Blog Católico, para os Católicos

BLOG CATÓLICO, PARA OS CATÓLICOS.

"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

domingo, 2 de fevereiro de 2020

Glorioso São Brás, Bispo e Mártir, Protetor dos Males da Garganta.


Brás, vem de blandus, “suave”, ou de belasíus, formado de bela, “costume”, e syor, “pequeno”. De fato, Brás foi suave em seus sermões, virtuoso em seus costumes e humilde em sua conduta.

Brás era de grande doçura e santidade, o que fez os cristãos o elegerem Bispo da cidade de Sebasta, na Capadócia. Por causa da perseguição de Diocleciano, após receber o Episcopado retirou-se para uma caverna onde passou a levar vida eremítica. Os passarinhos levavam-lhe de comer e juntavam-se em torno dele, só o deixando depois de ter sido abençoado por ele. Se algum deles estava doente, ia vê-lo e retornava perfeitamente curado.

O governador da região tinha mandado alguns guerreiros caçar, mas o esforço deles estava sendo em vão, até que por acaso passaram pela gruta de São Brás, onde encontraram grande quantidade de animais, que contudo não puderam pegar. Admirados, relataram o fato a seu senhor, que imediatamente mandou vários guerreiros com ordem de aprisionar São Brás e todos os cristãos que encontrassem. Mas naquela mesma noite Cristo apareceu ao santo três vezes, dizendo-lhe: “Levanta-te e ofereça-Me o sacrifício”. Quando os soldados chegaram e disseram: “Saia, o governador o chama”, São Brás respondeu: “Sejam bem-vindos, meus filhos, vejo que Deus não me esqueceu”. Durante o trajeto não cessou de pregar e, na presença deles, de realizar vários milagres.

Uma mulher levou até ele seu filho, que estava morrendo por causa de uma espinha entalada na gargante, e pediu-lhe em lágrimas a cura do menino. São Brás colocou as mãos sobre a cabeça dele e fez uma prece para que aquela criança, assim como todos os que pedissem o que quer que fosse em seu nome, tivesse saúde, e no mesmo instante o menino ficou curado.

Outra mulher, pobre, tinha apenas um porco, que foi roubado por um lobo, o que a levou a pedir a São Brás a restituição do animal. Sorrindo, o santo disse: “Mulher, não fique assim desconsolada, pois seu porco será devolvido”. Logo em seguida o lobo apareceu e devolveu o animal à viúva.

Chegando à cidade, Brás foi mandado para a prisão por ordem do príncipe. No dia seguinte, o governador mandou trazê-lo à sua presença. Ao vê-lo, cumprimentou-o, dirigindo-lhe palavras lisonjeiras: “Brás, amigo dos deuses, seja bem-vindo”. Brás respondeu: “Honra e alegria para você, ilustre governador, mas não chame de deuses os Demônios, porque eles serão entregues ao fogo eterno junto com aqueles que os honram”. Irritado, o governador mandou fustigá-lo e depois o enviou para a prisão. Brás disse: “Insensato, você espera com suplícios tirar do meu coração o amor ao meu Deus, que me fortalece?”.

Ora, a viúva à qual fora devolvido o porco ouviu isso, matou o animal e levou a São Brás uma vela, um pão, a cabeça e os pés do animal. Ele agradeceu, comeu e disse-lhe: “Todos os anos vá a uma igreja e ofereça uma vela em meu nome, e tudo correrá bem para você e aqueles que a imitarem”. Ela assim fez e conseguiu grande prosperidade. Depois disso o governador tirou Brás da prisão, mas como não conseguia fazê-lo honrar os deuses, mandou pendurá-lo numa árvore, rasgar sua carne com pentes de ferro e, em seguida, levá-lo de volta à prisão. Ao longo desse trajeto ele foi seguido por sete mulheres, que recolhiam gotas do seu sangue. Também elas foram presas e forçadas a sacrificar aos deuses. Então disseram: “Se vocês querem que adoremos seus deuses, mande levá-los com reverência ao lago, para que depois de lavados estejam mais limpos quando os adorarmos”. O governador ficou contente e mandou fazer o mais depressa possível o que elas pediam. Mas elas jogaram os deuses no meio do lago, dizendo: “Logo veremos se são deuses”. Ao ouvir isso, o governador ficou furioso e batendo no próprio peito disse a seus guardas: “Por que não seguraram nossos deuses para que não fossem jogados no fundo do lago?”. Eles: “Você foi enganado por estas mulheres que planejaram jogar as imagens no lago”. Elas explicaram: “O verdadeiro Deus não admite mentiras, e se aqueles realmente fossem deuses teriam previsto o que queríamos fazer com eles”.

Irado, o governador mandou preparar chumbo derretido, pentes de ferro e, de um lado, sete couraças incandescentes e, de outro, sete camisas de linho. Disse a elas que escolhessem o que preferiam. Uma delas, que tinha dois filhos pequenos, aproximou-se com audácia, pegou as camisas e jogou-as na fogueira. Os filhos disseram: “Mãe querida, não nos deixe viver sem você, e da mesma maneira que nos saciou com a doçura do seu leite, sacia-nos agora com a doçura do reino do Céu”. O governador mandou então pendurá-las e com os pentes de ferro rasgar sua carne em tiras. Carne que tinha a brancura ofuscante da neve, e em vez de sangue dela escorria leite.

Como os suplícios eram muito duros, um Anjo do Senhor foi até elas e animou-as dizendo: “Não temam, pois um operário que começa bem seu trabalho e completa sua obra, merece a bênção do amo e o salário, ficando feliz por ter cumprido seu dever”. O governador mandou então parar as torturas e jogá-las na fogueira, mas por intervenção divina o fogo apagou e elas nada sofreram. O governador ordenou-lhes: “Parem de empregar magia e adorem os deuses”. Elas replicaram: “Acabe o que começou, porque já somos chamadas ao reino celeste”. Ele sentenciou-as a ter a cabeça cortada. No momento em que iam ser decapitadas puseram-se de joelhos e adoraram a Deus, dizendo: “Ó Deus que nos tirou das trevas e nos trouxe a esta dulcíssima luz, que nos escolheu para sermos sacrificadas em sua honra, receba nossas almas e faça-nos alcançar a vida eterna”. Elas tiveram então as cabeças cortadas e passaram ao Senhor.

