“Diálogo
do homem que é concebido no ventre materno
e
por infortúnio não nasce à luz do dia e,
sem
receber o Sacramento do Batismo,
vai
sua alma para o Limbo,
casa
de sua eternidade”
(Fr.
Antônio do Sacramento).
“Que
aos 40 dias, pouco mais ou menos, sendo varão, ou aos 80, sendo
fêmea, é criada a alma imediatamente por Deus e infundida no corpo
organizado no ventre materno, e ficam os dois, corpo e alma, uma
criatura humana vivente. No mesmo instante, ao nosso modo de
explicar, fala a alma com Deus, que a criou do nada, à Sua
semelhança, e lhe rende as graças por tão grande benefício,
submergida no profundo conhecimento do seu nada e no claro
conhecimento do imenso mar do Ser Divino.
► Alma:
Senhor de infinita grandeza, (diz a alma falando com Deus), que a
tudo o que tem ser criastes do nada, para glória Vossa: rendo-Vos as
graças pelo incomparável benefício de me criardes do nada, e de me
fazerdes a Vossa semelhança. Donde mereci, meu infinito bem, gozar
de tão grande benefício? Neste instante próximo passado era nada,
se é que o nada tem ser: e agora sou um espírito perfeito, mui
semelhante aos espíritos angélicos na sua criação. Já sei, pelo
conhecimento que me dais, que sou criada para Vos gozar por toda a
eternidade, e para Vos honrar, por serdes digno de toda a honra e
glória. Mas ai de mim, Senhor, que visto ser preciso unir-me com
este corpo, organizado por virtude da natureza no ventre materno, com
especial concurso da Vossa providência, receio muito, que me seja
contrário nos progressos da vida, e que venha, por causa de seus
apetites, a perder-Vos por toda a eternidade! É possível, meu Deus,
que, sendo criada em vosso agrado, tão pouco tempo hei de lograr
este bem! Que no instante, que me unir a este corpo, imundo pelas
imperfeições da natureza corrupta e horroroso pelas máculas da
culpa, hei de ficar asquerosa aos Vossos Divinos olhos! Que sem
remédio hei de contrair o reato da culpa de Adão e Eva, só com me
unir a este corpo, que deles traz sua origem! Que hei de ficar
exposta a tantos trabalhos da vida humana, em perigo de vos perder
por toda a eternidade! Com tudo, Senhor, rendo-me de boa vontade às
Vossas divinas determinações; pois conheço que são inescrutáveis
Vossos juízos (Apoc. 16, 7).
Levado
da Sua infinita bondade, fala Deus à alma e a consola, para que
entre a informar o corpo, por ser isto muito do Seu divino agrado.
► Deus:
Filha Minha, a quem do nada criei à Minha semelhança, e a quem
tenho um amor infinito. Bem vejo que és mais escolhida que o sol,
mais formosa que a lua e mais resplandecente que a estrela d’Alva
(Cânt. 6, 9); e que, com a união que estás para fazer com este
corpo, imundo pelo pecado, hás de ficar asquerosa como lepra, e
horrorosa como a noite escura; porém, atendendo à Lei que pus a
Adão e Eva, como eles transgrediram o Meu Preceito, não há remédio
senão que informes esse corpo amaldiçoado, e que fiques contraindo
a culpa de Adão. Executa com submisso rendimento esta Minha
determinação, que te darei meios, como dei aos primeiros pais, para
que chegues a lograr a Minha Bem-aventurada vista, com mais realce da
Minha graça. Dou-te a vontade livre, para que, chegando tu e o
corpo, teu companheiro, à luz do dia e à luz da razão, escolhas o
que melhor te estiver a gosto, ou salvação ou condenação eterna.
Para te segurares no melhor partido: na Minha Igreja tens uma Lei
e um Batismo, os quais, juntos com boas obras, são porta franca para
a Minha glória (S. Jo. 3, 5). Entra já, e não temas.
