Blog Católico, para os Católicos

"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

segunda-feira, 31 de março de 2014

É a Doutrina ou o Caos.


Cardeal Walter Brandmüller
Cardeal Walter Brandmüller


O Cardeal Walter Brandmüller (nomeado por Bento XVI) contra a desordem causada pela “falta de clareza no ensino da doutrina católica.” Doutrina da fé e praxis pastoral podem ser distintos, sim, mas não separados”

 
Por Matteo Matzuzzi, Il Foglio | Tradução: Gercione Lima – Fratres in Unum.com - ”É claro que a falta de clareza sobre a verdadeira Doutrina Católica por parte dos Bispos, pregadores, catequistas, e especialmente dos professores de teologia moral é a principal causa do caos atual em que nos encontramos”. Numa conversa com o Diário Il Foglio, o cardeal Walter Brandmüller, um eminente historiador da Igreja medieval e moderna e por muitos anos presidente do Pontifício Comitê de Ciências Históricas, falou no debate sobre o casamento e a família que será o tema dos dois sínodos agendados para outubro próximo e o próximo ano. Um “caos” alimentado mesmo por aqueles que nas fileiras do episcopado mundial andam dizendo que o ensinamento da Igreja Católica em termos de moralidade não é mais adaptado aos tempos e, assim, vão criando confusão entre os fiéis que ainda frequentam mais ou menos as missas dominicais e confessionais. É o caso, por exemplo, do jovem Bispo de Treviri, Mons. Stephan Ackermann. “Mas o que isso significa?” Questiona perplexo o Cardeal Brandmüller: “A afirmação do excelentíssimo Bispo de Treviri levanta um questionamento e eu acho que é necessário fazer uma distinção. O prelado fala simplesmente de ‘ensinamento’ e ele poderia até ter alguma razão se estivesse se referindo ao modo de motivar, explicar e ensinar a Doutrina da Igreja. No entanto, ele está errado se quer dizer que a Doutrina da Igreja não é mais apropriada aos tempos. Com efeito, mudam as perguntas e as questões de acordo com as mudanças sócio-culturais, mas a resposta da Igreja em cada momento da história não pode tocar no Depósito da fé que foi estabelecido de uma vez por todas como válido”. Afinal, ele é “o tesouro do qual o bom pai de família tira coisas novas e velhas”. Para atender às altas expectativas “enraizadas entre aqueles fiéis” que defendem atualizações no ensino moral católico, o cardeal Walter Kasper propôs uma solução que reafirma a inviolabilidade da Doutrina, mas que ao mesmo tempo permita intervenções sobre a praxis pastoral. Doutrina e praxis em dois trilhos separados, portanto, um esquema que já foi criticado pelo prefeito do ex-Santo Ofício, o Cardeal Gerhard Ludwig Müller e que não encontra aprovação nem por parte do nosso interlocutor.  Sim, “é necessário fazer a distinção entre a Doutrina da fé e a praxis pastoral. Distinguir sim, mas separar jamais”. Toda praxis pastoral, se quiser ser autêntica, tem que ser inspirada e regida pela a verdade da Fé. É verdade – cito ainda o estudo feito por Bento XVI 2010 – que a realidade sociológica da família não é mais a mesma dos nossos avós. Mas o que jamais poderá estar sujeito a mudança histórica é a própria natureza, a substância da família que nasce do matrimônio sacramental entre homem e mulher. A pastoral, diz ainda Brandmüller, deve responder às perguntas, explicar melhor essa realidade para garantir que possamos viver de modo autêntico no mundo de hoje. Dúvidas até mesmo sobre a corrente de pensamento segundo a qual a Igreja, no curso de sua história, sempre defendeu que, permanecendo firme o princípio una fides, há muitas maneiras de se vivê-la e experimentá-la: “É verdade, -afirma o presidente emérito do Pontifício Comitê de Ciências Históricas– existem muitas maneiras de se viver e experimentar a fé. Mas esses modos só podem ser considerados legítimos se não contradizem a Doutrina da Fé formulada pela Igreja. É sempre essencial a convergência entre a Doutrina e a vida. “O problema é a falta de clareza sobre o significado da Doutrina Católica”, o cardeal observou: “Em mais de vinte e cinco anos de trabalho pastoral – paralela à minha carreira universitária -, pois fui pároco de área rural, após o fatídico ano de 1968, eu não tive mais a necessidade de pronunciar até então a carta pastoral a respeito do ‘Sagrado Sacramento do Matrimônio’, como está prescrito para o segundo Domingo depois da Epifania”. Não era uma situação prevista, não era algo esperado e é o que torna mais emblemático para compreender a situação em que nos encontramos.”

 


quinta-feira, 20 de março de 2014

São José e o Amor da Vida Escondida.




O quanto fala alto o silêncio da vida de São José, 
escondida aos olhos dos homens, 
mas resplandecente diante de Deus.



Pouco diz a Sagrada Escritura sobre a vida do pai nutrício de Jesus, São José, cuja solenidade é celebrada hoje pela Igreja universal. Ela limita-se a citar a sua genealogia [1], o fato de que era "justo" [2], o sonho no qual recebeu a visita de um anjo [3], a sua profissão [4] e a paternidade que ele verdadeiramente exerceu junto de Jesus [5]. Nada mais. E, se isso pode levar algumas pessoas a desprezar o valor e a virtude desse grande santo, é porque não consideraram o quanto fala alto o silêncio de uma vida oculta aos olhos dos homens, mas resplandecente diante de Deus.

É importante considerar, em primeiro lugar, a grandeza dos bens que Deus colocou nas mãos de São José, para apreciar com justeza o valor de seu escondimento. A providência quis que esse homem fosse depositário fiel da virgindade perpétua de Maria Santíssima, sua esposa; do menino Jesus, o próprio Deus feito homem; e – não fossem os dois o bastante – do segredo da encarnação do Verbo. Uma vida toda passada ao lado de Jesus e Maria e tão poucas palavras ditas a seu respeito, nenhuma palavra saída de sua boca... Como isso é possível?

O beato João Paulo II tem uma frase que se adequa de modo preciso ao silêncio de José: "O bem não faz ruído, a força do amor expressa-se na discrição tranquila do serviço quotidiano" [6]. Na mesma lógica, o grande orador francês, padre Jacques Bossuet, diz "que se pode ser grande sem esplendor, bem-aventurado sem ruído; que se pode ter a verdadeira glória sem o socorro da fama, com o único testemunho de sua consciência" [7]. De fato, escreve o Apóstolo: " Gloria nostra haec est, testimonium conscientiae nostrae – A razão da nossa glória é esta: o testemunho da nossa consciência..." [8].

A virtude que teve São José, desprezando as glórias humanas e escolhendo como única testemunha a palavra de Deus talhada em sua consciência, deve animar-nos a fazer o mesmo: ter em pouco caso o parecer das pessoas, para receber unicamente de Deus, "que vê o escondido" [9], a recompensa. " Que os homens jamais falem de nós, contanto que Jesus Cristo fale um dia" [10].

Olhando ainda para o silêncio de São José, alguém poderia perguntar se não seria errado manter obscuro um tesouro tão precioso como Jesus, sem nada dizer sobre ele. Bossuet faz notar, com razão, uma aparente oposição entre a missão confiada aos Apóstolos e a missão confiada a José: Jesus "é revelado aos apóstolos para ser anunciado em todo o universo; é revelado a José para calar e ocultá-lo" [11]. Novamente, como isso é possível? O mesmo padre Bossuet explica essa diferença:

"Será Deus contrário a si próprio nessas vocações opostas? Não, fiéis; não credes: toda essa disparidade tem por fim ensinar aos filhos de Deus esta verdade importante, que toda a perfeição cristã está na obediência. Aquele que glorifica os apóstolos pela honra da pregação, glorifica também São José pela humildade do silêncio. Aprendemos por aí que a glória dos cristãos brilhantes não está nos empregos, e sim em fazer a vontade de Deus. Se todos não podem ter a honra de pregar Jesus Cristo, todos podem ter a honra de obedecer-lhe, e esta é a glória de São José e a grande honra do cristianismo." [12]

"Se todos não podem ter a honra de pregar Jesus Cristo, todos podem ter a honra de obedecer-lhe". Se nem todos podem ter a honra de atravessar terras e mares para anunciar o Evangelho aos quatro cantos do mundo, se nem todos receberão de Deus a coroa do martírio, todas as pessoas, sem exceção, podem obedecer a Deus e amá-Lo sobre todas as coisas: "ainda que, na Igreja, nem todos sigam pelo mesmo caminho, todos são, contudo, chamados à santidade" [13].

A santidade no escondimento é possível: eis a grande lição de São José. Como ensinou Paulo VI, ele "é a prova de que para ser bons e autênticos seguidores de Cristo não se necessitam ‘grandes coisas’, mas requerem-se somente virtudes comuns, humanas, simples e autênticas". [14]

Glorioso São José, rogai por nós!

