BLOG CATÓLICO PARA OS CATÓLICOS.

BLOG CATÓLICO, PARA OS CATÓLICOS.

"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

quinta-feira, 1 de abril de 2021

INSTITUIÇÃO DO SANTÍSSIMO SACRAMENTO.


1ª Meditação

Concluída a ablução dos pés e encerrados os ritos e sacrifícios da antiga lei, o Divino Mestre prepara-se para fazer de Si mesmo um Novo Sacrifício com a instituição do Santíssimo Sacramento.1 Estava na sua vontade escolher a data que melhor lhe aprouvesse para a celebração de tamanha solenidade; preferiu, porém, a véspera de sua Paixão e Morte,2 para que mais se destacassem as finezas do seu amor para conosco, e nossos corações se sentissem mais estimulados em corresponder a tanto afeto.3

Ao mesmo tempo que os homens pensam em dar-lhe a morte e morte ignominiosa e infame, Ele cuida em dar-nos a vida e vida infinitamente valiosa e abundantemente copiosa.4 Penetremos bem no âmago deste conceito.

Enquanto os homens tramam contra o Amável Salvador injustiças, perseguições, desonras, sevícias e tormentos, Ele engendra em sua mente os mais estupendos inventos, e resolve nos deixar o tesouro mais precioso que existe no erário da Sapiência e Onipotência de Deus.5

Enquanto os homens obstinados no mal, desejam por um excesso de maldade serem abandonados por Deus, Ele encontra meios sublimes para estreitar cada vez mais os laços de união com os homens, perpetuando entre eles sua morada.6 Ó benignidade! Ó caridade,7 verdadeiramente infinita, que entre os caudais da ingratidão humana não se extingue e não se entibia, mas antes cresce e chameja com mais ardor.8

Considerando o Apóstolo São Paulo que nem os flagelos e nem os espinhos; nem os pregos e nem a Cruz conseguiram esfriar ou diminuir o amor de Jesus para conosco, saiu-se também Ele naquele altaneiro surto de fervor, afirmando que nada nesta vida, inclusive a própria morte conseguiria separá-Lo do amor de Jesus.9

Ora, se é verdade, como é incontestável, que o Apóstolo não se cingiu somente à personalidade própria, mas entendeu abranger todos aqueles que estivessem adornados com o caráter de cristãos, que vergonha para mim não poder fazer parte deste número porque de sentimento tão oposto aos do Santo Apóstolo?

Sim, o amor que me votais, ó meu Jesus é constante e inabalável a todas as provas: mas o que Vos dedico é tão frágil que ao sopro de qualquer brisa se apaga e morre.

A me separar de Vós, é muitas vezes suficiente uma pequena ocasião, uma leve tentação; e tão longe estou de suportar por vosso amor perseguições e adversidades, que muitas vezes uma miserável paixãozinha me faz cambalear e cair. Ah! Meu Jesus que tão amiudadas vezes Me visitais no Adorável Sacramento, fazei que eu sinta os efeitos de vossa presença e minha alma saia do banquete Eucarístico mais fortalecida no vosso amor.10

Peço-Vos a esmola do vosso amor não feito de ternuras e suavidades, mas sólido e forte semelhante ao que tivestes por mim.11

Propósito

Se quiser imitar a Nosso Senhor Jesus Cristo o qual coerente com sua doutrina aos que lhe queriam mal, dando-lhe a morte, respondeu dando-lhes a vida no Santíssimo Sacramento, eu também esforçar-me-ei respondendo com toda amabilidade à quem me tratar com maneiras bruscas e pouco caridosas.12



2ª Meditação

Em palavras resumidas, mas altamente significativas, exprime São João a instituição do Santíssimo Sacramento, dizendo, que havendo Nosso Senhor Jesus Cristo tido sempre um grande amor aos seus que viviam neste mundo, amou-os com mais ardor e veemência especialmente no fim de sua vida,13 deixando-lhes um tesouro incomparavelmente superior a todos os tesouros da terra e do Céu, na Santíssima Eucaristia, chamada por isso, o Sacramento do seu inefável amor;14 manifestando de propósito este legado do seu amor à última hora para que se imprimisse mais em nossos corações.15

Assim como o Eterno Pai deu prova de imensa dileção que nos consagrava, dando-nos seu Unigênito Filho porque, juntamente, com Ele deu-nos tudo;16 assim o mesmo Unigênito em sinal de sua caridade para conosco, deu-nos a Si próprio e, juntamente, com sua Pessoa Divina entregou-nos tudo que tinha, não lhe sendo possível dar-nos, embora Onipotente, outro bem superior a este, porquanto nada existe que sobrepuje em grandeza, em carinho, em doçura, em riqueza, em santidade a este Augusto Sacramento.17 Com efeito, neste admirável Sacramento conferiu-nos o direito de usarmos do seu Corpo, do seu Sangue, de sua Alma e Divindade, e como consequência revestiu-nos dos seus méritos infinitos.18

Estende, ó minha alma, o voo dos teus pensamentos pela amplidão do infinito e vê se podes dar com tesouros, riquezas, maravilhas, ou algo de superior ao legado valiosíssimo que Jesus te deixou no seu Testamento!…

Pois bem, Ele fez tudo isto para que reconheças as finezas com que te amou;19 e a obrigação que te cabe é de corresponder a este amor.20

Deus meu, quem sou eu para que me consagreis tamanho amor, e o mesmo exijas de mim?21 Ah! Senhor, ainda que o amor-próprio procure alcançar-me em suas malhas, eu confesso não passar de uma criaturinha miserável, e o que mais me dói, é confessar não haver em mim nada que seja digno de Vossa Divina Majestade. De sorte que, se por um lado é digno de admiração o amor que me manifestais no Augustíssimo Sacramento, por outro é digno de estupefação a insensibilidade e ingratidão com que sois correspondido.

E até quando seremos nós ingratos e indiferentes à divina caridade?22 Quero amar-Vos, ó meu Jesus, mas Vós que conheceis quão fraca e movediça é minha vontade, revigorai-a com os vossos poderosos auxílios.

Mas de que maneira e em que medida Vos poderei demonstrar o meu reconhecimento.23

Vós mesmo me ofereceis a solução do problema. Deste-me tudo, a ponto de esgotar os tesouros das vossas riquezas infinitas; é justo pois que eu, em troca Vos dê tudo que possuo ou que possa ter. O bom e o melhor de mim mesmo vou empregá-lo no vosso santo serviço; não me falte, porém, vossa graça para que se torne real e prático o desejo que tenho de pagar, ainda que em parte mínima, a imensa dívida de amor que contraí convosco na instituição do Santíssimo Sacramento.24

Propósito

Tornarei práticas as minhas resoluções, oferecendo a Deus o sacrifício da memória, intelecto, vontade, declarando franco combate aos meus sentidos e paixões internas, lembrando-me de que a oração que não produz a reforma da vida, não passa de sentimentalismo doentio e inútil.



