O coração do Pecador
não pode Provar senão a Amargura da Infelicidade

1. Jesus. Caríssimo filho, se chegares ao ponto que teu coração nada mais tenha a repreender-te, alegra-te. Ainda mais alegra-te, porque a paz, qual rio de felicidade, te inundará. O bom coração torna a alma ditosa, alegra o Céu, atemoriza o Inferno. Porém, o mau coração enche de infortúnio o pecador, inspira compaixão aos habitantes do Céu, causa aos Demônios iníqua alegria e exultação.

Imagina todas as calamidades possíveis neste mundo, nunca igualarás o número das que os pecadores trazem no coração.

Quão pesada e abjeta é a escravidão do pecador! Quantos laços fortíssimos o prendem sob o poder de vilíssimos senhores: o Demônio e as paixões tirânicas.

Nele a inteligência está ligada por crassa ignorância, que não o deixa conhecer a verdade. Sua vontade acha-se cativa de abominável malícia, que a impede de amar a bondade.

Traz os sentidos presos pelos vínculos da concupiscência, de modo a não seguir a honestidade. Todo oprimido ao peso das cadeias dos maus desejos, não consegue alcançar a suave liberdade da graça.

2. Quem haverá mais insensato que o pecador, sendo ele mesmo a causa da sua extrema miséria?

Se há na terra um inferno antecipado, certamente se encontra no coração perverso que, inflamado no fogo das paixões, padece todos os tormentos da má consciência.

Como pode jamais alegrar-se aquele que sabe que, se o frágil fio da sua existência se quebrar, terá de precipitar-se nas profundezas do Inferno?

Não sei como ousa entregar-se ao repouso noturno o que ignora se não há de despertar como réprobo na eternidade!

3. É impossível ao coração humano não desejar a felicidade. Mas o pecador, arrastado cegamente por inclinações indômitas e desenfreadas, busca a felicidade onde só encontra maior infortúnio.

Alguns parecem julgar que, satisfazendo seus desejos e contemplando-os plenamente, terão a paz, quando os virem realizados. Que grande erro!

Quem apaga um incêndio, lançando novos combustíveis no fogo? Não seria aumentá-lo em vez de extingui-lo?

Embora alguém sacrificasse às suas paixões a salvação da alma e a saúde do corpo, nem por isso estariam estas satisfeitas e clamariam: “Somos tuas, alimenta-nos!”

Oh! Se a todo olhar se patenteasse o coração do pecador, quantas misérias e horrendos objetos aí se veriam! Entretanto, para Mim todas as coisas são abertas e manifestas, e ninguém é capaz de enganar-Me, ainda que possa iludir os homens.

4. A tal ponto chega o coração escravizado aos maus hábitos que nada pensa, nada ama, nada acha delicioso a não ser o que pode contentar-lhe a concupiscência: destarte, sabendo embora que caminha para o abismo da desgraça, pouco lhe importa, e, como estólido animal, corre após seus maus desejos, conculcando não só os bens eternos, mas até a honestidade, a honra e a própria vida. Não carece o pecador de inimigo que o ofenda e atormente, pois ele mesmo é o seu maior inimigo e mais cruel verdugo.

Dos objetos em que busca seus deleites e satisfações, recebe em geral múltiplos tormentos.

5. Como pode gozar de paz, quem fomenta no seu íntimo causa de perturbações? Como pode, uma vez sequer, respirar livremente quem é escravo do Demônio?

Quão infeliz deve ser aquele em cujo coração Satanás tem permissão de dominar e estabelecer o seu trono!

Bem-aventurado quem jamais experimentou a escravidão do Demônio e nunca gemeu sob os grilhões do pecado!

Filho, se ainda não sentiste o infortúnio do estado de pecado, alegra-te com todo o Céu e jamais queiras experimentar o serviço do Diabo.

Se, porém, miseravelmente lhe estás sujeito, compadece-te de tua alma. Com ardor rejeita o ugo do Inimigo, rompe teus laços para gozar a liberdade dos filhos de Deus.

