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"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

domingo, 10 de dezembro de 2017

Singulares Homenagens à Imaculada Conceição de Maria


de um Poeta Excepcional


Estamos na pequena cidade de Ariano di Puglia, na atual Província de Avelino, no ano de 1823.

Havia ali um rapaz de 12 anos, analfabeto, possesso do Demônio.

Todos os remédios foram baldados. Recorreu-se ao exorcismo da Igreja. Ora, achando-se presentes aos exorcismos os Padres dominicanos Gassiti e Pignataro, estes, não sem inspiração do alto, impuseram a Satanás, que em Nome de Deus, provasse teologicamente, com um Soneto de rimas acertadas, a Imaculada Conceição da Mãe Celeste, que naquele tempo tão disputada, apesar dos irrefragáveis argumentos dos Santos e dos Doutores, máxime de Santo Afonso.

O Demônio compôs e recitou então, pela boca do ignorante possesso, o Soneto abaixo, improvisado e de admirável exatidão teológica. Provou assim, ao mesmo tempo, a sua estada no rapaz, o poder da Igreja e a certeza do grande privilégio de Maria.

Eis como, com as duas rimas “Mãe” e “Filho” aquele genial e singular poeta do Inferno fez falar a Maria:

“Sou verdadeira Mãe de um Deus, que é Filho,
E sou sua Filha ainda, ao ser-lhe Mãe;
Ele de eterno existe, e é meu Filho,
E eu nasci no tempo, e sou sua Mãe.

Ele é meu Criador, e é meu Filho,
E eu sou sua criatura, e sua Mãe;
Foi divinal prodígio, ser meu Filho,
Um Deus eterno, e ter a mim por Mãe.

O ser da Mãe, é quase o ser do Filho,
Visto que o Filho, deu o ser à Mãe,
E foi a Mãe, que deu o ser ao Filho.

Se pois do Filho, teve o ser a Mãe,
Ou há de se dizer, manchado o Filho,
Ou se dirá, Imaculada a Mãe”.

Trinta anos mais tarde, em 1854, Pio IX promulgou, na majestade de seu poder Supremo e de seu Magistério infalível, entre as aclamações do Céu e da terra, o Dogma da Imaculada Conceição de Maria Virgem. Estabeleceu também a festa para o dia 8 de Dezembro e ordenou, sob pena de exclusão do Reino de Deus, que todos acreditassem no grande privilégio de Maria.

No mesmo ano foi apresentado ao Venerável Pontífice da Imaculada, o Soneto composto no Inferno, em honra da pureza virginal de Maria. O piedoso Pontífice, profundamente comovido, chorou ao ler os versos do excepcional poeta da Imaculada.

Jaculatória: Ó Maria, concebida sem pecado, rogai por nós, que recorremos a Vós.

30 Anos Depois


El caso muy especial de Antoine Gay (1790-1871)
  
"La reputación del santo cura de Ars era tan grande y esta localidad se hallaba tan próxima a Lyon que hubiera sido muy sorprendente que Antoine Gay no fuera presentado al abate Vianney. De hecho fué a Ars en 1853 y prolongó su peregrinaje durante quince días. Al hacer esto obedecía al arzobispo de Lyon, monseñor de Bonald en persona, quien había dicho al señor Goussard, uno de los familiares de Gay: 'Lo llevará usted donde el cura de Ars y se quedará allí varios días con él'. El señor Houzelot, siempre atento al caso Gay, era de la partida. Esto ocurría a fines de noviembre. El domingo próximo siguiente, cuatro de diciembre, la humilde parroquia de Ars celebraba la fecha de la Inmaculada Concepción.

No olvidemos que el dogma de la Concepción Inmaculada de la Virgen no estaba todavia proclamado. Debía serlo el 8 de diciembre de 1854. Se produjo - volviendo a Ars - un acontecimiento inesperado. Antoine Gay, arrodillado al pie de la imagen de la Virgen, con los brazos en cruz y los ojos llenos de lágrimas, pronunciaba una declaración solemne, que, con toda evidencia, emanaba del espíritu infernal que estaba en él, puesto que Antoine Gay no tenía una formación teológica suficiente para que del fondo de su alma saliera un discurso tan impresionante:

'Oh, María! Oh, María! Obra maestra de las manos divinas! Tú eres lo que Dios ha hecho de más grande.

Criatura incomparable, tú eres la admiración de todos los habitantes del Cielo; todos te honran, todos te obedecen y te reconocen por la Madre del Creador. Tú has sido elevada por encima de los ángeles y de toda la Corte celestial; estás sentada junto a Dios, eres el Templo de la divindad, has llevado en tu seno todo lo que hay de más fuerte, de más grande, de más poderoso y de más amable! ... María, has recibido en tu seno virginal a Aquel que te ha creado, eres Virgen y eres Madre; no hay nada que pueda comparársete. Después de Dios, tú eres todo lo que hay de más grande; tú eres la Mujer fuerte; tú sola das más gloria a Dios que todos los habitantes del Cielo juntos…

En ti no ha habido jamás ninguna mancha. Que todos los que digan que no eres Virgen y Madre sean excomulgados; tú has concebido sin pecado, tú eres inmaculada!…

Te alabo, oh, María! Pero todas las alabanzas que te doy remontan a Dios, el Autor de todo bien!... Después del corazón de tu divino Hijo, ninguno hay que pueda ser comparado al tuyo. Oh, corazón bueno! Oh corazón tierno! No abandonas ni siquiera a los más ingratos y los más culpables de los mortales! Tu corazón está penetrado de dulzura para con los miserables que no merecen gracia ni misericordia; los infames pecadores son convertidos por ti!

Ah, si los habitantes de la tierra te conocieran! Si supieran apreciar tu ternura, tu poder, tu bondad, ninguno perecería! Todos los que recurren a ti con una entera confianza y que te rezan continuamente, sea cual fuere el estado en que se hallan, tú los salvarás y los bendecirás eternamente... Me veo obligado a humillarme a tus plantas y a pedirte perdón por todos los ultrajes que hago soportar al poseído!

Confieso hoy, día de una de tus fiestas más solemnes del año, que tu divino Hijo me obliga a decir que ésta es la más solemne de todas tus fiestas'.

Así habló Isacaron, Demonio de la impureza, por boca de Antoine Gay, y sus palabras fueron rocogidas por el señor Houzelot, del cual las hemos extraído. Y comprendemos mejor, depués de esta confesión obligada de un Demonio, que María, cinco años más tarde, haya dicho a Bernadette quien, suplicante, le preguntaba su nombre: Soy la Inmaculada Concepción!

El abate Toccanier, auxiliario del cura de Ars, estaba presente cuando las memorables alabanzas a la Virgen fueron proclamadas por Isacaron en la forma que acabamos de consignar.

Houzelot tuvo la idea de pedirle a este último que le dictara más lentamente lo que acababa de decir, con el fin de anotar sus palabras, e Isacaron accedió. El abate Toccanier no podia ocultar su emoción. 'No existe nada comparable si no es en los Padres de la Iglesia', dijo a los presentes, con respecto a la larga proclamación del Demonio. Quiso, por lo demás, tener con éste una discusión teológica sintética, otro dia, y quedó estupefacto de la seguridad de las respuestas que le fueron hechas en las más pura ortodoxia"(Monseñor Cristiani, "Presencia de Satán en el Mundo Moderno", Cap. IV, pp. 81-83; Ediciones PEUSER, Buenos Aires, 1962).