Novamente
falando a alma com Deus, lhe expressa seus temores, para entrar à
união do corpo.
► Alma:
Muito me agradará, Senhor e Deus meu, o dar cumprimento à Vossa
divina Vontade, que devo antepor a todo o meu desejo; porém, oh,
quanto temo que a entrada neste corpo hediondo seja para minha
perdição eterna! Este corpo sempre será contrário ao espírito; e
só por milagre da Vossa Divina Onipotência se sujeitará às leis
da razão. De certo teremos uma guerra contínua toda à vida (Jó 7,
1), ainda que espere na Vossa infinita bondade o subjugarei, quanto
for possível, para que siga as leis da razão, e não as do apetite,
em termos que se siga a Vossa glória, e eu chegue a lograr a Vossa
vista. Mas ai, que não sei se este corpo, que me mandais
informar, para que tenha espírito de vida, é gerado de pais
gentios, ou de maometanos, ou de hebreus, ou de hereges, ou de
cismáticos, que não Vos conheçam ou não Vos amem! E, neste lance,
dificultosa será a minha salvação; porque, pela criação, que nos
hajam de dar, ficarei instruída em erros, sem o Vosso santo temor,
sem conhecimento de Vosso Santo Nome e sem Batismo e quando não seja
condenada a penas eternas, por não ter cometido pecados atuais em
matéria grave, ficarei sem gozar para sempre da Vossa vista! Ó
Senhor, a quem adoro submergida na profundeza do meu nada: que é
isto, a que me expõe Vossa ciência infinita?
Responde
Deus à alma e lhe diz: que não esquadrinhe os inescrutáveis
segredos da Sua Providência!
► Deus:
Não te compete, Minha filha, saber os segredos da Minha
Providência. Sou Senhor Onipotente; e na Minha poderosa mão está o
fazer vasos de escolha ou de injúria: sem fazer injustiça aos
vasos, não obstante serem todos fabricados do mesmo barro (Rom. 9,
21). Determino-te que informes este corpo, e com tua união fique em
estado de vivente; e assim como receias que seja oriundo de pais
que, pelos seus maus costumes, te desviem da Minha Lei e da Minha
Graça, e que sejam causa motiva da tua condenação eterna: também
podes informar um corpo oriundo de pais virtuosos, que te dirijam
pelos caminhos da santidade, e gozes para sempre da Minha gloriosa
vista. O certo é que, ou os pais deste corpo que informas sejam bons
ou maus, se morreres sem Batismo, será a tua sorte a de ires ser
habitante do lugar do Limbo, nas profundezas da terra, até o dia
Juízo; e se chegares a sair à luz do dia e à luz da razão, na tua
vontade fica escolher boa ou má sorte, ou de salvação ou de
condenação: pois não hei de faltar em te assistir com todos os
meios para te salvar. Ainda que em Minhas mãos poderosas estejam
todas as boas sortes, na vontade, que te deixo livre, está o poderes
escolher da Minha mão uma sorte boa. Entra já a informar este
corpo, e não inquiras mais os segredos da Minha Providência; porque
estes não estão subordinados à vontade das criaturas e só saem à
luz, quando são executados pelas Minhas determinações soberanas.
Fala
a alma ao corpo, antes de o informar; expressando o grande horror que
lhe tem.
