Após
as núpcias, os dois Santos Esposos viveram juntos em Nazaré,
provendo ao sustento com o trabalho das próprias mãos. Maria
desempenhava as ocupações caseiras e José continuou a exercer o
mister de carpinteiro, mas sempre antepondo, cada dia, longas preces
ao Senhor, orando e louvando-O também no decurso do trabalho.
Levantava-se
bem cedo pela manhã e, terminadas as orações ia despedir-se da
Senhora, a quem encontrava em seu quartinho, atenta à oração.
Depois, dirigia-se para a sua oficina. Trabalhando, considerava-se
sempre na presença de Deus, e, à glória de Deus, oferecia sempre
as próprias fadigas e suores. Executava os trabalhos com tanta
paciência e perícia que não poderiam ser melhor executados. Assim,
não só evitava o ócio, mas com os frutos das fadigas provia ao
sustento para si, para a Virgem, e muitas vezes também para os
pobrezinhos.
Seus
concidadãos, vendo tanta diligência, modéstia e assiduidade,
gostavam de ir a ele, e, admirando seus trabalhos tão bem
terminados, demonstravam grande desejo de possuí-los; de fato, cada
um lhe pedia, ora uma coisa, ora outra. O Santo se prestava a todos e
sempre se contentava com o preço que, em justa compensação dos
trabalhos executados, lhe ofereciam, o que lhe aumentava cada vez
mais a estima e afeto.
Nunca
recusava qualquer trabalho exigido, pois sabia executar trabalhos de
toda espécie. Construía casinhas de madeira, tabiques, estacadas,
arados, jugos para bois, carros, armários, ombreiras e muitos outros
objetos. Trabalhando, sabia falar de Deus, do Messias esperado, dos
deveres do homem, de maneira que todos quantos iam ouvi-lo,
regressavam admirados, mais do que se tivessem ouvido as explicações
da Sagrada Escritura na Sinagoga, como era costume no sábado.
Maria
mesma revelou a Santa Brígida as grandes virtudes de que São José lhe
dava exemplo, dizendo:
“Entre
os serviços e cuidados do governo doméstico, jamais ouvi sair de
seus lábios uma palavra vã ou um lamento de impaciência. Sofria a
pobreza com perfeita resignação; nas dificuldades, aceitava sem
discussão os mais rudes trabalhos. Era cheio de doçura e
afabilidade para todos; o respeito e afeto para Comigo era imenso.
Era
fiel custódio de minha virgindade e um testemunho digníssimo de fé
a respeito das maravilhas que Deus operara em Mim. Estava morto para
a carne e para o mundo e, não vivia senão para o Céu. Tinha uma
confiança tão firme nas divinas promessas, que muitas vezes eu o
ouvi dizer: ‘Se desejo viver, é somente para ver sempre, e em
tudo, cumprida a vontade de Deus’. Era o único objetivo, e por
isso, é agora tão grande a sua glória no Céu”.
Também
a Senhora dava exemplos de sublime santidade. Não tinha em casa nem
servas, nem outras pessoas para auxiliá-La; tudo fazia Ela mesma,
desde tirar água do poço até buscar lenha e prover tudo quanto era
necessário. Mantinha a casa em ordem e muito asseada, preparava os
alimentos e roupas para São José e para Si mesma. Fazia sempre tudo
com tanta alegria e precisão, que todos quantos A viam, ficavam
imensamente maravilhados. Oh! Que delícia naquela casa! E que
consolação para São José ter uma companheira tão experiente,
benigna e santa!
Não
transcorreu, porém, muito tempo e sucedeu um extraordinário e
maravilhoso acontecimento. O Filho de Deus encarnou-Se no seio
puríssimo de Maria. Eis o fato como aparece narrado pelo Evangelho:
Estando Maria desposada com José, pouco tempo depois de se acharem
vivendo juntos em Nazaré, achando-se Ela só e absorta na oração,
apareceu-Lhe inesperadamente o Arcanjo Gabriel e Lhe disse: “Eu
Te saúdo, ó cheia de graça; o Senhor é contigo, bendita és Tu
entre as mulheres”.
À
vista do Anjo e ao ouvir essas palavras de louvor, Maria perturbou-se
e pensava no que significaria aquela saudação. O Arcanjo A
tranquilizou, dizendo: “Não temas, Maria, pois achaste graça
diante de Deus. Serás Mãe e terás um filho ao qual darás o nome
de Jesus. Este será grande e será chamado Filho do Altíssimo; e o
Senhor Deus Lhe dará o trono de Davi seu pai; e reinará sobre a
casa de Jacó eternamente; e o seu reino não terá fim”.
