BLOG CATÓLICO PARA OS CATÓLICOS.

BLOG CATÓLICO, PARA OS CATÓLICOS.

"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

quinta-feira, 8 de junho de 2023

LADAINHA DO SANTÍSSIMO SACRAMENTO.


Senhor, tende piedade de nós.

Jesus Cristo, tende piedade de nós.

Senhor, tende piedade de nós.


Jesus Cristo, ouvi-nos.

Jesus Cristo, atendei-nos.


Deus Pai do Céu, tende piedade de nós.

Deus Filho, Redentor do mundo, tende piedade de nós.

Deus Espírito Santo, tende piedade de nós.

Santíssima Trindade, que sois um só Deus, tende piedade de nós.


Jesus, Deus e Homem verdadeiro, presente no Santíssimo Sacramento do Altar, tende piedade de nós.

Pão Vivo, que descestes do Céu, tende piedade de nós.

Deus escondido e Salvador, tende piedade de nós.

Sacrifício perene do Novo Testamento, tende piedade de nós.

Sacrifício de todos o mais digno, tende piedade de nós.

Verdadeiro Propiciatório por vivos e defuntos, tende piedade de nós.

Cordeiro Imaculado de Deus, tende piedade de nós.

Resumo das Maravilhas de Deus, tende piedade de nós.

Comemoração da Sagrada Paixão de Nosso Senhor e Salva­dor, tende piedade de nós.

Hóstia Santa, tende piedade de nós.

Cálice de benção, tende piedade de nós.

Mistério da Fé, tende piedade de nós.

Pão dos Anjos, tende piedade de nós.

Vínculo de paz e caridade, tende piedade de nós.

Celeste Antídoto, que nos preserva dos pecados, tende piedade de nós.

Fonte de todas as graças, tende piedade de nós.

Consolo dos aflitos, tende piedade de nós.

Remédio dos enfermos, tende piedade de nós.

Viático dos que morrem no Senhor, tende piedade de nós.

Penhor seguro da glória futura, tende piedade de nós.


Sede-nos propício, perdoai-nos, Senhor.

Sede-nos propício, atendei-nos, Senhor.


Da recepção indigna do vosso Corpo e Sangue, livrai-nos, Senhor.

Da Comunhão tíbia, livrai-nos, Senhor.

Da concupiscência da carne, livrai-nos, Senhor.

Da concupiscência dos olhos, livrai-nos, Senhor.

Da soberba da vida, livrai-nos, Senhor.

De toda ocasião de pecar, livrai-nos, Senhor.

Da morte eterna, livrai-nos, Senhor.

Por Vossa Santa Encarnação, livrai-nos, Senhor.

Por Vossa Sagrada Paixão e Morte, livrai-nos, Senhor.

Pelo ardente desejo com que desejastes comer a Páscoa com vossos Apóstolos, livrai-nos, Senhor.

Pela humildade, com que lavastes os pés dos vossos Apósto­los, livrai-nos, Senhor.

Pelo ardentíssimo amor com que instituístes este Divino Sa­cramento, livrai-nos, Senhor.

Pelo Sangue Precioso, que no Sacramento do Altar nos deixastes, livrai-nos, Senhor.

Pelas Cinco Sacratíssimas Chagas, que no vosso Corpo recebestes por nosso amor, livrai-nos, Senhor.


Ainda que pecadores, ouvi-nos, Senhor.

Dignai-vos de aumentar e conservar em nós a Fé, Reverência e Devoção a este admirável Sacramento, ouvi-nos, Senhor.

Dignai-vos de nos dispor para um santo e frequente uso da Sagrada Escritura pela sincera Confissão dos nossos peca­dos, ouvi-nos, Senhor.

Dignai-vos de nos fazer colher os celestiais e preciosos frutos deste Santíssimo Sacramento, ouvi-nos, Senhor.

Dignai-vos de nos salvar de toda heresia, perfídia e cegueira espiritual, ouvi-nos, Senhor.

Que Vos digneis de confortar-nos e fortalecer-nos na hora da morte com este celestial Viático, ouvi-nos, Senhor.

Filho Eterno, verdadeiro Deus, ouvi-nos, Senhor.


Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, perdoai-nos, Senhor.

Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, ouvi-nos, Senhor.

Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, tende piedade de nós, Senhor.


