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"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Contemplação do Amor e da Dor, em Nosso Senhor Jesus Cristo.


Subida ao Monte da Mirra, ou,
Contemplação das Penas de Jesus.


Subamos, alma minha, ao outeiro do incenso, e monte da mirra; que temos ali muito que admirar, muito que aprender. Vamos, digo, ao Calvário com os passos da consideração, e afeto. Este, verdadeiramente, é o outeiro do incenso; pois ali sobre vivas brasas do amor, no altar da Cruz ardeu, e se consumiu a vida de meu Senhor Jesus Cristo, para exalar ao Céu a fragrância do Sacrifício, que aplacou a ira Divina. Este, verdadeiramente, é também o monte da mirra; porque se esta significa o amargoso da mortificação, e o penoso da morte: ali provou estas amarguras, e passou por estas penas, O que é a nossa consolação e a nossa vida.

Oh, que estranho espetáculo é este, que a meus olhos se oferece! O Filho de Deus Humanado, o Rei da Glória, o que é a Cabeça de todos os Anjos e homens, e absoluto Senhor de todo o criado, crucificado e morto em um lenho infame, entre dois insignes malfeitores. Vê, e repara bem, como tem a Cabeça coroada de espinhos, os cabelos feitos pastas de sangue, os olhos fechados com o pesado sono da morte, as faces tumorosas com os golpes e bofetadas, e cobertas de sangue e salivas; a língua está seca, os lábios denegridos, a boca meio aberta, como que acaba de espirar, o peito levantado, o ventre exausto e consumido, o lado rasgado às violências de uma cruel lança, os nervos estendidos com quanto força pode a malícia e crueldade dos algozes, os ossos deslocados, que se podiam contar, as mãos e os pés desgarrados e fixos com duros cravos, todos os seus membros ignominiosamente despidos e expostos, à vista de inumerável povo, e de seus êmulos mofadores: e, finalmente, ao pé da Cruz a lastimada MÃE MARIA, inocentíssima, feita um mar imenso de amarguras, e um epílogo de todas as penas e tormentos de Seu amado Filho.

Que figura sem figura é esta, tão nova e prodigiosa? Não sabes, alma minha? É a figura do Amor Divino. Quis Deus formar uma estátua, ou retrato perfeito do Seu Amor: e deste modo o formou. Contempla atentamente e verás, como não há espaço, ou parte mínima em toda esta figura, que não esteja cheia de Mistérios e perfeições do Amor. O Amor é dadivoso e magnífico. Que maior dádiva, que dar-me Deus a Seu Filho Unigênito, e com Ele dar-me o Seu Corpo e Alma, Sua Honra e Vida, Seus Merecimentos e Exemplos, Sua Graça e Glória? O Amor iguala e assemelha os extremos por desiguais, e mui distantes que sejam. Aqui o Filho de Deus se abateu a parecer pecador, para levantar os pecadores a ser filhos de Deus. O Amor despreza penas e tormentos, por remediar e fazer bem ao amado. Que tormentos e penas não tomou sobre Si nosso Salvador, para nos livrar da morte do pecado, e comunicarmos a vida de Sua graça?

Mais. O Amor é sumamente ativo, como o fogo: faz muito em breve tempo. Em poucas horas de Sua Paixão sagrada, concluiu o Filho de Deus, o Mistério da Redenção do mundo, e alcançou aquelas três gloriosíssimas vitórias, do pecado, da morte e do Inferno, e franqueou o Reino dos Céus a todos os filhos de Adão, que quisessem aproveitar-se de Seu Sangue: e consumou tudo o que dEle estava profetizado nas Escrituras. O Amor tem grandes seios, onde cabem até os ingratos; dilatado bojo onde se digerem gravíssimas ofensas. Cristo na Cruz tem os braços estendidos quanto pode, para recolher e abraçar a todo o Gênero Humano: ora, pelos mesmos que O crucificaram, acha desculpa ao seu pecado: Pater dimitte illis, non enim sciunt quid faciunt.1 O Amor dá bem por mal, em competência do ódio, ira e ingratidão, que costumam dar mal por bem. Do lado de JESUS lanceado saíram os Sacramentos de nossa Religião Cristã, e a luz, que na alma e no corpo iluminou ao mesmo ímpio soldado que O ferira. O Amor é constante no que empreende. JESUS uma vez elevado no altar da Cruz, para nela ser sacrificado, não quis descer, ainda que pudesse, por mais que seus inimigos com suas línguas mordazes O irritaram. O Amor faz estimação dos opróbrios padecidos pelo amado. JESUS teceu de nossos espinhos a Sua coroa; e a Cruz, que era o opróbrio das gentes, tomou por cetro do Seu Reino. O Amor não é interesseiro. JESUS, o que de nós pretende em nos amar, é livrar-nos da perdição eterna, e conduzir-nos à eterna felicidade. O Amor permanece, e aumenta com as mesmas tribulações. JESUS havendo-nos amado desde o princípio, para o fim, nos amou mais e nos ama sem fim: Cum dilexisset suos, qui erant in mundo, in finem dilexit eos.2

