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"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Pensamentos Consoladores sobre a Imaculada Conceição da Sempre Virgem Maria


De qua natus est Jesus
Maria, de quem nasceu Jesus.
(S. Mat. 1, 16)


Ser Maria Aquela, que abrangeu em seu ventre o que é Imenso; ser Ela a que deu ao mundo um Redentor Divino; ser Ela Filha, Esposa e Mãe do seu mesmo Deus, ser Ela de quem nasceu Jesus - De qua natus est Jesus; eis aqui o mais alto grau a que podia ser elevada uma filha de Adão; eis aqui uma qualidade altíssima, que não podia unir-se em Maria com a Culpa Original. Não, irmãos meus, a Primogênita do Eterno não podia ser em tempo algum o objeto do Seu ódio; a Mãe de um Deus Santíssimo não devia contrair alguma culpa; a Esposa de um Deus Santificador devia ser santificada em todo o tempo; a libertadora da nossa escravidão não devia arrastar as nossas tristes cadeias; a vencedora da Serpente não convinha ser ferida de suas setas; Maria, finalmente, não devia contrair a Culpa Original.

Como não podemos negar a glória de ser Mãe de Deus, devemos por isso mesmo acreditar, que Ela foi concebida em graça, e que desde o primeiro momento da sua Conceição, Ela foi pura, imaculada, isto é, isenta do Pecado Original. Os Santos Padres assim o tem acreditado e ensinado; e a Santa Igreja, finalmente, assim o definiu há pouco como ponto de fé, a que não podemos faltar. Não espereis, pois, que eu hoje venha provar-vos um Dogma ultimamente definido; falando o oráculo da verdade, nada mais é preciso; a vossa mesma piedade e devoção para com Maria, invocando-A e festejando-A como pura e imaculada desde a sua Conceição, me escusa disto mesmo. Eu me contento somente de mostrar-vos a singularidade da Graça Original em Maria, ou o grande privilégio com que o Criador a enriqueceu na sua Conceição. Quanto Ela foi feliz desde sua origem, e quanto nós somos infelizes, eis o que mostrarei. – Eu principio.

Para formarmos alguma ideia da singularidade da graça, que santificou a Maria na sua Conceição milagrosa, é necessário conhecermos a desgraça do Pecado Original, de que todos nascemos réus, e de que o Senhor excetuou esta feliz Criatura. Ah! Que horroroso espetáculo exporia eu aos vossos olhos, se pudesse descrever com clareza a deformidade enormíssima deste monstro detestável! Ele é um dragão venenoso, que nutrindo-se conosco desde o ventre de nossas mães, nos despedaça as entranhas com mordeduras mortais; é uma maldição inevitável, a qual, contraído logo desde o princípio da nossa existência, nos faz objetos odiosos do nosso Deus, indignos das suas graças, e excluídos do Reino do Céu; é um contágio universal, que infeccionando toda a humanidade, chama sobre ela as enfermidades, as paixões, as desgraças, e finalmente a morte; em poucas palavras, é aquele primeiro pecado de desobediência, que Adão e Eva cometeram, e que todos nós deles herdamos como filhos ou descendentes, e que desgraçou a eles e a toda a sua descendência.

Fatal herança, quem poderá escapar-te? Virgem Santa, quem senão Vós, que fostes criada para ser Mãe do Vosso mesmo Criador, e que não tendes semelhante na vossa origem, e que sois bendita entre todas as mulheres, quem senão Vós poderá ficar isenta de tão perniciosa lei?

Mas com efeito; ainda que no princípio da nossa origem, logo que somos concebidos no ventre de nossas mães, ficamos todos sendo réus do pecado, escravos do Demônio, marcados com o seu selo; Maria sem exemplo é concebida em graça, e entra no mundo cheia de Inocência e Santidade; o seu mesmo Criador por um raro privilégio a susteve nos Seus braços para não cair na massa da perdição; no mundo apareceu uma nova Criatura dotada desde a sua Conceição, das melhores perfeições por um raro privilégio. Infernal Serpente, enganadora de uma incauta Eva, confunde-te com a existência desta nova Criatura, foge, foge envergonhada para esses abismos de tormentos; tuas forças e teu poder não tiveram parte em Maria; tuas duras cadeias não prenderam esta Virgem; se procuraste com uma só lança ferir toda a humanidade, se pensavas ganhar num só combate todas as vitórias, aterra-te, ainda digo, pois é Maria quem alcançou sobre ti uma completa derrota; é Maria a quem não prenderam teus laços; é Maria finalmente, que te esmagou a cabeça, e abateu tua soberba – Ipsa conteret caput tuum.