3ª Meditação

Nosso Senhor Jesus Cristo, Sacerdote Eterno figurado em Melquisedec25 que, único no Antigo Testamento ofereceu ao Altíssimo um sacrifício, não de animais, mas de pão e vinho,26 estando sentado a mesa, toma o pão em suas santas e veneráveis mãos e levantando os olhos ao Eterno Pai, benze-o,27 e o consagra dizendo: ESTE É O MEU CORPO.28 Da mesma maneira, toma nas mãos o cálice, deita-lhe o vinho e diz: ESTE É O MEU SANGUE.29

Apenas proferidas estas palavras, o pão deixa de ser pão, e se converte no seu verdadeiro Corpo; o vinho deixa de ser vinho para converter-se no seu verdadeiro Sangue.30 Não é dado à mente humana pesquisar, nem como isto tenha sido possível nem como o fato se deu; seria incidir na sofística incredulidade judaica.31 Assim como o Verbo de Deus se fez homem nas entranhas puríssimas da Santíssima Virgem, sem o concurso de homem, mas somente pela virtude do Espírito Santo, assim pela mesma virtude o pão é convertido na substância do Nosso Deus humanado.32

Mas, assim como na Pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo a Divindade, estava como que oculta e, invisível sob os véus da humanidade visível, assim na Santíssima Eucaristia, o Homem-Deus esconde-se sob as aparências do pão e do vinho,33 verificando-se neste Mistério a profecia que faz de Nosso Deus, um Deus escondido.

Mas sobre isto não nos entreguemos aos voos da fantasia; lembrando-nos de que, o que a razão fraca e míope não pode alcançar, deve supri-lo a fé34 adorando, e agradecendo a infinita Sapiência e Onipotência de Deus.

Eu pois creio, ó meu Senhor Jesus Cristo, com todo fervor do meu espírito, que em virtude da vossa taumaturga palavra, estais na Hóstia consagrada, com vossa Verdadeira e Real substância, com a Divindade e Humanidade, verdadeiro Deus e verdadeiro homem.35 Vós o dissestes, e assim é; passarão os Céus e a terra, porém, jamais falharão vossas palavras. Nesta fé quero viver; nesta firme e inabalável esperança quero também morrer.

Tenho prazer em não poder-Vos contemplar desveladamente, não possa compreender a sublimidade do Mistério, pois com isto me é dado oferecer-Vos o sacrifício dos meus sentidos e do meu intelecto.

Se minha crença não é digna de Vós, peço-Vos a reaviveis aumentando-a, enquanto eu vou preenchendo as lacunas da minha alma com a fé dos mais ilustres Santos da Vossa Igreja, especialmente aqueles que tiveram a dita de derramar o sangue em testemunho da vossa adorável Presença no Santíssimo Sacramento.

Propósito

Pedirei a Nosso Senhor Jesus Cristo me conceda uma fé tão firme, que na Santíssima Comunhão,36 e na Visita ao Santíssimo eu mostre uma devoção e uma veneração não comuns.



4ª Meditação

Escolheu de preferência, Nosso Senhor Jesus Cristo o pão, como matéria da instituição eucarística, para nos deixar nela uma memória perpétua de sua Paixão.37

Outras vezes tinha-se Ele comparado a um grão de trigo,38 e é agora no Santíssimo Sacramento que tem sua aplicação a comparação passada. Com efeito, como o trigo se bate, se mói, se mexe e remexe para que possa obter o pão diário, assim Nosso Senhor foi alanhado, remoído, britado e repisado sob os golpes da Paixão dolorosa;39 para que nos lembremos quanto nos amou,40 e este pensamento não se desalie nunca das nossas comunhões.41

Base principal e primária da nossa eterna salvação, é a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo.42 Ora, estando esta contida e comemorada no Santíssimo Sacramento, vem daí quão grande sejam as esperanças que devemos pôr em Jesus Eucarístico.

Com razão exulta a Igreja na adoração deste Sagrado banquete reconhecendo ter-nos Nosso Senhor deixado um memorial de sua Paixão e um penhor de sua eterna glória.43 E na realidade, como poderemos duvidar de nossa salvação, sabendo como o nosso Salvador se fez nosso alimento nesta vida, para que nos seja facilitado a eterna vida no Céu?44

Por vezes deixo-me levar pelo desalento e vou cismando, – QUEM SABE SE CONSEGUIREI SALVAR-ME?

Mas agora vou reagir, esperando firmemente em Vós, ó meu Deus Sacramentado,45 pois que para garantir-me o galardão da eternidade me deixastes como caução, não somente os vossos méritos, mas todo o vosso Ser, toda a vossa Pessoa.46

Sejam pois, ó meu Jesus, tributados louvores, bênçãos e ações de graças, a vossa amargosa Paixão, da qual nasce a doce esperança do Céu, esperança sancionada e confirmada na instituição do Santíssimo Sacramento. Atualmente não Vos vejo no esplendor da vossa Majestade; mas espero contemplar-Vos, quanto antes, face a face no Céu. Sim, sim, espero atingir aquela besta pátria, e é tal minha esperança, que nada me intimida em virtude daquele pão de eterna vida que me preparastes sobre o altar, para reconfortar-me nas tristezas, e sustentar-me nas lutas.47 O único temor que venha a falhar minha eterna salvação, pode nascer tão somente do meu descuido e desleixo em usar dos meios necessários que Vós tendes posto ao meu dispor, mas para este inconveniente, recorro ainda ao Vosso Sacramento do qual me virá, luz, auxílio e força.48

Propósito

Antes e depois da Santíssima Comunhão, habituar-me-ei a meditar um pouco sobre a Paixão de Nosso Senhor e tanto mais fervorosa e frutuosa será a comunhão, quanto mais penetrar no doloroso Mistério do amor de Jesus paciente.



5ª Meditação

Um outro motivo teve em vista Nosso Senhor Jesus Cristo ao instituir a Santíssima Eucaristia, sob as espécies de pão, antes que de qualquer outra substância alimentícia. O pão é feito de grãos de trigo amontoados, triturados, moídos, esfarinhados e juntamente amassados; querendo com isto simbolizar aquela união, paz e caridade que deve mediar entre os fiéis que a querem seguir.49 E por isso, nos preceitua, que antes de nos aproximarmos do altar, nos reconhecermos com os nossos irmãos,50 apreciando Ele sobretudo e todas as coisas, a caridade fraterna.

