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"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

quinta-feira, 29 de julho de 2021

O MISTÉRIO DA ENCARNAÇÃO REVELADO A SÃO JOSÉ.


Pouco tempo depois do regresso a Nazaré, São José começou a reconhecer em Maria sinais evidentíssimos de gravidez e, desconhecendo ainda o aviso do Arcanjo, muito se perturbou e experimentou dor agudíssima. Todavia, persuadia-se de que tais sinais podiam proceder de enfermidade e lutava em silêncio contra as dúvidas.

Um motivo que muito o atormentava era o perigo em que se podia incorrer. Entre os hebreus, tanto o homem quanto a mulher, culpados de desonestidade, deviam então, por ordem de Deus, ser conduzidos para fora da cidade ou vila, apedrejados na estrada e abandonados sem sepultura, para salutar terror das gerações futuras.

Homem justo e santo que era, não quis manifestar nem a Maria, nem a outros, as próprias penas. O proceder sempre igual, sempre afável e humilde que Ela demonstrava, não lhe permitia absolutamente suspeitar mal. Por isso, em meio a tantas perplexidades, o santo esposo de Maria voltou-se para Deus em fervorosa oração.

Era justo, diz o Evangelista, e não podia suspeitar mal de alguém, muito menos de Maria, a quem sempre considerara a mais santa de todas as virgens.

As virtudes de Maria, a santidade insuperável de seus costumes, a aura de paraíso que n’Ela transparecia também exteriormente, não lhe permitiam a mínima dúvida quanto à sua intemerata fidelidade. Mas como explicar o estado interessante da Esposa?

Qual a causa daquele Mistério? Como devia ele proceder em tão graves dificuldades?… Comunicar à Esposa suas apreensões e pedir-lhe a explicação?… Não seria uma afronta? Mas como poderia ocultar o acontecimento quando chegasse o momento do parto? Como poderia dar por seu o filho que estava para nascer, sem faltar à verdade? Devia ele, como estava prescrito pela lei, dar-Lhe o libelo de divórcio, acusá-La como adúltera e expô-La a ser lapidada? O único meio que parecia restar-lhe era abandonar secretamente a esposa, retirar-se sozinho a algum país longínquo onde não fosse conhecido, deixando o mais nas mãos da divina Providência.

A aflição de São José chegou a tal ponto que não pode mais dissimular sua tristeza. Sentiu que lhe diminuíam as forças, e, embora não estivesse atingido por enfermidade alguma, aparecera-lhe no semblante os sinais de uma extrema aflição. E como a ninguém comunicou sua aflição nem procurou em outro lugar alívio para a dor, suas penas tornavam-se ainda mais graves e mais acerbas.

Que dor para o Coração de Maria! Quantas angústias, quantas lágrimas no segredo de seu quarto! Sabia tudo quanto se passava no coração de seu amantíssimo esposo e não encontrava meio de dar-lhe remédio. O pobre José continuava, com lágrimas, a pedir luz ao Céu e outro tanto fazia Maria; mas não chegara ainda o momento. O Senhor queria, na dor, prepará-Los para a suma consolação.

Tais são os caminhos de Deus para os seus eleitos. Grandes são as cruzes a que certas vezes estão sujeitos neste mundo, mas infinitamente maiores as consolações com que os conforta depois da prova.

* * *

Muitos autores, excessivamente precipitados, sustentam que São José suspeitou da misteriosa gravidez de Maria como efeito de adultério. Os Santos Padres, ao contrário, afirmam que, tendo Maria voltado a Nazaré e, descoberto por São José o prodígio que Deus n’Ela operara, humilde como era, julgando-se indigno de habitar com a Mãe do Messias, tomou a resolução de afastar-se.

Diz Orígenes, na primeira de suas homilias sobre o Evangelho de São Mateus: “José queria abandonar Maria porque, percebendo ter-Lhe sucedido algum grande Mistério julgava-se indigno de habitar com Ela”.

Comentando tal passagem, São Jerônimo diz quase o mesmo: “Querer abandoná-La é testemunho de José, não em suspeita, mas em favor de Maria, pois, conhecendo a ilibada castidade de sua Esposa e ficando pasmo por causa de quanto acontecera, não ousava falar do Mistério que lhe era desconhecido”.

Mais claramente ainda se exprime São Basílio: “São José conheceu que a gravidez de Maria era obra do Espírito Santo mas, não sabendo tudo primeiro com certeza, e pensando contudo em algum Mistério, julgou-se indigno de chamar-se seu esposo, e, para não ser constrangido a manifestar o fato, pensou em abandoná-La ocultamente. Mostrou pois claramente que não pensara mal d’Ela nem se tornara molesta a sua convivência, mas que já formara antes o conceito de que sua gravidez pudesse ser proveniente do Espírito Santo”.