6. Discípulo. Ó Senhor! Quão grande infelicidade é o estado do pecador! Como ele é infeliz neste miserável estado! Qual poderá ser sua paz ou alegria, tendo por inimigo a Vós, o Onipotente, conhecedor de todas as coisas! Não ignora estar banido do Vosso Coração, seu último refúgio, e tem consciência de que a cada momento pode ser lançado no fogo eterno!

Como é infeliz a alma que não pode contemplar o Céu sem lembrar-se de haver perdido o direito de nele entrar! Se lança o olhar em torno de si, parece-lhe ouvir exprobrações e todo acontecimento a enche de terror. Se abaixa os olhos, tacitamente não pode deixar de recordar-se que o Inferno é sua morada.

Como é infeliz, por não poder voltar ao próprio coração, sem aí encontrar Satanás e os tormentos de um inferno antecipado, onde não há algo de alegria ou consolação, porém, só horror e trevas, temores e angústias!

Ó pobre alma! Como estás mudada do estado em que te achavas, quando, adornada com a graça celestial, nobilitada pela adoção divina, eras tão bela, tão sublime que causavas admiração aos Santos e Anjos!

Como o pecado te deformou, tornando-te toda abjeta e vil!

7. Ó Jesus! Quem me dera, mesmo à custa da própria vida, fazer com que tão miserável estado jamais houvesse existido! Oxalá nunca tivesse caído em tal desgraça e antes houvesse perdido a vida do que a tua graça!

Bem-aventurados os que jamais perderam a inocência, nem experimentaram a infelicidade do estado de pecado!

Restituí-me, eu vo-lo rogo, a minha primeira veste. Restaurai-me a inocência, para que Vos sirva em nova vida e a conserve imaculada perante Vós até ao fim dos meus dias.


Bônus
para a Novena


O Coração divino a Todos chama,
mesmo os Pecadores.

1. Jesus. Vinde a mi, todos os que padeceis e estais acabrunhados, e Eu vos aliviarei.6

Quem é justo, venha justificar-se ainda mais. Quem é tíbio, venha afervorar-se. Quem é pecador, venha purificar-se e santificar-se.

Ai da fragilidade humana! Qual é o homem que não tenha pecado? Quem disser não ter pecado, ilude a si mesmo, e a verdade não está nele.7

2. Meu filho, se te sentes carregado de pecados ou defeitos, corre ao Meu Coração, onde hás de recuperar liberdade e alento. Não te deixes atemorizar pelo número dos teus males ou pela grandeza da Minha Majestade. Não vim chamar os justos, mas os pecadores à penitência.8

Quanto maiores são as misérias a oprimir-te, tanto mais de ti Me compadeço, pois o que está mais enfermo, mais necessita do médico.

Não Me surpreendem tuas misérias, pois conheço teu coração e a frágil matéria de que és feito. Se não caíste em maiores males, principalmente o deves à Minha graça. Admiro-Me, porém, de que, oferecendo-Me Eu a curar-te, não o queiras, ou, se o queres, pareças duvidar da Minha bondade.

Ah, filho! Não faças tão acerba injúria ao Meu Coração, que se compraz em perdoar e não se cansa de fazê-lo.

Vê com que bondade trato os pecadores verdadeiramente arrependidos, a ponto de ser chamado Amigo dos pecadores!

3. Onde está o coração capaz de amar como o Meu Coração? Não há maior caridade do que dar a vida por seus amigos; Eu, porém, o Filho de Deus, excedi essa caridade, pois dei a vida por Meus inimigos.

Quem jamais foi o primeiro a amar-Me? Quem Me consagrou seus afetos, sem haver antes experimentado os efeitos da Minha dileção?

4. Sendo mui numerosos os que perdem a inocência antes de conhecê-la claramente ou apreciar-lhe o valor, a grande glória do Meu Coração consiste em triunfar dos seus corações e fazer dos pecadores santos.

Oh! Se conhecesses a caridade do Meu Coração, compreenderias com que ternura ama as almas fiéis e com que suavidade busca os pecadores.

