BLOG CATÓLICO PARA OS CATÓLICOS.

BLOG CATÓLICO, PARA OS CATÓLICOS.

"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

terça-feira, 1 de novembro de 2022

A FESTA DE TODOS OS SANTOS.


Pela fé, conquistaram os reinos, praticaram a justiça, alcançaram as promessas”.1


Zelosa2 sempre pela glória dos Bem-aventurados, a Igreja, amada pelo Espírito Santo, e sempre atenta a tudo aquilo que pode contribuir para a salvação dos fiéis, não contente com propor cada dia algum ou alguns daqueles ditosos moradores da Celestial Jerusalém como objeto digno de sua veneração, reúne hoje todos aqueles heróis cristãos, para que, em atenção a tantos e a tão poderosos intercessores, que são a um tempo Advogados e Modelos, espalhe Deus sobre nós com maior abundância os tesouros de Sua misericórdia, e todas as graças, de que havemos necessidade para imitá-los. Consideramo-los como nossos irmãos, membros todos de um mesmo Corpo Místico debaixo de uma só Cabeça, e por conseguinte, reputamo-nos igualmente credores à mesma herança, que eles, enquanto por nossa culpa não perdermos o direito que legitimamente nos pertencer pelo Batismo.

Eles foram o que nós somos, e algum dia podemos nós sermos o que eles são. Gemeram como nós neste vale de lágrimas, lugar de aflição e de desterro; estiveram como nós expostos às mesmas fraquezas, sujeitos às mesmas tentações; correram os mesmos perigos, toparam nas mesmas dificuldades, saíram-lhe ao encontro os mesmos estorvos. Pois da mesma sorte que eles, e pelos mesmos meios, devemos nós superar os embaraços, com igual valor resistir aos mesmos inimigos, e com a mesma fidelidade corresponder à graça. A glória de que gozam, e a Bem-aventurança que possuem, merecem o nosso culto e são objeto digno da nossa nobre ambição. Os seus méritos tão gloriosamente premiados exigem a nossa veneração, e o muito que podem junto de Deus é motivo justo para alentar a nossa confiança. Tal o fim que se propôs a Igreja no geral e solene culto que tributa hoje aos Bem-aventurados e tal o objeto da presente festividade.

No decurso do ano passa-os em revista, pondo-os à nossa consideração, para que, sustentando a nossa fé, e elevando para o Céu a nossa esperança, nos lembremos do que foram e do são, advertindo o que devemos ser para aumentar o seu número, agregando-nos a eles.

Mas, reconhecendo insuficientes todos os dias do ano para tributar cultos particulares ainda àqueles, de que Ela teve notícia, e por outra parte, sendo inumeráveis os outros, cujos nomes só estão escritos no Livro da Vida, os quais, não obstante não os conhecemos, nem por isso são menos dignos de nosso respeito e veneração, escolheu a Igreja um dia para os honrar a todos, obrigando-os com este culto particular a que todos se interessem de um modo especial pela salvação daqueles que não deixam de ser seus irmãos, embora gemam ainda no lugar do desterro. Este dia tão célebre e tão solene é o primeiro de Novembro, em que, reunidas todas as festas numa, a todos empenha a interceder por nós ao Senhor.

Muito tempo antes de se fixar neste dia a presente festa geral, solenizava-se dentro do tempo pascal, mas não compreendia mais que a Santíssima Virgem, os Apóstolos, e os Mártires, cujo glorioso triunfo se celebrava naquele tempo de regozijo e alegria. Estava destinado o primeiro de Maio para a festa dos Apóstolos, e outro dia do mesmo mês para a dos Mártires, em cuja festa se colocava a Santíssima Virgem; mas não se celebrava a Festa de todos os Santos, à qual deu ocasião de certo modo o famoso Panteão, templo de todos os deuses.

Era o edifício mais suntuoso da velha Roma, reputada a maravilha da Arte, e último aperfeiçoamento da Arquitetura, muito amplo, elevado, e de figura redonda de modo a simbolizar o mundo, obra de Agripa, alguns anos anteriores a Jesus Cristo, construído em memória da vitória, ganha por Augusto na famosa jornada de Accio contra Antônio e Cleópatra; deu-se-lhe o nome de Panteão, para denotar que ali se tributava adoração a todos os deuses, muito embora Agripa o houvesse consagrado a Júpiter vingador.

Empenhados os imperadores na abolição do culto idolátrico, derrubaram todos os seus templos para sepultarem em suas ruínas as relíquias das superstições pagãs, sendo quiçá o Panteão o único monumento do gentilismo que ficou de pé. Haviam-se já destruído os templos famosos de Júpiter Capitolino em Roma, de Júpiter Celeste em Cartago, de Apolo em Delfos, de Diana em Éfeso, de Serapis em Alexandria; estava em todo o vigor um edito do imperador Teodósio que mandava arrasar todos aqueles lugares de abominação, e se colocassem cruzes sobre suas ruínas: providência necessária nos primeiros tempos da Igreja para abolir a memória do gentilismo. Este exemplo foi seguido por São Gregório Magno nos fins do sexto século, mandando fazer outro tanto aos templos de Inglaterra nos princípios de sua ditosa conversão: mas quando não havia já que temer a idolatria, pareceu mais acertado purificar os templos antigos, do que arruiná-los para levantar outros novos.

