BLOG CATÓLICO PARA OS CATÓLICOS.

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"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

sábado, 21 de janeiro de 2023

SANTA INÊS, VIRGEM E MÁRTIR.


Inês [Agnes] vem de agnus, “cordeiro”, porque ela foi doce e humilde como um cordeiro. Ou vem do grego agnos, “piedoso”, pois foi cheia de piedade e de misericórdia. Ou vem de agnoscendo, “conhecendo”, porque conheceu o caminho da verdade. Segundo Agostinho, a verdade opõe-se à vaidade, à falsidade e à irresolução, três vícios que por sua virtude Inês soube evitar.

1. Inês, virgem de elevadíssima prudência, com a idade de treze anos sofreu a morte e ganhou a vida, segundo testemunho de Ambrósio, que escreveu seu martírio. Contando-se apenas seus anos, era uma criança, mas madura de espírito; de corpo era jovem, mas de alma era velha; de rosto era bela, porém, mais bela ainda por sua fé.

Um dia, ao voltar da escola, encontrou o filho do prefeito, que ficou apaixonado por ela. Ele prometeu pedrarias e riquezas imensas se casasse com ele. Inês respondeu-lhe: Afaste-se de mim, lar de pecado, alimento de crime, pasto de morte, pois já estou prometida a outro amado”. E começou a fazer o elogio desse amante, desse esposo, que tinha as cinco qualidades exigidas pelas esposas: nobreza de raça, beleza deslumbrante, abundância de riquezas, coragem e força, amor verdadeiro. E explicou:



Amo alguém que é muito mais nobre e de melhor linhagem que você. A Mãe d’Ele é Virgem, seu Pai gerou-O sem mulher, tem Anjos por servidores, Sua beleza é admirada pelo sol e pela lua, Suas riquezas nunca diminuem, são inesgotáveis. As emanações de Sua Pessoa ressuscitam os mortos, Seu toque fortalece os enfermos. Quando O amo, sou casta, quando me aproximo d’Ele, sou pura, quando O abraço, sou virgem. Diga-me, você conhece alguém de generosidade mais eminente, de força mais forte, de aspecto mais belo, de amor mais suave e mais cheio de graça?



Em seguida, ela descreveu os cinco benefícios que seu Esposo concedia a ela e a Suas outras esposas: Ele se compromete com o anel da fé, veste-as e enfeita-as com uma variedade infinita de virtudes, marca-as com o Sangue da sua Paixão, prende-as pelo laço do amor e enriquece-as com tesouros da glória celeste. E acrescentou: “Aquele que se comprometeu comigo pelo anel que pôs em minha mão direita, rodeou meu pescoço de pedras preciosas, vestiu-me com um manto tecido de ouro, adornou-me com prodigiosa quantidade de joias, imprimiu um sinal em meu rosto para que eu não tome nenhum outro amante que não Ele, embelezou meu rosto com o seu Sangue. Seus castos abraços já me estreitaram, seu Corpo já se uniu ao meu, Ele me mostrou tesouros incomparáveis que prometeu me dar se eu Lhe for fiel para sempre”.

Ao ouvir isso o rapaz ficou fora de si, adoeceu de amor, passou a soltar longos suspiros. Seu pai fez a jovem virgem ficar sabendo disso e ao ouvi-la garantir que não podia violar a aliança jurada a seu primeiro Esposo, o prefeito procurou saber quem era esse Esposo que Inês se gabava de ter. Alguém lhe assegurou que o Esposo de que ela falava era Cristo, e então o prefeito quis dissuadi-la, primeiro por doces palavras, depois pelo temor. Então Inês disse: “O que você quiser fazer, faça, mas não poderá conseguir o que exige”. E ria tanto de suas lisonjas quanto de suas ameaças. O prefeito disse-lhe: “Escolha entre duas coisas, se sua virgindade lhe é cara, sacrifique à deusa Vesta1 e junte-se às suas virgens, ou então assuma o ofício de meretriz”. Ora, como Inês era nobre, ele não podia condená-la assim, por isso, alegou contra ela sua qualidade de cristã. Mas Inês respondeu: “Não sacrificarei aos seus deuses, como tampouco serei maculada pelas ações infames de quem quer que seja, porque tenho como guardião de meu corpo um Anjo do Senhor”.



