Blog Católico, para os Católicos

"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Como se Há de Resistir às Tentações



1 – Enquanto vivemos neste mundo, não podemos estar sem trabalhos e tentações, pois está escrito em Jó: tentação é a vida do homem sobre a terra.1

Por isso, deve cada um ser cuidadoso nas tentações e muito vigilante na oração; para que o Demônio, que nunca dorme, não ache lugar para seu engano, ele que por todas as vias busca vítimas.2

Ninguém existe tão perfeito e santo que não padeça algumas vezes tentações, e, finalmente, não podemos viver sem elas.

2 – São, contudo, as tentações muitas vezes utilíssimas ao homem, posto que lhe sejam molestas e pesadas; porque com elas se humilha, purifica e instrui.

Todos os santos passaram por muitas tribulações e tentações, e com elas aproveitaram; e os que não as puderam levar tornaram-se réprobos e pereceram.

Não há Ordem tão santa, nem lugar tão secreto, onde não se achem tentações e adversidades.

3 – Nenhum homem está de todo livre das tentações enquanto vive; porque em nós mesmos está o princípio de onde procedem, pois nascemos com inclinação para o pecado.

Mal uma tentação ou tribulação é passada, já sobrevêm outra, e sempre teremos que padecer, pois perdemos o bem da nossa felicidade.

Muitos pretendem fugir às tentações, e caem nelas mais gravemente.

Não as podemos vencer fugindo-lhes somente; mas com paciência e verdadeira humildade nos fazemos mais fortes que todos os nossos inimigos.

4 – O que somente modera as aparências e não arranca as raízes, pouco aproveitará: antes lhe voltarão depressa as tentações e se achará pior.

Melhor as vencerás com o favor divino, pouco a pouco, com paciência e longanimidade, que com importuna contenda.

Toma muitas vezes conselho na tentação e não sejas desabrido e áspero com o que está tentado; mas trata de o consolar, como desejarias ser consolado.

5 – A inconstância de ânimo e pouca confiança em Deus é o princípio de todas as tentações.

Porque assim como as ondas lançam de uma parte para outra a nau a que falta o leme, assim as tentações combatem de diversos modos o homem descuidado e inconstante em seu propósito.

O fogo prova o ferro e a tentação o justo.

Muitas vezes ignoramos o que podemos, mas a tentação nos mostra o que somos.

Devemos, porém, vigiar principalmente no princípio da tentação; porque então mais facilmente se vencerá o inimigo, quando não consentirmos que entre as portas da nossa alma, mas logo que bater a elas lhe sairmos ao encontro.

De onde veio a dizer alguém: “resiste ao princípio: porque vem fora de tempo o remédio, quando os males tem cobrado forças com as detenças”.3

Pois, primeiramente, se oferece à alma um simples pensamento, depois a importuna imaginação, logo a deleitação, e o movimento torpe, e finalmente, o consentimento: e assim pouco a pouco entra de todo o malvado inimigo, porque não se lhe resistiu no princípio.

E quanto mais tempo alguém se descuidar em lhe resistir, tanto se tornará cada dia mais fraco, e o inimigo contra ele mais poderoso.

6 – Alguns padecem graves tentações no princípio, da sua conversão, outros no fim, e muitos quase por toda a vida.

Alguns são tentados brandamente, e conforme a sabedoria e equidade da Providência divina, que pondera o estado e o merecimento dos homens, e tudo ordena para salvação dos seus escolhidos.

7 – Por isso não devemos desesperar, quando estamos tentados; mas antes com mais fervor pedir a Deus que se digne ajudar-nos em toda a tribulação, e como diz São Paulo: “Ele fará que tiremos da mesma tentação tal força, que a possamos levar com paciência”.4

Humilhemos, pois, a nossa alma debaixo da Mão de Deus, em toda a tentação e tribulação, porque Ele há de salvar e engrandecer os humildes de espírito.

8 – Nas tentações e tribulações se vê quanto cada um tem aproveitado; nelas se colhe maior merecimento, e se conhece melhor a virtude.

