Blog Católico, para os Católicos

"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Visão Profética de São João Bosco




Paris, Igreja, Itália.

(05/01/1870)


Aos 5 de janeiro de 1870 Dom Bosco teve um sonho profético a respeito dos acontecimentos futuros da Igreja e do mundo. Ele mesmo, pessoalmente, escreveu o que viu e ouviu e no dia 12 de fevereiro o comunicou ao Papa Pio IX.

É uma profecia que, como todos os vaticínios, tem seus pontos obscuros. Dom Bosco deixou bem claro como era difícil comunicar aos outros com sinais externos e sensíveis aquilo que tinha visto. Segundo ele, tudo quanto havia narrado era tão só “a Palavra de Deus, acomodada à palavra do homem”. Mas os muitos pontos claros mostram que realmente Deus tenha revelado ao seu Servo segredos desconhecidos por todos, para que fossem revelados para o bem da Igreja e para o conforto dos cristãos.

A exposição começa com uma afirmação explícita: “Encontrei-me perante a consideração de coisas sobrenaturais”, difíceis de comunicar.

Segue a profecia, em três partes distintas:

1ª) A respeito de Paris: será punida porque não reconhece seu Criador;

2ª) A respeito da Igreja: Atribulada por discórdia e divisões internas. Definição do Dogma da Infalibilidade Pontifícia vencerá o inimigo;

3ª) A respeito da Itália e de Roma em particular, que soberbamente despreza a Lei do Senhor. Por causa disso tornar-se-á vítima de grandes flagelos.

Finalmente, a “Augusta Rainha”, em cujas mãos está o poder de Deus, fará resplandecer de novo o arco-íris da paz.

O anúncio começa com o tom dos antigos profetas:

“Só Deus tudo pode, conhece tudo, vê tudo. Deus não tem nem passado nem futuro, mas diante dEle tudo está presente como se estivesse em um só ponto. Diante de Deus não há nada de escondido, nem para Ele existe distância de lugar e de pessoa. Só Ele, na sua infinita misericórdia e para a sua glória pode manifestar as coisas futuras dos homens.

Na vigília da Epifania do corrente ano de 1870, desapareceram os objetos materiais de meus aposentos e me encontrei diante da consideração de coisas sobrenaturais. Foi coisa de breves instantes, mas se pôde ver muito. Embora de forma, de aparências sensíveis, todavia não se podem senão com grande dificuldade comunicar aos outros com sinais externos e sensíveis. Pode-se ter uma ideia a partir do que se segue. Aí se acha a Palavra de Deus adaptada à palavra do homem.

Do sul vem a guerra, do Norte vem a Paz.

As leis da França não reconhecem mais o Criador e o Criador far-se-á conhecer e a visitará três vezes com a vara do Seu furor.

Na primeira, abaterá sua soberba com as derrotas, com o sangue e com a destruição das colheitas, dos animais e dos homens.

Na segunda, a grande Prostituta de Babilônia, aquela que os bons, suspirando, chamam de Prostíbulo da Europa, será privada do seu Chefe, invadida pela desordem.

- Paris! Paris! Em vez de te armar com o Nome do Senhor, te circundas de casas de imoralidade. Elas serão por ti própria destruídas; o teu ídolo, o Panteon será incinerado a fim de que se verifique que mentita est iniquitas sibi (a iniquidade mentiu para si mesma). Os teus inimigos te atirarão em meio às angústias, à fome, ao espanto e ao abomínio das nações. Mas ai de ti se não reconheceres a Mão que te flagela! Quero punir a imoralidade, o abandono, o desprezo da Minha Lei – diz o Senhor.

Na terceira, cairás na mão estrangeira, os teus inimigos de longe verão teus palácios em chamas e tuas habitações transformadas num monte de ruínas banhadas pelo sangue de teus heróis que já não existem mais.

Mas, eis um grande guerreiro do Norte, que transporta um estandarte. Sobre a destra que o segura está escrito: Irresistível Mão do Senhor. Nesse instante o Venerando Ancião do Lácio foi ao seu encontro empunhando e fazendo esvoaçar um facho luminosíssimo. Então, o estandarte se ampliou e de negro que era se tornou branco como a neve. No meio do estandarte, em caracteres de ouro, estava escrito o dAquele que tudo pode.

O guerreiro com os seus, fez uma profunda inclinação diante do Ancião e se apertaram as mãos.

Agora a voz do Céu é para o Pastor dos pastores. Tu te encontras na grande conferência com teus Assessores (Concílio Vaticano I), mas o inimigo do bem não fica quieto um instante sequer, ele estuda e põe em prática todas as artimanhas contra ti. Semeará a discórdia entre os teus Assessores, suscitará inimigos entre os Meus filhos. As potências do século vomitarão fogo e quereriam que Minhas palavras fossem sufocadas na garganta dos que são os guardas da Minha Lei. Isso não vai acontecer. Farão o mal, o mal a si próprios. E tu, apressa-te: se não se resolverem as dificuldades, que sejam cortadas. Se estiveres em meio às angústias, não pares, mas prossegue até que seja decepada a cabeça da hidra do erro (com a definição da Infalibilidade Pontifícia). Esse golpe fará tremer a terra e o Inferno, mas o mundo se sentirá reassegurado e todos os bons haverão de exultar. Reúne, portanto, ao teu redor nem que sejam só dois Assessores, mas aonde quer que fores, continua e termina a obra que te foi confiada (o Concílio Vaticano I). Os dias correm velozes, os teus anos vão chegando ao número estabelecido; mas a grande Rainha será teu auxílio e, como nos tempos passados, assim também pelo futuro afora será sempre magnum et singulare in Ecclesia praesidium (grande e singular defesa [proteção] na Igreja).