Oração do Dia

Ó Deus, que pela Imaculada Conceição da Virgem preparastes para Vosso Filho digna morada, nós Vos suplicamos humildemente que, assim como, em atenção aos merecimentos desse mesmo Filho, Vos dignastes preservá-La de Toda a mácula, nos concedais igualmente, por Sua intercessão, a graça de chegarmos a Vós limpos do pecado. Pelo mesmo Nosso Senhor Jesus Cristo. Amém!

Sub tuum praesidium

À Vossa proteção nos refugiamos, ó Santa Mãe de Deus; não desprezeis as nossas súplicas em nossas necessidades; mas livrai-Nos sempre de todos os perigos, ó Virgem gloriosa e bendita.


sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Sobre a Conceição de Maria Santíssima


Para o Dia 8 de Dezembro

De qua natus est Jesus.
Maria, de quem nasceu Jesus.
(S. Mat., 1, 16).

Ser Maria aquela, que abrangeu em Seu ventre o que é Imenso; ser Ela a que deu ao mundo um Redentor Divino; ser Ela Filha, Esposa e Mãe do Seu mesmo Deus, ser Ela de quem nasceu Jesus – De qua natus est Jesus; eis aqui o mais alto grau a que podia ser elevada uma filha de Adão; eis aqui uma qualidade altíssima, que não podia unir-se em Maria com a Culpa Original. Não, irmãos meus, a Primogênita do Eterno não podia ser em tempo algum o objeto do Seu ódio; a Mãe de um Deus Santíssimo não devia contrair alguma culpa; a Esposa de um Deus Santificador devia ser santificada em todo o tempo; a Libertadora da nossa escravidão não devia arrastar as nossas tristes cadeias; a Vencedora da Serpente não convinha ser ferida de suas setas; Maria, finalmente, não devia contrair a Culpa Original.

Como não podemos negar a glória de ser Mãe de Deus, devemos por isso mesmo acreditar, que Ela foi concebida em Graça, e que desde o primeiro momento da sua Conceição Ela foi pura, imaculada, isto é, isenta do Pecado Original. Os Santos Padres assim o tem acreditado e ensinado; e a Santa Igreja finalmente assim o definiu há pouco como Ponto de Fé, a que não podemos faltar. Não espereis pois, que eu hoje venha provar-vos um Dogma ultimamente definido; falando o Oráculo da Verdade, nada mais é preciso; a vossa mesma piedade e devoção para com Maria, invocando-A e festejando-A como pura e imaculada desde a sua Conceição, me escusa disto mesmo. Eu me contento somente de mostrar-vos a singularidade da Graça Original em Maria, ou, o grande privilégio com que o Criador a enriqueceu na sua Conceição. Quanto Ela foi feliz desde sua origem, e quanto nós somos infelizes, eis o que mostrarei. – Eu principio.

Para formarmos alguma ideia da singularidade da graça, que santificou a Maria na sua Conceição milagrosa, é necessário conhecermos a desgraça do Pecado Original, de que todos nascemos réus, e de que o Senhor excetuou esta feliz Criatura. Ah! Que horroroso espetáculo exporia eu aos vossos olhos, se pudesse descrever com clareza a deformidade enormíssima deste monstro detestável! Ele é um dragão venenoso, que nutrindo-se conosco desde o ventre de nossas mães, nos despedaça as entranhas com mordeduras mortais; é uma maldição inevitável, a qual, contraído logo desde o princípio da nossa existência, nos faz objetos odiosos do nosso Deus, indignos das suas graças, e excluídos do Reino do Céu; é um contágio universal, que infeccionando toda a humanidade, chama sobre ela as enfermidades, as paixões, as desgraças, e finalmente, a morte; em poucas palavras, é aquele primeiro pecado de desobediência, que Adão e Eva cometeram, e que todos nós deles herdamos como filhos ou descendentes, e que desgraçou a eles e a toda a sua descendência.

Fatal herança, quem poderá escapar-te? Virgem Santa, quem senão Vós, que fostes criada para ser Mãe do vosso mesmo Criador, e que não tendes semelhante na vossa origem, e que sois Bendita entre todas as mulheres, quem senão Vós poderá ficar isenta de tão perniciosa lei?


Mas, com efeito, ainda que no princípio da nossa origem, logo que somos concebidos no ventre de nossas mães, ficamos todos sendo réus do pecado, escravos do Demônio, marcados com o seu selo; Maria sem exemplo é concebida em Graça, e entra no mundo cheia de inocência e santidade; o seu mesmo Criador por um raro privilégio a susteve nos Seus braços para não cair na massa da perdição; no mundo apareceu uma nova Criatura dotada desde a sua Conceição, das melhores perfeições por um raro privilégio. Infernal Serpente, enganadora de uma incauta Eva, confunde-te com a existência desta nova Criatura, foge, foge envergonhada para esses abismos de tormentos; tuas forças e teu poder não tiveram parte em Maria; tuas duras cadeias não prenderam esta Virgem; se procuraste com uma só lança ferir toda a humanidade, se pensavas ganhar num só combate todas as vitórias, aterra-te, ainda digo, pois, é Maria quem alcançou sobre ti uma completa derrota; é Maria a quem não prenderam teus laços; é Maria, finalmente, que te esmagou a cabeça, e abateu tua soberba – Ipsa conteret caput tuum.

Maria é sim essa valorosa Judite, que confundiu e derrotou o soberbo Holofernes do Inferno; Maria é a única que não arrastou seus ferros. E que glória esta para Maria! Que glória para Ela, alcançar uma completa derrota de tamanho Adversário! Que glória para esta Virgem, confundir logo no princípio da Sua existência um Inimigo, que tinha zombado do mundo todo! Ah! O Demônio tinha subjugado ao seu império toda a descendência de Adão, mas só esta Virgem pode escapar-se à tirania de seus ferros; tudo havia sucumbido às leis deste soberbo vencedor, mas só esta forte Torre de Davi despreza as suas bandeiras. O soberbo Assuero tinha condenado à morte todo o povo hebreu, mas uma formosa Ester é excetuada deste decreto; todos somos concebidos em pecado, réus e escravos do Demônio; Maria tão somente é excetuada desta lei. Que privilégio, que glória para Maria!

Ah! Todos os demais privilégios, todas as demais graças que o Senhor lhe concedeu, por muito grandes que sejam, não excedem, nem chegam a este dom da sua Conceição Imaculada; é esta uma graça onde não tem chegado alguma criatura humana: Ela, ainda que procedida de um princípio imundo, de uma carne corrupta, como nós outros, é concebida e criada por Deus toda bela como a brilhante aurora; saindo do meio das trevas da obscura noite da culpa, apareceu toda luminosa: começando a existir entre os espinhos do pecado, é uma Rosa sempre cheirosa, agradável e imarcescível; entre a nossa natureza toda estragada por causa de Adão e Eva, veio esta Flor toda bela, toda formosa e graciosa.

Virgem Santa, criatura imaculada, formosa Filha de Jerusalém, a quem Vos compararei? Ai! Se a fé não me ensinasse que há Um só Deus na essência, e Trino em Pessoas, eu diria com São Dionísio, que Maria era uma segunda Divindade – Nizi unam tantummodo Divinitatem esse crederem, hanc mulierem Divinum esse dicerem. Mas, não larguemos os voos do nosso pensamento mais acima do que deve ser; basta dizer que Maria pela sua Conceição Imaculada excede a tudo quanto é criado, e que assim como o sol brilha entre todos os demais astros, também Ela resplandece e sobressai a tudo quanto é grande diante de Deus: Ela é um Castelo fortíssimo, uma Torre inexpugnável, que nunca pagou algum tributo ao Demônio, diz S. Tomás de Vilanova, isto é, nunca cometeu pecado, nem houve momento desde a sua Conceição em que estivesse no poder do Demônio – Ecce castellum fortissimum, ecce turrim inexpugnabitem, quae nunquam diabolo praestitit tributum.

