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"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Hino à Caridade.


São Paulo, Apóstolo.


“Aemulamini autem charismata meliora.
Et adhuc excellentiorem viam vobis demonstro”
(Iª Epistola ad Corinthios, Cap. XII, 31).[1]

“Aspirai, pois, aos dons melhores.
E eu vou mostrar-vos um caminho ainda mais excelente”
(1ª Epístola aos Coríntios, Cap. 12, 31).[2]


A Superioridade da Caridade

“Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos Anjos, se não tiver Caridade, sou como um bronze que soa, ou como um címbalo que tine. E, ainda que eu tivesse o dom da profecia e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e tivesse toda a Fé, até ao ponto de transportar montes, se não tiver Caridade, não sou nada. E, ainda que distribuísse todos os meus bens no sustento dos pobres, e entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tiver Caridade, nada (disto) me aproveita” (vv. 1-3).

As Obras da Caridade

“A Caridade é paciente, é benigna; a Caridade não é invejosa, não é temerária; não se ensoberbece, não é ambiciosa, não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não suspeita mal, não se alegra com a injustiça, mas alegra-se com a verdade; tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo sofre” (vv. 4-7).


Perenidade da Caridade

“A Caridade nunca há de acabar (nem mesmo no Céu); mas as profecias passarão, e as línguas cessarão, e a ciência será abolida. Porque imperfeitamente conhecemos, e imperfeitamente profetizamos. Mas, quando vier o que é perfeito, será abolido o que é imperfeito.

Quando eu era menino, falava como menino, apreciava (as coisas) como menino, discorria como menino. Mas, quando me tornei homem feito, dei de mão às coisas que eram de menino. Nós agora vemos (a Deus) como por um espelho, em enigma; mas então (O veremos) face a face. Agora conheço-O em parte; mas então hei de conhecê-lO como eu mesmo sou (dEle) conhecido.

Agora, pois, permanecem (como necessários para todos) estas três coisas: a Fé, a Esperança, a Caridade; porém, a maior delas é a Caridade” (vv. 8-13).

Reflexões

1 – Não passaria de um bronze que soa”. O mais eloquente pregador sem a Caridade que deve animar sua voz e inspirar sua eloquência, não é mais que um bronze que soa ou um sino que tange. Pode agradar por sua eloquência, como os instrumentos por seu timbre e som, mas não pode tirar utilidade alguma para si mesmo. Sem a Caridade, pode-se anunciar a Palavra de Deus, como os trabalhadores que semeiam o grão, ou que cultivam a vinha, mas que não tem parte na vindima, nem na colheita. A Caridade é paciente, é cheia de bondade. Em dois traços delineou o Apóstolo o mais perfeito retrato e o mais acabado da Caridade. A paciência faz que sofram sem dificuldade os defeitos de nossos irmãos, e a bondade até previne suas necessidades, isto é, o substancial, o que faz toda a doçura, todo o exercício e o próprio caráter da Caridade. “A Caridade não é invejosa”. A quantos pois não falta a Caridade, e por isso, estão apenas possuídos de um falso zelo! Onde se encontra a inveja, não está a Caridade. “Não obra mal”. A Caridade é o único laço que une a prudência e a sabedoria com o ardor e a vivacidade. Qualquer outro amor é cego, quando é ardente; e o capricho, a indiscrição, a temeridade, algumas vezes a loucura, e sempre alguma paixão, é o que o guia. “A Caridade não é ambiciosa”. Um ambicioso não ama a ninguém cristãmente: despreza os inferiores, não cede aos superiores, senão por interesse: crê ter pelo menos os mesmos, e às vezes mais, merecimentos do que eles para ocupar o posto que eles ocupam: se seus iguais podem pretender as mesmas posições do que ele, desconfia e trata de os enganar. Mas se ele não ama ninguém, será porventura amado de alguém? “Não busca seus próprios interesses”. Se não há amor sincero que não seja desinteressado, a honra de formar verdadeiros amigos está reservada à Caridade Cristã. Que é de fato, a amizade profana, senão um comércio em que o amor próprio traz no intento algum interesse? Pode asseverar-se que a amizade está desterrada do que se apelida mundo; cada um busca-se a si mesmo na amizade: se é amigo, enquanto o amigo pode ser útil. É desgraçado? Caiu em pobreza? Pois veja agora onde estão os amigos.

