BLOG CATÓLICO PARA OS CATÓLICOS.

BLOG CATÓLICO, PARA OS CATÓLICOS.

"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

domingo, 14 de abril de 2019

ENTRADA DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO EM JERUSALÉM.


1ª Meditação

Vendo se aproximar o tempo de Sua Paixão, quer Nosso Senhor Jesus Cristo se aproximar também da cidade de Jerusalém, que é o lugar onde há de sofrer, para que saibamos ser tão grande o amor para conosco, que o impele a espontaneamente correr em procura da Cruz.1 Mais de uma vez entrara Ele naquela cidade, mas nunca com pompa e festivamente como agora, consentindo em derredor de Si acompanhamentos e manifestações de jubilo.2

Tudo, porém, tem sua significação.

Nosso Senhor Jesus Cristo chega a Jerusalém com alegria, porque é chegada a hora de imolar-se na Cruz,3 pois é certo que quanto mais se aproxima o momento de sacrificar-se pelos homens, realizando assim a Redenção do mundo, mais se acendem os ardores da caridade em Seu Divino Coração.4

Observemos com que humildade e com que nobreza, Ele se conduz neste seu trajeto, desfilando pelas ruas de Jerusalém.

Ele não aparece trajando purpura, em coche dourado, cercado por grande enxame de criadagem, mas avança, vestindo uma pobre túnica, cavalgando humilde jumento, pois que não quer ser temido como um poderoso, mas quer ser amado pela Sua mansidão.5 E o povo enfeita as ruas, e canta hinos de louvores e agita festivamente ramos de oliveira, para indicar a vinda de um Rei pacífico.6

É que Ele vem não para esmagar, mas para aliviar e salvar seus súditos, o diz inconfundivelmente o ar de modéstia e mansidão que espira do Seu rosto.7

Admiremos Sua caridade e humildade.

Porque, ó bom Jesus, Vos apressais em procurar escárnios, flagelos, espinhos e Cruz?8

Não admira que os Mártires corressem com alegria em busca dos suplícios, pois que O vosso amor lhes dava asas; mas Vós, por quem ides sofrer? A resposta me enche de confusão, Senhor; Vós ides alegre e pressurosamente sofrer por mim.

Oh! Amor de Jesus, amor imenso! Mas comparando o desejo que Vos abrasa de sofrer por mim e a repugnância que eu tenho em sacrificar-me por Vós, sinto-me desfalecer pela confusão.

Sim, ó meu Deus; se fosse permitido estabelecer um paralelo, que diriam em ver-Vos tão humilde e eu a transpirar soberba por todos os poros?

Enquanto Vos contemplo sentado sobre o jumentinho, afigura-se-me ver um mestre, que do alto de sua cátedra ensina-me a humildade,9 procurando convencer o discípulo de que, embora Vossa vontade seja que todos se salvem, todavia, de fato, só os humildes conseguirão a salvação.10 Graças e louvores Vos sejam dados, ó meu Jesus, pois que desejoso como Sois de minha salvação, não somente me ensinais a humildade, mas fortemente a me inspirais.

Humildade querida, eu te amo e te desejo.

Vós, porém, Senhor Todo-Poderoso, que cuidais de um só como de todos e de todos como de um tão somente,11 valei-me nas minhas misérias, a fim de que, no mesmo instante em que desejo ser humilde, não me sirva deste sentimento para envaidecer-me.12



2ª Meditação

Quando Nosso Senhor Jesus Cristo operou o milagre da multiplicação dos pães, quiseram as turbas aclamá-Lo rei, mas Ele declinando da honra fugiu, indo se esconder.13

Agora, porém, aceita os aplausos da multidão e até das crianças que erguem a voz saudando-O verdadeiro rei, glorioso rebento da linhagem de Davi,14 e não somente tem disto prazer, mas repreende os príncipes da Sinagoga, que movidos pela inveja, não suportam tais louvores,15 confirmando desta maneira Sua legítima realeza.16

Mas vejamos que rei seja Ele.

É rei que teme ser feito rei, porque não espera que os homens O façam Rei; é já Rei, Filho de Pai Rei, não humano, mas divino; não terreno, mas celeste; não temporal, mas eterno.17 Tem por isto grande prazer em ouvir aqueles aplausos inocentes inspirados pela fé, que O reconhecem e proclamam verdadeiro Messias vindo ao mundo para salvá-lo.18 Assim como os homens festejaram Seu Nascimento, cantando hinos de glória,19 assim, agora que vai morrer, homenageiam-No os povos, confessando-O Salvador do mundo,20 dirigindo-lhe a súplica de Davi, que se digne operar a Redenção dos homens.21

Ponderemos, como já o Profeta havia predito, esta entrada gloriosa de Jesus, quando convidara toda Jerusalém a sair-lhe ao encontro, a fim de acolhe-Lo com exultação.22 Ó alma minha, este convite é feito também a ti.

Jesus vem visitar-te e nesta visita quer operar tua santificação. Porque não vais encontrá-Lo, com a simplicidade e humildade das crianças, acolhendo-O com expansão, com sentimento de humildade, com terna confiança filial?

Ah! Meu Jesus, que lucro tendes, sendo proclamado Rei dos homens. Vós que já Sois o Rei imortal dos séculos. O fato de serdes meu Rei não Vos confere nenhuma honra, sendo antes para admirar Vossa carinhosa benignidade, para comigo.