Mas tu, Itália, terra de bênçãos, quem te mergulhou na desolação?... Não digas que foram teus inimigos, mas sim os teus amigos. Não ouves teus filhos que pedem o pão da Fé e não encontram quem lho reparta? Que farei? Ferirei o pastor, dispersarei o rebanho a fim de que os que se sentam na cátedra de Moisés procurem boas pastagens e a grei escute docilmente e se alimente.

Mas, por sobre o rebanho e por sobre os pastores pesará a Minha mão; a carestia, a pestilência, a guerra farão com que as mães venham a prantear o sangue dos filhos e dos maridos mortos em terra inimiga.

E de ti, ó Roma, o que há de ser? Roma ingrata, Roma efeminada, Roma soberba! Chegaste a tal ponto que não procuras outra coisa, nem outra coisa admiras no teu Soberano a não ser o luxo, esquecendo-te de que a tua glória e a dele se acham no Gólgota. Agora ele está velho, decaído, inerme, despojado; todavia, com sua palavra, mesmo escrava, faz tremer o mundo inteiro.

Roma!... Por quatro vezes Eu virei a ti.

-        Na primeira atingirei tuas terras e teus habitantes.

-        Na segunda, levarei a destruição e o extermínio até junto de teus muros. Não abres ainda teus olhos?

-        Virei pela terceira vez, abaterei as defesas e os defensores; e em lugar da autoridade do Pai, entrará o reino do terror, do espanto e da desolação.

-        Mas os Meus sábios fogem, a Minha Lei continua a ser pisada e, por isso, farei a quarta visita. Ai de ti se a Minha Lei for ainda para ti uma palavra vã! Acontecerão prevaricações nos doutos e nos ignorantes. O teu sangue e o sangue de teus filhos lavarão as nódoas que atiras à Lei de Deus.

A guerra, a peste, a fome, são os flagelos com os quais será vergastada a soberba e a malícia dos homens. Onde estão, ó ricos, vossas magnificências, as vossas vilas, os vossos palácios? Tornaram-se o lixo das praças e dos caminhos.

Mas vós, ó Sacerdotes, por que não correis para chorar entre o vestíbulo e o altar, invocando a cessação dos flagelos? Por que não tomais o escudo da Fé e não subis ao cimo dos tetos e não ides às casas, às ruas, às praças, a qualquer outro lugar, mesmo inacessível, para levar a semente da Minha Palavra? Ignorais que Ela é a terrível espada de dois gumes, que abate os meus inimigos e quebra a ira de Deus e dos homens?

Essas coisas terão de vir, inexoravelmente, uma depois da outra.

As coisas vão se sucedendo mui lentamente.

Mas a Augusta Rainha do Céu está presente.

O poder do Senhor está em Suas mãos; dispersa Seus inimigos como ao nevoeiro. Reveste o Venerando Ancião de todos os seus antigos trajes.

Aparecerá ainda um violento furacão.

A iniquidade se consumou, o pecado verá seu fim, e, antes que transcorram dois plenilúnios do mês das flores, o arco-íris da paz aparecerá por sobre a terra.

O grande Ministro verá a Esposa do seu Rei vestida festivamente.

Em todo o mundo aparecerá um sol tão luminoso como nunca existiu, desde as chamas do Cenáculo até hoje, sem haverá igual até o último dos dias” (MB IX, 779).

________________________

O Boletim salesiano de 1963, em três tópicos, nos números de outubro, novembro e dezembro, fazia um interessante comentário a respeito desta visão. Nós aqui nos limitamos a citar o abalizado juízo da Civiltà Cattolica de 1872, ano 23, vol. VI, série 8ª, págs. 299 e 230. Transcreve literalmente alguns períodos precedidos por este testemunho: “É-nos grato relembrar um vaticínio recentíssimo que jamais foi impresso e é também desconhecido pelo público; proveniente de uma cidade da alta Itália, foi comunicado a determinado personagem em Roma a 12 de fevereiro de 1870. Nós desconhecemos de quem ele provenha. Mas podemos certificar que o tivemos em mãos antes que Paris fosse bombardeada pelos alemães e incendiada pelos comunistas. E diremos que nos causou maravilha ver aí preanunciada também a queda de Roma na ocasião em que não se julgava deveras nem próxima, nem provável”.[1]      


[1]   Veja também Dom Bosco, una biografia nuova, de Teresio Bosco, editrice Elle Di Ci pp. 345-346 (Trad. Port. Editora Dom Bosco).

Fonte: Os Sonhos de Dom Bosco, coletânea organizada por Pietro Zerbino e traduzida pelo Pe. Júlio Bersano, pp. 139-144, Profecia de nº 33 desta coletânea; Editora Salesiana Dom Bosco, São Paulo, 1988.


terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

OBRIGADO, BENTO XVI!



 
Dom Fernando Arêas Rifan* 
                                                         
Beatíssimo Padre, junto com a compreensão pelo seu ato, venho expressar-lhe, com toda a sinceridade, minha imensa gratidão. Um dia, o mundo inteiro também lhe será grato e reconhecerá o seu valor!

