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"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

terça-feira, 29 de setembro de 2020

A EUCARISTIA – BOSSUET. 4

4ª Meditação


A Eucaristia,

Memorial da Morte do Salvador.

Razões que Tinha Nosso Senhor

para Instituí-la e Comê-la antes de Padecer.

Duas Noites Memoráveis.


Antes de padecer. Indaguemos com humildade porque se fazia necessário que Jesus Cristo instituísse e comece essa Páscoa com seus Discípulos antes de padecer, de preferência a comê-la depois e quando ressuscitou.


Tinha Ele nesse Mistério o desígnio de tornar presente a sua morte, transportar-nos em espírito ao Calvário, onde seu Sangue foi derramado e correu em largas golfadas de todas as suas veias. “Isto, diz Ele, é meu Corpo, dado por vós, partido por vós”, e aberto de tantas Chagas: “Isto é meu Sangue derramado por vós”. Eis esse Corpo, eis esse Sangue, que são postos diante dos olhos, como separados um do outro. A fim de que, tudo quadrasse ao seu desígnio, cumpria que esse Mistério fosse instituído na véspera daquela morte cruenta, na própria noite em que Ele devia ser entregue, como nota São Paulo, quando Judas maquinava o seu negro intento, e estava prestes a partir para executá-lo. Que digo? Prestes a partir? Ele parte da mesa onde ele e os demais Discípulos comiam pela última vez com seu Mestre, onde este acabava de lhes dar seu Corpo e seu Sangue, e a Judas como aos demais; parte nesse momento para ir entregá-lO; dentro de duas horas pô-lo-á nas mãos dos seus inimigos! O próprio Jesus já está todo perturbado com sua morte próxima, da perturbação misteriosa que havemos visto; é nesse estado, é entre essa perturbação e a morte, por assim dizer já presente, que Ele institui a Nova Páscoa.


Todas as vezes, pois, que assistimos ao seu Mistério, que nele comungamos, todas as vezes que ouvimos estas palavras: “Isto é meu Corpo, isto é meu Sangue”, devemo-nos recordar em que conjunturas, em que noite, no meio de que discursos, elas foram proferidas. Foi dizendo antes, foi repetindo depois: “Um de vós me trairá: a mão daquele que Me trairá está Comigo à mesa”. A instituição da Ceia é feita nessa conjuntura: enquanto os Apóstolos, avisados da perfídia de um dos companheiros, olhavam-se uns aos outros, e perguntavam com admiração e com susto: Serei eu? Enquanto o próprio Judas o perguntava, e o Salvador lhe disse: “Sim, sois vós, vós o dissestes”, acrescentando ainda, para lhe fazer sentir que lhe lia no fundo do coração as negras maquinações: “Vai, acaba, infeliz. Faze prontamente o que vais fazer”, é em meio a essas ações e a essas palavras, enquanto designava com os olhos e com a mão aquele que ia dar o golpe, foi, digo, no meio de todas essas coisas que Ele instituiu a Eucaristia.


Nunca a comamos, pois, nunca assistamos à celebração desse Mistério, sem nos transportarmos em espírito à triste noite em que Ele foi estabelecido, e sem nos deixarmos penetrar dos preparativos tremendos do Sacrifício cruento de Nosso Salvador; porque é por esta razão que São Paulo, narrando essa instituição, nos repõe diante dos olhos aquela noite horrorosa: “Soube, diz ele, do Senhor o que vos ensinei, que o Senhor Jesus, na noite em que devia ser entregue, tomou pão”, e o resto.1 Foi nessa noite; pensai bem nisto, e notai esta circunstância.


Poderia parecer que a Eucaristia, sendo como é um Memorial dessa morte, devia ser precedida por esta. Mas não: é dos homens, cujos conhecimentos são incertos e cuja previdência é trêmula, o deixar suceder as coisas antes de ordenar que nos lembremos dela. Porém, Jesus, bem seguro do que ia acontecer, e do gênero de morte que devia padecer, separa antecipadamente seu Corpo do seu Sangue: “Isto é meu Corpo, isto é meu Sangue”, diz Ele; “meu Corpo entregue, meu Sangue derramado”: lembrai-vos disto; lembrai-vos do meu Amor, da minha Morte, do meu Sacrifício, e do modo admirável por que se cumprirá o vosso livramento.


