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"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

quinta-feira, 3 de março de 2022

Da Estrada Real da Santa Cruz.


1.1 A muitos parece dura esta linguagem: Nega a ti mesmo, toma a tua cruz e segue a Jesus.2

Muito mais dura, porém, será ouvir aquela última sentença: apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno.3

Os que agora ouvem e seguem de boa vontade a palavra da Cruz, não hão de temer um dia a da condenação eterna.

Este sinal da Cruz aparecerá no Céu quando o Senhor vier a julgar.4

Todos os discípulos da Cruz que, conformaram a sua vida com a de Jesus crucificado, com grande confiança aproximar-se-ão de Cristo Juiz.

2. Por que temer, pois, tomar a Cruz, pela qual se vai ao Reino do Céu?

Na Cruz está a salvação, na Cruz a vida, na Cruz a proteção contra os inimigos.

Na Cruz a fonte das suavidades celestiais, na Cruz a fortaleza da alma, na Cruz a alegria do espírito, na Cruz a consumação da virtude, na Cruz a perfeição da santidade.

Não há salvação para a alma, nem esperança de vida eterna senão na Cruz.

Toma, pois, a tua Cruz, segue a Jesus e chegarás à vida eterna.

Ele te precedeu carregando a sua Cruz e na Cruz morreu por ti, para que tu também carregues a tua Cruz e na Cruz desejes morrer.

Porque se com Ele morreres, com Ele viverás e se Lhe fores companheiro no sofrimento, sê-lo-ás também na glória.

3. Tudo, pois, se encerra na Cruz e se resume em morrer nela.

E não há outro caminho que leve à vida e à verdadeira paz interior, senão o caminho da Santa Cruz e da mortificação quotidiana. Anda por onde quiseres, procura quanto quiseres, não encontrarás caminho mais sublime acima do caminho da Santa Cruz, nem abaixo dele, caminho mais seguro.

Dispõe e ordena todas as coisas conforme o teu gosto e parecer, e verás que sempre, queiras ou não, hás de padecer alguma coisa, e assim sempre encontrarás a Cruz; porque ou hás de sofrer dores no corpo ou tribulações na alma.

4. Ora serás desamparado por Deus, ora atormentado pelo próximo e, o que mais é, muitas vezes serás pesado a ti mesmo.

E não encontrarás nem remédio que te cure, nem consolação que te alivie, mas terás que sofrer enquanto Deus quiser.

Deus quer, com efeito, que aprendas a sofrer sem consolo, a Ele te submetas totalmente e com a tribulação te tornes mais humilde.

Ninguém sente tão intimamente a Paixão de Cristo, como o que passou por tormentos semelhantes aos Seus.

A Cruz, portanto, está sempre preparada e em todo lugar te espera.

Não poderás fugir, onde quer que te refugies, porque aonde quer que fores, te levarás contigo e te encontrarás a ti.

Volta-te para cima ou para baixo, para fora ou para dentro, sempre acharás a Cruz e sempre é necessário que tenhas paciência, se queres possuir paz interior e merecer a coroa eterna.

5. Se de bom grado levares a Cruz, ela te levará a ti e te conduzirá ao fim que desejas, onde já não terás que sofrer; mas, não será neste mundo.

Se de má vontade a levares, aumentar-lhe-ás o peso e agravarás a tua carga, e, ainda assim, é forçoso que a suportes.

Se rejeitares uma Cruz, outra encontrarás com certeza e talvez mais pesada.

6. Cuidas escapar àquilo, de que não se eximiu nenhum mortal?

Que Santo houve no mundo, que não teve cruzes e tribulações? Nem Jesus Cristo, Senhor Nosso, passou, em toda a Sua vida, uma só hora, sem as dores de Sua Paixão. Era necessário, disse Ele, que Cristo sofresse e ressuscitasse dos mortos e assim entrasse em sua glória.5

Como, pois, buscas outro caminho fora da estrada real da Santa Cruz?

7. Toda a vida de Cristo foi Cruz e Martírio e queres descanso e gozo?

Andas errado e muito errado, se buscas outra coisa que não sofrimentos; toda esta vida mortal é cheia de misérias e cercada de cruzes.

E quanto mais progressos na vida espiritual fizer uma alma, tanto mais pesadas serão, muitas vezes, as suas cruzes; porque com o amor crescem as penas do exílio.