Vós Sois o meu Rei, e tão generoso que quisestes baixar a esta terra, para me erguer até Vosso trono, e tornar-me partícipe de Vossa glória.23

Assim seja, pois, ó meu Soberano; estendei-me a mão caridosa, para que não me despenhe no precipício. Entrego minha salvação aos Vossos cuidados. Dirigi-me, recorrei-me, não podendo eu esperar a conquista do meu último fim24 de ninguém, senão da Vossa infinita Liberalidade. Se conseguir salvar-me, terei feito tudo o que é possível neste mundo; mas, se por uma tremenda calamidade eu viesse a naufragar e perder-me eternamente, inútil seria tudo quanto fizesse, ainda que operasse prodígios. Meu Jesus, que Sois meu Rei, não permitais que o Vosso pobre súdito se perca; e para que tamanha desgraça não aconteça, cercai-me de Vossa eficaz assistência.



3ª Meditação

Para agradecer a Deus o benefício de tê-los livrados da escravidão do Egito, tinham por costume os Hebreus todos os anos, por ocasião da solenidade pascoal, sacrificar-lhe um cordeiro; e a lei exigia que este fosse sem mancha e conduzido para suas casas entre manifestações de alegria, cinco dias antes do sacrifício.25 Querendo pois Nosso Senhor Jesus Cristo observar rigorosamente o ritual mosaico, ainda mais por ser Ele o verdadeiro Cordeiro Imaculado que há de imolar-se nesta próxima Páscoa, para Redenção do Gênero Humano,26 conduz-se para Jerusalém no meio de ruidosas alegrias, justamente cinco dias antes de ser crucificado e sacrificado sobre o Calvário.27

Ele é o Sumo Sacerdote que há de oferecer o sacrifício ao Eterno Pai; mas Ele é também a Vítima escolhida para propiciação da Divina Justiça em prol dos pecadores,28 e é por isso, que se rende a Jerusalém com solene pompa, para que O conheçam pelo que Ele é, o verdadeiro Cordeiro de Deus,29 já simbolizado na antiga lei,30 e apontado pelo Precursor São João Batista.31

Ah! Se nos fosse dado contemplar o que se passava no amoroso Coração de Jesus, Vítima e Sacrificador, Sacerdote e Cordeiro!32 Como Sacerdote, expandia-se em atos de religião, docilmente submetendo-se à Divina Majestade. Como Cordeiro, produzia atos de caridade, sabendo que iria ser imolado entre martírios e ignomínias, em expiação não dos Seus, mas dos pecados alheios.

Quanto a nós, ponderemos os motivos que nos tocam de perto. Se os hebreus ofereciam um cordeiro por haverem sido livrados das calamidades do Egito, que sacrifícios não deveríamos nós oferecer, que havemos sido libertos da eternidade do Inferno?

Em primeiro lugar, confesso ó Eterno Pai, os inúmeros pecados meus, e o acanhamento que sinto das minhas torpes ingratidões, entendendo seja esta uma homenagem a Vós tributada, proclamando-Vos digno de eterna glória,33 em reparação do péssimo uso feito das Vossas graças. Em seguida, enfeixo os meus afetos juntamente com os afetos do Vosso Filho Jesus, e, em união com Sua Divina Pessoa, ofereço-Vos todo o meu ser.

Quantas paixões de soberba e iracundia, inveja e gula, concupiscência e sensualidade fervilham dentro de mim. Pois bem, Senhor, quero agora todas vo-las sacrificar, sobre aquele mesmo altar da Cruz onde Jesus Vosso Filho,34 Vítima aceitável vai consumar o mais doloroso e o mais misericordioso dos sacrifícios.35

Meu Jesus, que ides morrer por mim com tanta serenidade, fazei que Vos imite entregando-me à mortificação, com aquela suave calma que torna o sacrifício agradável aos olhos do Vosso Eterno Pai.36



4ª Meditação

Considerando Nosso Senhor Jesus Cristo, que entra triunfalmente em Jerusalém rodeado pelos Apóstolos, acompanhado pela multidão que em respeitosas manifestações O honra e homenageia em brados entusiásticos de: Viva o Filho de Davi! Viva o bendito Messias, o Salvador de Israel,37 é certamente motivo de consolação vermos reconhecida e glorificada a Pessoa de Deus através da natureza humana.38

Mas ao pensarmos por outro lado que, escoados, apenas cinco dias, um dos Apóstolos entrega-Lo-á, outro chegará a renegá-Lo, e todos os demais O abandonarão: ao pensarmos que esta mesma multidão que, agora O eleva às nuvens, com seus vivas, há de acusá-Lo como subversivo,39 pior do que um facínora sanguinário e há de reclamar em brados enfurecidos, a morte Dele, e morte de Cruz,40 não ficaremos pasmos e atônitos diante de tão repentina mudança?41

É esta uma imagem do que vai pelo mundo.42

Da glória à desonra, das alturas ao fundo do vale, das eminências aos baixos, dos hosanas ao crucifica-O, há apenas um passo. Rapidamente foge o prazer, neste relancear de olhos, acaba-se a glória, a alegria e a prosperidade e todas as doçuras se convertem no intragável amargor do desengano.43

Vê ó minha alma, se vale a pena estimar tanto o mundo e seguir-lhe as máximas enganosas e mentirosas, e convence-te desta grande verdade: que tudo é vaidade, e vaidade das vaidades e aflição de espírito.44

Tudo passa e não há satisfação que dure senão a felicidade eterna, prometida a quem sinceramente serve a Deus.45

Mas esta repentina mudança é também uma fiel imagem de mim mesmo. Todas as vezes que recebo os Sacramentos da Confissão e Comunhão, quantos protestos de amor não dirijo a meu Senhor Jesus Cristo? Afirmo estimá-Lo sobre todas as coisas, juro de amá-Lo entre todas e sobre todas as criaturas, mas ao apagarem-se aqueles fervores superficiais, volto ao que era, e deixando-me empolgar por mesquinhas satisfações dou-lhe as costas com leviandade e ingratidão.