D. Vós lhes destes um Pão vindo do Céu.

T. Pão, que encerra todas as delícias.


D. Oremos: Ó Deus, que neste admirável, Sacramento nos conservastes a memória de vossa Paixão, dai-nos a graça de reverenciar de tal modo o Mistério Sagrado de vosso Corpo e Sangue, que experimentemos perenemente em nós os frutos da Redenção; Vós que viveis e reinais por todos os séculos.

T. Amém.


A obra do Divino Espírito Santo - Ladainha do Santíssimo Sacramento. (oespiritosanto.com)


domingo, 4 de junho de 2023

SÃO JOSÉ EM NAZARÉ.

Após a memorável Páscoa, a vida de São José em Nazaré* foi somente paz e felicidade contínua.

* A Santa Casa não era um suntuoso palácio, mas uma pobre casinha que ainda hoje se pode ver. No século IV, Santa Helena, mãe do grande Constantino, ordenou que fosse encerrada em um belo templo, com a seguinte inscrição: “Este é o Santuário onde se lançou o primeiro fundamento da salvação dos homens”.

Escreveu São Vilibrodo que, no século VIII, os cristãos tiveram de resgatá-lo por elevado preço, porque os infiéis queriam destruí-lo. Em 1291, Kalil (sultão do Egito), tendo-se apoderado de toda a Galileia com a matança de 25 mil cristãos, foi destruída a bela Igreja de Santa Helena que encerrava a Santa Casa, e estava esta para sofrer a mesma sorte, quando Deus ordenou aos Anjos que a transportassem para a Dalmácia, tendo saído muito cedo para os trabalhos do campo, viram estupefactos, à beira-mar, em um lugar chamado Rannizza, uma casa solitária de formato oriental e colocada sem alicerces no chão, em um local onde nunca se tinha visto nem casas nem cabanas. Fora de si com a maravilha, correram a anunciar o que tinham visto. Em breve se difundiu a fama do prodígio; o povo acorreu para examinar e admirar o misterioso edifício, construído de pedras vermelhas quadradas e unidas com cimento. Todos ficaram admirados com a singular estrutura, com a antiguidade, e especialmente não sabiam explicar como se mantinha ereta sem alicerce algum.

Mas a surpresa aumentou ao entrarem pela única porta, aberta a um lado. À direita da porta, abria-se uma única e estreita janela. Interiormente, as paredes achavam-se cobertas de pinturas representando os Mistérios de Nazaré. De um lado, um altar de pedra, encimado por uma Cruz grega. À direita do altar, uma imagem da Santíssima Virgem com o Menino Jesus no braço; à esquerda, perto do altar, um pequeno armário escavado na parede, contendo alguns vasos.

O Bispo do lugar e o governador da Dalmácia, Nicolau Frangipane, avisados do acontecido, e desejando certificar-se da verdade do misterioso depósito, enviaram a Nazaré algumas pessoas. Verificaram estas, que a Casa de São José fora arrancada dos fundamentos (ainda subsistentes); que não havia diferença alguma na natureza das pedras daqueles alicerces, comparada à das pedras da Casa achada na Dalmácia, nem tão pouco nas dimensões do edifício. Deram pois uma relação autêntica, confirmada com juramento; e logo os fiéis acorreram em multidão à Santa Casa. Os milagres operados aumentaram cada vez mais o concurso e devoção dos fiéis.

Três anos e meio após a sua chegada; isto é, a 10 de Dezembro de 1294, a Santa Casa desapareceu aos olhares dos desolados dalmacianos, transportada pelas mãos invisíveis dos Anjos para a Itália, a uma floresta de Renacanati. Mas, como muitos ladrões contaminavam o sagrado bosque com furtos e homicídios, a Santa Casa, oito meses depois, abandonou a floresta profanada, e foi colocada no meio de uma colina (agora chamada Batuorola), pertencente a dois irmãos. Sendo estes os depositários e recebendo grandes dons e numerosas ofertas, cederam à avareza e se deixaram perverter. Então, a Santa Casa se retirou, quatro meses depois de sua chegada, da colina, e, por um terceiro milagre, foi levada pelos Anjos para o meio de uma estrada pública, que vai de Recanati até a beira-mar, onde se encontra ainda hoje, encerrada no recinto da Catedral.