Ó figura viva do Amor Divino estampada no Filho de Deus morto! Quem Te imprimirá profundamente na minha alma! Ó meu JESUS amorosíssimo! Quem saberia conhecer, estimar e corresponder a tanto amor! Ó meu Salvador Crucificado! Quem teria a glória de ser crucificado também Convosco! Ó Soberano Rei da Glória, por meus pecados expostos à maior confusão; por minha causa reputado, não por Deus, nem ainda por homem, mas por bichinho vilíssimo da terra: Ego vermis, et non homo; por réprobo e malvado, e feito irrisão do povo e opróbrio das gentes? Verdadeiramente, Vossa caridade é incompreensível: verdadeiramente, Vossas misericórdias não tem número. Amor, que entrega o Filho à morte, para dar vida ao servo: Amor, que condena a inocência, para perdoar à maldade, não tem em todos os entendimentos criados, regra por onde se meça, nem razão por onde se defina.

Que graças e louvores não Vos daremos; pois tanto a Vossa custa nos livrastes da morte eterna? Como, Senhor, serei ainda tão ingrato; que me esqueça de Vosso Amor, que Vos ofenda, que despreze Vosso Sangue, que torne com meus pecados a Vos crucificar? Muito me amastes, meu JESUS! Quem me dirá agora, a razão de amar eu tão pouco, ou totalmente não amar a quem tanto me amou? Ninguém pode dar razão alguma do que é suma sem-razão. Senhor: nenhuma razão tenho, de não Vos amar mais que tudo, e de não deixar de amar tudo, só para amar a Vós unicamente. Oh, meu dulcíssimo Salvador! Nenhuma razão tenho de não Vos amar de todo coração: e mais, quando este mesmo amor, que Vos devo, e me pedis, Vós mesmo mo dais, se eu o quiser receber; e para que mo pudésseis dar, e eu o quisesse receber, morrestes nessa Cruz. Quando eu me via tão pobre do Vosso Amor, costumava recorrer a pedir-Vos que mo desses. Já agora, nem de vo-lo pedir, me fica muito lugar; pois quem rejeita o que lhe dão, claro é que não deseja muito o que pede. Dai-me, que saiba eu pedir o que desejo, e aceitar o que peço. Ame-Vos eu, Senhor, senão como Vós mereceis ser de mim amado (que isso é impossível), ao menos como, com a Vossa graça posso amar-Vos. Ame eu, Senhor, as Vossas penas, dores, desprezos e desamparos: e nunca, jamais, me glorie em coisa alguma fora de Vossa Cruz. Fazei-me, ó meu JESUS Crucificado, fazei-me, Vos peço, semelhante a Vós: imitador das excelentíssimas virtudes, que dessa cadeira da Cruz me estais ensinando. Quero, Senhor, por Vosso Amor e glória, ser pobre, ser desprezado, ser obediente até a morte; ser benigno com meus adversários, ser perseguido e caluniado pelos mesmos, a quem fizerdes bem por meio de mim. Quero morrer por Vosso Amor; pois Vós por meu amor morrestes. Pesa-me dentro da alma, Vos haver ofendido, sendo Vós a mesma bondade infinita. Confesso diante do Céu e da terra, que fiz o mal: confesso minha culpa. Mas, confiado em Vossa misericórdia e na virtude e eficácia de Vosso Sangue, assento e proponho firmemente, de emendar a vida e tomar daqui por diante, por regra dela, Vossa santíssima vontade. Ponde, Senhor, nesta minha determinação o selo de Vossa graça, para que fique confirmada: e fazei em mim, não como minhas ingratidões merecem, senão conforme Vossa grande misericórdia. Amém.


Fonte: Ven. Pe. Manoel Bernardes, Orat., “Luz e Calor”, Segunda Parte, Opúsculo IV, Solilóquio XIII, Art., 387, pp. 434-437. Nova Edição; Lisboa, 1871.



Desejo a Todos os Irmãos,

uma Santa e Frutuosa Semana Santa,

Finalizada por uma Feliz Páscoa.

Salve Maria!

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1Luc., 23, 34.
2Jo., 13, 1.

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