Hoje grito: hosana! Para amanhã bradar: crucifica-O!

E esta minha instabilidade não é tanto efeito da natureza corrompida, quanto da minha malícia habitual.46

Meu Deus, Vós bem vedes e conheceis o íntimo do meu ser. Frequentes vezes separo-me de Vós, porque em verdade nunca à Vós me uni e não sendo possível verdadeira união Convosco senão pelos vínculos do amor, confesso que a causa principal que de Vós me afasta, e porque não Vos amo. Ah! Senhor, como não amar-Vos? Dai-me ó meu Deus, que chore minha grande infelicidade.

Amo a vaidade e à vaidade tenho um grande apego.

Aí está a causa dos meus males! Destruí em mim o império da vaidade e sobre suas ruínas edificai o reino do Vosso amor. Escorai, em fim, as paredes deste edifício com os alicerces do temor santo, aceitando a firme resolução que tomo, de amar-Vos e obedecer-Vos para sempre.47



5ª Meditação

Prosseguindo Nosso Senhor Jesus Cristo Sua viagem entre honras e aplausos, aproxima-se da cidade de Jerusalém, e mal de longe a avista, que rompe em convulsivo pranto.48

Chora, para confirmar pelo exemplo serem bem-aventurados os que choram.49

Chora, não por saber que aí será condenado à morte, mas porque prevê as ruínas da cidade deicida, a qual por juízo de Deus será destruída e reduzida a um montão de ruínas.50

Não chora sobre a cidade pelos destroços dos edifícios materiais, mas sobre as iminentes ruínas temporais e eternas dos seus habitantes; lágrimas ainda mais sentidas ao refletir que indo Ele morrer para salvar a todos, no entanto, muitos por própria culpa51 tornar-se-ão réprobos.

Ponderemos, quão grande seja o amor de Jesus para com as almas. Ele prepara-se a derramar Seu Sangue por todos; para quem há de salvar-se e para quem há de se condenar;52 oferecendo, porém, em favor destes últimos, além do Sangue uma onda de lágrimas. Ora, se Jerusalém é símbolo da Igreja, composta de escolhidos e precitos, dar-se-ia porventura, o caso de me achar incluído no número daqueles que por seu endurecido coração, são causa do pranto do amoroso Redentor?53

Ele chora sobre os infelizes que, decaídos do antigo fervor, levam uma vida de tibieza e frouxidão.54

Estarei eu neste número? Jesus dulcíssimo, eu contemplo Vossas lágrimas como derramadas exclusivamente sobre mim, filho da Vossa Igreja, mas infiel às Vossas graças, ingrato às Vossas misericórdias e correndo risco de perder-me, se não cuidar logo dos meus interesses eternos.

Ah! Não permitais que eu chegue a condenar-me.

Reconheço haver merecido o Inferno pelos meus pecados.

Sim, eu confesso, Senhor! Chorai, chorai muito sobre mim, ó querido Filho de Davi; mas estas lágrimas que tanto Vos afligem, porque derramadas sobre infelizes que não se aproveitarão de Vossa Paixão, sejam causa de intensas consolações de minha parte, ao verdes o firme propósito em que me estou e produzir dignos frutos de penitência.

Sei que quando uma alma volta ao Vosso abraço paternal, por uma conversão sincera, o Vosso Coração transborda de júbilo.55 Por isso, fazei, Senhor, que eu cumpra aquela penitência para a qual Vós me chamais com tantos estímulos.56 Pelos merecimentos do Vosso Sangue e das Vossas lágrimas, ouso esperar a salvação; e tanto mais arraigada fica em mim esta esperança quanto mais medito, que foi o grande amor que me dedicastes, a causa de derramardes tanto Sangue e tantas lágrimas.57

Fazei pois, que, ao lado de uma firme esperança, eu ponha o Vosso santo amor, retribuindo-Vos em parte, o infinito amor que me consagrastes.58

Todas as virtudes são falhas e defeituosas, faltando o Vosso amor. Somente com este na vida e na morte, estarei ao coberto das ciladas infernais.59



6ª Meditação

Chorando sobre Jerusalém, Nosso Senhor Jesus Cristo derrama toda cheia dos Seus pesares, e lançando à infeliz cidade um olhar compassivo, declara que o motivo de Suas grandes mágoas é a descuidosa dissipação a que Jerusalém está entregue, e os perigos que a ameaçam.

Nada mais diz o amoroso Salvador senão: Se tu soubesses,60 se tu previsses a ira de Deus, que pende sobre ti; certamente tu também chorarias,61 providenciando sobre o teu futuro.62 Mas este é o teu mal, tua ruína está iminente e tu não pensas nisto!63

Um pai amoroso se aflige e chora em ver seu filho que vai morrer, porque rejeita o remédio que se lhe oferece, assim Nosso Senhor Jesus Cristo contristasse em ver aquela cidade que tem o remédio à mão e no entanto, prefere perecer antes que aplicá-lo. Como Salvador que é, vai visitá-la, a fim de esclarecer os Seus concidadãos; mas estes enlevados pela vaidade, fecham os olhos à verdade64 e, desta forma desprezando os meios, tornam-se indignos da salvação.65 E Jesus conclui, Suas plangentes considerações dizendo: “Jerusalém, tu perecerás, e a causa de tua perdição será porque não quisestes prever teu mal,66 nem conhecer teu bem.67

Esta predição é para mim uma advertência momentosa e urgente. Inúmeras são as inspirações e luzes, sem conta os avisos internos e externos com que Jesus me visita, estimulando-me para que conserte minha vida e endireite meus desvios e deslizes e me afervore na prática do bem!