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referência

  1. Mt 1, 16
  2. Mt 1, 19
  3. Mt 1, 18-24
  4. Mt 13, 55
  5. Lc 2, 41-51; 3, 23
  6. Homilia em visita ao Santuário de Nossa Senhora de Lourdes, 15 de agosto de 2004, n. 4
  7. Jacques Benigne Bossuet. Panegírico de São José. 1659. In: Panegíricos. Trad. Pe. Clementino Contente. 1. ed. Rio de Janeiro: Castela, 2013. 500p.
  8. 2 Cor 1, 12
  9. Mt 6, 4
  10. Jacques Benigne Bossuet. Panegírico de São José. 1659. In: Panegíricos. Trad. Pe. Clementino Contente. 1. ed. Rio de Janeiro: Castela, 2013. 500p.
  11. Ibidem
  12. Ibidem
  13. Concílio Vaticano II, Constituição dogmática Lumen Gentium, 21 de novembro de 1964, n. 32
  14. Omelia nella Solennità di San Giuseppe, 19 marzo 1969 
https://padrepauloricardo.org/blog/sao-jose-e-o-amor-da-vida-escondida?utm_source=Lista+de+E-mails+[Padre+Paulo+Ricardo]&utm_campaign=cff7d457b3-19mar2014newsletter&utm_medium=email&utm_term=0_a39ff6e1ce-cff7d457b3-380369025&mc_cid=cff7d457b3&mc_eid=b27cd885bd

quarta-feira, 19 de março de 2014

Em Honra de São José, Espôso da Santíssima e Sempre Virgem Maria.



Carta encíclica ‘Bonum Sane’ de Bento XV sobre São José.

Carta Encíclica de S.S. o Papa Bento XV
(Motu Proprio)
No Cinqüentenário da Proclamação de São José
como Patrono da Igreja Universal

Foi uma coisa boa e salutar ao povo cristão que o nosso antecessor de imortal memória, Pio IX, tenha conferido ao castíssimo esposo da Virgem Maria e guarda do Verbo Encarnado, São José, o título de Patrono Universal da Igreja; e uma vez que este feliz acontecimento completará 50 anos em dezembro próximo, julgamos bastante útil e oportuno que ele seja dignamente celebrado em todo o mundo católico.

Se dermos uma olhada nestes últimos 50 anos, observamos um admirável reflorescimento de piedosas instituições, as quais atestam como o culto ao santíssimo Patriarca veio se desenvolvendo sempre mais entre os fiéis; depois, se considerarmos as hodiernas calamidades que afligem o gênero humano, parece ainda mais evidente a oportunidade de intensificar tal culto e de difundi-lo com maior força em meio ao povo cristão. De fato, após a terrível guerra, na nossa Encíclica “sobre a reconciliação da paz cristã”, indicamos o que faltava para restabelecer em todo lugar a tranqüilidade da ordem, considerando particularmente as relações que decorrem entre os povos e entre os indivíduos no campo civil. Agora se faz necessário considerar uma outra causa de perturbação, muito mais profunda, que se aninha justamente no mais íntimo da sociedade humana: dado que o flagelo da guerra se abateu sobre as pessoas quando elas já estavam profundamente infectadas pelo naturalismo, isto é, por aquelas grande peste do século que, onde se enraíza, diminui o desejo dos bens celestes, apaga a chama da caridade divina e retira do homem a graça salvadora e elevadora de Cristo até que, tolhida dele a luz da fé e deixadas a ele as solitárias e corrompidas forças da natureza, o abandona à mercê das mais insanas paixões. E assim aconteceu que muitíssimos se dedicaram somente à conquista dos bens terrenos, e como já estava aguçada a contenda entre proletários e patrões, este ódio de classes aumentou ainda mais com a duração e atrocidade da guerra, a qual, se de um lado causou às massas um mal-estar econômico insuportável, por outro fez afluir às mãos de pouquíssimos, fortunas fabulosas.

Acrescente-se que a santidade da fé conjugal e o respeito à autoridade paterna foram por muitos, não pouco vulneradas por causa da guerra; seja porque a distância de um dos cônjuges diminuiu no outro o vínculo do dever, seja porque a ausência de um olho vigilante deu oportunidade à leviandade, especialmente feminina, de viver a seu bel-prazer e demasiadamente livre. Por isto, devemos constatar com verdadeira dor que agora os costumes públicos são bem mais depravados e corrompidos que antes, e que portanto a assim chamada “questão social” foi-se agravando a tal ponto de suscitar a ameaça de irreparáveis ruínas. De fato amadureceu nos desejos e nas expectativas de todos os sediciosos a chegada de uma certa república universal, a qual seria fundada sobre a igualdade absoluta entre os homens e sobre a comunhão dos bens, e na qual não haveria mais distinção alguma de nacionalidade, nem teria mais que reconhecer-se a autoridade do pai sobre os filhos, nem dos poderes públicos sobre os cidadãos, nem de Deus sobre os homens reunidos em sociedade civil. Coisas todas que, se por desventura se realizassem, dariam lugar a tremendas convulsões sociais, como aquela que no momento está desolando não pequena parte da Europa. E é justamente para se criar também entre os outros povos uma condição similar de coisas, que nós vemos as plebes serem estimuladas pelo furor audacioso de alguns, e acontecerem aqui e acolá ininterruptas e graves revoltas.

Nós, portanto, mais que todos preocupados com este rumo dos acontecimentos, não deixamos, quando houve ocasião, de recordar aos filhos da Igreja os seus deveres. Agora, pelo mesmo motivo, ou seja, para recordar o dever aos nossos fiéis que estão em toda parte e ganham o pão com o trabalho, e para conservá-los imunes do contágio do socialismo, o inimigo mais implacável dos princípios cristãos, Nós, com grande solicitude, propomos a eles de modo particular São José, para que o sigam como guia e o honrem como celeste Patrono. Ele de fato levou uma vida similar a deles, tanto é verdade que Jesus bendito, enquanto era o Unigênito do Pai Eterno, quis ser chamado “o Filho do carpinteiro”. Mas aquela sua humilde e pobre condição, de quais e quantas virtudes excelsas Ele soube adornar! Ou seja, virtudes que deviam resplandecer no esposo de Maria Imaculada e no pai putativo de Jesus Cristo. Por isso, na escola de São José, aprendam todos a considerar as coisas presentes, que passam, à luz das futuras, que permanecem para sempre; e, consolando as inevitáveis dificuldades da condição humana com a esperança dos bens celestes, a estes aspirem com todas as forças, resignados à vontade divina, sobriamente vivendo segundo os ditames da piedade e da justiça. Ao que diz respeito especialmente aos operários, nos agrada relembrar aqui as palavras que proclamou em circunstância análoga o nosso predecessor de feliz memória Leão XIII, pois elas, ao nosso parecer, não poderiam ser mais oportunas: “Considerando estas coisas, os pobres, e quantos vivem com o fruto do trabalho, devem sentir-se animados por um sentimento superior de eqüidade, pois se a justiça permite-lhes elevar-se da indigência e de conseguir um melhor bem-estar, porém é proibido pela justiça e pela mesma razão de perturbar a ordem que foi constituída pela divina Providência. Aliás, é conselho insensato usar de violência e buscar melhorias através de revoltas e tumultos, os quais, na maioria das vezes, nada mais fazem que agravar ainda mais aquelas dificuldades que se desejam diminuir. Portanto, se os pobres querem agir sabiamente, não confiarão nas vãs promessas dos demagogos, mas sim no exemplo e no patrocínio de São José e na caridade materna da Igreja, a qual dia após dia tem por eles um zelo sempre maior” (Carta Encíclica “Quamquam pluries”).

Com o florescimento da devoção dos fiéis a São José, aumentará ao mesmo tempo, como necessária conseqüência, o culto à Sagrada Família de Nazaré, da qual ele foi o augusto chefe, brotando estas duas devoções uma da outra espontaneamente, dado que por São José nós vamos diretamente a Maria, e por Maria à fonte de toda santidade, Jesus Cristo, o qual consagrou as virtudes domésticas com a sua obediência para com São José e Maria. Nestes maravilhosos exemplos de virtude, Nós, pois, desejamos que as famílias cristãs se inspirem e completamente se renovem. E assim, dado que a família é o sustentáculo e a base da sociedade humana, fortalecendo a sociedade doméstica com a proteção da santa pureza, da fidelidade e da concórdia, com isso realmente um novo vigor, e diremos ainda, quase um novo sangue, circulará pelas veias da sociedade humana, que assim virá a ser vivificada pelas virtudes restauradoras de Jesus Cristo, e delas seguirá um alegre reflorescimento, não só dos costumes particulares, mas também das instituições públicas e privadas.
Nós, portanto, cheios de confiança no patrocínio Daquele à cuja próvida vigilância Deus agradou-se em confiar a guarda de seu Unigênito encarnado e da Virgem Santíssima, vivamente exortamos todos os Bispos do mundo católico, a fim de que, em tempos tão borrascosos para a Igreja, solicitem aos fiéis que implorem com maior empenho o válido auxílio de São José. E posto que diversos são os modos aprovados por esta Sé Apostólica com os quais se podem venerar o santo Patriarca, especialmente em todas as quartas-feiras do ano e durante todo o mês a ele consagrado, Nós queremos que, a critério de cada bispo, todas estas devoções, porquanto possível, sejam praticadas em todas as dioceses; mas, de modo particular, dado que ele é merecidamente tido como o mais eficaz protetor dos moribundos, tendo expirado com a assistência de Jesus e Maria, deverão cuidar os sagrados Pastores de inculcar e favorecer com todo o prestígio de sua autoridade aquelas piedosas associações que foram instituídas para suplicar a São José pelos moribundos, como aquela “da Boa Morte” e do “Trânsito de São José pelos agonizantes de cada dia”.

