Blog Católico, para os Católicos

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"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

quarta-feira, 9 de março de 2022

O Real Caminho do Amor: "O SOFRIMENTO". 4ª Parte.

 

Quarta Meditação


Quarta-feira


A Lembrança do Inferno

é de alívio na Tribulação


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I. Sofre, porque mereceste o Inferno.

Considera a grande cegueira de uma alma que, depois de ter merecido o Inferno, ainda que fosse uma só vez, se atreve não obstante a queixar-se nas tribulações. Esta alma quase se pode afirmar que és tu que, não uma vez só, senão muitas e talvez inumeráveis, mereceste a condenação eterna; e agora esquecido de tudo, pareces receber uma injúria quando tens alguma coisa que sofrer, e te dás por ofendido sempre que se te oferece alguma cruz, por pequena que seja.

Deves, pois, lembrar-te da sentença que o Senhor pronunciou no Céu contra ti, logo que pecaste, a qual foi unanimemente aprovada por todos os habitantes do Paraíso. Esta sentença foi, que em castigo de teres iniquamente faltado à obediência, devida aos Mandamentos divinos, fosse como escravo fugitivo, acorrentado com cadeias inquebrantáveis e aferrolhado em prisão de fogo, onde com eternos tormentos e eterna desesperação desses a Deus por força a glória que, pecado, lhe tinhas roubado: Lançai-o atado de pés e mãos às trevas exteriores, onde haverá pranto e ranger de dentes.1

Pois, imagina tu agora que Deus, em cumprimento desta ordem, te houvesse entregue nas mãos dos Demônios, para que te arremessassem àquelas chamas eternas; e que, quando já estavas à boca daquele abismo de fogo, quando já começavam a queimar-te as primeiras labaredas daquele incêndio, quando a teus ouvidos chegavam os rugidos desesperados daqueles infelizes, ao sentires pela primeira vez o cheiro insuportável daquela sentina infernal, te fizessem em nome de Deus a seguinte pergunta: – Que darias tu, para tornar atrás e sair desta voragem e lugar de tormentos?

Imagina tudo isso com viveza e considera a sério, se em tal aperto te pareceria duro outro qualquer partido, que então te propusessem. Não só te pareceria coisa de nada, e como um sonho, o ser retalhado em pedaços, membro por membro, como um São Clemente de Ancira; o estar trinta e oito anos cravado numa cama, vítima de toda a sorte de enfermidades, como uma Santa Ludovina; mas ainda terias em muito pouco o penar no mesmo fogo do Inferno tantos milhões de anos como de areias tem o mar, se por fim, viesses a ser aniquilado. Este partido e esta troca seriam para ti um tão grande favor, que era para te mostrares eternamente agradecido a teu Juiz, por ter sido contigo sumamente benigno.

E contudo, não é muito maior graça e mercê muito mais assinalada, não te ter deixado experimentar nem por poucos instantes, aquelas infinitas misérias, do que, depois de nelas teres caído, arrancar-te de tais horrores? E se tu, depois de teres provado um só trago daquele cálix tão amargo da ira de Deus, terias como benefício inefável a graça de poderes trocá-lo por outra calamidade, qualquer que ela fosse, contanto que tivesse fim; como é que te dás por agravado agora, quando Deus te substitui esses males eternos por outros, que em comparação deles se podem chamar pinturas?

Te dóis das angústias interiores do coração, te dóis do enfado que te causam os inimigos, te dóis das perdas que experimentas, da pobreza, das doenças; e não comparas males com males, número com número, peso com peso, medida com medida!

Coteja o que presentemente sentes com o que devias sentir; e, se à vista destes dois extremos – do que mereces e do que sofres –, tens ainda ânimo para te queixares, quase me atreverei a dizer que são justas as tuas queixas.

Mas estou seguro que à viva luz daquelas chamas, por tantos títulos a ti devidas, não poderás deixar de confessar que não és tratado como mereces: Não nos tratou segundo mereciam os nossos pecados, nem deu às nossas iniquidades o castigo que mereciam.2 Entra pois dentro de ti, e envergonhando-te e condenando como injustíssimas todas as tuas passadas queixas, roga a Deus Nosso Senhor que continue a usar contigo daquela misericórdia infinita com que até agora te tem tratado como Pai amorosíssimo e não como justo Juiz: Grande é a vossa misericórdia comigo; tirastes a minha alma do fundo do Inferno.3

II. Sofre, porque foste preservado do Inferno.

Considera que este grandioso benefício de teres sido preservado do Inferno até agora, obriga-te não só a aceitar com resignação as tribulações, mas também a sair-lhes ao encontro e a desejá-las com ardor, para deste modo satisfazeres à divina Justiça. Se nesta preservação a misericórdia de Deus foi glorificada em te perdoar, a sua justiça não foi satisfeita, ao menos por ti e à tua custa.