Não é muito ser um homem devoto e fervoroso, quando não sente pesar; mas se no tempo da adversidade sofre com paciência, dá esperanças de grande aproveitamento.

Alguns há que vencem as grandes tentações e muitas vezes das ordinárias e pequenas são vencidos, para que humilhando-se não confiem em si mesmos nas coisas grandes, pois sucumbem nas pequenas.
Reflexão de Monsenhor Manuel Marinho5

A tentação é um incitamento da vontade para o mal. Não é pecado sentir tentações, quando o senti-las não dependeu do nosso querer. Neste caso, os atos da sensibilidade operam-se em nós e não por nossa culpa. Ninguém peca contra sua vontade. Podem representar-se à tua imaginação os pecados mais repelentes, podes sentir as tentações mais violentas; se a tua vontade não quer o pecado, nem os meios que a ele conduzem, não pecas. Nenhuma tentação há que não possas vencer com a graça de Deus, que está sempre à tua disposição: Fiel é o Senhor e não permitiria que sejais tentados acima das vossas forças; mas enviará juntamente com a tentação o seu auxílio, para que possais resistir”.6 Que doutrina consoladora!

Permitiu Jesus Cristo ser tentado no deserto, por diversos modos, e quando estava entregue ao jejum e à oração, para que nós não estranhássemos ser tentados, em qualquer lugar. Nenhuma pessoa há tão privilegiada que esteja isenta de tentações, em algum período da vida ou em algum lugar do mundo; sempre e em toda a parte podemos ser tentados.

Conforme o seu temperamento, estado, condição e meio em que vive, assim cada pessoa é tentada de diversos modos. Permitindo-nos as tentações, oferece-nos Deus ocasião propícia para nos enriquecer de merecimentos a cada instante. “Porque tu eras querido de Deus”, dizia o Anjo Rafael a Tobias, “foi necessário, que a tentação te experimentasse”.7 São diversas as tentações, mas os remédios que Jesus Cristo nos aponta para elas reduzem-se a dois: vigiai e orai para que não entreis em tentação. A vigilância contínua avisa-nos dos perigos; a oração bem feita consegue-nos a força necessária para resistirmos aos inimigos.

Compadecei-Vos de mim, Senhor, segundo a Vossa grande misericórdia”.8

Reflexão do Presbítero J. I. Roquette9

Nenhum homem está isento de tentações. Permite-as Deus para que nos provem, nos purifiquem, nos instruam e nos humilhem.

Não é só pela fugida ou por uma resistência violenta que venceremos, senão também por uma paciência sossegada, por uma inteira confiança em Deus.

Vigiemos, contudo, segundo o Preceito do divino Mestre: “Vigiemos e oremos para não cairmos em tentação”.

Vence-se facilmente a tentação quando nasce, mas se a deixarmos crescer e fortificar, não teremos bastante forças para resistir-lhe, e sucumbindo seremos punidos de nossa negligência ou de nossa presunção. Assim sucumbiu São Pedro, porque teve demasiada confiança em si mesmo, e se expôs ao perigo sem se fortificar com a vigilância e a oração.

Se, como Pedro, formos descuidados ou presunçosos, sejamos como ele contritos e arrependidos. Reconheçamos nossa fraqueza e pouco préstimo, e humilhemo-nos cada vez mais. A humildade será o fundamento de nossa segurança, de nosso aproveitamento, de nossa paz e de toda perfeição.

Bem sei, Senhor, que aos que vos amam e temem tudo se lhes converte em bem; não vos peço, Deus meu, ser isento de tentações, mas luz para conhecê-las, fortaleza para resistir-lhes, humildade para não confiar em mim, conforto para não desfalecer e vencimento no combate; permiti, Senhor, desarmem em vão todas as ciladas do inimigo, e dele vencedor possa eu colher os saudáveis frutos da santa humildade, que são a paz interior neste mundo e a exaltação na Pátria dos Bem-aventurados.