O mesmo nome de Comunhão o exprime e diz; visto como esta palavra além de significar a união entre Jesus e nossa alma, expressa também a união nossa com o nosso próximo;51 de maneira que verdadeiramente não comunga quem não se acha em pacífica união com todos.52

Um Mistério de caridade fraterna é a Santíssima Eucaristia;53 e é nesta caridade que principalmente consiste a substância e o âmago do Cristianismo.54

Mas, como sem humildade, a caridade é uma casa sem alicerces, eis que o Divino Mestre nos dá na Eucaristia um exemplo também de profunda humildade. Grande, intraduzível e infinita fora sua humildade na Encarnação, quando restringiu, enclausurou nos augustos confins do homem, aquela Divindade que a amplidão dos Céus não pode conter.55

Mas, que dizer em face deste assombro de humildade em que o Unigênito do Pai, esconde e restringe além da Divindade a própria humanidade sob aparências de pouco pão e no breve círculo de uma Hóstia? Cheios de admiração, contemplemos o Homem-Deus feito alimento dos homens.56 Aquele Verbo Divino que nas fulgurâncias da glória, apascenta os Anjos, não pode rebaixar-Se mais do que fez, após ter-Se transformado em comida dos filhos de Adão.57

Com que profunda e sincera humildade devo pois dizer por ocasião da Sagrada Comunhão: DOMINE NON SUM DIGNUS, reconhecendo-me indigníssimo de receber-Vos, ó meu Deus!

Minha indignidade em face da vossa humildade aumenta ainda mais, porquanto sendo Vós Deus infinito, ocultais vossa grandeza nos véus do Sacramento, enquanto eu criatura vil e mesquinha, amo tanto e ardorosamente desejo aparecer, ser conhecido e estimado. Quereria imitar-Vos humilhando-me, mas como pode o nada abaixar-se além de seu nada?58 Ah! Meu Jesus, que no Santíssimo Sacramento desprendeis raios de humildade e caridade por toda parte,59 comunicai-me ao menos o tanto de humildade que me é preciso para conservar a caridade com o meu próximo.

Eu confesso minhas faltas passadas, declarando não ter devidamente praticado a caridade com o meu próximo, por causa do meu grande orgulho, perdoai-me, Senhor, e valei-me com Vossa graça. Neste momento ofereço-Vos meu coração, rogando-Vos o transformeis de tal maneira, que doravante ele Vos ame muito e ao próximo por vosso amor.60

Propósito

Antes e depois da Comunhão, entreter-me-ei em atos de humildade, reconhecendo a miserabilíssima coisa que eu sou, e em atos de caridade propondo nunca mais e em hipótese alguma, perturbar a paz entre irmãos.


________________________

Fonte: Pe. Caetano Maria de Bergamo, O.F.M.Cap., “Pensamentos e Afetos sobre a Paixão de Jesus Cristo para cada dia do ano – Extraídos da Sagrada Escritura e dos Santos Padres”, Vol. 1, Caps. XXXII-XXXVI, pp. 84-96; Tradução de Frei Marcellino de Milão, O.F.M.Cap.; Escola Typographica Salesiana, Bahia, 1933.

1.  D. Bonav., Medit. Vit Chr., v. 73.

2.  I Cor., 11, 23; D. Greg., lib. 2 Mor., cap. 24.

3.  D. Chrysost., hom. 59 in Jo.

4.  Jo., 6, 57.

5.  Conc., Trid., sess. 13, c. 2.

6.  Matth., 28, 20; Euseb., Emiss., hom. 3 in dedic. Eccles.

7.  D. Bonav., Medit. Cap. 73.

8.  Cânt., 8, 7.

9.  Rom., 8, 35.39.

10.  D. Aug., Manual., c. 11.

11.  Idiot., de div. am., cap. 11.

12.  Luc., 6, 27.

13.  Jo., 13, 1.

14.  Christ. Durthm., in Matth. 26.

15.  D. Aug., epist. 118 ad Januar.

16.  Jo., 3, 16; Rom., 8, 32.

17.  D. Bonav., Medit. Vit. Chr. Cap. 73.

18.  Jo., 13, 3; D. Greg., lib. 2 Mor., cap. 24.

19.  D. Chrysost., hom. 69 in Jo.

20.  D. Chrysost. Hom. 48 in Jo.

21.  Job 7, 17.

22.  Christ., Druthm., in Matth. 26.

23.  Psalm., 115, 12.

24.  Idiot., Cont. Div. am., cap. 10.

25.  Psalm., 109, 4; Gên., 14, 18.

26.  D. Cypr., serm., in coena Dom.

27.  Eccles., in com. Missae.

28.  Matth., 26, 26.

29.  Matth., 26, 27.

30.  D. Ambr., de sacram., 1, 4, v. 4.

31.  Jo., 6, 52.

32.  D. Damasc., 1, 4, fid., Orthod., c. 14.

33.  D. Cypr., serm. De coena Dom.

34.  Is., 45, 15; Eccle., in seq., missae corp. Chr.

35.  D. Bonav., Medit., vit. Chr. Cap. 73.

36.  Luc., 17, 5; D. Aug., Manual., c. 11.

37.  D. Th., opusc., 57.

38.  Jo., 12, 24.

39.  Is., 53, 5.

40.  D. Chrysost., hom. 83 in Matth.

41.  I Cor., 11, 26.

42.  D. Chrysost., hom. 66 in Matth.

43.  Eccles., in vespr. Corp. Chr.

44.  Jo., 6, 56.58.

45.  Psalm., 41, 12.

46.  D. Chrysost., hom. 61 ad pop.

47.  Job 19, 27; Psalm., 22, 5.

48.  Eccles., in sequ. Missae.

49.  D. Aug., tract., 27 in Jo.

50.  Matth., 5, 23.

51.  D. Chrysost., hom. 24 in 1 Cor.

52.  D. Hieron., epist. 62 ad Theoph.

53.  D. Aug., in ps. 21.

54.  D. Cypr., serm. De coena Dom.

55.  Philip., 2, 6.

56.  D. Aug., serm. 127 de temp.

57.  Psalm., 77, 25; D. Aug., in ps., 33.

58.  D. Cirill., atex, in Jo., 13.

59.  D. Aug., serm. 127 de temp.; D. Aug., lib. 7 Conf., cap. 18.

60.  Idiot., de div. am., cap. 30.


NOSSO SENHOR JESUS CRISTO, PREPARA-SE PARA CELEBRAR, SUA ÚLTIMA PÁSCOA.


1ª Meditação

Nosso Senhor Jesus Cristo timbrou sempre em observar fielmente a lei mosaica até nas suas minudências,1 coerente consigo mesmo quer agora celebrar o rito pascoal embora Ele visse, através das cerimônias judaicas, uma outra páscoa de maior glória à Deus e maior vantagem a nós.