Pois bem, o amor que deves a este divino atributo, obriga-te também a tomar a peito os seus interesses e a fazer com que se lhe dê a honra que os teus pecados lhe roubaram. Certamente, se alguma vez entendeste quanta é a formosura da divina justiça, de nenhuma outra coisa te lamentarias tanto como de que as tuas penas e trabalhos não possam glorificar, quanto desejavas, a este Senhor ofendido. E pela mesma razão, os padecimentos porque passas não os terias como tais, se pensasses no gosto que Deus sente em ver restabelecida a ordem com o teu castigo.

Este é o exemplo que nos deixou o nosso divino Redentor, o qual, tendo tomado à sua conta satisfazer à justiça do seu Eterno Pai, depois de passar todos os dias da sua vida em um contínuo desejo da Cruz e numa sede ardentíssima de derramar nela todo o Seu Sangue, comprazia-se, quando já pregado nesse madeiro de ignomínia, em ver o seu santíssimo Corpo desfeito em mil Chagas, trespassado de cravos e espinhos, submergido num mar de tormentos, só por assim dar glória a seu Pai, e glória infinitamente maior do que a dívida por nós contraída e por Ele plenamente satisfeita.

Deixa-te animar também deste espírito de penitência; e já que não tens valor bastante para afligir, como devias, a tua sensualidade, entra pelo menos a tomar parte nos desígnios da divina justiça e não leves a mal que ela, por meio dos teus trabalhos, restaure as perdas da sua glória e, à custa do teu amor-próprio, compense de algum modo as tuas injúrias.

Não te dês por satisfeito com aceitar humildemente e como réu que és, os males presentes. Em obséquio daquele Senhor, que te trocou os eternos e horríveis tormentos do Inferno em brevíssima e momentânea tribulação neste mundo, reúne, como num feixe todas as misérias que hás de padecer até ao fim da vida, quais são: frio, calor, pobreza, cansaço, dores, enfermidades, desprezos, perseguições, tristezas, desolações e tudo o que te espera de mais penoso neste vale de lágrimas, e oferece-o em holocausto à divina Justiça, protestando que aceitas tudo de boa vontade, em satisfação dos teus pecados.

Mais em particular, oferece-lhe a tua morte, e o estado miserável a que será reduzido o teu corpo na sepultura, quando estiver convertido em podridão, comido de bichos, reduzido a um punhado de cinza e como que a nada. Alegra-te de que seja destruído e aniquilado esse mesmo corpo, que foi o estímulo, o instrumento e o culpado de tantas injustiças; e que, por se ter levantado contra o seu Senhor, seja humilhado com um abatimento tão espantoso até ao fim do mundo, para deste modo tributar a homenagem devida à Majestade infinita. Oh! De quanto alívio são para uma alma, ilustrada com a luz do Céu, estes sentimentos e verdades! E de quanto o serão para ti, se lhes abrires humildemente o coração!

Confunde-te, pois, agora da tua ignorância, faze propósito de não ouvires o que te pede a natureza corrompida; e como este é um grau de perfeição, a que não podes chegar com as tuas próprias forças, suplica ao Senhor que te dê a sua graça, para te abraçares com a Cruz tão apertadamente, que só a morte consiga separar-te dela.

III. Sofre, pra não tornares a merecer o Inferno.

Considera, que o teres sido até agora preservado do Inferno não te assegura que não o tornes a merecer e não venhas a cair nele. Cercam-te de todos os lados inimigos poderosíssimos que, de dia e de noite, por força ou por engano, te combatem e armam ciladas, para te arrastarem àquele lugar de tormentos. E o que é mais, trazes dentro de ti mesmo a sensualidade rebelde que, à maneira de traidor doméstico, se coliga com os inimigos de fora e a cada passo te quer precipitar naquele abismo sem remédio; de sorte que não podes mover um pé sem perigo de te perderes: Caminhas no meio de laços.4

Sendo isto assim, qual é a tua maior defesa entre tantos perigos? O sofrimento; quer seja aceitando de boa vontade o que a divina Providência te envia de trabalhoso, quer ajuntando tu, para mais te assegurares, outras penitências voluntárias, como sempre fizeram os Santos. A paciência deve ser perfeita nas obras.5 A paciência dá grande fortaleza à alma, para vencer todos os obstáculos; pelo contrário, quem não está acostumado a padecer facilmente cede, como espada temperada em banho de azeite, cujo fio a cada golpe se embota, ou como árvore medrada em terreno mole, que ao menor peso se fende.

Além disso, a tribulação confirma-te o direito que, já como cristão, já como justo, tens de possuir como herança o mesmo Deus. O Senhor, diz o Profeta, encheu-me o coração de amargura, inebriou-me de absinto.6 Mas que se seguiu depois? O Senhor é a minha herança, disse a minha alma.7 Ele possuirá o meu coração. Ditosas penas, se tais frutos produzis!

