A
VIA SACRA E O ROSÁRIO
DE
NOSSA SENHORA
Para
alívio das Almas do Purgatório, temos uma fonte de indulgências e
de riquezas espirituais – é a Via Sacra. Esta meditação
da Paixão e Morte do nosso Divino Redentor, nos lembra o Sangue
Precioso derramado pela salvação das almas, e nos faz pedir pelo
Sangue de Cristo a libertação das Almas do Purgatório. Quanto
alívio não traz às almas sofredoras uma piedosa Via Sacra! É uma
devoção santificadora para nós e um sufrágio precioso para as
pobres almas. Dizia São Boaventura: “Se quereis
crescer de virtude em virtude, atrair para vossa alma graça sobre
graça, entregai-vos muitas vezes ao exercício da Via Sacra”.
A Paixão de Jesus Cristo é remédio para nossa alma pecadora, e
este Sangue Precioso cairá sobre as almas como doce refrigério.

Na
Vida da V. Maria d’Antiga,
se conta que esta serva de Deus tinha o piedoso costume de fazer
todos os dias a Via Sacra pelos defuntos. Depois, com outras
ocupações e devoções, se descuidou desta. Um dia, uma religiosa
do mosteiro, falecida há pouco tempo, lhe apareceu e lhe disse,
gemendo: “Minha Irmã, porque não faz as estações da
Via Sacra por mim e pelas almas como antes?”
Neste momento, apareceu-lhe Nosso Senhor e disse-lhe: “Filha,
estou muito triste com tua negligência. É preciso que
saibas, que a Via Sacra é muito proveitosa para os defuntos, e eis
porque permiti que esta alma viesse reclamá-la em seu nome e em nome
das outras almas padecentes. É um sufrágio muito importante. É
preciso tornar este tesouro mais conhecido em favor das almas”.
Desde
esse dia, a serva de Deus se dedicou a este exercício e o propagou
com muito zelo. Pelo menos às sextas-feiras, se possível, façamos
uma Via Sacra pelos mortos. Como a Via Sacra, o Rosário é um
tesouro para os mortos também.
Um
dia, São Domingos
pregava sobre a eficácia do Rosário em favor das almas sofredoras.
Era nas planícies do Languedoc.
Um homem incrédulo zombou do Santo. Naquela noite teve uma
misteriosa visão. Via as almas se precipitarem nos abismos do
Purgatório e Maria Santíssima, com uma cadeia de ouro, as tirava do
abismo e as punha em terra firme. Era uma imagem do Rosário, cadeia
de ouro pela qual Nossa Senhora arranca do Purgatório as pobres
almas sofredoras.
Quantos
prodígios faz o Rosário em favor dos seus devotos na vida, na morte
e depois da morte, no Purgatório! Além do mais, o Rosário é um
tesouro de muitas indulgências que podemos aplicar em sufrágio das
pobres almas. Vamos rezá-lo sempre, nas horas vagas, pelas estradas,
em toda parte, não percamos o tempo. Aproveitemos para rezar muitos
rosários pelas pobres almas. Temos tantos parentes e amigos e tantas
almas queridas no Purgatório! Vamos aliviá-las com nosso Rosário
bendito!
O
“De Profundis”.
Que
é o De Profundis?
É o Salmo dos mortos, a oração que outrora nos lábios do Profeta
Davi chegou
até nós e parece vir das profundezas do abismo do Purgatório a
implorar nossa compaixão para com as pobres almas. É um dos Sete
Salmos Penitenciais. O Padre, diante do cadáver reza o De
Profundis.
Depois, ao vir buscar o cadáver para a sepultura, de novo reza o
Salmo dos Mortos. No cemitério e a caminho da sepultura o De
Profundis.
Os fiéis, depois do Pai Nosso e da Ave Maria, rezam o De
Profundis.
Por que esta prece? Por que se tornou a oração dos defuntos? Porque
assim começa: De Profundis… das profundezas…
Não parece um gemido saído do Purgatório? O sentido deste Salmo é
este: o seu esquema pode ser o seguinte: O salmista, imerso na
profundeza dos pecados, invoca a Deus.