Neste intuito, purificou e consagrou Bonifácio IV o famoso Panteão, conservado até ao seu tempo para comemorar a insigne vitória alcançada pela Igreja sobre a cega gentilidade, dedicando-o à Santíssima Virgem Maria e aos Santos Mártires, para que ali em diante fossem honrados Todos os Santos no mesmo templo, onde haviam recebido sacrílegas adorações todos os deuses falsos. Esta famosa consagração solenizou-se no dia 12 de Maio do ano 609, asseverando o Cardeal Barônio haver lido num documento muito antigo, que o referido Papa Bonifácio havia trasladado para o Panteão 28 carros carregados de ossos de Santos Mártires, exumados das Catacumbas de Roma e contornos. Sem embargo disso, não se deve dizer que a Festa ou Dedicação daquele magnífico templo, chamado no princípio de Nossa Senhora dos Mártires, e hoje, Santa Maria a Rotunda, fosse em rigor a Festa de Todos os Santos. A época desta festividade deve colocar-se no pontificado de Gregório III, que pelos anos de 731 mandou erigir uma Capela na igreja de São Pedro em honra do Salvador, da Santíssima Virgem, dos Apóstolos, dos Mártires, dos Confessores, e de Todos os Justos que reinam com Cristo na Celeste Jerusalém, festa que ao princípio se celebrou só em Roma, mas em breve se estendeu a todo o mundo Cristão, e foi colocada entre as de Primeira Classe.

Tendo passado a França o Papa Gregório IV no ano 837, mandou que se celebrasse solenemente a Festa de Todos os Santos na Igreja Universal. Nesta ocasião expediu um decreto o imperador Luís, o Pacífico, fixando-a no dia primeiro de Novembro, em que, unindo a Igreja como em um só Corpo todas aquelas Almas Bem-aventuradas, congrega todas as festas numa, honrando-as a todas com religioso culto em uma só festividade. Como os gentios celebravam neste mesmo dia uma festa em honra de todos os deuses, acompanhando-a de toda a casta de dissoluções, é provável que esta circunstância determinasse a Igreja a fixar esta festa no próprio dia que antes disso era dia de jejum, o qual passou desde então para a vigília. O Papa Sisto IV mandou que se celebrasse esta com Oitava, tomando assim ordem entre as mais solenes da Igreja Universal. É sem dúvida grande o número dos Santos, cuja memória se celebra cada dia; mas é muito maior o daqueles, cujos nomes, virtudes e merecimentos se desconhecem. Quantos Santos não há de todas as idades, condições, estados, nações e povos! Quantas virtudes heroicas, cujo esplendor se sepulta na solidão do retiro! Quantos heróis cristãos enterrados nesses desertos! Quantos servos de Deus escondidos na obscuridade de uma vida pobre, humilde, mortificada, ignorados do mundo, e somente conhecidos d’Aquele Senhor, a quem servem! Quantas grandes almas em empregos baixos, e menosprezados! Quantas virtudes sublimes roubam ao nosso conhecimento as paredes dos claustros! Quantos Santos aperfeiçoados na oficina da adversidade, no exercício da mortificação e da penitência! Conheceu-os Deus, e recompensou-os abundantemente, e torná-los-á gloriosos aos olhos dos homens no grande dia dos prêmios e dos castigos; mas era de toda a razão que a Igreja rendesse honras na terra aos que Deus glorificou no Céu. Não há nenhum destes Bem-aventurados que não se interesse em nossa salvação; solicitamos a sua proteção, imploramos sua assistência, temos necessidade de suas orações, e merecem o nosso culto. Este é o que hoje lhes tributamos.

Quando a Igreja na festividade de Todos os Santos nos apresenta a todos estes privados do Altíssimo, não se contenta com propô-los à nossa admiração, intenta também propô-los à nossa imitação.

Diz-nos a todos neste dia, que aqueles, cuja celestial sabedoria é objeto da nossa admiração, cujos méritos celebramos, cujo triunfo aplaudimos, e cuja dita invejamos, são esses escolhidos de Deus, que foram da nossa mesma idade, sexo, condição, estado, emprego, e até nascimento.

Entre aquela inumerável multidão de Bem-aventurados tributamos hoje venerações ao pobre artista, ao humilde lavrador, ao ínfimo criado que na obscuridade de sua condição, na mediocridade de sua fortuna, e nos penosos exercícios do seu abatimento souberam ser santos, levando vida inocente, devota e verdadeiramente cristã. Honramos os príncipes e os reis, que na elevação do trono e por entre os esplendores da corte conservaram costumes puros e irrepreensíveis, cultivaram a santidade, e não conheceram outra política, nem outras regras para governarem as suas nações, que as máximas do Evangelho. Veneramos aquele homens abastados, aqueles ricos do mundo, mais prudentes, mais discretos que outros muitos, pois, não se deixando deslumbrar do falso brilho das honras, nem efeminar o coração com o atrativo das riquezas, usaram de seus bens para reparar os seus pecados, souberam iludir os laços que o mundo lhes armava, e desprezando qualquer outra fortuna, à exceção da eterna, regularam seus costumes pelos princípios da fé, e acertaram a serem santos onde tantos outros se perderam. Veneramos, enfim, a nossos mesmos irmãos, que dentro do grêmio, onde nós vivemos, seguindo o nosso mesmo instituto, e observando aquelas mesmas regras que nós temos, chegaram a uma eminente santidade; a nossos parentes, amigos e conterrâneos, que com as mesmas paixões, as mesmas dificuldades, estorvos e auxílios, sem alguns outros meios conseguiram salvar-se, e chegaram ditosamente ao termo da sua carreira. Que desculpa poderemos alegar para não aumentarmos algum dia o número daquelas almas felizes? E se nos condenamos, que justa, mas também, que cruel recriminação não nos farão por toda a eternidade aqueles Espíritos Bem-aventurados.

