Blog Católico, para os Católicos

"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

quarta-feira, 4 de abril de 2012

O Limbo das Crianças - 1ª Parte (Trabalho realizado antes da Conclusão da Comissão Teológica Internacional em 2007)



O Limbo das Crianças: Reims Cathedrale Notre Dame



Introdução


O Reverendíssimo Pe. Fr. Raniero Cantalamessa, OFM.Cap., Pregador da Casa Pontifí­cia, num comentário sobre a Doutrina do Limbo das Crianças que, morrem sem re­ceberem o Ba­tismo, fez ressurgir a antiga e sempre nova controvérsia sobre dito Ensina­mento Católico.

O comentário do insigne Frade Capuchinho foi veiculado na Internet pela Agência de Infor­mações "Zenit", no dia 26 de Janeiro de 2006.

O texto é o seguinte:

"Padre Cantalamessa comenta a questão do Limbo e dos não-batizados.

Em uma reflexão enviada a Zenit.

ROMA, quinta-feira, 26 de janeiro de 2006 (ZENIT.org). Um comentário do pa­dre Ranie­ro Cantalamessa, OFM.Cap. pregador da Casa Pontifícia (cf. Zenit, 06 de janeiro de 2006) suscitou entre alguns leitores dúvidas sobre a situação das crianças que morrem sem ser batizadas.

É um tema cujo estudo João Paulo II encomendou à Comissão Teológica Interna­cional, (cf. Zenit, 2 de dezembro de 2005).

Em resposta às questões suscitadas, o padre Cantalamessa oferece aos leitores de Ze­nit um comentário sobre a doutrina do Limbo.

***

Alguns leitores manifestaram sua perplexidade por minha afirmação acerca de que as cri­anças sem batizar não vão ao Limbo, mas ao Céu; expressei essa idéia em meu recente comen­tário ao Evangelho na festa do Batismo do Senhor, publicado em Ze­nit. Isso me dá a oportu­nidade de esclarecer as razões de minha afirmação.

Jesus instituiu os sacramentos como meios ordinários de salvação. São normal­mente ne­cessários e as pessoas que podem recebê-los e o rejeitam são responsáveis perante Deus. Mas Deus não atou a si mesmo a estes meios. Também Jesus disse da Eucaristia: 'Se não co­merdes a carne do Filho do homem não tereis vida em vós'(João 6, 53), mas isto não significa que alguém que nunca tenha recebido a Eucaristia não esteja salvo.

O Batismo de desejo e a festa dos Santos Inocentes são confirmações disso. Há quem pode opor que Jesus está envolvido na morte dos Inocentes, dos que perderam a vida por causa Dele, o que nem é sempre o caso dos bebês sem batizar. Certo, mas tam­bém do que se fez ao mais novo de seus irmãos Jesus diz: 'A mim o fizeste'(Mt 25, 40).

A doutrina do Limbo nunca foi definida como dogma pela Igreja; foi uma hipótese teológi­ca em sua maior parte dependente da doutrina de Santo Agostinho sobre o peca­do original, e foi aban­donada na prática há muito tempo, e a teologia também se aparta atualmente dela.

Deveríamos tomar-nos seriamente a verdade da vontade universal de Deus pela salva­ção ("Deus quer que todos se salvem"[1 Tm 2, 4]), assim como a verdade de que 'Jesus morreu por to­dos'. O seguinte texto do Catecismo da Igreja Católica parece abra­çar exatamente a mes­ma postu­ra:

'Quanto às crianças mortas sem Batismo, a Igreja só pode confiá-las à misericór­dia divi­na, como faz no rito das exéquias por elas. Com efeito, a grande misericórdia de Deus, que quer que to­dos os homens se salvem (cf. 1 Tm 2, 4) e a ternura de Jesus com as crianças, que lhe fez dizer: 'Deixai as crianças virem a mim, não as impeçais'(Mc 10, 14), permitem-nos confiar em que haja um caminho de salvação para as crianças que morrem sem Batismo. Por isso é mais importante ainda o chamado da Igreja a não impe­dir que as crianças pequenas venham a Cristo pelo dom do santo Ba­tismo'(CIC, 1261).

Não creio que afirmar que os bebês sem batizar estejam salvos alente o aborto. Às pesso­as que desatendem a doutrina da Igreja sobre o aborto apenas lhes preocupam outras doutri­nas da própria Igreja. Inclusive se houvesse razões para tal temor, o abuso de uma doutrina nun­ca deveria impedir-nos de abraçá-la.

Devo confessar que a mera idéia de um Deus que prive eternamente uma criatu­ra de Sua visão simplesmente porque outra pessoa pecou, ou devido a um aborto fortui­to, faz-me estreme­cer... e estou seguro de que faria qualquer não-crente feliz por se man­ter afastado da fé cristã. Se o inferno consiste essencialmente na privação de Deus, o Limbo é inferno!

Fr. Raniero Cantalamessa" (www.zenit.org [26/01/2006]).

***

Dado que as palavras acima sejam uma simples opinião pessoal do ilustrís­simo Fra­de Capuchinho, permita-nos, as Autoridades Eclesiásticas, não comentar, mas sim, ex­por a dita Doutrina segundo o sentir da Igreja Católica. A Doutrina do Limbo das Crianças é Senten­ça Comum entre os Padres e os Teólogos da Igreja, mas não dogma definido, assim como, também, é Sentença Comum da Igreja que, o Martírio é uma espécie de batismo para os genti­os e catecúmenos (cfr. Cardeal Wiseman, “Prisca”, Cap. XV, p. 289, Livreiro e Editor B. L. Garnier, Rio de Janeiro, 1879).

A minha única intenção neste ensaio, é de proporcionar diretamente àque­las pes­soas menos favorecidas com as fontes seguras de informação, para que co­nhecendo esta santa Doutrina, possam amar, louvar e agradecer a infinita Justiça, Sa­bedoria e Bondade de Deus, que chega até nós pela Santa Madre Igreja Católica.

Que em todas as coisas seja Deus glorificado




Capítulo 1


A
Instituição
do
Batismo

 
"O Batismo é um
Sacramento de Regeneração
pela palavra na água"

(Catecismo Romano, Part. II, Cap. II, Ponto III, p. 194; 2ª ed., Ed. Vozes, 1962).


Época da Instituição e da Lei geral do Batismo

"No Batismo, é preciso distinguir dois momentos determinados. O primeiro, quando Nosso Senhor o instituiu; o segundo, quando impôs a obrigação de recebê-lo.

Quanto ao primeiro, vê-se que Nosso Senhor instituiu este Sacramento, quando con­feriu à água a virtude de santificar, na ocasião que Ele mesmo se fez ba­tizar por João. Dizem São Gregório e Santo Agostinho (Greg. Nazianz. Orat. in nat. Salvat. circa finem: MG 36, 395-398; Aug. Sermo 29 de tempore: ML 38, 1064) que, naquele instante, a água adquiriu a força de regene­rar para a vida espiritual. Noutro lugar, escreve: 'Des­de que Cristo desceu na água, limpa a água to­dos os pecados'(Aug. Serm. 135: ML 39, 2012; Serm. 136: ML 39, 2013). E noutra parte: 'Nosso Se­nhor recebeu o Batismo, não por­que precisasse de purifica­ção, mas para que ao contato com Seu Corpo puríssimo as águas se purificassem, e adquirissem a virtude de purificar'.

["Então foi Jesus da Galiléia ao Jordão ter com João, para ser ba­tizado por ele. Mas João opunha-se-lhe, di­zendo: 'Sou eu que devo ser batizado por ti, e Tu vens a mim?' E respondendo Jesus, disse-Lhe: 'Deixa por agora, pois con­vém que cumpramos assim toda a justiça'. Ele então dei­xou-O (aproximar-se). E, depois que Jesus foi batizado, saiu logo da água; e eis que se lhe abriram os Céus, e viu o Espí­rito de Deus descer como pomba, e vir sobre Ele. E eis (que se ouviu) uma voz do Céu, que di­zia: 'Este é o Meu Fi­lho amado, no qual pus as Minhas com­placências'"(S. Mat. 3, 13-17).]

Grande prova desta verdade é que então a Santíssima Trindade, em cujo Nome se con­fere o Batismo, manifestou Sua majestade. Ouviu-se a voz do Pai, estava ali a Pessoa do Filho, e o Espí­rito Santo desceu em figura de pomba. Além disso, abriram-se os Céus, para onde já nos é dado subir pela Graça do Batismo.

["Jesus Cristo não foi batizado senão para instituir este Sa­cramento"(S. Máximo, Hom. 7 Epiph.). "E o Céu, cuja entra­da nos estava fechada, não se divi­diu, mas abriu-se para nos significar que se franquea­va a sua entrada por este Sa­cramento"(S. Gregório Nazianzeno, Orat. in sancta lumina).]

Todavia, se alguém quiser indagar por que Nosso Senhor conferiu à água uma força tão ampla e tão sobrenatural, isto não fica ao alcance da inteligência humana.

No entanto, podemos ao menos compreender que a água, no Batismo de Nosso Senhor, ao tocar Seu Corpo santíssimo e puríssimo, foi consagrada para o uso salutar do Batismo. Mas, con­forme a Fé nos ensina, isto acontece de tal maneira, que este Sa­cramento, com ser ins­tituído antes da Paixão, só tirou sua virtude e eficácia da pró­pria Paixão, que era por assim dizer o fim e a consumação de todas as obras de Cristo (Hieron. in comment. in Mt. 3; Aug. Serm. 36 de tempore).

Acerca do outro momento, em que a Lei do Batismo foi promulgada, não há lugar para incertezas. Todos os escritores eclesiásticos concordam em dizer que foi depois da Res­surreição de Nosso Senhor, quando ordenou aos Apóstolos: 'Ide, ensinai todos os po­vos, ba­tizai-os em Nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo'(S. Mt. 28, 19; S. Mc. 16, 16). Desde en­tão, começou a vigorar a Lei do Ba­tismo para to­dos os homens, que hão de alcan­çar a eterna salva­ção.

Provam-no as palavras autorizadas do Príncipe dos Apóstolos: 'Fez-nos renascer à espe­rança da vida, pela Ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos'(1 Ped. 1, 3). Prova igual se pode tirar daquela passagem, em que São Paulo falava da Igreja: 'Entre­gou-Se a Si mesmo por Ela, para santificá-la, purificando-A no banho da água pela pala­vra'(Ef. 5, 25ss).

Ambos parecem transferir a promulgação da Lei do Batismo para uma épo­ca posteri­or à Morte de Nosso Senhor. Por conseguinte, não podemos duvidar, de modo algum, que as palavras do Salvador: 'Se alguém não renascer da água e do Espírito... '(S. Jo. 3, 5) também se referem a esse mesmo tempo, que viria depois de Sua Pai­xão"(Catecismo Romano, Part. II, Cap. II, Ponto VIII, 1-2; pp. 199-200).



Capítulo 2


A Necessidade
do Batismo
para a Salvação


O Batismo
é necessário
para se conseguir
a vida eterna

(Dogma de Fé).



"Não pode ver o Reino de Deus
senão aquele que nascer de novo"
(S. Jo. 3, 3).

Necessidade de Preceito e de Meio

"Por vida eterna, entendemos a visão clara e direta de Deus, de que gozam os Bem-aventurados no Céu. Defendemos na tese que o Batismo é necessário para conse­guir a vida eter­na, não só porque Cristo mandou que o recebêssemos e isto constitui a chamada necessida­de de preceito , mas também porque o Batismo é um meio ou condição estabelecida por Deus para a salvação, de maneira que se o homem não põe esse meio não pode dar-se a salvação. Esta é a chamada necessidade de meio.

Diferença entre Necessidade de Preceito e de Meio

Está preceituada a comunhão-viático antes da morte. Quem por qualquer razão grave a não pode receber não peca e, portanto, se se encontra em Graça de Deus, irá para o Céu, visto que receber a comunhão-viático só é necessário por assim estar man­dado. Está igualmente mandado que nos ponhamos em Estado de Graça antes de mor­rer. Se uma morte repentina so­brevier a alguém que se encontra em Estado de Pecado Mortal, sem lhe dar tempo para nada, tal pessoa não poderá pôr-se em Estado de Graça. E apesar de não lhe ter sido possível, não se sal­vará, visto que o Estado de Graça é meio necessário para a salvação, e não um preceito ape­nas, como no caso anterior.

Provas tiradas da Tradição

1 A justificação é 'a passagem daquele estado em que o homem nasce filho do pri­meiro Adão, para o Estado de Graça e de adoção dos filhos de Deus..., passagem que, depois da pro­mulgação do Evangelho, não se pode fazer sem a ablução de regeneração ou o seu de­sejo, con­forme está escrito: Quem não renascer da água e do Espírito Santo, não pode entrar no Reino de Deus (S. Jo. 3, 5)'(Concílio de Trento, sess. 6, cân. 4; Dz. 796).

2 'Se alguém disser que o Batismo é livre, isto é, não necessário para a salva­ção, seja anátema'(Concílio de Trento, sess. 7, cân. 5, do Batismo; Dz. 861).

3 'A pena do Pecado Original isto é, a pena dos que morrem só com o Pecado Origi­nal é a privação da visão de Deus'(Carta de Inocêncio III a Imberto, Arcebispo de Ar­les; Dz. 410).

