BLOG CATÓLICO PARA OS CATÓLICOS.

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"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

sábado, 23 de novembro de 2013

SÃO JOÃO PAULO II: O HOMEM DAS DORES E DOS MILAGRES.


De labore solis – Do sofrimento do sol”.


Depois do atentado de 1981, soube que lhe foi fornecido sangue infectado por um vírus não descoberto. O Papa teve que lutar durante meses contra o vírus. Eu tentava me lembrar se o Papa parecia sofrer, especialmente nas últimas semanas e nos últimos dias, mas eu sabia que era um esforço sem esperança. Karol Wojtyla nunca deixava transparecer o sofrimento. Eu me lembro de uma recepção na Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO). O Papa proferiu um discurso, depois desceu as escadas e caiu no chão. Parecia mal, seu Secretário, D. Stanislaw Dziwisz queria levá-lo imediatamente ao hospital, mas o Papa se recusou. Ele insistiu em cumprimentar pessoalmente todos os aproximadamente duzentos Delegados da FAO, apertar a mão de cada um. Somente depois deixou que o levassem ao hospital. E se revelou que ele dera a mão aos Delegados com um braço quebrado. O Papa João Paulo II não era homem inclinado a reclamar.

“Esse Karol Wojtyla sofredor se tornou uma potência. Desde a operação no intestino, em 1992, dizem que sempre tem febre, e desde a operação nos quadris, em abril de 1994, parece que nunca mais ficou sem dores, ele não consegue sentar, nem andar, nem ficar em pé sem sentir dores”.

“Eu sei”, disse eu, “ninguém pode dizer, mas todos sabem que a operação nos quadris foi um erro, alguém cometeu um engano aí”.

“Mas exatamente esse Papa sofredor e lutador”, completou meu interlocutor; “se tornou uma incrível potência. Pense! Hoje as coisas acontecem como antigamente seria inconcebível. Mesmo a Ortodoxia, que nos odeia há quase mil anos, de repente quer se reconciliar com Roma, os Chefes de Estado aparecem no Vaticano, novamente temos a juventude ao nosso lado. Pela primeira vez desde séculos somos alguém no cenário político mundial, e isso graças a um homem e seu sofrimento, porque ele é tão infinitamente convincente, um lutador que mostra algo único: que a Religião pode fazer bem, que Papas podem fazer mais do que se deixar carregar numa cadeira na Basílica de São Pedro, que podem criar paz sem possuir um exército. Os soviéticos passaram por isso”...

… A mídia, naturalmente eu também tinha rido dele. Tinha rido de sua tentativa de alcançar os jovens. Parecia uma piada sem graça que um homem velho quisesse ser aceito em todo o mundo por milhões de jovens, e com algo tão antigo como a mensagem da Igreja Católica. Nem mesmo a  indústria do entretenimento consegue alimentar os jovens do mundo com modas constantemente novas. A moda muda a cada semana, os brinquedos eletrônicos já parecem antigos quando chegam ao mercado, e esse homem da Polônia queria vender a mensagem com dois mil anos de idade de um filho de marceneiro de Nazaré? E quando conseguiu, o mundo não compreendeu que vários milhões de jovens não só iam à Love Parade, mas também peregrinavam para o Papa. Cada um que esteve presente naqueles anos sabe por que Karol Wojtyla conseguiu conquistar os jovens, entusiasmá-los. Ele levava a sério o que dizia. Ele não fazia tudo aquilo para ganhar dinheiro ou ser reeleito; ele não queria ensinar as pessoas. Ele acreditava no que dizia e estava pronto a dar tudo por isso. E ele também sabia que muitos no Vaticano lhe davam as costas exatamente quando era necessário.

Nunca tinha visto isso de maneira tão drástica como no dia 8 de novembro de 1999. A delegação do Vaticano chegou da Índia e todos tinham se intoxicado com a comida na nunciatura em Nova Délhi. Os Cardeais sofriam de dores de barriga, arrepios, febre alta e depois do pouso em Tiflis, na Geórgia, todos fugiram o mais rápido possível para o hotel ou para a nunciatura, para quartos e camas confortáveis. Eles deixaram Karol Wojtyla voar sozinho para a antiquíssima catedral em Mtskheta para um encontro com os Bispos da Geórgia, o Papa que estava igualmente doente, que tremia tanto que não conseguia segurar uma vela. Na época eu temia que ele perdesse a consciência.