Dizem que nesse lugar existiu em outras épocas um Templo dedicado a alguma falsa divindade, circundado por uma floresta de louros, razão pela qual recebeu o nome de Loreto (laureto), como ainda se chama em nossos dias.

A atual Igreja de Nazaré está encerrada no convento dos franciscanos. À esquerda, por uma escada de mármore de 17 degraus, desce-se a uma capela subterrânea, onde se erguia a Casa da Bem-aventurada Virgem Maria. Ao fundo, há um altar erigido no lugar onde se operou o Mistério da Encarnação; e, sob o altar, no branco mármore do pavimento, leem-se as palavras: VERBUM CARO HIC FACTUM EST. A oficina de São José foi convertida em Capela. Os cristãos de Nazaré, ao acender de tarde as luzes, têm por hábito dizer: Louvado seja o nome de Jesus; e os outros respondem: Sempre e pelos séculos eternos.



Enquanto Maria cuidava da casa, fiava, cosia, pensava nas despesas ordinárias, ia buscar água, preparava as refeições, São José trabalhava em sua oficina.

O doce far niente1 e o passar o tempo comodamente estirados, como costumam os orientais, eram desconhecidos naquela casa, onde cada um costumava tomar o repouso diário, somente depois de ganho.

Quando a idade e as forças permitiram a Jesus ajudar o Pai nos trabalhos, começou este a ensinar-Lhe a arte que, segundo os desígnios de Deus, devia exercer como ação redentora.

Disse um ilustre orador: “Observai São José. Ergue-se do leito ao alvorecer do dia, oferece a Deus o tributo do reconhecimento e da oração, entrega à dileta Esposa e ao Divino Menino todos os encargos do dia, depois vai solícito à sua oficina para retomar cada dia aquele trabalho que lhe é tão caro por amor de Jesus e de Maria. Vede o bom Patriarca, firme na fadiga de seu pesado ofício; interrompe-o apenas para tomar a sua escassa refeição e continua enquanto lhe é suficiente a luz do dia. Abençoados suores, santíssimas fadigas, não pelo desejo de acumular dinheiro, mas para alimentar Jesus e Maria!”

A presença de Jesus na pobre oficina suavizava o peso da fadiga do Santo e inundava-lhe o espírito de celestial consolação. Ao ver-se diante do Supremo Artífice do Universo sob a forma de um rapazinho, sentia-se cheio de reverência e de ternura. Com que devoção trabalhava junto ao seu Divino Discípulo, preparava-Lhe o trabalho, instruía-O e observava com prazer os primeiros trabalhos!

Como seu Coração se terá fundido em ternura e alegria, ao tomar entre as mãos a pequenina destra do Divino Menino, para dirigi-Lo na prática e auxiliá-Lo nas dificuldades! Admirava a diligente perseverança de seu Celeste Discípulo, cujas mãos se enrijeciam na constante fadiga.

No sábado, após as funções da Sinagoga, quantas vezes terá conduzido pela mão o Filho de seu Coração às alturas do monte, donde Lhe terá mostrado a magnífica perspectiva do Hermon com Cesareia de Felipe a seus pés, os contornos do Lago de Genezaré, Cafarnaum, Betsaida; depois a fértil planície de Esdrelon com Naim, o Carmelo e as águas azuis do Mediterrâneo a confinar com o Céu! Aqueles nomes despertavam, na mente do jovenzinho silencioso, tantos pensamentos; já suspirava pelo tempo de operar maravilhas e prodígios pelas almas que O esperavam, para serem salvas. Mas tudo isso, eram ainda um Mistério para São José.

Diz São Lucas em seu Evangelho, que Jesus, na juventude, foi sempre submisso aos pais. Era Deus, a Sabedoria e a Santidade em Pessoa; todavia, na humanidade, crescia de menino a jovem, de jovem a homem. Ora, que benigna autoridade e que bondade de Coração terá exercido São José na família de quem era Chefe? Sabia estar-lhe submisso o Filho de Deus e a Mãe Santíssima, por isso, mais fazia por Si, mais servia que ordenava, e, por sua prudência e caridade, em sua pequena família, tudo era paz, alegria, união e amor.