Oh! Quanto pois Maria é feliz desde o primeiro instante da sua existência! E quanto nós todos somos infelizes, desgraçados desde o primeiro momento em que fomos concebidos no ventre de nossas mães! Maria é concebida em graça, e nós em pecado mortal; Maria apenas começa a existir, é livre do poder do Demônio, e nós desde o primeiro momento da nossa existência começamos a ser escravos do seu infame poder; Maria desde então Santíssima, perfeitíssima, sumamente agradável a Deus, e nós desde o primeiro instante da nossa criação, pecadores, miseráveis, feios e desagradáveis aos olhos de Nosso Senhor: que diferentes sortes! Que desgraçada condição humana! Mas desta infeliz sorte, fomos por Deus resgatados nas sagradas águas do Batismo; então o nosso Divino Criador por meio desse Santo Sacramento, nos livrou da escravidão do Demônio, e lavou nossas almas dessa mancha do pecado; então ficamos cheios de graça e inocência, amados de Deus, agradáveis aos seus olhos, e herdeiros do Seu Reino do Céu; enfim, pela sua infinita misericórdia ficamos sendo seus filhos, e inteiramente felizes pela Graça da Regeneração. Mas esta graça e felicidade tornamos a perder por nossa culpa, se cairmos em pecado mortal, e ficamos depois, ainda mais infelizes e desgraçados do que da primeira vez, porque fomos infiéis às nossas promessas, e ingratos ao nosso bom Deus.

Sim, irmãos meus, o pecado é Original e Pessoal; o Original, é aquele com que somos concebidos no ventre de nossas mães, e que nos vem de nossos primeiros Pais, Adão e Eva como origem, e de que só Maria Santíssima ficou livre por um raro privilégio; o pecado Pessoal, é aquele que comete a própria pessoa, ou o que nós praticamos depois do uso da razão. Do Original somos livres pelo Batismo, como já vos disse; e se morrermos sem sermos batizados não poderemos ir para o Céu, nem também sofreremos as penas do Inferno, porque o Pecado Original não é cometido por vontade própria. Mas, se depois do Batismo e do uso da razão nós cometemos algum pecado mortal, ao qual não damos remédio pela Confissão e Penitência, não poderemos também ir ao Céu gozar a Deus, iremos sem remédio algum ao Inferno padecer tormentos eternos; porque este pecado jé cometido por nós, por vontade própria, por malícia pessoal, de que não há desculpa diante de Deus.

Assim pois, se desgraçados éramos pelo Pecado Original antes de sermos batizados, muito mais desgraçados somos depois do Batismo, se cairmos em pecado mortal, que não remediemos. Estes pecados pessoais nos fazem muito mais aborrecidos de Deus, e merecedores de tremendos castigos pela nossa infidelidade e ingratidão. Sim, o sagrado Batismo além de ser um Sacramento de Regeneração, pelo qual somos lavados do Pecado Original, como já vos disse, é também, como dizem os Santos, um contrato que Deus faz conosco e nós com Ele. Deus promete, e nós prometemos; Deus obriga-se, e nós obrigamo-nos também; damos palavra pela boca de nossos Padrinhos como fiadores, estando presentes os Ministros da Igreja, testemunhas os Anjos e os homens; faz-se disto escritura, a qual se guarda no arquivo da Igreja e nos registros de Deus. O Senhor te colheu a palavra que tu deste no Batismo, diz por isso Santo Ambrósio, escrita está não no livro dos mortos, mas sim, no livro dos vivos; diante dos Anjos pronunciaste a tua obrigação, não a podes negar.

E que nos prometeu Deus no Batismo? Prometeu-nos o Céu, e obrigou-se a dar-no-lo, se O servirmos e amarmos, e se morrermos na Sua graça. Eis a promessa da parte de Deus, e  que de certo há de cumprir. E da nossa parte, que prometemos, e a que ficamos obrigados? Chegando a porta da Igreja, logo nos saiu ao encontro o Ministro do Senhor, o qual nos perguntou, ou aos nossos Padrinhos em nosso lugar:

– Que pedis à Igreja? – E logo responderam por nós: A fé.

– E a fé, que te dá? – A vida eterna, responderam mais.

– Se pois queres entrar na vida eterna, guarda os Mandamentos, disse o mesmo Ministro do Senhor – Si vis ad vitam ingredi, serva mandata. Logo o mesmo Sacerdote mandou ao espírito imundo ou ao Demônio sair fora da nossa alma; logo nos marcou com o Sinal da Cruz na testa, para que sempre nos lembremos da Cruz, e não nos envergonhemos de ser cristão; no coração, para que vivamos sempre com amor e afeto a mesma Cruz e Mortificação.

Tomando depois o Sacerdote um pouco de sal bento, o meteu na nossa boca, e nos disse, que recebêssemos o sal da sabedoria, isto é, que deveríamos saber as nossas obrigações e guardá-las, livrando-nos sempre da corrupção dos costumes e pecados, e que nunca tivéssemos fastio das coisas de Deus, e de O servir. Expeliu outra vez com o sal o Demônio para fora da nossa alma, e lhe mandou que nunca mais tomasse posse dela. Entrando nós na igreja, o mesmo Sacerdote nos fez duas cruzes nos nossos ouvidos para os abrirmos depois à Palavra de Deus, para A ouvirmos com atenção e aproveitamento, e no nariz o mesmo, para percebermos o cheiro da celestial suavidade. Apenas chegamos à Pia Batismal, logo aí nos perguntou o Ministro Sagrado:

– Renuncias a Satanás?

– E nós respondemos por boca de nossos Padrinhos: Renuncio.

– Renuncias também as suas obras?

– Cada um de nós respondeu: Renuncio.

– Renuncias as suas pompas?

– Do mesmo modo respondeu qualquer de nós: Renuncio.

– E logo depois se seguiu o Batismo, a ação mais solene e proveitosa para nós, pela qual a nossa alma foi lavada da Mancha Original em que fomos concebidos e nascidos, ficando logo filhos de Deus e com direito ao Céu.

Eis aqui, irmãos meus, a grande felicidade que nos veio pelo Batismo, onde começamos a viver para Deus, onde Ele nos concedeu tanta graça; nos prometeu tantos bens, e onde nós mesmos lhe fizemos tantas promessas, e contraímos tantas e tão santas obrigações. E dizei-me: vós tendes por ventura cumprido estas obrigações? Ah! De certo não. Deus não falta, nem faltará ao que vos prometeu; mas desgraçadamente tendes vós faltado, e faltais imensas vezes. E se não, dizei-me: que pedistes vós, e que prometestes quando chegastes às portas do templo para receberdes o Batismo? A fé; e prometestes guardá-la. E que tendes vós feito? Talvez a tenhais perdido de todo ou em parte, não acreditando quantos Dogmas a Santa Igreja vos manda; e se os acreditais, desacreditai-los pelo vosso péssimo procedimento.