Reflexão de São Francisco de Sales10

Minha Filotéa, esses grandes assaltos e essas tentações tão violentas nunca são permitidas por Deus, senão contra as almas que Ele quer elevar a seu puro e excelente amor; mas não se segue que depois disto estejam elas seguras de lá subir, pois às vezes, aqueles que tinham sido constantes em tão rijos assaltos, não correspondendo depois fielmente ao favor divino, se acharão vencidos em pequeninas tentações.11

Quem sente o inimigo fazer a escalada pelo lado da impureza, deve fugir as ocasiões e as companhias, e ao menor pensamento deve dar rebate à guarnição, recorrendo às disciplinas, jejuns e cilício, etc. Quem sente o assalto da avareza, há de recorrer à esmola, à consideração da vaidade dos bens deste mundo, etc. Quem se sente levado à vingança, necessita de recorrer à amizade, mansidão. Enfim, é necessário rondar cem vezes por dia, nessa pequena cidadela e reforçá-la, ora daqui, ora dali, pôr sentinelas aos olhos, boca, ouvidos, mãos, olfato, para não deixar entrar coisa que não saiba pronunciar bem Scibboleth.12

Oração13


Eterno Pai, eu ofereço a vossa honra e glória e para minha salvação e para a de todo o mundo, os quarenta dias e quarenta noites, que Vosso Filho jejuou no deserto; a fome e a sede que Ele ali sofreu; seu dormir sobre a terra nua, na companhia das bestas selvagens; os suspiros que Ele exalou do fundo do Coração, e as lágrimas que seus olhos puríssimos derramaram; as fervorosíssimas preces que Ele Vos ofereceu pela salvação do mundo e principalmente de Vossos caros escolhidos, e as penosas e importunas tentações do Demônio, que Ele sofreu lá; por todas estas coisas eu vos dou graças, eu vos amo e bendigo infinitamente, pedindo-vos pelos merecimentos delas, o amor da penitência e mortificação de minhas paixões, de aplicar-me à oração e de ter a força de vencer todas as tentações.


1Jó 7, 1.
21 Ped. 5, 8.
3Ovi. De Remed. 1, V. 91).
41 Cor. 10, 13.
5Mons. Manuel Marinho, “Imitação de Cristo”, Liv. I, Cap. XIII, pp. 29-32; 11ª edição, Editora Viúva de José Frutuoso da Fonseca, Porto, 1925.
61 Cor. 10, 13.
7Tob. 12, 13.
8Salm. 50.
9Presbítero J. I. Roquette, “Imitação de Cristo”, Liv. I, Cap. XIII, pp. 33-38; Ed. Aillaud & Cia, Lisboa.
10“Imitação de Cristo”, Versão Portuguesa por um Padre da Missão, Tornai (Belgia), Imprenta Desclée, Lefebvre y Ca., 1904.
11São Francisco de Sales, “Introdução à Vida Devota”, IV Parte.
12São Francisco de Sales, “2º Sermão para o Domingo de Ramos”.
13São Francisco de Sales, “Opusc.”, iii.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

A maçonaria tem um papel importante no Clube Bilderberger, The Elders, Clube de Madrid…



O fundador de Noticias Globales, Mons. Juan Claudio Sanahúja, revela nesta entrevista pontos fundamentais para entender os objetivos da Nova Ordem Mundial e as verdadeiras pretensões da ONU. 

Por Religión en Libertad | Tradução: Fratres in Unum.com* – Juan Claudio Sanahúja nasceu em Buenos Aires em 1947 e obteve o doutorado em teologia na Universidade de Navarra em 1973. Foi ordenado sacerdote em 1972 e pertence ao clero da prelazia do Opus Dei. É autor de O Grande Desafio: a cultura da vida contra a cultura da morte; O desenvolvimento sustentável: a nova ética internacional; e Poder Global e Religião Universal.

Noticias Globales é uma referência para entender mais profundamente o que ocorre a nível mundial. Como nasceu a iniciativa? 

Noticias Globales nasceu em 1998. Era preciso informar: não se conhecia o mecanismo interno da ONU; se confundiam, por exemplo, as assembléias gerais ou as conferências internacionais com reuniões de comissões. Nós tínhamos muita informação e iniciamos o projeto.