Obrigado, Santo Padre, por todo o seu Pontificado, tão rico em doutrinas que solidificaram a nossa fé e aumentaram a confiança devida ao Magistério da Igreja. Obrigado pelas três magníficas encíclicas sobre a Caridade, a Esperança e a Doutrina Social da Igreja, e pela proclamação do Ano da Fé. Obrigado, Santo Padre, por nos esclarecer sobre a correta hermenêutica com a qual devemos receber o Concílio Vaticano II, de cuja abertura comemoramos os 50 anos, não em ruptura com o passado da Igreja, mas em plena consonância com sua Tradição. Obrigado, Santo Padre, pelas Exortações Apostólicas, especialmente a “Verbum Domini”, sobre a Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja, e a “Sacramentum Caritatis”, sobre a Eucaristia, fonte e ápice da vida e da missão da Igreja.

Obrigado, Santo Padre, pelo incentivo dado à Liturgia corretamente celebrada, com o seu exemplo na arte de celebrar piedosamente, com todo o respeito devido ao Santo Sacrifício da Missa, incrementando desse modo a verdadeira e desejada reforma litúrgica. Obrigado, Santo Padre, pelas suas Cartas Apostólicas, especialmente, o motu proprioSummorum Pontificum”, pelo qual Vossa Santidade, desejando que haja a “paz litúrgica na Igreja”, liberou como legítimo para o mundo inteiro o uso da forma antiga da liturgia romana, e o motu proprio “Lingua Latina”, com o qual V. S. instituiu a Pontifícia Academia de Latinidade, para incrementar o estudo do latim, língua oficial da Igreja. Obrigado, Santo Padre, pela Constituição Apostólica “Anglicanorum coetibus”, criando mecanismos canônicos para receber os Anglicanos na plena comunhão da Igreja, exemplo concreto do mais sadio ecumenismo.

Obrigado, Santo Padre, pelo grande exemplo de humildade que nos deu com a sua renúncia. Vossa Santidade começou o seu pontificado com uma declaração de humildade e confiança em Deus: “Depois do grande Papa João Paulo II, os Senhores Cardeais elegeram-me, simples e humilde trabalhador na vinha do Senhor. Consola-me saber que o Senhor sabe trabalhar e agir também com instrumentos insuficientes. E, sobretudo, recomendo-me às vossas orações. Na alegria do Senhor Ressuscitado, confiantes na sua ajuda permanente, vamos em frente. O Senhor ajudar-nos-á. Maria, sua Mãe Santíssima, está conosco. Obrigado!” E o termina com a renúncia, ato heroico de humildade, desapego e confiança. Humildade ao reconhecer a própria fraqueza - “eu tenho de reconhecer minha incapacidade de adequadamente cumprir o ministério a mim confiado” – e ao pedir perdão – “peço perdão por todos os meus defeitos”. Desapego do cargo e da elevada posição, não se achando necessário, mas apenas humilde servidor. E tranquila confiança, baseada na Fé, pela certeza de que quem governa a barca de Pedro é o próprio Senhor, que proverá sempre a sua Igreja: “as portas do inferno não prevalecerão contra ela”. Santo Padre, reze por nós e conte sempre com nossas orações.


*Bispo da Administração Apostólica Pessoal 
São João Maria Vianney
                                  


sábado, 23 de fevereiro de 2013

As palavras de um Santo na iminência do Conclave.


21 fevereiro, 2013

Recentemente, pequenos trechos de uma carta escrita por Santo Afonso Maria de Ligório com considerações acerca dos males que afligiam a Igreja e que diante da iminência do conclave de 1774/1775 deveriam ser levados em conta na escolha do novo Pontífice, vêm sendo reproduzidos em vários sites. Ante o momento vivido pela Igreja, publicamos a tradução da carta na íntegra:

Escreve o Padre Tannoia, o primeiro biógrafo e contemporâneo de Santo Afonso: “O Cardeal Castelli, conhecedor do grande crédito de que Afonso gozava junto a todos pelo espírito de Deus que o animava e o peso que a sua autoridade tinha junto aos Cardeais, – sendo iminente o tempo em que eles deviam encerrar-se no Conclave – quis que ele, como se respondesse a uma pessoa zelosa e amiga que lhe tivesse pedido, indicasse em uma carta os principais abusos que deviam ser extirpados da Igreja e da hierarquia eclesiástica, e outras coisas que se deviam levar em consideração na eleição do novo Papa. Assim pediu o Cardeal, querendo fazer presente a carta no Conclave, para que se elegesse um papa adequado às circunstâncias. Afonso, diante desta ordem, enrubesceu. Todavia, tanto pelo zelo pela glória divina, como para obedecer a um eminentíssimo cardeal que ele tanto estimava, recomendou-se antes a Deus, e assim lhe respondeu no dia 23 de outubro de 1774″ (Tannoia, Da vida e instituto do Ven. Servo de Deus Afonso Maria de Ligório, Napoles 1798-1802, lib. III, cap. 55)
Carta 773. A Padre Traiano Trabisonda
Viva Jesus, Maria e José!
Arienzo, 24 de outubro de 1774

Ilustríssimo Senhor meu estimadíssimo,

Meu amigo e senhor, acerca do sentimento que se me pede sobre os assuntos atuais da Igreja e a eleição do Papa, que pensamento posso apresentar, eu um miserável ignorante e de tão pouco espírito, como sou?

Digo apenas que são necessárias orações e grandes orações; já que, para levantar a Igreja do estado de relaxamento e de confusão em que se encontram universalmente todos os níveis, nem toda a ciência e prudência humana conseguem remediar, mas é preciso o braço onipotente de Deus.