Como somos pecadores, só a confiança em Deus, só o perdão de Deus
nos pode salvar.
Com muita confiança e um desejo ardente, o pecador aguarda este
perdão.
O
povo de Israel também alimenta esta mesma esperança de perdão e de
Redenção e de Redenção copiosa.
Ora,
estes gemidos, estas aspirações de Redenção e de perdão copioso,
este clamor doloroso colocamos em nossos lábios e suplicamos pelas
almas que sofrem no abismo do Purgatório. Não é verdadeiramente
próprio e significativo para uma súplica dos defuntos o De
Profundis?
Eis agora o texto do Salmo, na tradução nova do Novo Saltério:
“Das
profundezas clamo a Vós, Senhor,
Ouvi,
Senhor, a minha voz!
Atendam
os vossos ouvidos
O
brado da minha súplica,
Se
conservardes, Senhor, a memória das ofensas,
Quem,
Senhor, poderá subsistir?
Mas
em Vós está o perdão dos pecados,
Para
que sejais servido com reverência.
No
Senhor ponho a minha esperança,
Espera
minha alma na sua palavra,
Aguarda
minha alma o Senhor,
mais
do que os vigias da noite a aurora,
Sim,
mais do que os vigias da noite
a
aurora aguarde Israel o Senhor,
Porque
no Senhor a misericórdia,
Nele
há Redenção abundante.
E
Ele resgatará Israel
De
todas as suas iniquidades”.
Eis
o Salmo na nova tradução. Muita gente nossa o recita já de cor e
em outras palavras. Não importa. O essencial é que o recitem com
piedade e fervor e se lembrem que é Salmo dos Defuntos, muito alívio
pode trazer às benditas Almas do Purgatório.
Práticas
devotas
Há
muitos meios de sufragar os mortos. Escolhamos a segunda-feira
consagrada pela tradicional piedade do povo a devoção do
Purgatório. Há o piedoso costume de se fazer tudo quanto possível
na segunda-feira pelas almas. Dar esmolas aos pobres, visitar os
doentes, praticar algumas mortificações, etc. Felizes se pudermos
comungar, assistir a Santa Missa nesse dia, enfim, fazermos por
juntar muitos tesouros de sufrágios pelas almas. Temos o Domingo,
dia do Senhor; a terça-feira, consagrada aos Santos Anjos; a
quarta-feira, consagrada a São José; a quinta-feira, consagrada ao
Santíssimo Sacramento; a sexta-feira, consagrada ao Sagrado Coração
de Jesus e à Paixão; o sábado consagrado a Nossa Senhora. Seja a
segunda-feira dos fiéis defuntos. Dia do nosso sufrágio, da nossa
caridade para com as almas que padecem nas chamas expiadoras. Em
algumas Paróquias e Comunidades Religiosas há piedosos exercícios
neste dia. Por que não havemos de concorrer para que sejam eles
frequentados, e estabelecidos onde não se fazem? Muitas pessoas
entre nós têm um costume que às vezes toma um cunho supersticioso:
o de acender velas em portas de cemitérios e em cruzes da estrada
(Cruzeiros), ou pelos campos em favor das Almas do Purgatório. Não
poderia ser reprovado, se não tivesse às vezes um cunho muito
supersticioso. Velas acesas sem oração, pouco adiantam para os
mortos. A vela é para lembrar Cristo, Luz do mundo, e sendo
de cera, e benta, é um sacramental.
Por
que não acender então velas bentas? E rezar mais ao invés de
queimar tanta vela, sem um sufrágio, sem uma prece pelos mortos?
Nosso
povo tem uma grande devoção pela vela acesa. Não a reprovamos, mas
desejaríamos que houvesse mais compreensão da necessidade da oração
pelos mortos. A vela simboliza a Luz que os defuntos esperam no Céu.
Diz tantas vezes a Liturgia: Que a luz perpétua resplandeça para
eles. Talvez por esta súplica, repetida muitas vezes, este
pedido de luz, é que o povo tomando num sentido muito material o
belo simbolismo da vela, gosta de acendê-la em profusão. Não deixa
de ser edificante e impressionante a multidão de velas acesas nas
sepulturas de nossos mortos. Disse e repito: longe de mim reprovar
tão piedosa prática, mas desejaria vê-la mais compreendida no seu
simbolismo e preferiria ver acesas velas bentas nas sepulturas e nos
cemitérios.