À informação do boletim, acrescentamos os livros O Grande Desafio: a cultura da vida contra a cultura da morte, anterior ao começo do boletim; O desenvolvimento sustentável: a nova ética internacional; Poder Global e Religião Universal. Agora, está para sair uma edição corrigida e ampliada de O Grande Desafio.

Uma das insistências da modernidade é a grande ética laica mundial. É possível uma ética sem Deus?

É impossível que sem Deus se possa edificar uma ética sólida, a ética faz referência a princípios transcendentes e estes só podem vir de Deus. Há tentativas de edificar éticas laicas, mas estes projetos estão a serviço de ideologias neo-pagãs que, facilmente refutadas, ainda que com o apoio dos meios de comunicação (pareçam impor-se), terminam por cair deixando pessoas desvalidas, à deriva, que buscam acreditar em algo.

É compatível o respeito aos princípios inegociáveis com uma cosmovisão não-cristã?

Não é impossível, mas muito difícil. Há que se ter, por detrás, sempre uma cosmovisão transcendente. Eu diria que os princípios inegociáveis são fruto de uma visão judaico-cristã.

O que, na realidade, buscam os neo-malthusianos? Poderíamos dizer que a palavra que sintetiza os esforços da ONU é esterilidade?

A Organização Mundial da Saúde estabeleceu, no início dos anos 90, quando se apresentou o novo paradigma da saúde, que o cidadão da nova ordem mundial é o adulto são e produtivo. Os que são ou podem chegar a ser sãos e produtivos são os únicos que possuem direitos humanos. Todos que não alcancem este padrão/patamar devem ser deixados à margem da história, evitar que nasçam; e, se nascem, não investir em seu bem-estar nem um centavo. Desde este ponto de vista poder-se-ia dizer que os esforços da ONU se sintetizam na palavra esterilidade, ou, melhor, esterilidade seletiva.

Até que ponto a incorporação da mulher na vida profissional integra essa estratégia mundial de esterilidade?

Isto é evidente. Desde a Conferência de Dacca, em 1969, figura nos planos da Planned Parenthood a proposta do Presidente da Population Council, Dr. Berelson. Concretamente, as conclusões dessa conferência dizem: ”alterar a imagem da família, fazendo com que as mulheres se dediquem ao mercado de trabalho”. Desde logo, nestas conclusões também figura o fomento à homossexualidade. Estão há quase 50 anos trabalhando com estes objetivos.

O senhor fala muito de ecologismo. Qual a ameaça do ecologismo na antropologia modernista?

Para a ONU e outras organizações, o ecologismo é um bom substitutivo. Por exemplo, não se pode dizer às pessoas que não existem 10 mandamentos sem substituí-los por algo. Com a pressão dos meios de comunicação se pode inculcar/persuadir que uma pessoa que cuida de não jogar papel na rua, recicla o lixo ou se alimenta de determinada maneira se faz solidária com o mundo, com as gerações futuras e, no fim das contas, cuida do planeta e, nesta linguagem/mentalidade, quer dizer que se está justificado. E assim, a Terra ocupa o lugar de Deus.

Não quero dizer que não seja importante cuidar do mundo em que vivemos. Tem importância. Mas primeiro estão os Mandamentos da Lei de Deus.

Existe uma plano de governo mundial? A maçonaria é parte deste plano?

Os planos de governo mundial nos quais a maçonaria tem papel importante vêm desde a Primeira Guerra Mundial ou talvez um pouco antes.

Qual o papel do sionismo internacional neste plano?

Nestes planos se integram uma quantidade enorme do que se pode chamar de mesas de consenso e o sionismo pode influir em algumas delas. Precisamente, eu me deteria nas redes de organizações não-governamentais que marcam a agenda da ONU, por exemplo, no Clube de Madrid, Clube de Budapest, grupo The Elders, as mesas de consenso relacionadas à Carta da Terra, o grupo Bilderberger, a organização multi-religiosa Religiões para a Paz, e a United Religions Iniciative, o Foro sobre o Estado do Mundo, a Comissão de Governabilidade Global, e, é claro, o Conselho de Relações Exteriores, a União Internacional de Parlamentários, e poderíamos seguir.