Para comemorar, pois, o supracitado Decreto Pontifício, ordenamos e impomos que dentro de um ano, a contar a partir de 8 de dezembro próximo, em todo o mundo católico seja celebrada em honra de São José, Patrono da Igreja Universal, uma solene função, como e quando julgar oportuno cada bispo; e a todos aqueles que a praticarem, Nós concedemos desde agora, nas condições habituais, a Indulgência Plenária.

Dado em Roma, junto de São Pedro, em 25 de julho de 1920, festa de São Tiago Apóstolo, no sexto ano de nosso pontificado.

Bento XV



Publicado originalmente em 19 de março de 2011.

http://fratresinunum.com/2014/03/19/carta-enciclica-bonum-sane-de-bento-xv-sobre-sao-jose-2/

“São José considera como confiada a Ele próprio a multidão dos cristãos que formam a Igreja”.

 

Para fazer com que Deus seja mais favorável às nossas orações, e para que – entre tantos intercessores que podem ser invocados – derrame mais pronta e copiosamente auxílio à sua Igreja, cremos muito útil que o povo cristão habitue-se a rogar com devoção e confiança, juntamente com a Virgem Mãe de Deus, também o seu castíssimo esposo São José. E temos bons motivos para crer que isto será particularmente agradável à Virgem Santa.
[...]

Sabemos que a dignidade da Mãe de Deus é altíssima e que não pode haver uma maior. Mas dado que entre a beatíssima Mãe de Deus e São José existe um verdadeiro vínculo matrimonial, é também certo que São José, mais que qualquer outro, se aproximou daquela altíssima dignidade que faz da Mãe de Deus a criatura mais excelsa. De fato, o matrimônio constitui por si mesmo a forma mais nobre de sociedade e de amizade, e traz consigo a comunhão dos bens. Portanto, se Deus deu José como esposo a Maria, deu-o não só como companheiro de sua vida, testemunha de sua virgindade e tutor da sua pureza, mas também como participante – por força do vínculo conjugal – da excelsa dignidade da qual ela foi adornada. Além disso, ele eleva-se entre todos em dignidade também porque, por vontade de Deus, foi guarda e, na opinião de todos, pai do Filho de Deus. Em conseqüência, o Verbo de Deus foi humildemente submisso a José, obedeceu-lhe e prestou-lhe a honra e o respeito que o filho deve ao seu pai.
[...]

Pois bem: a Sagrada Família, que José governou com autoridade de pai, era o berço da Igreja nascente. A Virgem Santíssima, de fato, enquanto Mãe de Jesus, é também mãe de todos os cristãos, por Ela gerados em meio às dores do Redentor no Calvário. E Jesus é, de alguma maneira, como o primogênito dos cristãos, que por adoção e pela redenção lhe são irmãos.

Disto deriva que São José considera como confiada a Ele próprio a multidão dos cristãos que formam a Igreja, ou seja, a inumerável família dispersa pelo mundo, sobre a qual Ele, como esposo de Maria e pai putativo de Jesus, tem uma autoridade semelhante a de um pai. É, portanto, justo e digno de São José, que assim como ele guardou no seu tempo a família de Nazaré, também agora guarde e defenda com seu patrocínio a Igreja de Deus.
[...]

Todos os cristãos, por isso, de quaisquer condições e estado, têm bons motivos para se confiarem e se abandonarem à amorosa proteção de São José.

Nele, os pais de família encontram o mais alto exemplo de paterna vigilância e providência; os cônjuges, o exemplo mais perfeito de amor, concórdia e fidelidade conjugal; os consagrados a Deus, o modelo e protetor da castidade virginal.

Volvendo o olhar à imagem de José, aprendam os nobres a conservar a sua dignidade também na desventura; os ricos descubram quais são os bens que na verdade é necessário buscar e guardar zelosamente. E enfim, os pobres, os operários e todos aqueles que pouco tiveram da sorte, têm um motivo a mais – e todo especial – de recorrer a José e de tomá-lo como exemplo: Ele, embora sendo de descendência régia, desposado com a mais excelsa entre as mulheres, e ter sido considerado como o pai do Filho de Deus, passou todavia sua vida no trabalho, provendo o necessário para si e para os seus, com a fadiga e a habilidade de suas mãos.





Publicado originalmente em 19 de março de 2012.

http://fratresinunum.com/2014/03/19/sao-jose-considera-como-confiada-a-ele-proprio-a-multidao-dos-cristaos-que-formam-a-igreja-2/

São José.

“Sede perfeitos, como vosso Pai celeste é perfeito” (Mt. 5, 48). O ideal, pois, da santidade pede do homem uma assimilação da vida divina. Ideal nobilíssimo, quanto mais o seja, mas que supera totalmente as forças humanas. Por isso, na sua inefável bondade, Deus nos enviou um modelo: seu próprio filho, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Para que ele fosse dos nossos, de nossa raça, nosso irmão, podendo legitimamente nos representar, deu-lhe uma natureza humana, formada do puríssimo sangue da Santíssima Virgem Maria; fê-lo nascer de mulher, como os demais homens, de maneira que a todo homem, ao vir a este mundo, Ele pudesse ser apresentado como o protótipo de santidade. Conclui-se que o homem se santifica na medida em que reproduz, na sua vida, a maneira de viver de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Disse alguém que nenhum homem é uma ilha, pois todo indivíduo se acha no seio de uma sociedade doméstica ou sua sucedânea, através da qual ele ingressa na grande sociedade civil. Jesus Cristo não fugiu à regra. Como homem, teve também sua sociedade mais íntima, seus familiares.

É o que se lê em diversos lugares da Sagrada Escritura.

É a São José que o anjo aparece para recomendar-lhe que fuja à ira de Herodes. É ao mesmo São José que, morto o monstro, o anjo adverte que retorne a Canaã com a Sagrada Família.

Maria Santíssima queixa-se a Jesus o ter-se afastado dela e de seu pai quando permaneceu no Templo, aos 12 anos. E a Sagrada Escritura diz igualmente que em Nazaré, Jesus era simplesmente o Filho do Carpinteiro.

Costuma-se dizer que São José é o Pai putativo, Pai nutrício, Pai legal, etc., de Jesus Cristo. Todas expressões verdadeiras, mas que terminam encobrindo o conceito mais profundo e exato de paternidade de São José. Pois que ele é de fato o pai da família nazaretana. E a razão exata porque São José é o pai da família nazaretana, é porque é o verdadeiro esposo de Maria Santíssima, a mãe daquela abençoada família. E como esposo legítimo e verdadeiro, participa da maternidade que sua esposa tem com relação aos frutos de seu seio, ainda que virginais.

Da posição de São José na Sagrada Família decorre o esplendor singular da sua pessoa e a extensão e valor do seu patrocínio.

Com justiça foi declarado por Pio IX patrono da Igreja Universal. E a Santa Igreja recomenda aos fiéis que se acolham sob seu patrocínio. Especialmente como patrono da boa morte é ele invocado, uma vez que teve a ventura de morrer nos braços de Jesus e de Maria Santíssima.

 Dom Antonio de Castro Mayer,  
Heri et Hodie, março de 1986.

Publicado originalmente em 1º de maio de 2013.

http://fratresinunum.com/2014/03/19/sao-jose-2/

terça-feira, 11 de março de 2014

Lutero e o Cânon mutilado.


Dom Henrique Soares da Costa

A palavra cânon significa “vara de medir” e, depois, passou a significar “regra”, “norma”. Finalmente, adquiriu o sentido técnico que hoje lhe damos: é a coleção de livros divinamente inspirados reconhecidos pela Igreja e por ela tidos como infalível regra de fé e de vida prática em virtude de sua origem divina.

Em outras palavras: são canônicos aqueles livros que a Igreja reconhece como sendo inspirados por Deus. Todos os livros canônicos são inspirados e não há livros inspirados por Deus fora dos livros canônicos! A coleção dos livros inspirados ou canônicos é chamada de Bíblia (em grego, “os livros”).

Até o século I da era cristã, os judeus não tinham ainda uma lista definitiva e oficial dos seus livros inspirados. Vejamos: os saduceus e os samaritanos aceitavam somente os cinco livros de Moisés, ou seja, a Torah. Para eles os outros livros não eram inspirados. Os fariseus, por sua vez, aceitavam outros livros, mas somente escritos em hebraico. Já os judeus de Alexandria admitiam alguns outros livros escritos em grego pela comunidade judaica de língua grega ou traduzidos também do hebraico para o grego. Havia ainda os monges judeus de Qumran, que admitiam que o cânon bíblico ainda poderia crescer. Em todo caso, uma coisa é certa: não havia nenhuma palavra oficial do judaísmo sobre a questão da lista dos livros inspirados.

Era esta a situação quando surgiu o cristianismo: a Igreja não recebeu dos judeus um Antigo Testamento já formado, definido. Nada disso! Havia, ao invés, várias opiniões e listas de livros inspirados. E agora? Como os cristãos se posicionaram?


A Igreja de Cristo, pouco tempo após a ressurreição, rompeu completamente com o judaísmo: a reunião dos Apóstolos em Jerusalém livrou os cristãos da obrigação de cumprir a Lei de Moisés, de modo que entre os judeus e a Igreja não havia mais nenhuma ligação. 