Um celestial perfume de pureza alegrava aquelas sagradas paredes, entre as quais habitavam juntos o Cordeiro Imaculado, a Rainha das Virgens e o Seu Esposo, puro e santo como os Anjos do Céu. Maria Santíssima depende humildemente do Esposo confiado pelo Céu para seu guia e custódio; Jesus está submisso, qual obedientíssimo filho, a São José e a Maria; e José não tem outra vontade senão a de Deus.

Pouco a pouco o Menino se desenvolvia, aparecia na perfeita juventude e finalmente homem, em todo o vigor da idade viril. E São José sempre a contemplar a beleza do Deus humanado. Podia considerá-Lo nas suas mais diversas ações: no sono, no brilho da alegria, do amor e da contemplação. Quantos Mistérios terá lido naquelas pupilas! O centro de sua existência era Jesus, o seu Salvador, o Filho, o seu Bem, o seu Deus, e conhecê-Lo, amá-Lo e servi-Lo era o objeto de seu espírito, o seu trabalho, o seu desejo, todo o seu ser.

A incompreensível humilhação do Verbo Divino conservava José na mais profunda humildade e reverência. Quando, em vista da missão assumida, ordenava a Jesus, interiormente O adorava com respeito profundo. Vendo-se honrado pela obediência de seu Senhor, considerava cada vez mais o próprio nada, cumprindo assim as palavras do Espírito Santo: “Quanto maior fores, mais te humilhes em todas as coisas”.

A respeito da humildade do Santo Patriarca, diz Bossuet: “Quando Jesus aparecer como Juiz, veremos então, à luz da glória, o que agora não sabemos explicar na vida oculta de São José. Saberemos o que fez e mereceu com a sua humildade nos anos vividos com Jesus, na mais profunda obscuridade e abjeção. Tendo-se feito oculto e pequeno, então Jesus o fará grande e o exaltará na medida da humildade de seu Coração”.

A Casa de Nazaré foi casa de pobres; todavia, quem não inveja a paz e tranquilidade das Três Pessoas que a habitaram? São José, Chefe daquela Sagrada Família, não teria certamente trocado a pequenina casa pelo trono do mais poderoso rei da terra, e, voltando os olhos para Jesus e para a sua puríssima Esposa, teria dito: São estes os meus tesouros. Tenha o mundo tudo quanto estima, ama e julga necessário para tornar feliz e contente o homem: eu, acho-me contente e pago com Jesus e Maria. Sendo pobre, com Eles sinto-me rico e tranquilo.

São José possuía um Coração tão bem disposto para receber a verdade, que a Verdade, habitando com ele, deu-lhe certamente as mais belas, as mais santas e as mais sublimes lições. Por isso, afirmam diversos autores célebres, que Jesus revelou ao seu Pai adotivo, ao fim de sua vida, o grande Mistério da Santíssima Trindade, e lhe deu a conhecer, quanto pode ser concedido a um homem, o Pai Celeste, a Quem afetuosamente adoravam, oravam e obedeciam. Nos amplexos de amor santíssimo que Jesus tantas vezes trocou com São José, ter-lhe-á concedido em abundância, todos os dons e consolações que costuma derramar nas almas humildes e castas.

A São José foi dada a ciência de Deus; e isso nos faz compreender que a verdadeira ciência é conhecer a Deus e amá-Lo; ensina-nos que o caminho para alcançar esse conhecimento e amor é Jesus; Jesus ouvido com docilidade; Jesus meditado assídua e profundamente; Jesus estudado em Seus admiráveis exemplos; Jesus amado e servido com todo o coração, com toda a alma e com todas as forças. Foi este o grande segredo da santidade e da felicidade de São José na vida de Nazaré.


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Fonte: Rev. Pe. Tarcísio M. Ravina, da Pia Sociedade de São Paulo, São José – na Vida de Jesus Cristo, na Vida da Igreja, no Antigo Testamento, no Ensino dos Papas, na Devoção dos Fiéis e nas Manifestações Milagrosas; 1ª Parte, pp. 90-95. Edições Paulinas, Recife, 1954.

1.  Fazer nada; ócio.


segunda-feira, 29 de maio de 2023

SANTA MARIA MADALENA DE PAZZI, VIRGEM E MÍSTICA CARMELITA.