Estes três Documentos, tomados em conjunto, mostram que o Batismo é neces­sário por necessidade de meio. De outra sorte, as crianças que morrem sem ele, visto serem incapazes de obedecer ou desobedecer, não ficariam privadas da visão de Deus, concedida aos Bem-aventu­rados.

Prova tirada da Escritura Sagrada

"Quem não renascer da água e do Espírito Santo não pode entrar no Reino de Deus"(S. Jo. 3, 5); quer dizer, o Batismo é meio indispensável para se poder entrar no Reino dos Céus.

Dificuldade: O texto citado na prova da Escritura oferece duas dificuldades: Reino de Deus, poderia significar a Igreja; Mesmo que signifique o Céu, não se diz que o Ba­tismo seja absolutamente necessário. Bastaria a necessidade de preceito, para essas pa­lavras terem sentido.

Resposta: Assim é, atendendo só à letra do texto; mas a Igreja, a quem compete inter­pretar a Escritura, ensina-nos, como vimos na prova da Tradição, que o Batismo é de neces­sidade de meio, fundando-se precisamente nesse texto, como o faz o Concílio de Trento.

O Concílio de Florença exprime-se desse modo: 'O primeiro lugar entre os Sacra­mentos tem-no o Santo Batismo, que é a porta da vida espiritual, pois, por ele somos constituídos mem­bros de Cristo e [ficamos sendo] do Corpo da Igreja. Tendo, pelo primei­ro homem entrado a mor­te em todos, se não renascermos da água e do Espírito [Santo], não podemos, como diz a Verda­de, entrar no Reino dos Céus'(Concílio de Florença, De­creto para os Armênios; Dz. 696).

Adversários: Os pelagianos e os modernistas. Entre os protestantes, os calvi­nistas, para os quais o Batismo é de preceito, mas não meio indispensável para a salva­ção"(R. Pe. J. Bu­janda, SJ, "Manual de Teologia Dogmática", Part. II, Tratado 9º, Sacra­mentos, Cap. II, Art. 4º, pp. 428-431, 1ª Edição Portuguesa, Livraria Apostolado da Im­prensa, Porto, 1944).

Outros Testemunhos

"Instituído no meio deste Divino aparato, começou logo a ser administrado por Je­sus Cristo (S. Jo. 3, 22), e pelos Apóstolos, em seu Nome (S. Jo. 4, 2), ainda que Santo Evódio Antio­queno (Nicef., Hist., lib. 2, c. 3), Sucessor dos Apóstolos, nos diz: que Jesus Cristo só batizou a São Pedro, este a Santo André, Santiago e São João, e estes aos ou­tros Apóstolos. Antes da morte do Redentor só batizavam aos judeus que o desejavam receber; porém, depois da Sua Gloriosa Ressurreição, batizavam a toda a classe de gen­te, porque lhes disse o Senhor: 'Ide, pois, ensinai a todas as gentes, batizando em Nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo'(S. Mat. 28, 19). Aqui começou a obrigação de rece­ber o Batismo; aumentou-se depois com a publi­cação que fizeram os Apóstolos da Nova Lei no dia de Pentecostes, e, finalmente, completou-se quando foi publicado o Evangelho por todo o mundo (Salm. 18, 5). Desde então o Batismo é ab­solutamente necessário, e sem ele não há entrada na Igreja nem na Glória. Daqui podem in­ferir os pais de fa­mília o grande cuidado que devem pôr em que seus filhos sejam batiza­dos com a maior brevidade, porque, achando-se as crianças tão expostas à morte pela sua grande delicadeza, será muito fácil que por um descuido morram sem o Batismo, e neste caso, como poderiam sofrer a pena de terem pelo seu descuido privado do Reino dos Céus o filho das suas entranhas? Também as mães, no tempo da sua gra­videz, devem fazer muito por conservarem a vida dos filhos que trazem em seu seio, pro­curando fugir dos excessos e levar uma vida tão circunspeta, qual convém às que encer­ram nas suas entranhas umas criaturas res­gatadas com o Sangue de Jesus Cristo, e destinadas a fazerem-se filhos de Deus pelo Sagrado Batismo. Devem, além disso, pedir muito a Deus, durante a sua gravidez, que conserve a débil vida temporal destas criaturas até receberem este Sacramento de vida eterna"(D. Santiago José Garcia Mazo, "Explica­ções do Catecismo de Astete", Part. IV, Cap. XXVI, pp. 258-259, 6ª Edição, Livraria Chandron, Porto, 1905).

"É tão necessário este Sacramento para a salvação, que as próprias crian­ças não po­dem entrar no Céu, se não forem batizadas. Pelo que, os pais estão gra­vemente obriga­dos a fazer batizar quanto antes os seus filhinhos, para não expô-los a perderem a Bem-aventuran­ça eterna"(R. Pe. Geraldo Vasconcellos, "Lições Edifican­tes", Cap. VI, Sacramentos, p. 199, 1951).

"Procedem muito mal aqueles que fazem demorar muito o Batismo, porque retar­dam à criança a maior fortuna e expôem-na ao perigo de morrer privada do Ba­tismo"(Teó­logo Giu­seppe Perardi, "Novo Manual do Catequista Explicação Literal do Catecis­mo da Doutri­na Cristã, publicado por ordem do Papa São Pio X", Part. III, Secç. I, Cap. I, Batismo, p. 462, 5ª Edição, União Gráfica, Lisboa, 1958).

“A quem depois do Batismo caiu em pecado mortal, a Confissão é necessária para se salvar como o Batismo para os não batizados. Ensina-o expressamente o Concílio Tridentino: 'Para quem caiu depois do Batismo, este Sacramento da Penitência é tão necessário à salvação como o próprio Batismo para quem ainda não foi regenerado pela Graça'(Sess. XIV,c. 2 – Denz. U. 895).

Quantos hoje, embora julgando, e com razão (cfr. C.I.C., c. 700) mal gravíssimo diferir o Batismo de uma criança, (e não o fariam nunca com o próprio filho), caídos em pecado, vivem meses e anos tranquilamente na desgraça de Deus, sem ao menos pensar em confessar-se! Contudo, a criança, morrendo antes do Batismo, iria para o Limbo, enquanto que o pecador adulto que morre sem se confessar (ao menos “in voto”), cai no Inferno!”(Rev. Pe. Mário Corti, S.J., “Viver em Graça”, 2ª Parte – A Graça, Cap. V – A Graça Santificante, pp. 148-149, 2ª Edição, Ed. Paulinas, 1961).

Um crime bárbaro renovado espiritualmente

"Entre os antigos Espartanos, mandava a lei de Licurgo que a criança que nas­cesse en­fezada ou aleijada fosse precipitada do Taigete. Julgamos isto uma crueldade abominável, porque à nossa razão repugna que se mate uma criança só porque é des­graçada. Pois bem, um crime muito mais grave cometem aqueles pais cristãos que, deixando morrer os seus filhos sem Batismo, os impedem de alcançar a vida eter­na, preparada unicamente para aqueles que forem batizados"(Teólogo Giuseppe Pe­rardi, ob. cit.).

O Batismo dos Adultos e das Crianças

"Se para os fiéis é muito útil o conhecimento das verdades que até agora te­mos ensinado, urge mais ainda explicar-lhes que Deus impôs a todos os homens uma Lei, obri­gando-os a receberem o Batismo. Por conseguinte, os que não renas­cerem para Deus me­diante a Graça do Batismo, são gerados pelos pais, fiéis ou in­fiéis, para a eterna miséria e condenação.

Devem, pois, os Pastores explicar mais vezes aquela passagem do Evange­lista: 'Se alguém não renascer da água e do Espírito, não pode entrar no Reino de Deus'(S. Jo. 3, 5).

Esta Lei não se aplica aos adultos exclusivamente, mas também às crianças desde a mais tenra idade. A Igreja assim o interpretou, por Tradição Apostólica, conforme no-lo garantem a Doutrina e a Autoridade comum dos Santos Padres.

Além disso, é de crer que Cristo Nosso Senhor não quisesse negar o Sacramento e a Graça do Batismo às crianças, das quais dizia: 'Deixai vir a Mim os pequeninos, e não os embara­ceis, porque deles é o Reino dos Céus'(S. Mat. 19, 14). Ele que as apertava aos braços lhes im­punha as mãos, e as abençoava (S. Marc. 10, 16).

Ainda mais, São Paulo, pelo que lemos, havia batizado uma família inteira (1 Cor. 1, 16). Nesse caso, é evidente que tenha batizado também as crianças da família.

Figura do Batismo, a circuncisão encerra igualmente uma calorosa recomenda­ção deste costume. Como todos sabem, era de praxe circuncidar os meninos (Gên. 17, 12; 21, 4; Lev. 12, 3; S. Luc. 1, 59; 2, 21), ao oitavo dia de seu nascimento.

Ora, se para eles sortia efeito a circuncisão, praticada com a mão para despojar a car­ne do corpo, não há dúvida que às crianças também aproveita o Batismo, essa cir­cuncisão de Cristo, a qual não é praticada por mão humana (Col. 2, 11).

Afinal, como diz o Apóstolo, se pelo delito de um só, e por causa de um só, veio a reinar a morte, muito mais reinarão na vida, graças a um só, que é Jesus Cristo, todos quantos receberem abundantemente a Graça e o Dom da Justificação (Rom. 5, 17). Logo, se por culpa de Adão as crianças contraem o Peca­do Original, tanto mais podem elas rece­ber por Cristo Nosso Se­nhor a Graça e a Justiça, a fim de reinarem para a vida. Isto, po­rém, seria absolutamente impossível sem o Batismo (Dz. 101-102, 788-792, 861-870)...

Não padece dúvida que as crianças, ao serem batizadas, recebem de fato o Misté­rio da Fé, não porque creiam por ato pessoal de sua inteligência, mas porque são assisti­das pela Fé dos próprios pais, se forem cristãos; em todo o caso, pela Fé de toda a agremia­ção dos Santos, se assim quisermos afirmar com Santo Agostinho (Aug. Enchir. c. 42: ML 40, 253).

Na verdade, podemos dizer com razão que as crianças são levadas ao Batis­mo por todos aqueles que desejam vê-las batizadas, e que por sua caridade ajudam a serem admi­tidas na comunhão do Espírito Santo (De fato, este deve ser o voto de to­dos os verdadeiros membros da Igreja Católica).

Sendo assim, é preciso exortar seriamente os fiéis a levarem seus filhinhos à igreja, logo que possam fazê-lo sem perigo, para ali receberem o Batismo solene (Rituale Romanum, 2, 1, 39; CIC, cân. 770; CPB, decr. 168, 1).

Para as crianças, o único meio de salvação é a administra­ção do Batismo (Os infan­tes não são ainda capazes do "votum Sacramenti". Podem rece­ber o Batismo de sangue, se fo­rem mortos por ódio à Fé). Compreende-se, pois, quão grave é a culpa de quem as deixa sem a Graça do Sacramento, por mais tempo do que seja estri­tamente necessário. O motivo principal é que, nesse período precário, a vida da criança fica exposta a uma infinidade de perigos (Aug., De orig. animae, 3, 9; de peccat. merit., 1, 2; epist. 28)"(Catecismo Romano, Part. II, Cap. II, Ponto XI, 1; pp. 204-206).



Capítulo 3



Falando
propriamente
do
Limbo das Crianças


O Limbo das Crianças
"é sentença comum entre os Teólogos"

(D. Odilão Moura, O.S.B.).



1ª Parte

Revelação própria e impropriamente dita

"Revelar, é descobrir o que se encontra velado ou encoberto. Deus, por meio do mundo visível, descobre-nos a Sua existência e atributos, que é, por exemplo, inteligente, poderoso e sá­bio. Faz-nos, portanto, uma revelação, não diretamente, mas por meio das criaturas, ou o que se chama uma revelação impropriamente dita. Denomina-se reve­lação propriamente dita aque­la em que o mesmo Deus, em Pessoa, ou por meio de um Seu legado especialmente escolhido para tal fim, comunica alguma verdade aos homens. Por isso, é uma revelação propriamente dita a que nos fez Jesus Cristo, visto ser Legado de Deus... O mesmo se diga dos Ensinamentos dos Apóstolos visto pregarem por Seu mandato, o que lhes tinha ensinado Cristo, ou o que Deus, pela ação do Espírito Santo, lhes inspirava"(R. Pe. J. Bujanda, S.J., ob. cit., Part. I, Tratado III, Cap. Único, Art. 1º, 1ª Nota Complementar, p. 122).

Revelação explícita e Revelação implícita

a) Revelação explícita: "Diz-se que há revelação expressa, formal ou explícita quan­do as verdades se encontram expressamente enunciadas nas palavras da Escritura ou nas fór­mulas da Tradição, por exemplo, que Jesus Cristo foi crucificado.

b) Diz-se que a revelação é implícita, quando as verdades não se apresen­tam tão claras e patentes na Escritura ou na Tradição, mas é como se se apresentassem, pois se redu­zem a simples e mera explicação das palavras da Escritura ou da Tradição; para as concluirmos, não necessitamos de recorrer a um raciocínio propriamente dito.

Exemplos: Pertence às verdades reveladas que Jesus Cristo é homem; logo, tam­bém pertence que é animal racional, pois estes constituem os elementos essenciais de todo o homem. É verdade de Fé que Jesus Cristo é homem perfeito; logo, também o será que possui entendi­mento humano, já que todo o homem o tem. Constitui uma verdade de Fé que Jesus Cristo é filho verdadeiro de Maria; logo, também a constituirá que Maria é Mãe de Jesus Cristo, ainda que o não ensinasse a Tradição expressamente.