O prefeito ordenou então que a despissem e a levassem nua ao lupanar.2 Mas o Senhor tornou seus cabelos tão espessos que ela ficou mais coberta por eles do que por sua roupa. E quando entrou naquele lugar infame, encontrou um Anjo do Senhor que a esperava e que encheu o quarto de uma claridade extraordinária, ao mesmo tempo que a cobria com uma túnica de resplandecente brancura. O lugar de prostituição tornou-se assim um lugar de oração, e todo homem saía de lá mais puro do que entrava, graças a essa luz imensa que revestia a todos. Ora, o filho do prefeito foi ao lupanar com outros jovens e instou-os a entrar primeiro. Mal lá puseram os pés, saíram cheios de compunção, assustados com o milagre. Ele os chamou de miseráveis e entrou furioso, mas quando quis se aproximar de Inês, a luz precipitou-se sobre ele, e como não tinha prestado homenagem a Deus, foi estrangulado pelo Diabo e expirou.



Diante desta notícia, o prefeito foi em prantos encontrar Inês e colher informações precisas sobre a causa da morte de seu filho. Inês disse: “Aquele cujas vontades ele queria executar apossou-se dele e o matou, enquanto seus companheiros, impressionados pelo milagre que viram, saíram sem sentir mal algum”. Disse o prefeito: “Saberemos que você não usou de artes mágicas se puder ressuscitá-lo”. Inês pôs-se a orar, o rapaz ressuscitou e pregou publicamente a fé em Cristo. Em razão disso, os sacerdotes dos templos excitavam o povo gritando: Levem essa maga, levem essa malfeitora que transforma os espíritos e perde os corações”. O prefeito, tendo visto aquele milagre, quis libertá-la, mas temendo a proscrição confiou-a a seu suplente e retirou-se triste por não poder salvá-la. O suplente, que se chamava Aspásio, mandou jogá-la numa grande fogueira, mas a chama, dividindo-se em duas, queimou o povo que estava em volta, sem atingir Inês. Aspásio mandou então enfiar uma espada na garganta dela. Foi assim que Cristo, seu Esposo fulgurante de brancura e de vermelhidão, sagrou-a Sua esposa e Sua Mártir. Crê-se que ela sofreu no tempo de Constantino, o Grande, que subiu ao trono no ano 309 do Senhor. Enquanto os cristãos e seus pais prestavam-lhe a última homenagem com alegria, os pagãos cobriam-nos de pedradas.



2. Emerenciana, sua irmã de leite, virgem cheia de santidade apesar de ainda catecúmena, estava ao lado do sepulcro de Inês debatendo com energia com os gentios, quando foi lapidada por eles. Imediatamente ocorreu um terremoto, surgiram relâmpagos e raios que mataram muitos pagãos. Os sobreviventes deixaram de incomodar os cristãos que queriam ir até o túmulo da virgem. O corpo de Emerenciana foi inumado ao lado do de Santa Inês. Oito dias depois, quando seus pais velavam junto ao túmulo, viram um coro de virgens em brilhantes trajes dourados, e no meio delas reconheceram a Bem-aventurada Inês, também ricamente vestida, e à sua direita encontrava-se um Cordeiro mais deslumbrante ainda. Ela lhes disse: “Não chorem minha sorte, ao contrário, rejubilem-se comigo e felicitem-me por eu ocupar um trono de luz com todas as que aqui estão”. Em lembrança dessa aparição, é que há uma segunda festa de Santa Inês.