Depois disso o governador mandou trazer Brás à sua presença, dizendo: “Adore já nossos deuses, ou não os adorará jamais”. Brás respondeu: “Ímpio, não temo suas ameaças; faça o que quiser que entrego todo o meu corpo a você”. O governador mandou jogá-lo no lago, mas Brás fez o Sinal da Cruz sobre a água, que se solidificou imediatamente como se fosse terra seca, e disse: “Se os seus são deuses verdadeiros, mostre o poder deles e entre aqui”. Os 65 homens que se adiantaram foram imediatamente tragados pelo lago. Um Anjo do Senhor desceu e disse: “Saia, Brás, e receba a coroa que Deus preparou para você”. Quando ele saiu o governador perguntou: “Então você está determinado a não adorar os deuses?”. Brás: “Fique sabendo, miserável, que sou escravo de Cristo e não adoro os Demônios”.

No mesmo instante foi dada a ordem de decapitação. Brás pediu então ao Senhor que se alguém invocasse seu patrocínio contra dor de garganta ou qualquer outra enfermidade, fosse atendido. E uma voz do Céu respondeu-lhe, dizendo que assim seria. A seguir ele e os dois meninos foram decapitados por volta do ano do Senhor de 283.


Fonte: Beato Jacopo de Varazze, O.P., Arcebispo de Gênova, Legenda sanctorum, vulgo historia lombardica dicta” - Legenda Áurea: Vidas de Santos, Cap. 38 – São Brás, pp. 253-255. Tradução do latim, apresentação, notas e seleção iconográfica por Hilário Franco Júnior, Companhia das Letras, Editora Schwarcz Ltda., São Paulo/SP, 2003.

Solenidade da Apresentação do Senhor no Templo e da Purificação da Sempr...

sábado, 1 de fevereiro de 2020

Sobre a Purificação de Maria Santíssima


PARA O DIA 2 DE FEVEREIRO


Post quam impleti sunt dies purgationis
Mariae secundum legem Moysi,
tulerunt Jerusalem,
ut sisterent eum Domino.

Depois que se completou o tempo
da Purificação de Maria,
conforme mandava a lei de Moisés,
levaram a Jesus Menino ao Templo
de Jerusalém, para O apresentar ao Senhor.”
(S. Luc. 2, 22).


Que lições as mais importantes nos dá hoje o Evangelho! Que exemplos de humildade, e sujeição às leis Divinas e humanas, nos dá Maria Santíssima na sua purificação, e na apresentação de seu Filho no templo de Jerusalém! Quantas virtudes heroicas e perfeitas nos mostra a festividade deste dia a respeito da Mãe de Deus, apresentando-se com o seu Menino Jesus para cumprir uma lei, a que não era obrigada! Oh! A nossa soberba se envergonha, o nosso amor-próprio se estremece à vista do que hoje se observa em Maria. Ela, diz o Evangelho, depois de passados os dias da sua purificação, levou com o seu amado Esposo, a Jesus ao templo de Jerusalém para O apresentar ao Senhor, seu Eterno Pai – Post quam impleti sunt dies purgationis Mariae, secundum legem Moysi, tulerent Jesum in Jerusalem, ut sisterent eum Domino.

Mas a sua prontidão e fidelidade em cumprir preceitos, que não devia, são para nós exemplos os mais excelentes e necessários para obedecermos prontamente às leis Divinas e humanas. Sim, todos nós estamos sujeitos às leis de Deus e da Santa Igreja; todos, sem alguma exceção, estamos obrigados a observá-las. Mas disto muitas vezes nos esquecemos, e até nos escusamos. A Mãe de Deus, porém, apresentando-se no templo para ser purificada, e sem ter de que, nem lei que a isto a obrigasse, nos ensina o modo como devemos proceder. A lei, a que Maria hoje se sujeita, não era feita para Ela, e contudo, se submete com a maior humildade. A lei, que hoje cumpre, era custosa na sua execução, e contudo, Ela a cumpre com a maior prontidão, e nos dá em tudo isto o exemplo, o mais raro, e que devemos seguir. É o que tenho a mostrar. – Eu principio.

Havia na lei antiga dois Preceitos, que Deus intimou a Moisés para ele os fazer observar ao seu povo, os quais porém hoje não obrigam. Um deles consta no livro do Levítico; e vem a ser, que toda a mulher que gerasse o primeiro filho, estaria depois do seu parto quarenta dias retirada em sua casa, nem iria ao templo sem se concluírem estes dias. Mas apenas estes dias terminassem, ela iria logo ao templo de Jerusalém para ser purificada, devendo levar consigo alguma oferta para a expiação de algum pecado, a qual oferta era um cordeirinho, ou um pombinho, ou rolinha, que entregaria ao Sacerdote, o qual ofereceria isto ao Senhor, e oraria por ela. E se essa mulher fosse muito pobre, daria em lugar do cordeirinho dois pombinhos, ou duas rolinhas.1 Havia também outro Preceito no livro do Êxodo, o qual mandava às mulheres apresentar os seus primeiros filhos ao Senhor no mesmo templo de Jerusalém, consagrando-os a Deus em memória do milagre que lhes tinha feito, livrando o seu povo da escravidão do Egito, matando todos os primogênitos dessa nação.2

Ora, ambos estes Preceitos cumpre exatamente Maria Santíssima. Passados os quarenta dias depois do seu parto, Ela caminha logo com o seu Menino Jesus nos braços ao templo de Jerusalém para ser purificada, e juntamente para oferecer o mesmo Filho a seu Eterno Pai, levando consigo também alguma oferta, conforme mandava a mesma lei. Mas apenas entra no templo, faz a mais humilde e fervorosa oração, e se apresenta ao Sacerdote com o seu Menino para cumprir com os sobreditos Preceitos. Aparece-lhe, porém, logo aí um santo velho, chamado Simeão, o qual por inspiração Divina conhece ser esta a Mãe de Deus, e o Menino, que leva consigo, o mesmo Deus há pouco nascido; e pegando logo nele em seus braços, exulta de prazer, dizendo: “Agora, Senhor, já morrerei alegre, porque os meus olhos viram o Salvador do mundo”.