São Bernardo explica de modo maravilhoso a supracitada passagem: “José, que era homem justo, não querendo desonrar Maria, deliberou abandoná-La ocultamente; pela razão de que, sendo justo, não quis denunciá-La; pois, assim como não seria justo se, reconhecendo-A culpada, tivesse calado, também não seria justo se, julgando-A inocente, A tivesse condenado. Sendo pois justo e não querendo denunciá-La, resolveu abandoná-La”.

E porque quis abandoná-La? Dizem os Santos Padres: José pensou em abandonar Maria porque, julgando-se indigno e pecador, pensava não mais lhe ser permitido habitar com a Esposa, cuja dignidade suma compreendia. Via os indícios da presença divina no seio de Maria, e, não podendo penetrar o Mistério, pensava em afastar-se. Será para admirar-se que José se tenha julgado indigno do consórcio com a Virgem bendita, a quem o Espírito Santo tornara fecunda, se também Isabel exclamara com grande reverência: E como mereci que venha a mim a Mãe do meu Deus?

É pois opinião dos Santos Padres que José devia raciocinar assim: E quem sou eu, para ousar deter, junto de mim, como esposa, a Mãe de meu Deus? Onde os meus méritos para habitar com tão santa criatura? Ai de mim! Se Oza foi punido com a morte por haver tocado a Arca do Antigo Testamento, que me aconteceria, se por uma só vez faltasse com o respeito a esta Arca Vivente da Nova Aliança, na qual se encerra o maná do Céu e que contém, não só a Lei, mas o próprio Legislador?

Por causa deste santo temor, desta santa reverência, e não por outro motivo, queria José afastar-se de sua Esposa.

Mas diz ainda São Bernardo: Por que queria abandoná-La secreta e não abertamente? Para que não se investigasse a causa do abandono, para que não se lhe exigisse a razão. Que responderia àquele povo de dura cerviz, incrédulo e sempre pronto a contradizer? Se tivesse manifestado o que pensava, os argumentos em favor de sua inocência, não teriam talvez os incrédulos e pérfidos judeus escarnecido dele e apedrejado a esposa? Como acreditariam no Filho de Deus oculto no seio de Maria se depois O desprezaram quando pregava no Templo? Que não teriam feito com Ele, ainda não visível, se mais tarde não recearam matá-Lo impiamente quando poderoso por seus milagres? Por estes motivos, portanto, como homem justo, para não ser constrangido a mentir ou a difamar sua Esposa ilibada, pensou em abandoná-La secretamente”.1

O Santo passara cerca de dois meses nessa grande aflição quando, não conseguindo mais suportar tanta dor, numa tarde, preparou tudo quanto lhe podia ser necessário e determinou partir naquela mesma noite.

Todavia, antes de chegar ao grande passo, como é próprio de todas as almas justas e tementes a Deus, prostrou-se com a mais profunda humildade e confiança diante do Senhor, suplicando que lhe desse luz e conforto em determinação tão importante e dolorosíssima para o seu coração.

Sua Esposa, a quem Deus manifestara tudo quanto São José se dispunha a fazer, considerava-o de seu quarto, e cheia de compaixão, orava por ele. Deus, tendo permitido que a pena interior de José chegasse ao extremo, a uma espécie de martírio, não só para a aquisição de grandes méritos, mas também para que surgisse mais admirável o benefício da divina revelação que estava para receber, não tardou em conceder-lhe benigno socorro.

José erguera-se da fervorosa oração opresso pela dor e melancolia, e estava, mais do que nunca, decidido a levantar-se pela meia-noite para fugir sem que sua Esposa o notasse. Maria, no entanto, pedia a Deus o remédio, que solicitava com fervorosas orações, e se consolava com o pensamento de que, tendo chegado ao mais alto grau as penas de seu Esposo, a divina Misericórdia não mais tardaria a consolar um coração tão aflito.

De fato, seus santos desejos foram em breve satisfeitos. O Altíssimo enviou um Anjo para revelar a São José, enquanto dormia ainda, o grande Mistério que se realizava em sua Virgem Esposa.