► Alma:
Irmão corpo, a quem vejo, como sepultado, no apertado túmulo do
ventre materno, cheio de fealdades, tendo mais demonstrações de
monstro, do que de homem: a quem tua mãe, pouco tempo há, concebeu
em pecados, elevada em seus apetites: Dou-te parte, que és, e não
outro, aquele a quem, por determinação da Divina Vontade, venho
informar com espírito de vida. Comigo hás de viver unido, e
inseparável, em todo o tempo que formos peregrinos no mundo. Por
esta união ficarei (oh desgraça maior) contraindo o Pecado
Original, que tu e teus ascendentes contraíram em Adão (Rom. 5,
12). Uniformemente seremos participantes dos trabalhos e dos gostos
da vida: e depois da morte, a que ficamos sujeitos, seremos
participantes, a seu tempo, ou da salvação ou da condenação, por
séculos sem fim. Hás de entender, irmão corpo, que sou um espírito
nobilíssimo, criado imediatamente por Deus, e que tu és vil,
oriundo da terra, vaso de barro e frágil. Se, pelo benefício de te
dar alentos de vida e te associar a mim com estreita união, me fores
fiel companheiro, conseguiremos uma boa sorte, que é, na vida
mortal, amar a Deus e depois na vida, que esperamos, o goza-Lo para
sempre. No meu domínio e na tua obediência, estará a nossa dita.
Responde
o corpo à alma, agradecendo-lhe o benefício de o fazer vivente e de
admiti-lo à sua companhia.
► Corpo:
Nobilíssimo espírito, imediatamente criado por Deus, com
evidentes demonstrações de Sua imagem: Seja em boa hora a tua vinda
a informar-me com espíritos de vivente. Faço-te saber que sou tão
miserável, que, tendo minha origem da terra, e neste cárcere
materno, onde me vês, tenho aparências de monstro. Tão hediondo
estou, que, se desta sorte, que me queres informar, fosse visto do
mundo, a todos causaria espanto. Porém, rogo-te, alma, que me
infundas os espíritos de vivente; que espero no Senhor, que te
criou, de te ser fiel em tudo. Advirto-te, que não te fies nas
minhas promessas; porque, como sou barro (Gên. 5, 19), sou
quebradiço, e como sou pó, qualquer vento me leva, e tudo depois
acaba em ruína. Bem conheço a diferença que há entre mim e ti:
que eu sou corpo caduco, e tu és espírito perfeito; eu sou criado,
e tu és senhora; eu sou vil, e tu és nobilíssima; imortal, à tua
parte compete o mando, e à minha, a obediência. Se me tratares com
rigor, serei fiel servo; e se me lisonjeares com amor, ser-te-ei
ingrato. Usa alma, do teu direito, se queres ter em mim domínio: eu
estou pronto para te obedecer; porém, não faltes em me subjugar.
Havendo entre nós esta economia, haverá em nós vida, graça e
glória.
Informa
a alma ao corpo, e ficam um composto vivente, companheiros
inseparáveis por toda a vida.
► Alma:
Sem demora, irmão corpo, te dou alentos de vida; porque assim o
determina o Autor da Natureza e da Graça. Recebe em boa paz este
íntimo abraço que te dou. É tão íntimo e apertado este abraço,
que durará em perfeita união por toda a vida caduca, e depois do
Juízo Final durará, com nova reunião, por toda a eternidade. Oh,
praza à Majestade Divina, que esta nossa união seja para glória
eterna, e não para eterna pena! Irmão corpo: Enquanto estivermos
encerrados neste cárcere materno, me sujeito a todos os teus
movimentos; porque me acho em estado de não poder usar de minhas
potências. Estou adormecida, mais com aparências de morta, do que
com realidades de viva: porém, se sairmos à luz do mundo, usarei a
seu tempo do meu direito. Espero que me reconheças por senhora, e a
ti por servo, para que, em tudo, trabalhemos com acerto, e Deus seja
em nós glorificado.
Alma
e corpo agradecem a Deus o estado de viventes, em que se acham no
ventre materno: lamentando-se da sua prisão e do perigo, em que
existem, de não saírem à luz do dia, pelo nascimento, e à luz da
Graça, pelo Batismo.
► Alma
e Corpo: Altíssimo Deus, Criador de tudo e Salvador nosso:
Infinitas graças Vos sejam dadas pelo incomparável benefício de
nos tirardes do nada para o ser, e de nos dardes alentos de vida.