Maria é sim essa valorosa Judite, que confundiu e derrotou o soberbo Holofernes do Inferno; Maria é a única que não arrastou seus ferros. E que glória esta para Maria! Que glória para Ela, alcançar uma completa derrota de tamanho adversário! Que glória para esta Virgem, confundir logo no princípio da sua existência um Inimigo, que tinha zombado do mundo todo! Ah! O Demônio tinha subjugado ao seu império toda a descendência de Adão, mas só esta Virgem pode escapar-se à tirania de seus ferros; tudo havia sucumbido às leis deste soberbo vencedor, mas só esta forte Torre de Davi despreza as suas bandeiras. O soberbo Assuero tinha condenado à morte todo o povo hebreu, mas uma formosa Ester é excetuada deste decreto; todos somos concebidos em pecado, réus e escravos do Demônio; Maria tão somente é excetuada desta lei. Que privilégio, que glória para Maria!

Ah! Todos os mais privilégios, todas as mais graças que o Senhor lhe concedeu, por muito grandes que sejam, não excedem, nem chegam a este dom da sua Conceição Imaculada; é esta uma graça onde não tem chegado alguma criatura humana: Ela ainda que procedida de um princípio imundo, de uma carne corrupta, como nós outros, é concebida e criada por Deus toda bela como a brilhante aurora; saindo do meio das trevas da obscura noite da culpa, apareceu toda luminosa; começando a existir entre os espinhos do pecado; é uma rosa sempre cheirosa, agradável e imarcescível; entre a nossa natureza toda estragada por causa de Adão e Eva, veio esta flor toda bela, toda formosa e engraçada.

Virgem Santa, criatura imaculada, formosa Filha de Jerusalém, a quem vos compararei? Ai! Se a fé não me ensinasse que há um só Deus na Essência, e trino em Pessoas, eu diria com São Dionísio, que Maria era uma segunda Divindade – Nizi unam tantummodo Divinitatem esse crederem, hanc mulierem Divinum esse dicenem. Mas não larguemos os voos do nosso pensamento mais acima do que deve ser; basta dizer que Maria pela sua Conceição Imaculada excede a tudo quanto é criado, e que assim como o sol brilha entre todos os mais astros, também Ela resplandece e sobressai a tudo quanto é grande diante de Deus: Ela é um Castelo fortíssimo, uma Torre inexpugnável, que nunca pagou algum tributo ao Demônio, diz São Tomás de Vilanova, isto é, nunca cometeu pecado, nem houve momento desde a sua Conceição em que estivesse no poder do Demônio – Ecce castelum fortissimum, ecce turrim inexpugnabilem, quae nunquam diabolo praestitit tributum.

Oh! Quanto pois Maria é feliz desde o primeiro instante da sua existência! E quanto nós todos somos infelizes, desgraçados desde o primeiro momento em que fomos concebidos no ventre de nossas mães! Maria apenas começa a existir, é livre do poder do Demônio, e nós desde o primeiro momento da nossa existência começamos a ser escravos do seu infame poder; Maria desde então Santíssima, perfeitíssima, sumamente agradável a Deus, e nós desde o primeiro instante da nossa criação, pecadores, miseráveis, feios e desagradáveis aos olhos de Nosso Senhor: que diferentes sortes! Que desgraçada condição humana! Mas desta infeliz sorte, fomos por Deus resgatados nas sagradas Águas do Batismo; então, o nosso Divino Criador por meio desse Santo Sacramento nos livrou da escravidão do Demônio, e lavou nossas almas dessa mancha do pecado; então, ficamos cheios de graça e inocência, amados de Deus, agradáveis aos Seus olhos, e herdeiros do seu Reino do Céu; enfim, pela Sua infinita Misericórdia ficamos sendo Seus filhos, e inteiramente felizes pela graça da regeneração. Mas esta graça e felicidade tornamos a perder por nossa culpa, se caímos em pecado mortal, e ficamos depois ainda mais infelizes e desgraçados do que da primeira vez, porque fomos infiéis às nossas promessas, e ingratos ao nosso bom Deus.

