
Coração
Afligido de Jesus,
Asilo
das Almas Tentadas.
A
que combates interiores o Coração de Jesus não quis submeter-se no
Jardim das Oliveiras? De um lado, uma viva repugnância à sua Paixão
lhe fazia dizer: Afaste-se de Mim este cálice amargo!
De outro, uma perfeita submissão à vontade de seu Pai lhe fazia
ajuntar logo: Entretanto, ó meu Pai, faça-se a Vossa
vontade e não a minha!
Nesta circunstância, Jesus
Cristo quis nos mostrar que Ele tinha tomado realmente sobre Si as
misérias de nossa humanidade; mas ao mesmo tempo, mereceu-nos uma
força que supera nossa fraqueza, porque, tendo sido Ele
mesmo tentado, diz São Paulo,
pode nos socorrer nas tentações.
Como assim? É que nosso Salvador, depois de ter padecido as
tentações,
ficou mais propenso a se
compadecer de nossos males e a nos ajudar quando tentados. Esta
explicação nos é dada pelo Apóstolo nesta passagem: Nós
não temos um Pontífice incapaz de compadecer-se de nossas
fraquezas: para nos ser mais semelhante, Ele as experimentou todas
fora o pecado.
E então nos exorta a recorrermos com confiança ao trono da graça,
isto é, ao Coração de Jesus, para recebermos os socorros
de que temos necessidade.
Consolemo-nos, pois; eis que acabamos de achar o verdadeiro porto e
lugar de refúgio nas tempestades das tentações: é
o Coração de Jesus.
Deus
permite que as almas santas sejam provadas pelas tentações, a fim
de que conheçam melhor sua fraqueza e a necessidade que têm do
socorro divino para não sucumbirem. Ele o permite também para as
tornar mais ricas em merecimentos, como foi dito a Tobias: Porque éreis agradável a Deus, foi necessário que a tentação vos pusesse
à prova.
Enfim, para desapegá-las
cada vez mais da terra e fazer que desejem mais ardentemente ir gozar
de sua presença no Céu. As almas boas, vendo-se assaltadas, dia e
noite, por tantos inimigos, enojam-se da vida presente, e clamam
gemendo com o Profeta: Ai! Quanto dura meu exílio!
Não
nos perturbemos à vista destas tentações. Se o Coração de Jesus
é por nós, que podem contra nós todos os esforços do Inferno? Ah!
Ele é um Coração fiel: não permite que sejamos tentados
acima de nossas forças; ao contrário, grande proveito nos faz tirar
da tentação. Este é o ensino
do grande Apóstolo.
Aquele, então, que resiste à tentação, não perde nada e ganha
muito. Siga o aviso de Santo Agostinho, isto é, ponha-se
com a alma cheia de confiança no Coração de Jesus, e nada tema;
porque Jesus é tão bom! Ele
não se retirará de maneira a nos deixar sucumbir.
Como poderíamos temer que o Senhor nos
recuse o socorro, depois de Ele nos ter feito tantas e tão belas
promessas? Quando vossos inimigos vos apertem, diz
Ele, invocai-me; Eu vos tirarei do perigo, e vós Me
glorificareis.
– Então chamareis o Senhor em vosso socorro, e Ele vos
ouvirá; clamareis: Depressa, Senhor, socorrei-me; e Ele vos
responderá: Eis-me aqui, presente estou para vos defender.
– O Senhor está perto e muito perto daqueles que O
invocam.
Não esqueçamos de invocar os Santos Nomes de Jesus e Maria, que têm
virtude particular, principalmente contra as tentações impuras.
Logo que os meninos percebem o lobo,
dizia São Francisco de Sales, correm a lançar-se nos
braços de seu pai e de sua mãe e aí se conservam em segurança.
Façamos o mesmo: vamos pôr-nos em segurança nos Corações de
Jesus e de Maria, invoquemos logo seus Santos Nomes, sem prestar
ouvido à tentação, sem raciocinar com ela.
Se
o Coração agonizante de Jesus é nosso asilo nas lutas da vida, sê-lo-á principalmente na luta decisiva da morte. Nessa hora, mais
que nunca, teremos que temer os assaltos do Inferno; ele se esforçará
tanto mais para nos perder, quanto nos vir mais perto do nosso fim.
Rainaldo conta de S. Elzear, cristão de vida muito pura, que, ao
aproximar-se a hora de sua
morte, os Demônios lhe deram terríveis assaltos, e ele disse então:
As tentações do Inferno são bem grandes neste momento;
mas Jesus Cristo lhes tira sua força pelos merecimentos de sua
Paixão. Jesus Cristo mesmo quis
ser turbado vendo a morte de perto: quis sentir esta pena, a fim de
que, se experimentássemos alguma turbação em nossa morte, não
perdêssemos a confiança, lembrando-nos de que nosso Salvador
padeceu a mesma aflição. Se, pois, nesse momento supremo, o Demônio
quer nos aterrar representando-nos as faltas de nossa mocidade,
responder-lhe-emos com São Bernardo: Faltam-me muitos
merecimentos para ir para o Paraíso, bem o sei; mas, o que me falta,
eu tomo no meu tesouro que é o Coração de Jesus; aí se
acham para mim todos os merecimentos Daquele que se dignou padecer e
morrer precisamente para me obter a glória eterna de que sou
indigno. – São Francisco de
Sales pensava no Coração de Jesus, quando exclamava, cheio de
confiança sem limites: Eu viverei e morrerei sobre seu
peito; nem a morte nem a vida me separarão Dele.
