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"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

domingo, 10 de junho de 2012

Podemos Ainda Hoje Ser Cristãos?


Edith Stein

Mas, porque será tão importante raciocinar e aprofundar as nossas crenças? Per­guntará algum de meus leitores. Mais ainda. Não será perigoso indagar, pretender conhe­cer demasiadamente as razões da nossa Fé?

“A minha Fé! Também eu sou católico, e todos os meus antepassados o foram. Aprendi o Credo dos lábios de minha mãe, e desde então, guardo-o com piedoso amor, como uma herança que me legaram meus pais. Rezo-o com frequência, não nego um só artigo do Símbolo... Mas, temo! Temo, que se faço dele um estudo crítico, se o examino com toda a minuciosidade, se desfaço e analiso todos os seus ensinamentos, temo, que se desmorone! Os móveis que herdamos de nossos maiores colocamo-los com cuidado num canto da sala e guardamo-los piedosamente, sem os usar, sem nos sentarmos sobre eles...”

Creio que a muitos de meus leitores, especialmente aos homens, lhes veio o mesmo pensamento, ao ver que íamos ocupar-nos longamente do Credo. Seus escrúpulos vem dum fundo certamente respeitável, mas – não vos surpreendais se o digo de um modo claro e alto – ninguém tem mais necessidade de estudar o Credo, que, precisamente, os que assim objetam.

Por que necessitamos conhecer melhor a nossa Fé?

Em primeiro lugar, porque não havemos de considerá-la como móvel velho her­dado de nossos maiores, como jóia que guardamos esquecida, como carga que levamos sem alma, só por sentimento de piedade... Infelizmente, para muitos católicos, não signifi­ca outra coisa a Fé... Para nós, deve ser mais alguma coisa: devemos cultivá-la – ainda que herdada de nossos maiores – com esforçado trabalho espiritual, transformá-la em ri­queza própria, pessoal, consciente. Sou católico não somente porque meu pai também o foi e porque o foram também meus antepassados, senão também, porque conheço os Dogmas da minha Religião, e sei que estes ainda hoje são belos e encerram a Verdade, e sinto-me orgulhoso de poder chamar-me católico.

Mas, será possível, hoje, tanta convicção a respeito do Credo antigo? Não correrá perigo de fenecer?

Estes e semelhantes pensamentos podem ocorrer a qualquer homem instruído, que siga com espírito observador o caminhar da humanidade; e estes pensamentos, que se convertem em espinhos, não podemos deixá-los cravados nas almas.

Apresenta-se-nos esta questão. Podemos ainda hoje ser cristãos? - Não só “po­demossenão que devemos sê-lo! Ou seremos cristãos – e não só oficialmente, de pa­lavra, senão também na vida real – ou deixaremos de ser homens. Ou Cristianismo, ou manicômio. Ou Cristianismo, ou então veremos mulheres, que assassinam seus maridos com arsênico tirado do papel de apanhar moscas; ou Cristianismo, ou fi­lhos que levantam mão assassina contra seus próprios pais.[1]  

Não haverá nada a mudar na Fé de nossos pais? Não. O Cristianismo ainda hoje é capaz de dar satisfação completa a todos os espíritos necessitados. As formas ex­teriores da nossa vida mudaram, mas não mudou a alma humana. Antigamente os ho­mens benziam-se ao empreender uma longa viagem, hoje ainda há pilotos que antes de levantar voo se benzem. Há diretores de fábricas que vão com a mesma pontualidade à Missa Dominical, com que foram seus avós, com a única diferença que estes iam a pé e aqueles vão agora de automóvel. Há dramaturgos modernos que querem ser sepultados com o hábito franciscano, como Hugo von Hoffmanstal, morto ainda há pouco. Há operá­rios que permanecem fiéis a Cristo, mesmo no meio das mais veemente agitação vermelha.

Mas isto devemos sabê-lo todos de um modo consciente, e com uma consci­ência real devemos fazer mais e mais cristã a nossa alma e a nossa vida. Esta época clama por homens cristãos tão conscientes como o foi Estevão Széchenyi[2] que escreveu a seu filho bela as seguintes linhas: “Cumpri estritamente todas as práticas da Religião Católica, não para dar bom exemplo aos aldeões, ó não, porque tal proceder seria hipocri­sia. Fui à Missa, confessei-me... porque sou deveras católico”[3].

2º – Portanto, se me perguntarem porque devemos conhecer a nossa Fé, aí vai a resposta: A minha Fé não deve ser um móvel piedosamente guardado, como pano velho em que não se pode tocar.