Sim, irmãos meus; o Pecado é Original e Pessoal; o Original é aquele com que somos concebidos no ventre de nossas mães, e que nos vem de nossos primeiros pais Adão e Eva como origem, e de que só Maria Santíssima ficou livre por um raro privilégio; o Pecado Pessoal é aquele que comete a própria pessoa, ou o que nós praticamos depois do uso da razão. Do Original somos livres pelo Batismo, como já vos disse; e se morrermos sem ser batizados não poderemos ir para o Céu, nem também sofreremos as penas do Inferno, porque o Pecado Original não é cometido por vontade própria. Mas, se depois do Batismo e do uso da razão nós cometemos algum pecado mortal, ao qual não damos remédio pela Confissão e Penitência, não poderemos também ir ao Céu gozar a Deus, iremos sem remédio algum ao Inferno padecer tormentos eternos; porque este pecado já é cometido por nós por vontade própria, por malícia pessoal, de que não há desculpa diante de Deus.

Assim pois, se desgraçados éramos pelo Pecado Original antes de sermos batizados, muito mais desgraçados somos depois do Batismo, se cairmos em pecado mortal, que não remediemos. Estes pecados pessoais nos fazem muito mais aborrecidos de Deus, e merecedores de tremendos castigos pela nossa infidelidade e ingratidão. Sim, o sagrado Batismo além de ser um Sacramento de Regeneração, pelo qual somos lavados do Pecado Original, como já vos disse, é também, como dizem os Santos Padres, um contrato que Deus faz conosco e nós com Ele. Deus promete, e nós prometemos; Deus obriga-se, e nós obrigamo-nos também; damos palavra pela boca de nossos Padrinhos como fiadores, estando presentes os Ministros da Igreja, testemunhas os Anjos e os homens; faz-se disto escritura, a qual se guarda no arquivo da Igreja e nos registros de Deus. O Senhor te colheu a palavra que tu deste no Batismo, diz por isso Santo Ambrósio, escrita está não no livro dos mortos, mas sim no livro dos vivos; diante dos Anjos pronunciaste a tua obrigação, não a podes negar.

E que nos prometeu Deus no Batismo? Prometeu-nos o Céu, e obrigou-se a dar-no-lo, se O servirmos e amarmos, e se morrermos na Sua graça. Eis a promessa da parte de Deus, e que de certo há de cumprir. E da nossa parte, que prometemos, e a que ficamos obrigados? Chegando à porta da Igreja logo nos saiu ao encontro o Ministro do Senhor, o qual nos perguntou, ou aos nossos Padrinhos em nosso lugar: Que pedis à Igreja? – E logo responderam por nós: A fé. – E a fé que te dá – A vida eterna, responderam mais. – Se pois queres entrar na vida eterna, guarda os Mandamentos, disse o mesmo Ministro do Senhor – Si vis ad vitam ingredi, serva mandata. Logo, o mesmo Sacerdote mandou ao espírito imundo ou ao Demônio sair fora da nossa alma; logo nos marcou com o Sinal da Cruz na testa e no coração; na testa, para que sempre nos lembremos da Cruz, e não nos envergonhemos de ser cristão; no coração, para que vivamos sempre com amor e afeto à mesma Cruz e Mortificação.