Diz-me, cristão, pergunta São João Crisóstomo, em que poderei eu conhecer que tu és cristão e tens fé? Pelo lugar em que vives? Pelas tuas roupas? Pelas tuas palavras? Pelo teu sustento? Pelos teus negócios? Oh! Por nenhuma destas coisas se pode conhecer que és um verdadeiro cristão, ou que tens verdadeira fé, como pediste e prometestes; mas tudo pelo contrário. O lugar que buscas é o teatro, o baile, a casa da assembleia, a do jogo, a da prostituta ou concubina, a da mancebia, a taberna, o lugar do divertimento profano e da desmoralização. A roupa de que usas é uma roupa desnecessária, vestido de luxo, de vaidade, e além do mais, de indecência e sinal de desonestidade. As palavras de que te serves, são muita vezes pragas, juras, nomes injuriosos ao próximo, murmurações e palavras impuras. A comida e bebida de que usas é mais do que a necessária para viver, trabalhar e servir a Deus, um sustento demasiado e brutal, perdendo por isso a sobriedade, e até as vezes a saúde e o juízo. Os negócios em que te empregas são unicamente, ou mais que tudo, os negócios domésticos ou da tua família e do teu interesse temporal; e pouco ou nada no negócio da glória de Deus e da tua salvação.

Se queres gozar a vida eterna, guarda os Mandamentos, te disse mais o Sacerdote quando te batizou. E como os tens tu guardado? Muito mal. Não há talvez Mandamento que tenhas cumprido, nem algum que não tenhas profanado uma e muitas vezes com pecados, e até mortais; a Lei de Deus tem sido para ti coisa do menor preço e valor; a tua vida tem sido uma comprida cadeia de culpas, que chega daqui ao Inferno. Tens desmentido milhares de vezes as tuas promessas do Batismo. O Ministro do Senhor te lançou então fora da alma o Demônio; mas tu O deixaste entrar outra vez, pecando mortalmente, e talvez O tenhas deixado andar sempre contigo sem fazeres uma boa Confissão, nem te emendares. Marcou-te o mesmo Sacerdote com o Sinal da Cruz para viveres debaixo das bandeiras de Jesus Cristo, e passares uma vida mortificada, uma vida de Cruz, como discípulo de tão Santo Mestre.

Mas que vida é a tua, cristão? Não é vida de Cruz, é vida de delícias, porque em lugar de buscares mortificação para o teu corpo, só buscas gostos e prazeres, e só aborreces a Cruz ou a Penitência; tu até te envergonhas talvez de ser cristão, ou ao menos te envergonhas algumas vezes de fazer boas obras, obras de cristão, de fazer o Sinal da Cruz, de trazer o Escapulário de Maria ao pescoço, de pegar num Rosário ou numas contas, de fazer oração, confessar, comungar, de fazer estas e outras obras de cristão. Toda a vida de um cristão, se vive conforme o Evangelho, é uma vida de Cruz, diz Santo Agostinho. Porém, a tua vida é uma vida laxa, uma vida conforme as tuas paixões, e cheia de preguiça e vergonha para seguir as lições de Jesus Cristo, e só diligente e de pouca vergonha para seguir as coisas do mundo, do Demônio, da carne. Lançou-te o Sacerdote do Senhor o sal bento na boca para gostares da verdadeira sabedoria, para depois procurares saber as tuas obrigações que contraias, para te livrares da corrupção dos maus costumes, e para não te enfastiares das coisas de Deus. Mas tu nem sabes, nem procuras saber o que te convém para a salvação; nem buscas um bom Diretor ou Mestre que ensine; antes buscas Confessores passageiros, que te deixem na ignorância, que não te mostrem o que deves fazer, que por tudo te passem e te deixem viver conforme as tuas paixões; e assim, em lugar de te livrares da corrupção do pecado, vives cada vez mais empestado, enfermo na alma, cada vez pior. Se aparece, porém, ou encontras algum Confessor que te expõe a verdade, e te quer livrar do pecado e do Inferno, apertando mais algumas coisas contigo, demorando-te a santa absolvição, fazendo-te entrar em Confissão Geral, ou mandando-te fugir da ocasião, restituir o alheio e fazer, finalmente, o que deves, logo te aborreces, foges dele, e não tornas a buscá-lo.

Se aparece algum pregador, que com eficácia te expões a gravidade das tuas culpas, e te quer conduzir ao Céu, não o queres ouvir, ou ao menos te enfastias de o escutar; nem uma Prática, nem um Catecismo queres ouvir, ficando muitas vezes fora da igreja; tudo, tudo quanto é Palavra de Deus e para tua salvação te aborreces, te causa fastio, e por isso nunca saras dessa peste dos teus vícios, e nunca gostarás das delícias da vida eterna. Este soberano sal nada te aproveita, porque tens fastio de ouvir a Palavra de Deus, e pouco ou nenhum apetite da doutrina do Céu. Tardes e noites inteiras em uma comédia, assembleia ou baile e na casa do jogo ou da taberna, horas e horas a conversar, tudo isto te causa gosto e te faz parecer pouco tempo; e uma hora ou meia numa Prática ou Sermão, já te enfada, cansa e enfastia: ó gravíssima enfermidade, e execranda miséria! Tens na verdade o gosto estragado; não há sal que te cure; assim viverás e morrerás, e assim te condenarás ao Inferno.

Perguntou-te mais o Sacerdote, quando te batizou: “Renuncias a Satanás, às suas obras, e às suas pompas?” E tu pela boca dos teus Padrinhos, como fiadores às tuas promessas, respondeste, que a tudo isso renunciavas. Mas que tens tu feito? Tudo pelo contrário. Em lugar de renunciares o Demônio, tens seguido as suas tentações ou enganos, e tens feito quanto ele quer; em lugar de aborreceres as suas pompas, tens vivido com luxo e mais luxo, tens andado à moda, e com a maior vaidade. Estas pompas de Satanás, diz Santo Agostinho, São Jerônimo e outros Padres, são pompas do mundo, a ambição, a soberba, a vaidade, a superfluidade, a vanglória, em preciosas alfaias, em coches, em criados, em galas, em banquetes, em teatros e em jogos; são estas as pompas do Demônio, que tu renunciaste; mas são estas as que tens seguido, e segues desgraçadamente contra as tuas promessas.

A tudo renunciaste, e a tudo faltaste, fazendo o contrário. Ungiu-te depois o Sacerdote com o óleo, que era o símbolo da graça de Deus, que entrava na tua alma para sará-la da enfermidade do pecado, para moderar as tuas paixões, e fortalecer-te nas batalhas contra a tua salvação; mas nem isto te aproveitou; porque com a maior fraqueza te deixaste depois arrastar dos teus apetites, e tens caído em imensas misérias. Em seguida, foste logo batizado, lavada a tua alma nessas águas puras da tua regeneração, e ficaste logo filho de Deus, e com direito ao Céu; mas tudo isto perdeste pelo pecado mortal que depois cometeste; pela tua infidelidade a tantas promessas que fizeste, ficaste privado de tantos e tão grandes bens; ó miséria das misérias, ó grande infelicidade! A tua alma depois do Batismo ficou toda pura, mais branca do que a neve, mais formosa do que o sol; mas tu depois do uso da razão a manchaste com pecados mortais em que caíste por tua malícia, e a fizeste mais feia e horrorosa do que um Demônio, ficaste mil vezes pior do que antes do Batismo; Deus te aborreceu muito mais por causa da tua ingratidão ao benefício que te fez; e assim te tirará rigorosas contas das tuas infidelidades, da falta de observância das tuas promessas no Batismo, e te castigará com muito maior rigor.