Não por certo, não chegaram os Santos àquilo que foram precisamente por se haverem exercitado em obras maravilhosas e singulares. Sem elas podiam ser Santos, e também podiam com elas não o serem. Quantos predestinados não terão feito na terra coisa que merecesse admiração! E quantos réprobos fizeram no mundo ações gloriosas que lhes mereceram os aplausos dos homens ao mesmo tempo que Deus os condenava! Os Santos foram santos precisamente porque cumpriram com as obrigações do seu estado; porque souberam harmonizar os deveres deste com os de sua religião; porque em todas as coisas preferiram a sua consciência aos interesses mundanos, a Lei de Deus às suas inclinações, e as máximas do Evangelho às máximas do mundo. São Luís, Santo Eduardo, Santa Isabel no trono; Santo Izidro lavrador no campo e Santa Blandina em sua casinha; tantos Santos de uma mesma família, são argumentos convincentes de que para ninguém é impraticável a virtude, e que nesta vida não há coisa tão árdua que não traga consigo o meio para a superar. Isto mesmo nos demonstra hoje palpavelmente a Igreja, pondo-nos à vista tantos milhões de Santos que efetivamente foram no mundo aquilo mesmo que nós julgamos ser impossível. Quando nos traz à imaginação aqueles religiosos, aquelas donzelas, aqueles homens do mundo, aqueles ricos e aqueles pobres, que são objeto desta solenidade, do nosso culto, diz-nos, como em outro tempo o dizia a si mesmo Santo Agostinho: Et tu non poteris quod isti et istae? Pois quê, não poderás fazer tu o que fizeram estes e aquelas? Certamente que nenhum pretexto podemos alegar, que o não destrua o exemplo dos Santos. Eles tiveram os mesmos cuidados que nós; padeceram as mesmas tentações, lidaram contra as mesmas paixões, toparam em iguais embaraços, e não serviram a outro senhor diferente do que nós servimos; todos temos uma mesma lei, e eles não aspiravam a outra glória diferente. Muitos dos que nos precederam no estado e no emprego que temos, foram santos; muitos dos que nos hão de suceder, sê-lo-ão também; que desgraça, que dor será a nossa, à hora da morte, se não nos aproveitamos de seus exemplos! Pregam-se hoje nos púlpitos os louvores de Todos os Santos, chegará porventura algum dia, em que também se preguem os nossos? Mas, se não chegar este dia, qual será a nossa desditosa sorte?

Ergo agite nunc, fratres, exclama o Venerável Beda, agrediamur iter vitae. Alento, pois, irmãos meus, empreendamos com esforço e alegria o caminho da vida! Revertamur ad civitatem celestem, in qua scripti sumus, et cives decreti: Pois o Céu é nossa pátria, estamos inscritos nele como cidadãos seus; suspiremos por aquela celestial mansão, e levemos com paciência as amarguras deste desterro. Na terra somos verdadeiramente hóspedes; consideremo-nos nela como forasteiros e viajantes, pois que os Santos são nossos compatriotas e algum dia havemos de ser seus concidadãos.

Nunca nos esqueçamos que somos estrangeiros e peregrinos por ora, mas virá tempo, em que deixaremos de o ser, passando a fixar-nos na habitação do Santos, a ser moradores na Casa de Deus, seus herdeiros e co-herdeiros de Jesus Cristo, contanto que tenhamos parte em seus trabalhos, se queremos participar da sua glória: Etiam illius haeredes, cohaeredes autem Christi, si tamen compatimur, ut et conglorificemur. Como será possível que não se dirijam todos os nossos suspiros e desejos para aquela ditosa cidade? Quid non properamus et currimus, ut patriam nostram videre, ut parentes salutare possimus? Nela nos está esperando, dis São Cipriano, uma multidão de amigos e de parentes nossos – magnus illic nos charorum numerus expectat. Ponhamos os olhos naquela numerosa Assembleia de nossos irmãos, conhecidos, filhos e amigos, que, senhores já de sua ditosa sorte, e solícitos da nossa, sem cessar nos estão convidando a participar da mesma coroa: Fratrum, filiorum frequens nos, et copiosa turba desiderat jam de sua immortalitate secura, et adhuc de nostra salute sollicita. Oh! Quanta alegria será a sua, ao vermo-nos todos em uma mesma e doce companhia! Quanta et illis, et nobis in commune laetitia est! Ali reina o glorioso Coro dos Apóstolos, ali a multidão dos Profetas; ali o brilhante Exércitos dos Mártires, distintos com as resplandecentes insígnias de suas ilustres vitórias.

Ali se veem brilhar aquelas Virgens sem número que triunfaram de todo o Inferno junto; aquelas almas compassivas que socorreram os necessitados; todos aqueles heróis cristãos que tanto se distinguiram no exercício da mortificação, da austeridade e da penitência. Sejam, irmãos meus, todos os vossos suspiros, prossegue o mesmo Padre, por tão ditosa sorte, todos os vossos desejos, toda a vossa ambição por merecer semelhante recompensa. Ad hos, fratres dilectissimi, avida cupiditate properemus, et cum his cito esse, ut cito ad Christum venire contingat, optemus.

Grandes Apóstolos, gloriosos Mártires, invencíveis Confessores, santas Virgens, ilustres Anacoretas, caritativos Protetores dos homens, visto que lutamos ainda com as ondas, e gememos dentro do perigo, não nos bastam nem vossos conselhos, nem vossos exemplos; temos ainda necessidade da vossa poderosa intercessão. Bem conhecida é de vós a nossa fraqueza, não ignorais também as forças de nossos inimigos, alcançai-nos do Senhor aqueles vigorosos auxílios que sabeis serem necessários para nos salvarmos. Consegui-nos a graça particular de que jamais percamos de vista o que vós fizestes por Deus, eu que Deus está agora fazendo por vós, para que, ensinando-nos os vossos exemplos como devemos viver, nos anime a vossa glória a viver como devemos.



Meditação sobre a Festa de Todos os Santos3


I. A vida dos Santos foi cheia de misérias: foram perseguidos e atormentados pelos inimigos de Jesus Cristo; Deus mandou-lhes as tribulações para os provar e purificar; eles próprios fugiram dos prazeres mais inocentes e praticaram as maiores austeridades. Queremos ir para onde eles estão? O caminho é este, segui-lhes os passos; estes grandes homens tinham corpo como o nosso, mas, mais coragem do que nós. “Não tiveram natureza superior à nossa, mas, foram mais vigilantes; não foram isentos de pecado, mas, fizeram penitência”. (Santo Ambrósio)

II. Os Santos, apesar das suas tribulações, viveram sempre alegres e contentes nesta vida, porque as consolações, que Deus lhes derramava na alma, tiravam-lhes todo o sentimento das dores do corpo. Consideremo-los nos cadafalsos e nas solidões: nestas, derramam lágrimas de consolação, naqueles estão cheios de alegria no meio dos tormentos. Deus é tão liberal que não quer esperar pela outra vida para lhes dar a recompensa, recompensa-os ainda nesta.

