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"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

segunda-feira, 4 de maio de 2015

As mulheres na Idade Média

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Recentemente, fui surpreendido por uma afirmação que não chamaria minha atenção caso se limitasse a representar apenas a opinião de uma pessoa isolada. Chama atenção, justamente, por ser difundida como suposta opinião crítica a respeito da condição das mulheres na Idade Média: “na idade média não tinham direito a voto, não tinham direito de estudo, não tinham direito de se expressar através das palavras, eram destinadas a servirem as suas famílias, apenas.”

Pensando nisso, resolvi fazer uma série de posts acerca das notáveis mulheres da Idade Média. Antes, gostaria de responder o seguinte:

1) Nem homem nem mulher tinham direito a voto na Idade Média. A ideia de “sufrágio universal” só apareceu muito tardiamente na história do Ocidente. Para ser exato, a primeira nação a adotar foi a Primeira República Francesa em 1792 (lembrando que o símbolo era uma Mulher imortalizada na obra de Delacroix). No entanto, para surpresa de muitos, a Nova Zelândia em 1893 se tornou a primeira nação do mundo a conceder o sufrágio universal para mulheres e homens. A ordem política medieval não é fixa, pois o período durou mais ou menos mil anos. Para quem se interessar, há grandes estudos sobre isso, recomendo, embora não seja uma leitura tão fácil, o livro História das Ideias Políticas, volumes II e III, de Eric Voegelin. Sobre a importância política das mulheres, recomendo o livro “The Fourth Estate: A History of Women in the Middle Ages” da importante porém ainda pouco conhecida aqui no Brasil historiadora Shulamith Shahar.

2) A ideia de que mulheres não podiam se expressar através das palavras pode ser facilmente refutada com os fatos. Basta SÓ lembrarmos da atividade intelectual de uma única mulher notável como Hildegarda de Bingen (1098-1179), autora de obras filosóficas (trilogia Liber scivias Domini, Liber vitae meritorum e Liber divinorum operum), ciências naturais (escreveu uma grande chamada: Liber subtilitatum diversarum naturarum creaturarum) e uma quantidade significativa de músicas e poesias por ela publicada (eu tenho obras completas em CD, a Ordo virtutum é a mais famosa).

3) Para refutar a ideia de que mulheres eram destinadas a servir apenas às suas famílias numa submissa vida doméstica, citarei também um exemplo: a Duquesa Leonor da Aquitânia. Ela foi, sem dúvida, uma das mulheres mais poderosas da Idade Média. Para um outro relato a respeito da vida cotidiana das mulheres na Idade Média, recomendo o livro “Women’s Lives in Medieval Europe: A Sourcebook” da medievalista Emilie Amt, publicado em 2009. O livro traz uma série de fontes primarias sobre a influência das mulheres na sociedade.

Quando o assunto é Idade Média algumas pessoas levantam da cadeira para “esbravejar verdades”. Todos têm um palpite sobre a terrível “Idade das Trevas” (bocejos). Agora, quando o assunto é Idade Média e Mulher, prepare-se, será bem provável arrumar um inimigo fundamentalista defendendo a “opressão machista” medieval. Muita informação acerca da Idade Média chegou mediante os críticos e não os estudiosos sérios. Levante a mão quantos medievalistas você realmente conhece.

O Iluminismo francês foi uma verdadeira máquina de propaganda anticlerical — sem contar a ajudinha da Reforma protestante. Tudo o que era relacionado à Igreja, portanto a Idade Média, tornou-se motivo de chacota: sinal de ignorância, medo e escuridão. Nada ficaria em pé até que o último rei fosse enforcado nas tripas do último padre. Arroga-se ao Iluminismo francês ter sido o primeiro movimento intelectual a produzir uma Enciclopédia: “Encyclopédie, ou dictionnaire raisonné des sciences, des arts et des métiers”. Na verdade, já haviam sido produzidas enciclopédias antes, sobretudo na Idade Média.

No século XII há uma profusão delas. Honório de Autun (1080–1154) escreveu a “Imago mundi”, uma verdadeira crônica da história universal. Arnold Saxon escreve a “De Rerum naturalium Floribus”. William de Auvergne publica “De universo creaturarum” em 1231. Entre tantas outras.

Mas é de uma mulher que precisamos lembrar: a abadessa Herrade de Landsberg. Nascida em 1167, na França, foi responsável pela primeira enciclopédia ilustrada do século XII, intitulada Jardim das Delícias Terrenas (Hortus Deliciarum), reuniu estudos sobre teologia, astronomia, agricultura, artes, história e direitos. O livro servia para instrução de outras freiras do convento. Sua obra é de 1169 e 1175. Além disso, dedicou-se à poesia e ao ensino. São atribuídas a ela as ilustrações de sua enciclopédia. Herrade Landsberg figura o medalhão na fachada da Biblioteca Nacional e da Universidade de Strasbourg. Quanta opressão essas mulheres sofriam! Só comparada com opressão da nossa ignorância.

Para quem realmente deseja conhecer o papel das mulheres na Idade Média, e conhecer por meio da obra de uma verdadeira ESPECIALISTA no assunto “mulheres na Idade Média”, e não especialista em preconceituosas generalidades sobre Idade Média, recomendo o livro da Régine Pernoud “As mulheres no tempo das Catedrais”. Há outros sobre as mulheres: “Aliénor d’Aquitaine”, “Jeanne d’Arc”, “Hildegarde de Bingen : conscience inspirée du XIIe siècle”, “Visages de femmes au Moyen âge” etc.

Fonte: Francisco Razzo


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