Além do mais, enquanto os judeus continuavam presos à raça, ao nacionalismo (Deus é o Deus de Israel, Deus da descendência de Abraão), os cristãos começaram a se espalhar por todo o Império Romano para cumprir o mandato do Senhor: “Ide por o todo mundo, proclamai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16,15). Ora, a língua comum no mundo romano era o grego, de modo que os cristãos desde o início de sua história usaram, na pregação, o Antigo Testamento grego, dos judeus de Alexandria. 

Este Antigo Testamento é chamado de LXX ou Septuaginta. Essa versão grega trazia mais livros que o Antigo Testamento aceito pelos fariseus (que somente aceitavam os livros escritos em hebraico). Somente para que se tenha uma idéia: das 350 citações que o Novo Testamento faz do Antigo, 300 são do Antigo Testamento grego e somente 50 são do Antigo Testamento hebraico (aquele aceito pelos fariseus). 

Então, resumindo: entre os judeus do tempo de Jesus e dos apóstolos, havia, pelo menos quatro versões diferentes do Antigo Testamento: a dos saduceus, a dos fariseus, a dos judeus de língua grega de Alexandria e dos essênios de Qumran. Nenhuma dessas versões era oficial! Quanto ao cristãos, já desligados do judaísmo, usavam a versão grega dos LXX na sua pregação e quando começaram a escrever seus livros (que depois formariam o Novo Testamento), usavam a versão dos LXX para citar o Antigo Testamento!

No ano 70 da nossa era o Templo de Jerusalém foi destruído e, com, ele, acabou o culto judaico; todos os judeus tiveram que deixar Jerusalém. Lembremo-nos que por esta época já não havia nenhum ligação entre judaísmo e cristianismo: o caminhos dos judeus e dos cristãos não tinham mais nenhuma relação; pelo contrário: os judeus perseguiam duramente os cristãos! Basta ver os Atos dos Apóstolos e a epístolas de Paulo!


Pois bem, com a queda do Templo, os saduceus (partido dos sacerdotes do Templo) desapareceram e os fariseus tornaram-se o único partido forte entre os judeus. Diante da crise em que o judaísmo se encontrava por ter perdido a terra de Israel, Jerusalém e o Templo, os fariseus, agora praticamente únicos representantes do judaísmo, decidiram fechar o cânon dos livros do Antigo Testamento: resolveram determinar quais livros os judeus iriam considerar como inspirados por Deus.

Isso ocorreu entre os anos 80 e 100 da nossa era no famoso Sínodo de Jâmnia, onde havia uma escola rabínica. Eles consideraram como inspirados os livros que obedecessem aos seguintes critérios:
1) não poderiam ser posterior a Esdras (séc. V), 

2) deveriam ter sido escritos e conservados em hebraico, 

3) deveriam ter origem na Palestina e não em terra estrangeira, 

4) deveriam estar em conformidade com a Lei de Moisés. 
Foi assim que no final do século I começou a ser formada a Bíblia judaica oficial! É importante observar mais uma vez que tal decisão dos fariseus não tinha nenhuma importância para os cristãos, que há muito tinham rompido com o judaísmo. Também vale a pena observar que os critérios adotados pelos fariseus para definir os livros inspirados eram muito fechados e nacionalistas, ditados por motivos políticos e religiosos contra os cristãos, que usavam o Antigo Testamento grego. 

Em todo caso, é importante notar ainda que o cânon judaico somente foi oficialmente fixado e aceito por todos os judeus no final do século III. Quanto aos cristãos, aceitavam como inspirados também alguns livros da LXX grega (que, como já vimos, tinha mais livros que o cânon dos fariseus): além dos livros que os fariseus julgaram inspirados, os cristãos aceitavam também Tobias, Judite, Baruc, Eclesiástico, Sabedoria e 1 e 2 Macabeus e mais Ester 10,4-16,24; Daniel 3,24-90; 13 e 14, que foram escritos em língua grega. 
Tais livros foram chamados deuterocanônicos; os outros, aceitos também pelos judeus, eram chamados protocanônicos.

Já dissemos que o Novo Testamento cita a Bíblia grega. Basta um exemplo: o famoso texto de Mateus: “Eis que a Virgem conceberá...”, é uma citação do profeta Isaías segundo a LXX; o texto hebraico não diz “eis que uma virgem conceberá”, mas sim “eis que a jovem concebeu”! O Novo Testamento cita também, de modo explícito, vários destes sete livros. Por exemplo: Sabedoria é citado por Rm 1,19ss e Hb 8,12; Tobias é citado por Ap 8,2; 2Macabeus é citado por Hb 11,34s; Eclesiástico é citado por Tg 1,19 e Judite é citado por 1Cor 2,10. Há ainda citações implícitas: Mt 11,28s inspira-se em Eclo 51,23-30; Mt 27,43 evoca Sb 2,13.18-20 e Hb 1,3 evoca Sb 7,25.

Depois do período apostólico, os cristãos continuaram usando estes sete livros: a Didaqué (escrita pelo anos 90 a 100) alude a Eclo 4,31; São Clemente Romano, pelos anos 90, cita Judite, Sabedoria e Eclesiástico; a Epístola de Barnabé (escrita entre 93 e 97) alude a Sb 2,12 e Eclo 4,36; São Policarpo, Bispo de Esmirna e discípulo direto de São João Evangelista, cita Tb 4,11 ou Tb 12,9 e Santo Inácio de Antioquia, pelo final do século I alude a Jt 15,17.

No Oriente, alguns escritores não citam estes livros porque estão discutindo com os judeus e, como os judeus não os aceitavam, era perdido citá-los. Mas é interessante que São Justino, no início do século II, acusa os judeus de retirarem da tradução grega dos LXX as passagens que davam testemunho em favor de Cristo. É interessante notar também que nas catacumbas romanas dos primeiros séculos encontram-se várias cenas e personagens destes sete livros: o episódio de Tobias guiado pelo anjo, os três jovens na fornalha (17 pinturas e 25 esculturas), o de Suzana entre os dois anciãos (6 pinturas e 7 esculturas), o de Daniel na cova dos leões (39 pinturas e 30 esculturas). Tudo isto mostra como os cristãos sempre usaram os sete livros deuterocanônicos!


Havia também uma minoria de escritores cristãos que tinha dúvidas sobre a inspiração destes sete livros. Por quê? Primeiro porque, como já vimos, na disputa com os judeus, evitam citá-los, já que os judeus não os aceitavam; depois porque com o enorme números de livros apócrifos (não inspirados) surgidos naquela época, alguns escritores sentiam-se inseguros.
Em todo o caso, vários documentos oficiais da Igreja neste período reafirmaram os sete livros como inspirados: o Concílio de Hipona, em 393, os III e IV de Cartago, em 397 e 418 e o Papa Inocêncio I, em 450. É interessante o caso de São Jerônimo, grande estudioso da Escritura. Ele era a favor de considerar inspirados os sete livros da LXX. Depois, estudando hebraico com os rabinos, foi influenciado por eles e começou a defender o cânon judaico, cânon dos fariseus. No entanto traduziu o livro de Tobias e explicou: “É melhor desagradar a opinião dos fariseus e atender às ordens dos bispos”.

Aqui aparece claro duas coisas: primeiro que a opinião de Jerônimo é privada e segundo, que a Igreja (os bispos) considerava Tobias e os outros seis livros como inspirados! Em todos o caso, no século VI era praticamente unânime a convicção dos cristãos de que os sete livros são inspirados e canônicos, de modo que em 1441 o Concílio de Florença pôde tranqüilamente professar o catálogo completo dos livros inspirados.

Em resumo: quando o cristianismo surgiu não havia ainda um cânon oficial entre os judeus. Havia basicamente um cânon de língua grega, mais amplo, e um de língua hebraica, mais curto.

Os cristãos utilizavam o mais longo. Quando os judeus decidiram-se pelo mais curto, os cristãos já não tinham mais nada com os judeus e continuaram usando o cânon mais longo, incluindo os sete livros deuterocanônicos e trechos de Ester e Daniel, que os judeus já não mais consideravam inspirados. Assim, o Antigo Testamento judaico é mais curto que o cristão.
**********

Na primeira parte deste estudo sobre o cânon da Sagradas Escrituras, vimos que quando o cristianismo surgiu não existia ainda um cânon oficial entre os judeus: de acordo com o partido ou seita ou grupo judaico (fariseus, saduceus, essênios, judeus de Alexandria), a relação dos livros inspirados variava bastante. Simplificando, poderíamos dizer que havia basicamente um cânon de língua grega, mais amplo, e um de língua hebraica, mais curto.

Os cristãos, como começaram logo a pregar o Evangelho por todo o Império Romano, que falava o grego, utilizavam o mais longo: o cânon dos judeus de Alexandria. Somente após o ano 70 e, de modo definitivo, somente no final do século III, os judeus foram chegando a um acordo sobre quais seriam os livros inspirados para o judaísmo. 

Mas tal decisão já não tinha mais valor algum para os cristãos que, desde o “concílio” de Jerusalém, haviam rompido totalmente com o judaísmo (cf. At 15,1-29): o cristianismo não é uma seita judaica, mas algo novo: vinho novo que não poderia jamais ficar guardado nos velhos odres do judaísmo (cf. Mt 9,17)! 

Por isso mesmo, a Igreja de Cristo continuou, tranqüilamente, usando o cânon mais longo, que incluía os sete livros, posteriormente chamados “deuterocanônicos”, bem como trechos de Ester e Daniel, que os judeus já não mais consideravam inspirados. Assim, o Antigo Testamento judaico é mais curto que o cristão: tem sete livros a menos! Vimos ainda como isso ficou claro cada vez mais para a Igreja antiga e como vários antigos documentos magisteriais confirmam o cânon completo das Escrituras Sagradas.

