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"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

domingo, 1 de dezembro de 2013

TROPEÇOS DE UM EXORCISTA



Um padre, experiente e muito amigo, confessou-me recentemente: vêm aumentando os casos de pessoas que o procuram devido a sinais de infestação demoníaca.
Ao mesmo tempo, após um longo inverno racionalista – quando anjos e demônios foram reduzidos a meras manifestações mitológicas ou lucrativos espetáculos de cinema – algumas editoras se animam a publicar estudos sobre exorcismo e libertação espiritual.
Pena que existe o risco de cair de Caribde em Cila, trocando o extremo do ceticismo racionalista pelo extremo do demonismo alucinatório. Aliás, todos sabem que o demônio gosta de duas atitudes de nossa parte: negar a sua existência ou vê-lo presente em tudo, mesmo onde ele não está.
Mas o que me move, neste artigo, é o livro “Cura do mal e libertação do maligno”, de Elias Vella, OFM Conv [São Paulo, Ed. Canção Nova-Palavra e Prece, 2008]. Já em terceira edição, o livro adota uma linguagem simples, com intenção de atingir o público mais amplo, evitando um discurso mais estrito do ponto de vista teológico. Entre outros temas, trata do sofrimento humano e do pecado, das doenças interiores e sua cura, da ação demoníaca e do combate espiritual.
Sem discutir sua “teologia” – e ela é discutível! -, não posso ficar indiferente ao lamentável equívoco cometido pelo Autor em duas diferentes passagens da obra. Vou citá-las literalmente:
1) “Padre René Laurentin escreveu um livro belíssimo sobre Marta Robin com o título La Passion de Madame R. É um estudo teológico científico sobre essa mulher que era possuída pelo demônio, mas este ser possuída era um degrau na direção de uma santidade mais elevada. E, de fato, ela, apesar de todos os exorcismos, é morta, possuída pelo demônio.” (Cf. p. 147.)
2) “O perito sobre este tema [possessão de uma pessoa santa] é René Laurentin, teólogo especializado em mariologia. Escreveu muito sobre este tema e provavelmente o livro mais clássico (que já mencionei) é La Passion de Madame R., em que explica e aprofunda o estudo sobre a mística Marta Robin. Era uma mulher santa, mas possuída pelo diabo, e Laurentin concluiu que essa possessão era uma cruz que o Senhor permitia praticamente para conduzi-la ao cume da mística.” (Cf. p. 179.)
Pois o Autor, ainda que exorcista e professor de Teologia na Ilha de Malta, foi muito mal informado. Para encurtar a conversa, Madame R. e Marthe Robin são duas pessoas diferentes. Marthe Robin, a co-fundadora dos Foyers de Charité, cujo processo de beatificação prossegue em Roma, nasceu em 1902 e faleceu em fevereiro de 1981. Madame R. (inicial de seu nome Rolande) morreria mais tarde, em janeiro de 2000, e foi o seu “Diário” que Laurentin publicou e analisou. Podemos encontrar traços comuns na experiência das duas místicas, como a saúde precária, os longos períodos sem qualquer alimentação (mais de 50 anos, no caso de Marthe) e as agressões físicas por parte do demônio. O Pe. Bernard Peyrous, postulador da causa de Marthe e um de seus biógrafos, recorda que tal tipo de agressão é “clássico em certos místicos”, como Padre Pio della Pietrelcina, o Cura d’Ars e Madre Yvonne-Aimée de Malestroit.
Marthe Robin recebia as pessoas para aconselhamento, entre as quais o filósofo Jean Guitton, da Academia Francesa, e o famoso teólogo dominicano Garrigou-Lagrange. Madame R. atendia pelo telefone “SOS Libertação” [SOS Délivrance]. Nos dois casos, há numerosos depoimentos de pessoas que testemunham as graças recebidas através desse aconselhamento.
Enfim, como tradutor de dois livros sobre Marthe Robin [A Vida Silenciosa de Marthe Robin, Foyer de Mendes, RJ, e Em Caminho para Deus, Ed. Cidade Nova, São Paulo], e depois de ter lido mais de uma dezena de livros sobre ela, posso afirmar que o termo “possessão” nem de longe pode ser atribuído à sua experiência mística.
Com todo o respeito, um exorcista que chega a confundir duas pessoas de carne e osso, como Marthe e Madame R., não me parece o mais indicado para o discernimento dos espíritos desencarnados...
1 Antônio Carlos Santini Licenciado em letras – Português e Francês pela FFCL da Fundação Rosemar Pimentel, Barra do Piraí, RJ. Professor de Artes e Ciências Humanas. É membro da Comunidade Católica Nova Aliança, evangelizador, compositor, autor de vários livros de catequese e poesia, tradutor de francês, italiano e espanhol, colabora em vários jornais e revistas.


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