Santa Maria Madalena, da ilustre casa de Pazzi, no ducado da Toscana, tão recomendável por sua vida religiosa, como por sua santidade, era filha de Camilo de Geri de Pazzi e de Maria Lourenço de Bondelmont. Nasceu em Florença no dia 2 de Abril do ano de 1566, e foi seu nome de Batismo Catarina. Deus preveniu-a desde o berço com as Suas mais doces bênçãos; nunca houve menina que fosse menos criança. Isenta das fraquezas ordinárias das crianças, os seus divertimentos consistiam na oração; querendo distraí-la, nada havia mais próprio do que ler-lhe a vida dos Santos, ou levá-la à igreja. A sua devoção era a admiração de seus pais.

Tinha um gênio tão dócil, acompanhado de uma seriedade e de uma doçura tão insinuante, que se fazia amar e admirar de todos os que a conheciam. Dir-se-ia que tinha nascido com um amor ardente para com Jesus Cristo e uma ternura extrema para com a Santíssima Virgem, tanto a sua devoção era sensível para com ambos. Deus favoreceu-a com o dom da oração, ainda antes de ter a idade para aprender a ler. Passava horas inteiras nesse exercício, e quando lhe perguntavam o que fazia em seu oratório, respondia: “Peço ao Bom Deus que me ensine o que me é necessário que eu saiba para Lhe agradar”. Tinha apenas sete a oito anos, quando o Padre Rossi, jesuíta, começou a ouvi-la em Confissão. Foi sem dúvida nesse comércio espiritual, que tinha com Deus, que aprendeu essas pequenas indústrias de se mortificar, com as quais iludia a atenção de sua aia. A sobriedade encaminhou-a desde logo à abstinência; foi necessário observá-la para lhe interromper os jejuns; toda a solicitude do seu Diretor e de sua mãe não conseguia mais do que moderar-lhe as austeridades. Mas nada fazia sofrer tanto esta anta donzela, como não se ver ainda em idade de ser admitida à mesa da Comunhão; tinha uma santa inveja a todos aqueles, a quem uma idade mais adiantada concedia esse privilégio. O seu desejo, a sua virtude, a sua razão determinaram o Confessor a permitir-lhe a Comunhão na idade de dez anos. Depois desta graça não acreditava que pudesse haver felicidade maior do que a sua. Não sabendo como mostrar-se reconhecida, resolveu consagrar a Deus a sua virgindade; fez voto de assim cumprir, e desde então não se considerou senão como esposa Sua.

Esta nova qualidade despertou-lhe um novo desejo dos sofrimentos. Para se tornar agradável ao seu Divino Esposo, começou desde a idade de doze anos a deitar-se sobre a terra dura e a macerar o corpo com toda a sorte de austeridades.

A vista de Jesus Cristo sobre a Cruz inspirava-lhe cada dia alguma nova mortificação. Além do cilício que trazia continuamente, fez uma coroa de espinhos muito penetrantes que apertou sobre a cabeça, e passou uma noite inteira neste doloroso tormento. Nunca o amor de Deus pareceu mais engenhoso, do que nas indústrias que empregou esta donzela para mortificar os seus sentidos; em toda a parte encontrava matéria de sacrifício. Por este tempo o grão-duque da Toscana deu o governo da cidade de Cortona a seu pai Camilo. A nossa santa obteve de sua família, por conselho do Padre Blanca, Reitor dos Padres jesuítas, a permissão de entrar como pensionista, no Mosteiro das religiosas de São João, em Florença.

Este retiro lhe aumentou o fervor; e a vantagem de poder adorar a Jesus Cristo a toda a hora no Santíssimo Sacramento, fazia-lhe dizer que o Convento era o paraíso terrestre. Teria passado noites inteiras no coro, se não se empregasse alguma severidade para de lá a arrancar. As suas delícias eram fazer sempre a corte a Jesus Cristo; querendo encontrá-la, era sabido que se achava na igreja. Era forçoso, no entanto, deixar uma tão doce habitação, por ocasião do regresso de seus pais a Florença; esta despedida custou bastante lágrimas às religiosas e à donzela; a dor foi recíproca; mas nada a afligiu tanto como a resolução de a casarem.

Tinha apenas 15 anos; a sua virtude, mais ainda do que a sua fortuna, nascimento ou beleza, tornava-a muito pretendida. Mas todas as solicitações se malograram; declarou a seus pais que tinha feito voto de entrar em religião e de não ter jamais outro esposo além de Jesus Cristo. Seus pais eram muito virtuosos e a sua vocação muito patente, para que pusessem obstáculos à sua resolução.