A
estas palavras do Arcanjo, Maria perturbou-se mais ainda e responde:
Vós me dizeis em nome de Deus que me tornarei Mãe; mas como será
possível, estando eu consagrada a Ele com voto perpétuo de
virgindade? “Como se fará isto, pois não conheço varão?”
E o Anjo Lhe respondeu: “O Espírito Santo descerá sobre Ti, e
a virtude do Altíssimo Te cobrirá com a sua sombra; por isso, o
Santo que há de nascer, será chamado Filho de Deus”.
Por
estas palavras, compreendeu Maria o grande Mistério que Lhe era
anunciado, isto é, que tornaria Mãe de Deus por obra do Espírito
Santo, sem perder a própria virgindade. E, dócil como era à
vontade de Deus, inclinou reverente a fronte e disse ao Arcanjo: “Eis
a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra”.
Terminadas
essas palavras, o Arcanjo desapareceu e Maria permaneceu sozinha em
seu quarto.
Que
acontecimento solene e memorável para Maria, para nós, para o mundo
inteiro e para todos os séculos! No instante em que Maria inclinou a
fronte e disse: “Faça-se em mim segundo a tua palavra”, o
Espírito Santo descia ao seu puríssimo seio, com seu sangue
virginal formava um corpo ao qual unia uma alma como a nossa. A esse
corpo e alma, milagrosamente formados, o Filho de Deus unia a própria
Divindade, isto é, Encarnava-Se, fazia-Se verdadeiro homem sem
cessar de ser verdadeiro Deus. Naquele instante, realizava-se o grande
Mistério da Encarnação no seio puríssimo de Maria, e Ela,
verdadeira esposa de José, sem deixar de ser Virgem, tornou-se
verdadeira Mãe de Deus.
Nesse
acontecimento, não se fala diretamente de São José, mas
indiretamente, tendo Maria perguntado ao Arcanjo: “Como posso
tornar-me Mãe, eu que sou e quero permanecer Virgem?” Destas
palavras se conclui que Ela, após o Matrimônio com São José
conservavam o candor virginal. Não é uma opinião, mas uma certeza,
pois é de fé, que Maria Santíssima foi Virgem tanto antes como
depois das núpcias com São José.
Observa
Santo Ambrósio: “Deus imprimiu no semblante de Maria tais
aparências e atrativos, tanta graça, e comunicou às suas
palavras, tanta virtude que, bastava vê-La para ficar enamorado da
virtude da virgindade”.
Ora,
se um olhar, uma palavra de Maria bastava para inspirar em quem quer
que fosse um grande amor à virgindade, que estímulo para
aperfeiçoar-se nesta virtude não terá achado em Maria, São José
que tinha com Ela confiança e afabilidade?*
*Escreve
o Pe. Joaquim Ventura: “Este dom de Deus, a beleza, por si mesma
inocente, que faz tantos culpados, que serve de incentivo ao pecado,
que corrompe os olhares; que produz o orgulho em quem a possui e
desejos profanos em quem a contempla; a beleza, flor agradável à
vista, mas sob cujas pétalas oculta-se muitas vezes a Serpente que
envenena e causa a morte; a beleza, nestes dois Esposos, elevados
pela graça ao estado da natureza angélica e perfeita, não fazia
senão aumentar os valores recíprocos de seu candor, cujo ornamento
formava. A beleza era-lhes encanto suave e celeste, que purificava,
que lhes elevava o coração da região dos sentidos para a do
espírito; favorecia-lhes apenas um respeito mútuo, santos
pensamentos, afetos pudicos, e era fomento de virgindade”.
Por
conseguinte, cada vez que imaginamos São José com Maria em Nazaré,
coloquemos sempre em sua mão um belo lírio, símbolo de sua
virgindade, pois deve lembrar-nos o Coração mais casto e mais
delicado após o de Maria.
O
Arcanjo Gabriel, ao anunciar a Maria o Mistério da Encarnação,
dissera-Lhe que Santa Isabel, sua prima, embora já avançada em
anos, estava para tornar-se mãe. “Maria,
em uma visão espiritual,
diz Ágreda, conheceu
que o filho de Santa Isabel seria grande diante de Deus, Profeta e
Precursor do Verbo Encarnado, sendo portanto, vontade do Senhor
visitasse a parenta, para que fosse santificada e São João, seu
filho, libertado da Culpa Original. Movida, pois, por um sentimento
de vivíssima caridade, pôs-se logo a caminho, para levar à prima o
conforto e auxílio em suas necessidades.
Entretanto,
não foi só, mas acompanhada por seu castíssimo Esposo São José.
O Evangelho cala esta circunstância, por não ter relação direta
com o Mistério da Encarnação, mas muitos autores, entre os quais
São Boaventura, São Bernardino de Sena, Gérson, Suárez,
admitem-na. O Evangelho não a menciona, mas não diz que tenha ele
permanecido em casa e Maria ido sozinha.