8. Mas, entretanto, a quem se acha no meio de tantas provações, não lhe faltará o alívio e consolo, porque sentirá o grande fruto que lhe advém da paciência em levar a sua cruz.

Pois quando alguém se submete de bom grado, o peso da tribulação, todo se converte em confiança que o consola.

E quanto mais se quebranta a carne pela aflição, tanto mais se fortalece interiormente o espírito pela graça.

E, algumas vezes, o desejo de sofrer penas e adversidades para mais se assemelhar a Cristo crucificado, inspira tanta força à alma, que ela já não gostaria de viver sem dores e tribulações, persuadida que será tanto mais agradável a Deus, quanto mais e maiores trabalhos sofrer por seu amor.

Não é isto virtude humana senão graça de Cristo, que tanto pode e tanto faz numa carne frágil, que o homem, pelo fervor do espírito, ame e abrace o que, naturalmente, lhe causa aversão e horror.

9. Não é natural ao homem levar a Cruz, amar a Cruz, castigar o corpo e submetê-lo ao espírito, fugir das honras, sofrer de bom grado as afrontas, desprezar-se e querer ser desprezado, aturar as adversidades e desgraças e não desejar nenhuma prosperidade neste mundo.

Se a ti só olhares, de nada disto és capaz por ti mesmo. Mas, se confiares no Senhor, do alto ser-te-á dada a força com que dominarás o mundo e a carne; e se estiveres armado com fé e com o Sinal da Cruz de Cristo, nem o mesmo Inimigo infernal temerás.

10. Dispõe-te, pois, como bom e fiel servo de Cristo a levar com ânimo a Cruz do teu Senhor, por teu amor crucificado.

Prepara-te para sofrer muitas adversidades e toda sorte de trabalhos nesta vida miserável; porque é o que te espera, onde quer que estejas e o que encontrarás, onde quer que te escondas.

É uma necessidade; e não há outro meio de escapar à tribulação dos males e à dor senão, ter paciência contigo.

Bebe amorosamente o cálice do Senhor, se queres ser Seu amigo e partilhar a Sua herança.

Deixa que Deus disponha de Suas consolações; que Ele as distribua como for de Seu agrado.

Quanto a ti, prepara-te para padecer tribulações, considerando-as como as consolações mais preciosas, porque todos os sofrimentos desta vida não têm proporção alguma com a glória futura, que em nós se há de manifestar,6 e não poderias merecê-la ainda que, só, os pudesses suportar todos.

11. Quando chegares a ponto de saborear e achar doces as tribulações, por amor de Cristo, dá-te por feliz, porque encontraste o Paraíso na terra.

Mas, enquanto te pesa ainda o sofrimento e procuras evitá-lo, irás mal e a tribulação que foges seguir-te-á em toda parte.

12. Se, porém, te dispões ao que deves, isto é, a sofrer e a morrer, logo te sentirás melhor e acharás a paz.

Ainda que fosses como São Paulo, arrebatado ao terceiro Céu, não estás por isso seguro de nada sofrer. Mostrar-lhe-ei, disse Jesus, quanto há de sofrer por meu nome.7

Não te resta, portanto, senão sofrer se queres amar a Jesus e servi-lO sempre.

13. Agradasse a Deus fosses digno de padecer alguma coisa pelo Nome de Jesus! Que glória para ti! Que alegria para os Santos de Deus! Que edificação para o próximo!

Na verdade, todos aconselham a paciência, mas poucos querem exercitá-la.

Com razão deverias sofrer um pouco por amor de Cristo, quando tantos por amor do mundo padecem males mais graves.

14. Tem por certo que, a tua vida deve ser uma morte contínua; quanto mais cada um morre a si mesmo, tanto melhor começa a viver para Deus.

Só é capaz de compreender as coisas do Céu, quem se resigna a suportar por amor de Cristo as adversidades.

Nada há mais agradável a Deus, nem mais proveitoso para ti neste mundo, que padecer de boa vontade por Cristo.

E se te dessem a escolher, deverias preferir sofrer, trabalhar por Ele, a ser recreado com muitas consolações, porque assim te assemelharias mais a Cristo e melhor te conformarias com exemplo de todos os Santos.

O nosso merecimento e o progresso na perfeição, consistem menos na abundância das doçuras e consolações, do que em passar por grandes trabalhos e provações graves.

15. Se para a salvação do homem alguma coisa houvesse de melhor e mais útil do que o sofrimento, Cristo, sem dúvida, no-lo haveria ensinado com Suas palavras e exemplos.