3. Constância, filha de Constantino, estava coberta por uma lepra pavorosa, e quando soube dessa aparição foi ao túmulo de Inês, onde após ter rezado por muito tempo e adormecido, viu a Beata, que lhe disse: “Constância, age com constância, logo que você acreditar em Cristo será curada”. A essas palavras ela acordou, encontrando-se perfeitamente sadia. Recebeu então o Batismo e ergueu uma basílica sobre o corpo de Santa Inês, onde viveu na virgindade e reuniu à sua volta uma multidão de virgens que seguiram seu exemplo.



4. Um homem chamado Paulino, que exercia as funções do Sacerdócio na igreja de Santa Inês, experimentou certa vez violentas tentações da carne. Como não queria ofender a Deus, pediu ao Soberano Pontífice permissão para se casar. Vendo o Papa sua bondade e sua simplicidade, deu-lhe um anel no qual estava engastada uma esmeralda e ordenou-lhe que, em seu nome, pedisse a uma imagem da Bem-aventurada Inês pintada em sua igreja, permissão para desposá-la. Quando o Padre dirigia seu pedido à imagem, esta lhe estendeu o dedo anular e após receber o anel retirou a mão e livrou o Padre de suas tentações. Diz-se que o anel ainda continua no dedo da imagem. Mas em alguns textos há uma versão diferente deste episódio. Segundo ela, a igreja da Bem-aventurada Inês estava em ruínas, e o Papa disse a um Padre que queria lhe confiar uma esposa que ele deveria alimentar e da qual deveria cuidar. Para tanto entregou-lhe seu anel e ordenou-lhe que desposasse a imagem de Santa Inês, que de fato estendeu sua mão para receber o anel, confirmando assim o Casamento entre a imagem e o Padre encarregado de restaurar a igreja na qual se encontrava aquela imagem.

Eis o que diz Ambrósio daquela virgem em seu livro A Virgindade.3



Anciãos, rapazes, crianças, cantem todos loas a ela. Ninguém é mais louvável do que Aquele que pode ser louvado por todos. Tantas são as pessoas, tantos são seus panegiristas. Todos exaltam essa Mártir. Admirem todos como ela foi capaz de prestar testemunho de Deus quando ainda não podia ser senhora de si em razão de sua idade. Ela comportou-se de maneira a receber de Deus o que um homem não lhe teria confiado, porque o que está acima da natureza é obra do Autor da natureza. Com ela começou um novo gênero de martírio, pois ainda não estava preparada para o sofrimento e já estava madura para o triunfo. Ela mal podia combater e já era digna da coroa da vitória. Não estava na idade do juízo mas era mestra em virtude. Nenhuma esposa teria dirigido seus passos para o leito do Esposo da maneira como fez essa virgem, que se apresentou para o suplício feliz.



O mesmo Ambrósio diz: “Ao desprezar as vantagens de um nascimento ilustre, a Bem-aventurada Inês mereceu os esplendores do Céu; ao menosprezar o que é objeto do desejo dos homens, casou-se com o Rei Eterno; ao receber uma morte preciosa por aceitar Cristo, mereceu unir-se a Ele”.


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Fonte: Beato Jacopo de Varazze, Dominicano, Arcebispo de Gênova, “Legenda Áurea – Vidas de Santos”, Cap. 24 (Santa Inês), pp. 183-187. Tradução do latim por Hilário Franco Júnior, Companhia das Letras, Editora Schwarcz Ltda, São Paulo, 2003.

1.  Deusa de culto muito antigo, que parece ter sido introduzido em Roma já na época do fundador da cidade. Rômulo divindade do fogo doméstico, ela era considerada a mais casta das deusas, servida por sacerdotisas obrigatoriamente virgens, as vestais.