E diz então São Bernardo: “A verdadeira virtude não costuma aparecer na prosperidade, antes sobressai nas adversidades, às quais se seguem depois as consolações”. Assim aconteceu com São José, pois acrescenta São João Crisóstomo: “Deus mistura aos acontecimentos tristes os alegres, e assim faz com todos os Santos, pois não permite que tenham contínuas tribulações nem contínua alegria, mas lhes entretece a vida, ora com adversidades, ora com prosperidades”.

E eis o que aconteceu a São José durante o sono. Enquanto pensava consigo nessas coisas, apareceu-lhe o Anjo do Senhor e lhe disse: José, filho de Davi, não temas conservar Maria como tua esposa, porque o Filho que terá foi concebido por obra do Espírito Santo. Dará à luz um Filho e Lhe porás o nome de Jesus, porque Ele salvará o seu povo.2

Tudo isso, diz o Santo Evangelho, aconteceu para que se cumprisse o que o Senhor predissera pelo profeta Isaías: “Eis que uma Virgem conceberá e dará à luz um Filho. Será chamado Emanuel, que significa: Deus conosco”. Após tal visão, São José despertou do sono e, fazendo como lhe dissera o Anjo do Senhor, conservou consigo a sua Esposa.

Diz a Venerável Ágreda: “São José, informado do Mistério, revelado pelo Anjo, isto é, de que sua Esposa se tornara Mãe de Deus, entre o júbilo de sua inesperada sorte e o novo pesar que o assaltou por tudo quanto pensara e fizera até então, prostrou-se imediatamente por terra e, com humilde temor e inconcebível alegria, fez atos heroicos de humildade e de ação de graças a Deus pelo grande Mistério e por havê-lo escolhido para Esposo de tão excelsa Virgem.

Em virtude de tal acontecimento e dos atos de virtude por ele praticados na dolorosa prova, seu espírito permaneceu sereno e disposto a receber novos dons do Espírito Santo. Suas dúvidas e perturbações passadas nele estabeleceram os fundamentos de uma profunda humildade. A lembrança de quanto lhe acontecera serviu-lhe de ótima instrução para toda a vida”.

Portanto, eis banido em um instante o temor e toda dúvida do humilde esposo de Maria. O Anjo do Senhor que, segundo Santo Tomás, foi o mesmo Arcanjo Gabriel, assegura-o da realidade de quanto havia imaginado, isto é, de que Maria era a Virgem predita pelos Profetas, que desde toda a eternidade fora escolhida, pelo Senhor, para Mãe do Verbo Encarnado. Ao mesmo tempo, tranquiliza-o também, dizendo-lhe: Não temas receber Maria como tua esposa, pois, embora o seu verdadeiro Esposo seja o Espírito Santo, por obra do qual Ela concebeu, todavia foste escolhido por Ele mesmo para fazer-Lhe as vezes, como esposo terrestre de Maria, custódio de sua virgindade. Pai putativo e nutrício do Filho que Ela dará à luz, ao qual porás o nome que Lhe foi destinado: Jesus, que significava Senhor dos homens, para salvá-los de seus pecados.

São Fulgêncio assim traduz as palavras do Anjo: “José, Maria é tua legítima esposa; o Espírito Santo que te A concede, n’Ela operou o Mistério que te enche de santo terror. Mas esse Espírito de Amor não quer romper a santa união por Ele mesmo decretada. Embora haja tornado infinitamente mais precioso o tesouro a ti concedido, não quer todavia privar-te da felicidade de possuí-La. Deus, escolhendo Maria para sua Mãe, não pretende em absoluto que Ela deixe de ser tua esposa, antes A confia à tua piedade, a fim de proteger-Lhe a honra e sustentar-Lhe o divino Filho”.

Escreveu o Pe. La Broise: “Ninguém despertou do sono, mais alegre que São José, e nenhum encontro foi mais doce que o de São José e Maria na manhã daquele dia. O segredo os isolara, por um instante; agora, comunicado a ambos, renovava e multiplicava toda a felicidade de sua união e intimidade. José repetia a Maria as palavras do Arcanjo, Maria narrava a José o acontecimento da Anunciação”.

Como terão agradecido a Deus de todo coração aqueles dois bem-aventurados esposos, por havê-Los unido para tão elevado fim, por havê-Los provado para depois consolá-Los tanto. Sem a prova superada, nem José teria conhecido a virtude heroica de Maria, nem poderia Esta ter apreciado suficientemente o coração nobre e delicado de José.

Jesus seria doravante o objeto único dos pensamentos, das conversações e da expectativa dos dois esposos. Com que reverência ter-se-ão prostrado para adorá-Lo, embora ainda oculto; com ardentes suspiros terão desejado vê-Lo, estreitá-Lo ao coração e beijá-Lo!