Assim cumpriu Maria Santíssima a lei da purificação; lei, porém, a que Ela por modo nenhum era obrigada. E na verdade, que obrigação tinha de ser purificada a mais pura de todas as criaturas? Maria concebida sem a mais leve mancha de Pecado Original, puríssima desde o primeiro momento da sua existência até o fim da vida, sempre santíssima e perfeitíssima, sem cometer a mais leve culpa; Maria, que escolhida para Mãe de Deus, O concebeu no seu ventre só por obra e graça do Espírito Santo, sendo sempre Virgem antes do parto, no parto e depois do parto; que necessidade tinha de se purificar? De que havia de se limpar, se Ela era mais pura do que os mesmos Anjos? E que necessidade tinha também de oferecer ao Senhor o seu Filho, se Ele era o mesmo Senhor? Oh! Mas, contudo isto cumpre, a tudo se sujeita, porque é dotada maior humildade e obediência perfeita para observância de todas as leis, ainda daquelas que não lhe dizem respeito; e porque quer dar-nos o exemplo de sujeição às leis Divinas e humanas.

Longe de Maria todas essas necessidades fingidas, de que frequentemente nos valemos para nos dispensarmos das leis mais claras e urgentes; longe d’Ela todos esses pretextos, que tantas vezes adotamos para interpretar a nosso favor as leis mais claras; longe d’Ela, finalmente, todas as desculpas, de que nós em tantas ocasiões usamos para nos escusarmos da obediência dos Preceitos a que somos obrigados. Maria não atende a razão alguma em seu favor; Ela obedeceu prontamente à lei da purificação, e vai misturar-se com tantas mulheres pecadoras. Que todas essas, que tinham concebido por algum deleite carnal, fossem purificar-se; que todas essas, que de qualquer modo eram mais ou menos culpadas diante de Deus, fossem humilhar-se à face do altar santo, e recorressem ao Senhor por meio dos seus Sacerdotes e por meio de alguma oferta, para serem limpas das suas culpas, não admira, e até era um dever da lei, que as obrigava. Porém, que Maria Santíssima faça o mesmo que as mulheres pecadoras; que Ela, sendo bendita entre todas, mais pura do que todas, queira purificar-se; que sendo Mãe do Legislador Divino, queira sujeitar-se à lei, é isto um prodígio raro e admirável, e só próprio da mais rara humildade e da alma a mais perfeita; prodígio, porém, que deve servir-nos de exemplo e de vergonha por não imitá-lA. Além disto, que todas as outras mulheres levassem os seus primeiros filhos ao templo para os consagrar ao Senhor, era também outro Preceito. Mas, que a Mãe de Deus leve o mesmo Deus em pessoa, que Ela vá oferecer e consagrar O que é Santo por essência, Sacerdote Eterno, e a mesma Vítima de expiação, é outro prodígio digno de grande admiração.

Mas para que tanta humilhação, tanta obediência, e tanta sujeição em Maria? Ah! Foi não só próprio da sua grande santidade e perfeição, mas também para exemplo do que devemos seguir na observância das leis Divinas e humanas. Mas porventura, obedecemos nós assim como Ela? Porventura, observamos nós os Preceitos graves e leves com a mesma prontidão que Ela? Quantas desculpas damos, quando não queremos obedecer à lei? Quantas dispensas forjamos na nossa vontade própria, para não cumprirmos com o que devemos? Quantos pretextos falsos tomamos para nos julgarmos livres daquilo a que somos obrigados? Oh! A nossa soberba, o nosso amor-próprio, a nossa pouca ou nenhuma virtude nos desvia dos Preceitos que nos são impostos, e nos faz vê-los de outro modo que são, para nos escusarmos da sua observância. Confundamo-nos, irmãos meus; envergonhemo-nos à vista do que Maria Santíssima observou, e do que nós fazemos.

Eu não falo só desses ímpios e libertinos, que já não tem lei, nem consciência, e que seguem livremente a sua vontade e paixão, como se não houvesse Deus, nem religião que lhes reprima os seus excessos, e que não se envergonham de não obedecer. Falo, sim, de imensos cristãos, como vós e outros, que sem chegardes a esta rebelião tão escandalosa, nem por isso deixais de ser muitas vezes violadores da lei de Deus e da Igreja; nem por isso, deixais imensas vezes de quebrar as leis Divinas e humanas; e procurais mil pretextos para encobrirdes a vossa malícia, e escusar-vos de obedecer. Que refinada maldade! Verdes leis tão claras como o sol, e não cumpri-las! Saberdes o que Deus e a sua Igreja mandam, e não observá-lo! Não terdes isenção ou privilégio, e tomá-lo! Não terdes desculpa alguma diante de Deus para não seguirdes a lei, e forjá-la sempre, e admiti-la no vosso modo de entenderdes para não obedecerdes e vos escusar de pecado! É isto na verdade grande cegueira e grande miséria.

Manda Deus no seu Primeiro Mandamento, que O ameis sobre todas as coisas; que não duvideis dos seus dogmas; que acrediteis em seus Mistérios; que não digais heresias nem blasfêmias; porque Ele não engana, nem pode enganar. E vós não O amais, e dizeis que sim; duvidais do que é certo, infalível; dizeis heresias e blasfêmias; e depois desculpai-vos, que não percebeis tantas coisas, e que por isso não acreditais. Manda Deus, que não deis crédito a essas pessoas que dizem que advinham e que benzem o ar, ou qualquer enfermidade; e que não façais semelhantes coisas, nem as consintais: e vós não obedeceis a isto, praticando todas essas ações supersticiosas, e vos desculpais que não é pecado, que é remédio para a saúde, e que até nisso se dizem palavras santas. Manda Deus no Segundo Mandamento, que não jureis em vão, nem praguejeis; nem falteis às vossas promessas, cumprindo-as com brevidade: e vós jurais falso nos tribunais e fora deles, praguejais, faltais às promessas, ou as demorais; não obedeceis a estas leis, e de mil modos interpretais estes Preceitos, e disfarçais a sua transgressão. Manda Deus no Terceiro Mandamento, que santifiqueis os seus dias: e vós não ouvis sempre Missa, ou não estais com a devida atenção; trabalhais, negociais, e diverti-vos com excessos e pecados nos Domingos e dias Santos, e sempre procurando meios de vos escusardes deste pecado.

Manda Deus no Quarto Mandamento, que cumprais exatamente com as obrigações do vosso estado, seja qual for: e vós nunca, ou quase nunca assim fazeis, e sempre vos desculpais das vossas faltas. Manda Deus no Quinto Mandamento, que vos ameis uns aos outros, ainda mesmo aos vossos inimigos, que tenhais paciência em sofrer injúrias ou qualquer adversidade, e que nunca procureis vingança, nem sequer a desejeis: e vós nada sofreis com paciência, ou vos vingais de quem vos faz mal, ou ao menos lh’o desejais; e depois desculpais os vossos ódios e agonias como vos parece. Manda Deus no Sexto Mandamento, que vivais honestamente; que sejais castos nos pensamentos, nas palavras e nas brincadeiras ou obras: mas vós a nada disto olhais; demorai-vos pensando em coisas desonestas, dizeis palavras torpes ou maliciosas, cometeis brincadeiras e obras impuras; fazeis estes excessos por muitos modos, e tudo desculpais com a vossa miséria, e por muitas outras maneiras.