Ora, no século XVI, com a Reforma Protestante, Lutero, Calvino e os demais reformadores, cometeram o grave erro (entre outros erros graves!) de refutar arbitrariamente o cânon da Igreja para abraçar o cânon dos judeus, particularmente, o cânon dos fariseus, que, como vimos, foi o que se impôs no seio do judaísmo!
Na disputa de Lipsia, em 1519, entre Lutero e João Eck, o fundador do protestantismo colocou em dúvida pela primeira vez o valor de 1 e 2 Macabeus para justificar sua recusa em aceitar a oração pelos mortos e as indulgências. Lutero, talvez sem perceber a gravidade de sua atitude, estava manipulado o cânon bíblico cristão! Pior ainda: estava refutando o Antigo Testamento cristão para abraçar o dos fariseus!

Para sustentar sua posição, ele apelou para a opinião de São Jerônimo que, como já vimos no artigo passado, por influência dos rabinos, preferia o cânon mais curto. No entanto, Lutero esqueceu (ou não quis recordar!) que se tratava de uma opinião privada de São Jerônimo e não de uma convicção de toda a Igreja! O próprio Jerônimo, por ordem dos bispos, havia traduzido para o latim o Livro de Tobias. E explicava: “É melhor desagradar a opinião dos fariseus e atender às ordens dos bispos”. 
Infelizmente Lutero não atendeu ao sábio conselho de Jerônimo! Ainda assim, Lutero conservou os sete livros, colocando-os no final da sua Bíblia, como sendo úteis para a edificação. Ele dizia: “não devem ser considerados como Sagrada Escritura, mas são bons e se podem ler com utilidade”. Já Calvino não os aceitava de modo algum. Quanto ao Novo Testamento, Lutero e outros reformadores alemães rejeitaram a Epístola de Tiago, Judas, Hebreus e o Apocalipse! Também estes livros inspirados por Deus e reconhecidos pela Igreja, Lutero os relegou a um segundo plano, colocando-os no final da sua Bíblia, abaixo do que ele considerava “os verdadeiros, seguros e mais importantes livros do Novo Testamento”. 

Somente no século XVII (cerca de cem anos após Lutero) os luteranos voltaram ao cânon completo do Novo Testamento, que seu mestre e fundador havia mutilado. Quanto ao Antigo Testamento, ainda hoje os protestantes o conservam mutilado, incompleto devido à arbitrariedade dos reformadores!

Mas, que argumentos os protestantes usam ainda hoje para teimarem mutilando a Escritura?

1. Os sete livros deuterocanônicos não são citados pelo Novo Testamento. 

Tal argumento é completamente furado. Primeiro porque já vimos no artigo passado que há várias alusões a trechos desses livros no Novo Testamento. 


Em segundo lugar, o Novo Testamento também não cita Abdias, Naum, Cântico dos Cânticos, Eclesiastes, Ester, Esdras, Neemias e Rute, livros que também os protestantes têm como inspirados! Além do mais, os Atos dos Apóstolos citam o poeta grego Epidênides de Cnossos (cf. Tt 1,12s) e Arato da Cicília (cf. At 17,28) e nenhum destes dois é inspirado! Também a Epístola de Judas cita os apócrifos do Antigo Testamento “Assunção de Moisés” (cf. v. 9) e o “Apocalipse de Henoc” (cf. v. 14). Então, o fato de o Novo Testamento citar ou não alguma obra não serve para afirmar se ela é ou não inspirada!

2. Alegam os protestantes que o cânon bíblico dos judeus de Alexandria continha livros que a Igreja católica não aceita (3 e 4 Esdras, 3 e 4 Macabeus, Odes de Salomão, etc). Por que, então, aceitou os outros sete deuterocanônicos? 
Aí está exatamente a questão! A Igreja de Cristo nem estava presa ao cânon dos fariseus da Palestina nem ao cânon dos judeus de Alexandria! Somente sustentada pelo Espírito Santo que Cristo prometeu dar-lhe e que permanece para sempre com ela (cf. Jo 14,16s; 16,12-15; At 15,28), é que a Comunidade dos discípulos de Cristo, juntamente com seus legítimos pastores, pode discernir quais são os livros inspirados, os livros segundo Cristo! 
Aqui está a enrascada, o nó cego dos protestantes: como eles não aceitam a autoridade da Igreja, como não reconhecem que o Espírito do Senhor jamais a abandonou e como negam que este Santo Espírito sustenta os legítimos sucessores dos apóstolos, eles não podem apelar para nenhuma autoridade para defender o seu cânon mais curto e mutilado!

Onde é que está escrito na Bíblia quais são os livros da Bíblia? Em lugar nenhum! E como sabemos quais são os livros da Bíblia? Sabemo-lo pela palavra da Igreja! Mas, os protestantes rejeitam a palavra de Igreja... e preferem apoiar-se no cânon dos fariseus! É interessante notar que, por isso mesmo, por desprezar a Tradição da Igreja e querer seguir sua própria cabeça, Lutero cometeu o erro de rejeitar vários livros do Novo Testamento... que depois seus seguidores aceitaram! 

Os protestantes erraram quanto ao Novo Testamento e continuam errando quanto ao Antigo! Por isso mesmo os grandes teólogos protestantes ainda hoje não se entendem quanto ao problema do cânon. Por exemplo, H. Strathmann reconhece (são palavras dele!) que a questão de decidir os livros canônicos é “uma latente doença da teologia evangélica, e portanto, da Igreja evangélica, a saber, a confusa questão de suas relações com respeito aos documentos de sua origem, isto é, o cânon bíblico”. Já W.G.Kümmel - também protestante -, afirma que o cânon é “uma criação consciente da Igreja e, portanto, é sujeito a uma contínua revisão”. Ou seja: para ele o cânon pode ser modificado quando a Igreja quiser! Aliás, foi o que Lutero fez! É interessante que muitos teólogos protestantes defendem que se estabeleça um “cânon no cânon”! Que bicho é esse? Seria, no Novo Testamento, considerar uns livros como principalmente inspirados e, outros, menos inspirados!

Ao final desta apresentação, uma coisa deve ficar clara: a Igreja de Cristo – e somente ela – poderia, escutando o Espírito, definir o cânon.

E ela o fez! A atitude de Lutero rompeu com a antiga Tradição eclesial e mutilou a Palavra de Deus. O resultado é trágico: nos meios cultos protestantes ainda hoje não se tem certeza quais sejam os livros inspirados e, alguns, escolhendo entre Palavra de Deus e Palavra de Deus, selecionando o que agrada e deixando de lado o que desagrada, querem inventar um cânon no cânon, fruto de pura arbitrariedade humana. 

Esta situação nos coloca mais uma vez em guarda: não se pode refutar a Igreja de Cristo e a guia de seus legítimos pastores, os Bispos em comunhão com o Sucessor de Pedro, sem cair em sinuosas esparrelas! 

É triste que logo os protestantes, que amam tanto a Palavra de Deus, a mutilem e que os livros que contêm esta Palavra sejam, no dizer de um protestante – como já vimos acima – “uma latente doença da teologia evangélica, e portanto, da Igreja evangélica”

 
 

domingo, 9 de março de 2014

Bento XVI fala sobre a Teologia da Libertação: “A uma tal falsificação da fé cristã é necessário se opor por amor aos pobres”.



E seu parecer é um tanto distinto da recente onda de “reabilitação” dessa “Teologia”:

O primeiro grande desafio, aponta, foi a “Teologia da Libertação”, que estava se difundindo na América Latina. A opinião comum, diz ele, era que “se tratava de um apoio aos pobres”, “mas era um erro”. A pobreza e os pobres, explica, “foram , sem dúvida, tema da teologia da libertação, todavia, numa perspectiva muito específica”. Não era “uma questão de ajuda e reforma, dizia-se, mas do grande irrompimento do qual deveria surgir um novo mundo”. Assim, diz Bento XVI, “a fé cristã foi usada como um motor para esse movimento revolucionário, transformando-a em uma força política”. A “uma tal falsificação da fé cristã — observa — é necessário se opor por amor aos pobres e em favor do serviço que lhes é prestado”. João Paulo II, acrescenta, guiou-nos a “de um lado, desmascarar uma falsa idéia de libertação e, de outro, a expor a autêntica vocação da Igreja para a libertação do homem”.


Ut mentes nostras ad caeléstia desidéria érigas, te rogámus, audi nos. (Para que Vos digneis elevar as nossas almas a desejar as coisas do Céu, nós Vos rogamos, ouvi-nos)





A campeã Olímpica (2010) e Mundial (2009) Kim Yuna, sul-coreana, foi batizada em 24 de maio de 2008, dia de Nossa Senhora Auxiliadora. Yuna acaba de conquistar a medalha de prata nas Olimpíadas de Sochi e de anunciar sua aposentadoria.

Yuna escolheu Stella como seu nome de batismo e, à época, declarou a um jornal Católico: “Estou mais tranquila após o batismo. Daqui por diante, rezarei antes de entrar na área de patinação”. Sua mãe, cujo nome de batismo é Anna, afirmou: “A sua vontade e esforço não são tudo. Nós entramos na Igreja para contar com Deus”.

http://fratresinunum.com/2014/03/09/foto-da-semana-184/

quarta-feira, 5 de março de 2014

Petição Urgente: contra a estreia da peça “Jesus Cristo Super Star”. Não se pode promover atentados contra a Fé dos brasileiros sob pretexto de promover a Cultura!