Entre os bispos, poucos são os que têm verdadeiro zelo pelas almas.

As comunidades religiosas, quase todas e mesmo sem o quase, estão relaxadas, porque nas congregações, na presente confusão das coisas, falta a observância e a obediência se perdeu.

No clero secular as coisas estão piores e, por isso, faz-se necessária aí uma reforma geral para todos os eclesiásticos, de maneira a reparar a grande corrupção dos costumes, que existe entre os seculares.

Por isso é preciso rezar a Jesus Cristo que nos dê um Chefe da Igreja que, mais do que de doutrina e de prudência humana, seja dotado de espírito e de zelo pela honra de Deus, e seja totalmente alheio a qualquer partido e respeito humano, porque se, por nossa desgraça, acontecesse um Papa que não tem apenas a glória de Deus diante dos olhos, o Senhor pouco o assistirá e as coisas, como estão nas presentes circunstâncias, irão de mal a pior.

Assim que as orações podem trazer remédio a tanto mal, ao obter de Deus que ele mesmo ponha a sua mão e conserte.

Por isso, não somente impus a todas as casas da minha mínima Congregação que rezem a Deus, com atenção maior do que habitualmente, pela eleição deste novo Pontífice; mas na minha diocese ordenei a todos os sacerdotes seculares e regulares que, na missa, recitem a coleta pro electione pontificis; desejaria que o Senhor inspirasse ao Sacro Colégio para escrever a todos os Núncios dos reinos cristãos, para que ordenassem esta coleta, por parte do Sacro Colégio, a todos os sacerdotes.

É este o sentimento que eu, miserável, posso apresentar.

Para esta eleição do Papa, não deixo de rezar mais vezes ao dia, mas o que podem minhas frias orações? Contudo, confio nos méritos de Jesus Cristo e de Maria Santíssima, que antes que a morte me atinja, que me está muito perto pela idade tão decadente e pela doença em que me encontro, o Senhor possa consolar-me fazendo-me ver a Igreja reconstituída.

Acrescento, amigo, que também eu desejaria, como Vossa Senhoria ilustríssima, ver reformados tantos desarranjos presentes; e saiba que, nesta matéria, giram-me pela mente mil pensamentos, que gostaria de fazê-los presentes a todos. Mas, olhando para a minha mesquinhez, não tenho ânimo de torna-los públicos, para não parecer que eu quero reformar o mundo. Comunico-lhe, porém, em confiança e como um desabafo, estes meus desejos.

Em primeiro lugar, gostaria que o próximo Papa (já que faltam muitos Cardeais, que deverão ser nomeados) escolhesse, entre aqueles que lhe serão propostos, os mais doutos e zelosos pelo bem da Igreja e que intimasse preventivamente aos Príncipes, na primeira carta em que lhes comunicará a sua eleição, que, quando pedirem o cardinalato para algum favorito seu, não proponham senão pessoas de comprovada piedade e doutas, porque, caso contrário, não poderá admiti-los em boa consciência.

Gostaria ainda que usasse toda a sua força em negar mais benefícios àqueles que já estão de posse dos bens da Igreja que lhes bastam para a sua manutenção, segundo o conveniente ao seu estado. E nisso usasse toda a fortaleza contra os compromissos que poderão aparecer.

Gostaria, além disso, que se impedisse o luxo nos prelados e, por isso, se determinasse para todos (caso contrário, a nada se porá remédio), se determinasse, digo, o número dos empregados, exatamente o que compete a cada categoria de prelados: tantos camareiros e não mais; tantos servos e não mais; tantos cavalos e não mais; para não dar mais o que falar aos hereges.

Mais ainda! Que se usasse diligência ao escolher os bispos (dos quais, principalmente, depende o culto divino e a salvação das almas), solicitando informações a mais pessoas sobre a sua vida digna e doutrina necessária para governar as dioceses. E que, também para aqueles que já estão em suas igrejas, se exigisse dos metropolitanos e de outros, secretamente, a informação sobre aqueles bispos que pouco atendem o bem de suas ovelhas.

Gostaria ainda que se fizesse perceber, por toda a parte, que bispos descuidados e faltosos ou na residência ou no luxo das pessoas que mantêm ao seu serviço, ou nas enormes despesas com mobílias, banquetes e coisas semelhantes, serão punidos com a suspensão ou com o envio de vigários apostólicos que consertem os seus defeitos, dando o exemplo, de quando em vez, conforme a necessidade.

Todo exemplo desse tipo faria com que estivessem mais atentos a se controlar os demais prelados descuidados.

Gostaria ainda que o futuro Papa fosse muito reservado em conceder certas graças que prejudicam a boa disciplina, como, por exemplo, permitir às monjas saírem da clausura por mera curiosidade de ver as coisas do século, o conceder facilmente aos religiosos a licença de se secularizar, pelos inconvenientes mis que daí decorrem.

Sobretudo, desejaria que o Papa reconduzisse universalmente todos os religiosos à observância do seu primeiro Instituto, pelo menos nas coisas mais principais.

Basta, não desejo mais causar-lhe tédio. Nada podemos fazer, a não ser rezar ao Senhor, que nos dê um Pastor pleno do seu espírito, que saiba estabelecer estas coisas que acenei brevemente, conforme for mais conveniente à glória de Jesus Cristo.

E com isso, apresento-lhe minha humilíssima reverência, enquanto com todo o obséquio me confesso.