Enfim, manda Deus nos demais Mandamentos, que não roubeis, que não prejudiqueis alguém, que não levanteis falsos testemunhos, que não murmureis, que não julgueis mal sem fundamento, e que não cometais nem estes, nem outros pecados: porém, vós roubais, prejudicais o próximo em muitas coisas, levantais falsos testemunhos, falais da vida alheia, julgais ou suspeitais mal sem fundamento, praticais isto e muito mais, e sempre disfarçando a vossa maldade; para tudo, a quanto faltais, procurais desculpas, ora de um modo, ora de outro.

Manda, também, a Santa Igreja, nossa Mãe, que vos confesseis ao menos uma vez cada ano; que comungueis pela Quaresma ou Páscoa da Ressurreição; que jejueis nos dias que Ela marca, nem comais carne sem licença d’Ela ou do médico; e que pagueis os direitos que Ela determina: mas, muitos de vós nem uma vez no ano vos confessareis e comungareis bem; comeis carne nos dias de abstinência, ou temperais com ela; não jejuais; não pagais o que deveis à Igreja; enfim, não cumpris com os seus Mandamentos, e sempre buscais meios de disfarçardes as vossas faltas. Em poucas palavras; para vós não há Mandamentos de Deus e de nossa cara Mãe, a Santa Igreja. Atendendo à sua explicação, que vos tenho feito nas práticas passadas, vós os quebrais imensas vezes, já por um modo, já por outro; pouco ou nada obedeceis a estes Preceitos; afastai-vos em tudo, ou quase tudo, do exemplo que nos deixou Maria Santíssima neste dia.

Ela obedecendo, e cumprindo até os Preceitos a que não era obrigada; e vós nem sequer aqueles, que vos obrigam debaixo de pecado mortal. Ela não alegando escusa alguma, o que justamente podia fazer; e vós procurando sempre mil pretextos para vos desviar das leis as mais essenciais. Para vós não há leis, nem Divinas, nem Eclesiásticas, nem civis, que vos obriguem a sua observância. Não temeis a Deus, nem as suas autoridades; as mesmas leis do Estado, que são formadas para bem da sociedade, e que Deus também manda cumprir, são para vós de nenhum valor; interpretai-as como melhor vos agrada, ou segundo a vossa paixão: dizeis muitas vezes que elas são meramente penais, que não há pecado na sua transgressão, o que nem sempre assim é; enfim, tudo em vós são desculpas para vos escusardes ao peso de todas as leis Divinas e humanas. Oh! Que espantosa relaxação! Que falta de obediência e sujeição! Que multidão de pecados mortais e veniais, e sem muitas vezes o pensardes!

Quer Deus ainda mais, e manda no seu Evangelho, que sejamos humildes, caritativos, ou esmoleres para com os pobres, mansos do coração, moderados na comida e bebida, contentes com o bem do próximo, e fervorosos ou diligentes no serviço de Deus e nas nossas obrigações: mas, vós resistis a tudo isto, fazendo muitas vezes o contrário; deixai-vos dominar da soberba, da avareza, da ira, da inveja e da preguiça; e tudo isto vos parece pouco, ou nada. Quer Deus, e manda por São Paulo, que não nos conformemos com o século estragado e corrompido; que não nos guiemos por suas máximas ou maus costumes; que fujamos dos seus divertimentos profanos: mas, vós fazeis o contrário; seguis as modas do mundo, o vaidoso luxo, os teatros, as assembleias, os bailes, o jogo, estes e outros divertimentos pecaminosos, e dizeis ainda para desculpar-vos, que é moda, que é uso ou costume, e que vos fica mal não fazer como as demais pessoas.

Diz mais o mesmo Deus no Evangelho, que ninguém pode servir a dois senhores, isto é, ao Senhor dos Céus e da terra, e ao mundo. Mas, vós quereis combinar estas duas coisas contrárias: quereis servir a Deus e ao mundo, fazer a vontade a Deus e ao mundo, o que de modo algum pode ser; e para isto procurais mil pretextos. Que qualidade de cristãos sois vós? Se vós não cumpris os Mandamentos de Deus, nem da Igreja, nem seguis o Evangelho de Jesus Cristo, mas sim as vossas vontades e o maldito mundo, que sois? Dizei-me. Oh! Envergonhai-vos; porque não sois cristãos senão no nome; sois, e sereis eternamente desgraçados. São felizes e bem-aventurados aqueles que vivem na lei do Senhor, diz o Santo Rei Davi – Reati, immaculati in via, qui ambulant in lege Domini.3 Maria Santíssima por isso é bem-aventurada. Não é bendita entre as mulheres, senão porque cumpriu exatamente todas as leis ainda as mais leves, e até aquelas a que não era obrigada, como a da purificação; e porque chegou assim a ser Mãe de Deus. São feliz muitas almas, porque cumpriram exatamente com todos os Mandamentos, e obedecem com prontidão às leis Divinas e humanas. Pelo contrário, são infelizes, e amaldiçoados de Deus e do Santo Profeta Davi, todos aqueles que se afastam dos Mandamentos do Senhor – Maledicti, qui declinant a mandatis tuis.4 Infelizes e amaldiçoados no outro mundo, e ainda neste, se acaso não se emendarem.

Os Preceitos Divinos, que tantas vezes desprezam, lhes servirão de vergonha e confusão algum dia, quando mais não seja, no dia da conta. Refere o grande Salviano, que faziam guerra os vândalos a uns povos cristãos da África, os quais não eram cristãos senão de nome, esquecendo-se totalmente da lei de Deus pelos seus perversos costumes. E sabendo disto os mesmos vândalos, fizeram entre si este discurso: “Estes povos dizem que são cristãos, mas não guardam as leis do Cristianismo, e por isso, o seu mesmo Deus nos há de ajudar a vencê-los para os castigar, levando contra eles os seus Mandamentos por estandartes”; e assim o fizeram. Escreveram em todas as suas bandeiras os Mandamentos da lei de Deus, e indo para a guerra, e desenrolando as bandeiras diante dos cristãos, estes vendo nelas escritas as leis que não cumpriam, dominados repentinamente da vergonha e de um terrível susto, perderam o ânimo, e foram destroçados e vencidos por esses bárbaros. Triunfaram as bandeiras dos Dez Mandamentos nas mãos dos inimigos do Cristianismo, porque esses maus cristãos não os guardavam como deviam.