Inversamente, é verdade de Fé que Jesus não é verdadeiro filho de São José, no sentido em que o afirmamos de Maria; logo, também será que a São José não se pode atribuir a paterni­dade de Jesus, no sentido estrito em que a Maria se atribui a maternida­de.

A estas verdades, que não se encontram enunciadas explicitamente, nos docu­mentos da revelação − mas se reduzem a simples explicação das suas palavras − cha­mamos implicitamente reveladas"(R. Pe. J. Bujanda, S.J., ob. cit., 5ª Nota Complementar, p. 124).

Conclusões Teológicas

"Há, finalmente, verdades que não estão nem explícita nem implicitamente revela­das; deduzem-se, porém, com toda a segurança da Doutrina revelada, por meio do raciocí­nio.

Exemplos: Da seguinte verdade revelada − Jesus Cristo é Deus − deduzimos necessaria­mente pelo raciocínio que Jesus Cristo é impecável, pois seria absurdo que Deus pu­desse pecar. Da seguinte verdade revelada − a Graça Santificante não se perde pelo pecado ve­nial − deduzimos que também não a diminui; efetivamente, se a diminuísse, a acumulação de pe­cados veniais poderia chegar a destruí-la completamente e, portanto, dar-se-ia um caso em que o pecado venial faria per­der a Graça. Estas e semelhantes de­duções, conseqüências ou corolários das verdades reveladas, chamam-se conclusões teológicas"(R. Pe. J. Bujanda, S.J., ob. cit., 6ª Nota Complementar, p. 125).

Os Padres da Igreja em conjunto não podem ensinar erro algum

"Se o ensinassem, isso mostraria que toda a Igreja, nesse tempo, se tinha engana­do. De fato, se os mais insignes mestres encarregados de propor a Doutrina de Cristo todos se enganaram, os menos doutos ou mais ignorantes não podiam conservar-se na verdade. O povo cristão segue a Doutrina, que lhe propõem os seus mestres.

A Igreja designa com este título certos homens que nos primeiros séculos se dis­tinguiram pela ortodoxia da doutrina e santidade. O último Padre Oriental é São João Damas­ceno, morto em 749; no Ocidente, Santo Isidoro de Sevilha, morto em 636. Outros personagens, ilustres em doutrina e santidade, que floresceram mais tarde, como Santo Anselmo e São Bernar­do, não são propriamente Padres da Igreja, ainda que por vezes certos autores lhes dêem esse epíteto. O termo Padre, neste caso, parece ter sido usado com o fim de indicar que a Igreja, na sua infância, esteve confiada ao seu cuidado como as crianças ao dos pais"(R. Pe. J. Bujanda, S.J., "Manual de Teo­logia Dogmática", 1ª Parte, Tratado Segundo, Cap. III, § 1º, n. 86, 2ª, p. 89, 1ª edição por­tuguesa, Livraria Apostolado da Imprensa, Porto, 1944).

Se os Teólogos Católicos são unânimes em propor
durante vários séculos uma doutrina,
esta será verdadeira

"São os Teólogos, com efeito, quem por ofício estudam a Mensagem de Cristo; se eles, que são os técnicos, estão de acordo em propor a verdade de certa doutrina, e como tal a ensinam, a Igreja não pode deixar de os seguir. Logo, não po­derão enganar-se; em caso con­trário, ficaria desmentida a promessa de Cristo, de per­manecer eternamente com os Apóstolos e seus Sucessores, e de lhes sugerir toda a ver­dade"(R. Pe. J. Bujanda, S.J., ob. cit., n. 87, p. 90).

Se determinada doutrina se professa em toda a Cristandade,
embora não saibamos qual o pensamento dos Bispos,
dos Padres ou dos Teólogos,
podemos estar certos de que é verdadeira

"Se fosse falsa, em virtude da assistência de Jesus Cristo aos Apóstolos e aos seus Sucessores, os Bispos, não teria sido possível a sua difusão por toda a Igreja.

A infalibilidade foi outorgada aos Bispos, não para que desfrutem dela, mas para que não se enganem ao propô-la à Igreja, e a defendam de qualquer erro“(R. Pe. J. Bujan­da, S.J., ob. cit., n. 88, p. 90).

Notas Complementares

► Um ou alguns Bispos − o mesmo se diga dos Santos Padres e Teólogos − po­dem errar e de fato têm-se enganado. Cada um de per si não é infalível; nunca tal infalibili­dade se lhes prometeu, e a história ensina, por outro lado, que realmente a não possuem.

2ª► Cada um dos Apóstolos, era infalível. Deus tinha-lhes concedido esse privilé­gio pes­soal, como era, não apenas conveniente, mas necessário na primitiva Igreja, já que, an­dando dispersos pelo mundo, não poderiam reunir-se com facilidade e sem detrimento para a difusão do Evangelho. Eis porque São Paulo ousou escrever aos Gálatas: "Ainda que eu, ou um Anjo do Céu, vos anuncie doutrina diferente da que vos tenho pregado, seja anátema"(Gál. 1, 8).

3ª► Para que determinada doutrina seja verdadeira e como tal deva aceitar-se, não se exige que a ensinem os Bispos, Padres, ou Teólogos todos, numerica­mente. Basta como nos assuntos humanos desta índole, uma maioria tal, que mo­ralmente, isto é, na es­timação pru­dente dos homens, equivalha à totalidade. (R. Pe. Bujanda, S.J., ob. cit., nn. 89-91, pp. 90-91).

Como saber se uma doutrina é Católica ou não?

"Com efeito, perguntando eu com toda a atenção e diligência a muitíssimos va­rões, emi­nentes em santidade e doutrina, que Norma poderia achar, segura, tão geral quanto pos­sível, e ordinária, para distinguir da falsidade da malícia herética a Ver­dade da Fé Católica, eis a resposta constante de todos eles: que todo aquele que quei­ra descobrir as fraudes dos here­ges mais recentes, evitar seus laços, e permanecer desta maneira são e íntegro em uma Fé sã e incontaminada, há de fortificar sua Fé, com o auxílio Divino, por esta dupla muralha: primeiro, com a Autoridade da Lei Di­vina, e em segundo lugar com a Tradição da Igreja Católica.

Ao chegar a este ponto, talvez alguém pergunte: sendo perfeito, como é, o Cânon das Escrituras, e por si só suficientíssimo para todos os casos, que necessidade há de acrescentar a Autoridade da interpretação eclesiástica?

E a razão é que, devido à profundidade da Sagrada Escritura, nem todos a enten­dem em um mesmo sentido, senão que as mesmas sentenças cada qual as in­terpreta a seu modo, de maneira que quase se poderia dizer que há tantas opiniões quantos intérpret­es. De um modo a expõe Novaciano, de outro Sabélio, de outro Donato, e à sua ma­neira Ario, Eunômio, Macedônio, como também, por sua conta, Fócio, Apolinário, Pris­ciliano; de outra forma, Jovinia­no, Pelágio, Celéstio; e a seu modo, finalmente, Nestório.

Pelo que, é necessário de toda necessidade que, às voltas com tais encruzi­lhadas do erro, seja o sentido Católico e Eclesiástico que indique a linha diretriz na inter­pretação da Dou­trina Profética e Apostólica.

Do mesmo modo na Igreja Católica cumpre buscar a todo custo que todos nos ate­nhamos ao que em toda parte, sempre e por todos foi crido [In ipsa item catholica Ecclesia magno­pere curandum est, ut id teneamus, quod ubique, quod semper, quod ab omnibus credi­tum est]; porque isto é que é própria e verdadeiramente Católi­co, como o declara a força e a ín­dole mesma do vocábulo, que abarca em geral to­das as coisas.

E isto o alcançaremos se seguirmos a Universalidade, a Antigüidade, o Con­senso. Isto posto, seguiremos a Universalidade se professarmos como única Fé a que pro­fessa em toda a redondeza da terra a Igreja inteira; a Antigüidade, se não nos afastarmos um ápi­ce do sentir manifesto de nossos Santos Padres e antepas­sados; o Consenso, enfim, se na mesma Antigüidade nos acolhermos às sentenças e resoluções de todos ou quase todos os Sacerdo­tes [Bispos] e mestres.

O que fará, de acordo com isto, um cristão católico, se vir que uma pequena par­cela da Igreja se desgarra da Comunhão Universal da Fé? Que há de fazer senão prefe­rir a saúde do Corpo inteiro à gangrena de um membro corrompido?

E que fará se o contágio da novidade se esforçar por devastar não já uma parce­la, mas toda a Igreja Universal? Neste caso, todo o seu empenho será o de apegar-se à An­tigüidade, a qual não pode já ser vítima de enganos de novidade alguma.

E se na Antigüidade mesma se descobrir o erro de duas ou três pessoas, ou até de algu­ma cidade ou talvez província? Então o católico se esforçará a todo custo para opor à temerid­ade ou ignorância de uns poucos os Decretos, se os houver de al­gum Concílio Uni­versal, celebrado por todos na Antigüidade.

E se, finalmente, surgisse uma questão, sem que o nosso cristão católico tenha algum destes auxílios a seu alcance? Então procurará um modo de investigar e con­sultar, compa­rando-as entre si, as sentenças dos Maiores, daqueles somente que, mesmo vivendo em lugares e tempos diversos, por haver perseverado na Fé e Co­munhão de uma mesma Igre­ja Católica foram tidos por mestres acreditados [magistri probabiles]; e o que eles, não um ou dois somen­te, mas todos a uma em consenso unânime, abertamente, repetida­mente, per­sistentemente, houvessem sustentado, escrito, ensinado, tenha ele entendido que isto é também o que há de crer sem dú­vida alguma"(São Vicente de Lérins, "Commonitorium adversus haereticos" − a.D. 434; cfr. Sigfrido Huber, "Los Santos Padres / Sinopsis desde los tiempos apostólicos hasta el siglo sexto", Ediciones Desclée, De Brouwer, Buenos Aires, Tomo III, pp. 335-338, 1946).


2ª Parte



O Limbo das Crianças
(Estritamente Conhecido)


TESE: “Os que morrem unicamente com o Pecado Original são privados para sempre da vi­são beatífica, mas não sofrem nenhuma outra pena”.

Explicação: Por visão beatífica entendemos a visão clara e imediata de Deus, da qual gozam os bem-aventurados no Céu...

Adversários: Os jansenistas e alguns Teólogos católicos diziam que, os que morrem só com o Pecado Original, além de serem privados da vista de Deus, sofriam também alguma ou­tra pena positiva.

1º Carecem da Visão Beatífica
(Qualificação: De Fé)

Provas tiradas da Tradição:

'Se alguém disser que as criancinhas... nada contraem do Pecado Original que seja necessário purificar com a ablução da re­generação, para conseguir a vida eterna..., seja anátema'(Concílio de Trento, Sess. 5, Decreto sobre o Pecado Original; Dz. 791). Logo, para conseguir a vida eterna é necessário estar livre do Pecado Original.

'A pena do Pecado Original é a privação da Visão de Deus'(Carta de Inocêncio III a Imberto, Arcebispo de Arles; Dz. 410).

Prova tirada da Escritura:

"Se alguém não renascer da água e do Espírito Santo, não pode entrar no Reino de Deus"(S. Jo. 3, 5).

Suposta a explicação deste texto feita (anteriormente), concluímos que os que morrem com o Pecado Original, não renasceram da água e do Espírito Santo, pois o Batismo perdoa todos os pecados.

Não sofrem nenhuma outra Pena
(Qualificação: Doutrina Comum)

Provas tiradas da Tradição:

'A pena do Pecado Original é a carência da Visão de Deus; a pena do Peca­do Atual é o tormento de um Inferno eterno'(Inocêncio III; Dz. 410). As crianças, portan­to, não têm que sofrer outra pena além da privação da Visão Beatífica, do contrário, esta­riam em condição igual à dos condenados.

Pio VI condenou a opinião dos que pretendiam que existia a pena de fogo para os que morrem só com o Pecado Original (cfr. Dz. 1526, de onde está tomada essa afirmação quanto ao sentido). Por conseguinte, é verdadeira a doutrina da tese.

Provas tiradas pelo Raciocínio:

► Não há motivo algum para afirmar que os que não cometeram nenhuma culpa pessoal sejam castigados com outra pena além da privação de um prêmio a que estavam destinados por pura benevolência de Deus.

► Tal castigo seria contra a bondade Divina.

Conseqüências:

1ª─ Os que morrem só com o Pecado Original terão, na outra vida, uma existên­cia feliz, como a teria neste mundo a pessoa a quem tudo corresse conforme aos seus desejos.

O fim natural do homem é gozar, depois desta vida, da felicidade devida à sua natureza, se o não impede com as suas culpas, e os que morreram só com o Pecado Ori­ginal nada fizeram para o impedir.

A carência da Visão de Deus atormenta os condenados, porque foram privados dela por causa dos seus pecados pessoais; mas não torna infelizes as crianças, por tal privação ser ape­nas devida ao pecado que receberam de Adão.

2ª─ Podemos, pois, definir o limbo das crianças: o lugar para onde vão os que morrem só com o Pecado Original.