“A Caridade não pensa mal de ninguém”. Esses censores malignos que têem sempre os olhos abertos sobre os defeitos de seus irmãos e os que julgando dos outros por suas próprias disposições, suspeitam mal pelas mais ligeiras aparências, terão grande Caridade para com aqueles, cujas menores faltas ponderam? Que não se enfeita com o nome especioso de zelo: todo o zelo sem caridade não passa de orgulho mascarado, uma maligna paixão disfarçada: A Caridade cobre a multidão dos pecados. Enfim, a Caridade, segundo o Apóstolo, tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. A amizade aligeira os trabalhos, a Caridade chega a volvê-los amáveis: que humilde e submissa faz a Caridade a Fé do entendimento, submetido o coração à lei! Que ardor e vivacidade dá a Esperança! Porque amo a Deus, suspiro pela dita de O possuir e espero-o confiadamente.[3]

2 – “… A Caridade faz-nos professar, para com o próximo, o mesmo amor que tributamos a Deus, amá-lo em Deus, como a um filho, amigo e esposo de Deus; une-nos a ele por um laço tão íntimo, tão forte, tão doce e tão santo, que a natureza não poderia conhecer nem suspeitar igual...

Uma vez mais agradeçamos a Deus sua graça que produz semelhantes frutos de doçura e santidade. O melhor modo de o fazer será considerar este amor, não como um jugo pesado, imposto pela lei, mas como das mais gloriosas coroas que nos pode preparar sua infinita bondade. Prefiramo-la aos bens materiais e ainda a todas as graças e virtudes sobrenaturais, como no-lo ensina o Apóstolo quando diz: Embora falasse as línguas dos Anjos e dos homens, se me faltasse a Caridade, não passaria de um bronze que soa ou um címbalo que tine. Ainda quando tivesse o dom das profecias, e conhecesse todos os segredos e todas as ciências, e minha Fé pudesse transportar os montes, sem a Caridade, eu nada seria. E se repartisse todos os meus bens para alimentar os pobres, e entregasse meu corpo às chamas, não tendo eu a Caridade, tudo isto de nada me serviria.[4]

Por esta Caridade possuímos tudo; se a perdemos, tudo estará perdido. Quando está presente, também o estão todas as outras virtudes sobrenaturais; quando se ausenta, perdem as outras sua vida e força, incapazes de levar-nos à vida eterna.[5] Embora não baste qualquer pecado mortal, para fazer-nos perder a Fé e a Esperança, é ele contudo suficiente para fazer-nos perder a Caridade e com ela a Graça Santificante, sem a qual a Fé e a Esperança são mortas, e mal merecem o nome de virtude, porquanto não nos habilitam para merecermos o Céu, nem para vivermos a vida dos filhos de Deus.[6] Somente a Caridade, diz S. Agostinho, distingue os filhos de Deus dos filhos do Demônio.[7] Importa-nos, portanto, adquiri-la e conservá-la neste mundo, a qualquer preço, ainda a custo da própria vida. Assim poderemos gozar, um dia, de suas delícias, no seio do Pai celeste, por toda a eternidade”.[8]

3 – “A oração do justo penetra o Céu, e as suas obras sobem, como o fumo do incenso, até o trono do Senhor, para aplacar sua ira. Ah! Que seria dos pecadores sem a proteção dos justos? Quantas vezes teria acabado o Senhor com o ingrato Israel, se o justo Moisés não se tivesse prostrado na Sua presença, intercedendo por ele? Porém, que digo! O mundo inteiro não subsiste senão em atenção aos justos, e acabados estes acabar-se-ia o mundo. É admirável a passagem que acerca deste ponto nos referem os livros santos[9]...