Consistia a Páscoa dos hebreus, em comemorar a passagem do povo de Deus da Escravidão de Faraó para a liberdade; enquanto para nós significa, a passagem do pecado à graça, da pena à glória.2 A páscoa, portanto, tão desejada pelo Salvador da nossa salvação eterna,3 e como para Ele celebrar a páscoa é sinônimo de morte,4 é-lhe, todavia, mui cara havendo dela falado frequentes vezes e sempre com desejo ardentíssimo.5

Os discípulos, portanto, atendendo aos desejos do Divino Mestre, puseram-se em movimento para fazer os preparativos como lhes fora ordenado.6 E qual será a páscoa que eu também devo desejar e com diligente solicitude aparelhar-me a celebrar? Ó minha alma, se a palavra páscoa significa passagem,7 a que Deus te manda celebrar será esta, que tu passes do amor desregrado que tens às coisas terrenas e caducas ao amor das celestiais e eternas.8

Feliz Páscoa para nós, se estamos resolvidos a dar tal passo! Eia, sus! Para que demoras inúteis e delongas perigosas? Passemos generosamente da tibieza ao fervor, da vaidade à verdade, da vida mundana à uma vida estritamente cristã.9

Eis-me aqui, Senhor, pronto a aderir às vossas inspirações e agradecendo-Vos o amor generoso porque ides celebrar páscoa tão dolorosa, espontaneamente resolvo imitar-Vos, celebrando eu também uma páscoa salutar mediante a reforma radical de minha vida. Bendita seja vossa misericórdia que dignou-se instruir e iluminar minha alma, surda e cega.10 Envergonho-me arrependido das vãs e torpes diversões nas quais prodigamente desperdicei um tempo tão precioso.11 De grande amargura transborda meu coração em refletir na troca infeliz que fiz, deixando-Vos à margem, imensa e inefável doçura!12 Já não serei o que fui. Adeus ó mundo, nas tuas orgulhosas máximas; adeus ó carne, nos teus bramidos culposos; adeus ó Demônio, nas tuas falazes lisonjas e desmentidas promessas! Deus, alma, eternidade, doravante serão estes os meus pensamentos e afetos.

Mas posso eu formular propósitos com tamanha franqueza, eu que já dei tantas provas de lamentável instabilidade? Ah, meu Jesus, se conseguir fazer a páscoa, quebrando as algemas das paixões que me escravizam, adquirindo assim a liberdade dos vossos eleitos, vossa será toda a glória, porque efeito daquela graça que me foi por Vós merecida e que eu de novo confiadamente peço pelos vossos padecimentos.

Propósito

É preciso me convencer de que tenho inadiável necessidade de reformar minha vida tíbia e relaxada. Usufruirei eficazmente da Paixão do Senhor, cujo Mistério é representado na última ceia, se, deveras mudar de vida.



2ª Meditação

Sabendo os Apóstolos da solicitude que tem o Divino Mestre por celebrar a próxima páscoa, perguntam-Lhe na manhã de quinta-feira Santa, onde quer que se prepare a ceia para o sacrifício do cordeiro;13 e Jesus para se conformar com a lei que preceitua não se celebre a páscoa senão na Cidade Santa,14 escolhe à Pedro e a João, e, é o discípulo amante e o discípulo amado,15 e dá-lhe instruções para que procurem em certa rua, à um certo homem e assim lhe falem da parte d'Ele: “A hora da minha partida está a chegar; quero celebrar a páscoa em tua casa”.16 Os dois Apóstolos obedecem; vão, encontram, falam e, em dois tempos, tudo está disposto e preparado.17

Em primeiro lugar, me será útil refletir como Nosso Senhor Jesus Cristo, o Soberano do Céu e da terra tenha-se por nosso amor empobrecido, a ponto de não possuir em Jerusalém, nem cômodo nem vivenda, precisando da casa alheia para celebrar a páscoa.18

Já tinha dito que as raposas têm suas covas e as aves seus ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça.19 Grande confusão para mim tão agarrado aos meus cômodos e de tal maneira sensível, que rompe em queixumes e lamentos, toda vez que me falta qualquer bagatela. Pobreza de espírito, desprendimento de todas as afeições, tão necessário para quem aspira à fruição dos bens celestes, onde estás? Certamente não te acho dentro de mim! Em segundo lugar, deve considerar-se a honra de que é alvo o humilde e desconhecido dono da casa, escolhida por Nosso Senhor, como lugar próprio para celebração dos Mistérios mais altos e sublimes que jamais se tenham oferecido sob a face da terra, coligindo daí o grande amor que Jesus tem aos humildes e o seu cuidado em exaltá-los.=

Não se deve, porém, omitir uma terceira reflexão, e é a pronta e heroica obediência do proprietário do Cenáculo, o qual sabendo, pelos públicos editais,20 das perseguições e tramas urdidas pelos primazes da Sinagoga contra a Pessoa do Divino Mestre, não se retrai contudo diante do pedido; mas embora corra risco sua segurança pessoal, concede generosamente hospedagem a Jesus, objeto das iras dos poderosos da terra.21

O amor misericordioso de Jesus aproxima-se muitas vezes também de mim e segreda-me ao coração palavras dulcíssimas, pedindo-me permissão para entrar na casa de minha alma e aí poder celebrar a páscoa e operar para mim minha santificação. Que grande honra que o Filho do Altíssimo se digne lembrar-se de mim e queira favorecer-me com sua visita?22 Se é do vosso agrado, vinde com toda liberdade, ó Senhor! A casa com seus três aposentos: memória, intelecto e vontade, está ao vosso inteiro dispor, reconhecendo, porém, que ela não é digna de vossa presença, rogo-Vos a embelezeis enriquecendo-a de santas virtudes. Sim, vinde, meu Jesus; eu Vos espero. Cedendo-Vos meu coração e dando-Vos nele guarida, sei que vou sofrer perseguições23 do Demônio, do mundo, e de minha própria humanidade rebelde, mas nada temo, estribado em vossos auxílios.24

Propósito

Exercitarei uma vigilância rigorosa moderando as inclinações exageradas que tenho às coisas do mundo; lembrando-me que para engajar-me no exército de Jesus, cumpre combater os humanos respeitos e desprezar as prudências que cheiram à carne.



3ª Meditação

Não é a primeira vez que Jesus celebra a páscoa, havendo por costume realizar todos os anos, com pontualidade rigorosa, e com afetos dignos do seu Coração Santíssimo, esta cerimônia simbólica, que Lhe lembrava o sacrifício real de sua Pessoa a oferecer-se mais tarde na Cruz.25

Nesta última, porém, na qual tem seu ponto final todas as figuras e símbolos, compenetra-Se de um profundo recolhimento e dá começo ao sagrado rito com desusada solenidade. O cordeiro pascal seguindo as prescrições legais, é por Ele sacrificado na tarde da quinta-feira Santa;26 e é justamente as primeiras horas desta mesma noite que se dá sua captura, podendo considerar-se aquela noite como o prólogo do lúgubre drama de sua Paixão, que terá seu desfecho final na Crucificação e Morte.27

Acompanhemos, com devota atenção em todas as suas fases o banquete presidido pelo Salvador e não ficará nossa alma em jejum.28 Que pensamentos e afetos perpassam na mente e no Coração do Divino Mestre ao contemplar sobre a mesa o cordeiro assado; ao ter de cortá-lo em pedaços e reparti-lo entre os Apóstolos,29 e ao lembrar-Se de que tudo aquilo não passa de uma pálida figura da cruenta tragédia de que será expectadora amanhã toda Jerusalém no alto ensanguentado do Calvário?30