2.  Prostíbulo.

3.  Existe uma edição brasileira desta obra A Virgindade, trad. Monjas Beneditinas da Abadia de Santa Maria, Petrópolis, Vozes, 1980 (Os Padres da Igreja, vol. 2). A passagem aqui resumida por Jacopo de Varazze está no capítulo 2, pp. 32-34, dessa edição. Ambrósio com 43 referências nominais é o quinto autor mais citado por Jacopo de Varazze.


quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

SÃO SEBASTIÃO, MÁRTIR DA FÉ.


Sebastião vem de sequens, “seguinte”, beatitudo, “beatitude”, astín, “cidade”, e ana, “acima”, o que significa “aquele que seguiu a beatitude da cidade celeste e da glória eterna”. Segundo Agostinho, ele adquiriu tal beatitude com cinco moedas: com a pobreza obteve o reino; com a dor, a alegria; com o trabalho, o repouso; com a ignomínia, a glória; com a morte, a vida. O nome Sebastião também pode vir de basto, “sela”. Nesse caso, o soldado é Cristo, o cavalo a Igreja, e a sela Sebastião. Foi assim que Sebastião combateu pela Igreja e logrou superar muitos mártires. Ou Sebastião, significaria ainda “rodeado”, pois em vida esteve rodeado de mártires a quem reconfortava, e no martírio foi rodeado de flechas, como um porco-espinho.

1. Sebastião era um perfeito cristão, originário de Narbonne e cidadão de Milão. Foi tão querido pelos co-imperadores Diocleciano e Maximiano, que estes lhe deram o comando da primeira coorte1 e quiseram tê-lo constantemente a seu lado. Ele usava o traje militar com a única intenção de fortalecer o coração dos cristãos, que se debilitavam com as perseguições.

Quando os ilustres cidadãos Marceliano e Marcos, irmãos gêmeos, iam ser decapitados por sua fé em Cristo, seus pais vieram para convencê-los a renegar. A mãe, com a cabeça descoberta, as roupas rasgadas, desnudando os seios exclamou:

Ó queridos e doces filhos, sou presa de uma miséria inaudita e de uma dor intolerável. Ah, que desgraçada sou! Perco meus filhos, que correm por vontade própria para a morte! Se os inimigos os tomassem de mim, eu perseguiria esses raptores no meio de seus batalhões; se uma sentença os condenassem à masmorra, eu iria quebrar a prisão, ainda que morresse por isso. Mas hoje, aparece uma nova maneira de perecer: eles mesmos rogam ao verdugo que vibre seu golpe, desejam a vida apenas para perdê-la, convidam a morte a vir. Novo luto, nova miséria! Filhos ainda jovens entregam-se à morte, e pais infortunados, já velhos, são forçados a tudo presenciar.

Ela ainda falava, quando o pai, mais velho que a mãe, chegou carregado por seus serviçais. Com a cabeça coberta de cinzas, ele exclamava, olhando para o Céu:

Meus filhos entregam-se à morte; vim lhes dar adeus, e tudo que havia preparado para me sepultar, ó desgraçado que sou, empregarei para a sepultura de meus filhos. Ó meus filhos! Bengala da minha velhice, dupla chama do meu coração, por que amar a morte assim? Jovens que veem tudo isso, venham aqui chorar meus filhos. Pais que assistem esta cena, aproximem-se, impeçam-nos, não aceitem semelhante perversidade! Olhos meus, chorem até se apagar, para que eu não veja meus filhos decepados pela espada.

O pai acabava de falar assim, quando chegaram as esposas dos jovens, apresentando aos olhos deles seus filhos e dando gritos entremeados de uivos: “A quem vocês nos deixam entregues? Quais serão os mestres destas crianças? Quem ficará com suas grandes propriedades? Ai, vocês têm corações de ferro para desprezar seus pais, desdenhar seus amigos, rejeitar suas esposas, desconhecer seus filhos e entregar-se espontaneamente aos carrascos!”.