Aqui estamos em perfeita união neste cárcere materno, rendidos às
determinações de Vossa Santíssima Vontade; e intimamente desejamos
que se cumpra em tudo que for de glória Vossa. Pedimo-Vos, porém,
se não encontra Vossas Divinas determinações, que nos livreis de
perigos de vida nesta escura prisão; pois são sem número os que
nos acometem: e será grande desgraça nossa não chegar pelo
nascimento à luz do dia, para conseguirmos pelo Batismo a luz da
Graça e ficarmos em via de merecer a Vossa glória. Senhor valha-nos
a Vossa poderosa mão, para que saiamos deste miserável mar às
praias do mundo, e que não aconteça que, por descuido de nossa mãe,
ou por algum infortúnio, passemos deste escuro cárcere para as
regiões da eternidade, sem esperança de lograr o bem de Vossa
Bem-aventurada vista.
Consola
Deus aos dois companheiros, alma e corpo, animando-os, para que
estejam conformes com Sua Santíssima Vontade em todo o infortúnio,
que lhes possa acometer no ventre materno.
► Deus:
Criaturas Minhas, a quem fiz à Minha semelhança, e a quem dei o
ser e a vida, por altos fins da Minha Providência: Chegam a Meus
ouvidos vossas vozes, e ferem Meu Coração vossas misérias. Tende
paciência nos trabalhos e confortai-vos nos infortúnios. Ide
continuando os movimentos de viventes nesses apertos do útero e
nessas escuridades do ventre, para que a seu tempo chegueis a sair à
região dos peregrinos. A natureza, de quem Sou Autor, também
concorrerá com o que lhe toca à sua parte; causados pela
negligência dos pais e pela malícia das criaturas. Com minha mão
poderosa poderia desviar tudo; porém, como deixo obrar as causas
segundas, por não revogar as Minhas determinações primeiras, daí
se segue ficarem algumas vezes frustradas muitas coisas, que
determinava em bem de Minhas almas. Dou-Vos a Minha Santa Bênção,
e continuai com o movimento de viventes neste lugar em que vos
achais.
Por
descuido da mãe, ou por indisposição da natureza, ou por
industriosa malícia de alguma criatura, morre no útero o feto
animado; e em tal infortúnio se aparta a alma do corpo, caminhando
um e outro para o seu lugar determinado, e lamentando sua
infelicidade.
► Alma:
Irmão corpo (lamenta a alma), com quem, poucas horas, ou poucos
dias, ou poucos meses há, me uni tão estreitamente: É possível
que, entre tantas almas e corpos que, ao depois de criados, tiveram a
felicidade de sair à luz do dia, de receberem a luz da Graça, de
terem a luz do da razão, de possuírem a luz da Fé e de gozarem a
luz da glória, só nós não havíamos de ter esta alegria! Deste
escuro cárcere do ventre materno, onde estamos com prisões tão
apertadas, havemos de ir, tu para um monturo, a converter-te em
terra, e eu para o Limbo, para estar na companhia de outras almas,
pouco afortunadas, a esperar em obscuridade a vinda do Senhor a Juízo
Final, para sermos outra vez reunidos, sem esperanças de ver a
Divindade do Altíssimo por toda a eternidade! Vai, irmão corpo,
seguindo o teu caminho para este monturo: converte-te em terra
(Gên. 3, 19), e nela descansa até o Juízo Último; que então
virei informar-te outra vez, para sermos inseparáveis companheiros
no lugar, à que Deus nos mandar ter nossa habitação por toda a
eternidade.
Despede-se
também o corpo da alma, lamentando sua desgraça em não chegar à
luz do dia e em perder o direito da glória.