Quem sofre, sem que o Meu Coração se compadeça? Quem peca sem causar-lhe mágoa? Quem se acha enfermo, sem que o Meu Coração lhe dê remédio? Quem é infeliz, sem que o Meu Coração o sinta? Quem há, finalmente, neste mundo que não deva benefícios ao Meu Coração?

5. Sou o Bom Pai que aos filhos gerados na Cruz abraço com o amor deste Coração que lhes permanece aberto, para encontrarem em todo tempo, não um asilo qualquer, porém, o próprio centro das Minhas afeições.

Enquanto dormem, vela o Meu Coração para guardá-los. Quando acordados, cuida da sua conservação.

Tão grande amor arde em Meu peito para com eles, que a cada um amo e acaricio como se fosse o único.

Se algum deles, seduzido pelo Inimigo, de Mim se aparta, doi-Me o Coração como pela morte de um filho único. Com amor acompanho o fugitivo; convido, insisto, prometo. Se, porém, não Me quer ouvir, tenho paciência e, permanecendo à porta do seu coração, bato com frequência.

Finalmente, se decide voltar a Mim, corro-lhe ao encontro para estreitá-lo ao peito, e o Meu Coração exulta por ver junto de si, são e salvo, o filho a quem pranteara como morto.

Cheio de alegria, convido todo o Céu a congratular-se e exultar Comigo.

6. Portanto, se queres confortar o Meu Coração, alegrar o Céu e refrigerar tua alma, volta a Mim de todo o coração.

Quer tenhas graves ou leves pecados, vem ao Meu Coração, onde encontrarás remédio para os teus males.

Confiança, meu filho, não temas. Chamo-te não para exprobrar-te, mas, sim, para apagar as tuas iniquidades.

Vem, filho, vem! Espero-te de braços abertos e com o Coração ardente.

7. Discípulo. Corro a Vós, cheio de confiança, ó dulcíssimo Jesus, animado pela imensa bondade do Vosso Coração.

Ao chegar, clamo, suplicante: “Recebei com clemência o filho pródigo que volta de região longínqua, acabrunhado de pecados e repleto de misérias.

Não sou digno de ser chamado Vosso filho, pois que tão indignamente Vos abandonei e com graves ultrajes Vos afligi.

Pequei contra o Céu e perante Vós. Culpado, não ouso lançar-me nos Vossos braços: eis-me a Vossos pés, prostrado no pó, apelando para o Vosso Coração paterno, para obter o perdão.

Vós me chamastes, quando de Vós fugia, buscastes-me, quando perdido, suportastes os abusos que fiz da Vossa bondade, com admirável doçura me incitastes a converter-me. Agora que volto neste mísero estado, não só me recebeis, mas ainda me acolheis nos Vossos braços. Ó Jesus! Não há pai semelhante a Vós!

Regozijem-se e alegrem-se Comigo todos os Anjos e Santos e juntamente louvem e exaltem para sempre Vossa misericórdia! Eis que agora sou perpetuamente Vosso. Com fidelidade Vos amarei, ó Senhor, e por Vosso amor cumprirei todas as Vossas vontades”.


O Sacramento da Penitência
é Meio Fácil e Eficaz para
Purificar dos Pecados e Vícios

1. Jesus. Filho, o Meu Coração, sabendo ser tal a fragilidade dos homens, que não podem viver na terra sem pecar, descobriu um meio salutar, pelo qual alcançam, se dele faze bom uso, não só a remissão do pecado, mas ainda aumento de graça.

Deus, segundo sua palavra, é fiel em perdoar os pecados aos que se confessam, e concede a graça aos que a pedem e procuram viver melhor.9

Que seria da maior parte dos homens, se não houvesse a Confissão? Quão poucos se salvariam! Quantos dos que gozam no Céu ou um dia lá chegarão, estariam condenados!

