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"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Vitória da Presença Real de Jesus Cristo na Eucaristia sobre os Demônios

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No século XVI, no auge das guerras de religião, houve um caso de possessão diabólica e de exorcismo que teve enorme repercussão em toda a França e mesmo em toda a Cristandade. Todos, católicos e protestantes, consideraram este caso como uma possessão absolutamente certa; o resultado, porém, veio a ser grande confusão e desmoralização para os protestantes e um triunfo para os católicos.



1º – Uma Aparição.



Uma senhora de Vervins, recém-casada e cercada de afeição pelo marido, rezando no túmulo da família, viu aparecer um fantasma, envolvido numa mortalha branca. Volta para casa, toda trêmula, e lá se lhe depara a mesma aparição. Deita-se e sente o fantasma pesar-lhe sobre o peito, asfixiando-a, a ponto de não poder gritar. Ela foi confessar-se; voltando, porém, a casa, encontra a mesma visão, não mais envolvida na mortaha, mas com o rosto descoberto. Não te confessaste bem”, disse a aparição; e acrescentou: “não tenhas medo, eu sou teu avô”. Nicole, era este o nome da pessoa, reconheceu perfeitamente seu avô, morto havia dois anos. Desmaiou e pensou que ia morrer. O fantasma afinal lhe diz os motivos de suas visitas: está no Purgatório e pede romarias, Missas, orações e esmolas.



Nicole, então, decide-se a falar e logo se celebram as Missas, dão-se as esmolas e fazem-se as romarias pedidas. Mas, enquanto se celebra a Missa, Nicole sente-se atormentada de um modo extraordinário, e quando os seus voltam da igreja, encontram-na escondida debaixo da cama de seu pai, enrijecida, sem sentidos, e com as mãos como que soldadas uma à outra. Chamado o Padre, lhe diz: “Espírito imundo, quem quer que sejas, eu te ordeno, em Nome de Deus, solta as mãos”. Soltou. Mas, desde então, a pobre mulher aparece, ora rija e dura como uma pedra, ora agitada por uma espécie de fúria, batendo com a cabeça contra as paredes, e como que querendo lançar-se ao fogo.



2º – Primeiro Exorcismo.



Naturalmente, já se conjecturava que se tratasse de alguma intervenção diabólica, quando chegou a Vervins, para pregar o Advento, um santo religioso da Abadia de Vally, Padre de la Motte. Este foi encarregado de fazer o exorcismo.



Na igreja, na presença do povo, diante da cruz e Santíssimo Sacramento, o religioso procede às conjurações rituais. O Demônio ruge e esbraveja. O Padre lança mão da Santa Hóstia. Nicole começa a inchar de um modo horrível; o rosto torna-se espantoso; ela dá gritos que se ouvem ao longe. Satanás, intimado a dizer quem é, declara com espanto da assistência que é Belzebu em pessoa. Saiu no mesmo instante do corpo da possessa, mas, apenas acabada a cerimônia, tornou a entrar. O Padre pede socorro, isto é, implora em toda parte orações para conseguir libertar a pobre mulher. “Ah, tu te fortificas contra mim, disse o Demônio, eu também me fortifico, chamarei todos os diabos para me ajudarem”. “E eu, disse o religioso, chamarei todos os Anjos para derrotar-te. Vai dizer a Lúcifer que, com Deus, não tenho medo de ti, nem de todos os Demônios”.



3º – Segundo Exorcismo.



A luta ia tomando proporções gigantescas. O Bispo de Laon, Mons. Bours, decide intervir pessoalmente. Chegou a Vervins com dois Padres, grandes teólogos. No dia seguinte, celebrou a Santa Missa na presença de uma grande multidão de pessoas. Nicole estava deitada em uma cama atrás do altar, donde podia assistir ao Santo Sacrifício. Depois da Missa, é trazida à presença do Bispo, este procedeu ao exorcismo.



Qual é o teu nome?

Belzebu.

Qual o número de teus companheiros?

Somos doze.

Eu te ordeno, pelo poder de Deus, que saias desta criatura com teu exército.

Sim, sairei, mas por enquanto não.



O Bispo, sem prestar atenção a estas palavras que compreenderá somente mais tarde, adjura Satanás, queima o seu nome, apresenta-lhe a cruz e a Hóstia Santa. O maldito foge, mas é para voltar pouco depois, como fizera com o religioso, Padre de la Motte. A saída e a volta de Satanás se deram várias vezes, de sorte que o Bispo voltou para sua cidade episcopal, deixando o povo sob a impressão penosa de insucesso.



4º – Os Protestantes Confundidos.



Numerosos, naquele tempo e naquela região, os protestantes quiseram aproveitar o ensejo para intervir. No entanto, não estavam nada satisfeitos com Belzebu e isto por dois motivos: primeiro, porque os católicos tiravam um argumento a favor da Presença Real de Jesus Cristo na Hóstia Sagrada, já que por duas vezes o Demônio tinha fugido diante dela; em segundo lugar, porque havia dois meses o Diabo não cessava de chamar os protestantes de “meus amigos, meus filhos, meus criados que fazem minha vontade”.



Que vitória para eles e que demonstração de não serem eles amigos do Diabo, se conseguissem expulsar Satanás de onde os Padres e o próprio Bispo não conseguiram alijá-lo. Vão, pois, atacar o Diabo, não com exorcismos, mas com textos da Bíblia, textos até em versos. O pastor Tournevèle se aproxima e começa a ler Salmos.



– “Pensas tu, lhe diz Belzebu, que um diabo pode expulsar outro Diabo?