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Nossa meta: 50.000

31.256 pessoas assinaram. Ajude-nos a chegar a 50 mil.

Petição à Ministra da Cultura, Senhora Marta Suplicy

Não se pode promover atentados contra a Fé dos brasileiros sob pretexto de promover a Cultura!


Exma. Sra Ministra Martha Suplicy.

Não é lícito ao Estado laico violentar barbaramente a Fé de milhões de pessoas, promovendo, com o dinheiro dos contribuintes o evento blasfemo que ocorrerá no próximo dia 14 de março, com o lançamento da Ópera-Rock Jesus Cristo Super Star.

Blasfemar e agredir a Fé de milhões de brasileiros não é promover a Cultura!

Não creio que esse Ministério teria coragem de promover 1% de algo que criticasse Maomé (ou mesmo Fidel Castro!...).

Então, como pode dispor do meu dinheiro para atacar a minha própria Fé?

Tenho certeza de que a senhora jamais daria dinheiro a alguém que estivesse preparando uma violência contra o senhor seu pai ou algum de seus entes queridos.

Mas eu me sinto assim quando vejo os cartazes anunciando esse espetáculo de horror, com os dizeres "promovido pelo Ministério da Cultura".

Por isso, exijo, como brasileiro e como cristão, que a senhora tome medidas no sentido de impedir qualquer promoção ou patrocínio do Ministério da Cultura a essa blasfêmia.

Estarei, junto com milhares de outros brasileiros, acompanhando suas decisões, através da Internet e das Redes Sociais.

E já lhe adianto que não nos conformaremos se um tema de tal gravidade não for tratado com o merecido respeito. E continuaremos fazendo tudo o que for possível, dentro da lei e da ordem, para que tal espetáculo não ocorra.

Em nome de milhões de cristãos brasileiros, assino essa Petição, 

Atenciosamente,

(##NOMEESOBRENOME##)


segunda-feira, 3 de março de 2014

Historiador Protestante, é convencido pela ‘honestidade histórica’, e se converte ao Catolicismo.







Por A. David Anders, PhD/ Fonte: Coming Home Network/ Tradução: Tonynho Campos

Eu fui criado como um protestante evangélico, em Birmingham, no Alabama. Meus pais eram amorosos e dedicados, sinceros em sua fé, e profundamente envolvidos em nossa igreja. Eles incutiram em mim o respeito pela Bíblia como a Palavra de Deus, e um desejo e uma fé viva em Cristo.

Missionários frequentavam nossa casa e traziam o seu entusiasmo pelo seu trabalho. As estantes em nossa casa estavam cheias de livros de teologia e apologética. Desde cedo, eu absorvi a noção de que a minha maior vocação era ensinar a fé cristã. Suponho que não seja nenhuma surpresa que eu tenha me tornado um historiador da Igreja, mas me tornar um católico era a última coisa que eu esperava.

A igreja da minha família era nominalmente Presbiteriana, mas as diferenças denominacionais significavam muito pouco para nós. Eu frequentemente ouvia que divergências sobre o batismo, a ceia, ou o governo da igreja do Senhor não eram importantes, desde que eu acreditasse no Evangelho. Assim, queríamos dizer que a pessoa deve “nascer de novo”, que a salvação é pela fé, e que a Bíblia é a única autoridade para a fé cristã. Nossa igreja apoiava os ministérios de muitas denominações protestantes diferentes, mas o grupo certamente estava em oposição a Igreja Católica.

O mito de uma “recuperação” protestante do Evangelho era forte em nossa igreja. Eu aprendi muito cedo a idolatrar os reformadores protestantes Martinho Lutero e João Calvino, porque supostamente haviam resgatado o Cristianismo das trevas do Catolicismo medieval. Os católicos eram os que confiavam nas “boas obras” para levá-los para o céu, que se renderam à tradição ao invés das Escrituras, e que adoravam Maria e os santos em vez de Deus. Sua obsessão com os sacramentos também criou um enorme obstáculo para a verdadeira fé e um relacionamento pessoal com Jesus. Não havia dúvida. Os católicos não eram verdadeiros cristãos.

Nossa igreja era caracterizada por uma espécie de intelectualismo confiante. Presbiterianos tendem a ser bastante ou teologicamente intelectuais, e professores de seminário, apologistas, cientistas e filósofos eram os oradores frequentes de nossas conferências. Foi essa atmosfera intelectual que atraiu o meu pai para a igreja, e suas estantes estavam lotadas com as obras do reformador João Calvino, e do puritano Jonathan Edwards, bem como autores mais recentes como B.B. Warfield, A.A. Hodge, C.S. Lewis e Francis Schaeffer. Como parte dessa cultura acadêmica, tomávamos como certo que a investigação honesta levaria alguém a nossa versão da fé cristã.

Todas estas influências deixaram impressões definitivas sobre mim como uma criança. Eu comecei a achar o Cristianismo um pouco parecido com a física newtoniana. A fé cristã consistia em certas leis eminentemente razoáveis e imutáveis, e a você estava garantida a vida eterna, desde que você tivesse construído a sua vida de acordo com esses princípios. Eu também pensava que esta era a mensagem claramente enunciada no livro oficial da teologia cristã: a Bíblia. Somente a confiança irracional na tradição humana ou a indiferença depravada poderia explicar o fracasso de alguém se agarrar a estas simples verdades.

Havia uma estranha ironia neste ambiente altamente religioso e teológico. Deixava-se claro que era a fé e não as obras que salvavam. Também se confessava a crença protestante clássica de que todas as pessoas estão “totalmente depravadas”, o que significa que até mesmo os seus melhores esforços morais são intrinsecamente odiosos para Deus e nada podem merecer. No momento em que cheguei a escola, eu coloquei essas peças e conclui que a prática religiosa e o esforço moral eram mais ou menos irrelevantes para a minha vida. Não que eu tenha perdido a minha fé. Pelo contrário, eu a absorvi completamente. Eu tinha aceitado a Cristo como meu Salvador e era um “renascido”. Eu acreditava que a Bíblia era a palavra de Deus. Eu também acreditava que nenhum dos meus trabalhos religiosos ou morais tinha qualquer valor. Então eu parei de praticá-los.

Felizmente, a minha indiferença durou apenas alguns anos, e eu tive uma verdadeira reconversão à fé na faculdade. Descobri que a minha necessidade de Deus era mais profunda do que um simples “seguro contra incêndio”. Eu também conheci uma linda garota com quem eu comecei a ir aos cultos protestantes. Jill tinha sido criada nominalmente católica, mas não conseguiu manter-se na prática de sua fé após a Confirmação. Juntos, nós nos encontrávamos crescendo mais profundamente na fé protestante, e depois de alguns meses, ambos nos tornamos desiludidos com a atmosfera mundana da nossa Universidade de Nova Orleans. Concluímos que o Centro-Oeste americano e a faculdade evangélica Wheaton College iria nos proporcionar um ambiente mais espiritual, e nos transferimos os dois no meio do nosso segundo ano (em Janeiro de 1991).

Wheaton College, é um farol para cristãos evangélicos sinceros vindos de várias origens. Protestantes de diversas denominações diferentes ficam representados, unidos em seu compromisso com Cristo e a Bíblia. Minha infância me ensinou que a teologia, a apologética e o evangelismo eram a maior vocação do cristão, e eu encontrei-os todos em oferta abundante na Wheaton College. Foi aí que pensei pela primeira vez em comprometer a minha vida ao estudo da teologia. Foi também na Wheaton College que Jill e eu nos tornamos noivos.

Depois da formatura, Jill e eu nos casamos, e finalmente, fizemos o nosso caminho para a Universidade Evangélica Trindade Divina, em Chicago. O meu objetivo era ter uma educação de seminário, e eventualmente, completar o meu grau de Ph.D. Eu queria me tornar um daqueles professores de teologia que admirava tanto na igreja durante a minha juventude.

Atirei-me no seminário abandonando tudo. Eu amei meus cursos de teologia, da Escritura e da história da Igreja, e eu prosperei sobre a fé, confiança e sentido de missão que permeavam a escola. Eu também abracei a sua atmosfera anti-católica. Eu estava lá em 1994, quando o documento “Evangélicos e Católicos Juntos” foi publicado pela primeira vez e a faculdade foi quase que uniformemente hostil a ele. Eles viam qualquer compromisso com os católicos como sendo uma traição a Reforma. Os católicos não eram simplesmente irmãos no Senhor. Eles eram apóstatas.

Eu aceitava as atitudes anti-católicas de meus professores de seminário, por isso, quando chegou a hora de seguir em frente nos meus estudos, decidi me focar em um estudo histórico da Reforma. Eu pensava que não poderia haver uma preparação melhor, para atacar a Igreja Católica e ganhar convertidos, do que conhecer profundamente as mentes dos grandes líderes de nossa fé – Martinho Lutero e João Calvino. Eu também queria entender toda a história do Cristianismo para que pudesse colocar a Reforma no contexto. Eu queria ser capaz de mostrar como a igreja medieval tinha abandonado a verdadeira fé e como os reformadores tinham recuperado ela. Para este fim, comecei estudos de Ph.D. em teologia histórica na Universidade de Iowa. Eu nunca imaginava que a história da Reforma da Igreja iria me levar a Igreja Católica.