2. Eis por que dei à Igreja tal poder que àqueles a quem Ela perdoar os pecados, ser-lhes-ão perdoados, e àqueles a quem os retiver, ser-lhes-ão retidos.10

Por conseguinte, se a inveja, a incredulidade ou qualquer outro pecado penetrarem no coração de alguém, não se envergonhe de confessá-los ao Sacerdote, a fim de ser por ele curado graças à palavra de Deus e ao conselho salutar”.11

Se te afastaste da Confissão, considera em teu coração o Inferno, que em teu favor ela extinguirá. Ciente, portanto, que, após a primeira graça do Batismo, ainda há na Confissão segundo auxílio contra o Inferno, por que abandonas a tua salvação? Imagina antes a grandeza do castigo, para não hesitares em tomar o remédio”.12

Há, pela Penitência, remissão dos pecados embora laboriosa, quando o pecador lava com lágrimas o seu leito e não se envergonha de buscar o remédio a seu pecado, confessando-o ao Sacerdote do Senhor”.13

Para todos é desejável o remédio da Confissão, porque a alma é ameaçada por maior perigo do que o corpo, e aos males ocultos é necessário aplicar pronto medicamento”.14

Confessa-te, expele na Confissão toda a peçonha, e, em seguida, a cura será fácil. Receias confessar-te, quando, mesmo sem fazê-lo, não podes permanecer oculto? Deus onisciente exige a Confissão para libertar o humilde; condena o que não se confessa, a fim de punir o orgulho”.15

Confessa-te de modo que não voltes ao pecado. A Confissão é útil, quando o pecador, já confessado, cessa de praticar o mal que antes fizera”.16

Feita a Confissão, abstenhamo-nos de pecar; porém, a Confissão precede a remissão”.17

A Igreja, fundada por Cristo, dEle recebeu o poder de perdoar os pecados”.18

Os que não querem confessar os pecados, terão como justiceiro o mesmo Deus, que agora lhes é testemunha”.19

Não é necessário confessar publicamente os pecados. Basta declarar só ao Sacerdote em Confissão secreta, os delitos da consciência”.20

Portanto, a razão move e Deus obriga o pecador a confessar-se”.21

A Confissão é necessária ao pecador e, não obstante, convém ao justo”.22

De três modos é necessário confessar-se: sem disfarce, sem desculpa, sem demora”.23

O penitente deve acusar-se, perante o Sacerdote, com vivo sentimento de dor e firme propósito de emenda e cumprir as obras que lhe forem ordenadas”.24

Existe o Sacramento da Penitência, cuja matéria são por assim dizer os atos do penitente, que se distinguem em três partes: a primeira e a dor do coração, a segunda, a Confissão oral, a terceira, a satisfação”.25

Eis, filho, como desde o princípio, os fiéis de todos os tempos e lugares do mundo, veneraram e praticaram este doce e salutar Sacramento.

3. Que há de melhor do que confessar-se devidamente? Pela Confissão o homem liberta-se das culpas, reconcilia-se Comigo, recebe a paz do coração. Antes sentia-se torturado pelas angústias, depois vê-se tranquilo e feliz.

O Sacramento da Penitência é o remédio da alma. Cura-lhe os vícios, afugenta as tentações, destrói as ciladas do Demônio, infundi nova graça, aumenta a piedade e consolida sempre mais a virtude.

Pela Confissão a alma readquire seus direitos perdidos pelo pecado, e recupera a beleza deformada pela iniquidade.

4. Acontece, porém, que o pecador, ao aproximar-se deste Sacramento da divina misericórdia, movido pela vergonha ou pelo temor, se precipita no abismo do sacrilégio, e agora não só é pecador, porém, um horrendo monstro de pecado.

Acaso poderás, homem execrando, esconder-te de Mim? Conseguirás impedir que Eu te lance no profundo abismo por ti mesmo cavado?

Tu sacrilegamente ocultas pecados ao Confessor, a quem as mais severas leis divinas e humanas obrigam a eterno e absoluto silêncio! Eu, porém, os manifestarei em tua presença, não a um só homem, nem a uma só nação, porém, ao Céu e à terra e a quantos seres existem. Então, no cúmulo da vergonha, chamarás os montes a cobrir-te e subtrair-te à confusão. Quiseras mesmo esconder-te no Inferno, mas não o poderás e terás de sofrer abertamente toda a merecida confusão e ignomínia.