Sei que destas visitas aproveitadas ou negligenciadas, depende minha eterna destinação feliz ou desgraçada;68 mas como me comporto eu?

Oh! Infeliz de mim? Quanto sou dissipado, descuidado e indolente! O presente me enlaça e absorve; e não penso na eternidade que me está tão próxima.

Quereis ser santo, mas recuso os meios que à santidade conduzem, e enquanto dentro de mim travam combate os tumultuários instintos da carne, com os puros deleites do espírito, eu permaneço irresoluto e indeciso, acabando por não saber se sou homem espiritual ou carnal.

Meu Jesus e meu Deus, apiedai-Vos de mim! Vós conheceis o meu mal; cego como sou às Vossas luzes, surdo às Vossas vozes, empedernido às ternuras do Vosso amor, verdadeiro enfermo espiritual que agora quer confiar e se valer do carinhoso e valente Médico celeste.69

A chaga pior do meu coração, é o amor desregrado que me prende ao mundo e aos seus ídolos; e embora me tenho iludido julgando existir em mim algumas centelhas de amor divino, descubro agora o embuste do meu amor-próprio, confessando que verdadeiramente nunca Vos amei, não sendo outra coisa senão frases ocas e vazias, palavras que retinem, os protestos de amor que habitualmente Vos dirijo.70 Que será de mim, se, assim seco e árido, chegar ao fim de minha vida?

Fazei, Senhor, que me aproveite das Vossas misericórdias enquanto ainda me sobra tempo.



Propósito

Tomarei a resolução de corresponder às divinas inspirações com as quais Deus me visita constantemente. Temerei o que Jerusalém não temia, os castigos de Deus, propondo eficazmente encetar uma nova vida.71


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Fonte: Pe. Caetano Maria de Bergamo, O.F.M.Cap., “Pensamentos e Afetos sobre a Paixão de Jesus Cristo para cada dia do ano – Extraídos da Sagrada Escritura e dos Santos Padres”, Vol. 1, Caps. X-XV, pp. 24-39; Tradução de Frei Marcellino de Milão, O.F.M.Cap.; Escola Typographica Salesiana, Bahia, 1933.

1.  Beda in Matth., 21.

2.  S. Chrysost., hom. 67 in Matth., ex Op., Imperf.

3.  S. Petr., Dam., serm. Dom. palm.

4.  S. Chrysost., hom. 67 in Matth.

5.  S. Chrysost., hom. 67 in Matth.

6.  Matth., 21, 8; Luc., 19, 38.

7.  S. Chrysost., loc. cit.

8.  S. Petr., Dam., serm. Dom. palm.

9.  S. Chrysost., hom. 67 in Matth.

10.  Psalm. 17, 28; 33, 19.

11.  S. Aug., lib. 3. Conf., cap. 11.

12.  S. Th. In suppl. 3, part., qu, 6, ar. 4.

13.  Jo. 6, 15.

14.  Matth., 21, 5 . 9.

15.  Matth., 21, 16.

16.  Beda in Marc., 11.

17.  S. Aug., Tract. 25 in Jo.

18.  S. Ambros., lib. 9 in Luc., cap. I.

19.  Luc., 2, 14.

20.  Marc., 11, 9.

21.  Psalm. 117, 25.

22.  Zac., 9, 9; S. Chrysost., hom. 67 in Matth.

23.  S. Aug., tract. In Jo.

24.  S. Aug., Conf., cap. I; 4 Reg., 6, 26; Psalm., 70, 2.

25.  Exod., 12, 3.

26.  Jo., 12, 1, 12.

27.  S. Chrysost., hom. in Jo.

28.  Heb., 7, 17; 9, 14.

29.  Beda hom. in Matth. 21.

30.  Beda loc. cit.

31. Jo. 1, 29.

32.  Hymn., Eccles. Tempo pasch.

33.  S. Aug., lib. 4 Confess., cap. I.

34.  Levit., 9, 3.

35.  I Petr., 2, 1, 5; Psalm., 50, 21.

36.  I Cor., 8, 9, 15.

37.  S. Hieron., in Matth. 21.

38.  S. Chrysost., hom. 68 in Matth.

39.  Luc., 23, 1; Jo. 19, 15.

40.  Luc., 23, 18 . 21.

41.  S. Hilar., in Matth. 21.

42.  Idiot., cont. de am. div., cap. 32.

43.  Idem, ibidem.

44.  Eccl. 12, 8; Psalm., 4, 3.

45.  I Jo., 2, 17.

46.  Threm., 1, 8.

47.  S. Aug., Conf., cap. 2; S. Bern., M, cap. 9; Psalm., 118, 120.

48.  Luc., 9, 41.

49.  Orig., hom. 58 in Luc.

50.  Luc., 19, 43.

51.  S. Cyrill., in Cat. Luc. 19.

52.  2 Cor., 5, 14; I Jo., 2, 2.

