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"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

quinta-feira, 21 de outubro de 2021

As Sete Palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo, no Alto da Cruz. 6ª Parte.


SEXTA PALAVRA1


Consummatum est”2

Tudo está consumado”


Esgotado até as fezes o cálice das amarguras, cumprida à risca a vontade do Pai Eterno, realizada todas as profecias, verificados todos os pormenores preditos pelos videntes do Antigo Testamento, expiados, super abundantemente, os pecados da humanidade, Jesus bem podia proferir as palavras: “Tudo está consumado”.

Consummatum est.

Em primeiro lugar, estava cumprido tudo quanto os profetas haviam dito acerca da vida, Paixão e Morte de Jesus.

Esse fato, que constituiu motivo de escândalo para os Judeus e os ímpios, estava anunciado, em suas circunstâncias principais, nos livros do Antigo Testamento e, em particular, no capítulo LIII de Isaías, que pode ser considerado como uma narração das cenas principais do drama do Calvário.

Assim é que encontramos mencionados nas antigas profecias, os principais acontecimentos verificados na Pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo, tais como sejam: a traição e a restituição do dinheiro; a morte funesta de Judas; a dispersão dos discípulos; a queda na torrente de Cedron; as falsas testemunhas, que se contradiziam, nos seus depoimentos contra Jesus; os escárnios e tratos indignos infligidos à Vítima celeste; a cruel flagelação; a repartição das vestes e a sorte lançada sobre a túnica; o fel e vinagre que lhe dera a beber; a morte violenta; a lançada do lado; e, finalmente, a glória do sepulcro do Senhor.

Tudo isso se havia cumprido e realizado.

As figuras principais do Antigo Testamento também se realizaram.

Abel morto pelo seu irmão; Isaac, carregando a lenha para o sacrifício; Davi, que derrubou o gigante Golias; o Cordeiro Pascal, das festas dos hebreus e outras muitas figuras do Antigo Testamento tornaram-se realidade na Pessoa de Jesus Cristo.

Estavam consumados todos os tormentos do Corpo e da Alma, que a malícia do Inferno, servida pela crueldade dos homens, podia descarregar sobre a Vítima, que se ia imolar pelos pecados do gênero humano.

Finalmente, a obra da misericórdia divina chegara ao termo, pois a caridade infinita nada mais tinha que dar.

Estava concluída a Redenção do gênero humano e resgatada a nossa espécie, que jazia submissa ao império do Demônio.

Consummatum est.

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Lançando um olhar retrospectivo para os tempos primeiros da humanidade, encontramos os nossos proto-parentes, felizes e descuidosos no Éden, jardim de delícias, plantado pelo próprio Deus.

O pecado de Adão e Eva destruiu essa felicidade e veio transtornar o plano divino da criação.

Mas Deus, infinitamente Justo e infinitamente Misericordioso, não quis lançar à ruína e ao extermínio a obra-prima de suas mãos – o homem.

Daí a promessa de um Salvador, de um restaurador, que deveria, um dia, resgatar a humanidade.

A lembrança do Pecado Original e a promessa de um Salvador ficaram de tal modo impressa na mente da humanidade que encontramos seus vestígios na história dos povos antigos e até mesmo dos povos modernos, que não receberam a luz da verdade evangélica.

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O mundo antigo esperava um Salvador.

Entre os romanos, os judeus, os persas, os gregos, os bárbaros e os selvagens encontramos a prática de cerimônias destinadas à purificação da infância, pois, o homem julgava impuros e contaminados todos os recém nascidos. Através de mitos e de lendas, aparecia a ideia da culpa original.

O povo de Israel, povo eleito de Deus, conservou, melhor que nenhum outro, a revelação feita, no Éden, aos nossos primeiros pais e transmitida de geração em geração, por intermédio dos Patriarcas e Profetas, que recebiam as comunicações celestes.

Os principais povos da antiguidade guardavam as promessas feitas a Adão e Eva, por ocasião da queda e do pecado.

Na Índia, na China, na Pérsia e no Egito, encontramos muito clara a esperança do Messias, que fora prometido a Israel.

Esperavam esses povos civilizados e cultos a vinda de um salvador, que devia libertar a terra do poder do mal e fundar o reino da justiça.

Na Grécia e em Roma, através dos erros e das superstições populares, persistia a esperança de um salvador, de um dominador supremo das nações.

