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"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

sábado, 13 de abril de 2019

Nosso Senhor Jesus Cristo despede-se de sua Santíssima Mãe



1ª Meditação

Deve-se incluir na Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, uma pia e delicada tradição, que tem todos os visos de credibilidade, embora não se ache nos Santos Evangelhos.1

Aproximando-se o dia, marcado nos eternos decretos, em que devia-se executar o plano misericordioso da Redenção do mundo, Nosso Senhor Jesus Cristo que sempre prestara reverente obséquio e respeitosa obediência à sua Mãe2, como Filho amoroso vai visitá-la3, e previne-a do próximo drama lúgubre em que Ele vai ser único Autor; pede-lhe a Sua bênção e despede-se dela com infinita ternura.

Translademo-nos para Betânia4, e aí representemo-nos a Jesus, o mais dedicado entre os filhos dos homens, que, após a Ceia, convida a Santíssima Virgem, a mais amorosa entre todas as mães5, para um quarto reservado onde os dois Corações, os mais nobres e generosos do mundo, vão se abrir e falar.

Aflige-se o Coração de Jesus antevendo a dor que vai causar a Sua Santíssima Mãe, em comunicar-lhe a desoladora notícia. Aflige-se a Santíssima Virgem antes de ouvir a cruciante comunicação, pressagiando o inelutável desenlace e todo cortejo de horrores que acompanharão a morte do Filho6, cuja condenação tramada pelos Pontífices, já chegara aos seus ouvidos.7

O Filho é Deus, mas também homem; e tendo-se voluntariamente, submetido às fraquezas humanas8, não há de duvidar que Ele não sinta em Si mesmo aqueles apertos e pesares que qualquer outro homem sentiria em tais emergências, e ainda com mais sensibilidade, visto que mais ternura possua Seu Coração.

Se Sua Alma bendita tanto se contristou no horto de Getsêmani ao prever a separação do Corpo, não é crível, que permaneça agora insensível ao separar-se de Sua querida Mãe.9

Se o quadro que tenho diante dos olhos, não me move à compaixão, é porque já não tenho coração. Contempla, ó minha alma, este Filho e esta Mãe.10

Sente o Filho, por ver-se obrigado a fazer o que nunca fizera, amargurar à Sua Mãe caríssima; sente a Mãe, por sua vez, todo o martírio que lancine o Coração do Filho, causando-lhe isto imensa dor. Nesta Paixão de Jesus e Maria não tem parte os judeus. O que aflige a Jesus, é Maria, por ser Sua Mãe; o que martiriza a Maria, é Jesus, por ser Seu Filho.

Ó Jesus, Filho muito amável! Ó Maria, Mãe muito extremosa! Eu me ajoelho em espírito, aos vossos pés.

Dai-me ó Mãe, um pouco daquele amor que tendes a Jesus; concedei-me ó Jesus, um pouco daquela ternura que tendes por Maria. O algoz que Vos faz sofrer, é o Vosso recíproco amor, e é deste que eu careço, para vos saber compadecer.11

Mãe de Jesus, que vos rebaixais a ponto de consentir em ser tida como minha mãe e amar-me de tal amor como nenhuma mãe jamais amou, apiedai-vos de mim. Vós, sois, cheia de graça e por isso mesmo que eu sou cheio de misérias, em Vós confio12, de Vós esperando uma migalha de puro e santo amor.


2ª Meditação

Na pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo a doçura do coração e a energia da vontade harmonizam-se de tal maneira a não deixar lugar, que a ternura do Filho, sobrepuje à gravidade do Homem-Deus, nem que esta leve vantagem sobre aquela. Tudo nEle é medido e perfeito.

E é neste equilíbrio de sentimentos, que Ele assim fala à Santíssima Virgem: Minha Mãe13, é chegada a hora da Redenção do mundo pelo sacrifício da Minha vida. Eu vou ser entregue aos Meus inimigos, que desfecharão sobre Mim tremendos golpes a Me esmagarem e, riscarem, se lhe fosse possível, o Meu Nome da face da terra. Agradeço-Vos todas as fadigas, labores e padecimentos por Mim sofridos; e como outrora destes o vosso consentimento para Minha Encarnação, assim desejo o deis agora para Minha Morte. Consenti, pois, e havei por bem, que Eu vos deixe e vá cumprir a Vontade Santíssima do Meu Eterno Pai.14

Que responde Maria Santíssima?

