Blog Católico, para os Católicos

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"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

segunda-feira, 7 de março de 2022

O Real Caminho do Amor: "O SOFRIMENTO". 3ª Parte.

 


Terceira Meditação


Terça-feira


O Sofrimento,

como Remédio do Pecado,

é de Alívio na Tribulação.


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I – Cura os pecados presentes.

Considera que os trabalhos são o remédio do pecado; porque tornam a pôr em ordem, com a beleza da justiça, o que a deformidade da culpa tinha desordenado no mundo. Ora, para um remédio ser bom, deve conter em si eficácia para nos curar o mal presente, reparar os males passados e preservar-nos dos males futuros: tudo isto encontramos muito avantajadamente no sofrimento.

Em primeiro lugar, sara-nos do mal presente. Porque, que pensas tu que é o teu coração? É uma esponja embebida em veneno mortífero, composto das culpas atuais que cada dia cometes, dos maus hábitos que com elas contraíste e, sobretudo, do teu amor-próprio tão apegado às coisas da terra, tão ávido de prazeres, tão insaciável, enfim, tão maligno, que se insinua nas obras mais santas e se põe a si mesmo como fim de todas as tuas ações; de maneira que os orvalhos mais preciosos do Céu somente lhe servem para o fazerem mais prejudicial e nocivo: Banhado para seu mal com o orvalho do Céu.1

E sendo assim, bastará que Nosso Senhor toque somente ao de leve a um coração tão depravado, para dele sair todo o veneno da sua malícia? Certamente que não! É necessário que o aperte com o peso da tribulação, por muito tempo e com mão firme: só deste modo poderá deitar até a última gota a peçonha que o mata. Todas estas iniquidades que tinham endurecido, como endurece o gelo no rigor do inverno, e que com o andar do tempo facilmente se tornariam duras como rocha, desfazem-se logo ao primeiro sopro da tribulação, sem que no teu coração fique sinal delas.2

E, ainda, continuarás a queixar-te das tuas aflições, sem refletir que te queixas do teu próprio bem e que, em vez de te levantares contra o pecado, que é o teu verdadeiro mal, te levantas contra o seu remédio? Dirás que a tribulação não te ajuda na virtude, antes te fazes pior com ela. Mas, infeliz de ti se assim fosse. Pois seria este um sinal de perdição que te faria semelhante àquele réprobo Acaz, o qual com o infortúnio aumentou, ainda mais, a sua impiedade contra o Senhor.3

Humilha-te pois com todo o teu coração, por teres tantas vezes resistido às inspirações daquele Senhor que, ferindo sara e castigando cura os verdadeiros males da alma: Ele mesmo é o que faz a chaga e a sara, fere e cura com suas mãos.4 Confessa que em tuas obras te tens mostrado até agora como um frenético; e por isso deves suplicar ao teu divino Médico, que de hoje em diante, não faça caso das tuas loucuras, antes tendo só em conta o bem da tua alma, use de todo o rigor necessário para a cura das tuas chagas cancerosas, e deste modo possas com o santo Job consolar-te no meio daquelas aflições que tanto medo te causavam: Sirva-me de consolação o não dissimular o Senhor os meus pecados, e que me os castigue, afligindo-me com dores.5

II – Repara os danos dos pecados passados.

O sofrimento, além de nos livrar do mal presente do pecado, repara também os males que o mesmo pecado deixou na alma. Todo o pecado, trás consigo duas coisas: a obrigação de nos convertermos a Deus com arrependimento, e a obrigação de satisfazer à divina justiça pela injúria que Lhe fizemos. Que imaginas tu que fazes quando pecas? Contrais uma dívida que, forçosamente hás de pagar, ou nesta vida ou na outra, ou padecendo por necessidade ou padecendo livremente, quer por tua escolha, quer, pelo menos, com resignação ao que Deus te envia.

Por isso, o santo Job se mostrava tão cauteloso em todas as suas ações, ainda que em si tão boas; pois via que irremediavelmente havia de receber o castigo de qualquer culpa que fizesse: Temia-me de todas as minhas ações, sabendo que não deixais impune pecado nenhum.6 Como, pois, não queres passar pelo castigo, sendo culpado como és? Bem se vê que, não conheces quão grave é teres ofendido a Deus, ainda que não fosse senão uma vez.