Deixaram-lhe o Convento à sua escolha; preferiu as Carmelitas a todas as outras Comunidades, porque comungavam todos os dias. Entrou em virtude desta resolução no Convento de Santa Maria dos Anjos no ano de 1582, tendo cerca de dezesseis anos e meio de idade. Depois de alguns dias de prova, quando se julgava em vésperas de vestir o Santo Hábito, viu-se novamente chamada por seus pais. Foram três meses de rudes combates que teve de sustentar; mas nada pode abalar a sua resolução; tornou outra vez para o Convento, onde, não querendo reter nada daquilo que tinha tido no século, esqueceu até seus pais, e deixou o nome de Catarina pelo de Madalena; e não querendo também nem ver, nem ser vista por pessoa alguma de fora, fez do claustro o seu túmulo, onde se considerou como sepultada.

O sacrifício de sua própria vontade, acompanhou este desapego. Por muito louvável que fosse o hábito que tinha no mundo de praticar grandes austeridades, e de passar muitas horas em oração, não deliberou um momento, quando foi necessário se sujeitar à vida comum das Noviças; submeteu todas as suas devoções particulares à Regra, e concebeu aversão a toda singularidade. Nenhuma noviça começou a vida religiosa com mais fervor; nenhuma fez em menos tempo mais progressos.

A sua devoção, a sua união íntima com Deus, a sua pontualidade e mortificação tornaram-na perfeita religiosa em menos de seis meses. Madalena, ainda noviça, era apresentada como um modelo de perfeição, que cada uma devia esforçar-se por imitar. Suspirava todos os dias pelo momento em que havia de consumar o seu sacrifício; mas foi necessário dilatá-lo, por causa de uma enfermidade que a pôs às portas da morte. A sua profissão teve, enfim, lugar a 17 de Maio, dia da Festa da Santíssima Trindade, com tal devoção e abrasada de um tão ardente amor para com Deus, que durante muitas horas esteve arrebatada em êxtase. Eram os prelúdios dessas graças extraordinárias e desses frequentes raptos, com que Deus a favoreceu. Durante os primeiros dois anos depois da Profissão, poucos dias se passaram que não estivesse durante quatro ou seis horas em êxtase; viam-na algumas vezes imóvel, os olhos elevados ao Céu ou pregados em um crucifixo, com o rosto todo abrasado no fogo do Divino Amor, tão tranquilo, tão risonho, que bem mostrava as delícias que lhe inundavam a alma. Ouvia-se-lhe dizer muitas vezes: “Ó amor! Ó amor! Será possível que sejais conhecido, ó meu Divino Amor, e que não sejais amado?” As lágrimas que abundantemente derramava durante os seus amorosos raptos diziam quanto sua alma estava abrasada desse fogo divino, que o Salvador veio trazer à terra. Algumas vezes durante estes transportes de amor corria toda a Casa e as alamedas do jardim, com o rosto todo abrasado, dizendo com a Esposa dos Cantares: “Eu procuro o meu Bem-amado, não vistes Aquele que minha alma estremece? Não terei descanso enquanto não encontrar Aquele que é o Amado de minha alma… Eu vivo, exclamava outras vezes, eu vivo, mas não sou eu que vivo, é Jesus Cristo que vive em mim”. Nunca se viram efeitos mais sensíveis do Divino Amor, do que os desta ditosa criatura. Houve necessidade muitas vezes de lhe introduzir as mãos na água gelada para temperar estes divinos ardores.