Transida de pungente dor, profere apenas poucas palavras entrecortadas de soluços e suspiros15. Jesus querido, meu Pai, meu Filho, meu tudo16, não seria possível que Eu fosse morrer em Vosso lugar?17 O Pai que é Onipotente, não terá outros meios para salvar o mundo sem exigir a Vossa Morte?18

Quereria dizer mais a mística pombinha, mas o pranto embarga-lhe a voz; e compreendendo ser impossível a mudança dos eternos decretos, resigna-se ao divino beneplácito, numa absoluta conformidade com um heroísmo, de tudo superior à natureza humana.19

Tudo isto, porém, em nada diminui o martírio dolorosíssimo que alancea-lhe o materno Coração. E tu, ó minha alma, não chorarias porventura, tu também, se te fosse dado vê-la em tais lances?20 Quem poderá sondar a profundidade ou medir a extensão dessa dor? Isto só seria possível se fossemos capazes de compreender a grandeza do amor que unia um tal Filho a uma tal Mãe.21 Quanto a mim, porém, devo ponderar que o motivo pelo qual Nosso Senhor consente que o Filho vá morrer, é porque está em jogo a minha salvação, sendo certíssimo que a imolação de Nosso Senhor Jesus Cristo, foi para salvar particularmente a mim.

Posto isto, bem teria podido a Santíssima Virgem, dizer a Seu Divino Filho: Quem é este para merecer que lhe sacrifiqueis Vossa preciosíssima vida? Vós sois o Filho de Deus, e este um verme vil e desprezível. Nada disto, porém faz, a amorosa Mãe de Deus, mas amando-me de imenso amor, consente que o Filho pague por mim à Divina Justiça.22

Mãe do santo amor e da grande dor, que imensa dívida tenho para convosco! Obrigado pela caridade altíssima que tivestes para comigo! Obrigado pelo vosso doloroso sacrifício! Rogo aos Anjos do Paraíso, que Vos deem por mim infinitos louvores.

É necessário que eu Vos pague esta dívida de gratidão, que contraí para convosco, amando-vos de amor terno e eficazmente prático, não deixando-me dominar pelo comodismo e covardia em face do sacrifício: lembrando-me de que é justo, que o criminoso sofra alguma coisa, quando Vós, puríssima e inocente, Vos submetestes a tamanhos sacrifícios em prol do criminoso.23


3ª Meditação

Iluminada supernamente sobre a Paixão do Filho bendito, a Santíssima Virgem suportara durante dilatados anos, o peso de um longo martírio,24 sem um momento de alívio no seu atribulado Coração.25 Mas, tudo isto é pouco ou nada em face da dor agudíssima, que lhe penetra a alma na final despedida, no derradeiro adeus.

Quando foi na perda do Filho querido, teve grande pesar por ignorar-lhe o paradeiro, alentava-a, no entanto, a esperança de ainda achá-lO.26

Agora, Ela sabe o destino do Filho, sabe das cadeias que O esperam, dos flagelos que O atendem, dos espinhos que O aguardam, da Cruz que lhe está preparada, e apagada toda esperança de revê-lO e ainda abraçá-lO sobre a terra, entre as brancas paredes da casinha de Nazaré, agora é, que realmente a fatídica espada de Simeão lhe transpassa a alma.27

A presença de Jesus, a acompanhá-la por toda parte, causava-lhe grande tormento, porque avivava em Sua mente o quadro de Sua futura Paixão,28 mas ao mesmo tempo experimentara grande conforto, pela conversação dulcíssima que a arrebatava para as regiões do infinito.29

Bem podemos, portanto, avaliar quão grande seja Sua dor, em se ver privada de um convívio tão suave e consolador.

Ó verdadeiro lírio de pureza e caridade entre os espinhos.30 Ela é mãe e viúva, e suas entranhas comovem-se ao ver desaparecer tão rapidamente nas garras da morte, o único e inocente fruto do Seu sangue, na pujança da vida, na flor da idade, Deus verdadeiro, no qual Ela tinha posto todo Seu amor.