Só uma curiosidade em olhar para a Arca do Senhor, não custou a vida no mesmo instante a mais de 50 mil Betsamitas? E tu, sobre quem pesam tantos pecados, queixas-te de que alguma vez o Senhor te mostre menos propício o seu divino rosto? Te sentes carregado de dívidas, e não queres pagar? Fizeste sofrer por tanto tempo ao mesmo Deus, e não queres que Deus te faça sofrer nada a ti? Saboreaste o doce do pecado, e não lhe queres provar o amargor? Vê quão má e quão amarga coisa, é teres deixado ao Senhor teu Deus.7

Para não comeres os frutos da desobediência, não devias ter antes desobedecido a Deus: Não pratiques o mal e o mal não virá sobre ti;8 mas querer ser culpado e não querer estar sujeito a castigo nenhum é a maior das monstruosidades. E se Deus não deixa impunes nem as imperfeições e os descuidos dos Santos, se quer que este cálix de penalidades e trabalhos seja bebido até pelos inocentes, como há de permitir que nem seja provado por ti? Se ainda aqueles que não estavam sentenciados a beber o cálix da ira do Senhor, terão de o beber sem falta; tu hás de ficar excetuado como inocente?9 Isto nem sonhando: Não serás tratado como inocente; bebê-lo-ás sem remédio.10

Reconhece por consequência a grande misericórdia da divina justiça contigo, tomando tão ligeira vingança das tuas iniquidades, pelas quais te poderia com toda a razão condenar a uma pena eterna; e confessa com o santo rei Davi esta mesma misericórdia, dizendo: Senhor, Vós mostras-te-Vos propício com eles, ainda quando Vos vingáveis das injúrias que eles Vos faziam.11

É uma grande piedade que o Senhor te castigue aqui, onde a pena é tão leve e ao mesmo tempo vai acompanhada de tanto merecimento; não te devias queixar, senão, pelo contrário, dar muitas graças a Deus. Pede-lhe que se compadeça da tua ignorância; e quando daqui em diante ouvires ao teu perverso amor-próprio sair em desatinos contra a Cruz, tapa-lhe a boca imediatamente, com aquelas belíssimas palavras do bom ladrão: Nós justamente sofremos este suplício, porque pagamos o que merecem os nossos crimes.12

E, certamente, somos tratados por Deus, não segundo os nossos merecimentos, senão com infinita misericórdia e piedade; somos castigados com pena infinitamente menor do que a que nos é devida; de sorte que cada um de nós pode muito bem dizer de si: Pequei e verdadeiramente delinqui, e não fui castigado segundo merecia.13

III – Preserva das culpas futuras.

O sofrimento não só estende a sua eficácia ao mal presente e ao mal passado, mas ainda ao que pode vir; que é quanto se pode desejar de um remédio. Para te convenceres desta verdade, observa que o pecado ou nasce do prazer ou do temor; porque sempre pecamos ou para adquirir algum bem ou para fugir de algum mal.

Suposto isto, a tribulação livra-nos, por uma parte, da matéria mais ordinária dos nossos erros, tirando o pasto à nossa sensualidade; e, por outra, dá à nossa alma uma força acima do ordinário, para resistir a qualquer encontro, avigorando o coração com os trabalhos. Daqui se vê, que o sofrimento é o maior e talvez o único remédio para curar a nossa alma, como diz o profeta Isaías: Só a aflição fará entender as coisas que se ouviram.14

Portanto, sem o fogo da tribulação não esperemos que se limpe totalmente a ferrugem dos nossos afetos; sem estas borrascas não chegará nunca a purificar-se e a sossegar o mar do nosso coração; sem estas angústias não se libertará dos maus hábitos inveterados. Porque foges, pois, com tanta obstinação, de um remédio que sara a alma de todo o pecado? A medicina (da vigilância) atalha os pecados mais graves.15

E com razão; porque o sofrimento, além de pôr fim aos pecados presentes, dispondo-nos para os aborrecermos, além de apagar os pecados passados satisfazendo a dívida contraída, livra-nos de outros que podíamos cometer tapando com seus espinhos o caminho, que facilmente nos desviaria do bem começado.

Se isto é verdade, porque não fazes tu ao Senhor uma súplica, semelhante à que Lhe fez Jeremias: Visitai-Me, Senhor, como divino médico; e, ainda que seja amarga e desagradável a meus sentidos a medicina que me receitais, eu a tomarei de boa vontade, porque esse amargor é saudável. Não queirais exercitar comigo a vossa paciência, suportando os meus crimes sem castigo; mas fazei que a exercite eu, sofrendo de bom grado todas as adversidades que Vos me mandardes.16

Tais devem ser os sentimentos de um pecador que reconhece o mal que fez; e se a tua delicadeza não te deixa desejar os padecimentos, sirva ao menos para confundir a tua covardia, e para te animar a pedir ao Senhor uma tal fortaleza de coração que, depois de ouvires tantos bens da Cruz, não te horrorizes nem assustes quando a receberes da sua divina mão.