53.  Orig., hom. 38 in Luc.

54.  S. Greg., hom. 39 in Evang.

55.  S. Aug., lib. 8 Conf., cap. 3.

56.  S. Aug., lib. 10 Conf., cap. 4.

57.  Psalm., 16, 7.

58.  S. Aug., lib. 10 Conf., cap. 29.

59.  Idiot., cont. div. am. cap. 15.

60.  Luc., 19, 42.

61.  S. Greg., hom. 39 in Evang.

62.  Theoph., in Luc., 19.

63.  S. Greg., loc. cit.

64.  S. Greg., ibid.

65.  S. Cyrill., alex., in Cat. Luc., 19.

66.  S. Greg., hom. 39 in Evang.

67.  Luc., 19, 44; Theoph., in Luc., 19.

68.  S. Greg., hom. 39 in Evang.

69.  S. Aug., lib. 10 Conf., cap. 28.

70.  Idiot., contempl. Div. am., cap. 17.

71.  Psalm., 76, 8.

sábado, 13 de abril de 2019

NOSSO SENHOR JESUS CRISTO DESPEDE-SE DE SUA SANTÍSSIMA MÃE.



1ª Meditação

Deve-se incluir na Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, uma pia e delicada tradição, que tem todos os visos de credibilidade, embora não se ache nos Santos Evangelhos.1

Aproximando-se o dia, marcado nos eternos decretos, em que devia-se executar o plano misericordioso da Redenção do mundo, Nosso Senhor Jesus Cristo que sempre prestara reverente obséquio e respeitosa obediência à sua Mãe2, como Filho amoroso vai visitá-la3, e previne-a do próximo drama lúgubre em que Ele vai ser único Autor; pede-lhe a Sua bênção e despede-se dela com infinita ternura.

Translademo-nos para Betânia4, e aí representemo-nos a Jesus, o mais dedicado entre os filhos dos homens, que, após a Ceia, convida a Santíssima Virgem, a mais amorosa entre todas as mães5, para um quarto reservado onde os dois Corações, os mais nobres e generosos do mundo, vão se abrir e falar.

Aflige-se o Coração de Jesus antevendo a dor que vai causar a Sua Santíssima Mãe, em comunicar-lhe a desoladora notícia. Aflige-se a Santíssima Virgem antes de ouvir a cruciante comunicação, pressagiando o inelutável desenlace e todo cortejo de horrores que acompanharão a morte do Filho6, cuja condenação tramada pelos Pontífices, já chegara aos seus ouvidos.7

O Filho é Deus, mas também homem; e tendo-se voluntariamente, submetido às fraquezas humanas8, não há de duvidar que Ele não sinta em Si mesmo aqueles apertos e pesares que qualquer outro homem sentiria em tais emergências, e ainda com mais sensibilidade, visto que mais ternura possua Seu Coração.

Se Sua Alma bendita tanto se contristou no horto de Getsêmani ao prever a separação do Corpo, não é crível, que permaneça agora insensível ao separar-se de Sua querida Mãe.9

Se o quadro que tenho diante dos olhos, não me move à compaixão, é porque já não tenho coração. Contempla, ó minha alma, este Filho e esta Mãe.10

Sente o Filho, por ver-se obrigado a fazer o que nunca fizera, amargurar à Sua Mãe caríssima; sente a Mãe, por sua vez, todo o martírio que lancine o Coração do Filho, causando-lhe isto imensa dor. Nesta Paixão de Jesus e Maria não tem parte os judeus. O que aflige a Jesus, é Maria, por ser Sua Mãe; o que martiriza a Maria, é Jesus, por ser Seu Filho.

Ó Jesus, Filho muito amável! Ó Maria, Mãe muito extremosa! Eu me ajoelho em espírito, aos vossos pés.

Dai-me ó Mãe, um pouco daquele amor que tendes a Jesus; concedei-me ó Jesus, um pouco daquela ternura que tendes por Maria. O algoz que Vos faz sofrer, é o Vosso recíproco amor, e é deste que eu careço, para vos saber compadecer.11

Mãe de Jesus, que vos rebaixais a ponto de consentir em ser tida como minha mãe e amar-me de tal amor como nenhuma mãe jamais amou, apiedai-vos de mim. Vós, sois, cheia de graça e por isso mesmo que eu sou cheio de misérias, em Vós confio12, de Vós esperando uma migalha de puro e santo amor.



2ª Meditação

Na pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo a doçura do coração e a energia da vontade harmonizam-se de tal maneira a não deixar lugar, que a ternura do Filho, sobrepuje à gravidade do Homem-Deus, nem que esta leve vantagem sobre aquela. Tudo n'Ele é medido e perfeito.

E é neste equilíbrio de sentimentos, que Ele assim fala à Santíssima Virgem: Minha Mãe13, é chegada a hora da Redenção do mundo pelo sacrifício da Minha vida. Eu vou ser entregue aos Meus inimigos, que desfecharão sobre Mim tremendos golpes a Me esmagarem e, riscarem, se lhe fosse possível, o Meu Nome da face da terra. Agradeço-Vos todas as fadigas, labores e padecimentos por Mim sofridos; e como outrora destes o vosso consentimento para Minha Encarnação, assim desejo o deis agora para Minha Morte. Consenti, pois, e havei por bem, que Eu vos deixe e vá cumprir a Vontade Santíssima do Meu Eterno Pai.14

Que responde Maria Santíssima?