Nota Complementar:

► O Limbo dos Justos ─ Significação das palavras do Credo 'desceu aos infernos': Chama-se limbo dos justos, ou seio de Abraão, o lugar onde estavam as al­mas dos justos antes da morte de Cristo. Estes nada tinham que expiar, mas só podiam entrar no Céu de­pois da morte redentora de Jesus Cristo. A entrada do Céu só ficou aberta com a morte de Cristo, como explicam os Teólogos, fundados em vários textos de São Paulo (Heb. 9, 8; etc.).

As Palavras do Credo − desceu aos infernos, referem-se ao limbo dos justos, aonde Cristo foi anunciar a Sua morte e ressurreição (1 S. Ped. 3, 18ss), e conceder-lhes a Visão Beatí­fica, que então começou para eles"(R. Pe. J. Bujanda, S.J., ob. cit., Part. II, Tra­tado X, Cap. Úni­co, Art. 5º, pp. 561-564).

Desceu aos infernos

"... A quarta e última razão (porque Cristo desceu com a Alma aos infernos), foi para li­bertar os Santos que estavam nos infernos. Assim como Cristo quis submeter-se à mor­te para li­bertar os vivos, da morte, quis também descer aos infernos, para libertar os que aí se encontra­vam. Lê-se: 'Vós também (Senhor), pelo Sangue do Vosso Testamento, tirastes os Seus que estavam presos na fossa, onde não havia água'(Zac. 9, 11). − 'Ó morte, serei a tua morte, ó Inferno, serei para ti como uma mordida'(Os. 13, 14).

Bem que Cristo tivesse totalmente destruído a morte, não destruiu comple­tamente o inferno, mas como que o mordeu, por que não libertou todos os que nele estavam, mas somente os que não tinham Pecado Mortal, nem o Pe­cado Original. Deste, foram liberta­dos, enquanto pessoas individuas, pela cir­cuncisão, e, antes da instituição da circuncisão, as crianças privadas do uso da ra­zão, pela Fé dos pais fiéis; os adultos, pelos sacrifícios e pela Fé no Cristo que es­peravam.

Estavam no inferno devido ao Pecado Original causado por Adão, do qual não po­deriam ser libertados, enquanto pecado que era da natureza humana, senão por Cris­to.

Deixou então os que aí desceram com Pecado Mortal e as crianças incircuncisas. Por isso, disse ao descer ao inferno: 'Serei para ti como uma mordida'(Os. 13, 14)" (São To­más de Aquino, "Exposição sobre o Credo", Art. 5º, pp. 50-57, 4ª Edição, Ed. Loyola, 1997).

Notas Complementares

"Sobre a morte das crianças não batizadas e o seu destino eterno, ver o excelen­te livro de Charles Journet − La volonté divine salvifique: sur les petits enfants − (Des­clée de Brower Friburgo, 1958).

É sentença comum entre os Teólogos que as almas das cri­anças, mortas sem o Batismo antes do uso da razão, são privadas da Visão de Deus, mas não sofrem, nem por estarem privadas des­sa visão, nem as penas dos sentidos.

São Tomás sempre negou que as crianças mortas em estado de Pecado Original sofres­sem qualquer pena, bem que tivesse primeiro afirmado que elas conhecessem a privação da Visão (Sent. 2, 33, 2a 2) e, mais tarde, o tivesse negado (De malo, 5, 3): esta­rem privadas de tal bem (da Visão Beatífica) as almas das crianças não sabem, e por essa razão não sofrem, mas o que possuem pela natureza, possuem sem dor. São Roberto Belarmino admite um cer­to sofrimento nessas crianças (cfr. Cardeal Pedro Gaspar­ri, Catechismus Catholicus, q. 359, pp. 197, 479)"(D. Odilão Moura, O.S.B., Tradução e Notas à obra "Exposição sobre o Credo" de São Tomás de Aquino).


3ª Parte


O Limbo das Crianças
(Afirmado e Negado)


§ 1. A Noção Pressuposta:

"Por crianças entendem-se, neste estudo, os indivíduos humanos que não te­nham atin­gido a idade do discernimento. São irresponsáveis, incapazes de deliberar ou optar a respeito do seu destino eterno.

Essas crianças, uma vez recebido o Batismo, possuem a vida de filhos de Deus, embora ela não se atue em atos correspondentes, por faltar ao sujeito o necessário de­senvolvimento físi­co. Caso venham a morrer antes do uso da razão, passam imediata­mente para a Bem-aventuran­ça celeste, onde gozam da Visão de Deus face a face.

Que se dá, porém, com os pequeninos que morrem sem Batismo?

É diante desta questão que começam as dúvidas dos estudiosos. Eis como res­ponde a maioria dos Teólogos medievais e contemporâneos:

1) não podem participar da Bem-aventurança sobrenatural, celeste, pois não pos­suem em si o principal pressuposto para isto, ou seja, a Graça, a filiação divina.

'Todo órgão visual é adaptado à claridade do seu res­pectivo objeto. É esta adaptação que lhe possibilita ver o que lhe é co-natural, e lhe veda absolutamente fixar objetos dotados de mais luminosidade; diante destes, tal olho é cego. Ora, algo de análogo se dá na Visão celeste de Deus: ela requer um olho espiritual adaptado, sobrenaturalmente elevado; sem o que, é impossível'.

2) todavia, pouco condizente com a Justiça Divina seria afirmar que Deus conde­na essas almas ao Inferno; com efeito, não cometeram pecado pessoal grave que lhes mereça a sorte dos réprobos. Dentre outras declarações da Igreja a este respeito, basta citar as palavras do Papa Inocêncio III (+ 1216):

'A pena devida ao Pecado Original é a privação da Visão Beatífica; a que se deve ao Pecado Atual é o tormento da Geena perpétua'(Dz. 410).

3) as ditas criancinhas, pelo fato de não serem batizadas, trazem em si a mancha do Pe­cado Original. Ora, este consiste na carência dos Dons Sobrenaturais e Preternatu­rais (os quais, conjuntamente, constituem a chamada justiça original), que Deus conferiu a Adão e que este devia transmitir aos seus descendentes. O Pecado Original, porém, não atinge diretamente a natu­reza humana; esta, ainda que despojada do sobrenatural e do preternatural, conserva íntegras suas potencialidades naturais.

4) donde se segue deva haver um estado póstumo em que as almas das crianci­nhas não batizadas possam viver conforme suas faculdades naturais, gozando da bem-aventurança que compete à natureza humana enquanto tal.

Pois bem, é a esse estado que se dá, a partir do século 13, o nome de limbo, limbo das crianças (do latim limbus: orla de uma veste, zona), pois que a alguns teólogos medievais pare­cia estar situado à margem do Inferno dos Réprobos.

'Na terminologia teológica fala-se também do Limbo dos Pais, lugar ou estado em que os justos do Antigo Testamento aguardavam o Redentor para poder en­trar na Bem-aventurança celeste; é claro que esse es­tado não implicava tormentos. Deixou de existir depois que Cristo abriu a todos os justos o ingresso no Reino de Deus. É ao Limbo dos Pais que se refere o Símbo­lo da Fé quando ensina que Jesus Cristo, no tríduo de Sua morte, 'desceu aos infernos'; o Senhor foi anun­ciar às almas justas que O esperavam, a boa notícia da Redenção.

Inferno (região inferior), limbo (orla, zona limítrofe) são denominações baseadas nos conceitos (na geo­grafia...) que os antigos tinham do mundo invisível.

Julgavam que acima da terra está o lugar dos Bem-aventurados, ou o Céu. Abaixo de nós, ou seja, no centro da Terra, acha-se o lugar dos que não partici­pam da Visão Beatífica: é o inferno (lugar inferior) en­tendido no sentido largo. Nesta região muitos distin­guiam três compartimentos: o mais profundo é o dos réprobos (inferno estritamente dito); contíguo a este colocavam o limbo (orla) das crianças, as quais não possuem esperança de passar à Visão Beatífica; por fim, acima da zona das crianças, admitiam o limbo (orla) dos Pais, os quais tinham esperança fundada de entrar nos Céus (cfr. S. Tomaz, In IV Sent. dist. 45, q. 1, a. 2 ad 2).

Toda esta geografia do mundo póstumo é bastante secundária e conjetural. 

§ 2. A Existência do Limbo

► Como chegaram os Teólogos a conceber e justificar a noção acima exposta?

1) Na Sagrada Escritura não se encontra referência ao limbo das crianças.

O Senhor fala, em S. Luc. 16, 22, do seio de Abraão, que é, conforme a termino­logia ju­daica, o lugar onde as almas justas do Antigo Testamento esperavam a vinda do Redentor (limbo dos Pais). Tal lugar, porém, não tem que ver com o limbo das crianças.

A respeito dos pequeninos mortos sem Batismo, o texto mais elucidativo é o de Jo. 3, 5: 'Se alguém não renascer da água e do Espírito Santo, não poderá entrar no Rei­no de Deus', diz o Senhor.

Assim excluídas do Céu ou da Visão Beatífica, as criancinhas estarão por Jesus conde­nadas ao Inferno? Santo Agostinho, em controvérsia com os pelagianos, julgava poder deduzir isto dos textos referentes ao Juízo Final (cf. Mt. 24, 36; 25, 46); nestes Jesus só fala de prêmio e castigo eternos, sem menção de meio termo.

'O Senhor virá e fará dois grupos, um à direita e o ou­tro à esquerda... Não há lugar intermediário onde pos­sas colocar esses pequeninos. Por isto quem não esti­ver à direita, sem dúvida estará à esquerda'(Serm. 14, 3).

'Por conseguinte, quem não entrar no Reino, certa­mente será entregue ao fogo eterno'(De pecc. merit. 1, 28).

O Santo Doutor, porém, concedia ser a pena das cri­anças a mais branda de todas no além-túmulo: 'mitis­sima sane omnium poena erit eorum'(De pecc. merit. 1, 1).

É, porém, evidente que tais passagens visam unicamente os adultos, ou aqueles cujas obras podem ser julgadas; fica fora da perspectiva do Evangelho a sorte das crian­cinhas irres­ponsáveis.

2) A Tradição Cristã, baseando-se principalmente no conceito da Justiça perfei­tíssima de Deus, chegou aos poucos a formular a noção do limbo.

Alguns Padres gregos e Santo Agostinho (antes da controvérsia pelagiana, ou seja, até 411) a esboçaram de certo modo. Todavia, uma atitude pessimista na maneira de considerar a natureza humana (pessimismo estimulado pela heresia pelagiana, demasiado oti­mista) dificultava aos antigos teólogos admitir um estado intermediário entre a Glória e a Condenação; para não poucos, a natureza humana, afetada pelo Pecado Original, só po­dia merecer o castigo do Inferno. Em conseqüência, a noção do limbo só podia ser clara e definitivamente elaborada quando se ti­vesse um conceito exato do Pecado Original e de seus efeitos. Ora, foi no século 11 que Santo Anselmo precisou em que consiste a cul­pa transmitida por Adão: não é algo de positivo, mas está na privação da justiça para­disíaca, privação que constitui o homem avesso ao ideal que Deus lhe traçou, dis­forme dentro do plano de Deus. Deste princípio os teólogos posterio­res não tardaram a deduzir que o Pecado Original só pode ter conseqüências privativas para as crianças que com ele morram: fará que estas sejam excluídas da Visão Beatífica (elemento corres­pondente à ausência da Graça Sobrenatural nesses pequeninos), sem, porém, sofrer al­guma pena positiva (pena positiva que seria correspondente à conversão a um bem indevido e que conseqüentemente só pode ser aplicada a um adulto responsável). Assim como há uma di­ferença entre a natureza do Pecado Original e a do Pecado Atual, deve igualmente ha­ver di­ferença entre as conseqüências de um e outro.

É nestes termos que se funda a tese da existência do limbo das crianças.

Pio VI deu-lhe inegável confirmação em 1794, condenando os jansenistas de Pis­tóia, que viam na Doutrina do Limbo das Crianças uma revivescência do Pelagianismo. O Papa defen­de tanto a existência do Limbo como a do Pecado Original na seguinte decla­ração:

'É falsa, temerária e injuriosa às Escolas Católicas a doutrina que rejeita, como se fosse fábula pela­giana, o lugar inferior (pelos fiéis geralmente cha­mado Limbo das Crianças), onde as almas dos que morrem apenas com o Pecado Original são puni­das pela pena do detrimento sem algum tormento do fogo; a rejeição provém de que tal dou­trina ad­mite que, negada a pena do fogo, se deve afirmar um lugar e estado intermediário, isento de culpa e pena, entre o Reino de Deus e a condena­ção eter­na, como imaginavam os pelagianos'(Da Constitui­ção "Auctorem fidei"; Dz. 1526).

Abstração feita das alusões à doutrina dos pelagianos, não resta dúvida de que Pio VI, neste texto, intenciona confirmar a Doutrina medieval do Limbo, taxando-a de comum en­tre os fiéis católicos e nas Esco­las Teológicas do seu tempo.

Nos nossos dias, a existência do limbo continua a ser ensinada por grande núme­ro de estudiosos abalizados, como Journet (L'Eglise du Verbe Incarné II. Paris, pp. 766-779, 1951), Diekamp (Theologiae Dogmaticae Manuale IV. Tornaci, p. 495, 1934), Bel­lamy (Baptême [sort des enfants morts sans], DTC II 1. pp. 364-378, 1923), Amann (Limbes, ibd. IX 1. pp. 760-772, 1926), Le Blanc (Children's Limbo, Theory or Doctrine? em "The Ameri­can Ecclesiastical Review" 117, pp. 161-183, 1947). Todavia, outros teólogos, tam­bém de valor, mostram-se propensos a negar o Limbo, enquanto a Autoridade Eclesiástica não se pronunciar ulterior­mente sobre a questão...