Triunfam também ainda hoje, as bandeiras dos inimigos da Religião, porque a maior parte dos cristãos não guardam os Mandamentos de Deus e da Igreja. Para vergonha, terror e castigo, Deus permite serem vencidos e destroçados em formidáveis batalhas. Já não há leis Divinas e humanas, que se observem; por isso, não há paz, não há sossego, e os perseguidores da Religião de Jesus Cristo tem triunfado e triunfarão. Envergonhai-vos, pois, maus cristãos, porque sois a causa de tudo; enchei-vos de susto e temor. Por vossa culpa sois desgraçados, e ainda mais o sereis eternamente. Para vós não há lei senão a da vossa vontade ou das vossas paixões. Os Mandamentos de Deus e da Santa Igreja são por vós desprezados, e até os quereis acomodar às vossas perversas inclinações, ou interpretar conforme os vossos maus costumes, e com mil desculpas enganosas vos quereis muitas vezes escusar da sua observância. Mas, por isso sois perseguidos, vencidos e desgraçados nesta vida, e ainda muito mais o sereis na outra.

No termendo dia da conta, os Demônios, vossos inimigos, triunfarão também de vós; apresentarão nas suas bandeiras os mesmos Mandamentos, que vós desprezais, para segundo eles serdes julgados: eles vos farão ver vergonhosamente, que tantas e tantas vezes os tendes desprezados; que não houve algum, o qual não quebrásseis, e que por isso deveis ser condenados. Eles mesmos vos acusarão a Deus por tantas faltas que neles tivestes. Eles dirão: “Senhor, aqui está a vossa lei e da vossa Igreja; mas estes cristãos em pouco ou nada a observaram; por isso, não merecem prêmio, merecem castigo; o Inferno deve ser o seu destino”. Sim, cristãos, com toda a verdade vos digo, que pelos Mandamentos haveis de ser de Deus julgados; e não os cumprindo, sereis condenados, e obrigados a viver eternamente nas cadeias infernais.

Mas não seja assim, irmãos meus. Imitai a Maria Santíssima, a qual neste dia nos deu exemplo de obediência e plena sujeição às leis. Não, não vos escuseis da sua observância sem grave causa, e sem consultardes um bom Confessor. Temei as contas que vos hão de ser tiradas: e arrependidos do passado, chegai-vos a Deus e a Maria, dizendo: Ó meu Deus, eu tenho vivido sempre conforme a minha vontade, e não conforma a vossa lei; as minhas paixões tem sido a regra por onde me tenho governado; e por isso, tantas vezes tenho errado e pecado: perdoai-me, porém, meu Deus; porque muito me pesa de vos ter ofendido. Eu proponho nunca mais me afastar da vossa lei, nem da vossa Igreja, minha Mãe. Mas, ajudai-me com a vossa graça, pois, sem esta nada posso. Ajudai-me, também, Maria Santíssima; confortai-me com o vosso exemplo e proteção diante do vosso Filho; porque assim eu tudo poderei e farei. Amém.


Fonte: Pe. Fr. Manoel da Madre de Deus, O.C.D., Práticas Mandamentais ou Reflexões Morais Sobre os Mandamentos da Lei de Deus e os Abusos que lhes são Opostos, Outras Práticas e Missões – Prática 3ª, pp. 500-509. 3ª Edição, Em Casa de Cruz Coutinho – Editor, Porto, 1871.



Novena da Purificação
da Santíssima e Sempre Virgem Maria5

(Começa no dia 24 de Janeiro)

1. Ó Maria Santíssima, puríssimo espelho de todas as virtudes, Vós que, sendo a mais pura de todas as virgens, quisestes, apenas terminados os quarenta dias depois do vosso parto, apresentar-Vos, segundo a lei, no templo para ser purificada; fazei, Senhora, que à vossa imitação também nós conservemos nosso coração puro de toda a culpa, e mereçamos assim ser apresentados no templo da glória. Ave Maria…

2. Ó Virgem obedientíssima, que, apresentando-Vos no templo, quisestes oferecer o costumado sacrifício, segundo o uso de todas as outras mulheres: fazei, Senhora, que também nós, a vosso exemplo, saibamos oferecer a Deus, o sacrifício de nós mesmos, pela contínua prática das virtudes. Ave Maria…

3. Ó resignadíssima Virgem, que, prevendo a dolorosa Paixão de vosso Filho, sentistes vossa alma transpassada de dor, e conhecendo a aflição de vosso Esposo, São José, por vossas angústias, com santas palavras o consolastes: transpassai a nossa alma, com uma verdadeira dor de tantos pecados, pela qual possamos ter a consolação de participar da vossa glória no Paraíso. Ave Maria…

V. Revelou o Espírito Santo a Simeão.
R. Que não veria a morte, sem ter visto o Cristo do Senhor.

Oremos: Onipotente e eterno Deus, imploramos da vossa Majestade, que assim como o vosso Unigênito Filho foi apresentado no templo, depois de ter tomado a substância da nossa carne, do mesmo modo façais, que sejamos levados à vossa Presença com as almas puras de todo o pecado. Pelo mesmo Cristo Senhor Nosso.

R. Amém.


________________
1Lev. 12.
2Êx. 13.
3Psal. 18.
4Psal. 18.
5Manual dos Congregados Marianos, 4ª Parte, Cap. “Orações e Novenas”, pp. 218-219. Edição Oficial organizada pela Confederação Nacional das Congregações Marianas do Brasil, Agregada à Prima Primária do Colégio Romano; Editora “Vozes”, Petrópolis/RJ, 1938.

domingo, 19 de janeiro de 2020

HUMILDADE E RESIGNAÇÃO À VONTADE DE DEUS


O mesmo Abade Antão, considerando atentamente o abismo dos juízos de Deus, perguntou: "Senhor, por que é que alguns homens morrem após breve vida, enquanto outros se tornam extremamente velhos? E por que é que alguns são pobres e outros ricos? E por que é que os injustos se enriquecem, enquanto os justos sofrem necessidade?" Veio-lhe, então, uma voz, dizendo: "ANTÃO, CUIDA DE TI MESMO, POIS, ISTO SÂO JUÍZOS DE DEUS, E NÃO CONVÊM PENETRÁ-LOS".