Os santos esposos terão certamente exclamado com o profeta Isaías: Abri-vos, ó Céus, e as nuvens façam chover o Justo por excelência; abra-se a terra e deixe aparecer o seu Salvador! Vem, ó Senhor, não tardes mais, vem destruir os pecados do teu povo. Alegra-te, ó Filha de Sião, e exulta, Filha de Jerusalém: eis que está para vir o teu Senhor e grande luz descerá sobre ti naquele dia. Eis que está para vir o grande Profeta que renovará a face de Jerusalém! Naquele dia os montes serão inundados de doçura e os vales destilarão leite e mel. Vem, ó Senhor dos Exércitos, vem e liberta-nos! Mostra-nos a tua divina face e seremos salvos.

Ó Jerusalém, ergue os teus olhos e vê o poder do teu Rei: eis que vem o Salvador para desatar as cadeias de tua escravidão. Não temas, ó Sião, eis que vem a ti o teu Deus. Sobre ti, Jerusalém, aparecerá o Senhor, e a sua glória manifestar-se-á em teu recinto. Sião, serás renovada quando vires o Justo penetrar em ti. Confortai-vos, ó pusilânimes; eis que o Senhor e Deus nosso está próximo. Jerusalém, goza, exulta com grande júbilo, porque a ti virá o teu Salvador!

Ó Senhor, inclina benigno teu ouvido às nossas súplicas e apressa-te a iluminar as nossas trevas com os esplendores de tua vinda! Ó Sabedoria, que procede da boca do Altíssimo, que abrange o universo de um a outro extremo, que tudo dispõe com força e suavidade, vem, vem depressa para ensinar-nos os caminhos da prudência! Ó Adonai, condutor da estirpe de Israel, que apareceste a Moisés na sarça ardente e no Sinai lhe deste a lei, vem agora remir-nos com teu braço poderoso! Ó raiz de Jessé, que és como sinal de salvação diante dos povos, vem libertar-nos e não tardes mais.

Ó chave de Davi e cetro da casa de Israel, que abre e ninguém pode fechar, que fecha e ninguém pode abrir, vem e liberta o teu povo escravo, sentado em um cárcere tenebroso e nas sombras da morte! Ó Oriente, esplendor da luz eterna e sol de justiça, vem iluminar os teus filhos envoltos nas trevas e na obscuridade do pecado! Ó Rei das nações, por elas tão desejado, pedra angular, vem e salva o homem que tiraste do barro! Ó Emanuel, Rei e Legislador nosso, esperança e Salvador das gentes, vem salvar-nos, Deus e Senhor Nosso! Vem, para que possamos conhecer a tua vida na terra e possamos ver depressa a salvação de todas as nações! Apressa-te, ó Senhor, e não tardes a fazer-te visível aos teus servos.

A ti, Senhor, erguemos os nossos olhos, ó vem libertar-nos, que a Ti recorremos. Teremos os olhos sempre fixos em Ti, Senhor Nosso, e suspiraremos por tua vinda, Deus e Salvador nosso. Eis que já estão para cumprir-se todas as coisas preditas pelo Anjo, vem pois, ó desejado de nossos corações! Toca as trombetas, ó Sião, e alegra-te, porque está próximo o dia do Senhor: eis que Ele vem salvar-nos a todos”.

Nesses e em semelhantes afetos terão prorrompido solicitamente aqueles dois Corações tão caros a Deus, os quais, cheios de amor de Deus e do próximo, suspiravam ardentemente pela vinda do Salvador, não só para si mesmos, mas para a salvação de todos os homens.

Os Evangelistas não mencionaram estes grandes Mistérios, nem muitos outros sucedidos à Virgem Santíssima e ao santo Esposo, porque, entre outras razões, não era conveniente por causa dos pagãos que chegavam ao Cristianismo nos primeiros tempos. A Divina Providência manteve ocultas essas coisas, para manifestá-las depois em tempos mais oportunos.

Diz a Venerável Ágreda: “São José antes de lhe ser revelado o Mistério da Encarnação, visitava raramente a sua Santíssima Esposa. Trabalhava na oficina e Maria em seu quartinho; só se reuniam para a refeição. Era tal a prudência daquelas duas santas almas que, embora confirmados em graça, por humildade julgavam de seu dever premunir-se contra os perigos que a castidade costuma encontrar em semelhantes circunstâncias.