Ele te dirá no dia do Juízo: “Tu no Batismo tomaste o nome de tal Santo ou Santa para imitar as suas virtudes; mas seguiste uma vida contrária: tu foste marcado com a Minha Cruz para levá-la com vontade e paciência, e seguir a mortificação; mas tu quiseste antes passar uma vida de delícias, e aborrecias tudo quanto era pena, dor e penitência, e te declaraste inimigo da mesma Cruz: tu recebeste o sal bento na boca para gostar da Palavra de Deus e te livrar da corrupção do pecado; mas tu te aborrecias de ouvir a sã doutrina, e te deixaste corromper dos vícios: tu renunciaste as obras e pompas de Satanás; mas seguiste depois tudo quanto ele te ensinou, as vaidades e modas infames: tu foste ungido com o óleo para te fortalecer contra as criminosas paixões, e tu cada vez te fizeste mais fraco: enfim, tu foste então batizado para ganhares o Céu, e tu mereces o Inferno”.

E que responderás ao Senhor? Como te desculparás de tantas infidelidades às tuas promessas no Batismo? Maria foi concebida em graça sem a menor mancha de pecado, por um raro privilégio, e foi sempre fiel a Deus; mas tu, se foste concebido em pecado, e nascido em pecado, Deus pela sua grande bondade te livrou no Batismo, e te fez seu filho e cristão, e a tua alma pura; mas tu como tens correspondido a tão bom Senhor? Por que tens faltado tantas vezes às promessas que Lhe fizeste, e desgraçado a tua alma? Oh! Envergonha-te, pecador, e muda de vida: até quando hás de abusar da bondade de Deus, que te resgatou no Batismo do poder do Demônio? Até quando hás de ser infiel ao que então Lhe prometeste? Olha que se antes de batizado eras desgraçado e infeliz pelo Pecado Original, agora mais desgraçado e infeliz estás pelos Pecados Mortais que tens cometido; olha que agora mereces de mais a mais o Inferno, se não lhes dás remédio. Este remédio, que agora te resta, é o Arrependimento com uma boa Confissão e com a Emenda.

Anda pois à Presença do Senhor chorar teus pecados pessoais, e diz assim: Ó meu Deus, eu vejo-me carregado de crimes, de que não tenho desculpa; eu tenho-Vos sido infiel e ingrato milhares de vezes; mas eu me arrependo agora e me pesa muito de tantas maldades. Tenho profanado o meu Batismo, tenho desgraçado a minha alma; mas agora proponho viver como cristão, e nunca mais pecar. Ajudai-Me com a Vossa graça para que leve a efeito estes meus desejos. Ó Maria, ajudai-Me também; Vós que fostes sempre pura e Santa desde o primeiro momento da Vossa vida, alcançai-Me graça para viver e morrer santamente. Ó Maria, concebida sem pecado, rogai por nós, que recorremos a Vós. Amém.


Fonte: Rev. Pe. Fr. Manoel da Madre de Deus, O.C.D., “Práticas Mandamentais ou Reflexões Morais sobre os Mandamentos da Lei de Deus e os Abusos que lhe são Opostos”, Prática 15ª, pp. 607-617; 3ª Edição; Em Casa de Cruz Coutinho – Editor, Porto, 1871.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Trágico Exemplo de Pecados Calados na Confissão



Exemplo de uma senhora que por muitos anos calou na Confissão um pecado desonesto.

Refere Santo Afonso Maria de Ligório, Doutor da Igreja, e mais particularmente o Padre Antônio Caroccio, que passaram pelo país em que vivia esta senhora, dois religiosos, e ela, que sempre esperava Confessor forasteiro, rogou a um deles que a ouvisse em Confissão, e confessou-se. Logo que partiram os Padres, o companheiro disse ao Confessor ter visto que, enquanto a senhora se confessava, saíam de sua boca muitas cobras, e uma serpente enorme deixara ver fora a sua cabeça, mas voltara de novo para dentro da boca, e após ela, todas as outras cobras que antes haviam saído. Suspeitando o Confessor o que aquilo podia significar, voltou à cidade, e à casa daquela senhora, onde lhe disseram que, ela no momento de entrar na sala, morrera repentinamente.

Por três dias seguidos jejuaram e oraram por ela, suplicando ao Senhor, que lhes manifestasse aquele caso.

Ao terceiro dia, apareceu-lhes a infeliz senhora condenada e montada sobre um Demônio, em figura de um dragão horrível com duas serpentes enroscadas ao pescoço, que a afogavam e lhe comiam os peitos; tinha uma víbora na cabeça, dois sapos nos olhos, setas ardentes nas orelhas, chamas de fogo na boca, e, dois cães danados que a mordiam e lhe comiam as mãos; e a infeliz dando um triste e espantoso gemido, disse:

“Eu sou a desventurada senhora que Vossa Reverendíssima confessou há três dias; conforme ia confessando meus pecados, iam saindo como animais imundos pela minha boca, e aquela serpente enorme, que o seu companheiro viu tirar a cabeça, e que voltou depois para dentro, era figura de um pecado desonesto (imoral), que calei sempre por vergonha; quis confessá-lo com Vossa Reverendíssima, mas também não me atrevi; por isso, voltou a entrar na minha boca, e com ele todos os demais pecados que haviam saído. Cansado já Deus de tanto me esperar, tirou-me, repentinamente, a vida e me precipitou no Inferno, onde sou atormentada pelos Demônios, que vós vedes, em figura de horrendos animais.

A víbora me atormenta a cabeça, pela minha soberba e pelo meu excessivo cuidado em pentear os cabelos; os sapos cegam-me os olhos, por causa dos meus olhares lascivos; as flechas encandescentes me atormentam os ouvidos, porque eu escutei murmurações, palavras e cantigas obscenas; o fogo abrasa-me a boca pelas murmurações e beijos torpes; tenho as serpentes enroscadas no pescoço e que me comem os peitos, porque os levei de um modo provocativo, pelos decotes dos meus vestidos e pelos abraços desonestos; os cães que me comem as mãos, são por causa das más obras e tatos impuros; mas, o que mais me atormenta, é o horroroso dragão, em que vivo montada e que me abrasa as entranhas, em castigo de meus pecados impuros.

Ai! Porque não há mais remédio para mim, senão tormentos e pena eterna!

Ai das mulheres! Acrescentou a infeliz; porque muitas delas se condenam por causa de quatro gêneros de pecados: por pecados de impureza; pelas galas e enfeites; por feitiçarias, e por calar pecados na Confissão. Os homens se condenam por toda classe de pecados; mas, as mulheres, principalmente, por estes quatro pecados. Dito isto, abriu-se a terra e por ela entrou esta infeliz mulher, para o mais profundo do Inferno, onde padece e padecerá por toda a eternidade.

Reflete, cristão, e entende que Deus, Nosso Senhor, mandou sair esta infeliz senhora do Inferno, e que passasse pela vergonha, para que todos os homens (e mulheres) soubessem da sorte que os espera, se pecando, não se confessarem bem. Quem dera que tu tirasses da leitura deste exemplo horroroso, o fruto que tiraram outros, fazendo uma boa Confissão e emendando-te de tudo. Um autor diz, que este exemplo converteu mais gente que 200 Quaresmas. O Padre missionário Jayme Corella, fez voto de pregá-lo em todas as Missões, pelo grande proveito que dele tiravam os fiéis. E até um Prelado estabeleceu, que em certos tempos do Ano, se pregasse ou se lê-se este caso na igreja. Mas, ai de ti, se não te aproveitares dele! Ai de ti, se não confessares todos os teus pecados! Ai de ti, se mal preparado, fosses receber a Sagrada Comunhão! Melhor seria, então, não teres nascido!