Homem insensato! Não tiveste pejo de pecar para tua perdição e ignomínia, por que o terás de confessar-te para tua salvação e glória?

Ora, reflete: Por que hás de hesitar em manifestar tua consciência àquele que foi estabelecido por Mim como Meu representante junto de ti?

Quando te apresentas como penitente, deves considerar o Confessor como a Mim mesmo, porque então ele representa Minha Pessoa e possui o Meu poder.

Demais, ele é homem e tem suas misérias que deve igualmente confessar como tu, sendo-lhe esta acusação tanto mais difícil por estar obrigado a maior perfeição, em razão de seu sublime estado.

Por isso, Deus, em sua sabedoria e santidade, decretou que todos, tanto os Sacerdotes como os leigos, fossem obrigados à Confissão, se quisessem livrar-se de pecados graves. É mesmo conveniente que os Sacerdotes, cujas sagradas funções exigem absoluta santidade, se purifiquem das mais leves culpas pela Confissão frequente.

Por esse motivo, também os leigos se confessam com a maior liberdade e confiança aos Sacerdotes, e estes aprendem por experiência a compadecer-se das misérias alheias, a sentir a debilidade dos fracos e a chorar com os que choram.

5. Há pessoas que se confessam com simplicidade, porém, não se corrigem realmente, porque não se esforçam com sinceridade por emendar-se.

Uns aproximam-se do Sacramento da Penitência por necessidade, outros, levados por respeito humano ou por certo hábito. Não é, pois, de admirar que pouco ou nenhum fruto colham.

Tu, Meu filho, tendo em vista tua salvação e Meu beneplácito, faze cada Confissão como se fosse a última da tua vida, e hás de experimentar os seus maravilhosos e suaves efeitos.

6. Todavia, conhecendo-te a ti mesmo, é necessário saberes que muitas vezes serás impelido a cometer os pecados de que te arrependeste com o propósito de evitá-los.

Não desanimes, porém, filho, nem te entristeças em demasia. São efeitos, não da malícia, mas da fragilidade, e constituirão faltas antes indeliberadas do que voluntárias. Nisso, entretanto, aprende a conhecer a benignidade do Meu Coração, sempre pronto a perdoar, e a miséria do teu, sempre propenso a arrastar-te com frequência ao mal. Contudo, não descures a Confissão, por causa destas fraquezas. Quanto mais fraco te sentires, tanto mais a ela deves recorrer.

7. Alguns receiam a Confissão e dela trêmulos se aproximam.

Mas, se tanto os maiores pecadores coo os maiores Santos aí encontram consolação, por que te atormentas com ansiedade? Aí os mortos revivem, e os vivos recebem vida mais abundante. Tu, porém, por que tremes, como se caminhasses para a morte ou ao suplício?

Enganas-te, Meu filho, enganas-te. Não para tormento, mas para consolo, foi instituído este Sacramento salutar.

8. Deixa-te de agitação e ansiedade. Sou o Deus não da perturbação, mas da paz; deleito-Me com a boa vontade e não com a inquietação de espírito.

Faze o que de ti depende, e confessa-te, como podes, com sinceridade. Em seguida, permanece em paz, e não te perturbes com as sugestões do Inimigo ou da imaginação.

Meu Coração, filho, é o refúgio dos pecadores. Quantas vezes alguém recorrer a Ele com humildade e contrição, não o repelirei com desprezo.

Cheio de confiança, mergulha-te com frequência nesta divina fonte em que o Meu Coração lavará tua alma em seu Sangue, até torná-la inteiramente limpa e pura.