Em que se baseiam os que negam a Existência do Limbo

Quais os principais motivos por que hesitam e quais as novas soluções que propõem a respeito da sorte das crianças mortas sem Batismo?

É comum enumerar-se três meios de obter a salvação: o Batismo de água (Sa­cramento), o de sangue (Martírio) e, na falta de um e outro, o Batismo de desejo, o qual pode consistir num simples ato interno do indivíduo. Ora, o desejo é de todo impossível a uma criança ainda destituí­da do uso da razão; também o Sacramento e o Martírio estão freqüentemente fora do seu alcan­ce. Donde se segue logicamente, que milhões de cri­ancinhas deixam de atingir a Bem-aventu­rança Sobrenatural sem culpa própria, unicamente por circunstâncias independentes de sua von­tade, até mesmo − diga-se − por cul­pa ou negligência dos pais ou tutores (Afirma-se, geralmente, que uma têrça parte das crianci­nhas morre antes da idade da razão. Destas, quantas recebem o Batismo ou o Martírio?). Esta verificação leva a perguntar: será tal doutrina compatível com as duas seguintes Verda­des Dogmáticas?

1) 'Deus quer que se salvem todos os homens'(1 Tim. 2, 4). Poder-se-à ainda afirmar esta universal vontade salvífica, se não se admitir que Deus abra um pouco mais a via de salva­ção para as criancinhas, concedendo-lhes, além do Batismo de água e do de sangue, um terceiro meio de purificação (correspondente ao Batismo de desejo dos adul­tos)?

A incompatibilidade parece flagrante a Henrique Klee (1800-1840), teólogo alemão bene­mérito, mas em alguns pontos inovador, e aos seus discípulos (Klee, Katholische Dog­matik. Bonn 1835. III 158; diversos artigos em "The Homiletic and Pastoral Review", ano de 1940). Por conse­guinte, Klee e sua escola propugnam que, na hora da morte, Deus concede às criancinhas que não possam ser batizadas, uma iluminação repentina, a qual as habilita a desejar o Sa­cramento do Batismo; ultrapassando as Leis da Na­tureza, o Senhor faz que possam prati­car um ato plenamente consciente e livre de desejo do Batismo... Esta intervenção de Deus dar-se-ia em todos os casos aponta­dos, de modo que em absoluto não teria razão de exis­tir o Limbo; tais pequeninos iriam conscientemente ou para o Céu ou para o Inferno.

2) A lei da solidariedade reina entre as criaturas desde os primórdios da Histó­ria; em particular, os homens são solidários com dois Cabeças ou Chefes: o primeiro e o segundo Adão, Jesus Cristo. É o que se deduz de Rom. 5, 12-21: por nossa união com o primeiro Adão, prevari­cador, fomos todos constituídos pecadores e réus de morte; e por nossa comunhão com Cristo fomos dotados de nova santidade e vida. Note-se, porém, que 'onde abundou o delito, aí supe­rabundou a Graça'(v. 20); o primeiro Adão e nossa solidariedade com ele não eram senão tipo do segundo Adão e da nossa comunhão com Ele (Rom. 5, 18). O que quer dizer que a solidarie­dade com Cristo é muito mais benéfica para todos os homens do que maléfica foi a solidariedade com Adão.

Ora, este princípio deve influir também na maneira de se apreciar a sorte eterna das cri­ancinhas que morram sem Batismo. Se as julgarmos relegadas para o Limbo, não deveremos confessar que a sua solidariedade com o primeiro Adão foi muito mais íntima do que a sua comu­nhão com Cristo?

É o que considera E. Boudes (Réflexions sur la solidarité des hommes avec le Christ. À l'occasion des limbes des enfants, em "Nouvelle Revue Théologique" 71, pp. 589-605, 1949), para propor, finalmente, a seguinte opinião: a solidariedade de tais almas com Cristo im­plica que o poder intercessor da Igreja, Corpo Místico, em que Cristo continua a Obra da Redenção, valha a essas criancinhas a purificação e a entrada no Céu. De fato, a Igreja, na sua liturgia, principal­mente na celebração da S. Eucaristia apresenta a Deus preces pela salvação de todos os ho­mens, pela redenção do mundo inteiro (cfr. as orações do Ofertório da Missa, as do Ofício dos Pré-santificados na Sexta-Feira Santa). Ora, uma tal uni­versalidade de intenções não pode deixar de beneficiar também os pequeninos que fale­çam sem Batismo. Por conseguinte, conclui Bou­des, é plausível admitir que a intercessão jamais interrompida da Igreja supra, em favor dessas criancinhas, os efeitos do Batismo, merecendo-lhes a Visão Beatífica. Esta teoria, ainda observa o autor, não implica que a Redenção seja automaticamente aplicada às ditas almas, pois ela re­quer a intercessão da Igreja, a qual, consciente e livremente, estende os frutos da Cruz aos indi­víduos. Também esta teoria leva a cancelar a existência do Limbo das Crianças.

Da nossa solidariedade com Cristo, H. Schell, por sua vez, deduzia que o sofri­mento e a morte das criancinhas não batizadas são, em virtude da paixão voluntária de Jesus, um 'quase-sacramento' de reconciliação, um certo Batismo de penitência, que su­pre o Batismo de água (Katholische Dogmatik III. Paderborn, pp. 479s, 1893).

Ora, sendo este quase-sacramento a sorte comum dos mortais, segue-se que to­das as crianças, mesmo impossibilitadas de receber o Batismo, são purificadas e admiti­das à Visão Bea­tífica.

Ainda a seguinte sentença se poderia notar:

O Cardeal Caetano (+ 1534), famoso teólogo da polêmica anti-protestante, não queria negar propriamente a existência do Limbo, mas diminuía consideravelmente o nú­mero de seus habitantes, propondo uma tese que ainda hoje encontra fautores:

'Em caso de necessidade, para assegurar a salva­ção das crianças, parece [note-se a expressão cau­telosa, não categórica] suficiente o Batismo expres­so pelo desejo dos progenitores apenas, principal­mente se a este desejo se acrescenta algum sinal exterior'(In Sum. Theol. III 63, 2).

E a principal razão que levava Caetano a tal parecer, é a seguinte:

No Antigo Testamento os pequeninos recebiam a remissão do Pecado Original primariamente mediante a Fé de seus pais, que ofereciam os filhinhos a Deus. Para a prole masculina era, sim, necessário que, oito dias depois de nascida, se lhe administras­se o rito da circuncisão; mas, na opinião mais provável, mesmo os meninos que morres­sem antes do oitavo dia, salva­vam-se mediante a Fé de seus pais. Ora, não se pode ad­mitir que, após a vinda do Redentor, os meios de salvação se tenham tornado mais exí­guos, menos acessíveis aos homens. A Fé conti­nua a desempenhar um papel primordial na recepção dos Sacramentos de Cristo, meios de sal­vação do Novo Testamento. No caso do Batismo das crianças é mesmo a Fé da Igreja e (quando esta existe) a dos pais cristãos (não, porém, a Fé do sujeito batizado) que possibilita o efeito do Sacramento (cfr. S. Tomaz, Suma Teol. III 68, 3 ad 1; 69, 6 ad 3). Pergunta-se então: será que a Fé Cristã na Revelação consumada, messiânica, tem menos valor salvífico do que a Fé nos tipos e nas figuras do Antigo Testamento?

Parece conveniente que a Misericórdia Divina, em nossos tempos, lhe atribua ao menos a mesma eficácia que antigamente. Ora, se sob a Lei mosaica a Fé dos pais de uma criancinha podia salvar por si só, na impossibilidade de se administrar o rito exterior da circuncisão, será que a hoje não pode salvar a uma criancinha a Fé de pais cristãos que a ofereçam a Deus, impossibi­litados de lhe proporcionar o Sacramento? O Batismo de desejo concebido pelos pais não pode­ria suprir o desejo inconcebível por parte da cri­ancinha?

Dado o precedente da Antiga Aliança, a resposta positiva não parece improvável a Cae­tano. No século 18 também houve quem a sustentasse: assim, o cônego regular Eusébio Amort (+ 1776) e o Pe. Inácio Luís Bianchi, clérigo regular.

'De remedio aeternae salutis pro parvulis in utero clausis sine baptismate morientibus. Venetiis 1768. Conforme Bianchi, a criança que morra sem Ba­tismo no seio materno, é salva caso a genitora queira protestar, em nome do filhinho, que este aceita a mor­te como prova de seu desejo de receber o Batismo'.

Em nossos dias o Pe. Héris, O.P., a propõe de novo à consideração dos teólo­gos...

'Ch.-V. Héris, Le salut des enfants morts sans bap­tême, em "La Maison-Dieu" 10, pp. 86-105, (1947). Enquanto Caetano restringe a teoria ao caso das cri­anças que morrem no seio materno, Héris a estende a todos os casos de impossibilidade do Sacramento'.

A conseqüência prática que ela importa para pais e mães cristãs poderão ser aceita: na impossibilidade de prover ao Sacramento do Batismo para seus filhinhos mori­bundos, lembrem-se de oferecê-los a Deus com Fé e com o desejo de vê-los participar da vida das Três Pessoas Divinas. Quem sabe se esse Batismo de desejo, concebido pe­los pais, não aproveitará aos pe­queninos?

Várias outras teorias têm sido propostas, alargando cada vez mais as possibilida­des de salvação das crianças; os autores são prudentes nas suas expressões e profes­sam docilidade a uma eventual declaração da Igreja. Esta não se pronunciou contra a tendência às vistas largas no assunto, nem mesmo contra alguma das soluções novas; é o que faz que, hoje em dia, quem queira negar a existência do Limbo das Crianças, não possa ser incriminado de erro na Fé; vai, porém, de encontro a uma senten­ça que tem fundamentos notáveis no Magistério e na Tra­dição da Igreja.

Em particular, a teoria da iluminação repentina (Klee e discí­pulos) exige milagres contínuos da parte de Deus, exigência que é pouco condizente com a sã mentalidade teo­lógica, pois derroga ao conceito de Sabedoria Divina; esta, tendo estabelecido as Leis da Natureza, não as viola senão excepcionalmente. Quanto ao primeiro da solidariedade univer­sal e íntima com Cristo (para o qual apela Boudes), ele se salva perfei­tamente na afirmação de que também as criancinhas do Limbo ressuscitarão e serão configuradas a Cristo, que é a Cabeça do Gênero Humano pelo fato mesmo da Encarna­ção.

Interessa-nos agora estudar a sorte das almas que se supõem no Limbo.

§ 3. Em que consiste o Limbo

A questão se poderia também formular: experimentam as almas no Limbo algu­ma dor, em conseqüência da qual devam ser ditas infelizes para todo o sempre?

São Roberto Belarmino (+ 1621), seguindo a escola agostiniana, assim como os primei­ros teólogos escolásticos (séc. 12), julgava dever responder afirmativamente: uma verdadeira tris­teza por estarem excluídas da Visão Beatífica acompanha as almas no Limbo.

'Dizemos que os pequeninos falecidos sem Batis­mo experimentam uma dor de alma por percebe­rem que estão privados da Bem-aventurança, se­parados do consórcio de seus irmãos e pais pie­dosos, relegados para o cárcere inferior, devendo viver perpetuamente nas trevas.

O lugar (das ditas crianças) é o cárcere inferior, lu­gar horrível e tenebroso, onde certamente não po­dem ser felizes os que aí habitam'(De amissione gratiae 1. VI cc. 6 et 2).

O Santo Doutor julgava herética a opinião contrária: 'De Fé Católica se deve crer que os pequeninos mortos sem Batismo estão condenados e carece­rão para sempre não só da Bem-aventurança ce­leste, mas também da natural'(Ibd. c. 2).

O Santo Cardeal, porém, admitia que a tristeza no Limbo é um tanto suavizada, pois:

a) as almas aí não têm consciência de haver perdido o Céu por culpa própria; por conse­guinte, não experimentam remorso;

b) nunca tendo fruído da felicidade celeste, não lhes dói muito a exclusão da mesma, de mais a mais que só possuem aptidão remota para a Visão Sobrenatural de Deus;

c) percebendo a horrorosa sorte dos réprobos, antes se congratulam por ter es­capado, mediante morte prematura, a tão tremenda desgraça.

A sentença de Belarmino ainda encontrou adeptos entre os agostinianos posterio­res (séc. 17/18), talvez influenciados pelo rigorismo jansenista: Éstio, Berti, Noris, Petávio, Natalis Alexander e Bossuet. Este se esforçou mesmo para que o Papa Inocên­cio XII (+ 1700) condenas­se a obra do Cardeal Sfrondati 'Nodus praedestinationis dissolu­tus' Romae 1687, a qual propug­nava a isenção de penas no Limbo; nada, porém, conse­guiu. Os teólogos agostinianos, por causa desta sua tese, foram mesmo apelidados 'tor­tores infantium', carrascos das crianças.

O Cardeal Noris chegava a precisar nos seguintes ter­mos os sofrimentos do Limbo:

'Muito suave e branda será a pena; originar-se-à do fogo que aquecerá com certo incômodo as cri­anças, mas não as queimará...: pois, que esses pe­queninos não são réus senão de uma culpa heredi­tária, serão atormentados por um calor graduado para causar mal-estar e sofrimento'(Vindiciae au­gustinianae. Veronae 1729 I 981).