Não há crime com que Deus mais se ofenda como é com a Comunhão Sacrílega. Os Santos Padres no-lo pintam com palavras e exemplos assombrosos. Quem comunga em pecado mortal, diz Santo Agostinho, comete maior crime que Herodes; mais horrendo do que o pecado de Judas, acrescenta São João Crisóstomo; e outros Santos dizem que é maior ainda que os pecados que fizeram os Judeus crucificando o Salvador; e por todos, diz São Paulo, que será réu do Corpo e do Sangue do Senhor; isto é, diz a Glosa, será castigado como se com suas mãos tivesse crucificado o Filho de Deus. É a Comunhão Sacrílega, um delito tão grande, que Deus não espera castigá-lo no Inferno, senão, que começa já neste mundo com doenças e mortes; de modo que já no tempo dos Apóstolos, como conta São Paulo, muitos pelas comunhões sacrílegas, padeciam gravíssimos males corporais, e outros morriam...”



Fonte: “Caminho Reto e Seguro para Chegar ao Céu”, escrito pelo Venerável Padre Antônio Maria Claret, Arcebispo-Fundador dos Missionários Filhos do Imaculado Coração de Maria, traduzido do Espanhol, 5ª Edição, pp. 92-95; Administração da Revista “Ave Maria”, São Paulo, 1909.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Ladainha de Reparação


Nossa Mãe dulcíssima! Permiti que nós, Vossos filhos dedicados, unidos num só pensamento de veneração e amor, venhamos a reparar as horrendas ofensas que cometem contra Vós tantos infelizes, que não conhecem o paraíso de bondade e de misericórdia do Vosso Coração Maternal.

Das horríveis ofensas, que se cometem contra o Vosso amabilíssimo Filho, Jesus, havemos de consolar-Vos, Senhora.

Da espada de dor, que filhos desnaturados querem de novo cravar no Vosso Coração Maternal, havemos de consolar-Vos, Senhora.

Das infames negações, que se fazem dos Vossos privilégios e das Vossas glórias mais excelsas, havemos de consolar-Vos, Senhora.

Dos insultos, que os protestantes e outros hereges lançam contra o Vosso culto dulcíssimo, havemos de consolar-Vos, Senhora.

Das sacrílegas afrontas, que os ímpios cometem contra as Vossas queridas imagens, havemos de consolar-Vos, Senhora.

Das profanações, que se cometem nos Vossos santuários, havemos de consolar-Vos, Senhora.

Das ofensas, contra a virtude angélica, personificada em Vós, havemos de consolar-Vos, Senhora.

Dos ultrajes, que se cometem com as modas, contra a dignidade da mulher reivindicada e santificada por Vós, havemos de consolar-Vos, Senhora.

Dos horrendos delitos, com que se afastam os inocentes do Vosso Seio Maternal, havemos de consolar-Vos, Senhora.

Das incompreensões, dos Vossos direitos divinamente maternais, por parte de tantas mães, havemos de consolar-Vos, Senhora.

Das ingratidões de tantos filhos, às Vossas graças mais preciosas, havemos de consolar-Vos, Senhora.

Da frieza de tantos corações, perante as Vossas ternuras maternais, havemos de consolar-Vos, Senhora.

Do desprezo, dos Vossos convites amorosos, havemos de consolar-Vos, Senhora.

Da cruel indiferença, de tantos corações, havemos de consolar-Vos, Senhora.

Das Vossas lágrimas maternais, havemos de consolar-Vos, Senhora.

Das angústias do Vosso dulcíssimo Coração, havemos de consolar-Vos, Senhora.

Das agonias, da Vossa Alma santíssima em tantos Calvários, havemos de consolar-Vos, Senhora.

Dos Vossos suspiros de amor, havemos de consolar-Vos, Senhora.

Do martírio, que Vos causa a perda de tantas almas, remidas pelo Sangue do Vosso Jesus e pelas Vossas lágrimas, havemos de consolar-Vos, Senhora.

Dos horrendos atentados, que se cometem contra o Vosso Jesus, que vive no seu Vigário e nos seus Sacerdotes, havemos de consolar-Vos, Senhora.

Da conjura infernal, contra a vida de Jesus na sua Igreja, havemos de consolar-Vos, Senhora.

Bondosíssima Mãe! Que no heroísmo do Vosso amor maternal, ao pé da Cruz, intercedestes pelos algozes, que tão atrozmente martirizavam o Vosso querido Filho Jesus, e tão duramente magoavam o Vosso terníssimo Coração, tende piedade de todos os que têm a infelicidade de Vos ofenderem; fazei que também eles possam ser acolhidos no Vosso Seio Maternal, purificados pelas Vossas benditas lágrimas e admitidos a gozar dos frutos maravilhosos da Vossa misericórdia de Mãe. Assim seja.


Fonte: Dr. D. Ildefonso Rodriguez Villar, “Pontos de Meditação sobre a Vida de Nossa Senhora”, Apêndice, pp. 428-439; Tradução da 4ª Edição, revista pelo Pe. Manuel Versos Figueiredo, S.J., Livraria Figueirinhas, Porto, 1941.

sábado, 11 de novembro de 2017

Manifesto do Episcopado Brasileiro (Excertos)

D. Jaime de Barros Câmara

Regozijemo-nos no Senhor,
mas não Cruzemos os Braços.

Jesus Cristo, o Verbo de Deus, que se fez homem para salvar o homem, é hoje o que era ontem e o que será pelos séculos, a Luz do mundo, o Caminho, a Verdade e a Vida. Sem Cristo não haverá salvação, nem para os indivíduos nem para os povos. Longe d’Ele ou contra Ele, todos os esforços de construção serão baldados. E por haverem deliberadamente fechado os olhos à luz da mensagem evangélica, multiplicaram-se os erros políticos, sociais e morais, que desfecharam na catástrofe que ora enluta a humanidade… Cruzar os braços em face de ruínas, não é gesto cristão…

A Igreja a todos estende os benefícios de sua assistência espiritual; Ela não é nem pode ser partidária, e sua atividade, sempre indispensável às almas e às nações, não pode estar sujeita aos vai-vens da política de partidos. “Querer empenhar a Igreja”, já escrevia Leão XIII, “nas lutas de partido e pretender servir-se de seu apoio para triunfar com mais facilidade dos adversários, é abusar indiscretamente da Religião” (Carta Encíclica “Sapientiae Christianae”, Editions des Lettres Apostoliques de Léon XIII, Maison de la Bonne Presse, t. II, p. 289). A política divide, a religião une...

Aos fiéis (a Igreja) permite que, no desempenho de seus deveres cívicos, militem em partidos que não contrastem com as exigências superiores do bem comum e da consciência católica…

Na esfera das respectivas atribuições, lembremo-nos todos ainda da lição do grande Papa Pio XII, na sua Alocução de Natal de 1942: “Quem deseja que a estrela da paz nasça e se detenha sobre a sociedade… favoreça por todos os meios lícitos, em todos os campos da vida, aquelas formas sociais em que se torne possível e se garanta plena responsabilidade social” (Pio XII, “Problemas da Guerra e da Paz”, Lisboa, s. d., p. 351.

“Tudo quanto, nas instituições ou nos costumes, contribuir para desviar a família dos seus altos fins, representa uma vitória das paixões sobre a razão, do individualismo egoísta sobre os imperativos sociais do bem comum, e acarretará sobre um povo as mais calamitosas desgraças que poderão desfechar até na catástrofe fatal do suicídio… Aos fiéis e às próprias famílias recomendamos a solicitude vigilante e enérgica em combater as ideias, os costumes, as infiltrações insidiosas de mentalidades que possam atentar contra a dignidade tradicional e cristã da família brasileira.