Os espíritos mais cultos e os filósofos mais ilustres da antiguidade não se envergonhavam de proclamar, abertamente, que esperavam o advento do grande libertador.

Na China antiga, cerca de quinhentos anos antes de Jesus Cristo, Confúcio podia falar assim aos seus discípulos: “Eu, Confúcio, ouvi dizer que nas regiões ocidentais se levantará um homem santo, que produzirá um oceano de ações meritórias. Ele será enviado do Céu e terá todo o poder sobre a terra”.

Mais tarde, no esplendor da civilização helênica, Platão recebeu de Sócrates estas palavras admiráveis: “Esperamos que um enviado do Céu venha nos instruir sobre nossos deveres para com Deus e para com os homens e esperamos de sua bondade que esse dia não esteja muito longe”.

Em Roma, Tácito escrevia: “O Oriente vai prevalecer e da Judeia sairão aqueles que governarão o universo”. E Suetônio acrescentava: “Todo o Oriente está cheio dessa antiga e constante opinião de que da Judeia virão aqueles que governarão o universo”.

Desse modo se afirmava, no mundo antigo, a esperança de um salvador.

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O mundo antigo não somente esperava, mas necessitava, de modo absoluto, de um salvador.

A base de toda retidão e de toda justiça consiste no conhecimento da verdade.

Ora, a verdade, por assim dizer, desertara do mundo. O conhecimento de Deus, do qual promana a luz dos espíritos, estava de tal modo adulterado que tudo era Deus, exceto o próprio Deus. O homem chegara mesmo a erguer altares ao “Deus desconhecido” – Ignoto Deo… Tão grande era a confusão que reinava nos espíritos. A própria luxúria tinha sacerdotes e sacerdotisas…

As trevas haviam penetrado e invadido, por completo, o mundo das consciências, a tal ponto que os filósofos discutiam sobre se o homem devia praticar a virtude, ou se seria preferível entregar-se a todos os vícios.

Os prazeres mais degradantes constituíam objeto de culto especial…

A família apresentava, moralmente, um aspecto desolador. O pai era verdadeiro déspota, que dispunha, a seu talante, da existência dos filhos e escravos. A mulher devia satisfazer a todos os caprichos do marido, que desconhecia o amor casto e a honra conjugal. Os filhos estavam sujeitos ao despotismo do pátrio poder.

Em Esparta e em Roma, eliminavam-se, sumariamente, os recém-nascidos que apresentassem sinais de debilidade ou enfermidade. O escravo não tinha personalidade, era uma coisa, res. Não havia compaixão para com os infelizes.

Não menos triste era o quadro da vida social.

O supremo poder, que estava à mercê dos ambiciosos e sem escrúpulos, era encarnado por verdadeiros monstros da espécie humana, que se faziam adorar. A nobreza procurava seguir de perto e imitar servilmente as ignominias e as baixezas dos imperantes.

A política, a arte de governar os povos, não conhecia outras normas além dos caprichos dos Césares e dos interesses do império.

As relações internacionais eram reguladas pela força, unicamente; ai dos vencidos – era a norma de proceder para com aqueles a quem fora adversa a sorte das armas.

Panem et circercensis” – alimentação farta, jogos de circo, combates sangrentos entre gladiadores e espetáculos públicos eram os únicos prazeres com que se embriagavam as multidões.

Nessa profunda decadência moral, é que se abismara a humanidade antes da vinda de Jesus Cristo. Em vista de tantos desregramentos e de tantos males, que afligiam o indivíduo, a família, a própria religião, os espíritos mais cultos e mais retos almejavam, de todo o coração, a vinda de um legislador supremo, que corrigisse todas essas desordens e implantasse o reino da verdade e da justiça.

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A recordação da queda de nossos proto-parentes, no Éden, ficou tão profundamente gravada no espírito humano, que em todos os períodos da história e na existência de todas as nações, encontramos a ideia de que a morte e os sofrimentos a constituem atos de expiação e reparação, que devem ser ofertados à divindade ultrajada.

Em todas as religiões, ainda as mais grosseiras e mais afastadas da revelação sobrenatural, persiste o princípio e a ideia de que o homem é impuro ante a divindade, que necessita reabilitar-se diante do Criador, por meio da oferta de alguma compensação ou reparação à justiça e à santidade infinitas.