Às vezes eu me envergonho por todos esses anos, me envergonho de tê-lo olhado durante duas décadas, de não tê-lo perdido de vista, mesmo quando ele simplesmente não podia mais. Ele não só o suportou como ele assim o quis. Essa era sua mensagem. Teria sido tão fácil para ele dizer simplesmente: agora chega! Eu não posso mais. Eu fico no Vaticano e não quero mais essas centenas de câmeras, mas ele não o fez. Ele queria até o fim ser um pescador de homens, como Pedro. E para mim é muito difícil acreditar que Deus não existe quando me lembro como o vento folheou a Bíblia sobre seu caixão.

Como ele disse no dia 29 de maio de 1994: “Quando estou diante dos poderosos do mundo...” e já essa parte da frase era incrível. Todos os poderosos do mundo, Mikhail Gorbachev, Ronald Reagan e Helmut Kohl e muitos outros já tinham reconhecido que ele era um dos homens mais influentes do mundo. Mas ele mesmo não via a coisa assim, ele não se contava entre os homens poderosos do mundo, ele se via diante dos poderosos como um mendigo. Então, na época, ele disse: “Quando estou diante dos poderosos do mundo, então o que posso dizer a não ser falar sobre o sofrimento? Eu quero lhes dizer: compreendam por que o Papa precisa ir novamente ao hospital, porque ele precisa sofrer, compreendam, pensem sobre isso”. A debilidade do homem Karol Wojtyla tornou-se uma parte importante de sua mensagem, ele parecia ser um montezinho de miséria, mas acompanhado por um Deus todo poderoso. “O Papa escreveu quatorze Encíclicas, e uma, a mais importante e última, ele não escreveu, viveu-a. Seu sofrimento se tornou parte de sua mensagem”. Assim descreveu o então porta-voz do Papa Joaquín Navarro-Valls depois da morte de Karol Wojtyla.

E agora, aparentemente, esse Papa estava novamente doente, tão doente que examinavam em segredo seu sangue. Será que Deus deixava esse homem sofrer para mostrar que o homem era seu instrumento e falava em Seu Nome? Era nisso que o Papa acreditava...

“Quem esquecerá sua última aparição na janela de seus aposentos? Esforça-se para falar, mas não lhe sai a voz. Com um último esforço, então, lança o Sinal da Cruz sobre a multidão reunida na praça e abençoa a todos. Retira-se, mais curvado ainda, como que pedindo desculpas por não poder falar aos seus amados filhos. Mas não se entrega. Precisa deixar sua última mensagem. É seu secretário particular por quase 40 anos que nos conta:

            - Ao deixar a janela, escreve em um papel pela última vez: Totus Tuus.[1][2]




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Fonte: Andreas Englisch, “O Papa dos Milagres – João Paulo II”, Cap. “O Poder do Papa Sofredor”, pp. 74-82; Universo dos Livros Editora Ltda, São Paulo, 2011.

[1]   Totus Tuus = “Todo Teu”. Esse último Totus Tuus foi escrito a Maria, a Jesus e a todos nós. Expressando que o Papa tinha dado tudo o que poderia ser dado.

[2]   Extraído do Prefácio, p. 11.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

“Essas inovações se afastam do Evangelho, do Espírito Santo, da paz e da sabedoria e da glória de Deus, da beleza de Deus“.


Espírito de Recolhimento

Papa: 

Nossa Senhora não é um chefe dos correios, 

que dá mensagens diárias a videntes.