Prática
Em
todas as penas, desânimos, tentações, obscuridades, lançarei
minha alma com santo abandono nos Corações de Jesus e Maria;
pronunciarei afetuosamente seus doces Nomes, e ficarei em repouso.
Deste modo adquirirei o hábito de orar, que me será de grande preço
à hora da minha morte.
Afetos
e Súplicas
Ó
meu Jesus, é pouco um coração para Vos amar; ah! Se eu possuísse
os corações de todos os homens! Mas ainda seria pouco. Que
ingratidão seria dividir meu coração entre Vós e as criaturas!
Não, meu amor, nada de partilha: Vós quereis e mereceis meu coração
todo: eu quero vo-lo dar inteiramente. Se não sei vo-lo dar como
devo, tomai-o Vós mesmo, a fim de que eu possa em verdade Vos chamar
o Deus de meu Coração.
Rogo-Vos, divino Redentor meu, pelos merecimentos infinitos da vida
que quisestes passar por mim nas humilhações e padecimentos,
concedei-me a verdadeira humildade, que me faça amar a vida obscura
e desprezada. Fazei que eu abrace com amor as enfermidades, as
afrontas, as perseguições, as penas interiores, e todas as cruzes
que me vierem de Vossa mão. Fazei que eu Vos ame, e depois tratai-me
como for de Vosso agrado. Ó Coração amante de Jesus, abrasai-me de
amor para convosco, fazendo-me conhecer o imenso bem que em Vós se
acha. Fazei que eu seja todo para Vós antes de morrer. Eu Vos amo, ó
meu Jesus, tão digno e tão desejoso de meu amor, eu Vos amo de todo
o meu coração e com toda a minha alma.
Oração
Jaculatória
Ó
Coração de Jesus, assisti-me nos meus derradeiros combates contra o
Inferno.
Exemplo
Se
as almas santas receberam do Céu favores extraordinários, forçoso
é confessar que os compraram bem caro. A vida de Amada Débillot,
na religião soror Saint-Martinien, é prova disto. Ela foi recebida
na casa das Irmãs de São Carlos, em Angers, no ano de 1852, para
tratar os enfermos nos hospitais. “Feliz sou, dizia
ela, de poder consagrar minha vida ao divino Jesus,
dedicando-me a obras tão agradáveis a seu amável Coração. Eu O
amo nos seus membros enfermos”. Entre
tantos doentes que ela tratou, quase não se encontra um só que haja
resistido a seu zelo. Seu grande segredo para os converter, era
oferecer a Deus em favor deles suas orações, seus trabalhos e
padecimentos. Durante nove anos, seus dias inteiros se passaram nos
exercícios da mais penosa caridade; muitas vezes na semana lhe era
necessário assistir às operações mais graves, apesar das
repugnâncias que talvez para outros teriam parecido invencíveis.
Devendo pensar cada dia, horríveis chagas, ela tinha gosto em pedir
para si os infelizes a quem a infecção da enfermidade tornava
repugnantes a todos os outros. Vendo-a sempre alegre, ninguém
poderia pensar que ela tinha que fazer horríveis violências a si.
Débillot dizia à sua própria natureza: “Sim,
revolta-te, faze o que quiseres, não te concederei nada”.
Entretanto, Deus não esquecia sua serva. Algumas vezes, no forte de
suas penas, ela exclamava: “É muito, Senhor, sim, é
muito; não posso mais; retirai a abundância de Vossas consolações
ou aumentai meu coração”. Um
dia Nosso Senhor lhe disse: “Os esposos da terra oferecem
diamantes à esposa que escolheram; Eu te escolhi, bem o sabes;
pedi-me o que quiseres, e logo te o darei”.
Ela respondeu-Lhe que vendo-O com os açoites, a coroa de espinhos, a
Cruz, os cravos, o fel, a lança, os desprezos, as injúrias, ela não
queria outra coisa; estes eram os diamantes que ambicionava, mas
queria também ver seu coração no Coração de seu amável Esposo.
Para recompensar sua serva de tanta caridade, o Salvador lhe disse:
“Há tanto tempo, tu me rogas para que meu Coração seja
no teu, e o teu no meu; para que isto se faça, é necessário que
consintas em viver da minha vida, que passou-se nas tristezas, nojos,
desamparos, padecimentos, e no desejo de glorificar meu Pai. Queres
viver assim? Queres ser a companheira inseparável de meus
padecimentos?” Quando se
apresentava a Cruz, ela repetia: “Meu Deus, o que
quiserdes, tudo o que quiserdes, nada senão aquilo que quiserdes”.
Na sua última enfermidade conservava sempre o crucifixo entre as
mãos, beijando com amor as cinco Chagas, principalmente a do Sagrado
Coração. “Meu coração no seu Coração!”
dizia ela toda arrobada.
“Tenho confiança, dizia
esta piedosa amante de Jesus à
Madre Superiora; pus meu coração no Coração de Jesus;
Ele o mudará, e eu serei mudada Nele”.
Sua preciosa morte deu-se em
1863.
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Fonte: O
Sagrado Coração de Jesus, segundo Santo Afonso de Ligório,
ou, Meditações para o Mês do Sagrado Coração, a Hora Santa e a
Primeira Sexta-feira do Mês; coligidas
das Obras do Santo Doutor pelo Padre Saint-Omer, C.Ss.R., “Hora
Santa” de Outubro,
pp. 262-268.
5ª Edição Portuguesa, Tipografia de Frederico Pustet, Impressores
da Santa Sé. Ratisbona/Alemanha, 1926.