III. Se foram consolados nesta vida, que para eles era lugar de exílio, de combate e de sofrimento, de que alegria estarão eles cheios no Céu, que é a sua pátria e o lugar do seu triunfo! Lá possuem todos os bens, que o coração pode desejar, visto que possuem a Deus; não estão sujeitos a tribulações, nem a nenhum dos incômodos, que nesta vida sentiram. Ouçamos o que eles nos dizem: Não pensem em encontrar caminho mais fácil para chegar ao Céu, do que aquele que percorremos em seguimento de Jesus cristo. “Não procures neste mundo o que nenhum santo pode conseguir, o que o próprio Cristo não encontrou”.


Oremos: Deus Onipotente e Eterno, que nos concedeis a graça de honrar numa única solenidade os merecimentos de Todos os Santos, fazei com que, assistidos por tão numerosos intercessores, cada vez mais alcancemos, segundo os nossos desejos, a abundância das vossas graças. Por Nosso Senhor Jesus Cristo… Amém.


"As almas dos justos repousam na mão de Deus

e já não lhes tocará a malícia dos homens.

Julgaram os insensatos que eles tinham morrido,

mas eles descansam em paz...".

(Sap. 3, 1-9)


____________________

1.  Heb. XI, 33.

2.  Pe. Croiset, “Ano Cristão”, Vol. XI, dia 1 de Novembro, pp. 11-16. Traduzido do Francês e adaptado às últimas reformas litúrgicas pelo Pe. Matos Soares, professor do Seminário do Porto. Tip. “Porto Medico”, Ltda. Porto. 1923.

3.  “Vida dos Santos – com uma Meditação para cada dia do ano”, pelo Pe. João Estevam Grossez, S.J., Segunda Parte, 1 de Novembro, pp. 259-260. Edição Portuguesa. “União Gráfica”. Lisboa. 1928.


LADAINHA DE TODOS OS SANTOS.


Senhor, tende piedade de nós.1

Jesus Cristo, tende piedade de nós.

Senhor, tende piedade de nós.


Jesus Cristo, ouvi-nos.

Jesus Cristo, atendei-nos.


Pai Celeste, que sois Deus, tende piedade de nós.

Filho, Redentor do mundo, que sois Deus, tende piedade de nós.

Espírito Santo, que sois Deus, tende piedade de nós.

Santíssima Trindade, que sois um só Deus, tende piedade de nós.


Santa Maria, rogai por nós.

Santa Mãe de Deus, rogai por nós.

Santa Virgem das virgens, rogai por nós.


S. Miguel, rogai por nós.

S. Gabriel, rogai por nós.

S. Rafael, rogai por nós.

Todos os Santos Anjos e Arcanjos, rogai por nós.

Todas as Santas Ordens dos Espíritos Bem-aventurados, rogai por nós.


S. João Batista, rogai por nós.

S. José, rogai por nós.

Todos os Santos Patriarcas e Profetas, rogai por nós.


S. Pedro, rogai por nós.

S. Paulo, rogai por nós.

S. André, rogai por nós.

S. Tiago, rogai por nós.

S. João, rogai por nós.

S. Tomé, rogai por nós.

S. Tiago, rogai por nós.

S. Filipe, rogai por nós.

S. Bartolomeu, rogai por nós.

S. Mateus, rogai por nós.

S. Simão, rogai por nós.

S. Tadeu, rogai por nós.

S. Matias, rogai por nós.

S. Barnabé, rogai por nós.

S. Lucas, rogai por nós.

S. Marcos, rogai por nós.

Todos os Santos Apóstolos e Evangelistas, rogai por nós.

Todos os Santos Discípulos do Senhor, rogai por nós.

Todos os Santos Inocentes, rogai por nós.


S. Estêvão, rogai por nós.

S. Lourenço, rogai por nós.

S. Vicente, rogai por nós.

S. Fabião e S. Sebastião, rogai por nós.

S. João e S. Paulo, rogai por nós.

S. Cosme e S. Damião, rogai por nós.

S. Gervásio e S. Protásio, rogai por nós.

Todos os Santos Mártires, rogai por nós.


S. Silvestre, rogai por nós.

S. Gregório, rogai por nós.

S. Ambrósio, rogai por nós.

S. Agostinho, rogai por nós.

S. Jerônimo, rogai por nós.

S. Martinho, rogai por nós.

S. Nicolau, rogai por nós.

Todos os Santos Pontífices e Confessores, rogai por nós.

Todos os Santos Doutores, rogai por nós.


S. Antão, rogai por nós.

S. Bento, rogai por nós.

S. Bernardo, rogai por nós.

S. Domingos, rogai por nós.

S. Francisco, rogai por nós.

Todos os Santos Sacerdotes e Levitas, rogai por nós.

Todos os Santos Monges e Eremitas, rogai por nós.


Santa Maria Madalena, rogai por nós.

Santa Águeda, rogai por nós.

Santa Luzia, rogai por nós.

Santa Inês, rogai por nós.

Santa Cecília, rogai por nós.

Santa Catarina, rogai por nós.

Santa Anastásia, rogai por nós.

Todas as Santas Virgens e Viúvas, rogai por nós.


Todos os Santos e Santas de Deus, intercedei por nós.


Sede-nos propício, perdoai-nos, Senhor.

Sede-nos propício, ouvi-nos, Senhor.


De todo o mal, livrai-nos, Senhor.

De todo o pecado, livrai-nos, Senhor.

Da vossa ira, livrai-nos, Senhor.

Da morte repentina e imprevista, livrai-nos, Senhor.

Das ciladas do Demônio, livrai-nos, Senhor.