Vaticano, 14 de novembro de 2013 (Por TMNews.it- Tradução: Fratres in Unum.com ) – O espírito de curiosidade gera confusão e nos afasta do espírito de sabedoria, que, todavia, nos dá a paz: afirmou esta manhã o Papa na Missa celebrada na Capela da casa Santa Marta, no Vaticano. Bergoglio condenou alguns videntes, que consideram Nossa Senhora como “um chefe dos correios, que envia mensagens diárias” e convidou os fiéis a entender que “o Reino de Deus está no meio de nós ” e não necessita  “olhar para coisas estranhas ” .
Conforme informado pela Rádio Vaticano, a homilia do Papa começa com um comentário sobre a primeira leitura, tirada do livro bíblico da Sabedoria, que descreve “o estado de espírito do homem e da mulher espiritual”, do verdadeiro cristão e da verdadeira cristã, que vivem “na sabedoria do Espírito Santo. E essa sabedoria os leva avante com este espírito inteligente, santo, único, múltiplo, sutil“, um “espírito de Deus”, que “ajuda a julgar, a tomar decisões de acordo com o coração de Deus” e que “dá paz
Pelo contrário, no Evangelho – ressaltou o Papa – “somos confrontados com um outro espírito, contrário àquele da sabedoria de Deus: o espírito de curiosidadeÉ quando queremos aproveitar o projeto de Deus, o futuro da coisas, saber tudo, ter tudo na mão… os fariseus perguntaram a Jesus : ‘Quando é que virá o Reino de Deus?’ . Curiosos! Eles queriam saber a data, o dia… O espírito de curiosidade nos afasta do espírito de sabedoria, porque ele só está interessado nos detalhes, notícias, pequenas notícias todos os dias. E o espírito de curiosidade não é um bom espírito: é o espírito de dispersão, de afastamento de Deus, o espírito de falar muito. E Jesus também vai nos dizer algo interessante: esse espírito de curiosidade, que é mundano, nos leva à confusão.”
A curiosidade – prosseguiu Bergoglio – nos impulsiona a querermos sentir que o Senhor está aqui ou acolá, ou podemos dizer: “Mas eu conheço um vidente, uma vidente que recebe cartas de Nossa Senhora, mensagens de Nossa Senhora.” E o Papa disse: “Mas, veja, Nossa Senhora é Mãe, eh! E ela nos ama a todos. Mas ela não é um chefe dos correios, para enviar mensagens diárias“.
Essas inovações -- disse novamente – se afastam  do Evangelho, do Espírito Santo, da paz e da sabedoria e da glória de Deus, da beleza de Deus“. Porque “Jesus diz que o reino de Deus não vem para atrair a atenção: vem na sabedoria“. “O Reino de Deus está entre vós“, diz Jesus: é “esta ação do Espírito Santo que nos dá a sabedoria, que nos dá a paz. O Reino de Deus não se dá na confusão, assim como Deus não falou ao profeta Elias no vento, na tempestade“, mas “ele falou em meio a brisa suave, a brisa da sabedoria“: “Então, Santa Teresa – Santa Teresa do Menino Jesus – dizia que ela tinha sempre que parar à frente do espírito de curiosidade. Quando ela conversava com outra freira e esta  contava uma história, algo que a família, as pessoas, às vezes, passavam para outro tópico, e ela queria saber o final dessa história. Mas ela sentia que não era o espírito de Deus, porque era um espírito de dispersão, de curiosidade. O Reino de Deus está entre nós: Não se aproximem de coisas estranhas, não se aproximem dessa nova curiosidade mundana. Deixem que o Espírito os levem avante, com a sabedoria que é uma brisa suave. Este é o Espírito do Reino de Deus, do qual fala Jesus“.



"Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos Anjos, se não tiver Caridade... não sou nada..." (1ª Cor. 12, 1-13).


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“O Papa não teve medo de me abraçar. Enquanto ele me acariciava, eu só sentia seu amor”: este é o testemunho de Vinício, o homem desfigurado a quem o Papa Francisco abraçou na semana passada e cujas fotos circularam pelo mundo inteiro.
 
Entrevistado pelo jornal italiano “Panorama“, Vinício, de 53 anos, falou com muita emoção sobre o carinho que recebeu do Papa na Praça de São Pedro, há alguns dias.
 
“Primeiro, eu segurei a mão dele e, enquanto isso, com a outra mão, ele acariciou minha cabeça e minhas feridas. Depois, ele me deu um abraço bem forte, abraçou minha cabeça. Eu apoiei minha cabeça no peito dele e seus braços me envolveram. Ele me apertou forte, forte, como se quisesse me mimar, e não soltava. Tentei falar, dizer-lhe alguma coisa, mas não consegui: a emoção era forte demais. Isso durou pouco mais de um minuto, mas pareceu uma eternidade.”
 
Nascido em Isola, uma pequena cidade da província de Vicenza (Itália), ele mora com sua irmã menor, Morena, com sua tia, Caterina, que cuida dos dois sobrinhos. Como sua irmã (que apresenta uma forma menos severa), ele sofre de neurofibromatose tipo 1 (também conhecida como doença de Recklinghausen) desde os 15 anos. Esta doença provoca dolorosos tumores em todo o corpo. Ainda não existe cura para este mal.
 
“Os primeiros sinais apareceram depois dos meus 15 anos. Disseram-me que, aos 30, já estaria morto. Mas ainda estou aqui”, declarou, antes de voltar do emocionante encontro.
 