A crença em Deus é o mais forte esteio da vida moral… Enquanto o ateísmo desfecha logicamente no amoralismo, a presença de Deus representa nas almas uma fonte inesgotável de fortaleza, de dedicação, de sacrifício, de energias sempre renovadas para o bem… A incredulidade trabalha para a ruína e desagregação dos povos; a religião é a base insubstituível de toda a vida social. Sem voltar sinceramente a Deus e a Jesus Cristo, a humanidade, desolada por tantas ruínas e dividida por tantos ódios, não encontrará os verdadeiros caminhos da paz.

Nós temos, por graça de Deus, na mensagem da nossa fé, uma doutrina de verdade e de vida. Esconder esta luz sob o alqueire seria omissão de incalculáveis responsabilidades. Nenhuma alma generosa pode resignar-se à cumplicidade de abstenções comodistas. O amor de Deus e das almas, o sentimento de justiça e de caridade, a piedade filial para com a Pátria condenam a inação, e impõem-nos uma atividade esclarecida, coesa e disciplinada.

Aos esforços da ação cumpre associar uma cruzada de orações. Se Deus não construir a casa, em vão trabalham os que a edificam; se Deus não guardar a cidade, frustrada será a vigilância dos que por ela velam (Salm. 126, 1). Levantemos os braços a Deus numa oração constante e humilde para que Ele proteja o Brasil e a humanidade, inspire propósitos de justiça e de paz aos que neste momento têm em mãos os destinos dos povos.

À Virgem Imaculada, que, da colina da Aparecida, estende o seu manto materno sobre a Terra de Santa Cruz, renovemos, com a consagração das nossas almas, a desta Pátria estremecida a Ela singularmente devotada.



Fonte: "Manifesto do Episcopado - Sobre o Problema Político e a Questão Social no Brasil"; Livraria Agir Editora, 1945.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

São João Crisóstomo Responde


Cada um Pode, se Quiser,
Igualar-se aos Santos em Virtude

Sempre que escutássemos falar dos Apóstolos e as suas belas ações fossem celebradas, deveríamos logo gemer por estarmos a tão grande distância deles. Mas não pensamos sequer que haja nisto uma falta, e vivemos na ideia de que nos é impossível atingir semelhantes alturas. E se nos perguntam por que, logo alegamos esta desculpa estúpida: era Paulo, era Pedro, era João. Que significa: era Paulo, era Pedro? Dizei-me: não é verdade que aqueles homens participaram da mesma natureza que nós? Que foram introduzidos no mundo pelo mesmo caminho? Nutridos com os mesmos alimentos? Que respiraram o mesmo ar? Que se utilizaram das mesmas coisas? Não havia alguns entre eles que possuíam mulher e filhos, que exerciam ofícios para viver, e que, inclusive, foram lançados no abismo de todos os vícios?

– Mas eles tiveram em abundância o benefício da graça de Deus.

– Ah! Se nos mandassem ressuscitar os mortos, dar luz aos olhos dos cegos, tornar sãos os leprosos, fazer os coxos andarem direito, libertar os demoníacos, curar outras enfermidades deste gênero, a desculpa alegada teria cabimento. Mas quando se trata de disciplinar a própria conduta e dar provas de submissão, qual a relação entre isto e aquilo? Também vós gozais da graça divina, por efeito do Batismo. Tendes a vossa parte do Espírito Santo, se não ao ponto de operar milagres, pelo menos tanto quanto é necessário para terdes uma conduta correta e irrepreensível, de sorte que nossa perversão provém unicamente de nossa indolência...[1]


Nem as Tentações Diabólicas,
nem os Maus Exemplos Explicam
e Desculpam as Nossas Faltas.

O Adversário é mau, eu o reconheço, mas mau para ele mesmo, se perseverarmos na vigilância. Tal é a natureza da maldade: ela só é funesta para aqueles que a possuem…

Deus permitiu intencionalmente que os maus vivessem junto com os bons;[2] Ele não concedeu aos maus uma terra diferente, nem fez com que os bons vivessem num outro mundo, mas misturou uns com os outros, realizando, assim, uma obra de grande utilidade. Os bons demonstram possuir um mérito mais firme quando vivem e se faze virtuosos, no meio de pessoas que procuram desviá-los do caminho da justiça e arrastá-los para o mal. Pois, segundo está escrito: “porque, também, é preciso que haja facções no meio de vós, a fim de que, entre vós, sejam conhecidos aqueles que são de virtude comprovada”.[3] Este é pois, o motivo pelo qual Deus permitiu que os maus subsistissem no mundo: para que os bons brilhem com mais vivo esplendor. Vedes que grande vantagem para eles? Vantagem que não vem dos maus, mas da coragem dos bons…

O mesmo raciocínio deve ser observado com respeito ao Adversário: Deus permitiu que ele também ele estivesse ali para que vos tornásseis valorosos, para que o atleta tivesse mais esplendor, e maior fosse a grandeza dos combates. Quando, pois, vos perguntarem: por que Deus permitiu a existência do Adversário? Respondeis nestes termos: longe de prejudicar os que estão vigilantes e atentos, o Adversário lhes presta serviço, não em consequência de sua vontade própria (que é perversa), mas em consequência da coragem destes homens que sabem tirar bom partido da perversidade dele.

Quando ele se voltou contra Jó, não foi com a intenção de aumentar-lhe o esplendor, mas de destruí-lo. Por isso mesmo, pela natureza do propósito e da intenção, ele era perverso; todavia, ele não causou dano algum ao justo, muito pelo contrário: foi este último quem tirou proveito do combate, como o demonstramos: o Adversário deu testemunho de perversidade, e o justo de coragem.[4]


O Erro não é uma Consequência
Inevitável de Nossa Natureza

– Mas, direis, sou constrangido pela natureza; é certo que amo o Cristo, mas a natureza me constrange a fazer o mal.

– Se sofrêsseis constrangimento e violência, seríeis perdoados; mas se é por indolência que caís, não há perdão. Vejamos, pois,; examinemos se as faltas são cometidas por necessidade ou constrangimento, ou então por indolência e negligência grave.

“Não Matarás”,[5] está escrito. Que é que vos constrange a fazê-lo? Que é que vos força a tanto? A pessoa se violenta para matar: quem de nós preferiria, de bom grado, enfiar uma espada na garganta do próximo e sujar suas mãos de sangue? Ninguém. Assim, contrariamente ao que pretendeis, é antes para praticar o mal que a pessoa se constrange e se força. Deus pôs em nossa natureza, como que um encanto, que faz com que amemos uns aos outros. Vedes que, por natureza, possuímos inclinações para a virtude? Os vícios são contra a natureza; se eles conseguem triunfar, isto só prova quão grande é a nossa indolência.

E o que diremos do adultério? Que necessidade impele as pessoas a praticá-lo?

– A tirania da concupiscência.

– E quereis dizer-me por quê? Não vos é permitido manter relações com vossa mulher e pôr, assim, um termo a essa tirania?

– Mas eu estou apaixonado pela mulher do próximo!

– Neste caso, não há constrangimento; o amor não constitui uma questão de constrangimento, ninguém ama por constrangimento, mas por livre e espontânea vontade. É possível que a relação carnal se imponha ao homem, mas não o amar esta ou aquela mulher; o que o leva a agir em tal circunstância, não é o apetite da relação carnal, é a vanglória, o orgulho, a sensualidade excessiva…

– E o furto, é necessário?

– Sim, é a pobreza que o causa.