Oração a Jesus Coroado de Espinhos,

para alcançar a Paciência

Eu Vos adoro, ó meu Jesus, a Quem as próprias estrelas são indignas de coroar, e que, não obstante, estou vendo coroado de espinhos por minha causa! Adoro-Vos, formosíssimos olhos, alegria do Paraíso, vendados e cobertos de lágrimas por meu amor! Adoro-Vos, rosto diviníssimo, que os Anjos não se cansam de contemplar e que eu agora vejo tão denegrido, lívido e desonrosamente cuspido! Ó espelho sem mancha, feito por amor de mim, espelho de opróbrios e dores! Como é possível que, fixando atentamente a vista em Vós, não reconheça a minha cegueira; pois, carregado de pecados, recuso beber uma gotinha sequer desse cálix amargo que Vós, ó bem único da minha alma, quereis tomar até ao fim?

Não sou eu o que tantos pecados tenho cometido, e pecados tão feios e de tanta malícia? Pois, como não quero agora pagar alguma parte daquela dívida imensa, que contraí pecando? Ainda mais. Posso tornar facilmente a cometer os mesmos pecados; e serei tão louco e cego, que continue a olhar com horror para as tribulações? Não são as tribulações que, à maneira de espinhos, nos vedam o caminho que leva ao precipício? Ah! Senhor! Sou como um frenético que não conhece o mal que tem, nem o remédio que o cura. E assim, quanto mais virdes que me enfureço, mais Vos peço que tenhais compaixão de mim; e quanto mais virdes que fujo de aceitar o remédio, mais Vós me obrigais na vossa bondade a tomá-lo.

Aquele amor infinito que Vos levou a padecer tanto por mim, mova-Vos também agora a ter paciência com a minha ingratidão e miséria. Vós bem sabeis que posso muito facilmente cair, não porém levantar-me; que sou muito capaz de me impacientar, mas não tenho força para sofrer. Senhor, refúgio e verdadeira fortaleza minha, ajudai-me a levantar, amparai-me, fazei que comece de uma vez a ser imitador Vosso. Debaixo de uma cabeça coroada de espinhos, não está bem que haja membros tão delicados como eu.

Desejo mudar totalmente de vida; desejo ser o que não sou agora; de hoje em diante, desejo ter tanto amor ao sofrimento como antes era a repugnância e aversão que lhe tinha. Vós cuja bondade me dá este desejo, dai-me também a graça de o cumprir com fidelidade; a fim de que, depois de ter sido semelhante a Vós na terra com os trabalhos, chegue a ser no Céu semelhante a Vós na glória e felicidade eterna. Amém.


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1.  Rore coeli infectus (Dan., IV

2.  In die tribulationis, sicut in sereno glacies, solventur peccata tua (Eccli., III, 12).

3.  Tempore angustiae auxit Achaz contemptum in Dominum (II Paral., XXVIII, 22).

4.  Vulnerat et medetur, percutit et manus ejus sanabunt (Job., VI, 10).

5.  Haec mihi sit consolatio, ut affligens me dolore, non parcat (Job., VI, 10).

6.  Verebar omnia opera mea, sciens quod non parceres delinquenti (Job., IX, 28).

7.  Vide quoniam malum et amarum est reliquisse te Dominum (Jer., II, 19).

8.  Noli facere mala et non te apprehendent (Eccli., VII, 1).

9.  Ecce quibus non erat judicium ut biberent calicem, biberentes bibent; et tu quasi innocens relinqueris? (Jer., XLIX, 12).

10.  Non eris innocens, sed bibens (Jer., XCVIII, 8).

11.  Deus, tu propitius fuisti eis, ulciscens in omnes adinventiones eorum (Ps., XCVIII, 8).

12.  Nos quidem juste, nam digna factis recipimus (Luc., XXIII, 41).

13.  Peccavi et vere deliqui et ut eram dignus non recepi (Job., XXXIII, 27).

14.  Tantummodo sola vezatio intellectum dabit auditui (Isai., XXVIII, 19).

15.  Curatio cessare facit peccata magna (Eccli., X, 4).

16.  Domine, visita me; noli in patientia tua suscipere me (Jer., XV, 15).


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