Ao que o Pe. Perrone observa:

'Não sei que termômetro usou para determinar com tal precisão esses graus de calor e intensida­de'(Praelectiones theologicae. Parisiis 1824, ed. Mig­ne I 873).

Entre os pseudos-reformadores protestantes, em particular entre os calvinistas, a sen­tença agostiniana foi não somente propugnada, mas formulada em termos ainda mais se­veros. O mes­mo se deu entre os hereges jansenistas.

Hoje em dia, na Teologia Católica, prevalece a tese de S. To­más, que, de resto, é mais conforme ao conceito de Pecado Origi­nal: o Limbo de modo nenhum importa em pena positiva, mas é mera privação da Visão Beatífica. Deve-se mesmo dizer: a alma no Limbo é feliz por possuir o fim úl­timo ou a bem-aventurança de que é capaz a Natureza Hu­mana: vê a Deus, não face a face, mas analogamente, ou seja, à semelhança de si mesma.

A este propósito convém notar: qualquer espírito separado do corpo tem por obje­to imediato do seu conhecimento a sua própria essência, e, através desta, à semelhança desta, é que conhece outros seres. É este o caso das almas no Lim­bo; limitadas às poten­cialidades de sua natureza, elas se aplicam à contemplação de Deus, o objeto mais nobre da inteligência, mas só O podem considerar como que diminuído, reduzido à analogia de um espírito criado (de uma alma humana).

Tal visão de Deus, muito mais perfeita do que a que se possa obter na Terra pela razão natural, é, sem dúvida, manancial de alegria e bem-aventurança profun­das.

Veja-se o seguinte texto de S. Tomás:

'Essas crianças nunca foram proporcionadas à vida eterna; esta não lhes era devida nem em virtu­de dos princípios da natureza, nem em razão de al­gum ato pessoal que as proporcionasse a tão grande bem. Por isso, não experimentarão aflição por estarem privadas da Visão Divina (Sobrenatu­ral); ao contrário, regozijar-se-ão por tudo que de bens naturais receberão da Bondade Divina'(In II Sent. dist. 33, q. 2, a. 2 ad 2; cfr. De malo q. 5, a. 3).

Por isto, a alma no Limbo deve ser simplesmente dita bem-aventurada.

Alguns teólogos quiseram atribuir às almas do Limbo um sopor espiritual, como que a eternização da in­consciência do berço; somente assim é que as julga­vam poder eximir de aflição.

S. Tomás responde que essas almas, não tendo peca­do pessoalmente, nada perderam dos bens naturais. Ora, é natural à alma separada do corpo possuir um conhecimento mais penetrante e perspicaz do que quando unida ao corpo (cfr. De malo q. 5, a. 3).

Esta bem-aventurança, porém, não deixa de apresentar objetivamente um caráter de pena, pois o que, conforme o plano de Deus estaria destinado às crianças do Limbo, não é a feli­cidade natural, mas a Visão Beatífica. Não entrar na Bem-aventurança Sobre­natural, mas ficar circunscrito às possibilidades da mera natureza, significa, para o ho­mem que Deus colocou na História deste mundo, não mera negação; é autêntica priva­ção ou carência, e toda privação, em si, objetivamente falando, implica dor.

Os teólogos distinguem mera negação e privação, ou carência.

Mera negação é a ausência de um bem não devido ao indivíduo, como a ausência de asas no homem; a mera negação não é um mal nem, por conseguinte, motivo de dor.

Privação é a ausência de um bem devido ao indiví­duo, como seria a ausência de olhos no homem; a pri­vação é, sim, um mal e motivo de dor. Ora, a Visão Beatífica, desde que Deus, liberal e gratuitamente Se dignou elevar o homem à Ordem Sobrenatural, tornou-se como que o termo a que deve chegar cada indiví­duo humano. Não entrar, pois, na Visão Beatífica tor­nou-se assim um mal e, objetivamente falando, motivo de dor.

Cfr. S. Tomaz, De malo, q. 5, a. 1 ad 15:

'Um homem, no estado de natureza pura, não possui­ria, depois da morte, a Visão de Deus; mas isto não lhe seria uma sanção. Com efeito, uma coisa é não ter um direito; isto significa apenas uma ausência, não uma pena; e outra coisa é estar privado de um direi­to, o que significa uma pena'.

O estado do Limbo, portanto, considerado em si ou objetivamente, significa uma pena. Deus, porém, se digna fazer que as almas não o percebam subjetivamente como pena ou moti­vo de aflição. E isto, por um postulado da própria Justiça Divina: não seria conveniente que um in­divíduo, pessoalmente inocente, experimentasse o castigo devido a uma culpa da sua natureza ou do Gênero Humano outrora incluído no primeiro pai.

Deste princípio se segue que as almas no Limbo podem de certo modo (possibili­dade que não sabemos se, de fato, se atua) conhecer a existência de um estado superior ao seu, don­de lhes vêm talvez mensagens; em absoluto, porém, não sentem a privação des­se estado. Uma vontade reta e ordenada só deseja o que lhe é possível ou o que está na linha de sua natureza; ora, como a Visão Beatífica é sobrenatural, excedendo o alcance das forças humanas, não é ob­jeto de desejo por parte das almas do Limbo, as quais, por conseguinte, não se sentem frustra­das por não a possuir; ao contrário, têm consciência de gozar de tudo que a sua natureza possa desejar (cfr. S. Tomaz, In II Sent. dist. 33, q. 2, a. 2 ad 2). Nem concebem inveja das almas Bem-aventuradas do Céu; antes se alegram pela felicidade de que estas desfrutam.

São estas premissas que nos induzem a evitar a ex­pressão 'condenação ao Limbo', embora já tenha sido usada em Documentos antigos e de autoridade. O Limbo não implica condenação, mas, sim, detrimen­to ou dano, análogo ao que alguém experimenta quando, por fatores involuntários, lhe vê escapar uma herança valiosa, herança, porém, à qual não tem ne­nhum direito.

Positivamente, completando o quadro de bem-aventuranças do Limbo, Léssio (+ 1623) julga que as almas aí possuem um conhecimento insigne das realidades materiais e espirituais; assim iluminadas, amam, louvam e agradecem ao Criador por toda a eternida­de:

'Na renovação (final) dar-se-à aos pequeninos um conhecimento muito mais perfeito do que o que possuímos nesta vida. E isto para que aquela inu­merável multidão de crianças não seja ociosa den­tro dos seus limites, nem pareça estar em vão no mundo, mas, conhecendo a si e às outras criatu­ras, reconheçam claramente Aquele que as criou e criou o mundo inteiro; conhecendo, O amarão, O louvarão e por toda a eternidade Lhe darão graças pelos benefícios recebidos'(De perfectionibus divi­nis 1. XII c. XXII n. 144s. Parisiis 1881. 444).

O mencionado Cardeal Sfrondati chega a sustentar que a inocência pessoal, ja­mais per­dida pelas criancinhas do Limbo, constitui, da parte de Deus, um benefício maior do que a Graça Sobrenatural em certos casos, pois esta não raro é dada depois do peca­do pessoal:

'Esse benefício da inocência pessoal e da isenção do pecado é tão grande que as criancinhas preferi­riam ser privadas da Glória Celeste a cometer um só pecado; e todo cristão deve pensar assim. Por conseguinte, não há motivo de nos queixarmos ou afligirmos a respeito desses pequeninos, mas con­vém antes louvar e agradecer a Deus a propósito dos mesmos'(Nodus praedestinationis dissolutus. Romae 1687, 120).

Alguns teólogos ainda propuseram opiniões pessoais sobre a felicidade do Limbo:

O Cônego Didiot, por exemplo, está 'disposto a crer que são possíveis, e mesmo freqüentes, relações entre o Céu dos Justos e o Limbo das Crianças; que o vínculo do sangue conservará sua força na eternidade e que a família cristã reconstituída na Bem-aventurança não será privada da alegria de encontrar de novo e amar os seus pequeninos as­sociados de outrora'(Morts sans baptême. Lille 1896, 67s.).

Jarett, O.P., prefere admitir visitas das crianças a seus pais na Bem-aventurança celeste antes que a ida dos pais ao Limbo dos pequeninos (House of God 167).

Esses produtos da imaginação comprometeriam o que há de sério e belo na doutrina do Limbo, caso se lhe desse grande atenção.

No dia da Ressurreição Universal, as almas do Limbo serão de novo unidas aos seus corpos, os quais passarão a participar da sorte daquelas. As crianças ressuscitadas serão mesmo configuradas a Cristo, não enquanto o Senhor Jesus é o Princípio da Graça e da Glória sobrena­turais (no Limbo estes dois bens não existem), mas na medida em que Cristo se tornou, pela En­carnação, a Cabeça do Gênero Humano, o Homem-Modelo.

Pode-se aplicar às crianças do Limbo o ensinamento seguinte de S. Tomaz:

'Os homens bons e os maus estão todos configu­rados a Cristo aqui na Terra pela constituição de Sua natureza, senão pela Graça; por conseguinte, todos Lhe serão configurados mais tarde quanto à reconstituição da vida natural; além disto, os ho­mens bons também Lhe serão configurados pela semelhança da Glória'(In IV Sent. dist. 43, q. 1, a. 1, quaest. 2 ad 3).

Pergunta-se se as criancinhas do Limbo, ressuscitadas, participarão do Juízo Fi­nal. A esta questão quatro respostas têm sido dadas:

a) as crianças do Limbo comparecerão ao Juízo Universal, onde serão advertidas da existência do Céu, o que nelas gerará a tristeza característica de seu estado. É esta a sentença de São Roberto Belarmino e sua escola, hoje em dia pouco aceita;

b) as crianças comparecerão ao Juízo Universal e tomarão, sim, consciência de que existem o Céu e o Inferno. Todavia, a sua absoluta conformidade com os misteriosos desígnios da Providência impedirá que se entristeçam por não gozarem da Visão Beatífi­ca. Reconhecerão em sua própria sorte a obra da Justiça, da Sabedoria e da Bondade de Deus. Alegrar-se-ão mes­mo simplesmente por ter escapado à condenação eterna median­te a morte prematura;

c) as crianças não comparecerão ao Juízo Universal, já que o objeto deste são as obras moralmente boas ou más (cfr. S. Mt. 25), coisa de que são incapazes os pequeni­nos. Não partici­pando do último Juízo, não tomarão conhecimento de que os Justos pos­suem a Bem-aventurança Sobrenatural e, em conseqüência, nenhuma dor experimenta­rão por seu próprio destino;

d) os discípulos de S. Tomás respondem sobriamente: dado que as almas do Limbo compareçam ao Juízo Final (mera possibilidade), certamente Deus não lhes revelará a existência da Visão Beatífica; por harmoniosa disposição da Providência, nunca sabe­rão que existe o Céu (cfr. S. Tomaz, De malo q. 5, a. 2; Suarez, De peccatis et vitiis disp. IX sect. VI).

Quanto à duração do Limbo, não há dúvida de que não conhecerá termo, já que, conforme um princípio geral e firme da teologia, a morte assinala a cada indiví­duo o seu estado definitivo. Admitir que as almas do Limbo possam pas­sar para a Bem-aventurança celeste é contradizer a esta verdade assim como à tese, constante na Tradição Cristã, de que é preciso ao menos o Batismo de desejo para entrar no Céu.

Minges, em 1922, no seu 'Compendium Theologiae Dogmaticae specialis', afirmava ser possível que as almas do Limbo cheguem à Visão Beatífica, caso homens justos na Terra por elas ofereçam os Méritos e o Sangue precioso de Cristo.

'Forsitan possibile sit eos (pueros) salvari si homines iusti viatores pro eis merita et pretiosum sanguinem Christi Deo offerunt'(T. II 141-4).

A única razão apresentada pelo autor em favor de sua tese é a necessidade de abrir as portas do Céu tão largamente quanto o Dogma Católico o permite... No caso, po­rém, parece que o alargamento é vedado pelos princípios dogmáticos acima citados.

§ 4. Conclusão

De quanto acaba de ser dito, bem se depreende que a Doutrina do Limbo nada tem que deva suscitar hesitação ou repulsa num sadio espírito teológico.

Depois de tudo, porém, ainda se poderia perguntar: por que criou Deus crianci­nhas que Ele sabia morreriam prematuramente sem poder atingir a Visão Beatífica?

A resposta a esta questão, como a de outras semelhantes, pressupõe o conheci­mento cabal do plano de Deus, cuja sabedoria transcende a capacidade humana; é preciso, pois, renunciar à ex­plicação deste pormenor. Basta-nos ter consciência de que a criação das cri­ancinhas do Limbo não implica, em absoluto, injustiça da parte de Deus: com efei­to, o Céu representa um estado de felicidade que ultrapassa as exigências da natu­reza huma­na. Por conseguinte, não devendo a Bem-aventurança celeste a ninguém, Deus é livre de conferi-la a quem Ele queira e como Ele queira; não é, pois, injusto por não outorgar a todos o que Ele não deve a ninguém. Os indivíduos que, por falta do pré-requisito normal, o Ba­tismo, não entram no Céu, não são por isto excluídos de uma autêntica felicidade, corres­pondente às aspirações da sua natureza, felicidade que, sem dúvida, constitui motivo de profunda gratidão para os que dela gozam. O que está na linha da sua natureza, essas al­mas o possuem, dando-se por plena­mente satisfeitas com tais bens. A felicidade que toca às crianças no Limbo é muito preferível à não-existência.