Ante tal espetáculo, os corações daqueles homens começaram a amolecer. São Sebastião estava presente, saiu da multidão e disse: “Fortíssimos soldados de Cristo, não percam uma coroa eterna deixando-se seduzir por miseráveis lamentos”. E dirigindo-se aos pais:

Nada temam, vocês não serão separados; eles vão para o Céu preparar para vocês moradas de deslumbrante beleza. Desde a origem do mundo esta vida não para de enganar os que esperam algo dela. Ela engana os que a buscam, ela ilude os que contam com ela, ela mente a todos. Esta vida ensina ao ladrão suas rapinas, ao colérico suas violências, ao mentiroso suas espertezas. É ela que comanda os crimes, que ordena as perversidades, que aconselha as injustiças. Mas os contratempos são efêmeros, e essa perseguição que agora sofremos, se é violenta hoje, amanhã terá desaparecido: uma hora a trouxe, uma hora vai levá-la. Mas as penas eternas renovam-se sem cessar, a vivacidade de suas chamas nunca diminui, para sempre punir. Estimulemos nosso amor ao martírio. Quando ele ocorre, o Diabo acredita obter uma vitória, mas não: quando captura, ele próprio é capturado; quando prende, ele é atado; quando vence, é vencido; quando tortura, é torturado; quando degola, é morto; quando insulta, é maldito.

Durante a quase uma hora em que o beato Sebastião assim falava, foi rodeado por uma grande luz vinda do Céu, e no meio desse esplendor ele parecia estar vestindo uma túnica de ofuscante brancura, ao mesmo tempo que era rodeado por sete Anjos deslumbrantes. Diante dele também apareceu um rapaz que o abençoou e disse: “Você sempre estará comigo”. Enquanto o Bem-aventurado Sebastião pregava, aproximou-se dele Zoé, mulher de Nicostrato, o carcereiro dos Santos. Ela se ajoelhou diante Sebastião e, como era muda, através de gestos pediu perdão pelos maus-tratos infligidos aos prisioneiros. Então Sebastião disse: “Se sou escravo de Cristo e tudo que disse é verdade, se essa mulher acredita em tudo que ouviu dos meus lábios, que Aquele que abriu a boca de seu Profeta Zacarias, abra sua boca”.



A essas palavras, a mulher exclamou: “Bendito seja o discurso de sua boca, e benditos sejam todos os que acreditam no que você disse. Vi um Anjo segurando diante de você um livro no qual estava escrito tudo o que falou”. Ouvindo isso, seu marido lançou-se aos pés de Sebastião pedindo-lhe que o perdoasse. Libertou então os mártires e pediu-lhes que fossem embora, mas eles responderam que não queriam perder a coroa a que tinham direito. Tanta graça e eficácia tinham sido concedidas pelo Senhor às palavras de Sebastião, que elas não apenas fortaleceram em Marceliano e Marcos a resolução de sofrer o martírio, como também converteram à fé o pai deles, Tranquilino, a mãe e muitos outros que o Padre Policarpo batizou.

2.Tranquilino, que estava gravemente enfermo, logo que foi batizado sarou. O prefeito da cidade de Roma, ele próprio muito doente, pediu a Tranquilino que trouxesse aquele que lhe restituíra a saúde. O Padre Policarpo e Sebastião foram à sua casa e ele pediu que também o curassem. Sebastião disse-lhe que antes renunciasse a seus ídolos e concedesse permissão de quebrá-los, que com essas condições ele recobraria a saúde. Quando Cromácio, o prefeito, disse que deixasse esse trabalho a seus escravos em vez de encarregar-se disso, Sebastião discordou: “As pessoas tímidas temem quebrar seus deuses, e se o fizerem e forem feridas pelo Diabo, dirão que é castigo, porque quebravam seus deuses”. Autorizados, Policarpo e Sebastião destruíram mais de duzentos ídolos.