Seja-nos permitido citar como exemplo, o fato admirável e consolador, que se lê na vida de Santa Maria Madalena de Pazzi. Certo dia, esta Santa virgem achava-se na igreja do seu mosteiro, à hora das confissões, e expandia o coração perante Jesus presente no Tabernáculo, absorta nas divinas comunicações. Subitamente, notou que o mundo espiritual de algum modo se lhe patenteava. Via o estado de cada alma, ao confessar-se. No momento da absolvição sacramental, porém, contemplava o Sangue divino de Jesus correndo misticamente sobre a alma e lavando-a de tal modo que se tornava extraordinariamente pura e bela. Se tal é o efeito de uma só Confissão, qual não será o da Confissão frequente! Se a alma se torna tão pura e bela, lavando-se uma só vez no Sangue do Coração de Jesus, que lhe é aplicado no Sacramento da Penitência, quais não serão sua pureza e formosura, se com frequência se purificar. Se os tecidos de linho cru e ainda encardidos se tornam, com repetidas lavagens, não só limpos, mas até mesmo, alvos como a neve, acaso a alma purificada constantemente no Sangue divino de Jesus não ficará, por fim, toda pura e inefavelmente bela? Certamente este piedoso pensamento pode aumentar-te o amor pelo Sacramento da Penitência e, ocupando-te suavemente o espírito, consolar-te imensamente ao recebê-lo.

9. Discípulo. Ó Bom Jesus, que invenção salutar e consoladora de Vosso Coração! Que estupenda condescendência e admirável suavidade, fazerdes do Sangue emanante do Vosso Coração, o divino lavacro que nos purifica dos pecados!

Não houvesse Vosso Coração descoberto este segredo, repleto de toda consolação, quem jamais o teria imaginado? Que seria de nós, que seria de mim, se não o houvesses manifestado?

Graças Vos rendam comigo, ó dulcíssimo Jesus, todos os Anjos e Bem-aventurados, a universalidade dos povos e línguas, pela Instituição deste Sacramento de força vital e santificante, que salva os habitantes da terra e enche o Céu de numerosos Santos!

A fim de não abusar de tão grande benefício e dele colher todo fruto desejável, confessar-me-ei não só constantemente, mas com diligência. Como se me preparasse para a morte, farei sempre, antes da Confissão, atos de verdadeira dor e bom propósito, em paz, porém, e ao mesmo tempo com sinceridade. Falarei ao Confessor com a mesma candura com que Vos falaria, se estivésseis visível a meus olhos. Atenta e devotamente cumprirei quanto antes a penitência imposta. Finalmente, esforçar-me-ei por ser grato e viver para Vós com novo fervor e coração mais puro.

Ó Jesus! Quão grande é a consolação e a doçura que experimento quando, neste Sacramento da Vossa misericórdia, minha alma se lava e purifica no Santíssimo e ilibado Sangue do Vosso Coração! Lavai-Me muitas vezes, eu vo-lo rogo, e ficarei completamente limpo. Lavai-Me ainda mais e tornar-me-ei mais alvo que a neve.


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________________________
1Rev. Pe. Pedro Arnoudt, S.J., “A Jesus os Corações ou Imitação do Sagrado Coração de Jesus”, 1ª Parte, Caps. III ao X, e, XII, pp. 29-55.59-67; Editora Vozes Ltda, Petrópolis-RJ, 1941.
2Santo Agostinho.
3Rom. 8, 29.
4Salm. 50, 12.
5Mt. 5, 26.
6Mt. 11, 28.
7I Jo. 1, 8.
8Lc. 5, 32.
9I Jo. 1, 9; 5, 14.
10Jo. 20, 23.
11São Clemente, no I século.
12Tertuliano, no II século.
13Orígenes, no III século.
14São Lactâncio, no IV século.
15Santo Agostinho, no V século.
16São Fulgêncio, no VI século.
17Santo Isidoro, no VII século.
18São Beda, o Venerãvel, no VIII século.
19Halmo, no IX século.
20Luitprando, no X século.
21São Pedro Damião, no XI século.
22São Bernardo, no XII século.
23São Boaventura, no XIII século.
24Tauler, no XIV século.
25Concílio de Florença, no XV século.

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