Fonte: "APOFTEGMAS - A Sabedoria dos Antigos Monges", Letra Alfa "A", n. 2, pp. 11-12. Tradução do grego e notas de D. Estêvão Tavares Bettencourt, O.S.B., Edições "LUMEN CHRISTI", Rio de Janeiro/RJ, 1979.

SOBRE A TENTAÇÃO


O mesmo (S. Antão) disse: "Ninguém sem tentação poderá entrar no Reino dos Céus". "Suprime", disse, "as tentações, e ninguém será salvo".

Fonte: "APOFTEGMAS - A Sabedoria dos Antigos Monges", Letra Alfa "A", n. 5, p. 12. Tradução do grego e notas de D. Estêvão Tavares Bettencourt, O.S.B., Edições "LUMEN CHRISTI", Rio de Janeiro/RJ, 1979.

SOBRE A HUMILDADE


Disse o Abade Antão: "Vi todas as armadilhas do Inimigo estendidas sobre a terra, e, gemendo, perguntei: 'Quem escapará a elas?'. Ouvi, então, uma voz que me dizia: 'A HUMILDADE'".

Fonte: "APOFTEGMAS - A Sabedoria dos Antigos Monges", Letra Alfa "A", n. 7, p. 12. Tradução do grego e notas de D. Estêvão Tavares Bettencourt, O.S.B., Edições "LUMEN CHRISTI", Rio de Janeiro/RJ, 1979.

SOBRE A CONDESCENDÊNCIA COM O PRÓXIMO


Estava alguém no deserto a caçar animais selvagens, quando viu o Abade Antão em conversa alegre com os irmãos. O ancião, querendo então persuadi-lo de que é preciso de vez em quando condescender com os irmãos, disse-lhe: "Põe uma seta no teu arco, e deixa-o teso". Aquele assim fez. Disse-lhe de novo: "Entesa-o mais". Ele o fez. E novamente: "Distende-o mais". Replicou-lhe o caçador: "Se o estender além da medida, romper-se-á o arco". Ao que o ancião respondeu: "Assim também é para a obra de Deus: se além da medida entesarmos os irmãos, em breve romper-se-ão. É necessário, pois, de quando em quando condescender com eles". Ouvido isto, o caçador foi tocado de compunção, e, levando muito proveito, que lhe comunicara o ancião, retirou-se, enquanto os irmãos, confirmados, voltavam para sua morada.

Fonte: "APOFTEGMAS - A Sabedoria dos Antigos Monges", Letra Alfa "A", n. 13, pp. 13-14. Tradução do grego e notas de D. Estêvão Tavares Bettencourt, O.S.B., Edições "LUMEN CHRISTI", Rio de Janeiro/RJ, 1979.

SOBRE A FALSA RENÚNCIA AO MUNDO


Um irmão que renunciara ao mundo e distribuíra os seus bens aos pobres, retendo, porém, alguma pouca coisa para si, apresentou-se ao Abade Antão. Este, ao saber disto, disse-lhe: "Se te queres tornar monge, vai àquela aldeia, compra carnes, aplica-as ao teu corpo nu, e, em tais condições, volta para cá". O irmão tendo feito assim, os cães e pássaros dilaceravam-lhe o corpo. Ora, ao encontrar-se com o ancião, este perguntou-lhe se fizera como havia aconselhado. O irmão mostrou-lhe em tão o corpo todo dilacerado; ao que disse Santo Antão: Aqueles que renunciaram ao mundo e ainda querem ter bens, são dessa forma despedaçados pelos Demônios na luta".



Fonte: "APOFTEGMAS - A Sabedoria dos Antigos Monges", Letra Alfa "A", n. 20, p. 16. Tradução do grego e notas de D. Estêvão Tavares Bettencourt, O.S.B., Edições "LUMEN CHRISTI", Rio de Janeiro/RJ, 1979.

DA VERDADEIRA RENÚNCIA AO MUNDO


O mesmo (S. Antão) disse: 

"Tens sempre ante os olhos o temor de Deus. Recorda-te daquele que 'leva à morte e traz à vida'1. Odiai o mundo e tudo que nele há. Odiai todo repouso da carne. Renunciai a esta vida, a fim de viverdes para Deus. Recordai-vos do que prometestes a Deus, pois Ele o pedirá de vós no dia do juízo. Sofrei fome, sede, suportai a nudez, vigiai, arrependei-vos, chorai, gemei no vosso coração; provai-vos, a saber se sois dignos de Deus; desprezai a carne, para salvar as vossas almas".

Fonte: "APOFTEGMAS - A Sabedoria dos Antigos Monges", Letra Alfa "A", n. 33, p. 19. Tradução do grego e notas de D. Estêvão Tavares Bettencourt, O.S.B., Edições "LUMEN CHRISTI", Rio de Janeiro/RJ, 1979.
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1 Sam. 2, 6.

DA BONDADE DIVINA PARA COM AS GERAÇÕES


Disse (S. Antão) também, que Deus não permite, que desçam os combates sobre esta geração como sobre as antigas, pois, sabe que é fraca e não sustenta.

Fonte: "APOFTEGMAS - A Sabedoria dos Antigos Monges", Letra Alfa "A", n. 23, p. 17. Tradução do grego e notas de D. Estêvão Tavares Bettencourt, O.S.B., Edições "LUMEN CHRISTI", Rio de Janeiro/RJ, 1979.

REVELAÇÃO PROFÉTICA DA CORRUPÇÃO UNIVERSAL


Disse o Abade Antão: 

"Tempo virá, em que os homens enlouquecerão, e, ao verem alguém que não esteja louco, se erguerão contra ele, dizendo: 'Tu és louco', porque não será semelhante a eles".

Fonte: "APOFTEGMAS - A Sabedoria dos Antigos Monges", Letra Alfa "A", n. 25, p. 17. Tradução do grego e notas de D. Estêvão Tavares Bettencourt, O.S.B., Edições "LUMEN CHRISTI", Rio de Janeiro/RJ, 1979.

MARTHE ROBIN: UM MILAGRE EUCARÍSTICO.


A mulher que viveu 50 anos só se alimentando da Eucaristia

A maior Vítima Reparadora de todos os tempos,
depois de Jesus e Maria: Marthe Robin.


A Serva de Deus Marthe Robin nasceu em 13 de março de 1902, na cidade de Châteauneuf-de-Galaure, França.