► Corpo:
Alma minha e muito amada senhora: Oh, quanto glorioso estava, por
me teres dado alentos de vida, e por possuir a esperança de merecer
no mundo com boas obras a Bem-aventurança eterna! E agora quão
triste me afasto da tua sociedade! Vou ser lançado na terra, como se
fosse terra; e a mesma mãe, que me concebeu, é a primeira que
aborrece minha presença. Serei lançado em um monturo com nojo, e
quando falarem em mim será com espanto. Serei desprezado, como se
não chegasse ao ser da vida, e minha lembrança ficará sepultada na
mesma terra, onde me derem o jazigo. Vou esperar nesse monturo a
Ressurreição dos Mortos; e então virás com virtude superior
informar esta pouca terra, que de mim se conservará, e ressurgirei
melhorado; porque por virtude Divina crescerei a estatura perfeita,
sem estas imperfeições, que agora tenho. Esse será o dia, em que
nos ajuntaremos com união tão inseparável, que jamais nos
dividiremos por séculos sem fim. É verdade que seremos sempre
acompanhados da pena de não podermos ver a Deus na glória, ainda
que, com todos os mais filhos de Adão, teremos a alegria de ver no
dia do Juízo ao Redentor do Mundo, Jesus Cristo Nosso Rei (S. Mat.
24, 30), não quanto ao Ser Divino, senão quanto ao ser Humano.
Depois de assistirmos ao Juízo Universal e de vermos a Cristo,
triunfante de Seus inimigos, subir com Glória e Majestade para a
Bem-aventurança, com todos os Anjos e Justos na Sua Companhia; e
depois de vermos submergidos nas entranhas da terra aos condenados e
ficarem nos Infernos penando por toda a eternidade (S. Mat. 25, 41):
ficaremos no nosso competente lugar para sempre, com todos os mais
corpos e almas, a quem coube esta nossa sorte. Vai com Deus, alma,
para esse cárcere do Limbo, louvar aos altos juízos do Senhor; que
eu cá te espero para a ressurreição geral, e serás para sempre
minha inseparável companheira.
Parte
a alma para o Limbo, lugar no centro da terra, e mutuamente se saúda
com as almas, que estão naquele lugar, consolando-se com a sua
sorte.
►

Alma:
Almas, que estais encerradas neste estreito lugar do centro da
terra: Aqui sou chegada a vossa companhia, para vos fazer perpétua
sociedade na vossa pena. A vossa sorte em tudo foi como a minha:
disposições foram do Altíssimo, cujos segredos são
incompreensíveis ao entendimento criado. Consolemo-nos umas com as
outras, e rendamos contínuos louvores ao Senhor, que assim foi
servido. Esta consideração nos alentará neste lugar; porque
suposto não seja bastante para nos aliviar a saudade, procedida da
certeza de não podermos ver a Face de Deus, sempre nos consolará na
nossa pena; e porque estamos livres da mágoa, que tem os que
ofenderam ao nosso Criador com alguma culpa atual. Não nos seja
pesada esta prisão, até a Segunda Vinda do Senhor, a julgar ao
mundo; pois os Santos Padres antigos também experimentaram aqui
semelhante prisão, até a Primeira Vinda do mesmo Senhor a remir com
Sua Morte aos homens do cativeiro do pecado. Algum dia há de ter fim
esta nossa prisão, e dizem que será para o dia do Juízo Final,
quando cada um de nós for informar, por virtude Divina, o corpo, seu
antigo companheiro, para viver com ele de sociedade para sempre.
