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"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Maria Santíssima aos Pés da Cruz


1º Ponto

Aos sofrimentos inúmeros, vários e requintados com que os judeus martirizam na alma e no corpo o Filho de Deus, se deve acrescentar o que porventura é o mais penoso e sensível dentre eles todos, a vista de sua Mãe Santíssima1 que, de pé e em frente, O contempla a poucos passos de distância.2

Para termos a exata compreensão da dor de Jesus em ver Maria aos pés da Cruz é necessário que formemos uma ideia o menos imperfeita possível das angústias e mágoas que alanceiam o Coração de Maria à vista do Crucificado.

A Santíssima Virgem que ama a Jesus com um amor maternal3 que os Santos consideram superior, e síntese do amor de todas as mães, sofre na Alma e no Coração4 o que o Filho padece na Alma e no Corpo.5 Por sua vez Jesus, pela lei da repercussão, ao contemplar os espasmos que constringem aquela melíflua e dulcíssima alma, sente o eco doloroso em seu Coração de Filho afetuoso, dedicado e amantíssimo.6

Os olhos do Filho e da Mãe querida encontram-se e como através de dois espelhos, lê um o que se passa nos íntimos refolhos da outra; vê esta o que se aninha nos recônditos d’Aquele.

Intraduzível é a dor de Maria em contemplar o quadro desolador da Paixão do queridíssimo fruto de suas entranhas.7 Indizível é a dor de Jesus, ao ver a cândida e imaculada Alma da criatura mais Santa do universo, d’Aquela que lhe é Mãe terníssima nadar num mar de angústias e beber a largos sorvos a linfa amargosa do sofrimento!8 Jesus é a Cruz e o martírio de Maria!9 Maria é a Cruz e a dor de Jesus!10

Quanto a nós que meditamos cenas tão pungentes, melhor será para o nosso proveito espiritual e de maior consolação aos Corações de Jesus e Maria que, em lugar de suscitar doces e suaves afetos sondemos qual a verdadeira causa dos sofrimentos d’Eles e de onde a origem de tais martírios?

Ainda que nos custe confessá-lo, é preciso chegar aí, ó Virgem da Dores, a causa da vossa dor foi o pecado. Logo, eu sou realmente um dos que concorreram para crucificar-Vos a Alma após haver crucificado o Corpo do vosso querido Jesus.

Quisera não fosse isto verdade, como infelizmente é. Todas as Chagas que cobrem vossas carnes deificadas, ó Jesus, assim como todas as Chagas morais que alanham vosso Espírito, ó Virgem bendita, tem-me a mim como cúmplice e co-autor e co-responsável.11 Ninguém pois mais do que eu deve sentir pena, compaixão e desgosto em vos ver em transes tão aflitivos.

No entanto, como infeliz miserável e desgraçado! Parece que tenho uma alma de mármore; fria e gélida, tão grande é a aridez e a insensibilidade que experimento ao contemplar-vos desfeita sob o peso da dor aos pés da Cruz do vosso Filho.12

De quem me hei de valer senão de Vós que sois a Mãe das misericórdias e pedir-Vos que me tomeis sob o vosso poderoso patrocínio e me oculteis nas dobras do vosso manto das iras de Deus?

Ah! Senhora, pedi ao Vosso Filho que me perdoe e deixai-me aqui ficar junto de Vós aos pés da Cruz. Justa crucem tecum stare et me tibi sociare in planctu desidero.

Propósito. Hoje pedirei a Santíssima Virgem, que não esqueça o pobre filho pródigo, que vive exposto a mil perigos de perder-se. Suplica-la-ei que não consinta, que fique inutilizado o Sangue de suas veias.


2º Ponto

Se por uma parte o amor filial que Jesus consagra à sua querida Mãe, mostra que Ele é homem, por outra parte a calma e a suave tranquilidade com que suporta tamanhas dores, nos diz haver n’Ele alguma coisa de sobre-humano.13

Observe-se com que serenidade de espírito vai ditando do alto da Cruz o seu testamento.14

Após haver legado aos seus inimigos o perdão; deixado ao bom ladrão o Paraíso,15 confia ainda o discípulo dileto São João como filho da Santíssima Virgem, e a São João, como a mais preciosa herança entrega e recomenda a Nossa Senhora como Mãe carinhosíssima.16

Observe-se como Maria Santíssima enquanto se dá a conhecer mulher pelo afeto maternal que demonstra para o Filho, oferece a prova de haver n’Ela uma virtude superior, pela fortaleza, constância e intrepidez com que sofre tantas adversidades.17 A dor é suma18 e transcende toda concepção humana, não obstante isto, resiste-lhe com coragem, aceita com dignidade, sofre sem dar o menor sinal de perturbação, ou covardia ou revolta.19

Isto significa estar conformado com a vontade Santíssima de Deus.