Da ira, do ódio e de toda a má vontade, livrai-nos, Senhor.

Do espírito de impureza, livrai-nos, Senhor.

Do raio e da tempestade, livrai-nos, Senhor.

Do flagelo do terremoto, livrai-nos, Senhor.

Da peste, da fome e da guerra, livrai-nos, Senhor.

Da morte eterna, livrai-nos, Senhor.


Pelo Mistério da Vossa Santa Encarnação, livrai-nos, Senhor.

Pelo Vosso Advento, livrai-nos, Senhor.

Pela Vossa Natividade, livrai-nos, Senhor.

Pelo Vosso Batismo e Santo Jejum, livrai-nos, Senhor.

Pela Vossa Cruz e Paixão, livrai-nos, Senhor.

Pela Vossa Sepultura, livrai-nos, Senhor.

Pela Vossa Santa Ressurreição, livrai-nos, Senhor.

Pela Vossa Admirável Ascensão, livrai-nos, Senhor.

Pela vinda do Espírito Santo Consolador, livrai-nos, Senhor.

No dia do Juízo, livrai-nos, Senhor.


Pecadores que somos, nós Vos rogamos, ouvi-nos.

Para que nos perdoeis, nós Vos rogamos, ouvi-nos.

Para que nos favoreçais, nós Vos rogamos, ouvi-nos.

Para que Vos digneis conduzir-nos a uma verdadeira penitência, nós Vos rogamos, ouvi-nos.

Para que Vos digneis governar e conservar a Vossa Santa Igreja, nós Vos rogamos, ouvi-nos.

Para que Vos digneis conservar na Santa Religião o Sumo Pontífice e toda as Ordens da Hierarquia Eclesiástica, nós Vos rogamos, ouvi-nos.

Para que Vos digneis humilhar os inimigos da Santa Igreja, nós Vos rogamos, ouvi-nos.

Para que Vos digneis conceder aos reis e príncipes cristãos a paz e a verdadeira concórdia, nós Vos rogamos, ouvi-nos.

Para que Vos digneis conceder a paz e a união a todo o povo cristão, nós Vos rogamos, ouvi-nos.

Para que Vos digneis atrair à unidade da fé todos os que estão no erro, e conduzir todos os infiéis à luz do Evangelho, nós Vos rogamos, ouvi-nos.

Para que Vos digneis confortar-nos e conservar-nos no Vosso santo serviço, nós Vos rogamos, ouvi-nos.

Para que Vos digneis elevar as nossas almas a desejar as coisas do Céu, nós Vos rogamos, ouvi-nos.

Para que Vos digneis retribuir a todos os nossos benfeitores, dando-lhe a eterna felicidade, nós Vos rogamos, ouvi-nos.

Para que livreis da condenação eterna as nossas almas, as dos nossos irmãos, parentes e benfeitores, nós Vos rogamos, ouvi-nos.

Para que Vos digneis dar e conservar os frutos da terra, nós Vos rogamos, ouvi-nos.

Para que Vos digneis dar a todos os fiéis defuntos o descanso eterno, nós Vos rogamos, ouvi-nos.

Para que Vos digneis ouvir-nos, nós Vos rogamos, ouvi-nos.

Filho de Deus, nós Vos rogamos, ouvi-nos.


Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, perdoai-nos, Senhor.

Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, ouvi-nos, Senhor.

Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, tende piedade de nós.


Jesus Cristo, ouvi-nos.

Jesus Cristo, atendei-nos.


Senhor, tende piedade de nós.

Jesus Cristo, tende piedade de nós.

Senhor, tende piedade de nós.


Pai Nosso… (em vós baixa).

V. E não nos deixeis cair em tentação.

R. Mas livrai-nos do mal.



Salmo 692


Vinde, meu Deus, em meu auxílio: Senhor, dai-Vos pressa em me socorrer.

Sejam confundidos e humilhados os que me querem tirar a vida.

Retirem-se e corem de vergonha os que me querem o mal.

Retirem-se já, envergonhados, os que me dizem: Ah! Ah!

E exultem e alegrem-se em Vós os que Vos procuram, e digam sempre: “Engrandecido seja o Senhor”, os que amam a Vossa salvação.

Eu, por mim, sou infeliz e pobre: ajudai-me, ó Deus.

Vós sois o meu auxílio e a minha liberdade; não demoreis, Senhor.

Glória ao Pai…


V. Salvai os vossos servos.

R. Meu Deus, que em Vós confiam.

V. Sede-nos, Senhor, uma torre fortalecida.

R. Contra o inimigo.

V. Nada consiga de nós o inimigo.

R. E não possa fazer-nos mal o filho da iniquidade.

V. Senhor, não procedais conosco segundo os nossos pecados.

R. E não nos pagueis segundo as nossas iniquidades.

V. Oremos pelo nosso Pontífice N.

R. O Senhor o conserve e lhe dê vida, e o faça feliz na terra, e não o entregue as mãos de seus inimigos.

V. Oremos pelos nossos benfeitores.

R. Dignai-Vos retribuir, Senhor, a todos os nossos benfeitores, por causa do Vosso Nome, com a vida eterna. Amém.

V. Oremos pelos fiéis defuntos.

R. Dai-lhes, Senhor, o eterno descanso, e brilhe para eles a luz perpétua.

V. Descansem em paz.

R. Amém.

V. Oremos pelos nossos irmãos ausentes.

R. Salvai, meu Deus, os vossos servos, que em Vós esperam.

V. Enviai-lhes, Senhor, auxílio, do Vosso lugar santo.

R. E defendei-os do alto de Sião.

V. Senhor, ouvi a minha oração.

R. E chegue até Vós o meu clamor.

V. O Senhor seja convosco.

R. E com o vosso espírito.


Oremos: Ó Deus, de Quem é próprio compadecer-se e perdoar sempre, ouvi a nossa prece, para que a comiseração da Vossa piedade benignamente nos liberte, a nós e a todos os vossos servos, presos pelas cadeias dos nossos delitos.