“As mãos do Papa são muito ternas. Ternas e bonitas. Seu sorriso é claro e aberto. Mas o que mais me impressionou foi o fato de ele não pensar duas vezes antes de me abraçar. Eu não tenho uma doença contagiosa, mas ele não sabia disso. Ele simplesmente foi lá e fez: acariciou todo o meu rosto e, enquanto fazia isso, eu só sentia seu amor.”
 
Nem é preciso dizer que as pessoas com neurofibromatose muitas vezes são marginalizadas devido à sua aparência. “Vinicio, de alguma maneira, teve sorte: sua tia o ama profundamente e o abraça todo dia”, explicou a jornalista.
 
Nos casos mais severos, a neurofibromatose deforma tanto a pessoa, que até os médicos mantêm distância. “Uma vez, no hospital, eu estava trocando de roupa quando um médico africano entrou na sala. Ele olhou para mim e ficou imóvel – explicou Vinício. Um pouco mais tarde, ele foi me pedir desculpas. Contou-me que, na África, ele tinha visto doenças terríveis, mas nunca tinha se deparado com algo tão devastador. Suas palavras me impressionaram muito.”
 
Em Isola, Vinício é aceito por quase todo mundo. Ele tem seu grupo de amigos, com quem sai para comer pizza e ver partidas de futebol. E corteja todas as enfermeiras, gastando com flores parte dos 130 euros que ganha por mês trabalhando em um asilo.


Caridade do Papa Francisco emociona novamente o mundo e questiona o egoísmo institucionalizado da sociedade moderna.

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O Papa Francisco voltou a comover o mundo hoje, quando, durante o percurso antes das tradicionais audiências das quartas-feiras na praça São Pedro, parou para cumprimentar um homem visivelmente desfigurado por alguma anomalia.
 
Francisco, que insistentemente prega sobre a necessidade da Igreja ir ao encontro dos mais necessitados, esteve por alguns segundos com o homem, que recebeu um fraternal abraço do Papa.
 
Há algumas semanas, o Santo Padre havia emocionado o mundo com um gesto semelhante ao ir ao encontro de um fiel, chamado Vinício Riva, gravemente doente que sofria de neurofibromatose, doença esta que causa tumores neurais na pele e deformidades ósseas.
 
Segundo Riva, “o Papa nem parou para pensar se ia abraçar ou não. Minha doença não é contagiosa, mas ele não sabia”. “Ele não disse nada, mas eu senti o seu amor. Durou pouco mais de um minuto, mas para mim parecia uma eternidade. Meu coração estava indo tão rápido que eu pensei que ia morrer”, revelou à imprensa.
 
O Papa costuma, durante as audiências, percorrer a praça São Pedro com um papamóvel descoberto, cumprimentando os fiéis, e em especial, as crianças e pessoas doentes. (VH)

 Fonte: Ecclesia




domingo, 17 de novembro de 2013

Bispos de Portugal emitem importante carta pastoral sobre a “Ideologia do gênero”. IMPERDÍVEL!


Confederação dos Bispos de Portugal


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Carta Pastoral da CEP: A propósito da ideologia do género
Difunde-se cada vez mais a chamada ideologia do género ou gender. Porém, nem todas as pessoas disso se apercebem e muitos desconhecem o seu alcance social e cultural, que já foi qualificado como verdadeira revolução antropológica. Não se trata apenas de uma simples moda intelectual. Diz respeito antes a um movimento cultural com reflexos na compreensão da família, na esfera política e legislativa, no ensino, na comunicação social e na própria linguagem corrente.
 
Mas a ideologia do gênero contrasta frontalmente com o acervo civilizacional já adquirido. Como tal, opõe-se radicalmente à visão bíblica e cristã da pessoa e da sexualidade humanas. Com o intuito de esclarecer as diferenças entre estas duas visões surge este documento. Move-nos o desejo de apresentar a visão mais sólida e mais fundante da pessoa, milenarmente descoberta, valorizada e seguida, e para a qual o humanismo cristão muito contribuiu. Acreditamos que este mesmo humanismo, atualmente, é chamado a dar contributo válido na redescoberta da profundidade e beleza de uma sexualidade humana corretamente entendida.
 
Trata-se da defesa de um modelo de sexualidade e de família que a sabedoria e a história, não obstante as mutações culturais, nos diferentes contextos sociais e geográficos, consideram apto para exprimir a natureza humana.
           