Seria
possível que o “Homem justo”, concedido a Maria para companheiro
fiel, custódio nos perigos, consolador nas adversidades, tivesse
abandonado a jovem e delicada esposa num momento em que mais
necessitava de sua presença e auxílio, deixando-A partir sozinha em
uma viagem de cerca de três dias, por estradas difíceis e
perigosas? O mesmo espírito de caridade que levou Maria a dirigir-se
para a Judeia a fim de levar conforto à prima Isabel, induziu também
São José a acompanhá-La repartindo com Ela as dificuldades de tão
longa viagem. Dispondo pois tudo quanto poderia ser necessário,
puseram-se a caminho, invocando em seus Corações o auxílio do
Senhor e dos Anjos da Guarda.
Escreve
São Francisco de Sales: “Maria
empreende a viagem com certo alvoroço; com efeito, diz o Evangelho,
que se fez com grande pressa. Ò santa solicitude que não perturba e
nos apressa sem precipitação: Os Anjos se dispunham a acompanhá-La e São José a conduzi-La. Desejaria saber o objeto da conversação
dessas duas grandes almas, e vós leríeis com prazer a minha
narrativa. Mas creio que a Virgem se entretinha apenas a respeito do
que A cumulava, e respirava somente o Salvador.
São
José, igualmente, aspirava apenas ao Salvador que, por raios
secretos, feria-lhe o coração com mil extraordinários sentimentos.
E assim como o vinho encerrado no tonel rescende, sem que se perceba,
o perfume das vinhas em flor, assim o coração do Santo Patriarca
sentia, sem saber como, o perfume, o sabor, a força do divino
Infante que florescera em sua mimosa vinha… Ó Deus! Que bela
peregrinação! O Salvador lhes é bordão, alimento e bebida”.
A
viagem era difícil, árdua e por bosques algumas vezes quase
inacessíveis, tanto mais que procuravam passar em lugares solitários
e possuíam apenas um mísero jumento.
Mas
o amor não sente a fadiga, e a companhia das pessoas amadas faz
suportar com alegria os maiores incômodos, especialmente quando o
Espírito de Deus paira com elas. Será pois para admirar-se que
Maria e José, ora edificando-se alternativamente com santas
palavras, ora recolhendo-se cada um em oração ao Senhor, não
sentissem o peso da longa viagem e chegassem à casa de Zacarias mais
dispostos e animados às obras de caridade do que ao partirem?
Apenas
entraram em casa de Isabel, a Santíssima Virgem saudou sua parenta
com o título de Mãe do grande Profeta e Precursor. Isabel retribuiu
a saudação a Maria, chamando-A Mãe do Verbo, e exclamou: “E
donde me é concebido que a Mãe do meu Senhor venha ter comigo?”
A
essas palavras, respondeu a Virgem Santíssima com o belíssimo
cântico: o Magnificat,
que jamais cessará, no decurso dos séculos, de despertar a
admiração de todos.
“A
minha alma glorifica o Senhor, e o meu espírito exulta em Deus meu
Salvador! Porque lançou os olhos para a humildade da sua serva; e
eis que, de hoje em diante, todas as gerações me chamarão
Bem-aventurada; porque
fez em mim grandes coisas o Onipotente, cujo nome é Santo; e cuja
misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que
O temem. Manifestou o poder do seu braço; dissipou aqueles que se
orgulhavam nos pensamentos do seu coração. Depôs do trono os
poderosos, e elevou os humildes. Encheu de bens os famintos, e
despediu vazios os ricos. Tomou cuidado de Israel, seu servo,
lembrado da sua misericórdia; conforme tinha dito a nossos pais, a
Abraão e à sua posteridade para sempre”.
São
José, desconhecendo o Mistério realizado no seio de Maria por obra
do Espírito Santo, não pode compreender plenamente o altíssimo
significado das palavras de Isabel e de Maria. Teve, porém, motivo
para admirar cada vez mais a obra da graça em sua Santa Esposa, e
esperar o momento em que aprazeria ao Senhor revelar-lhe os divinos
segredos.
Os
Santos esposos ali se entretiveram cerca de três meses. Depois,
trocados os abraços e agradecimentos daquelas santas criaturas, com
grande alegria regressaram a Nazaré.
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Fonte:
Rev. Pe. Tarcísio M.
Ravina, da Pia Sociedade de São Paulo, São
José – na Vida de Jesus Cristo, na Vida da Igreja, no Antigo
Testamento, no Ensino dos Papas, na Devoção dos Fiéis e nas
Manifestações Milagrosas; 1ª
Parte, pp. 33-40.
Edições Paulinas, Recife,
1954.