Graças por isto sejam dadas a Deus!”(D. Estêvão T. Bettencourt, O.S.B., "A Vida que começa com a Morte", Part. I, Cap. VII, pp. 117-129, Livraria AGIR Editora, Rio de Janeiro, 1955).


Capítulo 4



Brevíssimo
Catecismo
sobre o
Limbo das
Crianças


Do lugar destinado aos que não são julgados:
O Limbo das Crianças


1) Há homens que, ao morrerem, não são julgados?

R= Sim, senhor; todos os que, por qualquer motivo, não tiveram uso da ra­zão (LXIX, 6).

2) Correm todos a mesma sorte?

R= Não, senhor; porém, também não se lhes dá destino diverso, no ato do Juízo, em atenção aos seus méritos ou deméritos.

3) Logo, a que se atende?

R= A que uns hajam recebido o Batismo e outros não.

4) Para onde vão os que o recebem?

R= Para o Céu diretamente.

5) E os que o não recebem?

R= Para um lugar especial conhecido com o nome de Limbo.

6) É o Limbo lugar distinto do Purgatório e do Inferno?

R= Sim, senhor; porque ali não se padece a pena do sentido, pelos pecados pesso­ais (Ibid.).

7) Padece-se ali a Pena de Dano?

R= Sim, senhor; porque os seus habitantes compreendem que estarão eter­namente privados da felicidade proveniente da Visão Beatífica, se bem que neles não reveste o cará­ter de suprema tortura, como nos condenados ao Inferno (Apêndi­ce, 1, 2).

8) Por que esta diferença na dureza da Pena de Dano?

R= Porque os condenados do Limbo compreendem que, se estão privados da Vi­são Beatífica, não é em castigo de qualquer pecado pessoal, mas por serem fi­lhos de Adão pecador, isto é, pelo pecado de natureza que pessoalmente contraíram pelo simples fato de terem nascido (Ibid.).

9) Logo, conhecem os Mistérios da Redenção?

R= Certamente que sim, ainda que o conhecimento que deles tem é superfi­cial e puramente externo, se assim nos podemos exprimir (Ibid.).

10) Podemos dizer que possuem a luz da Fé?

R= Se por luz da Fé entendemos a claridade interior sobrenatural que aper­feiçoa a inteligência e de algum modo lhe permite penetrar no mais íntimo dos mis­térios, e sentir no seu conhecimento gosto e complacência sobrenaturais e desejo eficaz de possuir o que se crê, não, senhor; posto que conheçam as verdades da Fé especulativamente, à maneira dos que estão convencidos da verdade da Revelação, porém, incapacitados para crê-la sobre­naturalmente e aprofundar-se no seu conhe­cimento, por faltar-lhes o impulso da Gra­ça.

11) Logo, podemos dizer que vêem os Mistérios da Fé à claridade de uma luz mortiça e fria que não tem cores nem comunica vigor?

R= Sim, porque, nem é luz a cujos resplendores se destaquem as negras co­res da ingratidão, nem que ocasione acessos de raiva impotente como a raiva dos condenados, nem calor de adesão, de esperança e de caridade como a dos justos na terra, nem a luz ar­dente e embriagadora da felicidade que ilumina os Santos no Céu; é uma luz sem radiações sobrenaturais, sem esperança, que não causa remor­so nem pesar, e que se limita a dar-lhes conhecimento da existência de um bem que não lhes pertence, de uma felicidade que jamais possuirão, notícia que não lhes causa tristeza, pranto, nem ranger de dentes; pelo contrário, experimentam intensa alegria, ao pensar nos dotes e qualidades naturais recebi­das de Deus e nas da mes­ma ordem com que as dotará o dia da Ressurreição (Ibid., ad 5).

12) Não fala a Igreja de outro Limbo situado junto ao das crianças que morrem sem Ba­tismo?

R= Sim, senhor; o Limbo em que aguardavam a vinda do Redentor os justos com­pletamente isentos de estorvos pessoais para entrar no Céu.

13) Está agora desabitado?

R= Recordando que Jesus Cristo baixou a esse Limbo no instante de Res­suscitar, levando consigo as almas dos que ali estavam detidos, é evidente que não tem nem pode ter o primitivo destino; pode ser, sem embargo disso, que hoje sirva de morada aos inocen­tes, formando um só com o Limbo das Crianças.

(R. Pe. Tomás Pègue, O.P., "Suma Teológica de S. Tomás em forma de Catecis­mo,
para uso de todos os fiéis", Part. III, Cap. XLVIII, pp. 255-257).



Capítulo 5


Místico diálogo da Alma,
com Deus,
que morre só com o
 Pecado Original.


“Diálogo do homem que é concebido no ventre materno e por infortúnio não nasce à luz do dia e, sem receber o Sacramento do Batismo, vai sua alma para o Limbo, casa de sua eternidade”(Fr. Antônio do Sacramento).



Místico Diálogo da Criatura com o Criador

“Que aos 40 dias, pouco mais ou menos, sendo varão, ou aos 80, sendo fêmea, é criada a alma imediatamente por Deus e infundida no corpo organizado no ventre materno, e ficam os dois, corpo e alma, uma criatura humana vivente. No mesmo instante, ao nosso modo de explicar, fala a alma com Deus, que a criou do nada, à Sua semelhança, e lhe rende as graças por tão grande benefício, submergida no profundo conhecimento do seu nada e no claro conhecimento do imenso mar do Ser Divino.

Alma: Senhor de infinita grandeza, (diz a alma falando com Deus), que a tudo o que tem ser criastes do nada, para glória Vossa: rendo-Vos as graças pelo incomparável benefício de me criardes do nada, e de me fazerdes à Vossa semelhança. Donde mereci, meu infinito bem, gozar de tão grande benefício? Neste instante próximo passado era nada, se é que o nada tem ser: e agora sou um espírito perfeito, mui semelhante aos espíritos angélicos na sua criação. Já sei, pelo conhecimento que me dais, que sou criada para Vos gozar por toda a eternidade, e para Vos honrar, por serdes digno de toda a honra e glória. Mas ai de mim, Senhor, que visto ser preciso unir-me com este corpo, organizado por virtude da natureza no ventre materno, com especial concurso da Vossa providência, receio muito, que me seja contrário nos progressos da vida, e que venha, por causa de seus apetites, a perder-Vos por toda a eternidade! É possível, meu Deus, que, sendo criada em vosso agrado, tão pouco tempo hei de lograr este bem! Que no instante, que me unir a este corpo, imundo pelas imperfeições da natureza corrupta e horroroso pelas máculas da culpa, hei de ficar asquerosa aos Vossos Divinos olhos! Que sem remédio hei de contrair o reato da culpa de Adão e Eva, só com me unir a este corpo, que deles traz sua origem! Que hei de ficar exposta a tantos trabalhos da vida humana, em perigo de vos perder por toda a eternidade! Com tudo, Senhor, rendo-me de boa vontade às Vossas divinas determinações; pois conheço que são inescrutáveis Vossos juízos (Apoc. 16, 7).

Levado da Sua infinita bondade, fala Deus à alma e a consola, para que entre a informar o corpo, por ser isto muito do Seu divino agrado.

Deus: Filha Minha, a quem do nada criei à Minha semelhança, e a quem tenho um amor infinito. Bem vejo que és mais escolhida que o sol, mais formosa que a lua e mais resplandecente que a estrela d’Alva (Cânt. 6, 9); e que, com a união que estás para fazer com este corpo, imundo pelo pecado, hás de ficar asquerosa como lepra, e horrorosa como a noite escura; porém, atendendo à Lei que pus a Adão e Eva, como eles transgrediram o Meu Preceito, não há remédio senão que informes esse corpo amaldiçoado, e que fiques contraindo a culpa de Adão. Executa com submisso rendimento esta Minha determinação, que te darei meios, como dei aos primeiros pais, para que chegues a lograr a Minha Bem-aventurada vista, com mais realce da Minha graça. Dou-te a vontade livre, para que, chegando tu e o corpo, teu companheiro, à luz do dia e à luz da razão, escolhas o que melhor te estiver a gosto, ou salvação ou condenação eterna. Para te segurares no melhor partido: na Minha Igreja tens uma Lei e um Batismo, os quais, juntos com boas obras, são porta franca para a Minha glória (S. Jo. 3, 5). Entra já, e não temas.

Novamente falando a alma com Deus, lhe expressa seus temores, para entrar à união do corpo.

Alma: Muito me agradará, Senhor e Deus meu, o dar cumprimento à Vossa divina Vontade, que devo antepor a todo o meu desejo; porém, oh, quanto temo que a entrada neste corpo hediondo seja para minha perdição eterna! Este corpo sempre será contrário ao espírito; e só por milagre da Vossa Divina Onipotência se sujeitará às leis da razão. De certo teremos uma guerra contínua toda à vida (Jó 7, 1), ainda que espere na Vossa infinita bondade o subjugarei, quanto for possível, para que siga as leis da razão, e não as do apetite, em termos que se siga a Vossa glória, e eu chegue a lograr a Vossa vista. Mas ai, que não sei se este corpo, que me mandais informar, para que tenha espírito de vida, é gerado de pais gentios, ou de maometanos, ou de hebreus, ou de hereges, ou de cismáticos, que não Vos conheçam ou não Vos amem! E, neste lance, dificultosa será a minha salvação; porque, pela criação, que nos hajam de dar, ficarei instruída em erros, sem o Vosso santo temor, sem conhecimento de Vosso Santo Nome e sem Batismo e quando não seja condenada a penas eternas, por não ter cometido pecados atuais em matéria grave, ficarei sem gozar para sempre da Vossa vista! Ó Senhor, a quem adoro submergida na profundeza do meu nada: que é isto, a que me expõe Vossa ciência infinita?

Responde Deus à alma e lhe diz: que não esquadrinhe os inescrutáveis segredos da Sua Providência!

Deus: Não te compete, Minha filha, saber os segredos da Minha Providência. Sou Senhor Onipotente; e na Minha poderosa mão está o fazer vasos de escolha ou de injúria: sem fazer injustiça aos vasos, não obstante serem todos fabricados do mesmo barro (Rom. 9, 21). Determino-te que informes este corpo, e com tua união fique em estado de vivente; e assim como receias que seja oriundo de pais que, pelos seus maus costumes, te desviem da Minha Lei e da Minha Graça, e que sejam causa motiva da tua condenação eterna: também podes informar um corpo oriundo de pais virtuosos, que te dirijam pelos caminhos da santidade, e gozes para sempre da Minha gloriosa vista. O certo é que, ou os pais deste corpo que informas sejam bons ou maus, se morreres sem Batismo, será a tua sorte a de ires ser habitante do lugar do Limbo, nas profundezas da terra, até o dia Juízo; e se chegares a sair à luz do dia e à luz da razão, na tua vontade fica escolher boa ou má sorte, ou de salvação ou de condenação: pois não hei de faltar em te assistir com todos os meios para te salvar. Ainda que em Minhas mãos poderosas estejam todas as boas sortes, na vontade, que te deixo livre, está o poderes escolher da Minha mão uma sorte boa. Entra já a informar este corpo, e não inquiras mais os segredos da Minha Providência; porque estes não estão subordinados à vontade das criaturas e só saem à luz, quando são executados pelas Minhas determinações soberanas.

Fala a alma ao corpo, antes de o informar; expressando o grande horror que lhe tem.

Alma: Irmão corpo, a quem vejo, como sepultado, no apertado túmulo do ventre materno, cheio de fealdades, tendo mais demonstrações de monstro, do que de homem: a quem tua mãe, pouco tempo há, concebeu em pecados, elevada em seus apetites: Dou-te parte, que és, e não outro, aquele a quem, por determinação da Divina Vontade, venho informar com espírito de vida. Comigo hás de viver unido, e inseparável, em todo o tempo que formos peregrinos no mundo. Por esta união ficarei (oh desgraça maior)      contraindo o Pecado Original, que tu e teus ascendentes contraíram em Adão (Rom. 5, 12). Uniformemente seremos participantes dos trabalhos e dos gostos da vida: e depois da morte, a que ficamos sujeitos, seremos participantes, a seu tempo, ou da salvação ou da condenação, por séculos sem fim. Hás de entender, irmão corpo, que sou um espírito nobilíssimo, criado imediatamente por Deus, e que tu és vil, oriundo da terra, vaso de barro e frágil. Se, pelo benefício de te dar alentos de vida e te associar a mim com estreita união, me fores fiel companheiro, conseguiremos uma boa sorte, que é, na vida mortal, amar a Deus e depois na vida, que esperamos, o goza-Lo para sempre. No meu domínio e na tua obediência, estará a nossa dita.

Responde o corpo à alma, agradecendo-lhe o benefício de o fazer vivente e de admiti-lo à sua companhia.