Ouvi, Senhor, as preces dos que Vos invocam, e perdoai os pecados aos que vo-los confessam: de modo que nos concedais benignamente o perdão e a paz.

Mostrai-nos benignamente, Senhor a Vossa inefável misericórdia: de modo que não só nos despojeis de todos os nossos pecados, mas nos livreis também das penas que por eles merecemos.

Onipotente e eterno Deus, tende piedade do Vosso servo, nosso Pontífice, N., encaminhai-o, segundo a Vossa clemência, para a vida eterna: para que por Vossa graça deseje o que Vos agrada, e o realize com todas as suas forças.

Ó Deus, de Quem procedem os desejos santos, os conselhos retos e as obras de justiça, dai aos Vossos servos aquela paz que o mundo não pode dar: para que, dedicados os nossos corações à prática dos Vossos Mandamentos e afastado o medo dos inimigos, os tempos se conservem tranquilos sob a Vossa proteção.

Abrasai, Senhor, as nossas entranhas e o nosso coração no fogo do Espírito Santo: para que Vos sirvamos pela castidade do corpo, e Vos agrademos pela pureza do coração.

Ó Deus, Criador e Redentor de todos os fiéis, concedei às almas dos Vossos servos e servas a remissão de todos os seus pecados: a fim de que, pelas nossas piedosas orações, alcancem o perdão que sempre tanto desejaram.

Senhor, começai pela Vossa inspiração e continuai pelo Vosso auxílio as nossas ações: para que todas as nossas orações e operações sempre em Vós comecem e em Vós terminem.

Onipotente e eterno Deus, que sois o Senhor igualmente dos vivos e dos mortos, e Vos compadeceis de todos aqueles que sabeis hão de ser Vossos pela fé e pelas obras, nós Vos pedimos humildemente que aqueles pelos quais rezamos, quer vivam ainda no século, quer, despojados do corpo, tenham passado ao futuro, alcancem o perdão de todos os seus pecados, por intercessão de todos os Santos e por misericórdia Vossa. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, que convosco vive e reina, em unidade com o Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos. Amém.


V. O Senhor seja convosco.

R. E com o Vosso Espírito.

V. Que o Senhor onipotente e misericordioso escute as nossas preces.

R. Amém.

V. E que as Almas dos fiéis defuntos pela misericórdia de Deus descansem em paz.

R. Amém.


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Fonte: Missal Quotidiano e Vesperal, por Dom Gaspar Lefebvre, beneditino da Abadia de S. André, pp. 1945-1953; Desclée de Brouwer & CIE, Bruges (Bélgica), 1952.

1.  Indulg. De 5 anos – plenária nas condições ordinárias, mediante a recitação quotidiana durante um mês (S. Pen. Ap., 10 de julho de 1935).

2.  O salmo, os versículos e as orações que seguem não se dizem senão nas Procissões das Rogações.


sexta-feira, 28 de outubro de 2022

SÃO SIMÃO E SÃO JUDAS TADEU, APÓSTOLOS.


Porque não sois do mundo e porque vos escolhi do meio do mundo, odeia-vos o mundo”.1


FATOS2


De nenhum dos Apóstolos nos refere o Santo Evangelho menos coisas, do que do Apóstolo São Simão. É verdade que diz bastante só com assegurar-nos que Jesus Cristo o escolheu para que fosse um dos Doze Apóstolos, Ministério, que por si só significa mais que tudo quanto nos podiam referir os historiadores em uma difusa e circunstanciada relação de suas virtudes e proezas, pois basta a mesma eleição para seu elogio. São Mateus sempre chama a Simão o Cananeu para o distinguir de São Pedro, que também se chamava Simão; este apelido vem-lhe da cidade de Caná na província da Galileia, onde São Simão havia nascido. São Lucas chama-lhe Simão o Zelador, Simon Zelotes.

Assegura Teodoreto, que São Simão fora da tribo de Zabulon ou de Neftali, acrescentando Nicéforo, que o nosso Santo fora o esposo das Bodas de Caná, às quais assistiram como convidados o Salvador e a Santíssima Virgem, operando nelas, a rogo desta Senhora, o primeiro milagre, de converter a água em vinho. Este prodígio, realizado em seu favor, fez tanta impressão no noivo, que tudo deixou para seguir a Jesus Cristo, e por consentimento de sua esposa, conservou perpétua virgindade no Matrimônio, servindo de modelo a tantos grandes Santos, que imitaram tão belo exemplo.

Desde que Simão se resolveu a deixar tudo para seguir a Jesus Cristo, não reconheceu a outro mestre; era tão ligado a Seu divino Salvador, que nunca O perdeu de vista. Sempre atento as Suas sublimes instruções, perpétua testemunha de todas as Suas maravilhas, sobressaiu muito depressa entre os demais discípulos; mas o seu amor com especialidade à Pessoa de Jesus Cristo e o ardente zelo, que mostrava pela glória de seu celestial Mestre, o testificaram depressa por um dos primeiros Apóstolos do Salvador.

São Judas, por sobrenome Tadeu, duas palavras que significam a mesma coisa, sendo a primeira hebreia e a segunda siríaca, querendo ambas dizer confissão; São Judas foi irmão de São Tiago, o Menor, filho de Alfeu e de Maria, tão conhecida no Evangelho por seu afeto à Pessoa de Jesus Cristo. Ambos eram conhecidos como irmãos do Senhor, consoante o costume de falar dos judeus, porque eram parentes muito chegados da Santíssima Virgem. São Jerônimo chama também a São Judas Lebeu, que quer dizer, homem sábio e generoso.