Jesus e Maria nada querem senão o que o Eterno Pai quer; nada pensam, desejam e pedem senão que se realize o eterno decreto, a Redenção do mundo;20 vindo-lhe desta disposição do espírito uma inalterável calma, ainda que a natureza sensível gema e sinta o aguilhão da dor. Não há de negá-lo, nesta resignação é que tem sua origem, a paz e a felicidade neste vale de pranto.

Aparecem de vez em quando, nuvens tempestuosas no Céu da minha alma enfarrusco-me e fico de semblante carregado: saem-me da alma gemidos, suspiros, frases, e de dentes cerrados eu me pareço tanto com um dia de inverno quando o zimbo açoita as árvores esqueléticas da serrania. O sol sumiu-se, caem as gotas finas e frias e vou repetindo: oh! Como sou infeliz! Porque vim eu a este mundo? A perturbação me empolga. Qual a origem de tudo isto? É que eu quero o que Deus não quer.

Ó Jesus, ó Maria, vos comova o meu estado lastimável, a minha miséria, emprestando-me forças para tomar o remédio que tenho à mão, tão fácil, tão suave, como é o de abandonar-me confiadamente aos braços da divina e paternal providência.

É certo que se em tudo me deixasse guiar pela Divina vontade, e me conservasse sempre mudo e resignado ao divino beneplácito, grande paz interior havia de fruir;21 acariciados de meigos abismos haviam de me correr os dias, intensa felicidade havia de encher-me a alma; prenúncio daquela felicidade sem fim que Deus prepara aos que O servem e n’Ele confiam.22

É o que proponho fazer de futuro: submissamente adoro nas adversidades a divina vontade. Ainda que a natureza se revolte, embora a carne proteste, acalmar-me-ei, quer humilhando-me em seguida e consolando-me em fazer a adorável, santa e amável vontade do Pai que está no Céu.

Tal é a resolução que tomo. Conhecendo todavia, ó Pai Celeste, quão fácil seja minha vontade em deixar-se arrastar, dominar pelo meu amor-próprio cego, rebelde e insolente, rogo-Vos insistentemente pelos méritos de Jesus e Maria, me conserveis tão estreitamente ligado à vossa vontade, que criatura alguma me possa dela separar.23

Propósito. Todas as vezes que me aparecerem perturbações de espírito, acusarei como causador o meu amor-próprio, acalmando-me logo ao reflexo que Deus é Pai, que estremece infinitamente aos seus filhos.


3º Ponto

Insistamos em ilustrar ainda mais este piedoso episódio do Calvário, frisando o cuidado que tem o divino Mestre, quer do futuro de sua Mãe querida, quer dos interesses do discípulo amado, o Apóstolo São João.24 Pede a Maria que tenha e considere a João como filho; pede a João que tenha a Maria em conta de Mãe.

Com a minha morte, quer Jesus dizer – perdeis, ó Mãe terníssima o vosso Filho; mas eis que em meu lugar deixo-Vos um substituto.

Tu perdes, ó João, em minha Pessoa a teu Pai; deixo-te, porém, em meu lugar minha querida Mãe.25 Consola a Maria Santíssima o cuidado que o Filho crucificado tem d’Ela; mas não deixa de ser grande sua dor ao ver trocado o Deus verdadeiro por um homem, Santo, embora, e puro.26 Extraordinariamente honroso é para São João haver sido eleito guarda e protetor da Santíssima Virgem,27 mas isto não lhe diminui a mágoa de se ver privado da Presença de um tal Pai.28

É esta uma das páginas mais belas da história do Cristianismo. Jesus no fato acima narrado estabeleceu o fundamento da maternidade espiritual da Santíssima Virgem em nosso favor.