            1. A pessoa humana, espírito encarnado
Antes de mais, gostaríamos de deixar bem claro que, para o humanismo cristão, não há lugar a dualismos: o desprezo do corpo em nome do espírito ou vice-versa. O corpo sexuado, como todas as criaturas do nosso Deus, é produto bom de um Deus bom e amoroso. Uma segunda verdade a considerar na visão cristã da sexualidade é a da pessoa humana como espírito encarnado e, por isso, sexuado: a diferenciação sexual correspondente ao desígnio divino sobre a criação, em toda a sua beleza e plenitude: «Ele os criou homem e mulher» (Gn 1,27); «Deus, vendo toda sua obra, considerou-a muito boa» (Gn 1,31).
 
A corporalidade é uma dimensão constitutiva da pessoa, não um seu acessório; a pessoa é um corpo, não tem um corpo; a dignidade do corpo humano é corolário da dignidade da pessoa humana; a comunhão dos corpos deve exprimir a comunhão das pessoas.
 
Porque a pessoa humana é a totalidade unificada do corpo e da alma, existe necessariamente, como homem ou mulher. Por conseguinte, a dimensão sexuada, a masculinidade ou feminilidade, é constitutiva da pessoa, é o seu modo de ser, não um simples atributo. É a própria pessoa que se exprime através da sexualidade. A pessoa é, assim, chamada ao amor e à comunhão como homem ou como mulher. E a diferença sexual tem um significado no plano da criação: exprime uma abertura recíproca à alteridade e à diferença, as quais, na sua complementaridade, se tornam enriquecedoras e fecundas.
 
            2. Confrontados com uma forte mudança cultural
            Reconhecemos, sem dúvida, que, no longo caminho do amadurecimento cultural e civilizacional, nem sempre se atribuiu aos dois âmbitos do humano (o masculino e o feminino) o mesmo valor e semelhante protagonismo social. Especialmente a mulher, não raramente, foi vítima de forte sujeição ao homem e sofreu alguma menorização social e cultural. Graças a Deus, tais situações estão progressivamente a ser ultrapassadas e a condição feminina, antigamente conotada com a ideia de opressão, hoje está a revelar-se como enorme potencial de humanização e de desenvolvimento harmonioso da sociedade.
 
            No desejo de ultrapassar esta menoridade social da mulher, alguns procederam a uma distinção radical entre o sexo biológico e os papéis que a sociedade, tradicionalmente, lhe outorgou. Afirmam que o ser masculino ou feminino não passa de uma construção mental, mais ou menos interessada e artificial, que, agora, importaria desconstruir. Por conseguinte, rejeitam tudo o que tenha a ver com os dados biológicos para se fixarem na dimensão cultural, entendida como mentalidade pessoal e social. E, por associação de ideias, passou-se a rejeitar a validade de tudo o que tenha a ver com os tradicionais dados normativos da natureza a respeito da sexualidade (heterossexualidade, união monogâmica, limite ético aos conhecimentos técnicos ligados às fontes da vida, respeito pela vida intra-uterina, pudor ou reserva de intimidade, etc.). É todo este âmbito mental que se costuma designar por ideologia do gênero ou gender.
 
            A ideologia do gênero surge, assim, como uma antropologia alternativa, quer à judaico-cristã, quer à das culturas tradicionais não ocidentais. Nega que a diferença sexual inscrita no corpo possa ser identificativa da pessoa; recusa a complementaridade natural entre os sexos; dissocia a sexualidade da procriação; sobrepõe a filiação intencional à biológica; pretende desconstruir a matriz heterossexual da sociedade (a família assente na união entre um homem e uma mulher deixa de ser o modelo de referência e passa a ser um entre vários).

            3. Os pressupostos da ideologia do gênero
Esta teoria parte da distinção entre sexo gênero, forçando a oposição entre natureza e cultura. O sexo assinala a condição natural e biológica da diferença física entre homem e mulher. O gênero baliza a construção histórico-cultural da identidade masculina e feminina. Mas, partindo da célebre frase de Simone de Beauvoir, «uma mulher não nasce mulher, torna-se mulher», a ideologia do gênero considera que somos homens ou mulheres não na base da dimensão biológica em que nascemos, mas nos tornamos tais de acordo com o processo de socialização (da interiorização dos comportamentos, funções e papéis que a sociedade e cultura nos distribui). Papéis que, para estas teorias, são injustos e artificiais. Por conseguinte, o gênero deve sobrepor-se ao sexo e a cultura deve impor-se à natureza.
 