Assim, quando Deus instituiu a Páscoa, na véspera do livramento do povo de Deus; quando toda gente estava na expectativa do que Ele faria na noite seguinte, para efetuar essa obra, Ele lhes diz: “Imolai um cordeiro, tomai-lhe do sangue, lavai com ele vossas portas: Eu virei, verei esse sangue, e passarei: o Anjo exterminador não vos ferirá; e pouparei por esse sinal as casas dos Israelitas, ao passo que encherei as dos Egípcios de morticínio e de luto, fazendo-lhe morrer todos os primogênitos: será esse o plano do vosso livramento”. É o que Deus diz no Êxodo. Que diz Ele porém no mesmo lugar? “Renovareis todos os anos a mesma cerimônia; imolareis um cordeiro, comê-lo-eis com as mesmas observâncias; e quando vossos filhos vos perguntarem: que cerimônia religiosa é esta? Responder-lhes-eis: É a vítima que celebramos em memória da passagem do Senhor, quando, ferindo todo o Egito, poupou, as casas dos Israelitas, e nos livrou por esse meio da escravidão em que estávamos”.2


Deus, portanto, que sabia o que queria fazer, institui-lhe também o memorial antes que a coisa tivesse acontecido; a fim de que, fazendo a Páscoa, eles não só se lembrassem do próprio livramento, mas se lembrassem ainda de que esse sagrado memorial fora estabelecido na véspera de tamanha obra, e enquanto todo o povo estava na expectativa de tão grande acontecimento.


A nova Páscoa é instituída no mesmo espírito, e todas as vezes que a celebramos entre nós, e celebramo-la não todos os anos, como a Páscoa antiga, porém, todos os dias; todas as vezes, digo, que a celebramos e que nossos filhos, que no-la virem celebrar com tanta religião e respeito, nos perguntarem: Que cerimônia é essa? Dir-lhes-emos: É o Mistério que Jesus Cristo instituiu antes da sua Morte, mas essa morte já estava presente enquanto tramavam o negro conluio que o devia pôr na Cruz no dia seguinte, para deixar-nos um Memorial dessa morte, e perpetuá-la de alguma sorte entre nós. Vinde, vinde, meus filhos; preparai-vos para comungar conosco, e lembrai-vos do Vosso Salvador imolado por amor de vós.


Era preciso, pois, cumprir a antiga figura da Páscoa, era necessário que a Nova Páscoa, que devia ser o Memorial eterno da Morte de Jesus Cristo, fosse instituída antes de sua Morte. “Desejei, diz Jesus, comê-la convosco antes de sofrer”. E que era, com efeito, a Páscoa antiga, senão a figura da verdadeira libertação do povo de Deus? “Imolai um cordeiro, tomai-lhe do sangue, lavai com ele vossas portas, e Eu vos libertarei por esse sinal”. Deus precisava porventura do sacrifício de um cordeiro para executar essas obras? Precisava de um sinal, e dessa marca de sangue, para conhecer as casas que queria poupar? Tudo isso manifestamente se fazia em nossa figura, para ensinar-nos que só seriamos libertos pelo Sacrifício de Jesus Cristo, o Cordeiro sem mácula imolado pela salvação do mundo, e em vista do Sangue do seu Sacrifício. E Jesus Cristo estabelece o Memorial de tamanho benefício como Deus estabelecera o da libertação do povo antigo, antes que a coisa tivesse acontecido, a fim de que, conhecêssemos que o nosso Deus não é como os homens, que Ele sabe prever todas as coisas e fazê-las como convém a um Deus.


Acostumemo-nos, pois, assistindo ao Santo Sacrifício, e ainda mais comungando, a encher a memória, da Morte do Nosso Salvador e da noite em que Ele foi entregue. Encaremos a instituição da Eucaristia como um novo compromisso que Ele tomava ainda conosco e com seu Pai, para se votar à morte. E que maravilha o havê-la Ele previsto na véspera de ela acontecer, já que não só a previra muito tempo antes, como o vemos em tantos lugares do seu Evangelho, mais ainda, como o vemos na Lei e nos Profetas, desde a origem do mundo, por tantas predições, por tantas figuras admiráveis!



Fonte: Jacques-Bénigne Bossuet, Bispo de Meaux, “Meditações sobre o Evangelho” – Opúsculo Eucaristia”, Cap. IV, pp. 24-30. Coleção Boa Imprensa, Livraria Boa Imprensa, Rio de Janeiro/RJ, 1942.


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1I Cor., XI, 23.

2Êx. XII.


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