Tomando depois o Sacerdote um pouco de sal bento, o meteu na nossa boca, e nos disse, que recebêssemos o sal da sabedoria, isto é, que deveríamos saber as nossas obrigações e guardá-las, livrando-nos sempre da corrupção dos costumes e pecados, e que nunca tivéssemos fastio das coisas de Deus, e de O servir. Expeliu outra vez com o sal o Demônio para fora da nossa alma, e lhe mandou que nunca mais tomasse posse dela. Entrando nós na Igreja, o mesmo Sacerdote nos fez duas cruzes nos nossos ouvidos para os abrirmos depois à Palavra de Deus, para a ouvirmos com atenção e aproveitamento, e no nariz o mesmo para percebermos o cheiro da celestial suavidade. Apenas chegamos à pia do Batismo, logo aí nos perguntou o Ministro Sagrado: Renuncias a Satanás? – E nós respondemos por boca de nossos Padrinhos: Renuncio. – Renuncias também as suas obras? – Cada um de nós respondeu: Renuncio. – Renuncias as sua pompas? – Do mesmo modo respondeu qualquer de nós: Renuncio. – E logo depois se seguiu o Batismo, a ação mais solene e proveitosa para nós, pela qual a nossa alma foi lavada da mancha Original em que fomos concebidos e nascidos, ficando logo filhos de Deus e com direito ao Céu.

Eis aqui, irmãos meus, a grande felicidade que nos veio pelo Batismo, onde começamos a viver para Deus, onde Ele nos concedeu tanta graça; nos prometeu tantos bens, e onde nós mesmos lhe fizemos tantas promessas, e contraímos tantas e tão santas obrigações. E dizei-me: vós tendes por ventura cumprido estas obrigações? Ah! De certo não. Deus não falta, nem faltará ao que os prometeu; mas desgraçadamente tendes vós faltado, e faltais imensas vezes. E se não, dizei-me: que pedistes vós, e que prometestes quando chegastes às portas do templo para receberdes o Batismo? A fé; e prometestes guardá-la. E que tendes vós feito? Talvez a tenhais perdido de todo ou em parte, não acreditando quantos Dogmas a Santa Igreja vos manda; e se os acreditais, desacreditai-os pelo vosso péssimo procedimento.

Diz-me, cristão, pergunta São João Crisóstomo, em que poderei eu conhecer que tu és cristão e tens fé? Pelo lugar em que vives? Pelo teu vestido? Pelas tuas palavras? Pelo teu sustento Pelos teus negócios? Oh! Por nenhuma destas coisas se pode conhecer que és um verdadeiro cristão, ou que tens verdadeira fé, como pediste e prometeste; mas tudo pelo contrário. O lugar que buscas é o teatro, o baile, a casa da assembleia, a do jogo, a da prostituta ou concubina, a da mancebia, a taberna, o lugar do divertimento profano e da desmoralização. O vestido de que usas é um vestido desnecessário, vestido de luxo, de vaidade, e de mais a mais de indecência e sinal de desonestidade. As palavras de que te serves são muitas vezes pragas, juras, nomes injuriosos ao próximo, murmurações e palavras impuras. A comida e bebida de que usas é mais do que a necessária para viver, trabalhar e servir a Deus, um sustento demasiado e brutal, perdendo por isso a sobriedade, e até, às vezes, a saúde e o juízo. Os negócios em que te empregas são unicamente, ou mais que tudo, os negócios domésticos ou da família e do teu interesse temporal; e pouco ou nada no negócio da glória de Deus e da tua salvação.

Se queres gozar a vida eterna, guarda os Mandamentos, te disse mais o Sacerdote quando te batizou. E como os tens tu guardado? Muito mal. Não há talvez Mandamento que tenhas cumprido, nem algum que não tenhas profanado uma e muitas vezes com pecados, e até mortais; a Lei de Deus tem sido para ti coisa de menor preço e valor; a tua vida tem sido uma comprida cadeia de culpas, que chega daqui ao Inferno. Tens desmentido milhares de vezes as tuas promessas do Batismo. O Ministro do Senhor te lançou, então, fora da alma o Demônio; mas tu o deixaste entrar outra vez, pecando mortalmente, e talvez o tenhas deixado andar sempre contigo sem fazeres uma boa Confissão, nem te emendares. Marcou-te o mesmo Sacerdote com o Sinal da Cruz para viveres debaixo das bandeiras de Jesus Cristo, e passares uma vida mortificada, uma vida de cruz, como discípulo de tão Santo Mestre.