É muito verossímil que o nosso Santo fosse dos primeiros chamados ao apostolado, por ter a dita de ser um dos próximos parentes da Virgem Santíssima. Pelo menos parece fora de dúvida, que foi um dos mais queridos do Salvador, daqueles que com mais afetuosa confiança ousava expor-Lhe as dúvidas que se lhe ofereciam. Depois da Instituição da Sagrada Eucaristia, tendo feito o Filho de Deus aos Apóstolos aquele admirável Sermão, que vem referido no capítulo 14 do Evangelho de São João, como São Judas não houvesse compreendido bem o que o Salvador quis dizer naquelas palavras: “O mundo não me verá, mas vós outros me vereis, porque eu estarei vivo, e vós o estareis também”. Senhor, lhe perguntou São Judas, porque Vos haveis de dar a conhecer a nós e não ao mundo? Porventura o vosso reino não se há de estender a toda a terra? Não hão de lograr todas as nações a dita de conhecer-Vos? Pois quê! Israel e Judá serão excluídos do vosso reino? O fruto da vossa vinda ao mundo, a grande obra da Redenção há de limitar-se a um pequeno número de discípulos e de servos vossos? Respondeu-lhe o Senhor com aquela doçura e condescendência que Lhe era tão familiar; tomando ensejo da pergunta que Lhe havia feito, deu a razão porque não se fazia conhecer ao mundo, como prometia deixar-Se conhecer de Seus discípulos, e era porque o mundo não O amava, e para prova disso estava a contínua transgressão dos Mandamentos.

Sendo São Judas inseparável da Pessoa de Jesus Cristo pelo terno amor que Lhe professava, achou-se presente a todos os grandes Mistérios da nossa Redenção, e teve a fortuna de ver muitas vezes a Jesus Cristo depois de ressuscitado, ouvindo da mesma boca do divino Mestre, todas as verdades e todos os secretos Mistérios da Religião. Depois da Sua gloriosa Ascensão aos Céus e da vinda do Espírito Santo sobre os Apóstolos, participou também São Judas Tadeu da satisfação de padecer pelo Nome de seu Mestre celestial, muitos maus-tratos na perseguição que os judeus suscitaram contra a recém-nascida Igreja.

Tendo os Apóstolos resolvido sair da Judeia, para irem anunciar o Evangelho a toda a terra, São Simão dirigiu-se ao Egito, onde, semeando a divina semente, que com o tempo havia de converter aquela ditosa região em um terreno prodigiosamente fecundo de inumeráveis Santos, como habitação predileta de tantos milhares de anacoretas. Mas, não bastando ao seu ardente zelo os imensos espaços daquele vastíssimo país, percorreu as dilatadas províncias da África, cultivando-as com tanta eficácia, que a breve prazo foram uma das mais floridas e abundantes regiões da Cristandade. Diz-se que também penetrara na Grã-Bretanha, tão insaciável era o seu zelo de conquistas e de trabalhos por amor de Jesus Cristo, parecendo que não lhe bastava todo o universo, e que ele só, para assim dizer, queria converter toda a terra. Segundo a opinião mais antiga, transportou-se igualmente à Pérsia, onde, depois de inexplicáveis trabalhos, de incríveis frutos e de inumeráveis conquistas, depois de ter levado o facho da fé às três partes do mundo, teve a dita de coroar o seu apostolado com a glória do martírio, como adiante diremos.

São Judas Tadeu, segundo o Martirológio Romano, foi levar o Evangelho à Mesopotâmia, onde fez inumeráveis conversões. São Paulino afirma que, também evangelizara na Líbia. Achando-se em uma destas duas províncias, não contente de trabalhar tão felizmente na conversão dos gentios, quis estender seu zelo a todos os fiéis, dirigindo-lhes aquela Epístola que é a última das católicas, por não ter sido endereçada a qualquer igreja em particular, mas a todos em geral. Começa protestando que já havia tempo que tinha intenção de escrever aos judeus convertidos e dispersos por todo o Oriente; mas que afinal, se via agora como que forçado a pô-lo em execução pela necessidade de se opôr a certos falsos doutores, que corrompiam a Santa Doutrina e enchiam a Igreja de perturbações. Tem-se por certo que falava principalmente dos Simonianos, dos Nicolaítas e dos outros hereges, conhecidos na história pelo nome geral de gnósticos, cujos extravagantes erros e estragados costumes são descritos por São Epifânio, Santo Irineu e outros Padres antigos. No princípio da Epístola faz deles São Judas uma pintura que de nenhum modo os lisonjeia; mas como o verdadeiro zelo é sem fel e amargura, não tendo outra mira que a da conversão e salvação dos maiores inimigos de Jesus Cristo, exorta o Santo Apóstolo aos fiéis, para que com suas orações e bons exemplos trabalhem com humildade na conversão daqueles miseráveis, retirando-os do fogo eterno, para onde os arrastava a sua loucura. Louva Orígenes esta Epístola, dizendo que em poucas linhas que contém, encerrou São Judas discursos repassados de força e de graça celestial; e Santo Epifânio diz estar persuadido de que o Espírito Santo inspirou a São Judas o pensamento de escrever contra os gnósticos a Epístola que temos dele.

Ainda que não há coisa certa acerca do lugar e do gênero de martírio que padeceram estes dois grandes Apóstolos, diremos o que se lê em algumas Atas muito antigas, e que parece estar autorizado pelo Martirológio Romano, ao menos quanto ao lugar do martírio.

Depois de haverem percorrido os dois Santos Apóstolos Simão e Judas Tadeu grandes e vastíssimos espaços pelo decurso de quase trinta anos, aumentando por toda a parte o rebanho de Jesus Cristo com crescido número de fiéis, sentiram-se inspirados do Céu para irem pregar a fé ao reino da Pérsia. Ao entrarem nele, encontraram-se com um exército comandado pelo general Baradach, que marchava contra os índios, a quem o rei da Pérsia havia declarado guerra. Logo que os Santos entraram no acampamento, todos os Demônios que falavam antes pelo órgão dos adivinhos e dos magos, emudeceram de repente sem darem já resposta alguma. Este repentino silêncio causou estranheza e temor em todo o exército; tendo consultado a este respeito com um famoso ídolo, que distava algumas léguas do acampamento, respondeu que a presença dos estrangeiros Simão e Judas, Apóstolos de Jesus Cristo, havia fechado a boca aos deuses do império, acrescentando que era tão formidável o Seu poder, que nenhum destes se atrevia a aparecer em Sua Presença.

