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"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

domingo, 30 de abril de 2017

Domingo do Bom Pastor



Jesus, o Bom Pastor1

Ego sum pastor bonus. Bonus pastor animam suam dat pro ovibus suis – “Eu sou o Bom pastor. O Bom pastor dá a sua vida pelas suas ovelhas”.2


I. Assim diz Jesus Cristo mesmo no Evangelho deste dia: Ego sum pastor bonus – “Eu sou o Bom pastor”. O ofício de um bom pastor não é outro senão guiar as suas ovelhas para bons pastos e defendê-las contra os lobos. Mas, ó meu dulcíssimo Redentor, que pastor levou jamais a sua bondade tão longe como Vós, que quisestes dar o vosso Sangue e a Vida para salvar as vossas ovelhas, que somos nós, e livrar-nos dos castigos merecidos? Vós mesmo, diz São Pedro, levastes os nossos pecados em vosso Corpo pregado na Cruz, a fim de que, mortos para o pecado, vivamos para a justiça: pelas vossas chagas fomos curados: Cuius livore sanati estis.3 Para nos curar de nossos males, este Bom Pastor tomou a si todas as nossas dívidas e pagou-as com o seu próprio Corpo, morrendo de dor sobre a Cruz.

Este excesso do amor de Jesus para conosco, as suas ovelhas, fazia Santo Inácio Mártir arder do desejo de dar a vida por Jesus Cristo, dizendo, assim como se lê numa carta sua: Amor meus crucifixus est – “O meu amor foi crucificado”. Quis o Santo dizer: Como! Meu Deus quis morrer crucificado por meu amor, e eu poderei viver sem desejo de morrer por Ele? – Com efeito, que grande coisa fizeram os Mártires dando a vida por Jesus Cristo, que morreu por amor deles! Ah! A morte que Jesus Cristo padeceu por eles, suavizava-lhes todos os tormentos, os açoites, os cavaletes, as unhas de ferro, as fogueiras e as mortes mais dolorosas.

Não se contentou, porém, o nosso Bom Pastor com dar a vida pelas suas ovelhas; ainda depois de sua morte quis deixar-lhes na Santíssima Eucaristia o seu próprio corpo, já sacrificado uma vez na Cruz, a fim de que fosse o alimento e sustento das suas almas. O ardente amor que nos dedicava, diz São João Crisóstomo, levou-o a unir-se a nós e fazer-se uma coisa conosco: Semetipsum nobis immiscuit, ut unum quid simus.

II. “O mercenário”, assim continua o Evangelho, “e o que não é pastor, vê o lobo vindo e deixa as ovelhas e foge, porque é mercenário e não lhe importam as ovelhas”. Não é assim que faz Jesus Cristo, o Bom Pastor, ou antes o melhor de todos os pastores. Cada vez que vê as suas ovelhas assaltadas pelo lobo infernal e estas lhe bradam por socorro, logo acode a defendê-las e a combater por elas.

Quando vê uma ovelha tresmalhada, que não faz, quantos meios não emprega para reavê-las? Jesus Cristo não deixa de buscá-la enquanto não a achar. E depois de a achar, a põe contente sobre seus ombros, chama aos seus amigos e vizinhos (isto é, os Anjos e os Santos), e convida-os a alegrarem-se com Ele, por ter achado a ovelha que se tinha perdido: Congratulamini mihi, quia inveni ovem meam quae perierat.4 – Quem, pois, não amará com todo o afeto a este Bom Senhor, que se mostra tão amoroso mesmo para com os pecadores que lhe viraram as costas e quiseram voluntariamente perder-se?

Ah, meu amável Salvador! Eis aqui a vossos pés uma ovelha perdida: afastei-me de Vós, mas Vós não me abandonastes; fizestes todo o empenho para me reaver. Que seria de mim, se Vós não tivésseis pensado em me buscar? Ai de mim, que passei tanto tempo longe de Vós! Pela vossa misericórdia espero agora estar na vossa graça. Se outrora fugia de Vós, já não desejo outra coisa senão amar-Vos e viver e morrer abraçado aos vossos pés. Mas enquanto vivo, estou em perigo de Vos abandonar. Por piedade, prendei-me com os laços de vosso santo amor e não permitais que em tempo algum eu me desprenda de Vós. – “Ó Pai Eterno, que pela humilhação de vosso Filho levantastes o mundo prostrado, concedei-me alegria perpétua, para que, assim como me livrastes da morte eterna, me façais gozar dos prazeres eternos”.5 Fazei-o pelo amor de Jesus Cristo e de Maria Santíssima, minha querida Mãe.6