Transida de pungente dor, profere apenas poucas palavras entrecortadas de soluços e suspiros15. Jesus querido, meu Pai, meu Filho, meu tudo16, não seria possível que Eu fosse morrer em Vosso lugar?17 O Pai que é Onipotente, não terá outros meios para salvar o mundo sem exigir a Vossa Morte?18

Quereria dizer mais a mística pombinha, mas o pranto embarga-lhe a voz; e compreendendo ser impossível a mudança dos eternos decretos, resigna-se ao divino beneplácito, numa absoluta conformidade com um heroísmo, de tudo superior à natureza humana.19

Tudo isto, porém, em nada diminui o martírio dolorosíssimo que alancea-lhe o materno Coração. E tu, ó minha alma, não chorarias porventura, tu também, se te fosse dado vê-la em tais lances?20 Quem poderá sondar a profundidade ou medir a extensão dessa dor? Isto só seria possível se fossemos capazes de compreender a grandeza do amor que unia um tal Filho a uma tal Mãe.21 Quanto a mim, porém, devo ponderar que o motivo pelo qual Nossa Senhora consente que o Filho vá morrer, é porque está em jogo a minha salvação, sendo certíssimo que a imolação de Nosso Senhor Jesus Cristo, foi para salvar particularmente a mim.

Posto isto, bem teria podido a Santíssima Virgem, dizer a Seu Divino Filho: Quem é este para merecer que lhe sacrifiqueis Vossa preciosíssima vida? Vós sois o Filho de Deus, e este um verme vil e desprezível. Nada disto, porém faz, a amorosa Mãe de Deus, mas amando-me de imenso amor, consente que o Filho pague por mim à Divina Justiça.22

Mãe do santo amor e da grande dor, que imensa dívida tenho para convosco! Obrigado pela caridade altíssima que tivestes para comigo! Obrigado pelo vosso doloroso sacrifício! Rogo aos Anjos do Paraíso, que Vos deem por mim infinitos louvores.

É necessário que eu Vos pague esta dívida de gratidão, que contraí para convosco, amando-vos de amor terno e eficazmente prático, não deixando-me dominar pelo comodismo e covardia em face do sacrifício: lembrando-me de que é justo, que o criminoso sofra alguma coisa, quando Vós, puríssima e inocente, Vos submetestes a tamanhos sacrifícios em prol do criminoso.23



3ª Meditação

Iluminada supernamente sobre a Paixão do Filho bendito, a Santíssima Virgem suportara durante dilatados anos, o peso de um longo martírio,24 sem um momento de alívio no seu atribulado Coração.25 Mas, tudo isto é pouco ou nada em face da dor agudíssima, que lhe penetra a alma na final despedida, no derradeiro adeus.

Quando foi na perda do Filho querido, teve grande pesar por ignorar-lhe o paradeiro, alentava-a, no entanto, a esperança de ainda achá-lO.26

Agora, Ela sabe o destino do Filho, sabe das cadeias que O esperam, dos flagelos que O atendem, dos espinhos que O aguardam, da Cruz que lhe está preparada, e apagada toda esperança de revê-Lo e ainda abraçá-Lo sobre a terra, entre as brancas paredes da casinha de Nazaré, agora é, que realmente a fatídica espada de Simeão lhe transpassa a alma.27

A presença de Jesus, a acompanhá-la por toda parte, causava-lhe grande tormento, porque avivava em Sua mente o quadro de Sua futura Paixão,28 mas ao mesmo tempo experimentara grande conforto, pela conversação dulcíssima que a arrebatava para as regiões do infinito.29

Bem podemos, portanto, avaliar quão grande seja Sua dor, em se ver privada de um convívio tão suave e consolador.

Ó verdadeiro lírio de pureza e caridade entre os espinhos.30 Ela é mãe e viúva, e suas entranhas comovem-se ao ver desaparecer tão rapidamente nas garras da morte, o único e inocente fruto do Seu sangue, na pujança da vida, na flor da idade, Deus verdadeiro, no qual Ela tinha posto todo Seu amor.

Quem me dera poder derramar jorros de lágrimas, sobre uma situação tão pungente e comovedora!31

Imprimi, ó Virgem Santíssima, em minhas entranhas aquelas lancinantes comoções, que crucificaram as Vossas!32

Mas, voltemos ainda a Jesus. O motivo que O impele a abandonar Sua diletíssima Mãe, é o amor que a mim consagra; é a solicitude do Bom Pastor, que se sacrifica a fim de salvar a ovelha tresmalhada e que desgarrou-se do rebanho.33 Ó mistério de amor! E no entanto, eu vou fugindo d'Ele quando me procura e torno a abandoná-Lo depois de haver-me alcançado e perdoado.

Sim, eu O abandono para correr atrás dos impalpáveis fantasmas da vaidade, não querendo por amor d'Ele desfazer-me do pesado fardo dos meus defeitos, recusando-me a contrariar meu gênio, minhas opiniões, meus caprichos e as satisfações do amor-próprio. É sem desculpa, minha ingratidão!

Pastor e Salvador amoroso, perante Vós me humilho e arrependido da minha tresloucada malícia, penitencio-me de ter sido tão sem amor, em deixar-Vos pelas criaturas.

Confesso haver eu esbanjado em ninharias e frivolidades a preciosa herança das Vossas graças e disto peço-Vos um misericordioso perdão. Perdoai-me dulcíssimo Jesus, por aquela dor que teve Vossa Mãe em Vos deixar. Nas brenhas malditas do pecado, minha alma perdeu-se, não a deixeis emaranhada, posta a mercê dos lobos infernais, mas procurai-a, ó Pastor amoroso, salvai-a, e ela promete nunca mais deixar-Vos.34




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Fonte: Pe. Caetano Maria de Bergamo, O.F.M.Cap., “Pensamentos e Afetos sobre a Paixão de Jesus Cristo para cada dia do ano – Extraídos da Sagrada Escritura e dos Santos Padres”, Vol. 1, Cap. XVI, pp. 40-48; Tradução de Frei Marcellino de Milão, O.F.M.Cap.; Escola Typographica Salesiana, Bahia, 1933.

