Na Santa Missa,
Jesus
Cristo Renova Sua Vida.
Entre as coisas que encantam
os sentidos, o teatro deve ser colocado em primeiro lugar.
Os homens acham-lhe tal prazer
que gastam, para assistir às representações teatrais, muito tempo
e muito dinheiro.
Se quiséssemos considerar
atentamente os grandes Mistérios da Missa e persuadir-nos que Jesus
Cristo se aproxima do altar como que ornado de seus vestidos de
festa, para aí reproduzir, à nossa vista, as cenas de Sua vida
maravilhosa, correríamos para a Igreja ao primeiro toque do sino.
Mas, oh, loucura do mundo,
quantos preferem jogar os bens aos comediantes a assistir à Santa
Missa, onde riquíssima recompensa é concedida a todo e qualquer
espectador piedoso!
Responder-me-ás, talvez, caro
leitor: “Não é de admirar que as pessoas frívolas prefiram
assistir à comédia; querem distrair-se, e, na Santa Missa, nada
lhes encanta os olhos e os ouvidos”.
Oh,
triste cegueira! Se essas pessoas superficiais tivessem os olhos da
fé, gozariam da Santa Missa profundamente, porque é o resumo da
vida do Salvador e a reprodução de todos os seus Mistérios. Não é
somente uma representação poética de fatos passados, como seria um
drama; é uma repetição verídica do que Jesus Cristo fez e sofreu
sobre a terra.
Com
efeito, na Santa Missa, temos diante de nós o divino Menino, envolto
em panos, que acharam os pastores, que os
Magos vieram adorar, e que Maria Santíssima colocou nos braços do
velho Simeão. O mesmo divino Infante repousa sobre o altar e espera
nossas homenagens e nosso amor. Ao Evangelho, esse mesmo Jesus nos
repete Sua doutrina pela boca do Sacerdote, com o mesmo proveito para
a alma crente como se lhe viesse dos próprios lábios.
Vemo-lO
fazer um milagre maior que o de Caná, porque é mais admirável
mudar o vinho em sangue, do que a água em vinho. É a renovação da
última Ceia e de Sua Morte na Cruz. As mãos dos algozes já não O
atingem, porém, as do Sacerdote oferecem-nO como Vítima expiatória
ao Eterno Pai.
Aquele
que sabe tirar proveito da Santa Missa, pode receber aí o perdão de
seus pecados e a abundância das graças celestes.
“Toda a vida de Cristo”,
diz São Dionísio, o Cartuxo, “não foi mais que uma
Missa solene, na qual foi Ele mesmo o Templo, o Altar, o Sacerdote e
a Vítima”.
Na
verdade, Jesus Cristo revestiu-se das vestes sacerdotais no Santuário
do seio materno, onde tomou a nossa carne e com ela a vestimenta da
nossa mortalidade. Saiu desse Santuário na noite sagrada do Natal e
começou o Introito,
entrando no mundo. Entoou o Kyrie eleison,
lançando os primeiros vagidos no presépio; o Gloria in
excelsis foi entoado pelos
Anjos, quando apareceram aos pastores, e, convidando-os a misturar
seus louvores aos deles, os conduziram ao berço do recém-nascido.
Jesus
disse a Colecta em
Suas vigílias noturnas, onde implorava a misericórdia divina para
nós. Leu a Epístola,
quando explicava Moisés e os Profetas, demonstrando que os tempos
eram findos. Anunciou o Evangelho,
quando percorria a Judeia a pregar a boa nova. Fez o Ofertório,
quando, no Mistério da Apresentação, ofereceu-se a Seu Pai pela
salvação do mundo. Cantou o Prefácio,
louvando por nós a Deus sem cessar e agradecendo-lhe os benefícios.
O
Sanctus foi entoado
pelos hebreus, no dia de Ramos, quando, na entrada de Jesus em
Jerusalém, clamavam: “Bendito seja Aquele que vem em
Nome do Senhor! Hosana ao Filho de Davi!”
A
Consagração, o
Salvador efetuou-a na Última Ceia, pela transformação do pão e do
vinho em Seu Corpo e em Seu Sangue. A Elevação
realizou-se, quando foi pregado na Cruz, elevado nos ares e exposto
em espetáculo aos olhos do mundo. O Pai Nosso,
Jesus disse-o na Cruz, pronunciando as Sete Palavras. A Fração
da Hóstia cumpriu-se, quando
Sua Alma Santíssima separou-se de Seu Corpo adorável. O Cordeiro
de Deus, o centurião disse-o no
momento em que exclamou: “Verdadeiramente este homem é o
Filho de Deus!” A Santa
Comunhão foi o
embalsamamento e a sepultura. A Bênção
no fim, Jesus deu-a no Monte das Oliveiras, ostentando as mãos sobre
os Discípulos na ocasião da Ascensão.
Eis
a Missa Solene celebrada por Jesus Cristo sobre a terra!
Ordenou
que Seus Apóstolos e, depois deles, todos os Sacerdotes, dissessem
esta Missa, cada dia, bem que mais resumida.
Somos,
pois, tão favorecidos, e talvez mais do que aqueles que viveram no
tempo de Jesus. Eles ouviram uma única Missa, cujas partes foram
celebradas em longos intervalos, enquanto podemos, cada dia, assistir
a muitas e recolher, em pouco tempo, os frutos de toda a vida do
Salvador.