Filha de camponeses, Marthe passará toda a sua vida na casa paterna, em sua pequena aldeia rural.

De saúde frágil desde a infância, Marthe nem pôde completar a escola primária.

Em 1918 começa a apresentar os sinais da tremenda doença que nunca mais a deixará: encefalite.

Seguiram-se muitas tentativas de tratamento médico, mas em vão.

Ao mesmo tempo em que a doença avançava, Marthe também progredia na vida espiritual.

Em 1925, inspirada pelo exemplo de Santa Teresinha, Marthe oferece-se como Vítima ao Amor Misericordioso.

Em 1928, durante uma missão pregada em sua paróquia, Marthe compreende claramente que é na doença e através da doença que ela é chamada a servir a Deus, unindo-se incessantemente ao mistério da Paixão do Senhor, pela salvação das almas.

Em 1929 Marthe fica tetraplégica e passa a sofrer uma paralisia total das vias digestivas, de modo a não poder engolir alimento algum. Os movimentos de deglutição lhe eram simplesmente impossíveis. E assim permanecerá até a sua morte, em 1981, ou seja, por 52 anos.

Cinquenta e dois anos de martírio, pregada à cama, sofrendo silenciosamente, na mais inteira resignação à Santíssima Vontade de Deus; cinquenta e dois anos de Calvário e amor!

Pois foi a essa alma tão simples e humilde que Deus escolheu para elevar a mais perfeita união à Paixão de Jesus: em 1930, numa sexta-feira, Marthe recebe os estigmas e cai num estado de morte aparente, revivendo misticamente em seu próprio corpo e alma todos e cada um dos tormentos padecidos por Jesus da noite da Quinta-Feira Santa até o momento da morte.

Durante 50 anos Marthe viverá sem comer, sem beber e sem dormir, desconcertando todos os médicos que a examinaram...

Marthe recebia a Comunhão, seu único alimento, apenas uma vez por semana, em seu próprio leito de dor.

Comungava sempre ao anoitecer da quarta-feira, podendo os que a acompanhavam literalmente despedir-se dela antes da Comunhão.

Com efeito, após comungar Marthe caía num êxtase profundo, do qual, nos últimos anos de sua vida, só despertava na segunda-feira seguinte - ou seja, cerca de 5 dias seguidos em êxtase a cada semana!

Da noite de quinta-feira até a tarde da sexta de cada semana, Marthe revive a Paixão de Jesus, isto é, sente em si mesma tudo o que sofreu Jesus, física e moralmente. Depois das 15 horas da sexta, Marthe caia num estado de morte aparente, não dando praticamente sinal nenhum de vida até o domingo, quando 'ressuscitava' junto com Jesus, embora só despertasse totalmente do êxtase na segunda-feira.

Era como se Marthe morresse e ressuscitasse a cada semana. Tanto assim que, quando ela morreu de verdade, várias pessoas duvidaram de que estivesse mesmo morta e temeram sepultá-la viva...

Como dissemos, Marthe, devido à doença, não tinha os movimentos deglutitórios, não sendo capaz de engolir nem o menor alimento. Como comungava então? Maravilha da bondade onipotente de Deus: o sacerdote, qualquer que fosse, apenas precisava aproximar a Santa Hóstia dos lábios de Marthe e... a Hóstia entrava como que por si mesma na boca dela, sem Marthe ter de fazer qualquer movimento. O sacerdote chegava a sentir a Hóstia 'escapando' por si mesma de seus dedos, para desaparecer em seguida entre os lábios imóveis da privilegiada criatura que então também desaparecia do comércio dos vivos, abismando-se na mais profunda contemplação por dias inteiros.

Pelo tempo da Segunda Guerra Mundial, sendo urgente uma reparação ainda mais forte, Marthe também ficou cega, e pelo resto da vida...

Jesus disse à Marthe, num de seus êxtases, como ela confiou ao seu diretor espiritual, o Padre Finet, que, depois da Virgem Maria, ninguém jamais participou nem participará tanto de Sua Dolorosa Paixão, quanto ela, Marthe Robin. Misterioso desígnio de Deus, que reservou o sacrifício da maior de todas as Vítimas, depois de Jesus e Maria, precisamente para o nosso século de impiedades jamais vistas...

Compreende-se, pois, a fúria violenta de Satanás contra este vaso de eleição: Marthe era violentamente espancada por uma mão invisível, e isso diante de presentes, ao ponto de o seu diretor, o Padre Finet, convidar padres que não acreditavam no demônio a fazerem uma visita a Marthe ao cair da noite e verem com seus próprios olhos as impressionantes cenas de terror que lá se desenrolavam...

E o mais singular destas violências satânicas padecidas por Marthe foi que Deus permitiu ao demônio ir realmente até o fim em sua crueldade: Marthe Robin morreu assassinada pelo próprio demônio, na tarde de sexta-feira de 6 de fevereiro de 1981...

Antes de entrar neste seu último e definitivo êxtase, Marthe avisou o seu confessor que “desta vez Deus permitirá que o demônio vá até o fim”. Com efeito, ao entardecer da sexta-feira, quando o Padre Finet entrou no quartinho de Marthe, encontrou-a jogada no chão, já sem vida...

E como seria possível que esta mulher que não comia nem bebia pudesse perder sangue abundantemente cada vez que os estigmas se renovavam?

Como poderia uma criatura humana aguentar décadas sem dormir, sem beber água?

Marthe foi examinada por vários médicos e todos confirmaram não haver explicação científica alguma para o que se passava com ela.

Detalhe importantíssimo: todo esse oceano de méritos adquiridos por Marthe em sua vida de imolação, foram entregues, por determinação de Deus mesmo, nas mãos da Virgem Maria, segundo o método de São Luis Maria de Montfort.

Marthe não conhecia o “Tratado da Verdadeira Devoção à Ssma. Virgem”, nem havia em sua aldeia um exemplar sequer deste. Um belo dia, porém, logo nos primeiros tempos da vida mística de Marthe, seus familiares entraram em seu quarto e viram um livro desconhecido ali, à cabeceira da doente. Era precisamente o Tratado da Verdadeira Devoção. Marthe contou então que Nossa Senhora mesma lhe aparecera com aquele livro nas mãos e o deixara ali, para ela...

Jesus e Maria pediram a Marthe que dissesse ao seu diretor espiritual para dar início a uma obra de casas de retiro de silêncio, que se espalharia pelo mundo, fazendo um imenso bem às almas. Era a obra que viria a chamar-se: "Foyer de Charité" ("Lar de Caridade").