Em todas, a maçonaria tem um papel importante, algumas destas organizações são mais dialogantes que outras, mas todas têm a mesma finalidade: concentrar o poder em poucas mãos abolindo as soberanias nacionais e instrumentalizar as religiões, isto é, colocá-las a serviço de seus próprios ditames.

O senhor crê que haja ingenuidade ou candura entre os católicos acerca do que representa a ONU?

Respondo citando Mons. Luigi Negri, arcebispo de Ferrara: vastíssimos setores católicos estão minados por ”demasiado irenismo há décadas, para os quais a preocupação fundamental não é nossa identidade, senão o diálogo a todo custo, estar de acordo com as posições mais distantes.”

”Este respeito a diversidade das posições culturais e religiosas, sustentado pela idéia de uma substancial equivalência entre as diversas posições e religiões, é o que faz o catolicismo perder sua absoluta especificidade. Um irenismo, uma abertura, uma vontade de diálogo a todo custo, recompensada da única maneira que o poder humano sempre recompensa estas atitudes desordenadas de compromisso: o desprezo e a violência.”

Por isso, o perigo está na situação interna da Igreja e não fora. Há muito, ouvi São Josemaria Escrivá dizer que ”se o mundo está em trevas, é porque a Igreja deixou de ser luz.”

Há uma busca exagerada pelo ”sinal dos tempos”, geralmente contrários à doutrina católica. Em vez de procurar a conversão das pessoas, pretendem que a Igreja se adapte a essas situações, às vezes lamentáveis, como a dos divorciados que voltam a se casar. Não digamos nada dos homossexuais, que parecem intocáveis.

De modo acrítico se aceita qualquer questão como verdadeira: os supostos dados dados/cifras catastróficos dos ecologistas; a falsidade dos números de mortes por aborto ou do contágio do vírus HIV. O que leva, também acriticamente, a juntar-se para uma causa comum que oculta metas iníquas como são os objetivos do milênio para o Desenvolvimento e a futura agenda para o Desenvolvimento Sustentável.

Essa estratégia globalista tem aliados dentro da Igreja Católica?

Sim, de uma maneira ou de outra. Há infiltrados na Igreja e há também idiotas úteis.

Há uma certa preocupação entre alguns cardeais pela exposição que Walter Kasper fez no consistório de fevereiro. Crê que a Igreja acabará dando a comunhão a divorciados que voltaram a se casar?

Não creio que a Igreja chegue a comunhão a divorciados que voltaram a se casar. Se o fizesse, deixaria de ser a Igreja de Jesus Cristo.

O Catecismo da Igreja Católica é muito claro: ”Por isso, não podem aproximar-se da comunhão eucarística, enquanto persistir tal situação. Pelo mesmo motivo, ficam impedidos de exercer certas responsabilidades eclesiais. A reconciliação, por meio do sacramento da Penitência, só pode ser dada àqueles que se arrependerem de ter violado o sinal da Aliança e da fidelidade a Cristo e se comprometerem a viver em continência completa.” (1650)

O senhor dizia que o lobby gay trata de incluir seus postulados em matéria de religião na Espanha. O senhor crê que haja uma importante presença do lobby gay na Igreja da Espanha? E na Santa Sé?

Em grande parte, nós deixamos o lobby gay crescer. Remeto-me à resposta que dei à pergunta sobre a ingenuidade dos católicos. É inaudito que hoje, em muitos ambientes, não se possa dizer que a homossexualidade é uma tendência objetivamente desordenada, como diz o Catecismo da Igreja Católica no número 2358. E praticamente se ocultam os documentos da Igreja que começam com a Declaração Persona Humana de 1975, sob o pontificado de Paulo VI, em diante.

Ao mesmo tempo, afrouxou-se/relaxou-se a disciplina eclesiástica. Certas hierarquias católicas deixaram que pessoas com essa tendência se ordenassem sacerdotes ou acedessem a cargos de certa responsabilidade eclesial, na catequese, nos colégios católicos etc. E assim, se foi estendendo uma espécie de má tolerância, de falsa caridade, que nos levou a situação atual.