O Bom Pastor7

Jesus justificou o seu título de Bom Pastor

Infinitamente feliz em Si mesmo e não necessitando de nós, o Verbo Eterno dignou-se lançar um olhar para a nossa humanidade decaída, mas um olhar que engendrou um mundo de maravilhas por um efeito de seu poder, posto a serviço do amor infinito. Desejando preservar-nos do Inferno, baixou do Céu para no-lo abrir, veio tornar-nos dignos dEle. Para isso, quantos sacrifícios teve Ele de impor-se! Do seio das grandezas e glória da Pátria Eterna, desceu à obscuridade do nosso exílio; palácio lhe foi um estábulo; berço régio, um presépio, e repousa sobre a palha, leito dos mais vis animais. Oh! Dedicação incompreensível!

Não contente de preferir-nos aos Anjos, que deixou perecer um grande número, percorreu, em nossa procura, os montes, as colinas e os vales, trabalhando, afadigando-se, sofrendo fome, sede e inclemências do tempo; suportou todas as injúrias, deixou-se esbofetear, flagelar, cobrir-se de escarros e de contusões e sofreu toda sorte de vilanias para salvar-nos. Esgotado, cai sob o peso de uma Cruz.

O seu Corpo ensanguentado, suas carnes dilaceradas, sua fronte coroada de espinhos e seu belo rosto coberto de Sangue clamam eloquentemente a todos que Ele é o Bom Pastor, que dá a vida por suas ovelhas. O mercenário foge e abandona o rebanho aos dentes dos lobos; Jesus, porém, sobe ao Calvário, toma sobre Si as nossas enfermidades e padece voluntariamente a morte para nos salvar. Ó admirável efusão da vontade divina! Inestimável ternura da caridade infinita! A fim de reconduzir escravos, ovelhas errantes e tresmalhadas, o Filho de Deus sacrifica-se por nós.

Mas nós não éramos apenas ovelhas desgarradas; éramos também rebeldes; à força de carícias, Jesus triunfou das nossas revoltas insensatas. Mesmo quando os homens O ultrajavam e lhe davam a morte, Ele cumulava-nos de bens. Do alto da Cruz em que expirou, deu-nos a Igreja, deixou-nos sua Mãe e legou-se a nós na Sagrada Eucaristia. Não cessemos jamais de agradecer ao Bom Pastor por nos haver dado benefícios em vez de castigos, para conquistar os nossos corações obstinados.

Jesus, que Vos retribuirei por tantos benefícios? Não Vos posso dar nada melhor do que o meu amor. Fazei que esse amor: seja dócil, sempre pronto a obedecer-Vos ao menor sinal da vossa vontade; seja dedicado, disposto a seguir-Vos em tudo e em toda parte segundo o Vosso beneplácito; seja forte e generoso, isto é, resolvido a suportar privações e a impor-se sacrifícios para Vos permanecer fiel, ó amantíssimo Pastor.


Jesus justifica diariamente o seu título de Bom Pastor

Jesus afirma em São Lucas ser Ele o Pastor cheio de amor, que, perdida uma das cem ovelhas, deixa as noventa e nove e corre em procura da tresmalhada. Que bondade generosa! Um Deus, a grandeza infinita, a procurar uma criatura, um nada, apesar da ingratidão e infidelidade que ela diariamente comete, fugindo do Pastor e do rebanho!

Encontrada a ovelha após inúmeras fadigas, vendo-a fraca e desfalecida, em vez de puni-la sente compaixão dela; em vez de fazê-la caminhar a custo, fustigando-a com o seu cajado, toma-a carinhosamente sobre os ombros e leva-a ao aprisco. Tocante imagem da sua misericórdia e da doçura da sua graça para com o pecador arrependido! Com que amor o levanta e encoraja, facilitando-lhe a volta! Isaías diz: “Mal ouviu ele a prece de um coração contrito, apressa-se em responder-lhe e perdoar-lhe”.8 Quantas vezes não temos sido o objeto dessa bondade de Jesus! Recordemos o nosso passado e não cessemos de agradecer a Jesus a sua ternura para conosco.