De Vossa Senhoria Ilustríssima obrigadíssimo servo verdadeiro
AFONSO MARIA, bispo de Santa Águeda dos Godos.

Fonte: Blog do Padre Paulo Ricardo – Destaques nossos.




sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

"Gosto de Carnaval", confessa Padre Fábio de Melo.

 


Exibido: 07/02/13


O Bom e o Mau Exemplo do Padre


"Colocamos o bom exemplo no fim das virtudes eclesiásticas, não porque lhes é inferior sob o ponto de vista de sua importância, mas  porque as recorda e encerra todas, e é como que o seu resumo completo.

Todas as virtudes se encontram no santo Padre: por isso, o santo Padre edifica a todo o mundo pelo bom exemplo, que dá.

Pelo contrário, o mau Padre, e até o tíbio e relaxado, tem falta de algumas virtudes essenciais, ou praticam muito imperfeitamente as fracas virtudes, que possuem; do mesmo modo sua vida ou é escandalosa ou muito pouco edificante.

É impossível possuir ou não possuir virtudes, sem edificar os povos pelo bom exemplo, ou levá-los ao mal pelo escândalo. Eis o que fazia dizer a Massillon estas notáveis palavras: “O exemplo é o primeiro dever de nosso estado; sem ele, ou todas as nossas funções se tornam inúteis, ou são uma ocasião de queda e de escândalo para os povos, que o Senhor nos confiou em Sua cólera”.

É preciso insistir sobre a indispensável necessidade, que todo o Padre tem, de edificar os povos pelo espetáculo de suas virtudes? Não basta um momento de reflexão para ver as muitas e poderosas razões, que fazem ressaltar esta necessidade?

Lembraremos somente as principais.

Devemos edificar por uma vida verdadeiramente santa: Por que? Porque nosso divino Salvador nos dá por missão guiar os povos e ser sua luz: Vos estis lux mundi. Que é uma luz debaixo do alqueire? Que é um guia que corre para os abismos?

Devemos edificar: Ainda por que? Porque a luz, que estamos encarregados de apresentar aos homens, deve descobrir-lhes a santidade da nossa vida e o resplendor das nossas boas obras: Sic luceat lux vestra coram hominibus ut videant opera vestra bona.

Devemos edificar os fiéis, porque assim no-lo recomenda formalmente o grande Apóstolo e em termos, que não admitem réplica; ponderemos bem todas as  suas palavras: In omnibus teipsum praebe exemplum bonorum operum, in doctrina, in integritate, etc. Exemplum esto fidelium in verbo, in conversatione, in charitate, etc.

Devemos edificar, porque a Igreja em seus Concílios, os Santos por sua doutrina e por seus exemplos, recordam-nos incessantemente esta rigorosa e fundamental obrigação.

Que coisa mais terminante que estas palavras do santo Concílio de Trento, que todos nós conhecemos: Habitu, incessu, sermone, ALIISQUE OMNIBUS REBUS nihil nisi grave, moderantum ac religione plenum (sacerdotes) prae se ferant.

In incessu, já o tinha dito Santo Agostinho, de quem o Concílio de Trento parece ter copiado as palavras, statu, habitu et omnibus motibus vestris, nihil fiat quod cujusquam offendat aspectum, sed quod deceat vestram sanctitatem.

“Todo pastor, que escandaliza, diz o mesmo Santo, causa a morte às ovelhas , que deve apascentar”: Omnis qui male vivit, in conspectu eorum quibus praepositus est, quantum in se est, occidit oves.

“A vida dos padres, dizia em 1537 um Sínodo de Tours, é o livro dos leigos”: Liber laicorum vita clericorum.

Devemos edificar, porque nossa missão essencial é salvar almas, e salva-las-emos muito mais pelo exemplo de uma vida santa, do que por nossos talentos e por nossas pregações.

Devemos edificar, porque para um Padre, não edificar, é escandalizar e escandalizar é arruinar, é aniquilar o Sacerdócio; é fazer-se auxiliar do Demônio e destruir o edifício da salvação dos povos, que Jesus Cristo erigiu por Seu Evangelho, por Seus trabalhos, por Suas fadigas, por Seus suores e por Seu Sangue.

Devemos edificar, enfim, porque se damos o exemplo dos vícios em vez do das virtudes, autorizamos os pecadores a continuar suas desordens, e condenamo-nos à vergonha de não poder dar-lhes uma repreensão. Como clamar contra os intemperantes, se eles podem dizer: Nosso pastor faz como nós? Como fulminar o impudico, se ele pode dizer: Certo padre é meu modelo? Como atacar o avarento, se ele pode dizer: Meu cura entesoura? Como censurar o amante apaixonado do jogo, se ele pode dizer: Os padres passam nele os dias e as noites?

O santo Padre pode estigmatizar todos os vícios, porque sabe-se que não é escravo de nenhum; pode pregar as virtudes sem excepção de uma só, porque sabe-se que as pratica todas.

Para glória de Deus, queridos colegas, para honra de nosso Sacerdócio, conservemos a santa liberdade da palavra; não alienemos nunca o direito, que sempre devemos ter, de combater o vício e preconizar a virtude...

… Desgraçado ele (o Padre), se deixa de falar como Deus, para falar como homem!..."