Depois disseram a Cromácio: “Como despedaçamos seus ídolos e você já deveria ter recobrado a saúde, mas ainda sofre, é certo que você ou não renunciou à infidelidade, ou conservou alguns ídolos”. Então Cromácio confessou que tinha um quarto em que estavam guardadas muitas estrelas com as quais se podia prever o futuro, e pelas quais, seu pai, tinha gasto mais de duzentas medidas de ouro. Sebastião então disse: Enquanto conservar todos esses objetos inúteis, você não terá saúde”. Cromácio concordou, mas seu filho Tibúrcio, rapaz muito distinto, falou: “Eu não admitiria que obras tão importantes fossem destruídas, mas para não parecer opor obstáculo à saúde de meu pai, que sejam acesas duas fogueiras, e se depois da destruição das obras meu pai não estiver curado, que esses dois homens sejam queimados”. Sebastião respondeu: “Que assim seja!”. E enquanto ocorria a destruição, um Anjo apareceu ao prefeito dizendo que o Senhor Jesus restituía-lhe a saúde. No mesmo instante ele sarou e correu para o Anjo a fim de beijar seus pés, mas este o impediu porque ele não tinha ainda recebido o Batismo. Então ele, seu filho Tibúrcio e quatrocentas pessoas da sua casa foram batizadas. Quanto a Zoé, foi martirizada pelos infiéis, e ao saber disso Tranquilino exclamou: “As mulheres são coroadas antes de nós. Por que ainda vivemos?”. Alguns dias depois ele foi lapidado.

3. Ordenaram a São Tibúrcio que, ou jogasse incenso num braseiro em honra aos deuses, ou andasse descalço sobre aquelas brasas. Ele fez então o Sinal da Cruz e caminhou de pés nus sobre o fogo dizendo: “Graças a Nosso Senhor Jesus Cristo, parece-me estar pisando em rosas”. O prefeito Fabiano retrucou: “Quem não sabe que Cristo ensinou artes mágicas a você?”. Tibúrcio respondeu: “Cale-se, infeliz, pois você não é digno de pronunciar um Nome tão Santo e tão doce”. Tomado de cólera o prefeito mandou decapitá-lo.

Marceliano e Marcos, por sua vez, foram presos a uma estaca e, amarrados, cantaram estas palavras dos Salmos: “Veja como é bom e agradável irmãos ficarem juntos, etc.”. O prefeito disse: “Infelizes, renunciem a essas loucuras e serão libertados”. E eles: “Nunca fomos mais bem tratados. Nosso desejo seria que você nos deixasse amarrados enquanto estamos revestidos de nossos corpos”. Então o prefeito mandou que enfiassem lanças em seus flancos, e eles assim consumaram seu martírio.

Depois disso o prefeito denunciou Sebastião a Diocleciano, que disse: “Sempre quis que você ocupasse postos elevados no meu palácio, mas você agiu em segredo contra meus interesses e insulta os deuses”. Sebastião: “Foi para sua salvação que honrei Cristo, e é pela conservação do Império Romano que sempre adorei o Deus que está no Céu”. Diocleciano mandou levá-lo para o campo, amarrá-lo a uma árvore e ser crivado de flechas pelos arqueiros. Quando o julgaram morto, retiraram-se, pois ele estava tão coberto por flechas que parecia um porco-espinho. Mas alguns dias depois, ele apareceu na escadaria do palácio, criticando os imperadores pelos males que infligiam aos cristãos. Ao avistá-lo, os imperadores disseram: “Aquele não é Sebastião, que recentemente mandamos matar a flechadas?”. Sebastião esclareceu: “O Senhor restituiu-me a vida para que eu pudesse vir jogar no rosto de vocês os males com que cumulam os cristãos”. Então o imperador mandou fustigá-lo até que rendesse o espírito e ordenou que jogassem seu corpo na cloaca, para que não fosse honrado pelos cristãos como Mártir.

Mas São Sebastião, apareceu na noite seguinte a Santa Lúcia, revelou-lhe o lugar em que estava seu corpo e mandou que o sepultasse perto dos restos dos Apóstolos, o que foi cumprido. Ele foi martirizado sob os imperadores Diocleciano e Maximiano, que começaram a reinar por volta do ano do Senhor de 187.