Antes que começasse meus estudos em Iowa, Jill e eu testemunhamos o nascimento do nosso primeiro filho, um menino. Seu irmãozinho nasceu menos de dois anos depois, e uma irmã chegou antes de sairmos de Iowa (e agora temos cinco filhos). Minha esposa estava muito ocupada cuidando das crianças, enquanto eu me comprometia quase que inteiramente aos meus estudos. Vejo hoje que eu passei muito tempo na biblioteca e não tempo suficiente com a minha esposa, meus filhos e minha filha. Eu acho que justifica essa negligência a confiança no meu senso de missão. Eu tinha uma vocação – para testemunhar a fé através do estudo teológico – e uma visão intelectual da fé cristã do meu dever cristão. Para os cristãos evangélicos, o que se acredita ser mais importante é o que a pessoa vive. Eu estava aprendendo a defender e promover essas crenças. O que poderia ser mais importante?

Eu comecei meus estudos de doutorado em Setembro de 1995. Fiz cursos no início, de história medieval e da Reforma da Igreja. Eu li os Padres da Igreja, os teólogos escolásticos, e os reformadores protestantes. Em cada etapa, tentei relacionar teólogos posteriores aos anteriores, e todos eles com as Escrituras. Eu tinha um objetivo de justificar a Reforma e isso significava, acima de tudo, investigar a doutrina da “justificação pela fé”. Para os protestantes, esta é a doutrina mais importante “recuperada” pela Reforma.

Os reformadores insistiam em que eles estavam seguindo a antiga igreja ao ensinar a “Sola Fide”, e como prova apontavam para os escritos do Padre da Igreja, Santo Agostinho de Hipona (354-430). Meus professores de seminário também apontavam para Agostinho como a fonte originária da teologia protestante. A razão para isso era o interesse de Agostinho nas doutrinas do pecado original, graça e justificação. Ele foi o primeiro dos Padres a tentar uma explicação sistemática desses temas paulinos. Ele também colocou um nítido contraste entre “obras” e “fé” (veja sua obra “Sobre o Espírito e a Letra”, 412 A.D.). Ironicamente, foi a minha investigação desta doutrina e de Santo Agostinho, o que começou a minha jornada para a Igreja Católica.

Minha primeira dificuldade surgiu quando comecei a entender o que realmente Santo Agostinho ensinou sobre a salvação. Em poucas palavras, Agostinho rejeitou a “Sola Fide”. É verdade que ele tinha um grande respeito pela fé e graça, mas via estas principalmente como a fonte de nossas boas obras. Agostinho ensinou que nós literalmente “merecemos” a vida eterna, quando nossas vidas são transformadas pela graça. Isto é completamente diferente do ponto de vista protestante.

As implicações de minha descoberta foram profundas. Eu não sabia o suficiente dos meus dias de faculdade e seminário para entender que Agostinho ensinava nada menos que a doutrina católica romana da justificação. Decidi passar então para os Padres mais antigos da Igreja em minha busca pela “fé pura” da antiguidade cristã. Infelizmente, os Padres mais antigos da Igreja eram ainda de menos ajuda do que Agostinho.

Agostinho vinha do Norte da África de fala de língua Latina. Outros vieram da Ásia Menor, Palestina, Síria, Roma, Gália, e do Egito. Eles representavam diferentes culturas, falavam línguas diferentes, e foram associados a diferentes apóstolos. Eu pensei que seria possível que alguns deles pudessem ter entendido mal o Evangelho, mas parecia improvável que todos iriam se confundir. A verdadeira fé tinha de estar representada em algum lugar do mundo antigo. O único problema era que eu não poderia encontrá-la. Não importa para onde eu olhasse, em qualquer continente, em qualquer século, os Padres concordavam: a salvação vem por meio da transformação da vida moral e não somente pela fé. Eles também ensinaram que essa transformação começa e é alimentada nos sacramentos, e não através de alguma experiência de conversão individual.

Nesta fase da minha jornada eu estava ansioso para continuar a ser um protestante. Toda a minha vida, casamento, família e carreira, estavam ligados ao protestantismo. As minhas descobertas na história da Igreja eram uma enorme ameaça para a minha identidade, então eu me virei para os estudos bíblicos a procura de conforto e ajuda. Eu pensei que se eu pudesse ficar absolutamente confiante no recurso dos reformadores com as Escrituras, então eu basicamente poderia demitir 1500 anos de história cristã. Evitei a academia católica, ou livros que eu achava que tinham a intenção de minar a minha fé, e preferi me concentrar no que eu achava que eram as obras protestantes mais objetivas, históricas e também de erudição bíblica. Eu estava procurando por uma prova sólida de que os reformadores estavam certos em sua compreensão de Paulo. O que eu não sabia era que os melhores da academia protestante do Século XX já haviam rejeitado a leitura de Lutero da Bíblia.

Lutero baseou toda a sua rejeição da Igreja sobre as palavras de Paulo: “Uma pessoa é justificada pela fé, independentemente das obras da lei” (Romanos 3, 28). Lutero assumiu que este contraste entre “fé” e “obras” significava que não havia papel para a moralidade no processo da salvação (de acordo com a visão tradicional protestante, o comportamento moral é uma resposta para a salvação, mas não um fator contribuinte). Eu aprendi que os primeiros Padres da Igreja rejeitaram essa visão. Agora eu havia encontrado toda uma série de estudiosos protestantes também dispostos a testemunhar que isso não é o que Paulo quis dizer.

Os Padres da Igreja do Século II acreditavam que Paulo havia rejeitado a relevância somente da lei judaica para a salvação (“obras da lei” = lei mosaica). Eles viam a fé como a entrada para a vida da Igreja, os sacramentos, e o Espírito. A fé nos admite os meios da graça, mas não é em si um motivo suficiente para a salvação. O que eu vi nos mais recentes e altamente respeitados estudiosos protestantes é o mesmo ponto de vista. A partir do último terço do Século XX, estudiosos como E.P. Sanders, Krister Stendhal, James Dunn e N. T. Wright, têm argumentado que o protestantismo tradicional interpretou profundamente mal a Paulo. De acordo com Stendhal e outros, a justificação pela fé é principalmente sobre as relações entre judeus e gentios, e não sobre o papel da moralidade como condição de vida eterna. Juntos, o seu trabalho tem sido referido como “A Nova Perspectiva sobre Paulo”.

Minha descoberta desta “Nova Perspectiva” foi um divisor de águas na minha compreensão das Escrituras. Eu vi, para começar, que a “Nova Perspectiva”, era na verdade a “Velha Perspectiva” dos primeiros Padres da Igreja. Comecei a testá-la contra a minha própria leitura de Paulo e descobri que ela tinha sentido. Ela também resolveu a tensão de longa data que eu sempre senti entre Paulo e o resto da Bíblia. Mesmo Lutero tinha tido dificuldade em conciliar sua leitura de Paulo com o Sermão da Montanha, a Epístola de São Tiago, e o Antigo Testamento. Uma vez que eu tentei a “Nova Perspectiva” esta dificuldade desapareceu. Relutantemente, eu tive que aceitar que os reformadores estavam errados sobre a justificação.

Essas descobertas no meu trabalho acadêmico foram paralelas em certa medida a descobertas na minha vida pessoal. A teologia protestante distingue fortemente crença de comportamento, e eu comecei a ver como isso me afetou. Desde a infância, eu sempre tinha identificado teologia, apologética e evangelismo como a mais alta vocação na vida cristã, enquanto as virtudes deveriam ser meros frutos da crença correta. Infelizmente, descobri que os frutos não estavam apenas faltando em minha vida, mas que minha teologia tinha realmente contribuido para os meus vícios. Ela me fez censura, orgulhosa, e argumentativa. Eu também percebi que tinha feito a mesma coisa para os meus heróis.

Quanto mais eu aprendia sobre os reformadores protestantes, menos pessoalmente eu gostava deles. Eu reconheci que o meu próprio fundador, João Calvino, era um homem arrogante e auto-importante, que foi brutal para com os seus inimigos, nunca aceitou a responsabilidade pessoal, e condenava a qualquer um que não concordasse com ele. Ele chamou a si mesmo de profeta e atribuiu autoridade divina ao seu próprio ensino. Isto contrasta totalmente com bastante do que eu estava aprendendo sobre os teólogos católicos. Muitos deles eram santos, significando que eles tinham vivido vidas de abnegação e caridade heroica. Mesmo os maiores deles – homens como Santo Agostinho e São Tomás de Aquino – também reconheciam que eles não tinham autoridade pessoal para definir o dogma da Igreja.

Exteriormente, permaneci firmemente anti-católico. Continuei a atacar a Igreja e a defender a Reforma, mas interiormente eu estava em uma agonia psicológica e espiritual. Descobri que minha teologia e todo o trabalho da minha vida foram fundamentados em uma mentira, e que a minha própria vida ética, moral e espiritual estava profundamente carente. Eu estava perdendo rapidamente a minha motivação para contestar o Catolicismo, e em vez disso eu queria simplesmente saber a verdade. Os reformadores protestantes tinham justificado a sua revolta por um apelo à “Sola Scriptura”. Meus estudos da doutrina da justificação tinham me mostrado que a Escritura não era o guia tão claro como os reformadores alegavam. E se todo o seu apelo a “Sola Scriptura” fosse equivocado? Por que, afinal, eu trataria a “Sola Scriptura” como a autoridade final?