Parece que Nosso Senhor se comprazia em instruir Ele próprio essa alma pura em suas íntimas comunicações. Tendo voltado um dia a si de um longo êxtase, o Confessor e a Superiora ordenaram-lhe que lhe dissesse o que Deus lhe tinha feito conhecer durante esse rapto e as instruções que lhe tinha dado; obedeceu. “ O meu divino Mestre, disse, ordenou-me que conservasse com cuidado e uma vigilância extrema a pureza do coração e a simplicidade; deu-me uma tão alta ideia do preço e do mérito da virgindade, que eu não poderia exprimi-lo por palavras; ordenou-me que fizesse cada ação em particular, como se houvesse de ser a última da minha vida; que ignorasse tudo o que fazem os outros, e que me ocupasse somente dos meus deveres; que tivesse uma igualdade de humor inalterável e uma grande doçura para com toda a classe de pessoas, e que nunca dissesse uma palavra que soubesse a lisonja ou a vaidade; que desejasse apaixonadamente praticar a caridade e prestar serviços as minhas irmãs e que me olhasse como a serva de todas; que estimasse muito as mais ínfimas Regras; que estivesse persuadida de que todas são de importância e de que a mais eminente virtude depende da fidelidade que se tem em observá-las com pontualidade; que não falasse das graças que me faz e do que se passa em meu interior, senão com as pessoas que estão encarregadas da minha conduta; que não tivesse outra vontade senão a do meu Divino Mestre; e que nunca perdesse de vista a Paixão de Jesus Cristo; enfim, que tivesse uma fome insaciável da Divina Eucaristia; que dela me aproximasse com um novo gosto; e que em cada dia fizesse nas vinte e quatro horas trinta e três visitas ao Santíssimo Sacramento, a menos que a obediência não me o estorve”.

Foi dizer um dia à sua Superiora, que o Senhor queria que não se nutrisse senão de pão e água. Não aprovando a Superiora esta singularidade, ordenou-lhe que seguisse a vida comum; obedeceu sem réplica, mas foi-lhe impossível reter um só momento qualquer outra nutrição, e desde então não teve outra em todo o resto de seus dias. Obteve licença para andar com os pés descalços e, por muito rigoroso que fosse o inverno, nunca afrouxou nada desta mortificação. Por fraco e delicado que fosse o seu corpo, e abatido por enfermidades contínuas, deitou-se sempre sobre a terra dura sem nunca largar um áspero cilício e uma cadeia que trazia sobre a sua inocente carne.

Mas não foram estas mortificações o que teve de mais árduo a sofrer. Deus quis purificar a sua grande alma no fogo da tribulação e aumentar desta sorte o seu mérito. Entregue por espaço de cinco anos às mais violentas tentações e às mais rudes provas, viu-se como que sujeita a todo o furor dos Demônios; pareceu esquecer todos os favores de que Deus a tinha cumulado; debateu-se em securas extremas; um desgosto violento por todos os exercícios de piedade, uma insubordinação geral de todas as paixões, e algumas até muito humilhantes; desgosto involuntário da sua vocação; pensamentos terríveis, imaginações fatigantes, tentações de blasfêmia e de desesperação, muitas dores agudas por todo o corpo, espectros horríveis que não lhe deixavam descanso nem de dia nem de noite. A graça sustentava-a, mas não era sensível em um tão triste estado. Madalena em nada se desmentiu; todo o seu refúgio junto de Deus era a sua confiança na proteção da Santíssima Virgem. Viam-na algumas vezes nestes excessos de desespero e de desolação correr aos oratórios que havia no Convento, e derramando lágrimas abraçar estreitamente alguma estátua da Virgem. Mas o que assinala a magnanimidade desta alma, é que nestes trabalhos ouviam-na exclamar: “Quão doce me parece a morte, para pôr fim aos meus sofrimentos; não, meu Deus, não me façais ainda morrer; mas dai-me ainda mais que sofrer: Non mori, sed pati”.

Quanto maiores eram os seus sofrimentos, maior era a sua fidelidade nos exercícios de piedade. Tinha pedido os mais baixos e os mais vis empregos da casa, e todos desempenhava; velava noite e dia à cabeceira dos doentes, e prestava-lhes os ofícios mais humilhantes; o seu maior prazer era obedecer mesmo às irmãs conversas em seus ofícios. Honrava tanto todas as suas irmãs, que se prostrava muitas vezes para beijar a terra, por onde tinham passado. Não é possível levar mais longe a caridade, a mortificação e a humildade, do que o fazia esta santa.