Ora, aos discípulos que O acompanhavam e a quantos desejam segui-lO, Ele exorta claramente a levar a Cruz dizendo: Quem quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me.8

Assim, pois, lidas e bem pesadas todas as coisas, seja esta a última conclusão: Para entrar no Reino de Deus, é necessário passar por muitas tribulações.9



1ª Reflexão10

A Igreja tem o cuidado de nos pôr diante dos olhos a Cruz, como emblema dos sofrimentos, a que estamos sujeitos desde o berço até ao túmulo. Se administra um Sacramento, se dá uma bênção, se faz uma cerimônia qualquer, sempre e em tudo nos apresenta a cruz. À cabeceira dos moribundos, na sepultura dos mortos, na cúpula das grandes catedrais, na frente dos templos mais humildes, lá nos aparece a cruz, como símbolo que abrange e relaciona as amarguras do tempo com as delícias da eternidade. A cruz é o estandarte da milícia cristã; os ímpios odeiam-na, os Santos amam-na. São diferentes e numerosas as cruzes, e cada um de nós tem a sua; todos havemos de sofrer de um modo ou de outro; ou por vontade ou contra a vontade. As dores não respeitam os privilégios de nascimento, nem se curvam diante das cabeças coroadas.

O tomar a cruz à semelhança de Jesus Cristo, é obra de rigoroso Preceito e não de mero conselho. Em vista, pois, de uma verdade tão clara, que resolução deverás tomar hoje mesmo? Visto que não podes fugir à cruz, decide-te a levá-la com resignação, fazendo da necessidade virtude. Os sofrimentos são uma moeda preciosa com que podes comprar o Céu. Que importa que pareçam amargos à natureza, se de fato te podem conduzir à glória? Um enfermo que deseja curar-se não pede ao seu médico remédios doces: atende ao fim que pretende alcançar e por ele avalia a eficácia dos medicamentos: são bons os que lhe derem a saúde. Não devemos avaliar as tribulações pelo paladar estragado da nossa natureza corrompida; escutemos os ditames da nossa razão, o exemplo de Jesus Cristo, da Santíssima Virgem e dos Santos. Já viste acaso algum varão santo que à hora da morte se mostrasse arrependido de ter seguido a Cristo? Por certo que não podes apresentar um só exemplo.

Este fato, só por si, bem meditado, deve bastar para que distingas qual o caminho mais seguro, que se te oferece.

Além do mais, é razoável que te prepares para o futuro. Se o instinto da conservação te move a fazer provisão de recursos para a velhice, quanto não deverá mover-te o amor da salvação, a juntar merecimentos? À velhice talvez não chegues, mas ao tribunal de Jesus Cristo necessariamente hás de chegar.

Hoje sabes o que sofres, amanhã não sabes o que terás de sofrer. Se agora não levas a tua cruz com resignação, exercitando-te de longe, pior a levarás, quando Deus lhe aumentar o peso. Porque Judas não mortificou a avareza, chegou a enforcar-se desesperado. Faze pois dos sofrimentos de hoje, medicina para os de amanhã: a paciência da véspera, ajuda para o dia seguinte. Deus, que é infinitamente rico nunca dá coisas de pouco valor a seus filhos, mesmo quando lhes põe aos ombros pesadas cruzes.



2ª Reflexão11

O que os homens menos entendem é a doutrina da Cruz, para os Judeus escândalo, para os Gentios loucura.12

Que um Deus morresse para salvar os homens, Mistério é profundo perante o qual se inclinara sua razão; porém, que devam associar-se a este estupendo sacrifício, morrendo a si mesmos, às suas paixões, eis o que os escandaliza, e lhes faz dizer como os Carfarnaítas: Esta palavra é dura, e quem pode ouvi-la?13

Forçoso, é porém, que a ouçamos, pois dela depende nossa salvação. A Cruz reconciliou o Céu com a terra, que estavam em guerra. Da árvore da Cruz, brota o pomo de vida, que se perdera no Paraíso terreal; de seu tronco misterioso rebentam viçosos ramos, que se elevam até o Céu. Abracemo-nos, pois, com o Lenho Sagrado, em que esteve pendente o Salvador do mundo; seja ele neste desterro nossa consolação, assim como é nossa fortaleza e nossa esperança.

Quando, por sua bondade, Deus nos enviar alguma tribulação, digamos com Santo André: Ó doce Cruz! Por mim tão desejada e agora preparada para esta alma, que por ela ardentemente suspira!