Como, para esta ideologia, o gênero é uma construção social, este pode ser desconstruído e reconstruído. Se a diferença sexual entre homem e mulher está na base da opressão desta, então qualquer forma de definição de uma especificidade feminina é opressora para a mulher. Por isso, para os defensores do gender, a maternidade, como especificidade feminina, é sempre uma discriminação injusta. Para superar essa opressão, recusa-se a diferenciação sexual natural e reconduz-se o gênero à escolha individual. O gênero não tem de corresponder ao sexo, mas pertence a uma escolha subjetiva, ditada por instintos, impulsos, preferências e interesses, o que vai para além dos dados naturais e objetivos.
 
gender sustenta a irrelevância da diferença sexual na construção da identidade e, por consequência, também a irrelevância dessa diferença nas relações interpessoais, nas uniões conjugais e na constituição da família. Se é indiferente a escolha do gênero a nível individual, podendo escolher-se ser homem ou mulher independentemente dos dados naturais, também é indiferente a escolha de se ligar a pessoas de outro ou do mesmo sexo. Daqui a equiparação entre uniões heterossexuais e homossexuais. Ao modelo da família heterossexual sucedem-se vários tipos de família, tantos quantas as preferências individuais, para além de qualquer modelo de referência. Deixa de se falar em família e passa a falar-se em famílias. Privilegiar a união heterossexual afigura-se-lhe uma forma de discriminação. Igualmente, deixa de se falar em paternidade e maternidade e passa a falar-se, exclusivamente, em parentalidade, criando um conceito abstrato, pois desligado da geração biológica.
 
            4. Reflexos da afirmação e difusão da ideologia do gênero
A afirmação e difusão da ideologia do gênero pode notar-se em vários âmbitos. Um deles é o dos hábitos linguísticos correntes. Vem-se generalizando, a começar por documentos oficiais e na designação de instituições públicas, a expressão gênero em substituição de sexo (igualdade de gênero, em vez de igualdade entre homem e mulher), tal como a expressão famílias em vez de famíliaou parentalidade em vez de paternidade maternidade. Muitas pessoas passam a adotar estas expressões por hábito ou moda, sem se aperceberem da sua conotação ideológica. Mas a generalização destas expressões está longe de ser inocente e sem consequências. Faz parte de uma estratégia de afirmação ideológica, que compromete a inteligibilidade básica de uma pessoa, por vezes, tendo consequências dramáticas: incapacidade de alguém se situar e definir no que tem de mais elementar.
 
Os planos político e legislativo são outro dos âmbitos de penetração da ideologia do gênero, que atinge os centros de poder nacionais e internacionais. Da agenda fazem parte as leis de redefinição do casamento de modo a nelas incluir uniões entre pessoas do mesmo sexo (entre nós, a Lei nº 9/2010, de 31 de maio), as leis que permitem a adoção por pares do mesmo sexo (em discussão entre nós, na modalidade de co-adoção), as leis que permitem a mudança do sexo oficialmente reconhecido, independentemente das caraterísticas fisiológicas do requerente (Lei nº 7/2011, de 15 de março), e as leis que permitem o recurso de uniões homossexuais e pessoas sós à procriação artificial, incluindo a chamada maternidade de substituição (a Lei nº 32/2006, de 26 de julho, não contempla a possibilidade referida). 
 
Outro âmbito de difusão da ideologia do género é o do ensino. Este é encarado como um meio eficaz de doutrinação e transformação da mentalidade corrente e é nítido o esforço de fazer refletir na orientação dos programas escolares, em particular nos de educação sexual, as teses dessa ideologia, apresentadas como um dado científico consensual e indiscutível. Esta estratégia tem dado origem, em vários países, a movimentos de protesto por parte dos pais, que rejeitam esta forma de doutrinação ideológica, porque contrária aos princípios nos quais pretendem educar os seus filhos. Entre nós, a Portaria nº 196-A/2010, de 9 de abril, que regulamenta a Lei nº 60/2009, de 6 de agosto, relativa à educação sexual em meio escolar, inclui, entre os conteúdos a abordar neste âmbito, sexualidade e género.
 