– “Tu és pior que eu, eu creio e tu não crês, (naturalmente faz alusão à Presença Real) e por isto, por não creres, eu te aprecio muito, a ti e a todos os meus bons amigos protestantes”. E Belzebu insinua ainda que Tournèvele é mais doente que Nicole, já que ele tem o espírito maligno na inteligência, enquanto ela só o tem no corpo; depois virando-se para o pastor Ribemont, zomba deles e lhes põe nomes.



Tournevèle replica:



– “Peço ao Senhor que assista a esta pobre criatura”.



E o Diabo acrescentou:



– “Peço a Lúcifer que não te largues, mas te traga sempre bem preso. Ide, ide, não farei nada em vosso favor, não me despejareis, porque sou vosso senhor, e vós sois todos meus escravos”. Para cúmulo de humilhação, os protestantes, tem de ver o Padre de la Motte acalmar com a Sagrada Comunhão a possessa, que também se pôs a zombar dos Salmos em versos. A Comunhão, sim, acalmava; mas era sempre uma calma provisória. Belzebu, apenas saído, voltava.



– Nossa Senhora.



Lembraram-se de recorrer a Nossa Senhora de Liesse. Poucos dias mais tarde, um carro levava àquele Santuário Nicole, mais atormentada que nunca, acompanhada da mãe, do marido e do Padre de la Motte. Sob o carro ouvem-se terríveis denotações. A possessa torna-se tão pesada que os cavalos não podem mais avançar. O Padre lhe dá a Comunhão; no mesmo instante, os cavalos lançam-se com tal ímpeto, que parecem voar e rapidamente chegam a Liesse.



No dia seguinte, Missa, sermão, procissão e exorcismo. Vinte e seis Demônios saem de Nicole com um barulho infernal. Era o socorro que Satanás havia pedido. Todos os esforços do exorcista são impotentes contra a resistência de Belzebu e três companheiros. Disse Satanás: “Tu podes ficar aqui e pelejar até meia-noite e durante cem anos, nenhum de nós sairá. Os vinte e seis que saíram mandei-os para Genebra (o centro do protestantismo ou calvinismo).



6º – Terceiro Exorcismo.



Decidem recorrer de novo ao Bispo e por isto tomam o caminho de Laon. Passando pelo Santuário de Pierrepont, célebre pelas suas relíquias, Nicole vê-se livre de um dos quatro Demônios que ainda a possuíam. O Bispo a exorciza na Catedral. O Diabo zomba, injuria, e à vista da Hóstia Santa, enfurece-se. Ouvem-se, então, como saindo dos tubos de um órgão, o grunhido de um porco (Astaroth), e o latido de um cachorro (Cerberes) e o mugido de um touro (Belzebu), e todos três, porco, cachorro e touro agitam-se no corpo de Nicole que seis homens mal podem segurar. Depois da Comunhão, ficou calma; mas, ainda uma vez calma transitória, já que o Demônio se obstina em voltar, após cada expulsão. Todavia, o prodígio produziu uma grande e salutar impressão. Parecia claramente que só o Deus dos católicos tinha poder sobre Satanás. Em toda a região só se falava nisto. Deram-se muitas conversões; os confessionários eram tomados de assalto. Os protestantes agitavam-se como Demônios. Procuraram fazer acreditar que tudo era embuste, que Nicole era adestrada pelos Padres e que era deles que aprendia as insânias que proferia nos exorcismos. Parece mesmo que procuraram envenená-la; o Diabo o disse em um dos exorcismos, como revelou também que os mesmos acabavam de cometer uma horrível profanação da Hóstia Consagrada. “Oh, acrescentou o Demônio, se Jesus Cristo ainda andasse neste mundo, eu, com os meus protestantes, lhe faríamos maior mal que os judeus”.



7º – A Libertação.



O Bispo não desanimou; multiplicou os jejuns, as orações e convidou as autoridades religiosas e civis da cidade para uma suprema e solene conjuração. Tanto a assistência como a cerimônia foram imponentes. Com os católicos, havia muitos protestantes. Belzebu rugia mais forte que nunca. Nicole não tinha mais figura humana: a boca excessivamente aberta, a língua pendente, a face inchada. Os protestantes tinham conservado o chapéu na cabeça. “Abaixo os chapéus”! Gritaram os católicos. Foi grande a briga. Feita a calma, o Bispo apresentou a Belzebu o Santíssimo Sacramento. Diante de Deus Todo-poderoso, enfim, Satanás assinala sua retirada definitiva por uma coluna de fumaça, dois raios e dois trovões.



A pobre mulher ficou para sempre liberta da horrível possessão de Satanás. Voltou para Vervins, onde viveu como boa e fervorosa católica. Só faltava transmitir à posteridade a relação destes fatos extraordinários. Foi obra de Jean Boulaire, Padre e professor de letras hebraicas. Publicou em dois volumes, em 1575 e em 1578, o resultado de suas pesquisas: “Tesouro da Vitória do Corpo de Deus sobre Belzebu”, e, “Manual da Admirável Vitória do Corpo de Deus sobre o espírito maligno”. Dá os depoimentos das testemunhas. Seu trabalho foi aprovado pelos Papas Pio V e Gregório XIII (Segundo o L'Ami du Clergè, 1909, pág. 167).



Fonte: Pe. Guilherme Vaessen, C.M., “Satanás – Sua Natureza, Existência e Atuação”, Cap. XV, pp. 107-113; Edições Paulinas, Caxias do Sul – RS, 1958.

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