Já na década de 1930 começavam os Foyers, com toda a aprovação da Igreja. Hoje são mais de 80 Foyers pelo mundo, em mais de 40 países.

Cada Foyer é uma casa de retiros, na verdade uma comunidade dedicada aos retiros: no Foyer vivem permanentemente sacerdotes e leigos, numa vida de oração, trabalho e silêncio (quase monástica de fato), e uma vez por mês, pelo menos, recebem uma turma de retirantes para retiros de silêncio de 5 dias no mínimo.

Logo no começo dos Foyers alguém propôs se os retiros para o público não poderiam ser de dois ou três dias, como em outras obras. Nossa Senhora, porém, mandou dizer, através de Marthe, que cinco dias era o número mínimo marcado por Deus para um retiro no Foyer ter frutos.

E assim se faz: os retirantes costumam chegar no entardecer de uma segunda-feira e ficar até a manhã do próximo domingo. E em silêncio perfeito: não se trocam nem saudações desde o jantar da segunda-feira até o jantar do sábado. Inviolavelmente.

No Brasil temos um Foyer de Charité, fundado ainda durante a vida de Marthe, na cidade de Mendes - RJ, ainda na diocese de Volta Redonda. É dirigido pelo Padre Bernard, sacerdote francês da diocese de Marseille. E, se se nos permite, gostaríamos de contar algo da experiência que vivemos no Foyer no retiro que lá fizemos ano passado.

Impressionou-nos a grande piedade do Pe. Bernard: sempre em oração e profundamente humilde. Em suas palestras (no retiro não se fala, mas se ouve), Pe. Bernard tratou apenas de temas espirituais: os artigos do Credo, os Sacramentos, Nossa Senhora, o pecado, o inferno, etc.

Todos os dias tivemos a exposição do Santíssimo Sacramento, adorado silenciosa e longamente.

Na noite de quinta para sexta-feira houve vigília de adoração a noite inteira, revezando-se os retirantes (que eram uns quinze).

Todos os dias se rezava o Terço em comum. Na sexta-feira se fez também a Via Sacra.

Na quarta-feira fez-se um jejum coletivo, a pão e água.

Confissões eram atendidas pelo Pe. Bernard todos os dias.

Durante as refeições, sem conversa alguma, se ouvia música gregoriana.

No altar, quando não estava o Santíssimo exposto, estava um relicário com um fragmento dos ossos de Santa Teresinha do Menino Jesus.

Na parede da sala de conferências, de um lado o quadro de Nossa Senhora Medianeira de Todas as Graças, que a própria Virgem pediu a Marthe para divulgar (veja figura abaixo), e do outro um quadro da mesma Marthe em seu leito de dor, com uma indizível expressão de sofrimento no rosto

Tudo no Foyer respira um não sei quê de sobrenatural que é impossível explicar. Ao se entrar no Foyer tem-se a impressão de estar entrando em outro mundo. É quase possível como que sentir Marthe ainda presente lá, conosco, acolhendo a cada retirante.

Efetivamente, Jesus disse a Marthe Robin que há graças que Ele se reservaria conceder apenas nos Foyers, em atenção ao sacrifício ímpar de Marthe.

Falando do Foyer à Marthe, Jesus definiu-o como “a casa do Meu Coração, aberta a todos”.

No último dia do retiro fizemos todos a Consagração a Nossa Senhora, segundo a fórmula de São Luis de Montfort, como aliás se faz em todos os retiros dos Foyers.

Quem quiser fazer um retiro no Foyer do Brasil, pode falar com o Pe. Bernard através dos seguintes contatos:

Fone: (024) 2465-2577
Email: foyerdemendes@yahoo.com.br

Voltando à vida de Marthe, é interessante referirmos o testemunho do filósofo Jean Guitton, que a visitou e ficou admirado com o que viu. Diz Guitton:

«Era uma camponesa francesa, que durante cinquenta anos não tomou nem mantimentos nem bebidas, alimentando-se somente de Eucaristia, e cada sexta-feira revivia nos estigmas as dores da Paixão de Jesus. Uma mulher que talvez tenha sido a pessoa mais estranha, extraordinária e desconcertante da nossa época, mas que, mesmo no século da televisão, permanece desconhecida do público, submersa num profundo silêncio…"

Muitíssimas pessoas visitaram Marthe em seu humilde quartinho. A todos ela aparecia como uma espécie de crucifixo vivo, uma cópia fiel da Paixão do Senhor. Hoje, trinta anos após a sua morte, contam-se numerosas graças recebidas por sua intercessão. Segundo o Pe. Bernard nos contou, já estão realizados os milagres necessários para a beatificação de Marthe, tanto assim que nem se vê muita propaganda em torno da causa de glorificação dela. A demora para beatificá-la é apenas por se estar preparando um documentário profundamente exaustivo sobre ela, inclusive com o parecer da ciência sobre o seu caso, um processo que seja irrefutável.

Queres ser como Eu?”, dissera Jesus à Marthe Robin antes dela receber os estigmas e começar a reviver a Paixão. E o mesmo pode-se dizer que Ele repete a cada um de nós, apesar de nossas limitações: “Queres ser como Eu?...”

Ó grande Marthe Robin, intercedei por nós e obtende-nos a graça de que, ao fecharmos nossos olhos no entardecer da vida, possamos abri-los imediatamente para o dia que jamais terá ocaso, lá onde o Eterno Amor expande sem obstáculos a Sua Luz e Calor... Amém.


Abaixo uma Oração composta por Marthe Robin a Nossa Senhora.

"Ó Mãe muito amada, Vós que conheceis tão bem os caminhos da Santidade e do Amor, ensinai-nos a erguermos frequentemente o nosso espírito e nosso coração para a Trindade, a fixar nela nossa respeitosa e afetuosa atenção;

e já que andais conosco no caminho da vida eterna, não fiqueis estranha aos pobres peregrinos que Vossa caridade tem a bondade de recolher; voltai para nós Vossos olhos misericordiosos, atraí-nos nas Vossas claridades, inundai-nos com Vossas doçuras, levai-nos na Luz e no Amor, levai-nos mais longe e muito alto nos esplendores dos céus.

Que nada possa jamais perturbar nossa paz, nem nos tirar do pensamento de Deus; mas que cada minuto nos leve mais adiante nas profundezas do augusto Mistério, até o dia em que nossa alma, plenamente desabrochada nas iluminações da união divina, verá todas as coisas no Amor Eterno e na Unidade. Amém."

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