4. Relata Gregório, no primeiro livro de seus Diálogos, que uma mulher da Toscana, recém-casada, foi convidada a assistir à consagração de uma igreja a São Sebastião, e na noite que precedeu a festa, premida pela volúpia da carne, não pode se abster do marido. De manhã partiu, sentindo um pouco de vergonha diante dos homens de Deus. Mal entrou no oratório onde estavam as relíquias de São Sebastião, o Diabo apossou-se dela e atormentou-a diante da multidão. Então um Padre dessa igreja pegou um véu do altar para cobrir a mulher, mas o Diabo logo se apossou também do Padre. A mulher foi levada por alguns amigos até uns encantadores, cujos sortilégios deveriam libertá-la. Mas no instante em que a encantavam, e com a permissão de Deus, uma legião composta de 6666 Demônios entrou nela e atormentou-a com violência ainda maior. Por fim, um personagem de grande santidade, chamado Fortunato, curou-a com suas preces.

5. Lê-se na História dos Lombardos, que na época do rei Gomberto, a Itália inteira foi assolada por uma peste tão violenta, que os vivos mal bastavam para sepultar os mortos. Ela fez grandes estragos, sobretudo, em Roma e em Pavia. Então uma multidão de pessoas viu aparecer um Anjo bom empunhando um chuço2 e perseguindo o Anjo mau, que golpeava e exterminava, e que sempre que atingia uma casa fazia muitos mortos. Soube-se então, por revelação divina, que a peste cessaria inteiramente suas devastações caso fosse erguido em Pavia um altar a São Sebastião. Ele foi construído na igreja de São Pedro ad Vincula, e de fato, logo depois o flagelo cessou. Posteriormente, levaram-se de Roma para lá as relíquias de São Sebastião.

Ambrósio escreveu: “Senhor adorável, o sangue do seu Bem-aventurado Mártir Sebastião, foi derramado pela confissão de seu Nome e para permitir a manifestação de seus milagres, de forma que através da prece a ele, Vós ampare os enfermos, transforme nossa fraqueza em força, aumente nossas virtudes”.


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Fonte: Beato Jacopo de Varazze, Dominicano, Arcebispo de Gênova, Legenda Áurea – Vidas de Santos”, Cap. 23 (São Sebastião), pp. 177-182. Tradução do latim por Hilário Franco Júnior, Companhia das Letras, Editora Schwarcz Ltda, São Paulo, 2003.

1.  No exército romano, a legião de infantaria, composta de 6 mil homens, estava dividida em dez coortes que no campo de batalha ficavam distribuídas em três linhas, de quatro, três e três coortes respectivamente. A primeira coorte era a que ficava mais à direita na primeira linha.

2.  Lança.


quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

COMEMORAÇÃO DE SANTA PRISCA, VIRGEM E MÁRTIR.


COMEMORAÇÃO DE SANTA PRISCA,

Virgem e Protomártir da Igreja Romana.


Intróito (Sl. 118, 95-96)

Os pecadores rondaram-me para me perder, mas eu, Senhor, meditei nos vossos ensinamentos: a todas as perfeições eu via um limite; porém, os vossos Mandamentos são imensamente vastos (T. P. Aleluia, aleluia). Sl. Bem-aventurados os que são puros nos seus caminhos, que andam na lei do Senhor. V. Glória ao Pai.

Oremos

Fazei, Vos suplicamos, Senhor Onipotente, com que, venerando o nascimento de Santa Prisca, Virgem e Mártir, nos alegremos com seu aniversário e aproveitemos do exemplo de tão nobre fé. Por Nosso Senhor Jesus Cristo… Amém.