Nunca os séculos presenciariam, nem nunca presenciarão semelhante conúbio, vendo colocadas face à face a sombra e a luz, a figura e a verdade, o símbolo e a sua realidade.31

Ao contemplar o cordeiro, memorial dos grandes prodígios operados por Deus para libertar do Egito o povo escolhido, Jesus pensa que chegou a hora de voltar ao Seio do Pai querido, pois que, páscoa para Ele é a passagem deste vale de lágrimas para o Céu, sua pátria, desde a eternidade.32

Ele vai, portanto, fechar a porta do Velho Testamento e abrir a Nova Era de paz e de amor; vai pôr um termo ao período das figuras para iniciar a fase das realidades, vai enxertar sobre o tronco da lei mosaica o rebento viçoso da Nova Lei; já não sendo mais tempo de se imolarem animais à Divindade, imolando-Se daqui em diante o verdadeiro Cordeiro que tira os pecados do mundo. Jesus implora ao Altíssimo se digne acolher o Novo Sacrifício, e, assim como pelo passado, não dedignara-se aceitar em holocausto os cordeiros, agora seja Sua Divina Majestade servida, receber a oblação que faz de Si mesmo, pela salvação do mundo.33

Que ações de graças Vos renderei, ó Eterno Pai,34 por haverdes consentido que eu nascesse em uma terra banhada pela luz de vossa fé, santificada pela vossa lei e onde continuamente se Vos oferece a Hóstia Santa do Vosso Unigênito Filho?

Eu também, Senhor, vo-Lo ofereço em expiação das minhas culpas, unindo aqueles sentimentos que Ele teve ao banquete da última páscoa, quando generosamente se interpôs Mediador entre as dívidas insolúveis dos homens e a vossa Justiça. Ah! Senhor! Nada poderia oferecer-Vos que seja ou mais precioso, ou mais digno e aceitável aos vossos olhos, do que a Humanidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, única oblação imaculada, única espiral de incenso que exala perfumes que Vos sejam agradáveis. É, pois, em nome desta Vítima que Vos peço perdoeis minhas fragilidades,35 e é apoiado nos merecimentos deste Cordeiro, que eu espero tudo de vossa misericórdia.36

Encoberto, pois, nas dobras da túnica imaculada do Vosso Unigênito, a Vós me apresento, ó Pai que estás no Céu, esperando a remissão de minhas culpas, esperando a graça e a glória, esperando, enfim, não ser iludido em minhas esperanças.

Propósito

Habituar-me-ei à oferecer ao Eterno Pai a Pessoa adorável de Jesus, como propiciação copiosa, dizendo com São João Batista: “Eis o Cordeiro de Deus; eis Aquele que tira os pecados do mundo”.37



4ª Meditação

Quando nos está iminente alguma contrariedade vultuosa, perturbamo-nos e, por vezes chegamos a nos irritar.

Não é assim que se dá com Nosso Senhor Jesus Cristo.

Ele sabe que está mui próximo de sua Paixão, da qual O separam apenas poucas horas; e, apesar disto, seu espírito se conserva numa tranquilidade imperturbável, dando-nos nesta sua atitude a prova de que é verdadeiro Filho de Deus e Salvador do mundo; não recuando, mas indo encontrar a morte com intrepidez.38

Como, um pai prestes a empreender uma longa viagem, dirige aos filhinhos palavras de despedida repassadas da maior ternura e incendido afeto, assim o amável Redentor, fala aos Apóstolos, neste último banquete, com acentuada doçura e fundas saudades.39

Claramente lhes revela o que Lhe vai acontecer nesta mesma noite, a fim de que a surpresa não os abata, e o imprevisto não os desalente,40 mas fiquem certos de que ninguém O obriga a sofrer e morrer, senão sua livre e espontânea vontade.41

Explana-lhes o Mistério da Redenção que iniciada com a pregação de sua doutrina, reforçada pelos milagres, vai ter o selo final com a Paixão e a Morte.42

Em seguida, como que expandindo-se, abre-lhes seu Coração e com acesso de transporte assim lhes diz: “Com imenso ardor tenho desejado celebrar esta páscoa convosco,43 e a páscoa deste ano é verdadeiramente a minha, e que me é mais cara,44 porque dela depende a salvação de todos os filhos de Adão.45

Pesquisemos donde nasce em Nosso Senhor Jesus Cristo o desejo tão veemente de celebrar esta páscoa.

Nasce o desejo do amor; e deve-se inferir ser este bem grande, se produz um desejo tão ardente. Sim, como mãe carinhosa nesta última hora Ele pensa em amar o filho, a Igreja,46 que vai ficar só no mundo, à mercê dos eventos, entregue as contingências do tempo, frente a frente aos perseguidores que lhe moverão encarniçada guerra.47

Ó Salvador caridoso, se do imenso desejo que tendes de ver realizado minha santificação e garantida minha salvação, eu tivesse uma parcela ao menos, quão diversa seria a conduta de minha vida e quanto maior zelo sentiria para minha perfeição! Quisera ser bom, e ajuntar todas as virtudes possíveis; quisera atingir o mais alto grau da santidade; sim, quisera-o, mas… o meu desejo é como o vai e vem das ondas, efeito de uma vontade enfraquecida.

Quem, deveras quer uma coisa, quer também todos os meios que a ela conduzem, envidando todos os esforços para consegui-la.48 Mas eu passo os dias numa sonolência inexplicável; cruzo os braços, e enquanto rapidamente declina a minha juventude e vem se aproximando a tarde de minha existência, reparo que estou de mãos vazias.

Acendei em mim, ó bom Jesus, o vosso amor e surgirá em meu coração o desejo de fazer-Vos o gosto em tudo aquilo que Vos apraz. Quisera agradar-Vos, mas minha fraca vontade é por demais instável. A Vós pertence, Senhor, torná-la forte na intenção e eficaz na execução dos seus deveres, de sorte que me torne santo nesta e salvo eternamente na outra vida.49

Propósito

Assim como Nosso Senhor Jesus Cristo desejou ardentemente sua Paixão por meu amor; assim eu também, por amor Dele, excitarei em mim o desejo de meditá-la e imitá-la, consistindo nisto a medula da santidade e a consumação do último fim.


____________________________

Fonte: Pe. Caetano Maria de Bergamo, O.F.M.Cap., “Pensamentos e Afetos sobre a Paixão de Jesus Cristo para cada dia do ano – Extraídos da Sagrada Escritura e dos Santos Padres”, Vol. 1, Caps. IX-XXII, pp. 48-59; Tradução de Frei Marcellino de Milão, O.F.M.Cap.; Escola Typographica Salesiana, Bahia, 1933.