Entretanto, a revelação do Mistério divino operou grande transformação a tal respeito. Como poderia José possuir tão próximo o Verbo Encarnado e sua divina Mãe, e não desejar sua amável presença? Tomou, portanto, o hábito de entrar frequentemente naquele céu terrestre, demorando-se ali com profunda humildade e veneração”.

Certa vez, disse a Bem-aventurada Virgem a Santa Brígida: “Asseguro-te que, antes de nossas núpcias, José, iluminado pelo Espírito Santo, soube que eu me havia consagrado a Deus pelo voto de virgindade e era pura nos pensamentos, palavras e ações. Ele me desposou somente para servir-me e considerar-me soberana. Por meu lado, vi depois, com luz divina, que, embora por disposição da Providência tivesse de aceitar um Esposo, a minha virgindade permaneceria no entanto sem mácula”.

São José, como diz Santo Agostinho, não perdeu jamais a inocência, nunca pecou, nem mortal nem venialmente. Deus extinguiu nele o estímulo da concupiscência, razão pela qual podia conversar familiar e tranquilamente com a Santíssima Virgem, sem perigo algum de incontinência.

Além disso, foi singelíssimo na obediência, grande na fé, firme na esperança, ardente na caridade. Foi de rara simplicidade e sinceridade, de singular prudência, de maravilhosa fortaleza e constância, de incrível paciência, de solícita vigilância e de exatíssimo silêncio.

Os dois santos Esposos viviam sós, sem pessoa alguma para servi-los, e agiam assim por sua profundíssima humildade e também para não manifestar as celestes maravilhas com que o Senhor os favorecia.


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Fonte: Rev. Pe. Tarcísio M. Ravina, “São José – Na Vida de Jesus Cristo, Na Vida da Igreja, No Antigo Testamento, No Ensino dos Papas, Na Devoção dos Fiéis, Nas Manifestações Milagrosas”, 1ª Parte, Cap. O Mistério da Encarnação Revelado a São José”, pp. 40-51; Edições Paulinas, Recife/PE, 1954.

1.  S. Bernardo, Hom. II sup. Missus est.

2.  Para melhor esclarecer o sentido das palavras do Anjo, é útil recordar aqui outro uso dos hebreus. Costumavam passar os primeiros tempos do Matrimônio sob a tutela e na própria casa dos parentes próximos da esposa, antes de estabelecerem sua casa. Esta espécie de emancipação, fazia-se com uma festa de família, na qual, em presença dos parentes, confirmavam-se os compromissos nupciais: o marido era reconhecido como chefe da nova família e constituído senhor dos bens pertencentes à sua esposa. No dia determinado, todos os parentes reuniam-se na casa da esposa: o marido apresentava-se envolvido em um amplo manto e a esposa toda coberta por seu véu, e sentavam-se um ao lado do outro sob uma espécie de pavilhão. Então o marido, colocando o anel no dedo da esposa, que lhe dera no dia das núpcias, dizia: Esta é a minha esposa segundo o rito de Moisés e de Israel”. Depois, erguendo seu manto, recobria a esposa em sinal de predomínio e proteção. Um dos parentes próximos servia o vinho e o oferecia aos esposos e aos presentes, bendizendo a Deus por haver criado o homem e a mulher e por havê-los unido pelo vínculo conjugal. Depois, lançava-se ao ar um punhado de trigo, símbolo de fecundidade, e um menino quebrava uma taça para indicar que cada alegria da vida humana é frágil e transitória. Parece muito verossímil pensar que São José tenha hesitado em cumprir este ato de predomínio sobre Aquela que considerara e respeitara como coisa mais de Deus que sua. Na dúvida, quanto ao grande Mistério da Encarnação que o Espírito Santo operara em Maria, o humilde São José estremeceu de santo terror, não ousando declarar-se publicamente pai de uma prole divina. Por isso, foi necessário que o Anjo, em nome de Deus, o tranquilizasse com as palavras: José, não temas receber contigo Maria, tua esposa. Assim, São José tornou-se Esposo e Pai pelo coração, diz Bossuet. Os homens adotam os filhos: Deus adotou um Pai. Ninguém foi pai como ele, exclama Tertuliano, e, ao assumir o título e os encargos de tão excelsa paternidade, Deus lhe deu a autoridade, o afeto e as graças convenientes ao chefe de família tão santa. Deu-lhe o afeto, para que, amando a Jesus e Maria sobre todas as coisas, Os servisse e auxiliasse com extremosa solicitude; deu-lhe a graça de guardar fielmente os tesouros que o Céu lhe confiara; representante do Pai Celeste junto à Maria e ao Filho Divino.


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