Evidentemente, há, ademais, a pressão externa à Igreja para aceitar estes comportamentos. O cardeal Ratzinger advertia acerca disso, em 1995, dizendo que havia certos grupos de pressão que pretendiam mudar a opinião pública para que a homossexualidade fosse considerada uma forma normal de sexualidade e, ao mesmo tempo, exigiam que a Igreja revertesse seu juízo sobre ela. Esses grupos, dizia o cardeal, acusam de discriminação a todos que deles discordam.

Na Espanha pediam prisão para o Cardeal Sebastían por recordar que a homossexualidade é uma doença. Há esperança? Que futuro aguarda os católicos?

Pessoalmente aconselho a leitura e meditação freqüente do número 675 do Catecismo da Igreja Católica, no qual se fala da segunda vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo: ”Antes da vinda de Cristo, a Igreja deverá passar por uma prova final, que abalará a fé de numerosos crentes (639). A perseguição, que acompanha a sua peregrinação na Terra (640), porá a descoberto o «mistério da iniquidade», sob a forma duma impostura religiosa, que trará aos homens uma solução aparente para os seus problemas, à custa da apostasia da verdade.” Não digo que estejamos às vésperas da segunda vinda de Cristo, mas este texto ajuda a nos localizarmos; ajuda a pensar que não estamos destinados para o que os homens chamam de êxito ou para sermos aclamados pelas multidões.

Nosso triunfo é outro, é o de unirmo-nos a Cruz de Cristo, é o de configurarmo-nos à Ele e, depois da morte, chegar ao Céu. Nossa esperança está na Cruz e na Ressurreição.

* Nosso agradecimento a um caríssimo amigo, futuro sacerdote de Cristo, pela tradução gentilmente fornecida.

http://fratresinunum.com/2014/06/04/a-maconaria-tem-um-papel-importante-no-clube-bilderberger-the-elders-clube-de-madrid/


domingo, 1 de junho de 2014

Dialética da Inveja


Caim e Abel


Olavo de Carvalho
Folha de S. Paulo, 26 de agosto de 2003

A inveja é o mais dissimulado dos sentimentos humanos, não só por ser o mais desprezível mas porque se compõe, em essência, de um conflito insolúvel entre a aversão a si mesmo e o anseio de autovalorização, de tal modo que a alma, dividida, fala para fora com a voz do orgulho e para dentro com a do desprezo, não logrando jamais aquela unidade de intenção e de tom que evidencia a sinceridade.

Que eu saiba, o único invejoso assumido da literatura universal é O Sobrinho de Rameau, de Diderot, personagem caricato demais para ser real. Mesmo O Homem do Subterrâneo de Dostoiévski só se exprime no papel porque acredita que não será lido. A gente confessa ódio, humilhação, medo, ciúme, tristeza, cobiça. Inveja, nunca. A inveja admitida se anularia no ato, transmutando-se em competição franca ou em desistência resignada. A inveja é o único sentimento que se alimenta de sua própria ocultação.

O homem torna-se invejoso quando desiste intimamente dos bens que cobiçava, por acreditar, em segredo, que não os merece. O que lhe dói não é a falta dos bens, mas do mérito. Daí sua compulsão de depreciar esses bens, de destruí-los ou de substituí-los por simulacros miseráveis, fingindo julgá-los mais valiosos que os originais. É precisamente nas dissimulações que a inveja se revela da maneira mais clara.

As formas de dissimulação são muitas, mas a inveja essencial, primordial, tem por objeto os bens espirituais, porque são mais abstratos e impalpáveis, mais aptos a despertar no invejoso aquele sentimento de exclusão irremediável que faz dele, em vida, um condenado do inferno. Riqueza material e poder mundano nunca são tão distantes, tão incompreensíveis, quanto a amizade de Abel com Deus, que leva Caim ao desespero, ou o misterioso dom do gênio criador, que humilha as inteligências medíocres mesmo quando bem sucedidas social e economicamente. Por trás da inveja vulgar há sempre inveja espiritual.