1.  Matth., 5, 18; D. Chrysost., hom. 82 in Matth.

2.  D. Remig., in Cat. d. Matth. 26.

3.  D. Chrysost., hom. 80 in Matth.

4.  Matth., 26, 2.

5.  D. Chrysost., in Cat. Luc., 22.

6.  Matth., 26, 18.

7.  Beda in Marc., 14.

8.  D. Hieron., in Matth., 26.

9.  D. Bern., serm. 1 die pasch. Aug., lib. 18.

10.  D. Aug., 1, 10 Conf., cap. 27.

11.  D. Aug., 1, 10 Conf., cap. 21.

12.  D. Aug., lib. 2 Conf., cap. I.

13.  Matth., 26, 17.

14.  Deut., 16, 5.

15.  Teoph., in Matth., 26.

16.  Matth., 26, 18.

17.  Marc., 14, 16.

18.  D. Chrysost., hom. 82 in Matth.; 2 Cor., 8, 9.

19.  Matth., 8, 20.

20.  Jo., 11, 56.

21.  D. Chrysost., hom. 82 in Matth.

22.  Psalm., 8, 5.

23.  2 Tim., 3, 12.

24.  Psalm., 17, 4.

25.  Euseb., Emiss. In Matth., 26.

26.  Matth., 26, 20; Exod., 12, 6.

27.  Beda in Luc., 22.

28.  D. Bonav., Medit. Vit. Chr., cap. 73.

29.  Idem, ibid.

30.  D. Remig., in Cat. d. Th. Matth. 26.

31.  Orig., tract. 15 in Matth.; Euthiam., in Matth. 26; Euseb., Emiss. In Matth. 26.

32.  Patrem., Jo., 13, 3.

33.  Heb., 10, 8.

34.  D. Bonav., Medit., cap. 73.

35.  D. Aug., Medit., cap. 5 et 6.

36.  Psalm., 4, 6 et 8.

37.  Jo., 1, 19.

38.  D. Athan., serm. De pass. Dom.

39.  Teoph., in Luc., 22.

40.  Orig., tract., 15 in Matth.

41.  D. Chrysost., hom. 82 in Jo.

42.  Orig., tract., 15 in Matth.

43.  Luc., 22, 15.

44.  Teoph., in Luc., 22.

45.  D. Chrysost., hom. 80 in Matth.

46.  Euseb., Emiss. In Luc. 22.

47.  Tit., Bostr., in Luc. 22.

48.  D. Th. 1, 2, qu. 20, art. 4.

49.  Idiot., Cont. Div. am., cap. 11.


quinta-feira, 25 de março de 2021

OS JUDEUS CONJURAM CONTRA NOSSO SENHOR JESUS CRISTO.

 


1ª Meditação

Havendo Nosso Senhor Jesus Cristo ressuscitado a Lázaro, e divulgando-se rapidamente a fama do milagre último dos que Ele operara e o mais extraordinariamente rumoroso, muitos judeus abalados, e convencidos, converteram-se, proclamando e reconhecendo à Jesus verdadeiro Filho de Deus.1 Tal movimento não escapou a alguns que de sobreaviso, espiavam todos os passos do Salvador; os quais mordidos pela inveja foram referir aos fariseus o crédito e o prestígio sempre crescente de Jesus.2

Estes, ouvindo tal, juntamente, com os maiorais e primares da Sinagoga, reuniram-se às pressas em casa de Caifáz a fim de urdir contra Ele a trama de uma vasta conspiração.3 Outras vezes têm procurado suprimi-Lo, agora, porém, acabam de assentar o plano definitivo de extermínio.4 Não lhes sendo possível negar, nem ocultar o milagre, fazem de um motivo de amor, de um documento de veneração para com Nosso Senhor Jesus Cristo, um argumento que os irrita,5 uma ocasião que os enfurece6 pelo ódio implacável que Lhe votam.

Oh! A que ponto chega uma paixão desenfreada! Este é um ponto da Paixão de Jesus Cristo, no qual devo meditar constantemente.

No juízo dos homens a causa da Paixão de Jesus foi uma cega paixão que se apoderou dos seus inimigos. No juízo de Deus, porém, qual teria sido a causa desta Paixão? Os meus pecados: pois todos estes pecados nascem sem dúvida alguma, das minhas mais secretas paixões, e sobretudo, daquela que domina todos os afetos do meu coração.

Na vida dos Santos lemos, que para se tornarem Santos tiveram que mortificar heroicamente estas paixões: destas mesmas paixões de que se serviram os Santos para se elevarem tanto, quantas vezes não me tenho servido também, com mais malícia do que os Judeus para Vos ofender, ó meu Deus? Vós me destes estas paixões, que são naturais ao homem, como um meio de me exercitar nas virtudes, eu pelo contrário, faço destas mesmas paixões, incentivos e instrumentos de vício. No meu coração coma na casa de Caifáz, reúno de vez em quando estas paixões para consultas, e finalmente, acabo por combinar contra Vós ofensas mortais. Meu Deus, que remédio ou que tábua de salvação haverá para mim?

Não vejo senão em Vós, Aquele que me pode ajudar: por isto, humildemente Vos peço, concedei-me esta graça, de que a Paixão de Jesus Cristo seja o molde ao qual devo submeter e moderar as minhas paixões, sujeitando-as à razão e à fé, obedecendo aos vossos Mandamentos. Devido às minhas inclinações viciosas, as minhas fraquezas são muitas e graves: mas a vossa sabedoria, a vossa misericórdia, a vossa graça onipotentes são para me ajudar e confortar no bem, mais do que as inclinações e tendências más em arrastar-me ao pecado.

Meu Deus, temo sobretudo a minha soberba, por não conhecê-la; porém, contra esta paixão, concedei-me luz e força, Vós que sois o Mestre da humildade.

Propósito

Pelo fato de não conhecer a minha soberba, devo examinar atentamente quais sejam os meus pensamentos, desejos, intenções, palavras e as mesmas obras que a mim, parecem virtuosas.



2ª Meditação

A paixão dominante que move os sacerdotes e fariseus a se enfurecerem contra Jesus Cristo é a inveja.7 Veem que a turba, admirando os milagres de Jesus, O segue: invejosos disto e mais ainda pelo fato de perderem a estima e o afeto do povo, como também as diminutas entradas que recolhiam, por mera inveja sustentada pela concupiscência8 e ambição, resolvem de pleno acordo reparar os prejuízos, tirando do mundo o Santo por excelência.9

Grande mal produz a inveja: arruinar as almas e com elas, todo o mundo!10 Não poupa nem sequer as pessoas de espírito; e por mais que disto se fale, nem por isso se remedeia. É tida geralmente como mal pequeno, e por isto, pouco temida e muitas vezes nem percebida; não obstante tudo isto, também nos arrasta insensivelmente para a nossa eterna perdição.

Examinemo-nos nos íntimos esconderijos da consciência e talvez aí encontremos esta paixão repelente, que semelhante à febre lenta nos estiola e nos consome. Na ocasião, em que ardorosamente desejo se ofereçam-me provas de estima e consideração; dá-se o caso de algum, igual ou a mim inferior merecer mais apreço; mais honras ou mais amor, sinto dentro de mim prazer ou tristeza? Em resumo, de todos os bens, quaisquer que sejam, de que é possuidor o meu irmão, sinto eu alegria e satisfação como se me pertencessem?11 A caridade assim me exige e a tanto me obriga; todo movimento do coração que se opõe à esta virtude é verdadeiro ato de inveja.

