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"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Regina Sine Labe Originali Concepta


Rainha Concebida Sem Pecado Original



I



Os Livros Santos empenham-se em mostrar-nos a Deus Nosso Senhor, na madrugada da Criação, vendo-Se e revendo-Se complacente em cada obra do Seu poder criador à medida que iam saindo flamantes das Suas mãos onipotentes. E viu Deus que era bom tudo o que ia criando. Era boa no seu conjunto e nas suas particularidades toda a obra dos sete dias.[1]



A Criação! Os céus com miríades de astros, a terra com o tríplice reino: mineral, vegetal e animal, desde o átomo imperceptível da matéria até esse maravilhoso microcosmo que se chama o homem, que harpa imensa, vibrando a uníssono com mais imensa cítara, a do mundo angélico, no mesmo hino de glória ao Criador!



Mas, depressa viria o pecado introduzir a desarmonia no mundo material, como já antes a introduzira no mundo espiritual. Lúcifer vira confundido o seu orgulho, a sua ambição de ser como Deus, de ser mais do que Deus. Jurara vingar-se. E já que não pudera arrebatar-Lhe a Divindade, havia de Lhe arrebatar o que de mais esplendoroso sobressaia na criação material.



O homem contagiado por essa mesma ambição de ser como Deus, deixou-se iludir, e o que não se contentara com ser vassalo de Deus, presta a Satanás a vassalagem da sua escravidão. O que era de Deus por direito de criação, agora é de Satanás por traiçoeira conquista. O maldito veda a todas as almas a entrada na vida, dizendo a cada uma: “Hás de passar debaixo das minhas forcas caudinas e eu te marcarei com o estigma das minhas garras, com o selo do meu império”. Assim foi. Esse estigma, esse selo é o Pecado Original.



E eis a humanidade condenada a essa escravidão, de que Davi é o sublime intérprete quando diz: “Fui concebido na iniquidade e em pecado me concebeu minha mãe”.[2] Assim é. Com a vida do corpo recebemos a morte da alma, ou antes, uma alma já morta. Tal foi o triunfo do Dragão infernal. Passará ele agora a eternidade, saboreando a sua vingança e rindo-se para sempre do Criador, defraudado na Sua glória?




II



Não! Toda derrota reivindica desforra, e a glória de Deus não podia renunciar a ela, e ai de nós se renunciasse! Deus não podia ser eternamente ludibriado por Satanás. A reparação impunha-se de algum modo, fosse qual fosse. E o modo escolhido nos eternos arcanos da Sabedoria incriada impôs-se não à Sua Justiça, porque ela não estava obrigada a remir-nos, mas à Sua Misericórdia. Foi uma exigência do Coração de Deus. E havia de ser uma reparação que deixasse a Satanás eternamente confundido, a humanidade eternamente reabilitada e Deus eternamente glorificado.



O que por conquista havia passado para o domínio de Satanás, chegada a plenitude dos tempos, voltaria ao domínio de Deus por direito de reconquista. É o futuro drama da Redenção, entrevisto já no horizonte dos séculos por entre as sombras do Paraíso. E o primeiro ato desse drama ia ser a criação de uma nova Eva, como estirpe de nova geração, que vingaria a derrota de Eva pecadora e regeneraria a sua descendência.



E Deus cria essa Mulher, a Obra-prima das Suas mãos; retrata-se nela com infinita complacência. Já não vê apenas que é boa, como a obra dos sete dias, agora, como se se deixasse extasiar diante desse prodígio de beleza, que é prodígio das Suas mãos, não se pode conter que não diga: Tota pulchra es – És toda bela e em Ti não há a mais leve mancha. Sine Labe, sem labéu.



Aí está o grande triunfo de Deus, aí está o grande triunfo da que vai ser Sua Mãe, confusão eterna para Satanás que, há vinte séculos, contorcendo-se de desespero, ruge impotente e desarmado diante da Nova Eva.



A Primeira Mulher fora ludibriada e por ela o homem e pelo homem toda a linhagem humana. Uma reparação digna de Deus exigia que surgisse Nova Mulher, com uma nova floração da sua fecundidade virginal e imaculada (sêmen illius).



A Serpente infernal conseguira com a sua mordedura envenenar o sangue de nossos Pais. E esse sangue envenenado ia contagiar toda a sua descendência. Toda? Não. Non pro te, sed pro omnibus haec lex constituta est.[3] A lei da transmissão do Pecado Original ia ter na nova Ester a sua única exceção.



E antes que o Dragão conseguisse atingir-Lhe o calcanhar, já Ela lhe havia esmagado a cabeça. Antes que o Sangue redentor de Cristo fosse derramado, já Ele por Sua virtude retroativa havia remido Sua Mãe. Antes que Ela tivesse podido contrair a mancha do pecado, já a Redenção a havia preservado dele, inefável vacinação da graça, que em Maria se antecipou ao vírus da culpa.



E desse modo dignum Filio tuo habitaculum praeparasti, ficou habilitada a conceber a própria Divindade quem sem a mancha original fora concebida.




III



Mas – inimicitias ponam – diz o Senhor. Eu estabelecerei eterna inimizade entre ti e a Mulher, entre a tua descendência e a dEla. Não terminou com a Conceição Imaculada de Maria o duelo entre Deus e Satanás. O reino de Deus e o de Satanás, são dois reinos em guerra aberta, sobretudo depois que interveio na contenda a Mulher entre todas bendita. Ela, com a Sua descendência, continuará através dos séculos a esmagar a cabeça ao Dragão e o Dragão teimará sempre (baldada tentativa!) em morder-Lhe o calcanhar.