A calma sucedeu à tempestade, e a serenidade a este tempo nebuloso; Jesus Cristo apareceu-lhe e as consolações interiores que acompanhavam a Sua presença sensível fizeram-lhe em breve esquecer tudo quanto tinha sofrido. Daqui por diante não houve mais do que transportes, do que excessos do Amor Divino: “Amar a Deus e aborrecermo-nos a nós mesmos”, eis, dizia ela, em que consiste a perfeição”. Por muito grande que fosse o desejo de sofrer grandes coisas por Deus, o Senhor ordenou-lhe evitar para o futuro toda e qualquer singularidade; fê-lo, mas deu tal relevo ao mérito das ações ordinárias, que crescia sempre em perfeição. Ouviam-na muitas vezes exclamar em suas orações e durante os seus êxtases: “Quem nos separará do amor de Jesus Cristo? Será a tribulação, a tentação ou as angústias? Eu olho tudo como lixo a fim de ganhar a Jesus cristo. O Senhor instrui-me com Seus conselhos, vigia por minha conservação, que temerei eu?” Um dia viram-na durante um desses raptos correr ao altar da Santíssima Virgem; e ali, com o rosto todo inflamado no fogo do Divino Amor que abrasava o seu coração, pronunciou esta oração: “Puríssima Virgem, Mãe de Deus, eu ofereço-me e consagro-me toda a Vós, para sempre e sem reserva; sereis doravante a minha querida Mãe; em Vós coloco junto de Deus toda a minha confiança, dignai-Vos olhar-me como a última de vossas filhas. Jesus e Maria, eis todo o meu tesouro e toda a minha consolação”.

Nunca houve religiosa que tivesse uma ideia mais levantada e mais justa da felicidade do estado religioso; beijava muitas vezes ao dia os muros do claustro e dizia que, se bem compreendessem a doçura, a felicidade e todas as vantagens deste estado, o século ficaria bem depressa deserto. O zelo da salvação das almas devorava-a; todos os dias orava e se penitenciava pela conversão dos pecadores; o tempo de carnaval era para ela a estação das lágrimas; eram dias de martírio.

Embora muito jovem ainda e sempre doente, foi encarregada dos principais ofícios da Casa; foi durante muito tempo diretora das religiosas, entradas ainda de pouco, e das Noviças, e, enfim, escolhida por toda a Comunidade para sua Superiora.

Não é possível admirar assaz a sua vigilância, exatidão, doçura e caridade em cumprir todas as obrigações destes diversos empregos; e mostrou bem que a regularidade e o fervor reinam sem demora em uma Casa Religiosa, quando aqueles que a governam instruem ainda melhor por seus exemplos, do que por suas palavras. Tudo caminha quando os superiores são santos.

Deus favoreceu a nossa santa com os maiores dons sobrenaturais: foi dotada com a prerrogativa dos milagres e da profecia; e no momento em que São Luís de Gonzaga, da Companhia de Jesus, expirou em Roma, Santa Madalena viu durante um êxtase o sublime grau de glória, a que fora elevado no Céu.

As suas dores e enfermidades aumentavam todos os dias, e não se pode compreender como um corpo tão fraco e tão delicado podia resistir a tantos males. A sua última enfermidade aumentou-lhes a violência, sofria dores excessivas por todo o corpo sem poder receber o menor alívio: “Eu espero, dizia, que, a exemplo do meu Divino Salvador, expirarei sobre a Cruz. Não tendes razão, dizia às irmãs que a vinham consolar, em querer que eu desça dela”. Só a Divina Eucaristia tinha poder de suspender por alguns momentos as suas vivas dores, as quais nunca puderam alterar a sua doçura, tranquilidade e paciência.

Enfim, esta vítima ditosa, consumida mais pelos ardores do fogo divino do que por seus sofrimentos, entregou o seu espírito ao seu Criador e foi gozar da alta recompensa que lhe estava preparada. Foi a 26 de Maio de 1607, tendo a idade de quarenta e um anos, 25 dos quais passados no Mosteiro.

Deus deu depois de sua morte sinais da glória de que gozava no Céu, não só pelos milagres brilhantes que se fizeram em seu túmulo, e que ainda continuam, mas ainda pela incorruptibilidade deste Santo Corpo, que se tornou objeto da veneração pública, sobretudo depois que o Papa Urbano III a Beatificou no ano de 1626, e que o Papa Alexandre VII a pôs solenemente no Catálogo do Santos, no ano de 1669, com as cerimônias ordinárias.


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Fonte: Pe. Croiset, S.J., “Ano Cristão”, Vol. V, pp. 403-409, 29 de Maio; Tradução do Francês pelo Pe. Matos Soares, Porto, 1923.


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