Ora, correndo assim as coisas, como te achas tu; ó alma minha, perante os olhos de Deus?

Tenho muito que recear, ó meu Deus, da perversão de meu coração; muitas vezes à vista do bem alheio me entristece e embora procure iludir-me julgando minha tristeza um efeito de zelo, quem me garante não seja antes um ato de inveja, tanto mais fina, quanto se me apresenta envolta no manto da virtude?

Vós vedes, Senhor, minhas viciosas paixões com a luz dos vossos olhos que penetram as dobras mais recônditas do coração, e apesar disso nenhum caso faço; não me lembro de acusá-las nem sequer esforço-me para enfraquecê-las.

Minha inveja cega-me, e, ó quanto sou infeliz!

Poderia ser santo pela caridade, alegrando-me com os bens alheios; mas quero antes pela inveja entristecer-me precipitando-me assim no abismo à imitação dos rancorosos judeus.12

Meu Deus, que nas Sagradas Escrituras ensinais ser a inveja um vício próprio do Demônio,13 que odeia e persegue o homem somente por causa do bem que Vós lhe fazeis,14 concedei-me o vosso auxílio para conhecer e combater sempre e em toda ocasião, vício tão mesquinho e tão asqueroso.15

Propósito

Nos meus exames quotidianos lançarei as vistas sobre a inveja e achando-me culpado, arrependido acusar-me-ei propondo estar sempre de atalaia nas ocasiões que me ocorrem resistindo aos seus primeiros botes.



3ª Meditação

Nesta reunião, os Pontífices e fariseus procuram motivos para condenar ao Divino Salvador, mas não encontrando outra base alegam os milagres por Ele operados, dizendo: Que fazemos deste homem que enche o mundo de fatos maravilhosos superiores à natureza humana?16

Lembram os cegos iluminados, os enfermos restabelecidos, os mortos restituídos à vida e muitos outros portentos conhecidos, operados em benefício do povo17 e todas estas provas em vez de convencê-los e induzi-los a reconhecer em Jesus o Messias preanunciado pelos Profetas18 os impelem a proclamar que Jesus deve morrer.19 Já se ouviu, porventura, ser-se condenado pelas boas obras?

Pois assim se procede com o Adorável Redentor, julgando-O réu pelos Seus milagres evidentes e incontestes.20

Observe-se a cegueira destes juízes.21 Desejavam e rogavam aos Céus que lhes enviassem o Messias;22 e após Sua vinda, cercado por todos os sinais que O tornam conhecido como tal, recusam-No, jogando furiosamente com todos os expedientes para eliminá-lO.23 Eis uma imagem de mim mesmo; desejo e suplico alcançar a humildade, a caridade, paciência e as demais virtudes que me são necessárias para minha eterna salvação, e quando Deus defere meus pedidos, oferecendo-me ocasiões, impulsos, auxílios para ser humilde, caridoso e paciente, resisto às inspirações e desprezo às moções internas, imitando nisto aqueles réprobos que aos divinos benefícios opõem ingratidão e rebeldia.24

Queriam os judeus um Messias Salvador, mas que os não prejudicasse em seus mundanos interesses nem contrariasse em seus apetites profanos; assim eu também desejara salvar-me, mas que isto não importasse no combate à minha concupiscência e às minhas propensões viciosas.

Que pensais de mim, ó meu Deus? Não sou por acaso semelhante aos judeus em querer um Salvador, que me salve a meu gosto? Que me conceda as virtudes sem obrigar-me a combater os vícios? Que me abra as portas do Céu, sem exigir de mim a violência indispensável para desapegar-me do amor-próprio e desprender-me do mundo? Meu Deus fazei que eu conheça a minha malícia, como é por Vós conhecida,25 a fim de que a despoje como se despe uma túnica de iniquidade e me revista da vestidura luminosa da vossa graça.

Sois Vós, Senhor, que me prevenis e me estimulais a dirigir-Vos esta oração.

Desprezareis Vós, quem se Vos apresenta com o vosso beneplácito e em vosso Nome?26

Pois bem, o que humildemente Vos rogo, é que das vossas graças e dos meios de salvação eu não venha abusar para minha condenação.

É impossível salvar-me a não ser trilhando os caminhos que me foram traçados pelo meu Salvador; estes eu seguirei, na certeza de que assim fazendo, estarei abraçado com meu Senhor Jesus Cristo. Ó Jesus, dos judeus reprovados, sede por mim amado, adorado, imitado.

Propósito

No tribunal divino não será aceita a desculpa de não ter praticado a virtude por ter-me faltado a graça.

A indolência e a desídia acusar-me-ão, e Deus não permita que, como servo infiel e preguiçoso, seja condenado aos castigos eternos.27



4ª Meditação

O motivo que os sacerdotes alegam contra Nosso Senhor Jesus Cristo, é que se O deixassem viver, todos abraçariam Sua doutrina, todos O seguiriam e com isto os Romanos viriam conquistar a nação, destruindo desta maneira a independência do povo judaico.28 Enquanto, porém, uns e outros vão exagerando as coisas, levanta-se o primaz dos políticos, Caifáz, o qual depois de tê-los acusados de bisbilhoteiros ignorantes, conclui dizendo, que o motivo pelo qual Jesus deve morrer, é que assim exige o interesse do povo e o bem público.29 Não é caso de olhar, diz Caifáz, nem para inocência, nem para justiça, nem para lei,30 mas cumpre fazer aquilo que mais vantagens nos oferece.

Com efeito, mal acaba de pronunciar tais palavras, todos rendem-se-lhe, aceitando o parecer dele; e assim sob a capa de especiosos pretextos estabelece-se a conjura fatal.31

Considere-se como nas deliberações tomadas contra Nosso Senhor Jesus Cristo põe-se à margem a consciência, põe-se de um lado o temor de Deus, olhando-se tão somente para os interesses e considerações humanas.32 Se eles tivessem estudado as profecias teriam chegado ao conhecimento da verdade, e reconheceriam em Jesus o vaticinado Messias; mas o apego que tem a vaidade faz com que O repudiem, conspirando contra Sua vida santíssima, vindo-Lhe daí a perda dos bens temporais e eternos.33

E não é o mesmo que a mim sucede? Quando uma malfadada paixão chega a dominar-me? Parece que só a razão me leva; e qualquer probabilidade, ainda que aparente, é para mim argumento decisivo pelo fato de favorecer-me gênio ou inclinação. Todas às vezes que peco, procuro tudo quanto pode acariciar minhas inclinações sensíveis, e estimando mais vantajoso quando uma teimosia, quando um capricho, ora um deleite, ora um interesse mesquinho, chego com isto a tramar propriamente contra a vida do Filho de Deus!