Devo examinar a minha Fé de perto, com diligência, em seus fundamentos; não devo ter dela uma só dúvida, um só “quiçá” ou “talvez”. A minha Fé há de re­sistir com a firmeza de uma rocha a todos os críticos... Porquê? Porque a minha Fé exige-me muitos e grandes sacrifícios. Exige, que meu entendimento se incline ante a Verdade divina e minha vontade ante os Preceitos de Deus. Pois bem, não poderei cumprir com estas exigências, se não souber de ciência certa, que cada frase, cada palavra do Credo é uma verdade santa, inconcussa.

A nossa Religião não se contenta com que recitemos o Credo, sem que tire­mos do Credo graves consequências. A nossa Religião, quer orientar nossa vida diá­ria, nossos assuntos mais insignificantes e orientá-los com seus preceitos, que às vezes são muito difíceis, e penetram até ao mais íntimo de nossos particulares interesses.

A minha Fé, não só me acompanha na igreja, quando me concentro na oração, senão que está presente no escritório da minha oficina, no balcão da minha loja, no fogão da minha cozinha, no meio de meus negócios, no meio de meus prazeres, pe­netra no santuário mais íntimo da família, em tudo quer dispor e mandar.

E, como poderei cumprir esses preceitos rígidos, se não estou convencido da sua verdade completa, se não vejo que minha Fé tem realmente direito de exigir-me todos estes sacrifícios? Com uma Fé tímida, vacilante, débil, não podemos corres­ponder às severas exigências da Moral Cristã.

Sabes, que Fé necessitamos? Uma Fé vigorosa como a que vive hoje – para mencio­nar só um exemplo dos mais modernos – no peito de um dos escritores mais céle­bres, o atual embaixador de França em Washington, Paulo Claudel, que em sua juventu­de, era completamente incrédulo e levava uma vida frívola, mas depois de ouvir o chama­mento da graça, converteu-se e agora escreve de si mesmo: “Tenho mil vezes mais certe­za da verdade da Religião Católica que do sol que vejo no Céu”[4].

A confissão de fé deste célebre escritor, as palavras deste homem completamente moderno e profundamente instruído, devem ressoar em nossa alma: “Tenho mais certeza da minha Fé, que do sol que vejo no Céu!”

Certamente, podemo-nos queixar do mundo atual, mas também, não nos faltam mo­tivos para nos alegrarmos. Queixarmo-nos de que no último século, foram tantos os que perderam o laço espiritual da Fé de nossos pais; mas, alegrarmo-nos também de que nos últimos lustros dos século atual foram tantos, os que a conheceram e a ama­ram. Podem entristecer-nos os pagãos modernos, que fecham os olhos ao sol do Cristia­nismo; mas, deve encher-nos de júbilo, que a nossa Fé não tenha rival, ainda hoje, nos seus valores morais, educativos e culturais. Que seja ela que salva para a hu­manidade todos aqueles tesouros mais valiosos que o diamante, e sem ela perece­riam irremediavelmente, como, por exemplo, o Matrimônio, a Família, a Vida da Cri­ança, a Propriedade, o Princípio de Autoridade, a Honradez, o Domínio de si mes­mo.

Pois bem, desta Fé Cristã trataremos nos capítulos seguintes.

Bem-aventurado aquele em quem vive com vigor a Fé Cristã! Este quando sor­ri, sabe que chegará um tempo, em que o seu sorriso será eterno; e quando chora sabe, também, que virá tempo em que jamais chorará.

Portanto, ainda que o mundo atual se transformou por completo e já não se pareça ao de nossos maiores, eu, não obstante, persevero na Fé de meus pais!

Zune o avião... buzina o automóvel... atordoa com estrépido o rádio... Quanto mudou o mundo! E eu levanto a minha cabeça e exclamo no meio deste ruído caótico: Creio! Creio! Creio!


Fonte: “Creio em Deus – Fé e Existência de Deus”, Mons. Tihamer Tóth, pp. 15-20; Livraria Apostolado da Imprensa, Porto, 1952.


 

[1]   O autor alude a crimes que produziram grande sensação na época em que escreveu este livro (1929).
[2]   Estêvão Széchenyi a quem a posteridade agradecida designa com o nome honroso “o maior dos húngaros”, é uma das figuras que mais sobressaem na história cultural do reino de S. Estêvão. A nação húngara, contraiu com ele uma dívida perene de gratidão.
[3]   Széchenyi Isteván: Intelmei Béla fiához. Anotações a seu filho Béla.
[4]   Les Témoins du Renouveau Catholique.

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