Corpo: Nobilíssimo espírito, imediatamente criado por Deus, com evidentes demonstrações de Sua imagem: Seja em boa hora a tua vinda a informar-me com espíritos de vivente. Faço-te saber que sou tão miserável, que, tendo minha origem da terra, e neste cárcere materno, onde me vês, tenho aparências de monstro. Tão hediondo estou, que, se desta sorte, que me queres informar, fosse visto do mundo, a todos causaria espanto. Porém, rogo-te, alma, que me infundas os espíritos de vivente; que espero no Senhor, que te criou, de te ser fiel em tudo. Advirto-te, que não te fies nas minhas promessas; porque, como sou barro (Gên. 5, 19), sou quebradiço, e como sou pó, qualquer vento me leva, e tudo depois acaba em ruína. Bem conheço a diferença que há entre mim e ti: que eu sou corpo caduco, e tu és espírito perfeito; eu sou criado, e tu és senhora; eu sou vil, e tu és nobilíssima; imortal, à tua parte compete o mando, e à minha, a obediência. Se me tratares com rigor, serei fiel servo; e se me lisonjeares com amor, ser-te-ei ingrato. Usa alma, do teu direito, se queres ter em mim domínio: eu estou pronto para te obedecer; porém, não faltes em me subjugar. Havendo entre nós esta economia, haverá em nós vida, graça e glória.

Informa a alma ao corpo, e ficam um composto vivente, companheiros inseparáveis por toda a vida.

Alma: Sem demora, irmão corpo, te dou alentos de vida; porque assim o determina o Autor da Natureza e da Graça. Recebe em boa paz este íntimo abraço que te dou. É tão íntimo e apertado este abraço, que durará em perfeita união por toda a vida caduca, e depois do Juízo Final durará, com nova reunião, por toda a eternidade. Oh, praza à Majestade Divina, que esta nossa união seja para glória eterna, e não para eterna pena! Irmão corpo: Enquanto estivermos encerrados neste cárcere materno, me sujeito a todos os teus movimentos; porque me acho em estado de não poder usar de minhas potências. Estou adormecida, mais com aparências de morta, do que com realidades de viva: porém, se sairmos à luz do mundo, usarei a seu tempo do meu direito. Espero que me reconheças por senhora, e a ti por servo, para que, em tudo, trabalhemos com acerto, e Deus seja em nós glorificado.

Alma e corpo agradecem a Deus o estado de viventes, em que se acham no ventre materno: lamentando-se da sua prisão e do perigo, em que existem, de não saírem à luz do dia, pelo nascimento, e à luz da Graça, pelo Batismo.

Alma e Corpo: Altíssimo Deus, Criador de tudo e Salvador nosso: Infinitas graças Vos sejam dadas pelo incomparável benefício de nos tirardes do nada para o ser, e de nos dardes alentos de vida. Aqui estamos em perfeita união neste cárcere materno, rendidos às determinações de Vossa Santíssima Vontade; e intimamente desejamos que se cumpra em tudo que for de glória Vossa. Pedimo-Vos, porém, se não encontra Vossas Divinas determinações, que nos livreis de perigos de vida nesta escura prisão; pois são sem número os que nos acometem: e será grande desgraça nossa não chegar pelo nascimento à luz do dia, para conseguirmos pelo Batismo a luz da Graça e ficarmos em via de merecer a Vossa glória. Senhor valha-nos a Vossa poderosa mão, para que saiamos deste miserável mar às praias do mundo, e que não aconteça que, por descuido de nossa mãe, ou por algum infortúnio, passemos deste escuro cárcere para as regiões da eternidade, sem esperança de lograr o bem de Vossa Bem-aventurada vista.

Consola Deus aos dois companheiros, alma e corpo, animando-os, para que estejam conformes com Sua Santíssima Vontade em todo o infortúnio, que lhes possa acometer no ventre materno.

Deus: Criaturas Minhas, a quem fiz à Minha semelhança, e a quem dei o ser e a vida, por altos fins da Minha Providência: Chegam a Meus ouvidos vossas vozes, e ferem Meu Coração vossas misérias. Tende paciência nos trabalhos e confortai-vos nos infortúnios. Ide continuando os movimentos de viventes nesses apertos do útero e nessas escuridades do ventre, para que a seu tempo chegueis a sair à região dos peregrinos. A natureza, de quem Sou Autor, também concorrerá com o que lhe toca à sua parte; causados pela negligência dos pais e pela malícia das criaturas. Com minha mão poderosa poderia desviar tudo; porém, como deixo obrar as causas segundas, por não revogar as Minhas determinações primeiras, daí se segue ficarem algumas vezes frustradas muitas coisas, que determinava em bem de Minhas almas. Dou-Vos a Minha Santa Bênção, e continuai com o movimento de viventes neste lugar em que vos achais.

Por descuido da mãe, ou por indisposição da natureza, ou por industriosa malícia de alguma criatura, morre no útero o feto animado; e em tal infortúnio se aparta a alma do corpo, caminhando um e outro para o seu lugar determinado, e lamentando sua infelicidade.

Alma: Irmão corpo (lamenta a alma), com quem, poucas horas, ou poucos dias, ou poucos meses há, me uni tão estreitamente: É possível que, entre tantas almas e corpos que, ao depois de criados, tiveram a felicidade de sair à luz do dia, de receberem a luz da Graça, de terem a luz do da razão, de possuírem a luz da Fé e de gozarem a luz da glória, só nós não havíamos de ter esta alegria! Deste escuro cárcere do ventre materno, onde estamos com prisões tão apertadas, havemos de ir, tu para um monturo, a converter-te em terra, e eu para o Limbo, para estar na companhia de outras almas, pouco afortunadas, a esperar em obscuridade a vinda do Senhor a Juízo Final, para sermos outra vez reunidos, sem esperanças de ver a Divindade do Altíssimo por toda a eternidade! Vai, irmão corpo, seguindo o teu caminho para este monturo: converte-te em terra (Gên. 3, 19), e nela descansa até o Juízo Último; que então virei informar-te outra vez, para sermos inseparáveis companheiros no lugar, à que Deus nos mandar ter nossa habitação por toda a eternidade.

Despede-se também o corpo da alma, lamentando sua desgraça em não chegar à luz do dia e em perder o direito da glória.

Corpo: Alma minha e muito amada senhora: Oh, quanto glorioso estava, por me teres dado alentos de vida, e por possuir a esperança de merecer no mundo com boas obras a Bem-aventurança eterna! E agora quão triste me afasto da tua sociedade! Vou ser lançado na terra, como se fosse terra; e a mesma mãe, que me concebeu, é a primeira que aborrece minha presença. Serei lançado em um monturo com nojo, e quando falarem em mim será com espanto. Serei desprezado, como se não chegasse ao ser da vida, e minha lembrança ficará sepultada na mesma terra, onde me derem o jazigo. Vou esperar nesse monturo a Ressurreição dos Mortos; e então virás com virtude superior informar esta pouca terra, que de mim se conservará, e ressurgirei melhorado; porque por virtude Divina crescerei a estatura perfeita, sem estas imperfeições, que agora tenho. Esse será o dia, em que nos ajuntaremos com união tão inseparável, que jamais nos dividiremos por séculos sem fim. É verdade que seremos sempre acompanhados da pena de não podermos ver a Deus na glória, ainda que, com todos os mais filhos de Adão, teremos a alegria de ver no dia do Juízo ao Redentor do Mundo, Jesus Cristo Nosso Rei (S. Mat. 24, 30), não quanto ao Ser Divino, senão quanto ao ser Humano. Depois de assistirmos ao Juízo Universal e de vermos a Cristo, triunfante de Seus inimigos, subir com Glória e Majestade para a Bem-aventurança, com todos os Anjos e Justos na Sua Companhia; e depois de vermos submergidos nas entranhas da terra aos condenados e ficarem nos Infernos penando por toda a eternidade (S. Mat. 25, 41): ficaremos no nosso competente lugar para sempre, com todos os mais corpos e almas, a quem coube esta nossa sorte. Vai com Deus, alma, para esse cárcere do Limbo, louvar aos altos juízos do Senhor; que eu cá te espero para a ressurreição geral, e serás para sempre minha inseparável companheira.

Parte a alma para o Limbo, lugar no centro da terra, e mutuamente se saúda com as almas, que estão naquele lugar, consolando-se com a sua sorte.

Alma: Almas, que estais encerradas neste estreito lugar do centro da terra: Aqui sou chegada à vossa companhia, para vos fazer perpétua sociedade na vossa pena. A vossa sorte em tudo foi como a minha: disposições foram do Altíssimo, cujos segredos são incompreensíveis ao entendimento criado. Consolemo-nos umas com as outras, e rendamos contínuos louvores ao Senhor, que assim foi servido. Esta consideração nos alentará neste lugar; porque suposto não seja bastante para nos aliviar a saudade, procedida da certeza de não podermos ver a Face de Deus, sempre nos consolará na nossa pena; e porque estamos livres da mágoa, que tem os que ofenderam ao nosso Criador com alguma culpa atual. Não nos seja pesada esta prisão, até a Segunda Vinda do Senhor, a julgar ao mundo; pois os Santos Padres antigos também experimentaram aqui semelhante prisão, até a Primeira Vinda do mesmo Senhor a remir com Sua Morte aos homens do cativeiro do pecado. Algum dia há de ter fim esta nossa prisão, e dizem que será para o dia do Juízo Final, quando cada um de nós for informar, por virtude Divina, o corpo, seu antigo companheiro, para viver com ele de sociedade para sempre. Iremos naquele tremendo dia com os mais filhos de Adão a juízo, unidas aos nossos corpos (S. Mat. 25, 32): e então teremos a consolação de ver ao nosso Criador, a Maria Santíssima, Sua Mãe e nossa Irmã, aos Anjos, aos Bem-aventurados, e aos nossos pais, parentes e irmãos, dos quais pode ser que uns subam em triunfo com o Redentor para a Glória, e outros desçam em confusão com Lúcifer para o Inferno. Então, segundo se afirma, ficaremos povoando o mundo reformado e vivendo em contentamento e alegria, como haviam de viver os nossos primeiros Pais no Paraíso, se não decaíssem da Graça Original. Também, segundo a mais pia opinião, veremos daquele lugar onde habitarmos, a Humanidade de Cristo Senhor Nosso na Bem-aventurança, a presença de Maria Santíssima e a dos Bem-aventurados. Porém (ó saudade sem limite), não veremos a Divindade e Glória de Deus; porque não tivemos a fortuna de entrar na Igreja Militante pela porta do Batismo e pela luz da Fé, que são as portas, por onde o Senhor franqueia a entrada para a Bem-aventurança. Consolemo-nos, caríssimas irmãs, pois assim o dispôs o Altíssimo; e como esta é a nossa fortuna, determinada pela Sua Divina Vontade, devemos conformar-nos com ela e fazer ao mesmo Senhor contínuas canções de louvor e glória.

Correspondem as almas do Limbo à alma, sua nova companheira, com semelhantes consolações.

Almas do Limbo: Nossa irmã caríssima: Bem-vinda sejais para a nossa sociedade. Agradecemos muito a consolação, que nos dais nas vossas palavras, fundadas em tanta razão e em tão bons princípios. Muitas de nós aqui estão encarceradas há muitas centenas de anos, e sempre temos estado conformes com a Vontade Divina. Serve-nos de grande consolação considerarmos que isto foram disposições do Altíssimo para glória Sua. De certo entendemos que o Senhor nos fez uma incomparável mercê em nos criar do nada à Sua semelhança e que, suposto não esperemos gozar da Sua Divindade, sempre temos a confiança, que havemos de gozar para sempre da Sua Bênção e do Seu Amor. Depois que informarmos os nossos corpos na Ressurreição Geral, teremos os dotes naturais em grau perfeito, e gozaremos neste lugar, que Deus nos permitir, que dizem será o mundo reformado, todas as delícias castas e divertimentos honestos. Serão tais estes regozijos, que nunca haverá no mundo semelhantes, enquanto for habitado dos mortais; e segundo já nos insinuastes, teremos, conforme a opinião de alguns autores, grandes consolações com a vista da Santíssima Humanidade de Cristo, de Maria Santíssima, dos Anjos e dos Bem-aventurados. Os astros e planetas, que sempre seguiram seu curso, nos darão benignas influências, e os elementos nos serão em extremos saudáveis. Veremos desta nossa habitação estes horrendos calabouços, principalmente o lugar e os tormentos dos condenados, sem termos da sua desgraça alguma pena, porque eles assim o mereceram pelas suas culpas. Com muitas danças honestas e canções devotas, louvaremos ao Senhor em alegria e, desta sorte, aliviaremos a saudade de não ver a Sua Divina Face. Passarão as continuadas rodas dos séculos e voltarão a principiar, sem nunca terem fim; e em disposição perfeita, com notável agilidade, e com grande contentamento, viveremos enquanto Deus for Deus. Esta é a sorte, que nos espera depois de sairmos deste cárcere subterrâneo, e dela gozaremos, nós que somos milhões de almas que aqui estamos: sendo a causa desta nossa sorte, em umas, o não chegarem a ver a luz do dia; porque expiraram no ventre de suas mães; em outras, porque nasceram ao mundo e morreram sem Batismo; e, em outras, porque sendo filhas de gentios, maometanos, hebreus e de hereges, acabaram a vida sem Batismo e sem cometerem culpa mortal”(Fr. Antônio do Sacramento, da Sagrada Religião dos Observantes da Província de Portugal, “Ventura do Homem Predestinado e Desgraça do Homem Precito”, Diálogo I, pp. 15-29, 1ª Edição Brasileira, Ed. Vozes, 1938).

Fonte: Acessar o ensaio "A Doutrina Católica sobre o Limbo das Crianças" no link "Meus Documentos - Lista de Livros".

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