Fonte: Abade H. Dubois, "O Padre Santificado", pp. 11, 261-279; Trad. do Francês pelo Pe. M. J. Valente; Livraria Internacional de Ernesto e Eugênio Chardron, Porto/Braga, 1878.


segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Deputada do PT critica Papa Bento XVI e sai em defesa de Leonardo Boff

Deputada Marisa Formolo - PT
 
A balbúrdia que se seguiu na classe falante brasileira após a renúncia do Papa Bento XVI é o bastante para percebermos que as opiniões emitidas nessas tribunas não passam de tagarelices e de conversa de aloprados. Subitamente surgiram dos mais variados setores da sociedade especialistas em Direito Canônico, Teologia e afins. Todos ansiosos pela oportunidade de dizerem suas opiniões, como se delas dependesse o próspero sucesso e êxito da Igreja, a qual eles julgam decadente e antiquada. "Que o próximo Papa seja mais aberto", dizem uns, "que a Igreja acorde para os problemas sociais", dizem outros, como se a doutrina católica fosse definida pelo consenso de um coletivo, bem ao estilo de um grêmio estudantil.

A verdade é que este fenômeno que deu origem a tantos teólogos e vaticanistas de última linha procede de uma cultura que está em curso no Brasil há anos. É a cultura do imediatismo, na qual esses doutos senhores elaboram suas opiniões de modo irracional e a toque de caixa, fundamentados nos mesmos chavões toscos que suas professoras de ensino médio lhes ensinaram. Basta que a grande mídia sopre aos seus ouvidos qualquer bobagem para que a turba ignara se levante com suas opiniões e teorias mirabolantes. É um povo a qual gente madura o suficiente jamais prestaria ouvidos. Mas no reino da insensatez, infelizmente, qualquer um está apto a opinar sobre assuntos que não lhes dizem respeito. Quem explica muito bem isso é o filósofo Olavo de Carvalho:
"O idiota presunçoso, isto é, o tipo mais representativo de qualquer profissão hoje em dia, incluindo as letras, o ensino e o jornalismo, forma opinião de maneira imediata e espontânea, com base numa quantidade ínfima ou nula de conhecimentos, e se apega a seu julgamento com a tenacidade de quem defende um tesouro maior que a vida. A rigor, não tem propriamente opiniões. Tem apenas impressões difusas que não podendo, é claro, encontrar expressão adequada, se acomodam mecanicamente a qualquer fórmula de sentido análogo, colhida do ambiente, e então lhe parecem opiniões pessoais, como se a conquista de uma autêntica opinião pessoal prescindisse de esforço".
Um claro exemplo do que estamos falando é a deputa Marisa Formolo (PT), que do alto de sua "grande sabedoria teológica", proferiu um discurso totalmente descabido a respeito da renúncia do Papa Bento XVI, durante o Grande Expediente da Assembleia Legislativa de Porto Alegre - RS:
"Acompanhei a conduta de Dom Ratzinger quando impediu que a América Latina avançasse na teologia da libertação, quando impediu o nosso grande amigo Leonardo Boff, com quem trabalhei nas questões de direitos humanos, de se pronunciar novamente em algum lugar do mundo, quando impediu que as comunidades eclesiais de base tivessem a força de organização do povo para construir o reino de Deus. Esse mesmo papa está saindo, e penso que em boa hora."
O discurso, que ganhou um merecido repúdio da Arquidiocese de Porto Alegre, foi feito na última quarta-feira, 13/02, numa reunião em que se discutia o tema da Campanha da Fraternidade 2013, cujo o lema é "Fraternidade e juventude". Presente na Assembleia, o arcebispo de Porto Alegre, Dom Dadeus Grings, disse ter se surpreendido com a fala da deputada e criticou: "Foi realmente muito triste. Todo mundo ficou pasmo. Ela vive em um mundo à parte, o da ideologia". Diz a nota de repúdio da Arquidiocese:
"No dia 13 de fevereiro, às 14 horas, em sessão oficial, a Assembléia Legislativa prestou uma homenagem para o tema da Campanha da Fraternidade sobre a Juventude. Após expor o assunto e ceder os apartes a seus colegas, num clima de grande apreço pela Campanha, do alto de sua tribuna, já totalmente fora do contexto, a Senhora Deputada Marisa Formolo agrediu violentamente a sensibilidade dos católicos do Rio Grande do Sul, com um ataque gratuito à pessoa do Papa Bento XVI, que neste momento merece e recebe de todo o mundo, especial carinho. A agressão foi totalmente desumana. Baseia-se numa ideologia superada e numa deturpação ou ignorância dos fatos reais. Com esta atitude de vilipêndio, na oficialidade do Plenário, compromete a seriedade e imparcialidade da Casa. Fica nosso protesto, em nome da Comunidade Católica do Estado!"[01]
Marisa Formolo é seguidora de uma ideologia, não de uma religião. Seu conceito de Igreja Católica é uma ONG a serviço de um partido, que gera um bem estar social e econômico. Ensinamento muito distante daquele dito por Cristo de que "não só de pão vive o homem, mas de toda a Palavra de Deus". Ao se aliar às fileiras dos teólogos da libertação, a nobre deputada revira o cristianismo e com ele, a própria fé. A teologia da libertação não defende os pobres, ela o instrumentaliza e engana. Os frutos amargos do comunismo soviético e cubano são a maior prova disso. Como ensina Bento XVI no seu livro "Jesus de Nazaré", Jesus não veio trazer um mundo melhor, veio trazer Deus. Se a senhora Marisa Formolo não é capaz de entender isso, seria muito melhor que ela se limitasse a comentar o escândalo do mensalão, do qual o partido que ela pertence foi protagonista, que aventurar-se a comentar o que é bom ou ruim para a Igreja Católica. Até porque, uma pessoa que considera Leonardo Boff - aquele que chama o ser humano de "câncer que deve ser extirpado da Terra" - um baluarte dos direitos humanos, não tem a mínima condição de emitir qualquer juízo a respeito de Igreja e papado.