Eu amo-me demasiadamente, amando em excesso as comodidades e as satisfações da vida temporal e terrena, e sendo o amor-próprio o que me prende e cega, me é causa de todos os males.34 Que miséria é a minha levar para toda parte o meu maior inimigo, o amor de mim mesmo?35

Mas onde está a razão, onde a fé, ó meu Deus, em apreciar mais um prazer vão e fugaz do que a vossa santíssima graça e minha eterna salvação?

Que me aproveitará todo o gozo terreno, se para usufruí-lo, foi necessário a vossa ofensa e o prejuízo de minha alma?36 Julgaria, porventura, preferível gozar aqui durante os fugitivos momentos do tempo e sofrer além os imutáveis tormentos da eternidade?

Dai-me, ó Senhor, um espírito reto,37 prudente e forte para que saiba pautar todos os atos de minha vida à luz desta grande verdade: que não há neste mundo nem coisa melhor, nem mais conveniente para minha felicidade senão Vós, meu Sumo Bem e meu tudo no tempo e na eternidade.38

Propósito

Examinarei quais sejam as coisas a que tenho apego ou aversão, sendo-me fácil neste assunto deixar-me enganar. Deus julgará a teologia, que eu concebo para meu uso e consumo.



5ª Meditação

Aquele ajuntamento dos chefes da Sinagoga, é na verdade, um conciliábulo de maldades,39 forjadas contra a vida do Supremo Senhor e Salvador do mundo.40

Não obstante isto, é preciso ponderar que nenhuma determinação foi aí tomada que não fosse antes decretada no Céu.41

Caifáz afirmou ser necessário a morte de um homem para salvação de todos, e já o mesmo fora estabelecido nos eternos desígnios de Deus, pois que, havendo todos os filhos de Adão sido condenados a morte, outro meio de salvação não havia senão o sacrifício de um Homem-Deus oferecido em resgate à Divina Justiça.42

Caifáz, pois, asseverando o mesmo, ainda que com intenções perversas, outra coisa não fez senão confirmar os altos decretos do Divino Salvador, concorrendo, ainda que, com malícia, para a execução daquele plano que fora traçado desde a eternidade.43

E agora, alma minha, reflete, como Jesus esteja a par de tudo, quer do que se trama contra Ele no mundo, quer do que se estabeleceu no Céu; e, ó, com que docilidade, humildemente se submete, adorando a Justiça de Deus na injustiça dos homens, exercitando-se assim nas mais sublimes virtudes.44 É este um exemplo assinalado digno de toda minha atenção. Frequentes vezes me queixo e me entristeço por falarem de mim ou não me terem na devida conta: e quando sou visitado por alguma contrariedade, perturbo-me e desanimo.

Donde procede isto? Certamente da vida minha distraída e dissipada, esquecendo-me de que tudo que acontece, sucede por uma justa e investigável disposição de Deus.45

Meu Deus, dominador da virtude, esculpi profundamente em minha alma esta virtude da fé, serem sempre adoráveis e amáveis a vossa justiça e a vossa misericórdia em tudo aquilo que dispõem.46

Proponho humilhar-me sob a vossa mão onipotente e em tudo docilmente submeter-me. Assim intenciono e assim quero fazer, receando apenas que a minha conhecida inconstância me seja de estorvo a perseverar.

Uma triste experiência, com efeito, me convence da minha instabilidade, mas em Vós confio e na força dos vossos auxílios.

Nas coisas que me acontecerem ou desagradáveis ao gênio ou pesadas à natureza, fazei que as reconheça como vindas de Vós, para que as receba com humildade e reverência.47 Fazei que firmemente creia serem os contratempos mensageiros da vossa misericórdia para minha purificação48 e concedei-me que eu confie sempre em Vós tão inabalavelmente, ainda que isto me custe as agonias e a própria vida.49

Propósito

À imitação de Nosso Senhor Jesus Cristo saberei tirar o bem do mal, amando a quem me odeia, orando por quem me ofende e bendizendo ao Senhor nas contrariedades.50


____________________________________

Fonte: Pe. Caetano Maria de Bergamo, O.F.M.Cap., “Pensamentos e Afetos sobre a Paixão de Jesus Cristo para cada dia do ano – Extraídos da Sagrada Escritura e dos Santos Padres”, Vol. 1, Caps. III-VII, pp. 6-18; Tradução de Frei Marcellino de Milão, O.F.M.Cap.; Escola Typographica Salesiana, Bahia, 1933.

1.  Theoph. In Jo. 12.

2.  Jo. 11, 45.

3.  Jo. 11, 46; Matth. 26, 4.

4.  Jo. 5, 18 et 7, 2; D. Chrysost., hom. 64. in Jo.

5.  Theoph. In Jo. 11.

6.  D. Chrysost., hom. 64. in Jo.

7.  D. Bonav., medit. Chr., cap. 69.

8.  Jac., 4, 1; Jac., 1, 14.

9.  D. Cypr., tract. De invidia.

10.  D. Chrysost., hom. 64. in Jo.

11.  Rom. 12, 15; I Cor. 12, 26.

12.  D. Cypr., loc. cit.

13.  Sap., 2, 42.

14.  D. Chrysost., hom. 17. in Jo.

15.  D. Aug., lib. Medit., cap. I.

16.  Jo. 11, 47.

17.  Luc., 6, 19; Act., 10, 38.

18.  Is., 55, 5; Dan., 6, 27.

19.  Jer., 11, 19.

20.  Orig., in Jo. 11; Theoph., in Jo., 11.

21.  Orig., in Jo. 11.

22.  Agg., 2, 8; Is., 45, 8.

23.  D. Aug., in psalm., 63.

24.  Deut., 9, 23; Jo., 24, 13; Act., 7, 51.

25.  D. Aug., lib. 10. Conf., Cap. I.

26.  D. Aug., lib. 13. Conf., cap. I.

27.  Matth., 25, 26.

28.  Jo., 11, 48.

29.  Jo., 11, 49.

30.  Dan., 13, 52; Êxod., 23, 7.

31.  Orig., in Jo. 11; Eutym., in Jo., 11.

32.  D. Chrysost., hom. 80. in Matth., seu Op. Imperf.

33.  D. Aug., tract. 49 in Jo.

34.  Idiot., contempl. D. Ambr., cap. 31.

35.  D. Cypr., tract., de zelo et liv.

36.  Matth., 16, 26.

37.  Psalm., 50, 12; Psalm., 72, 25.

38.  Psalm., 74, 3.

39.  Psalm., 21, 17; Psalm., 30.

40.  Psalm., 2, 2.

41.  Act., 4, 27.

42.  D. Basil., in psalm., 28.

43.  Act., 2, 23.

44.  Psalm., 39, 9; Psalm., 79, 5 etc.

45.  Sap., 8, 1; Am., 3, 6.

46.  Sap., 12, 13; Sap., 15, 1.

47.  I Petr., 5, 6; 2 Reg., 16, 10.

48.  2 Reg., 16, 12.

49.  Job., 13, 15.

50.  Job., 1, 2.


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