– E eu vos digo que a pobreza força mais é ao trabalho, e não ao furto. A pobreza age ao inverso do que dizeis: o furto é o resultado da ociosidade; a pobreza costuma produzir não a ociosidade, mas o amor ao trabalho. Também o furto, pois, decorre da indolência. Escutai ainda isto: – que é mais difícil e desagradável: perambular à noite sem dormir, transpor os muros, caminhar nas trevas, arriscar a vida, estar pronto para matar, tremer, morrer de medo, ou então aplicar-se aos trabalhos cotidianos e desfrutar, sem temor, de uma situação de segurança? Isto é mais fácil; e porque é mais fácil, maior número de pessoas levam esta vida ao invés da outra.

Vedes que a virtude se faz segundo a natureza, e o vício contra a natureza; é como a doença e a saúde. Que dizer da mentira e do perjúrio? Que pode haver neles de necessário? Nada de necessário, nada de forçado: inclinamo-nos para eles porque assim o queremos.

– Mas não acreditam em nós!

– Não acreditam em nós porque o queremos assim; deveríamos inspirar confiança mais por nosso caráter que por nossos juramentos. Dizei-me por que acreditamos em certas pessoas sem que seja preciso que elas jurem, e nos recusamos a acreditar em outras, apesar de seus juramentos? Os juramentos, pois, não servem para nada…

– E quando se comete uma injúria, obedece-se à necessidade?

– Sim, a cólera me faz perder a cabeça, me abrasa, não permite que a minha alma tenha sossego.

– Homem, não é a cólera, é a mesquinhez da alma que faz com que a pessoa se torne injuriosa. Se fosse a cólera, todos os homens, estando sujeitos a ela, não cessariam de injuriar. Nós somos acessíveis à cólera, não para injuriar nosso próximo, mas para corrigir os faltosos, para reedificar-nos, para livrar-nos do torpor. A cólera atua em nós como um aguilhão, que deve fazer com que rilhemos os dentes contra o Adversário, nos tornemos mais enérgicos em dar-lhe combate, e não que nos voltemos uns contra os outros.[6]


A Origem do Mal

– Mas por que Deus fez o homem tal qual ele é (quer dizer, inclinado a praticar o mal)?

– Não foi Deus quem o fez assim, absolutamente; pois, então, ele não o teria castigado. Não censuramos os que nos servem, quando nós mesmos estamos em falta? Com muito mais razão Deus, Senhor do mundo, não nos teria censurado. Como, então, o homem se tornou o que é? Por sua própria culpa, por culpa de sua indolência… Deus criou todos os homens? É evidente que sim. Como, pois, acontece que não sejam todos iguais no que se refere à virtude e ao vício? De onde vêm os maus e os perversos? Se a vontade não desempenha nisto papel algum, se tudo depende da natureza, como é possível que uns sejam isto e outros aquilo? Se todos fossem maus naturalmente, seria impossível a alguém ser bom; se fossem bons naturalmente, impossível ser mau. Sendo a natureza uma só para todos os homens, todos deveriam ser, relativamente a uma única sorte, bons ou maus. Diremos que uns são bons naturalmente e outros maus? (o que não teria sentido, como já o demonstramos). Então, estas maneiras de ser deveriam ser imutáveis, pois o que é natural é imutável. Por exemplo: somos todos mortais, sujeitos ao sofrimento, e ninguém pode ficar impassível, por maior que sejam sua obstinação; ora, sabemos que muitos homens passaram de bons a maus, ou que, sendo antes maus, passaram a ser bons; no primeiro caso por indolência, e no segundo caso por aplicação; o que mostra que estas maneiras de ser não são naturais, visto que as qualidades naturais não mudam e não se adquirem à força de aplicação. Assim como não temos necessidade de fazer esforços para ver ou ouvir, também não seria necessário esforçar-nos para praticar a virtude, se fosse a própria natureza quem no-la tivesse dado em comum. E por que Deus faria pessoas más, quando pode fazer com que todos os homens sejam bons?

Então, de onde vem o mal? Fazei a vós mesmos esta pergunta; minha tarefa consiste em mostrar que ele não tem origem, nem na natureza nem em Deus.

– Então, ele vem ao acaso?

– Absolutamente.

– Ele não vem, então, de coisa alguma?

– Calai-vos, fugi da loucura de conceder a mesma honra, e a mais elevada honra, a Deus e ao mal. Pois, se o mal não tem origem em coisa alguma, será onipotente, e, por conseguinte, não poderá ser extirpado nem aniquilado. O que não tem origem em coisa alguma, efetivamente, não tem fim: isto é fato comprovado. E, se o mal tivesse tanto poder, como se explicaria que houvesse, outrossim, tão grande número de homens de bem? Como poderiam os seres que têm começo ser mais poderosos que o mal, que não o teria tido?

– Mas Deus pode suprimir o mal.

– Quando? E como Ele poderia suprimir o que goza das mesmas honras que Ele e de um poder igual, o que é, por assim dizer, da mesma idade? Ó malícia do Adversário! Quantos males ele não inventou! Quantas blasfêmias ele não sugeriu contra Deus! Como ele soube imaginar, sob pretexto de piedade, uma impiedade nova! Querendo-se estabelecer que o mal não vem de Deus, introduziu-se outros dogmas perverso, a saber, que Ele não teria tido começo.

– Mas, enfim, qual a origem do mal?

– No fato de querermos ou não queremos, está a sua origem.

– E o fato de querermos ou não querermos, de onde vem tal coisa, por sua vez?

– De nós mesmos… O mal não é outra coisa, senão a desobediência para com as Leis de Deus.

– Mas de onde o homem aprendeu tal coisa?

– Dizei-me: era muito difícil aprender isto? Eu também não digo que tenha sido difícil; mas de onde lhe veio esta vontade de desobedecer?

– De sua indolência. Tendo a liberdade de inclinar-se para um lado ou para o outro, ele preferiu inclinar-se para o mal. Se, depois desta resposta, estais ainda embaraçados e confusos, eu vos farei uma pergunta, que não é nem difícil nem complicada, uma pergunta bem simples e clara.

– Tendes sido ora bons, ora maus? Quer dizer: já vos aconteceu ora triunfardes sobre a paixão, ora serdes vencidos por ela? Ora sucumbirdes à embriaguez, ora vencerdes a embriaguez? Ora cederdes ao impulso da cólera, ora não lhe cederdes? Ora desdenhardes um pobre, ora não o desdenhardes? Ora prevaricardes por impudicícia, e em seguida serdes castos?

– Qual a origem, pois, de todas estas variações? Qual? Se vós mesmos não o dizeis, eu o direi: é que vos tendes aplicados e feito esforços, e ora vos tendes relaxado e entregue à indolência.[7]


Fonte: O Esplendor Cristão, Vol. 1, “São João Crisóstomo”, 1ª Parte, Cap. I, “O Livre-Arbítrio”, pp. 19-25; Ação Carismática Cristã – Fundação São João Crisóstomo, Rio de Janeiro, 1978.



[1]     1º Discurso sobre a Contrição, 8.
[2]     São João Crisóstomo refere-se, certamente, à Parábola da boa e da má semente: “Deixai crescer uma coisa e outra até à ceifa e no tempo da ceifa direi aos segadores: Colhei primeiramente a cizânia, e atai-a em feixes para a queimar; o trigo, porém, recolhei-o no meu celeiro” (Mat., 13, 30).
[3]     I Cor., 2, 19.
[4]     Nem os Maus nem o Maligno podem prejudicar o Homem vigilante, 1, 2.
[5]     Êx., 20, 13.
[6]     II Homilia sobre a Epístola de São Paulo aos Efésios, 3-4.
[7]     LIX Homilia sobre o Evangelho de São Mateus, 2-3.

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