Infelizmente, casos como o da senhora Marisa Formolo não são os únicos nos últimos dias. Poderíamos elencar no mesmo rol dos nobilíssimos novos teólogos e vaticanistas uma série de outras personalidades e articulistas de grandes jornais. Todos elevados a esse patamar pelos grandes meios de comunicação, aqueles devidamente comprometidos com a completa desinformação. Mas não cabe a nós listá-los aqui. A propaganda que esses senhores têm da imprensa já é o suficiente. O que cabe a nós é ficarmos atentos às palavras claras do Santo Padre e ignorarmos por completo a opinião desses pseudos gurus. Afinal de contas, o que sai da boca deles não passa disso: opiniões!

18/02/2013 16:11

Referências

  1. Moção de Repúdio da Arquidiocese de Porto Alegre

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Um Sonho de São João Bosco, aos Jovens da Jornada Mundial da Juventude.




“Deixem-me sozinho: sofro muito”
(Sonho de 1867)


Na noite de 25 de junho de 1867 Dom Bosco narrou aos jovens um de seus sonhos mais sugestivos.

Pareceu-lhe que estava caminhando pelo caminho que levava até ------ (e nomeou a cidade), quando se sentiu chamado pelo nome por seu Guia. Acompanhou-o. Viajavam com a rapidez do pensamento, sem que seus pés tocassem no chão. Chegaram a um palácio de admirável estrutura, mas inacessível.

·         Entre nesse palácio – lhe disse o Guia.

·         De que jeito, se não há entrada?

·         Entre! Replicou imperiosamente o Guia. E, vendo que Dom Bosco não se mexia, disse:

·         Faça como faço eu: levante os braços e você subirá.

Assim dizendo, abriu os braços em direção ao Céu. Dom Bosco o imitou e sentiu que flutuava e subiu pelos ares, até que parou diante dos portais do palácio.

·         O que há aqui dentro? – Perguntou Dom Bosco.

·         Entre, visite e verá. Lá no fundo, numa sala, você encontrará quem o ensinará.

O Guia desapareceu. Dom Bosco percorreu muitas salas luxuosas com a rapidez do vento e, coisa admirável, suspenso no ar, com as pernas juntas, deslizava sem esforço algum, como se fosse sobre um chão liso de cristal, mas sem tocar o pavimento. Assim, passando de um apartamento a outro, chega a uma grande sala, mais esplêndida do que as outras.

Na sua extremidade, sobre um sofá, reparou, sentado majestosamente, um Bispo, em atitude de quem espera para dar uma audiência.

“Aproximei-me com respeito – narra Dom Bosco – e fiquei extremamente maravilhado ao reconhecer naquele prelado um íntimo amigo meu. Era Dom ------ (e citou o nome), Bispo de ------. Seu aspecto era flórido, afetuoso, de tal beleza que não se pode exprimir”.

·         Oh! Monsenhor! Vª. Excia. Aqui? – perguntei-lhe. Mas já não morreu?

·         Sim, que morri. E o sr., Dom Bosco, está vivo ou está morto?

·         Eu estou vivo: não vê que estou aqui em corpo e alma?

·         Aqui não se pode entrar com o corpo.

·         No entanto, aqui estou eu.

Em seguida, Dom Bosco fez ao Bispo muitas perguntas.

·         Diga-me, Monsenhor, está salvo?

·         Sim. Encontro-me em um lugar de salvação.

·         Mas já está no Paraíso gozando de Deus, ou está ainda no Purgatório?

·         Estou num lugar de salvação, mas a Deus, ainda não O vi e preciso que vocês rezem ainda por mim.

·         E por quanto tempo deve ainda ficar no Purgatório?

·         Olhe aqui.

E lhe entregou uma folha de papel, acrescentando:

·         Leia.

Dom Bosco examinou a folha e virou-a de todos os jeitos, mas não conseguiu ler nada. O Bispo observou-lhe que era necessário ler do avesso, porque os juízos de Deus são diferentes dos do mundo. Dom Bosco ousou insistir, pedindo uma resposta mais clara e perguntou:

·         E eu, me salvarei?

·         Tenha esperança.

·         Mas não me deixe angustiado: me diga claro se me salvarei.

·         Não o sei.

·         Ao menos me diga se estou na graça de Deus.

·         Não o sei.

·         E os meus jovens, se salvarão?

·         Não o sei.

·         Mas por favor, eu lhe suplico, mo diga!

·         Eis aqui: essas coisas o Senhor as dá a conhecer a quem Ele quiser, dá a licença para que sejam comunicadas aos que ainda estão vivos.

Aqui Dom Bosco diz que estava louco para saber tantas coisas; portanto, fez mais perguntas ao Bispo:

 
·         Agora me diga alguns pensamentos seus para transmiti-los aos meus jovens como lembrança sua.

·         Diga-lhes que salvem suas almas, pois o resto não serve para nada.

·         Mas já sabemos bem que devemos salvar a alma; mas como devemos fazer para salvá-la?

·         Diga aos jovens, que se tornem bons e obedientes.

·         E quem já não sabe de cor essas coisas?

·         Diga a eles que sejam puros e que rezem.

·         Mas, explique-se mais praticamente.

·         Diga-lhes que se confessem com frequência e façam boas comunhões.