Leitura do Livro da Sabedoria

(Eccli. 51, 13-17)

Senhor meu Deus, Tu exaltaste a minha habitação sobre a Terra e eu roguei-Te que me livrasses de ser arrebata pela torrente da morte. Invoquei o Senhor, Pai do meu Senhor, para que não me abandonasse no dia da minha tribulação e durante o domínio dos soberbos. Louvarei incessantemente o Teu Nome, e celebrá-lo-ei nas minhas ações de graças, pois foi atendida a minha oração, e livraste-me da perdição e salvaste-me no tempo calamitoso. Por isso, Te glorificarei e cantarei os Teus louvores, e bendirei o Nome do Senhor.

Continuação do Santo Evangelho,

segundo São Mateus.

(13, 45-52)

Naquele tempo: Disse Jesus a seus discípulos a seguinte parábola: O reino dos Céus é semelhante a um tesouro escondido num campo, o qual, quando um homem o acha, esconde-o, e, pelo gosto que sente de o achar, vai, e vende tudo o que tem, e compra aquele campo. O reino dos Céus é também semelhante a um negociante, que busca boas pérolas. E, tendo encontrado uma de grande preço, vai, e vende tudo o que tem e compra-a. O reino dos Céus é ainda semelhante a uma rede lançada ao mar, que colhe toda a casta de peixes. Quando está cheia, tiram-na para fora, e, sentados na praia, escolhem os bons para vasos, e deitam fora os maus. Será assim no fim dos séculos: virão os Anjos, e separarão os maus do meio dos justos, e lançá-los-ão na fornalha de fogo. Ali haverá choro e ranger de dentes. Compreendestes tudo isto? Eles responderam: Sim. E Ele disse-lhes: Por isso, todo o escriba instruído no reino dos Céus, é semelhante a um pai de família, que tira do seu tesouro coisas novas e velhas.



Exortação

S. Prisca, contemporânea de S. Pedro e S. Paulo.


Santa Prisca, filha de pais muito ilustres, nasceu na cidade de Roma.

Desde menina fez-se notar pelo seu amor à Religião de Jesus Cristo. Contava apenas treze anos e já tinha por único entretenimento a oração e a visita das igrejas, que os cristãos possuíam para o culto.

Achando-se uma ocasião num oratório dos cristãos, foi surpreendida pelos emissários do Imperador Cláudio, à presença do qual foi conduzida no meio dos maiores ultrajes e ameaças do povo pagão.

Vendo o Imperador a sua tenra idade, e julgando que a heroína facilmente se deixaria vencer, mandou que a levassem a oferecer sacrifício aos deuses no templo de Apolo. Bem longe de se intimidar, Santa Prisca, respondeu que só Jesus Cristo era digno de adoração e que, portanto, desprezava os odiosos ídolos dos pagãos. Ordenou, então, o feroz Cláudio, que ali mesmo a esbofeteassem. Conduziram-na em seguida para um cárcere, onde a esperava o tormento cruel dos açoites.

Exasperou-se o Imperador, vendo a admirável firmeza da tenra virgem, cuja fé, robustecida pelos duros martírios que padecia, mais e mais se afirmava, fazendo com que Prisca sempre e em alta voz confessasse a Jesus Cristo. Por último, Cláudio, ardendo em cólera, ordenou que fosse degolada. Esta sentença foi executada no ano 54. A pura alma de Prisca voou ao Céu, onde segue o Cordeiro sem mancha, entoando magníficos hinos de louvor, que só às virgens é dado cantar.


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Fonte: Pe. Croiset, “Ano Cristão”, Vol. I, dia 18 de Janeiro, p. 220. Traduzido do Francês e adaptado às últimas reformas litúrgicas pelo Pe. Matos Soares, professor do Seminário do Porto. Tip. “Porto Medico”, Ltda. Porto. 1923. Cfr. Missal Quotidiano e Vesperal, por Dom Gaspar Lefebvre, beneditino da Abadia de S. André, pp. 1222;1156-1159; Desclée de Brouwer & CIE, Bruges (Bélgica), 1952.


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