Cada alma salva por intercessão de Maria é nova derrota infligida ao príncipe das trevas. E onde recebe ele mais derrotas destas do que em Fátima, ou em qualquer parte do mundo em que a Virgem de Fátima é invocada e venerada? Cada absolvição sacramental, cada conversão em que Ela intervenha, é novo golpe vibrado por Maria na Serpente infernal. Cada hino de louvor que, dentro ou fora da Cova da Iria, Lhe entoa o coro dos Seus devotos, é novo assomo de desespero, é renovada tortura para Satanás.



Judite falando aos seus concidadãos de Betúlia, apresenta-lhes no meio de ingente apoteose, suspensa dos próprios cabelos, a cabeça decepada de Holofernes. E as tribos de Israel, ébrias de alegria proclamam-na vitoriosa.



Do planalto de Fátima, Maria mostra ao mundo e ao Inferno a cabeça esmagada de um monstro mais temeroso do que o caudilho dos Assírios. Fátima, é o teatro de novas vitórias de Maria. E os troféus dessas vitórias, as almas arrancadas ao Dragão, ninguém já os pode contar.



A apoteose que Lhe prestam Seus devotos, deixará para sempre eclipsada, a que prestou Betúlia a Judite. É o eterno pregão da Sua Conceição Imaculada: Tota pulchra es, et macula non est in te. És toda bela, toda pura, tão bela como a mesma beleza, mais pura do que a mesma pureza.




Exemplo



Inédito Concurso de Beleza e… Rainha Eleita



Estavam reservados ao nosso século esses ridículos concursos de beleza, em que, em vez de formosura física, devia ser antes premiada a arte e artifícios com que, à força de pinturas e de vernizes, de frisagens de cabelos e depilações de sobrancelhas, e de mil ensaios ao espelho, se pretende corrigir a obra do Criador e se consegue ocultar o que se é, para parecer o que não se é.



Monstrengos que se batizam oficialmente com o nome de Miss Itália, Miss Canadá e  não sei que mais, eis outras tantas aberrações dos nossos dias, expressões coloridas de descerebração feminina, das que para não serem imagens autênticas de Deus, preferem ser caricaturas de si mesmas.



Mas que também o ridículo seja por vezes susceptível de sérias retificações, prova-o o seguinte exemplo, o primeiro que conhecemos no seu gênero.



O caso passou-se na pitoresca cidade brasileira de Botucatu, do Estado de São Paulo, no mês de Novembro de 1952, quando de Norte a Sul todo o Brasil vibrava de entusiasmo, ao sentir-se visitado por Nossa Senhora de Fátima.



Também ali chegou o frenesi dos concursos de beleza, e a cidade resolveu promover o seu. Afluem naturalmente as candidatas à realeza, pretendendo cada uma cingir o diadema da formosura!



Entre os estudantes de todas as escolas secundárias, lavra um contagiante entusiasmo para a escolha da sua Rainha. Tudo corre ordenadamente, sem as convulsões próprias das campanhas eleitorais.



Faz-se a eleição, e, por maioria esmagadora aparece eleita… Nossa Senhora, e Nossa Senhora sob a invocação mais querida ao coração brasileiro, a Imaculada Virgem Aparecida!



Inspiração individual? Propaganda clandestina? Expressão espontânea de um ideal haurido da própria educação religiosa da mocidade botucatuense? Fosse como fosse, o certo é que Nossa Senhora ganhou o concurso, foi eleita Rainha, e à hora em que escrevemos está-se promovendo freneticamente a solene coroação da Rainha eleita.



E não é menos para aplaudir a atitude das ex-candidatas ao título de rainha, as quais surpreendidas pelo desfecho da eleição, e envergonhadas talvez de terem ousado competir, elas, simples filhas dos homens, com a beleza da Mãe de Deus, unanimemente depuseram as suas candidaturas aos pés da Rainha do Céu. Abrindo os olhos, viram que com esses briosos rapazes, votara também o Espírito Santo: Tota pulchra es… Una est perfecta mea…



Não podemos deixar de fazer nossas as palavras com que a 20 de Novembro de 1952, A Imprensa, órgão católico de São Paulo, se referia ao acontecimento:



“Nossa juventude estudantina ainda não está perdida. Talvez tenha chegado até a beira do abismo; mas ao sentir que seus pés pisavam no vácuo de ilusões e miragens, despertou do sono da mentira para a realidade dos ideais dignos da sua idade. Cansou-se e enfadou-se de rainhas escolhidas pelo único critério da beleza física, e decidiu-se a procurar uma Rainha que, sobre ser a mais bela das criaturas, fosse pura, imaculada, santa, amada de Deus e dos homens, uma rainha de verdade, soberana de todos os corações.



Parabéns à nossa juventude estudantina! Que a sua Rainha a conduza para as montanhas da virtude, do estudo, da nobreza de caráter…



Está vitoriosa a causa de Nossa Senhora Aparecida. Ela, a única candidata dos corações ardentes da juventude estudantina.



Parabéns aos estudantes de Botucatu. Estamos certos de que a coroação da Rainha não só será uma festa inédita, vibrante e solene, mas também será o marco inicial de uma estrada nova, aberta pela mocidade botucatuense em direção à Cidade da Paz, na união da Ciência e da Fé, da virtude e da felicidade”.




Fonte: Rev. Pe. José de Oliveira, S.J., “Florilégio Ilustrado de Fátima” - Novo Mês de Maria, Cap. “Regina Sine Labe Originali Concepta”, pp. 354-359; 3ª Edição, Edição da Sociedade Brasileira de Educação, 1952.



[1]     Gên. 1, 31.
[2]     Salm. 50, 7.
[3]     Ester 15, 13.

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