Quando eu levantei essa questão para mim, percebi que eu não tinha uma boa resposta. A verdadeira razão pela qual apelava para a “Sola Scriptura” era que isso é o que havia me sido ensinado. Ao estudar o assunto, descobri que nenhum protestante já deu uma resposta satisfatória para esta pergunta. Os reformadores realmente não defenderam a doutrina da “Sola Scriptura”. Eles simplesmente afirmaram ela. Pior ainda, eu aprendi que os teólogos protestantes modernos que tentaram defender a “Sola Scriptura” o fizeram com um apelo à tradição. Isso me parecia ilógico. Eventualmente, eu percebi que a “Sola Scriptura” não está nem mesmo nas Escrituras. A doutrina é auto-refutável. Vi também que os primeiros cristãos não sabiam mais de “Sola Scriptura”, do que haviam conhecido de “fé”. Sobre as questões de como somos salvos e como definimos a fé, os cristãos mais antigos encontravam o seu centro na Igreja. A Igreja era tanto a autoridade sobre a doutrina cristã, bem como o instrumento de salvação.

A Igreja era a questão para a qual eu continuava me voltando. Os evangélicos tendem a ver a Igreja como simplesmente uma associação de fiéis unidos mentalmente. Até mesmo os reformadores, Lutero e Calvino, tinham uma visão muito mais forte da Igreja do que isso, mas os antigos cristãos tinham a doutrina mais sublime de todas. Eu costumava ver sua ênfase na Igreja como anti-bíblica, ao contrário da “fé”, mas eu comecei a perceber que era minha tradição evangélica que era anti-bíblica.

A Escritura ensina que a Igreja é o Corpo de Cristo (Efésios 4, 12). Os evangélicos tendem a descartar isso como mera metáfora, mas os antigos cristãos pensavam nisso como, literalmente, embora misticamente, a verdade. São Gregório de Nissa disse: “Aquele que contempla a Igreja realmente contempla Cristo.” Enquanto eu pensava sobre isso, eu percebia que ele disse uma verdade profunda sobre o significado bíblico da salvação. São Paulo ensina que os batizados foram unidos a Cristo na sua morte, para que também eles fossem unidos a ele na ressurreição (Romanos 6, 3-6). Esta união, literalmente, torna o cristão um participante da natureza divina (2 Pedro 1, 4). Santo Atanásio poderia até dizer, “Ele se fez homem para que pudéssemos ser elevados a Deus” (De Incarnatione, 54,3). A antiga doutrina da Igreja agora fazia sentido para mim, porque eu via que a própria salvação nada mais é que a união com Cristo e um crescimento contínuo em sua natureza. A Igreja não é uma mera associação de pessoas com interesses semelhantes. É uma realidade sobrenatural porque compartilha da vida e ministério de Cristo.

Essa percepção também fazia sentido na doutrina sacramental da Igreja. Quando a Igreja batiza, absolve os pecados, ou acima de tudo, oferece o Santo Sacrifício da Missa, é realmente Cristo quem batiza, absolve e oferece o seu próprio Corpo e Sangue. Os sacramentos não diminuem a Cristo. Eles o tornam presente.

As Escrituras são bastante simples sobre os sacramentos. Se você tomá-los literalmente, você deve concluir que o batismo é o “banho de renascimento e renovação pelo Espírito Santo” (Tito 3, 5). O que Jesus quis dizer quando disse: “A minha carne é verdadeira comida e o meu sangue é verdadeira bebida” (João 6, 55). Ele não estava mentindo quando ele prometeu “a quem perdoardes os pecados lhes serão perdoados” (João 20, 23). Isto é exatamente como os antigos cristãos entendiam os sacramentos. Eu já não podia acusar os antigos cristãos de serem anti-bíblicos. Por que razão eu deveria rejeitá-los em tudo?

A antiga doutrina cristã da Igreja também fez sentido na questão da veneração dos santos e mártires. Eu aprendi que a doutrina católica sobre os santos é apenas um desenvolvimento desta doutrina bíblica do Corpo de Cristo. Os católicos não adoram os santos. Eles veneram a Cristo em seus membros. Ao invocar a sua intercessão, os católicos apenas confessam que Cristo está presente e operante na sua Igreja no céu. Os protestantes frequentemente objetam que a veneração dos santos católicos de alguma forma diminui o ministério de Cristo. Eu comecei a entender agora que o inverso é a verdade. São os protestantes que limitam o alcance da obra salvadora de Cristo, negando suas implicações para a doutrina da Igreja.

Meus estudos mostraram essa teologia concretizada na devoção da Igreja antiga. Conforme eu continuava a minha investigação de Santo Agostinho, eu aprendia que esse “herói protestante” abraçou completamente a veneração de santos. Peter Brown (nascido em 1935), um estudioso de Santo Agostinho, também me ensinou que os santos não estavam relacionados com o Cristianismo antigo. Ele argumentou que não se pode separar o Cristianismo antigo da devoção aos santos, e ele colocou Santo Agostinho diretamente nesta tradição. Brown mostrou que esta não era uma mera importação pagã no Cristianismo, mas sim estava ligado intimamente à noção cristã de salvação (Veja “O Culto dos Santos: A Sua Origem e Função no Cristianismo Latino”).

Quando entendi a posição católica sobre a salvação, a Igreja e os santos, os dogmas marianos também pareciam se encaixar. Se o coração da fé cristã é a união de Deus com a nossa natureza humana, a Mãe desta natureza humana tem um papel extremamente importante e único em toda a história. Por isso, os Padres da Igreja sempre celebraram Maria como a segunda Eva. O seu “sim” a Deus na anunciação desfez o “não” de Eva no jardim. Se era apropriado, venerar os santos e mártires da Igreja, quanto mais apropriado não seria dar honra e veneração a ela que tornou possível nossa redenção?

No momento em que eu terminei meu doutorado, eu tinha revisto completamente a minha compreensão da Igreja Católica. Vi que a sua doutrina sacramental, a sua visão da salvação, sua veneração a Maria e aos santos, e suas reivindicações de autoridade estavam todas fundamentadas nas Escrituras, nas tradições mais antigas, e no claro ensino de Cristo e dos apóstolos. Eu também percebi que o protestantismo era uma massa confusa de inconsistências e lógica torturada. Não só era falsa a doutrina protestante, mas criava contenção, e não poderia mesmo permanecer inalterada. Quanto mais eu estudava, mais eu percebia que a minha herança evangélica tinha me movido para longe não só do Cristianismo antigo, mas mesmo a partir do ensino de seus próprios fundadores protestantes.

Os evangélicos americanos modernos ensinam que a vida cristã começa quando você “convida Jesus a entrar em seu coração”. A conversão pessoal (o que eles chamam de “nascer de novo”) é vista como a essência e o começo da identidade cristã. Eu sabia a partir de minha leitura dos Padres que este não era o ensino da Igreja primitiva. Eu aprendi estudando os reformadores que não era nem mesmo o ensino dos primeiros protestantes. Calvino e Lutero tanto inequivocamente identificavam o batismo como o início da vida cristã. Eu procurei em vão em suas obras por qualquer exortação ao “novo nascimento”. Eu também aprendi que não descartavam a Eucaristia como sem importância, como eu o fazia. Enquanto eles rejeitavam a teologia católica sobre os sacramentos, ambos continuaram a insistir que Cristo está realmente presente na Eucaristia. Calvino mesmo ensinou em 1541 que uma compreensão adequada desta Eucaristia é “necessária para a salvação”. Ele não sabia nada do individualista, do Cristianismo do “novo nascimento” no qual eu havia crescido.

Terminei a minha licenciatura em Dezembro de 2002. Os últimos anos de meus estudos foram realmente muito obscuros. Mais e mais, parecia-me que os meus planos estavam ficando desequilibrados, e o meu futuro na escuridão. Minha confiança ficou muito abalada e eu realmente duvidava, que eu poderia acreditar em qualquer coisa. O Catolicismo começou a me parecer como a interpretação mais razoável da fé cristã, mas a perda da fé de minha infância foi demolidora. Orei por orientação. No final, eu creio que foi a graça que me salvou. Eu tinha uma esposa e quatro filhos, e Deus finalmente me mostrou que eu precisava de mais do que os livros em minha vida. Sinceramente, eu também precisava de mais do que “somente a fé”. Eu precisava de ajuda real para viver a minha vida e batalhar contra os meus pecados. Encontrei isso nos sacramentos da Igreja.

Em vez da “Sola Scriptura”: eu precisava da orientação verdadeira de um professor com autoridade. Encontrei isso no Magistério da Igreja. Descobri realmente que toda a minha companhia eram os santos no céu – e não apenas os seus livros sobre a terra. Em suma, eu descobri que a Igreja Católica foi idealmente formada para atender as minhas necessidades espirituais reais. Além de verdade, descobri Jesus em sua Igreja, através de sua Mãe, e em toda a companhia dos seus santos. Entrei na Igreja Católica em 16 de Novembro de 2003. Minha esposa também tinha sua própria aversão contra as profundezas da Igreja e hoje minha família é uma família feliz e entusiasticamente católica. Agradeço aos meus pais por me apontarem Cristo e as Escrituras. Agradeço a Santo Agostinho por me apontar a Igreja.





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