Chegada a casa, o Bom Pastor convoca seus amigos e vizinhos e diz-lhes: “Congratulai-vos Comigo, porque tornei a achar a ovelha perdida. Haverá no Céu mais alegria, continua o Salvador, pela conversão de um pecador do que por noventa e nove justos que não tem necessidade de penitência”.9 Ó caridade inefável do nosso Deus! A ovelha é que se deveria alegrar por haver encontrado o seu Pastor e seu aprisco; mas, não, o Salvador aqui fala só da sua própria alegria e da dos Anjos; é que seu coração se inflama de amor para com a alma que a Ele se volve.

Se tivéssemos o desinteresse de Jesus, far-lhe-íamos, em retorno da sua generosa ternura, o sacrifício completo da vida tíbia, distraída e dissipada na qual passamos os nossos melhores anos sob o pretexto de negócios e ocupações, que não nos dispensam dos deveres para com Ele. As minhas ovelhas fiéis, disse Ele: 1º Me conhecem; e com quanta leviandade estudamos esse adorável Pastor nos mistérios das suas grandezas, de seus rebaixamentos, da sua Vida e Morte! – 2º Ouvem a Minha voz, disse Ele também; e como ouvi-la senão por uma vida recolhida que nos faça agir para fins sobrenaturais e em espírito de oração? – 3º As minhas ovelhas, conclui o Divino Mestre, seguem-Me constantemente, isto é, agem, os olhos sempre fixos em seu amável Pastor, para entrar em suas intenções, conformar-se aos seus sentimentos e praticar as virtudes de que Ele lhes deu o exemplo. Examinemos se temos esses característicos das ovelhas de Jesus.


Domingo do Bom Pastor10

Jesus Cristo padeceu por nós, deixando-nos o exemplo, para que sigais suas pisadas”. Será este exemplo por ventura muito seguido? Jesus Cristo, depois de haver feito todas as despesas da nossa Redenção, depois de se ter posto à frente de todos os escolhidos na qualidade de nossa Cabeça, encontrará muitas pessoas que sigam suas pisadas? Contudo, Ele é o caminho; qualquer que O não segue extravia-se. Este caminho é estreito, áspero, está semeado de cruzes, é verdade; mas é o caminho que Jesus Cristo nos ensinou, e que Ele próprio trilhou: este caminho é a lei evangélica, molesta sim aos sentidos e ao amor-próprio, mas o Salvador não nos ensinou outro caminho; antes nos diz terminantemente que qualquer outro caminho afasta da salvação e vai dar à infelicidade eterna. É verdade que há outros muitos caminhos, todos muito espaçosos, planos e floridos, mas não há nenhum que não conduza à perdição: Et multi sunt qui intrant per eam: é muito grande, nos diz o Senhor, o número dos que andam por eles. Não se vê outra coisa do que pessoas que vivem contentes em ponto de salvação, porque esquecem o costume e obram como os outros: esta é a linguagem ordinária dos mundanos, esta é a máxima do mundo; vive-se, obra-se, pensa-se, fala-se como os outros; mas obrar como os outros é obrar como a multidão, e a multidão segundo o oráculo de Jesus Cristo toma pelo caminho da perdição: Quae ducit ad perditionem. Não há caminho mais fácil de trilhar do que o da perdição; é amplo, é espaçoso, está-se nele com comodidade, tudo deleita, tudo lisonjeia: por isso, nada mais fácil do que perdermo-nos no mundo, e contudo, vive-se nele, como se não fosse possível o condenarmo-nos.


Meditação

Primeiro Ponto. – Considera que não há, ao parecer, coisa que o Salvador nos haja querido inculcar tanto como a misericórdia e a mansidão, com que olha os pecadores: sua Incarnação, os Mistérios de sua Paixão e Morte, seus Discursos, suas Expressões, as Parábolas de que se serviu, tudo nos prega, tudo nos demonstra esta misericórdia e esta predileção, para assim dizer, com os pecadores. Non veni vocare justos sed peccatores. Sua misericórdia é o mais glorioso de seus atributos, e é o atributo, de que mais se preza. Miserationes ejus super omnia opera ejus. De fato, que coisa de maior pasmo, do que um Deus querer fazer-se homem para salvar os homens perdidos pelo pecado? Compreende, se é possível, o incompreensível mistério da Incarnação, e compreenderás a grandeza imensa e a incompreensibilidade de sua infinita misericórdia.