Pelo contrário, deplorável condição de prosperidade temporal, que tão facilmente vai acabar na miséria eterna! Recebeste bens durante a tua vida, disseram àquele desgraçado rico do Evangelho. Recebeste, e não roubaste. Porque, se bem os contentamentos e alegrias desta vida são também dons de Deus, e se recebem da sua mão como esmola, contudo, ainda que em si sejam inocentes, põem-nos em grande perigo de perder a paga, devida aos poucos serviços que ao Senhor fazemos, e que é a parte da herança que nos toca.

De maneira que, quanta é a segurança da salvação que nos dá o padecer com Lázaro, tanto é o perigo em que nos põe o ter gozado com o rico avarento: Recebeste bens durante a vida e Lázaro, pelo contrário, males; pois agora este é consolado e tu atormentado.8 Como é, pois, que buscas tão constantemente o que te faz mal, isto é, o que deleita; e foges com a mesma insistência do que te faz bem, isto é, do que custa? Ora pois, daqui em diante não troques os nomes às coisas para desgraça tua: Chamai mal ao bem e bem ao mal.9 Todo o nosso bem está na Cruz; pela Cruz conseguiremos achar a Cristo; para levar a Cruz foi-nos dada a vida. Que fazemos neste mundo miserável, se não padecemos!

Ou padecer ou morrer! Aut pati aut mori, repetia constantemente Santa Teresa.



Oração a Nosso Senhor

com a Cruz às costas,

para alcançar a Penitência.


Pacientíssimo Jesus, que coisa tão monstruosa não é a que em mim vedes! Que lamente os seus trabalhos quem mereceu o Inferno! Se o vosso amorosíssimo Coração não se houvesse posto entre a vossa divina justiça e as minhas maldades, não se tivesse pago por todas as minhas dívidas, onde estaria eu neste momento? Não seria a minha habitação um abismo de fogo, numa desesperação eterna, num apartamento eterno do Sumo Bem? E eu, esquecido de tudo isto, dou-me por ofendido quando me desprezam; parece-me coisa estranha que a vossa mão benigníssima não me regale, e que não desfrute sempre daquela serenidade, da qual nem ainda as almas mais inocentes chegam a gozar de contínuo neste mundo! Ó cegueira do meu entendimento! Ó perversidade do meu coração!

Vós, inocentíssimo Cordeiro, ides por diante desfalecendo, debaixo do peso de uma Cruz que eu agravei com os meus pecados; e eu que os cometi, fujo, como se não fossem meus, de Vos seguir com a minha cruz tão leve?

Ó Luz incriada, que aparecestes no mundo para iluminar a todos os homens, compadecei-Vos das minhas trevas e dissipai-as. Vós conheceis a fundo os meus males; só Vós os podeis remediar; remediai-os, pois, para glória vossa.

Eu deveria andar em busca das tribulações, para com elas dar à vossa divina justiça a honra que, com o castigo, de mim teria direito a exigir; mas, se a tanto não chego, pelo menos não seja eu tão covarde que tenha medo até da sua sombra. Eis-me aqui, pois, entregue nas vossas divinas mãos; e, contanto que, não me veja eternamente separado de Vós, como até agora mereci e me o faz temer a minha fraqueza, entrego-Vos a chave da minha liberdade, e terei por grande dita beber aquele cálice da vossa Cruz, que a todas as horas me ofereceis.

E, já que estas resoluções são vossas, e Vós as inspirais ao meu coração, confirmai-as, Senhor, até a morte, depois da qual espero que, se Vos tiver seguido aqui na terra com a minha cruz, também Vos hei de ver triunfante no vosso trono e reinar convosco para sempre no Céu. Amém.


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1.  Ligatis manibus et pedibus eius, mittite eum in tenebras exteriores; ibi erit fletus et stridor dentium (Math., XXII, 13).

2.  Non secundam peccata nostra fecit nobis, neque secundam iniquitate nostras retribuit nobis (Ps., CII, 10).

3.  Misericordia tua magna est super me et eruisti animam meam ex inferno inferiori (Ps., LXXXV, 13).

4.  In medio laqueorum ingredieris (Eccli., IX, 20).

5.  Patientia opus perfectum habet (Jac., I, 4).

6.  Replevit me Dominus amaritudine, inebriavit me absinthio (Thren., III, 15).

7.  Pars mea Dominus, dixit anima mea (Thren., III, 15).

8.  Recepisti bona in vita tua et Lazarus similiter mala; nunc autem hic consolatur, tu vero cruciaris (Luc., XVI, 25).

9.  Dicitis malum bonum et bonum malum (Isai., V, 20).


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