Mas que vida é a tua, cristão? Não é vida de cruz, é vida de delícias, porque em lugar de buscares mortificação para o teu corpo, só buscas gostos e prazeres, e só aborreces a cruz ou a penitência; tu até te envergonhas talvez de ser cristão, ou ao menos te envergonhas algumas vezes de fazer boas obras, obras de cristão, de fazer o Sinal da Cruz, de trazer o Escapulário de Maria ao pescoço, pegar num rosário ou numas contas, de fazer oração, confessar, comungar, de fazer estas e outras obras de cristão. Toda a vida de um cristão, se vive conforme o Evangelho, é uma vida de cruz, diz Santo Agostinho. Porém, a tua vida, é uma vida laxa, uma vida conforme as tuas paixões, e cheia de preguiça e vergonha para seguir as lições de Jesus Cristo, e só diligente e de pouca vergonha para seguir as coisas do Mundo, do Demônio e da Carne. Lançou-te o Sacerdote do Senhor o sal bento na boca para gostares da verdadeira sabedoria, para depois procurares saber as tuas obrigações que contraías, para te livrares da corrupção dos maus costumes, e para não te enfastiares das coisas de Deus. Mas, tu nem sabes, nem procuras saber o que te convém para a salvação; nem buscas um bom Diretor ou Mestre que ensine; antes buscas confessores passageiros, que te deixem na ignorância, que não te mostrem o que deves fazer, que por tudo te passem e te deixem viver conforme as tuas paixões; e assim, em lugar de te livrares da corrupção do pecado, vives cada vez mais empestado, enfermo na alma, cada vez pior. Se aparece, porém, ou encontras algum Confessor que te expõe a verdade, e te quer livrar do pecado e do Inferno, apertando mais alguma coisa contigo, demorando-te a santa absolvição, fazendo-te entrar em Confissão Geral, ou mandando-te fugir da ocasião, restituir o alheio e fazer, finalmente, o que deves, logo te aborrece, foges dele, e não tornas a buscá-lo.

Se aparece algum pregador, que com eficácia te expõe a gravidade das tuas culpas, e te quer conduzir ao Céu, não o queres ouvir, ou ao menos te enfastias de o escutar; nem uma prática, nem um catecismo queres ouvir, ficando muitas vezes fora da Igreja; tudo, tudo quanto é Palavra de Deus e para tua salvação te aborrece, te causa fastio, e por isso, nunca saras dessa peste dos teus vícios, nunca gostarás das delícias da vida eterna. Este soberano sal nada te aproveita, porque tens fastio de ouvir a Palavra de Deus, e pouco ou nenhum apetite da doutrina do Céu. Tardes e noite inteiras em uma comédia, assembleia ou baile e na casa de jogo ou na taberna, horas e horas a conversar, tudo isto te causa gosto e te faz parecer pouco tempo; e uma hora ou meia numa prática ou sermão, já te enfada, cansa e enfastia: ó gravíssima enfermidade, e execranda miséria! Tens na verdade o gosto estragado; não há sal que te cure; assim viverás e morrerás, e assim te condenarás ao Inferno.

Perguntou-te mais o Sacerdote, quando te batizou: “Renuncias a Satanás, às suas obras, e às suas pompas?” E tu, pela boca dos teus Padrinhos, como fiadores às tuas promessas, respondeste, que a tudo isso renunciavas. Mas, que tens tu feito? Tudo pelo contrário. Em lugar de renunciares o Demônio, tens seguido as suas tentações ou enganos, e tens feito quanto ele quer; em lugar de aborreceres as suas pompas, tens vivido com luxo e mais luxo, tens andado à moda, e com a maior vaidade. Estas pompas de Satanás, diz Santo Agostinho, São Jerônimo e outros Padre, são pompas do mundo, a ambição, a soberba, a vaidade, a superfluidade, a vanglória, em preciosas alfaias (roupas), em coches, em criados, em galas, em banquetes, em teatros e em jogos; são estas as pompas do Demônio, que tu renunciaste; mas, são estas as que tens seguido, e segues desgraçadamente contra as tuas promessas.