·         Diga-me algo de mais particular ainda.

·         Eu lho direi, já que o quer. Diga-lhes que eles tem diante de seus olhos uma névoa; quando alguém chega a enxergar essa névoa, já chegou a um bom ponto.

·         Mas o que é essa névoa?

·         São as coisas do mundo, que impedem de ver, como elas são realmente, as coisas do Céu.

·         E como eles devem agir para acabar com essa névoa?

·         Considerem o mundo como ele é: mundus totus in maligno positus est (todo o mundo se acha debaixo do poder do Diabo), e, então sim, salvarão a própria alma; não se deixem enganar pelas aparências do mundo. Os jovens crêem que os prazeres, as alegrias, as amizades do mundo possam torná-los felizes e, portanto, não esperam senão o momento de gozar desses prazeres; mas recordem-se de que tudo é vaidade e aflição de espírito.

·         E essa névoa, por que coisa é principalmente produzida?

·         Pela imodéstia e pela impureza. É como se fosse uma nuvem negra, grande e densíssima, que tira a vista e impede que os jovens vejam o precipício para o qual se encaminham. Diga-lhes que conservem ciosamente a virtude da pureza, pois os que a possuem florebunt sicut lilium in civitate Dei (florescerão como lírios na cidade de Deus).

·         E o que é necessário para conservar a pureza?

·         São necessários: recolhimento, obediência, fuga do ócio e oração.

·         E que mais?

·         Oração, fuga do ócio, obediência e recolhimento.

·         Nada mais que isso?

·         Obediência, recolhimento, oração e fuga do ócio.

“Apenas o Bispo acabou de falar – continua Dom Bosco –, todo aflito em querer comunicar a vocês esses avisos, deixei apressadamente aquela sala e corri para o Oratório – Eu voava com a rapidez do vento e num instante me encontrei diante do portão do Oratório. Quando aqui cheguei, parei de repente e pensei: Por que não fiquei um pouco mais com o Bispo? Conseguiria ainda outros esclarecimentos. E imediatamente voltei para trás com a mesma rapidez com que eu tinha vindo. Entrei de novo naquele palácio e naquela sala.

Mas que mudança havia acontecido naqueles breves instantes! O Bispo, palidíssimo como cera, estava deitado em sua cama; parecia um cadáver; escorriam, nos cantos dos olhos, as últimas lágrimas: estava agonizando. Somente um imperceptível movimento do peito, sacudido de vez em quando pelos últimos anseios, indicava que ainda estava vivo. Aproximei-me dele, todo aflito:

·         Monsenhor, que foi que aconteceu?

·         Deixe-me – respondeu com um gemido.

·         Monsenhor, tenho ainda muitas coisas para lhe perguntar.

·         Deixe-me sozinho, estou sofrendo muito.

·         Que posso fazer pelo Sr.?

·         Reze e me deixe partir.

·         Para onde?

·         Para onde me conduz a onipotente mão de Deus.

·         Mas, Monsenhor, eu lhe suplico, diga onde é.

·         Estou sofrendo muito. Deixe-me.

·         Ainda uma só palavra: não tem nenhum recado para eu lhe resolver lá no mundo? Não me deixa nada para comunicar ao seu sucessor?

·         Dirija-se ao atual Bispo de ------ e transmita-lhe, de minha parte, isto e mais isto.

As coisas que ele disse não interessam a vocês, ó meus caros jovens, e por isso não as falarei. O Bispo continuo ainda:

·         E depois diga a tais e tais pessoas estas e outras coisas secretas”.

(Interrogado pelo Pe. Lemoyne se tinha levado a termo os recados recebidos daquele Bispo, respondeu: – Sim. Executei fielmente minha incumbência).

·         E nada mais? – continuei eu.

·         Diga a seus jovens que eu lhes quis sempre muito bem e que, até quando eu estava vivo, sempre rezei por eles e que ainda agora continuo a me lembrar deles. Que agora então rezem por mim.

·         Fique sossegado, eu lhes direi tudo isso e começaremos imediatamente a fazer nossos sufrágios pelo Sr. Apenas o Sr. Estiver no Paraíso, lembre-se de nós.

O Bispo, entretanto, apresentava um aspecto de maior sofrimento ainda. Causava dó vê-lo assim. Suportava uma agonia das mais angustiosas.

·         Deixe-me – me disse outra vez –, deixe que eu vá para onde o Senhor me chama.

·         Monsenhor!... Monsenhor!... – ia eu repetindo com um aperto de indizível compaixão.

·         Deixe-me! Deixe-me! – repetiu e desapareceu.

Eu, espantado e comovido diante de tanto sofrimento, me virei para retornar, mas topei em alguma coisa, acordei e me achei na minha cama” (MB VIII, 853).    

Obs.: O biógrafo Pe. Lemoyne escreve: “Dom Bosco não comentou nada sobre o estado daquele bom Bispo. De resto, por revelações digníssimas de fé e por testemunho dos Santos Padres, sabe-se que personagens de santidade, lírios de pureza virginal, ricos de merecimentos, realizadores de milagres e que hoje veneramos sobre os altares, por defeitos levíssimos, tiveram de passar um tempo, até mesmo longo, no Purgatório” (MB VIII, 859).

Fonte: “Os Sonhos de Dom Bosco”, coletânea organizada por Pietro Zerbino, sonho de número 25 desta coletânea; traduzido pelo Pe. Júlio Bersano; Editora Salesiana Dom Bosco, São Paulo, 1988.


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