1.  S. Boaventura, Medit. Vit. Chr., c. 72.

2.  S. Luc. 2, 51.

3.  S. Beda, in Luc. 2.

4.  S. Boaventura, loc. cit. c. 71.

5.  Idem. Ibid., cap. 72.

6.  Rupert. Abb., in Can. 4.

7.  S. Boaventura, Medit. Vit. Chr., cap. 69.

8.  Is. 52, 4; S. Mat. 8, 37.

9.  S. Brígida, Lib. 1. Revelat., cap. 20.

10.  S. Boaventura, Medit. Vit. Chr., cap. 72.

11.  Hin. Ecles. De Dol. Virg.

12.  S. Boaventura, Stim. Div. Am., p. 1, cap. 4.

13.  S. Boaventura, Medit. Vit. Chr., cap. 72.

14.  S. Jo. 6, 38.

15.  S. Boaventura, Medit. Vit. Chr., cap. 72.

16.  D. Ephr., De Lament. Virg.

17.  2 Rs. 8, 33; S. Bernardo, sen., tom. 2, serm. De glor. Nom. Mar.

18.  S. Boaventura, Medit. Vit. Chr., cap. 72.

19.  S. Brígida, Lib. 1, Revelac., cap. 10.

20.  Cant. 2, 12; S. Boaventura, loc. cit.

21.  S. Bernardo, sen., tom. 2, serm. 2 De glor. Nom. Mar.

22.  Efés. 2, 4; Rom. 8, 32.

23.  S. Boaventura, Stim. Am., p. 1, cap. 4.

24.  Ruper. Abb., in Cant. 4.

25.  S. Brígida, Lib. 6, Revel., cap. 57.

26.  S. Luc. 2, 36.

27.  S. Luc. 2, 34.

28.  S. Anselmo, De Excell. Virg., cap. 4.

29.  S. Bernardo, Tract. De Lament. Virg.

30.  Cant. 2, 2.

31.  Jer. 9, 1.

32.  S. Bernardo, Tract. De Lament. Virg.

33.  S. Luc. 15, 4.

34.  Salm. 118, 186; S. Agostinho, 1, 10. Conf., cap. 32.


sábado, 2 de março de 2019

PREDESTINAÇÃO DE SÃO JOSÈ.



São José predestinado a cooperador de nossa salvação.

Deus é infinitamente sábio e poderoso, e não é sem razão profunda que escolhe, para seus fins santíssimos, um meio de preferência a outro. Não nos cabe julgar a sua obra, mas antes, indagar quais os motivos que O induziram a tomar um caminho em vez de outro.

Poderemos agora perguntar: Por que Deus quis que o seu Divino Filho, Nosso Redentor e Salvador, nascesse de uma Virgem, desposada com São José? Antes de tudo, porque também ele devia concorrer, de certo modo, para a obra de nossa Redenção.

Estava decretado por Deus, que tal obra fosse realizada com o sacrifício voluntário do Divino Filho. Este devia tomar carne humana e, após uma vida cheia de padecimentos, morrer em uma Cruz como Vítima voluntária. Necessário se tornava pois, que a Vítima do sacrifício fosse gerada, nutrida, guardada e conservada para o solene sacrifício. Quem será o escolhido para esse nobilíssimo ofício? O escolhido será São José, que terá a ventura de estreitar ao coração e beijar o celeste Menino, fruto da Virgem sua Esposa. Vesti-Lo-á, providenciará o alimento necessário, guarda-Lo-á, cooperando de tal forma para a nossa salvação.

É doutrina de São Tomás que, ao escolher e destinar alguém para uma grande obra, Deus o prepara e dispõe de modo a ser apto para a obra a que se destina. São José tinha de entrar nessa economia da Providência. Escolhido para Esposo da Mãe de Deus, para Pai virginal e legal de Jesus, devia ser enriquecido com tais graças, a fim de tornar-se digno de sua missão.

Disse o Papa Leão XIII na Encíclica Quamquam pluries: De ser José Esposo de Maria e Pai putativo de Jesus, deriva toda a sua grandeza, graça, santidade e glória. É certo que a dignidade de Mãe de Deus, tão alto se eleva que nada pode existir de mais sublime. Mas, pois que, entre a Beatíssima Virgem e José estreitou-se o vínculo conjugal, não há de duvidar, de que ele se tenha aproximado, mais que qualquer outro, da altíssima dignidade pela qual a Mãe de Deus se acha infinitamente elevada acima de todas as criaturas.

São José destinado a ocultar, com a sua presença, a Concepção sobrenatural e o milagroso Nascimento de Jesus. – O Salvador devia ser isento de toda espécie de culpa, devia ser concebido no seio puríssimo de Maria por obra do Espírito Santo. Esse Mistério de amor não devia então ser manifestado aos hebreus, seja para salvar a honra da Virgem Mãe, seja porque eles, não compreendendo o Mistério, teriam duvidado da existência da humanidade de Cristo. A presença de José devia servir para ocultar, aos olhos dos incrédulos, o parto virginal da Mãe de Deus. Por isso, quis Deus que Maria, com um Matrimônio totalmente celeste, fosse Esposa do mais humilde, do mais ilibado, do mais santo dos homens. Assim, predestinou expressamente um Esposo Virgem a Maria, que fosse ao mesmo tempo o Pai Virginal e Legal de Jesus. Tal Mistério seria revelado aos fiéis somente quando preparados pela graça para compreendê-lo.

