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"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

A Questão é: "Se o Diabo desejou ser como Deus"





O terceiro discute-se assim. – Parece que o Diabo não desejou ser como Deus.

1. Pois o que não incide na apreensão também não incide no apetite; porquanto, o bem apreendido move o apetite sensível, racional ou intelectual e só em tais apetites pode haver pecado. Ora, não é objeto da apreensão, o ser qualquer criatura igual a Deus; pois, isso implica contradição, porque necessariamente o finito seria infinito, se com este se iguala. Logo, o Anjo não podia desejar ser como Deus.

2. – Demais. – O fim da natureza pode ser apetecido sem pecado. Ora, assemelhar-se a Deus é o fim para o qual tende naturalmente toda criatura. Se portanto, o Anjo desejou ser como Deus, não por igualdade, mas por semelhança, resulta que nisso não pecou.

3. – Demais. – O Anjo criado em maior plenitude de ciência do que o homem. Ora, nenhum homem, a menos que não seja de todo demente, elege ser igual ao Anjo e muito menos a Deus; porque a eleição só pode visar coisas possíveis, com as quais se ocupa o conselho. Logo, muito menos pecou o Anjo, desejando ser como Deus.

Mas, em contrário, diz a Escritura da pessoa do Diabo2: Subirei ao Céu… e serei semelhante ao Altíssimo. E Agostinho3 diz, que, inchado de soberba, quis chamar-se Deus.

Solução. – O Anjo, sem nenhuma dúvida, pecou, por querer ser como Deus. Mas, isto se pode entender em duplo sentido: por equiparação e por semelhança. – Do primeiro modo, não podia desejar ser como Deus, porque sabia, por conhecimento natural, ser isso impossível; e nem ao seu primeiro ato pecaminoso, precedeu um hábito ou uma paixão que lhe ligasse a virtude cognoscitiva, de modo a, sendo esta deficiente num caso particular, eleger o impossível, como às vezes acontece conosco. E ainda, dado que isso fosse possível, seria contra o desejo natural. Pois, há em cada um o desejo natural de conservar o seu ser, que não se conservaria se se transmutasse em uma natureza mais elevada. Por onde, nenhum ser de natureza de grau inferior pode desejar o grau da natureza superior; assim, não deseja o asno ser cavalo, porque já não seria asno se se transferisse no grau da natureza superior. Mas, neste ponto, a imaginação se engana. Pois, por desejar o homem subir a um grau mais alto, quanto a certos acidentes, que podem aumentar sem a destruição do sujeito, imagina que pode desejar um grau mais elevado de natureza, ao qual não pode chegar sem que deixe de existir. Ora, é manifesto que Deus excede o Anjo, não por certos acidentes, mas pelo grau da natureza; e assim, também um Anjo excede outro. Donde, é impossível um Anjo inferior desejar ser igual ao superior e, muito menos, igual a Deus.

Mas, desejar ser como Deus, por semelhança, de dois modos pode se dar. – De um modo, quanto ao pelo que é natural a um ser o assemelhar-se a Deus. E assim, quem neste sentido deseja ser semelhante a Deus não peca, pois, deseja alcançar a semelhança com Deus, na ordem devida, a saber, enquanto tem essa semelhança recebida de Deus. Se, porém, desejasse ser semelhante a Deus por justiça, como por virtude própria e não pela virtude de Deus, pecaria. – De outro modo, pode alguém desejar ser semelhante a Deus quanto ao que não lhe é natural que com Deus se assemelhe; como se alguém desejasse criar o Céu e a terra, o que é próprio de Deus; e, nesse desejo haveria pecado.

Ora, deste modo é que o Diabo desejou ser como Deus. Não que com Deus se assemelhasse, por não haver ninguém a quem fosse inferior, absolutamente, porque, então, desejaria o seu não-ser; pois, nenhuma criatura pode existir, senão por participar o ser dependentemente de Deus. Mas, desejou indebitamente ser semelhante a Deus, porque desejou como fim último da beatitude aquilo ao que podia chegar pela virtude da sua natureza, desviando o seu desejo da beatitude sobrenatural, que é graça de Deus. – Ou, se desejou como fim último a semelhança com Deus, que é dom da graça, quis tê-la pela virtude da sua natureza, e não pelo auxílio divino, segundo a disposição de Deus. E isto é consoante às palavras de Anselmo4, dizendo ter o Demônio desejado aquilo que obteria se perseverasse. – E estas duas explicações se reduzem a uma só: de uma e outra maneira o Diabo desejou ter a beatitude final, pela sua virtude, o que só é próprio de Deus.

Como, porém, o que é por si é princípio e causa do que existe por outro, daí também resulta, que desejou ter um certo principado sobre todos os outros seres. No que também perversamente quis assemelhar-se a Deus.

E, daqui, se deduzem claramente as respostas a todas as objeções.


1Summ. Theol. IIa IIae, q. 163, a. 2; II Sent., dist. V, q. 1, a. 2; dist. XXII, q. 1, a. 2; II Cont. Gent., cap. CIX; De Malo, q. 16, a. 1. Cfr. S. Tomás de Aquino, “Suma Teológica”, I. a Parte, Questão LXIII, Artigo III, pp. 305-310; Tradução de Alexandre Correia, Vol.V, Faculdade de Filosofia “Sedes Sapientiae”, São Paulo/SP, 1947.
2Is. XIV, 13.
3Lib. De quaestionibus Vel… Test… q. CXIII.
4Lib. De casu diaboli, c. VI.

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