Maria não é somente a mãe adotiva de São João, também o é de todos que pertencem à Família de Jesus pelo Santo Batismo. O Apóstolo dileto não é exclusivamente o filho adotivo da Rainha dos Anjos, mas este título de ufania, este brasão de nobreza espiritual cabe também a cada um de nós, se o quisermos.29

Maria é espiritualmente nossa legítima Mãe, havendo-nos gerado e dado à luz entre espasmos atrozes ao pé da Cruz, no cume do Calvário.30

Foi aí que a Santíssima Virgem provou aqueles apertos que não experimentara lá na choupana de Belém, quando do Nascimento de Jesus.31

Imensa, pois, é nossa honra, sumo o nosso jubilo, incomensurável a nossa felicidade em conhecer como Mãe, a criatura mais Santa, a mais amorosa do Universo.32

Que ações de graças, Vos darei eu, ó Jesus afetuosíssimo, por haver-me dado Vossa Mãe, como se fosse minha?33 É este um benefício que tanto mais avulta aos meus olhos, quanto mais o considero; porquanto haverá graça que não possa esperar; benefício que me seja por Vós renegado, estando junto de Vós a defender-me e a interceder por mim a Autora dos Vossos dias?

Sei que não tenho posses para liquidar esta grande dívida para convosco; acho, porém, que se Vós me comunicardes um pouco daquele espírito dedicado e afetuoso que tinheis para com Ela, de maneira que eu venha a cultuá-lA e a amá-lA como Mãe, com isto chegaria a salvar o meu débito de gratidão que contraí para com Vossa bondade.

Ó Maria, tão cheia de caridade para comigo, como retribuirei o afeto de me haverdes aceito como filho, eu que me reconheço tão carente de virtudes, tão defeituoso, tão indigno pelo meu passado. Ah! Para Vós não houve nenhuma vantagem em acolher-me como filho; ao passo que para mim há todos os interesses.

Escolho-Vos, pois, e Vos aceito como minha terna e dulcíssima Mãe. Sede-me mãe a alcançar-me as graças de que tanto necessito, máxime a da perseverança;34 sede-me mãe na vida, mãe na hora da minha morte.

Propósito. Não há de passar dia da minha vida, que não me lembre do pacto solene que hoje celebrei com a Santíssima Virgem. Ela é minha mãe; eu sou seu filho.35


Fonte: Pe. Caetano Maria de Bergamo, O.F.M.Cap., “Pensamentos e Afetos sobre a Paixão de Jesus Cristo para cada dia do ano – Extraídos da Sagrada Escritura e dos Santos Padres”, Vol. 2, Caps. CCCXXXIX-CCCXLI, pp. 948-956; Tradução de Frei Marcellino de Milão, O.F.M.Cap.; Escola Typographica Salesiana, Bahia, 1933.

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1Arnold. Carnot. de laud. Virg.
2S. Bern. Tract. De pass. Dom. c. 10.
3S. Alselm. De excell. Virgo., cap. 4.
4S. Bern., de lament. Virg.
5S. Brigit. Lib. 1 Revel., cap. 35.
6S. Bern de lament. Virg. et tract. de pass. Dom., c. 10. S. Th., 3 p., qn. 46, art. 6.
7S. Bonav., Stim. am., part. 1, cap. 4.
8S. Brigit., loc. cit.
9S. Bern., tract. de pass. Dom. cap. 10.
10S. Bern., sem., tom. 3. serm. 45.
11S. Bonav., Stim. am., part. 1, cap. 4.
12S. August. Medit., cap. 41.
13S. J. Chrysost., hom. 84 in Jo.
14S. Ambr. in Luc. 23.
15S. Bern., serm. de pass. Dom., cap. 10.
16Jo. 19, 26.
17Guerr. Abb. Serm. 4 de assupt. Virg.
18S. Bern., tract. De pass. Dom., cap. 10.
19Metaphor. 15 aug. ap. Baron. an. 44.
20S. Ambr. In Luc. 29.
21S. August. Enarr. 2 in ps. 32.
22Matth. 7, 21.
23S. August., in ps. 4, 7.
24S. Ambr. in Cat. Jo. 19.
25S. Bern., tract. de pass. Dom. cap. 10.
26S. Bern., serm. Signum magnum. de b. Virg.
27S. J. Chrysost. Hom, 84 in Jo.
28S. Bern. de lament. Virg.
29Dionys. Carthus. In Jo.
30S. Bern., sen. serm. 56 de pass. Dom.
31S. Bonav., Specul. Virg., cap. 3.
32Is. 66, 8.
33S. Bonav., loc. cit.
34Hym., in offic. b. M. Virg.
35S. Beda in Jo. 19.

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