Quem me dera poder derramar jorros de lágrimas, sobre uma situação tão pungente e comovedora!31

Imprimi, ó Virgem Santíssima, em minhas entranhas aquelas lancinantes comoções, que crucificaram as Vossas!32

Mas, voltemos ainda a Jesus. O motivo que O impele a abandonar Sua diletíssima Mãe, é o amor que a mim consagra; é a solicitude do Bom Pastor, que se sacrifica a fim de salvar a ovelha tresmalhada e que desgarrou-se do rebanho.33 Ó mistério de amor! E no entanto, eu vou fugindo dEle quando me procura e torno a abandoná-lO depois de haver-me alcançado e perdoado.

Sim, eu O abandono para correr atrás dos impalpáveis fantasmas da vaidade, não querendo por amor dEle desfazer-me do pesado fardo dos meus defeitos, recusando-me a contrariar meu gênio, minhas opiniões, meus caprichos e as satisfações do amor-próprio. É sem desculpa, minha ingratidão!

Pastor e Salvador amoroso, perante Vós me humilho e arrependido da minha tresloucada malícia, penitencio-me de ter sido tão sem amor, em deixar-Vos pelas criaturas.

Confesso haver eu esbanjado em ninharias e frivolidades a preciosa herança das Vossas graças e disto peço-Vos um misericordioso perdão. Perdoai-me dulcíssimo Jesus, por aquela dor que teve Vossa Mãe em Vos deixar. Nas brenhas malditas do pecado, minha alma perdeu-se, não a deixeis emaranhada, posta a mercê dos lobos infernais, mas procurai-a, ó Pastor amoroso, salvai-a, e ela promete nunca mais deixar-Vos.34



Fonte: Pe. Caetano Maria de Bergamo, O.F.M.Cap., “Pensamentos e Afetos sobre a Paixão de Jesus Cristo para cada dia do ano – Extraídos da Sagrada Escritura e dos Santos Padres”, Vol. 1, Cap. XVI, pp. 40-48; Tradução de Frei Marcellino de Milão, O.F.M.Cap.; Escola Typographica Salesiana, Bahia, 1933.

_________________________
1S. Boaventura, Medit. Vit. Chr., c. 72.
2S. Luc. 2, 51.
3S. Beda, in Luc. 2.
4S. Boaventura, loc. cit. c. 71.
5idem. Ibid., cap. 72.
6Rupert. Abb., in Can. 4.
7S. Boaventura, Medit. Vit. Chr., cap. 69.
8Is. 52, 4; S. Mat. 8, 37.
9S. Brígida, Lib. 1. Revelat., cap. 20.
10S. Boaventura, Medit. Vit. Chr., cap. 72.
11Hin. Ecles. De Dol. Virg.
12S. Boaventura, Stim. Div. Am., p. 1, cap. 4.
13S. Boaventura, Medit. Vit. Chr., cap. 72.
14S. Jo. 6, 38.
15S. Boaventura, Medit. Vit. Chr., cap. 72.
16D. Ephr., De Lament. Virg.
172 Rs. 8, 33; S. Bernardo, sen., tom. 2, serm. De glor. Nom. Mar.
18S. Boaventura, Medit. Vit. Chr., cap. 72.
19S. Brígida, Lib. 1, Revelac., cap. 10.
20Cant. 2, 12; S. Boaventura, loc. cit.
21S. Bernardo, sen., tom. 2, serm. 2 De glor. Nom. Mar.
22Efés. 2, 4; Rom. 8, 32.
23S. Boaventura, Stim. Am., p. 1, cap. 4.
24Ruper. Abb., in Cant. 4.
25S. Brígida, Lib. 6, Revel., cap. 57.
26S. Luc. 2, 36.
27S. Luc. 2, 34.
28S. Anselmo, De Excell. Virg., cap. 4.
29S. Bernardo, Tract. De Lament. Virg.
30Cant. 2, 2.
31Jer. 9, 1.
32S. Bernardo, Tract. De Lament. Virg.
33S. Luc. 15, 4.
34Salm. 118, 186; S. Agostinho, 1, 10. Conf., cap. 32.


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