            5. O alcance antropológico da ideologia do gênero
Importa aprofundar o alcance da ideologia do gênero, pois ela representa uma autêntica revolução antropológica. Reflete um subjetivismo relativista levado ao extremo, negando o significado da realidade objetiva. Nega a verdade como algo que não pode ser construído, mas nos é dado e por nós descoberto e recebido. Recusa a moral como uma ordem objetiva de que não podemos dispor. Rejeita o significado do corpo: a pessoa não seria uma unidade incindível, espiritual e corpórea, mas um espírito que tem um corpo a ela extrínseco, disponível e manipulável. Contradiz a natureza como dado a acolher e respeitar. Contraria uma certa forma de ecologia humana, chocante numa época em que tanto se exalta a necessidade de respeito pela harmonia pré-estabelecida subjacente ao equilíbrio ecológico ambiental. Dissocia a procriação da união entre um homem e uma mulher e, portanto, da relacionalidade pessoal, em que o filho é acolhido como um dom, tornando-a objeto de um direito de afirmação individual: o “direito” à parentalidade.
 
No plano estritamente científico, obviamente, é ilusória a pretensão de prescindir dos dados biológicos na identificação das diferenças entre homens e mulheres. Estas diferenças partem da estrutura genética das células do corpo humano, pelo que nem sequer a intervenção cirúrgica nos órgãos sexuais externos permitiria uma verdadeira mudança de sexo.
 
É certo que a pessoa humana não é só natureza, mas é também cultura. E também é certo que a lei natural não se confunde com a lei biológica. Mas os dados biológicos objetivos contêm um sentido e apontam para um desígnio da criação que a inteligência pode descobrir como algo que a antecede e se lhe impõe e não como algo que se pode manipular arbitrariamente. A pessoa humana é um espírito encarnado numa unidade bio-psico-social. Não é só corpo, mas é também corpo. As dimensões corporal espiritual devem harmonizar-se, sem oposição. Do mesmo modo, também as dimensões natural e culturalA cultura vai para além da natureza, mas não se lhe deve opor, como se dela tivesse que se libertar.
 
 
            6. Homem e mulher chamados à comunhão
A diferenciação sexual inscrita no desígnio da criação tem um sentido que a ideologia do gênero ignora. Reconhecê-la e valorizá-la é assegurar o limite e a insuficiência de cada um dos sexos, é aceitar que cada um deles não exprime o humano em toda a sua riqueza e plenitude. É admitir a estrutura relacional da pessoa humana e que só na relação e na comunhão (no ser para o outro) esta se realiza plenamente. 
 
Essa comunhão constrói-se a partir da diferença. A mais básica e fundamental, que é a de sexos, não é um obstáculo à comunhão, não é uma fonte de oposição e conflito, mas uma ocasião de enriquecimento recíproco. O homem e a mulher são chamados à comunhão porque só ela os completa e permite a continuação da espécie, através da geração de novas vidas. Faz parte da maravilha do desígnio da criação. Não é, como tal, algo a corrigir ou contrariar. 
 
A sociedade edifica-se a partir desta colaboração entre as dimensões masculina e feminina. Em primeiro lugar, na sua célula básica, a família. É esta quem garante a renovação da sociedade através da geração de novas vidas e assegura o equilíbrio harmonioso e complexo da educação das novas gerações. Por isso, nunca um ou mais pais podem substituir uma mãe, e nunca uma ou mais mães podem substituir um pai.
 
            7. Complementaridade do masculino e do feminino
É um facto que algumas visões do masculino e feminino têm servido, ao longo da história, para consolidar divisões de tarefas rígidas e estereotipadas que limitaram a realização da mulher, relegada a um papel doméstico e circunscrita na intervenção social, econômica, cultural e política. Mas, na visão bíblica, o domínio do homem sobre a mulher não faz parte do original desígnio divino: é uma consequência do pecado. Esse domínio indica perturbação e perda da estabilidade da igualdade fundamental, entre o homem e a mulher. O que vem em desfavor da mulher, porquanto somente a igualdade, resultante da comum dignidade, pode dar às relações recíprocas o carácter de uma autêntica communio personarum (comunhão de pessoas).
 
A ideologia do gênero não se limita a denunciar tais injustiças, mas pretende eliminá-las negando a especificidade feminina. Isso empobrece a mulher, que perde a sua identidade, e enfraquece a sociedade, privada dum contributo precioso e insubstituível, como é a feminilidade e a maternidade. Aliás, a nossa época reconhece – e bem! – a importância da presença equilibrada de homens e mulheres nos vários âmbitos da vida social, designadamente nos centros de decisão econômica e política. Mesmo que essa presença não tenha de ser rigidamente paritária, a sociedade só tem a ganhar com o contributo complementar das específicas sensibilidades masculina e feminina.
 