Outro admirável dom que São José recebeu de Deus, é o de ser predestinado para companheiro de Maria e testemunha de sua Virgindade. – Maria é, depois de Jesus, o primeiro objeto da complacência divina. Diz o Padre Suarez: Deus ama a Bem-aventurada Virgem, por Ela só, mais que a todos os outros Santos. Pelo amor que Lhe dedicava, escolheu-A entre todas as mulheres e A elevou à altíssima dignidade de Mãe do Verbo e de Corredentora dos homens. Mas, pelo próprio amor que Deus tinha por Maria, devia providenciar ao seu bem e honra. E para isso, serviu-se de São José, constituindo-se seu Esposo, a fim de Lhe ser companheiro inseparável, amparo, conforto, defensor, testemunha verdadeira, fiel custódio e confirmador da Divina Maternidade e perfeita Virgindade de Maria.


São José ultrapassou em santidade os Patriarcas e os Profetas, os Santos, os Apóstolos e todos os Anjos do Céu. – Sendo São José elevado a mais alta dignidade existente após a da Mãe de Deus, era justo que Deus O predestinasse também a possuir na terra, tal abundância de graças que superasse a qualquer outro Santo, excetuando-se Maria, e a ocupar o primeiro lugar na glória do Céu, após o de sua Santíssima Esposa.

São José predestinado acima dos Patriarcas e Profetas. – Tendo São José ultrapassado em santidade o antigo José, o mais santo dos Patriarcas, é, por conseguinte, o maior de todos os Profetas, maior que os Patriarcas e superior também a São João Batista.

Foi maior que o antigo José, por ser este apenas uma figura profética, e a figura é sempre inferior ao objeto figurado. Foi superior a todos os Profetas, pois nenhum teve uma vida tão íntima com Deus, como ele com o Verbo encarnado.

Desta divina predestinação, logo se compreende a excelsa dignidade de São José. Com efeito, na vida sobrenatural, podem considerar-se três ordens: a ordem dos Anjos, a dos Santos e a ordem da Encarnação. A ordem da Encarnação é superior às duas primeiras, pois tem por Autor, princípio e fim Jesus. E de Jesus, como Príncipe soberano, depende toda hierarquia, todo principado no Céu e na terra. E São José, por divina predestinação, acha-se justamente nesta ordem soberana. Ordem constituída somente por três pessoas: Jesus, José e Maria. Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem; José, verdadeiro Esposo de Maria e pai virginal e legal de Jesus; Maria, verdadeira Mãe de Deus e dos homens. Ora, quando se pensa que o último grau de uma ordem superior é sempre maior, em dignidade, que o primeiro grau de uma ordem inferior, compreende-se imediatamente que São José, embora o último em sua ordem, é todavia, superior em dignidade, a todos os Anjos e a todos os Santos do Paraíso.

São José predestinado acima de todos os Santos e acima dos Apóstolos. – O Novo Testamento é a Lei da graça por excelência. Aos primeiros promulgadores desta Lei, Deus concedeu graças especiais, em maior abundância que aos outros homens. Por isso, acredita-se na Igreja, que os Apóstolos tenham recebido graças mais abundantes que todos os outros. Com exceção, porém, de Maria e de seu castíssimo Esposo, o qual, tendo na obra da Redenção um encargo superior ao dos Apóstolos, devia certamente receber de Deus maiores graças, e um lugar mais distinto na glória. Era pois conveniente, que o glorioso Santo superasse tanto os outros predestinados, quanto sua dignidade de Pai de Jesus, de Esposo de Maria, de Padroeiro da Igreja universal, o constituía acima de todos os Santos e dos Apóstolos.

São José, predestinado acima dos Anjos do Céu. – No Céu não estão apenas os que entram após a prova desta vida, mas também a imensa multidão de Anjos, que se conservaram fiéis na grande prova. Os Anjos que não perseveraram no amor de Deus mas, unindo-se a Lúcifer, príncipe dos Anjos rebeldes, envaideceram-se de si mesmos, pereceram miseravelmente, deixando os lugares de glória dos quais se haviam tornado indignos.

E qual o afortunado a quem caberá o lugar vazio de Lúcifer, recebendo assim no Céu, o primado sobre todos os Anjos? Será São José. Ele, realmente, com seu admirável exemplo, convidou o mundo para seguir a Cristo com maior êxito que Lúcifer, excitando seus sequazes à rebelião.

O Papa Pio XI, de s. m., no Decreto de virtudes heroicas de um Venerável, no dia do Patrocínio de São José, disse: Entre São José e Deus, não vemos e não devemos ver senão Maria, por sua divina Maternidade. Portanto, São José, depois de Maria, é superior a todas as naturezas criadas, sem excluir os Anjos. Em 1928, a 19 de março, disse também estas palavras: São José teve a missão de guardar o Filho de Deus, o Rei do mundo, a missão de guardar a Virgem, a santidade de Maria, a missão de cooperar na Encarnação divina e na salvação do gênero humano.

E, na tarde do mesmo dia, recebendo os paroquianos da Igreja de Todos os Santos, disse-lhes: São José, depois de Maria, é o maior de todos os Santos.

Ó insigne santidade do Pai adotivo de Jesus! Não podemos deixar de admirar os altíssimos decretos da divina Providência, dispondo que os Mistérios sejam ocultos aos soberbos e revelados aos humildes e simples.



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Fonte: Rev. Pe. Tarcísio M. Ravina, da Pia Sociedade de São Paulo, São José – na Vida de Jesus Cristo, na Vida da Igreja, no Antigo Testamento, no Ensino dos Papas, na Devoção dos Fiéis e nas Manifestações Milagrosas; 3ª Parte, pp. 139-144. Edições Paulinas, Recife, 1954.

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