A prática de sacrifícios, que nós encontramos em todas as religiões, vem demonstrar que o homem sempre sentiu a necessidade de satisfazer à justiça divina ofendida… Não houve povo que não erguesse um altar; não houve altar onde não se imolasse uma vítima… Os atos sacrificiais foram constantes, nunca cessaram e até vítimas humanas foram imoladas à divindade.



José de Maistre notou, com muita razão, que a crença de que o inocente pode substituir o culpado, é a essência de toda e qualquer religião. Desse modo, o consenso unânime dos povos acha-se de acordo com o que a revelação divina nos ensina acerca do Pecado Original e da promessa de um Redentor.

Somente o Homem-Deus poderia reparar os estragos do pecado e satisfazer condignamente à justiça infinita, ultrajada por todos os crimes da espécie humana. Um simples mortal não podia oferecer à justiça divina uma satisfação cabal, porque a ofensa fora infinita…

Um Deus, também não; porque Deus é, de sua própria natureza, imortal e impassível. Foi necessário que a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, o Verbo, se fizesse homem, sem deixar de ser Deus. Jesus Cristo, Homem-Deus, foi a Vítima imolada pela Redenção da humanidade.

Como homem padeceu e morreu, por nós; como Deus os seus sofrimentos tinham um valor infinito, capaz de resgatar, por completo e super abundantemente, toda a dívida do gênero humano.

Nessa breve síntese de dogmas, se resumem os Mistérios adoráveis da Encarnação, Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo.

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Ocorre, mui naturalmente, uma interrogação ao nosso espírito: Jesus Cristo era Deus; a menor de suas ações tinha um valor infinito, sendo suficiente um ato de sua vontade para resgatar a humanidade; portanto, por que quis padecer tanto, sofrer tão cruéis suplícios?

Em primeiro lugar, Jesus quis sofrer tanto, para nos mostrar o grande amor que nos tinha, a caridade infinita de que estava abrasado o seu Coração. Qualquer ação do Homem-Deus seria bastante para resgatar a humanidade, mas não seria suficiente para revelar a caridade infinita de Jesus, diz São João Crisóstomo.

Nos livros do Novo Testamento encontram-se várias passagens, que confirmam essa opinião. Citaremos duas apenas: “Nisto temos conhecido a caridade de Deus: em Deus ter dado a sua vida por nós”.3

E mais o seguinte texto: “Amou-me e entregou-se à morte por mim”.4

Desse modo as Chagas do Redentor e as gotas de Sangue derramado no Calvário são outras tantas bocas que proclamam quanto Jesus amou e sofreu pela humanidade.

Outro motivo levou Jesus a sofrer tão indizíveis tormentos: revelar à humanidade a infinita malícia do pecado e os castigos que a justiça divina têm preparado para punir os pecadores.

Não fosse o quanto Jesus sofreu para nos remir, ser-nos-iam desconhecidas as consequências terríveis do pecado. Se Deus não poupou ao seu próprio Filho, que se revestiu de nossas culpas, como não seria castigado o pecador impenitente?…

Finalmente, Jesus quis ensinar-nos a suportar, com perfeita paciência e inteira resignação, os males e as misérias desta vida. O seu exemplo deve ser para nós uma lição e um encorajamento em meio das tribulações, que continuadamente nos afligem.

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Jesus cristo, ao chegar ao termo de sua vida mortal, ao encerrar a sua peregrinação terrestre, bem podia proferir as palavras: “Tudo está consumado”.

Consummatum est.

Podia fazer esta sublime afirmação à face do Céu e da terra, porque cumprira, estritamente, a vontade do Eterno.

Jesus deixou-nos os seus exemplos, que devemos seguir e imitar, a fim de que, na hora extrema possamos repetir aquelas palavras consoladoras de São Paulo:

Sustentei um bom combate, consumei a minha carreira, guardei a fé.

No que resta, reservada me está a coroa de justiça, que o Senhor, justo Juiz, me dará naquele dia”.5


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1.  “Espírito e Vida” – As Sete Palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo Pe. J. Cabral, VI Palavra, pp. 71-80, da Coleção Cristo Redentor. Empresa Editora A.B.C. Ltda, Rio de Janeiro, 1938.

2.  Joan. XIX, 30.

3.  Joan. II, 16.

4.  Gál. II, 20.

5.  II Tim. IV, 7-8.


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