Este Pastor, sentindo a perda de uma só de suas ovelhas que, extraviando-se, está em risco de ser devorada, deixa as noventa e nove para ir em busca da que se perdeu: tendo-a encontrado, carrega com ela às costas para lhe poupar a fadiga da caminhada, muito contente de a ter tornado a encontrar.

Mas por que título quer Ele ser reconhecido como o Bom Pastor? Dando a vida por suas ovelhas, alimentando-as de sua própria Carne. Podia, o Senhor dar-nos uma ideia mais clara de sua bondade, doçura e infinita misericórdia?

Segundo Ponto. – Considera que a grande misericórdia de Deus para com os pecadores, é para eles um grande motivo de confiança, mas não deve servir-lhes de pretexto para perseverar em seu pecado. Não há coisa mais perniciosa, nem mais criminosa, que a falsa confiança.

A misericórdia não salva aqueles, para os quais é um motivo de condenação. Que deve operar a misericórdia de Deus no pecador? Um desejo sincero de converter-se; pois este é um dos efeitos da misericórdia de Deus; mas é um veemente sinal de que não há mais misericórdia para um homem, quando se serve dela para não se converter. A misericórdia deve inspirar a confiança, mas uma confiança inseparável do arrependimento. Não pode ser mais requintada a malícia, do que quando chega a abusar da misericórdia de Deus, da sua paciência, para perseverar no deleito: porque Deus é bom, posso eu ser impunemente mau; não devo temer apurar-lhe a paciência; Deus é misericordioso, nada arrisco em ultrajá-lO; quando estiver cansado de O ofender, então recorrerei à sua misericórdia: se Deus fosse mais severo e menos bom, eu seria menos mau, teria mais contemplações, e andaria com mais cautela. Deus é infinitamente misericordioso, é verdade, e essa infinita misericórdia manifesta-se bastante na bondade com que acolhe os maiores pecadores, desde que arrependidos voltam para Ele com contrição e confiança. Mas, quando vê que a ideia desta infinita misericórdia alimenta no pecador a inclinação e afeição ao pecado, não será digno da justiça de Deus não usar já de misericórdia com um tão monstruoso pecador?

Senhor, eu espero demasiado em vossa bondade, e tenho uma ideia demasiado justa de vossa misericórdia, para que não me aconteça jamais tal desgraça.


Aspirações Piedosas para Durante o Dia

Misericórdias Domini in aeternum cantabo.11
Cantarei eternamente as misericórdias do Senhor.

Véniant mihi miserationes tuae, et vivam.12
Senhor, fazei-me sentir os efeitos de vossa misericórdia e viverei.


__________________________
1“Meditações para Todos os Dias do Ano” - tiradas das Obras Ascéticas de Santo Afonso Maria de Ligório, pelo Pe. Thiago Maria Cristini, C.Ss.R., Tomo Segundo, 3ª Semana depois da Páscoa – Segundo Domingo depois da Páscoa, pp. 37-39; versão portuguesa do Pe. João de Jong, C.SsR.; Herder & Cia. Livreiros – Editores Pontifícios, Friburgo em Brisgau (Alemanha), 1921.
2Jo. 10, 11.
3I Pedr. 2, 24.
4Luc. 15, 6.
5Or. Dom. curr.
6II 288.
7“Meditações para Todos os Dias do Ano – Segundo a Doutrina e o Espírito de Santo Afonso Maria de Ligório, para Uso de todas as Almas que Aspiram à Perfeição: Sacerdotes, Religiosos e Leigos”, Tomo I, Segunda Semana depois da Oitava da Páscoa – Jesus, o Bom Pastor, pp. 321-324; traduzida da 13ª Edição Francesa pelo Pe. Oscar das Chagas Azeredo, C.Ss.R.; III Edição, Editora Vozes Ltda., Petrópolis – RJ, 1959.
8Is. 30, 19.
9Luc. 15, 7.
10Rev. Pe. Croiset, S.J., “Ano Cristão ou Devocionário para Todos os Domingos, Dias de Quaresma e Festas Móveis”, Vol. XIV, Cap. Domingo do Bom Pastor, pp. 295-297; traduzido do francês, revisto e adaptado às últimas reformas litúrgicas pelo Rev. Pe. Matos Soares, Professor do Seminário do Porto, Porto, 1923.
11Salm. 88, 2.
12Salm. 118, 77.

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