Com esta notícia todos os sacerdotes e adivinhos do exército concorreram tumultuosamente à tenda do general, pedindo em altos gritos a morte dos dois estrangeiros, ameaçando-o com uma revolta geral se não aceitasse. Baradach, homem cordato e circunspecto, não queria andar com precipitação; mandou chamar os dois Santos, fez-lhes várias perguntas, e ficou tão satisfeito com suas respostas, que os olhou com consideração e muito respeito, convidando-os para uma conferência particular e reservada. Nela lhe explicaram a santidade e a verdade da nossa Religião; fizeram-lhe sentir as imposturas e embustes de todos aqueles encantadores, e igualmente a fraqueza e a imbecilidade de todos os ídolos; e para acabarem de o convencer, acrescentaram que convidasse aqueles adivinhos a pronunciarem-se sobre o resultado da guerra. Responderam todos depois de haverem consultado com o Demônio, que a guerra seria longa, perigosa e sanguinolenta. Tomando então os Apóstolos a palavra, e voltando-se para o general lhe disseram: “Agora conhecereis, senhor, a falsidade e a impostura de vossos oráculos. É tão falso o propósito destes vossos adivinhos, que amanhã a esta hora, em que vos estamos falando hão de chegar ao acampamento os embaixadores dos índios e vos pedirão a paz com as condições que quiserdes impor-lhes sem a mínima resistência”. Todo o exército esteve em impaciente expectação até ver o efeito da profecia. Chegaram os embaixadores à hora aprazada, e concluiu-se a paz, como se quis. Diante de tão maravilhoso sucesso, não só se converteram o general, os oficiais e a maior parte do exército, mas informado do rei que estava em Babilônia, quis ver os Santos Apóstolos, e converteu-se ele e toda a família real.

A este primeiro milagre seguiram-se outros, que contribuíram para a conversão de quase todo o reino, mediante as excursões que os nossos Santos fizeram pelas principais cidades e povoações. Somente permaneceram obstinados os magos e sacerdotes dos ídolos, os quais, pelo despeito de se verem esquecidos e desconsiderados, determinaram acabar com os dois Santos Apóstolos. Levantaram contra eles o povo de uma cidade distante da corte, na ocasião em que os Apóstolos se dispunham para lhes anunciarem o Evangelho, arrolou-se sobre eles o populacho, e arrastando um diante de uma estátua do sol, e o outro de um ídolo da lua, lhes mandaram oferecer incenso a estas imaginárias divindades.

As imagens do sol e da lua quebraram-se, a uma ordem sua, os Demônios saíram dos templos e fugiram sob a forma de negros etíopes”.3

Mostraram os Santos Apóstolos o horror que lhes causava tão execrável impiedade. No mesmo instante foram condenados à morte. São Simão, consoante a tradição, foi serrado ao meio; e a São Judas Tadeu cortaram a cabeça. Em virtude desta tradição pintam São Simão com uma serra, e São Judas com uma acha4 na mão, como símbolo do gênero do martírio que sofreram.

Tardou pouco o Senhor em castigar a sua gloriosa morte, pois diz-se que no mesmo instante se desencadeou uma horrível tempestade, que destruiu os templos dos falsos deuses, fez em pedaços os ídolos e ficaram sepultados nas ruínas todos os que tomaram parte nela.



Brevíssima Meditação

sobre S. Simão e S. Judas Tadeu.5


I. Deus chama ao Seu serviço os que ama; separa-os do mundo, como fez a estes dois Apóstolos, filhos de Maria de Cléofas, prima de Nossa Senhora. Jesus tinha predileção especial por estes dois irmãos, graças sem dúvida à intercessão de Maria Santíssima em seu favor. Só Deus nos chama ao Seu serviço, mas quantas almas devem a vocação a Nossa Senhora! “Renunciemos ao mundo, e seremos superiores a todas as honras e a todas as glórias do mundo” (São Cipriano).

II. O mundo perseguiu estes dois Apóstolos e matou-os, porque lhe dissipavam as trevas com a luz do Evangelho. Homens apostólicos, a perseguição há de ser sempre a vossa partilha. Odiais o mundo, não deveis admirar-vos que ele vos pague na mesma moeda. Alegrai-vos, porque, quanto mais desagradardes aos homens, mais agradáveis sereis a Deus. O mundo só ama os que com ele se parecem.

III. As ameaças, as calúnias, os tormentos e até a morte, não conseguiram deter o zelo destes dois irmãos ilustres. O mundo há de fazer todo o possível por deitar por terra tudo quanto empreendermos por amor de Deus; mas não nos devemos deixar abater; caminhemos avante, Deus nos fará triunfar de todos os obstáculos. “Não procuremos agradar aos homens: rejubilemos antes por desagradar a quem o próprio Deus não agradou” (São Paulino).

Oremos: Ó Deus, que por meio dos Bem-aventurados Apóstolos S. Simão e S. Judas nos trouxestes ao conhecimento do vosso Santo Nome, fazei que mereçamos celebrar a sua eterna glória, progredindo na fé, e que façamos novos progressos celebrando-a. Por Nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.


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1.  Jo. XV, 19.

2.  Pe. Croiset, “Ano Cristão”, Vol. X, dia 28 de Outubro, pp. 345-349. Traduzido do Francês e adaptado às últimas reformas litúrgicas pelo Pe. Matos Soares, professor do Seminário do Porto. Tip. “Porto Medico”, Ltda. Porto. 1923.

3.  “Vida dos Santos – com uma Meditação para cada dia do ano”, pelo Pe. João Estevam Grossez, S.J., Segunda Parte, 28 de Outubro, pp. 251-252. Edição Portuguesa. “União Gráfica”. Lisboa. 1928.

4.  Arma antiga com a forma de machado.

5.  Pe. João Estevam Grossez, S.J., ob. cit.


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