Nosso
povo tem muitas tradições de devoção às almas. Havia pelos
nossos sertões os grupos de suplicantes de orações pelas almas,
que muitas vezes degeneraram em abusos. Estão abolindo um costume
piedoso e tocante. Quando morre alguém numa família, durante nove
dias, a contar do dia da morte, todas as noites se reúnem os
parentes e amigos do morto para a recitação do Terço ou da Novena
das Almas em sufrágio do morto. Por que não conservar esta bela
tradição?
Enfim,
já vimos e meditamos durante este mês quanto é necessária e útil
a devoção às santas Almas do Purgatório. Façamos tudo por elas,
pobrezinhas, que só tudo esperam de nós. Sejamos dedicados
apóstolos do Purgatório.
Exemplo
Proteção
das Santas Almas
Mons.
Louvet, na sua obra “Le
purgatoire d’ápres les revelations des Saints”,
narra um fato prodigioso da proteção das almas aos que a elas
socorrem com sufrágios.
Um
Padre italiano, Luiz Monaci,
religioso dos Clérigos Menores, era um fervoroso devoto das almas.
Em toda parte e em todas as ocasiões procurava meios de ajudar as
benditas almas sofredoras. Em uma noite teve de viajar e atravessar
sozinho uma planície deserta e perigosa, porque, infestada de
bandidos e salteadores, haviam já tirado a vida a muita gente para
roubar. Pelo caminho, o bom Padre não perdia tempo: ia recitando
piedosamente o Rosário de Maria pelas Almas do Purgatório. Ao
avistar de longe o pobre Sacerdote sozinho e desprovido de armas, um
grupo de bandidos se preparou para o assaltar e puseram-se de
emboscada. Qual não foi o espanto de todos quando ouviram o soar de
trombetas e um grupo de soldados que marchava armado ao lado do
Padre. Aterrorizados, esconderam-se os bandidos; pensaram em soldados
que os vinham prender. Viam, entretanto, o Padre muito tranquilo a
caminhar, recitando o Rosário. Entrou este numa hospedaria próxima.
Enquanto o Padre ceava, dois bandidos curiosos se aproximaram e
perguntaram curiosos:
– Que
Padre é este que anda acompanhado pelas estradas de soldados que o
protegem?
– Aqui
não chegou soldado algum a este Padre, nunca
andou assim em viagem…
Os
bandidos, curiosos, procuraram entrar em palestra com o Sacerdote e
perguntaram-lhe do batalhão que o escoltava.
– Meus
filhos, eu ando sozinho pelos caminhos. Só tenho um companheiro, o
meu Rosário, que recito sempre pelas Santas Almas do Purgatório
para que elas me protejam.
– Pois
bem, meu Padre, confessa um
bandido, estas Almas vos salvaram. Somos bandidos e
estávamos na estrada, prontos para vos despojar e matar. E só não
o fizemos porque um batalhão vos seguia pela estrada, e,
aterrorizados, fugimos e viemos aqui curiosos saber do que se trata.
Cremos que as Almas das quais sois tão devoto vos salvaram da morte.
Os
bandidos, tocados pela graça, ali mesmo de joelhos pediram perdão
dos pecados e confessaram-se humildemente.
O
Pe. Rossignoli e
outros autores contam inúmeros casos de proteção das Santa Almas
em favor dos seus benfeitores.
Na
verdade, mesmo nas coisas temporais os devotos caridosos que nunca se
esquecem de socorrer as benditas Almas do Purgatório, podem contar
com uma proteção segura da Divina Providência em todas as
circunstâncias difíceis, porque Deus sempre recompensa esta grande
caridade.
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Fonte:
Mons. Ascânio Brandão,
“Tenhamos Compaixão
das Pobres Almas!”,
Cap. “A
Via Sacra e o
Rosário”,
pp. 147-153.
2ª Edição, Editora “Ave Maria” Ltda, São Paulo/SP, 1956.