Todos os Santos sentiram este abrasado desejo, todos falaram a mesma linguagem. Sofrer ou morrer, repetia constantemente Santa Teresa! E no sofrimento achava mais quietação e ventura, que não gozam nunca os que o mundo chama felizes.

Uma só lágrima derramada aos pés de Jesus Crucificado, é mil vezes mais deliciosa que todos os prazeres do século.

Formosa Cruz, mais resplandecente e rica com o Sangue do Divino Cordeiro, que formosos rubis. Tu fostes o fim de Seus trabalhos, tu o começo de Seu repouso, tu a vitória de Sua batalha, tu a entrada de Sua glória e posse de Seu reinado. Tu és a minha herança, que deste Senhor me ficou; adoro-te, recebo-te por meu rico tesouro. Ó mais formosa que todas as estrelas, mais forte que todos os exércitos, triunfadora de todos os inimigos. Tu és minha coroa, minha glória, minha riqueza, e minha esperança no tremendo dia do Juízo. Amém.


3ª Reflexão14

É verdade, certamente, que se queremos ser salvos, devemos apegar-nos à Cruz de nosso Salvador, meditando-a e trazendo em nós sua mortificação: não há outro caminho para ir ao Céu. Por ele passou primeiro Nosso Senhor. Êxtases, elevações de espírito, e arroubos quantos quiserdes; elevai-vos, se puderdes, até o terceiro Céu com São Paulo; mas, se com tudo isso, não ficais na Cruz de Nosso Senhor, e não vos exercitais na mortificação de vós mesmos, digo-vos que tudo o mais é vaidade, e que estais vazios de todo bem, sem virtude, sujeitos e dispostos a escandalizar-vos, com os Judeus, da Paixão de nosso Divino Salvador. Em suma, não há outra porta para entrar no Céu, senão a humildade e mortificação.15

Enquanto eu pensar que jazeis enferma e aflita (a bom entendedor falo), prestar-vos-ei uma reverência particular e uma honra extraordinária, como a uma criatura visitada por Deus, trajando suas vestes, e esposa sua especial. Nosso Senhor quando esteve na Cruz, foi declarado Rei, até por seus inimigos; e as almas que padecem cruz, são declaradas rainhas.

Não sabes, de que os Anjos nos têm inveja; certamente de nenhuma outra coisa, senão de podermos padecer por Nosso Senhor, e eles nunca padecerão por amor d’Ele. São Paulo que estivera no Céu e entre as felicidades do Paraíso, não se dava por feliz senão em suas enfermidades, e na Cruz de Nosso Senhor.16



Oração17

Salve! Ó Cruz preciosa! Salve, bendita tribulação! Ó aflição santa, quanto és amável, pois, saíste do seio amoroso do Pai de eterna misericórdia, que te quis desde toda a eternidade, e te destinou… para mim! Ó Cruz! Meu coração te quer e te abraça com toda a sua dileção.


____________________

1.  Imitação de Cristo, nova tradução portuguesa pelo Pe. Leonel Franca, S.J., Livro II, Cap. XII, pp. 81-87. 4ª Edição, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro/São Paulo, 1948.

2.  Luc. IX, 23.

3.  Mat. XXV, 41.

4.  Mat. XXIV, 30.

5.  Luc. XXIV, 26 e 46.

6.  Rom. VIII, 18.

7.  Act. IX, 16.

8.  Mat. XVI, 24.

9.  Act. XIV, 21.

10.  Imitação de Cristo, novíssima edição, confrontada com o texto latino e anotada por Monsenhor Manuel Marinho, Livro II, Cap. XII, pp. 120-121. Editora Viúva de José Frutuoso da Fonseca, Porto, 1925.

11.  Imitação de Cristo, Presbítero J. I. Roquette, Livro II, Cap. XII, pp. 143-144. Editora Aillaud & Cia., Paris/Lisboa.

12.  I Cor. I, 23.

13.  Jo. VI, 61.

14.  Imitação de Cristo, Versão portuguesa por um Padre da Missão, Livro II, Cap. XII, p. 129-130. Imprenta Desclée, Lefebvre y Cia., Tornai/Bélgica, 1904.

15.  São Francisco de Sales, Sermão para o 2º Domingo do Advento, IV.

16.  São Francisco de Sales, 10ª Carta espir. X.

17.  São Francisco de Sales, Trat. do Amor de Deus, L. XII, Cap. IX.


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