A tudo renunciaste, e a tudo faltaste, fazendo o contrário. Ungiu-te depois o Sacerdote com o óleo, que era o símbolo da graça de Deus, que entrava na tua alma para sará-la da enfermidade do pecado, para moderar as tuas paixões, e fortalecer-te nas batalhas contra a tua salvação; mas nem isto te aproveitou; porque com a maior fraqueza te deixaste depois arrastar dos teus apetites, e tens caído em imensas misérias. Em seguida, foste logo batizado, lavada a tua alma nessas águas puras da tua regeneração, e ficaste logo filho de Deus, e com direito ao Céu; mas tudo isto perdeste pelo pecado mortal que depois cometeste; pela tua infidelidade a tantas promessas que fizeste, ficaste privado de tantos e tão grandes bens; ó miséria das misérias, ó grande infelicidade! A tua alma depois do Batismo ficou toda pura, mais branca do que a neve, mais formosa do que o sol; mas tu depois do uso da razão a manchaste com pecados mortais em que caíste por tua malícia, e a fizeste mais feia e horrorosa do que que um Demônio, ficaste mil vezes pior do que antes do Batismo; Deus te aborreceu muito mais por causa da tua ingratidão ao benefício que te fez; e assim te tirará rigorosas contas das tuas infidelidades, da falta de observância das tuas promessas no Batismo, e te castigará com muito maior rigor.

Ele te dirá no dia do juízo: “Tu no Batismo tomaste o nome de tal Santo ou Santa para imitar as suas virtudes; mas seguiste uma vida contrária: tu foste marcado com a Minha Cruz para levá-la com vontade e paciência, e seguir a mortificação; mas tu quiseste antes passar uma vida de delícias, e aborrecias tudo quanto era pena, dor e penitência, e te declaraste inimigo da mesma Cruz: tu recebeste o sal bento na boca para gostar da Palavra de Deus e te livrar da corrupção do pecado; mas tu te aborrecias de ouvir a sã doutrina, e te deixaste corromper dos vícios: tu renunciaste às obras e pompas de Satanás; mas seguiste depois tudo quanto ele te ensinou, as vaidades e modas infames: tu foste ungido com o óleo para te fortalecer contra as criminosas paixões, e tu cada vez te fizeste mais fraco: enfim, tu foste então batizado para ganhares o Céu, e tu mereces o Inferno”.

E que responderás ao Senhor? Como te desculparás de tantas infidelidades às tuas promessas no Batismo? Maria foi concebida em graça sem a menor mancha de pecado por um raro privilégio, e foi sempre fiel a Deus; mas tu, se foste concebido em pecado, e nascido em pecado, Deus pela sua grande bondade te livrou no Batismo, e te fez seu filho e cristão, e a tua alma pura; mas tu como tens correspondido a tão bom Senhor? Porque tens faltado tantas vezes às promessas que lhe fizeste, e desgraçado a tua alma? Oh! Envergonha-te, pecador, e muda de vida: até quando hás de abusar da bondade de Deus, que te resgatou no Batismo do poder do Demônio? Até quando hás de ser infiel ao que então lhe prometeste? Olha que se antes de batizado eras desgraçado e infeliz pelo Pecado Original, agora mais desgraçado e infeliz estás pelos pecados mortais que tens cometido; olha que agora mereces de mais a mais o Inferno, se não lhes dás remédio. Este remédio, que agora te resta, é o arrependimento com uma boa Confissão e com a emenda.

Anda pois à presença do Senhor, chorar teus pecados pessoais, e diz assim: Ó meu Deus, eu vejo-me carregado de crimes, de que não tenho desculpa; eu tenho-Vos sido infiel e ingrato milhares de vezes; mas eu me arrependo agora e me pesa muito de tantas maldades. Tenho profanado o meu Batismo, tenho desgraçado a minha alma; mas agora proponho viver como cristão, e nunca mais pecar. Ajudai-me com a Vossa graça para que leve a efeito estes meus desejos. Ó Maria, ajudai-me também; Vós que fostes sempre pura e Santa desde o primeiro momento da Vossa vida, alcançai-me graça para viver e morrer santamente. Ó Maria, concebida sem pecado, rogai por nós, que recorremos a Vós. Amém.


Fonte: Rev. Pe. Fr. Manoel da Madre de Deus, O.C.D., “Práticas Mandamentais ou Reflexões Morais sobre os Mandamentos da Lei de Deus e os Abusos que lhe são Opostos”, Prática 15ª, pp. 607-617; 3ª Edição, Editor Casa de Cruz Coutinho, Porto, 1871.


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