Mas a inveja espiritual muda de motivo conforme os tempos. A época moderna, explica Lionel Trilling em Beyond Culture (1964), "é a primeira em que muitos homens aspiram a altas realizações nas artes e, na sua frustração, formam uma classe despossuída, um proletariado do espírito."

Para novos motivos, novas dissimulações. O "proletariado do espírito" é, como já observava Otto Maria Carpeaux (A Cinza do Purgatório, 1943), a classe revolucionária por excelência. Desde a Revolução Francesa, os movimentos ideológicos de massa sempre recrutaram o grosso de seus líderes da multidão dos semi-intelectuais ressentidos. Afastados do trabalho manual pela instrução que receberam, separados da realização nas letras e nas artes pela sua mediocridade endêmica, que lhes restava? A revolta. Mas uma revolta em nome da inépcia se autodesmoralizaria no ato. O único que a confessou, com candura suicida, foi justamente o "sobrinho de Rameau". Como que advertidos por essa cruel caricatura, os demais notaram que era preciso a camuflagem de um pretexto nobre. Para isso serviram os pobres e oprimidos. A facilidade com que todo revolucionário derrama lágrimas de piedade por eles enquanto luta contra o establishment, passando a oprimi-los tão logo sobe ao poder, só se explica pelo fato de que não era o sofrimento material deles que o comovia, mas apenas o seu próprio sofrimento psíquico. O direito dos pobres é a poção alucinógena com que o intelectual ativista se inebria de ilusões quanto aos motivos da sua conduta. E é o próprio drama interior da inveja espiritual que dá ao seu discurso aquela hipnótica intensidade emocional que W. B. Yeats notava nos apóstolos do pior (v. "The Second Coming" e "The Leaders of the Crowd" em Michael Robartes and The Dancer, 1921). Nenhum sentimento autêntico se expressa com furor comparável ao da encenação histérica.

Por ironia, o que deu origem ao grand guignol das revoluções modernas não foi a exclusão, mas a inclusão: foi quando as portas das atividades culturais superiores se abriram para as massas de classe média e pobre que, fatalmente, o número de frustrados das letras se multiplicou por milhões. 
A "rebelião das massas" a que se referia José Ortega y Gasset (La Rebelión de las Masas, 1928) consistia precisamente nisso: não na ascensão dos pobres à cultura superior, mas na concomitante impossibilidade de democratizar o gênio. A inveja resultante gerava ódio aos próprios bens recém-conquistados, que pareciam tanto mais inacessíveis às almas quanto mais democratizados no mundo: daí o clamor geral contra a "cultura de elite", justamente no momento em que ela já não era privilégio da elite.

Ortega, de maneira tão injusta quanto compreensível, foi por isso acusado de elitista. Mas Eric Hoffer, operário elevado por mérito próprio ao nível de grande intelectual, também escreveu páginas penetrantes sobre a psicologia dos ativistas, "pseudo-intelectuais tagarelas e cheios de pose... Vivendo vidas estéreis e inúteis, não possuem autoconfiança e auto-respeito, e anseiam pela ilusão de peso e importância." (The Ordeal of Change, 1952). 

Por isso, leitores, não estranhem quando virem, na liderança dos "movimentos sociais", cidadãos de classe média e alta diplomados pelas universidades mais caras, como é o caso aliás do próprio sr. João Pedro Stedile, economista da PUC-RS. Se esses movimentos fossem autenticamente de pobres, eles se contentariam com o atendimento de suas reivindicações nominais: um pedaço de terra, uma casa, ferramentas de trabalho. Mas o vazio no coração do intelectual ativista, o buraco negro da inveja espiritual, é tão profundo quanto o abismo do inferno. Nem o mundo inteiro pode preenchê-lo. Por isso a demanda razoável dos bens mais simples da vida, esperança inicial da massa dos liderados, acaba sempre se ampliando, por iniciativa dos líderes, na exigência louca de uma transformação total da realidade, de uma mutação revolucionária do mundo. E, no caos da revolução, as esperanças dos pobres acabam sempre sacrificadas à glória dos intelectuais ativistas.


http://www.olavodecarvalho.org/semana/030826fsp.htm




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