Iremos naquele tremendo dia com os mais filhos de Adão a juízo,
unidas aos nossos corpos (S. Mat. 25, 32): e então teremos a
consolação de ver ao nosso Criador, a Maria Santíssima, Sua Mãe e
nossa Irmã, aos Anjos, aos Bem-aventurados, e aos nossos pais,
parentes e irmãos, dos quais pode ser que uns subam em triunfo com o
Redentor para a Glória, e outros desçam em confusão com Lúcifer
para o Inferno. Então, segundo se afirma, ficaremos povoando o mundo
reformado e vivendo em contentamento e alegria, como haviam de viver
os nossos primeiros Pais no Paraíso, se não decaíssem da Graça
Original. Também, segundo a mais pia opinião, veremos daquele lugar
onde habitarmos, a Humanidade de Cristo Senhor Nosso na
Bem-aventurança, a presença de Maria Santíssima e a dos
Bem-aventurados. Porém (ó saudade sem limite), não veremos a
Divindade e Glória de Deus; porque não tivemos a fortuna de entrar
na Igreja Militante pela porta do Batismo e pela luz da Fé, que são
as portas, por onde o Senhor franqueia a entrada para a
Bem-aventurança. Consolemo-nos, caríssimas irmãs, pois assim o
dispôs o Altíssimo; e como esta é a nossa fortuna, determinada
pela Sua Divina Vontade, devemos conformar-nos com ela e fazer ao
mesmo Senhor contínuas canções de louvor e glória.
Correspondem
as almas do Limbo à alma, sua nova companheira, com semelhantes
consolações.
► Almas
do Limbo: Nossa irmã caríssima: Bem-vinda sejais para a nossa
sociedade. Agradecemos muito a consolação, que nos dais nas vossas
palavras, fundadas em tanta razão e em tão bons princípios. Muitas
de nós aqui estão encarceradas há muitas centenas de anos, e
sempre temos estado conformes com a Vontade Divina. Serve-nos de
grande consolação considerarmos que isto foram disposições do
Altíssimo para glória Sua. De certo entendemos que o Senhor nos fez
uma incomparável mercê em nos criar do nada à Sua semelhança e
que, suposto não esperemos gozar da Sua Divindade, sempre temos a
confiança, que havemos de gozar para sempre da Sua Bênção e do
Seu Amor. Depois que informarmos os nossos corpos na Ressurreição
Geral, teremos os dotes naturais em grau perfeito, e gozaremos neste
lugar, que Deus nos permitir, que dizem será o mundo reformado,
todas as delícias castas e divertimentos honestos. Serão tais estes
regozijos, que nunca haverá no mundo semelhantes, enquanto for
habitado dos mortais; e segundo já nos insinuastes, teremos,
conforme a opinião de alguns autores, grandes consolações com a
vista da Santíssima Humanidade de Cristo, de Maria Santíssima, dos
Anjos e dos Bem-aventurados. Os astros e planetas, que sempre
seguiram seu curso, nos darão benignas influências, e os elementos
nos serão em extremos saudáveis. Veremos desta nossa habitação
estes horrendos calabouços, principalmente o lugar e os tormentos
dos condenados, sem termos da sua desgraça alguma pena, porque eles
assim o mereceram pelas suas culpas. Com muitas danças honestas e
canções devotas, louvaremos ao Senhor em alegria e, desta sorte,
aliviaremos a saudade de não ver a Sua Divina Face. Passarão as
continuadas rodas dos séculos e voltarão a principiar, sem nunca
terem fim; e em disposição perfeita, com notável agilidade, e com
grande contentamento, viveremos enquanto Deus for Deus. Esta é a
sorte, que nos espera depois de sairmos deste cárcere subterrâneo,
e dela gozaremos, nós que somos milhões de almas que aqui estamos:
sendo a causa desta nossa sorte, em umas, o não chegarem a ver a luz
do dia; porque expiraram no ventre de suas mães; em outras, porque
nasceram ao mundo e morreram sem Batismo; e, em outras, porque sendo
filhas de gentios, maometanos, hebreus e de hereges, acabaram a vida
sem Batismo e sem cometerem culpa mortal”.
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Fonte:
Fr. Antônio do Sacramento, da Sagrada Religião dos Observantes
da Província de Portugal, “Ventura do Homem Predestinado e
Desgraça do Homem Precito”, Diálogo I, pp. 15-29, 1ª Edição
Brasileira, Ed. Vozes, 1938.