Nesta memorável passagem, vemos que dez justos teriam sido suficientes para salvar uma cidade tão populosa e criminosa como Sodoma, e se Abraão  tivesse descido a cinco, talvez teríamos visto que bastavam cinco justos para salvá-la. Ó cristãos! Quanto pode na estimação de Deus a presença dos justos! Quanto interessa aos homens, aos povos e aos reinos o abrigarem justos no seu seio! Quanto deveríamos todos desejar que se aumentassem este precioso número! E quanto não deveríamos trabalhar cada um de nós por pertencermos a ele! Os justos cobrem, como escudo, os pecadores e os povos em que habitam; suspendem os raios da Divina Justiça que os seus delitos provocam, e isto quer dizer que as obras dos justos, ou dos que estavam na graça de Deus, são propiciatórias e pertencem à Comunhão dos Santos”.[10]

4 – “Para o conhecimento sobrenatural de Deus deparamos duas etapas: a Fé e a Eterna Visão. Não assim para o amor: a Caridade, levando em seu dinamismo interno, em seu mais profundo movimento, todo nosso ser para Deus em Sua plena Realidade divina, é sempre a mesma, quer permaneça Deus oculto e somente aceito pela Fé, quer se manifeste pela visão. Esteja o Amado na obscuridade ou na luz, o amor autêntico vai a Ele num movimento direto que não se desvia e O atinge em cheio. Quer seja Deus para nós obscuridade ou Luz, a maneira de conhecê-lO muda, mas não assim a maneira de nos darmos a Ele. A Caridade não tem, pois, a imperfeição da Fé: é perfeita desde esta vida. A Fé cessará para dar lugar à visão, a Esperança cessará para dar lugar à plena posse, a Caridade não cessará e durará eternamente, jorrando da Visão como jorra hoje da Fé.[11]  A Caridade estabelece portanto continuidade entre a vida da Graça neste mundo e a vida da Eterna Glória: por ela o Céu, que é Deus possuído e possuindo-nos, já está em nós. Vale aqui a citada palavra de Santo Agostinho: 'Se bem que sobre a terra, estás no Céu se amas a Deus'”.[12] Esse amor que jorra da Graça é a Caridade.

“O preço da Graça (mesmo mínima) – diz S. Tomás – de um só justo,
por exemplo, de uma criança apenas batizada,
é maior do que todos os dons naturais do mundo inteiro”.[13]

“A Graça outra coisa não é
senão o começo da Glória em nós”.[14]



[1]   Biblia Sacra – Juxta Vulgatam Clementinam – Divisionibus, Summariis et Concordantiis Ornata, Typis Societatis S. Joannis Evang.; Desclée et Socii Edit. Pont.; Romae – Tornaci – Parisiis, 1927.
[2]  Bíblia Sagrada, traduzida da Vulgata e anotada pelo Pe. Matos Soares; 10ª Edição; Edições Paulinas, 1955.    
[3]  Pe. Croiset, S.J., “Ano Cristão”, traduzido do Francês e adaptado às últimas reformas litúrgicas pelo Pe. Matos Soares, professor do Seminário do Porto, Vol. XIII – Próprio do Tempo, pp. 125-126; Seminário do Porto, Porto, 1923.
[4]   1 Cor. 13, 1 ss.
[5]   S. Th. II-II, q. 23.
[6]   Concílio de Trento, VI, c. 15; S. Theol., II-II, q. 24, a. 11 e 12.
[7]   Ad Bonif. 2, 3, 5. MPL 34, 591; Sermo 115, n. 7; De Trinit., 1. 15, c. 18, n. 32. MPL 42, 1082.
[8]   M. J. Scheeben, “As Maravilhas da Graça Divina”, Liv. III, Cap. VI – A Caridade Divina, pp. 214-216; 2ª Edição; Editora Vozes Ltda, Rio de Janeiro, 1956.
[9]   Gên. 18, 1-33.
[10] D. Santiago José Garcia Mazo, “O Catecismo da Doutrina Cristã Explicado, ou, Explicações do Catecismo de Astete, as quais convém igualmente ao de Ripalda”, 1ª Parte, Cap. LXXIV – Da Comunhão dos Santos, pp. 74-76; 6ª Edição; Livraria Chardron de Lello & Irmão – Editores, Porto, 1905.
[11] I Cor. 13, 8-13.
[12] Jean Daujat, “A Graça e Nós Cristão”, Cap. I, p. 75; Livraria e Editora Flamboyant, São Paulo, 1960.
[13] Summa Theol., 1ª, 2.ae, 113, art. 9, ad 2.; cfr. Pe. Mário Corti, S.J., “Viver em Graça”, p. 133; 2ª Edição; Ed. Paulinas, 1961.
[14] S. Tomás, Suma Teológ., IIa IIae, q. 24 a. 3 ad 2m.; cfr. Jean Daujat, ob. cit., p. 73.


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