Para
tornar ainda mais clara esta verdade, referimos um notável exemplo
narrado pelo Bispo Thomas de Cantimpré, assim como por todos os
historiadores eclesiásticos de sua época.
“Em 1267, no tempo
pascal, aconteceu, na igreja de Santo Amato, em Douai, que um
Sacerdote, distribuindo a Santa Comunhão, avistou uma Hóstia no
chão. Atemorizado, não sabendo como se dera o acidente, ajoelhou-se
para recolher a Sagrada Partícula. Mas, eis que Ela, escapando-lhe,
eleva-se da terra e paira nos ares. Não tendo outro Corporal senão
aquele sobre o qual está colocada a Âmbula, o Sacerdote toma o
Sanguíneo e estende-O abaixo da Santa Hóstia, conduzindo-A para o
Altar e pedindo perdão por tal irreverência.
Enquanto seus olhos estavam
piedosamente fixos na Santa Eucaristia, viu que Ela se transformava
em gracioso menino. Vivamente comovido pôs-se a soluçar. Os Cônegos
presentes apressaram-se a socorrê-lo e também puderam ver o belo
menino, cuja presença cumulou-os de celestes delícias. O povo
aproximou-se por sua vez para contemplar tão grande maravilha e
convencer-se da Presença Real do Senhor. Oh, prodígio novo! Ali,
onde os Sacerdotes viam um menino, os fiéis viram Jesus Cristo sob a
forma de um homem cheio de majestade divina, durando a aparição uma
hora inteira.
Quem poderia descrever os
afetos que lhes enchiam os corações durante este tempo. No fim de
uma hora, Jesus Cristo voltou à forma da Hóstia; o Sacerdote
encerrou-a no Tabernáculo e cada qual foi publicar o milagre.
A notícia chegou aos
ouvidos do Bispo de Cambrai, que dirigiu-se logo àquela cidade e
perguntou ao Deão da igreja, se a aparição realmente se havia
dado. O Cônego respondeu-lhe: ‘Não é somente verdade que Jesus
Cristo foi visto, por grande número de pessoas, sob a forma humana,
como também que se faz ainda ver’.
‘Então tive’, diz o
Bispo, ‘um ardente desejo de contemplar a Santa Humanidade do
divino Salvador e pedi ao Sacerdote que me mostrasse a Santa Hóstia.
Conduziu-me à igreja para onde uma multidão de povo nos seguiu, na
esperança de ver outra vez seu Mestre.
Não sem temor, o Deão
abriu o Sacrário, retirou o Santíssimo Sacramento e deu a bênção.
Logo o povo rompeu em soluços e exclamou: ‘Oh, Jesus, oh, Jesus!’
‘Porque estes gritos e estas lágrimas?’ Perguntei-lhes. ‘Estamos
vendo nosso bom Salvador’, foi a resposta. Quanto a mim, apenas via
a Santa Hóstia, o que me afligia muito, pois receava ter-me tornado,
por meus pecados, indigno da vista do Senhor. Fiz um minucioso exame
de consciência e, não achando nada de particular, supliquei com
lágrimas a Jesus que me mostrasse Sua Santa Face.
Depois de ardentes orações,
meu voto foi ouvido, e vi com meus indignos olhos, não como os
outros a forma de um belo menino, mas a de um homem feito. O Senhor
achava-se muito perto de mim. Seus olhos eram mui claros e
agradáveis, seu nariz elegante, Suas sobrancelhas bem arqueadas; Sua
cabeleira ondeava sobre os ombros; Sua barba bastante longa
emoldurava o queixo; Sua fronte era igual e larga; Suas faces um
pouco emagrecidas e pálidas; Seu pescoço longo; Sua Cabeça
inclinada. Sob esta admirável forma considerei o Senhor por muito
tempo, desfalecendo-me o coração em doçura e amor.
Subitamente a fisionomia do
Cristo mudou e tomou a expressão que tinha durante a Paixão. Vi-O
coroado de espinhos, inundado de Sangue. Seu estado arrancava-me
lágrimas amargas, morria de compaixão; parecia-me sentir em minha
cabeça o contragolpe dos espinhos que rasgavam a Sua. O povo
gritava, e todos exprimiam a sua admiração vendo cada qual
espetáculo diferente: estes, um menino encantador, aqueles, um
adolescente, outros, um adulto, outros enfim, Jesus moribundo.
Imagine-se a emoção desses felizes espectadores, pois sou incapaz
de descrevê-la”.
Caro
leitor, repassa muitas vezes em teu espírito a utilidade do Santo
Sacrifício da Missa, onde Jesus Cristo te faz participar dos méritos
infinitos de Sua santíssima Vida e de Sua Paixão. Se fosse tão
fácil adquirir bens temporais, não perderíamos um instante e não
pouparíamos nenhum trabalho. Como, pois, somos tão pouco
diligentes, quando se trata das riquezas eternas e dos tesouros que
nem a ferrugem nem os ladrões podem nos arrebatar?
__________________________________
Fonte:
“Explicação da Santa Missa”, pelo Venerável Martinho de
Cochem, O.F.M.Cap., Cap.
VI, pp. 99-105.
2ª Edição, Typ. de S. Francisco, Bahia, 1914.