            8. O “gênio feminino”
Nesta perspetiva, há que pôr em relevo aquilo que o Papa João Paulo II denominou “gênio feminino”. Não se trata de algo que se exprima apenas na relação esponsal ou maternal, específicas do matrimônio, como pretenderia uma certo romantismo. Mas estende-se ao conjunto das relações interpessoais e refere-se a todas as mulheres, casadas ou solteiras. Passa pela vocação à maternidade, sem que esta se esgote na biológica.Nesta, entretanto, comprova-se uma especial sensibilidade da mulher à vida, patente no seu desvelo na fase de maior vulnerabilidade e na sua capacidade de atenção e cuidado nas relações interpessoais.
 
A maternidade não é um peso de que a mulher necessite de se libertar. O que se exige é que toda a organização social apoie e não dificulte a concretização dessa vocação, através da qual a mulher encontra a sua plena realização. É de reclamar, em especial, que a inserção da mulher numa organização laboral, concebida em função dos homens, não se faça à custa da concretização dessa vocação, e se adotem todos os ajustamentos necessários.

            9. O papel insubstituível do pai
Não pode, de igual modo, ignorar-se que o homem tem um contributo específico e insubstituível a dar à vida familiar e social, cumprindo a sua vocação à paternidade, que não é só biológica, assumindo a missão que só o pai pode desempenhar cabalmente. Talvez o âmbito em que mais se nota a ausência desse contributo seja o da educação, o que já levou a que se fale do pai como o “grande ausente”. Isto pode originar sérias consequências, tais como desorientação existencial dos jovens, toxicodependência ou delinquência juvenil. Se a relação com a mãe é essencial nos primeiros anos de vida, é também essencial a relação com o pai, para que a criança e o jovem se diferenciem da mãe e assim cresçam como pessoas autônomas. Não bastam os afetos para crescer: são necessárias regras e autoridade, o que é acentuado pelo papel do pai.
 
Num contexto em que se discute a legalização da adoção por pares do mesmo sexo, não é supérfluo sublinhar a importância dos papéis da mãe e do pai na educação das crianças e dos jovens: são papéis insubstituíveis e complementares. Cada uma destas figuras ajuda a criança e o jovem a construir a sua própria identidade masculina ou feminina. Mas também, e porque nem o masculino nem o feminino esgotam toda a riqueza do humano, a presença dessas duas figuras ajudam-nos a descobrir toda essa riqueza, ultrapassando os limites de cada um dos sexos. Uma criança desenvolve‑se e prospera na interação conjunta da mãe e do pai, como parece óbvio e estudos científicos comprovam.
 
            10. A resposta à afirmação e difusão da ideologia do gênero
            A ideologia do gênero não só contrasta com a visão bíblica e cristã, mas também com a verdade da pessoa e da sua vocação. Prejudica a realização pessoal e, a médio prazo, defrauda a sociedade. Não exprime a verdade da pessoa, mas distorce-a ideologicamente.As alterações legislativas que refletem a mentalidade da ideologia do gênero -concretamente, a lei que, entre nós, redefiniu o casamento – não são irreversíveis. E os cidadãos e legisladores que partilhem uma visão mais consentânea com o ser e a dignidade da pessoa e da família são chamados a fazer o que está ao seu alcance para as revogar.
 
Se viermos a assistir à utilização do sistema de ensino para a afirmação e difusão dessa ideologia, é bom ter presente o primado dos direitos dos pais e mães quanto à orientação da educação dos seus filhos. O artigo 26º, nº 3, da Declaração Universal dos Direitos Humanos estatui que «aos pais pertence a prioridade do direito de escolher o vénero de educação dos seus filhos». E o artigo 43º, nº 2, da nossa Constituição estabelece que «o Estado não pode atribuir-se o direito de programar a educação e a cultura segundo quaisquer diretrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas».
 
De qualquer modo, a resposta mais eficaz às afirmações e difusão da ideologia do gênero há de resultar de uma nova evangelização. Trata-se de anunciar o Evangelho como este é: boa nova da vida, do amor humano, do matrimônio e da família, o que corresponde às exigências mais profundas e autênticas de toda a pessoa. A esse anúncio são chamadas, em especial, as famílias cristãs, antes de mais, mediante o seu testemunho de vida.
 
Fátima, 14 de novembro de 2013


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