BLOG CATÓLICO PARA OS CATÓLICOS.

BLOG CATÓLICO, PARA OS CATÓLICOS.

"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

sábado, 8 de abril de 2023

SEXTA-FEIRA SANTA.


Este dia, chamado também de sexta-feira maior, por causa do grande Mistério da nossa Redenção, nele operado, desde sempre foi olhado como o mais Santo, o mais Augusto e o mais Venerando de todos os dias, e aquele que os Cristãos têm sempre celebrado com mais devoção. É o grande dia das misericórdias do Senhor, pois é o dia em que este divino Salvador quis, por excesso de amor incompreensível a todo o entendimento criado, sofrer os mais atrozes tormentos, expirar ignominiosamente em uma cruz, para que, diz o sagrado texto, fôssemos curados com Suas Chagas, lavados com Seu Sangue, purificados e justificados pela sentença de Sua condenação, e para que em Sua morte achássemos o princípio de nossa vida. Este é o grande dia das expiações, pois é o grande dia em que Jesus Cristo expiou com Seu Sangue os pecados de todos os homens. “O homem que não se mostrar sensibilizado neste dia da expiação, dizia o Senhor, perecerá em meio de seu povo”.

Queria Deus que no dia destinado para as expiações de Seu povo, todos se movessem à dor; e se por desgraça houvesse algum tão insensível e tão endurecido, que não participasse da aflição comum, ordenava que fosse exterminado e que não se contasse mais entre o Seu povo. Este é o grande dia das expiações. Porventura, não tem Deus direito para dizer neste dia: a alma, que não se afligir neste dia perecerá? E que seria, se, ao passo que o amor de um Deus se mostra tão sensível a nossos interesses, nós nos mostrássemos insensíveis a Suas penas? Esta insensibilidade e indiferença não seria um caráter visível de reprovação?

Nenhum dia do ano é mais respeitável, nenhum, para assim dizer, mais cristão, nenhum mais distinto que o de Sexta-feira Santa.

Sua celebridade nasceu com a Igreja. Todos são de parecer que os Apóstolos, instituíram aquelas festas cujos Mistérios se desenrolaram à sua vista. Quem não vê, diz Santo Agostinho, que a festa de Sexta-feira Santa precedeu todas as outras? Pode até afirmar-se que a Igreja consagrou todas as sextas-feiras do ano como a Oitava Perpétua da festa deste dia, assim como o Domingo o é da festa da Ressurreição e do Santo dia de Páscoa.


É este o motivo porque os príncipes cristãos proibiram que se instaurassem processos ou se sustentassem pleitos na Sexta-feira Santa e todas as sextas-feiras do ano, em memória da Paixão do Senhor. Com efeito, ao menos na Espanha não se executa sentença alguma em Sexta-feira Santa em veneração da morte de Jesus Cristo.

Neste dia se reúnem ou verificam duas épocas: o fim da Antiga Aliança e o princípio da Nova. A morte de Jesus Cristo marca o nascimento da Igreja e para assim dizer, a sepultura da Sinagoga: Seu Sangue, como dilúvio de bênçãos celestiais, renovou toda a terra, suscitando um novo povo de Povo de Deus e reprovando o antigo. Deu-se a este dia o nome Parasceve, que é uma palavra grega, que significa preparação, porque no sexto dia da semana, preparavam os judeus quanto era necessário para celebrar o sábado.

Entre os gregos, Sexta-feira Santa chamou-se Pascua Staurossime, que quer dizer, de Jesus crucificado, e o Domingo seguinte Pascua Anastassime, que significa, de Jesus ressuscitado. A festa deste dia tem sido sempre na Igreja uma festa de prantos, de luto e de penitência: e ainda que o tempo haja introduzido algum temperamento, ao jejum da Quaresma, pode asseverar-se que nada tem alterado o jejum de Sexta-feira Santa.

Este é propriamente o único dia em que se observa, igualmente nas Casas Religiosas e mesmo nas Seculares, a Xerophagia, quer dizer, o jejum reduzido a legumes, raízes ou ervas e muitos também jejuam hoje a pão e água. Dos Apóstolos vem o não haver Missa neste dia. O grande luto da Igreja e a morte do Salvador não permitem que haja o Divino Sacrifício. Antes que o Ofício da noite de Páscoa se adiantasse para o Sábado, também não havia Missa neste dia por aquela razão: Hoc biduo, diz o Papa Inocêncio, Sacramenta non celebrantur. O Quarto Concílio de Toledo, no ano 633, diz que, em todas as igrejas de Espanha fechavam neste dia as portas dos templos, para significar a profunda tristeza e aflição em que estava mergulhada a Santa Igreja; não obstante, ordena que se faça o Ofício e se pregue a Paixão. Antigamente o Clero e o povo comungavam na Sexta-feira Santa: este costume já não se observa em algumas abadias.

O Ofício deste dia que substituiu a Missa, é um dos mais Augustos e mais ternos: tudo inspira compunção e uma religiosa melancolia: o espírito do Mistério e da Religião descobre-se e transparece em todas as cerimônias e orações: tudo aviva a triste solenidade de um dia, que é o dia da morte do Salvador, cujas exéquias celebra hoje a Igreja.


Estende-se sobre o Altar uma cobertura singela, imagem do lençol em que foi envolto o Corpo do Salvador, depois de O terem baixado da Cruz. O Presbítero, baixando o rosto para o chão, testifica nesta atitude a amargura em que está imerso o seu coração, o qual se abre neste dia comum a todos os fiéis. Começa lendo duas Epístolas; uma do Profeta Oséias, a outra do Êxodo, onde Moisés descreve a cerimônia do cordeiro pascal como figura de Jesus Cristo, imolado neste dia por todos os homens. O cordeiro pascal foi seguido do termo da escravidão dos israelitas, que viviam no Egito, e a morte de Jesus Cristo neste dia, libertou-nos da escravidão do pecado.

Não houve profecia mais clara, mais precisa e expressa acerca da morte do Salvador e do estabelecimento da Igreja, que a do Profeta Oséias, que forma o assunto da primeira Epístola deste dia, e pela qual começa o Ofício que substitui a Missa.

Isto diz o Senhor: No excesso de sua aflição se darão pressa de recorrer a mim: Vinde, dirão, voltemos ao Senhor. Venite, et revertamur ad Dóminum. Castigou-nos por causa de nossos pecados, esperemos que haja de se compadecer de nós: Sua justiça nos feriu e Sua misericórdia nos há de salvar. No sentido alegórico, estes de quem fala, são todo o gênero humano que pelo pecado atraiu sobre si aquele dilúvio de males, que por mais de 4 mil anos inundou toda a terra, e não podia ser libertado da escravidão da culpa, se não fosse Aquele que o havia condenado a ela.

Na verdade era necessário o Sangue de um Homem-Deus para curar todas as chagas do homem: isto é o que o Profeta nos prediz e se tem verificado no Mistério que celebramos. Este divino Salvador nos vivificará dentro de dois dias, diz o Profeta; e ao terceiro nos ressuscitará: e depois viveremos diante Dele, e não nos olhará já senão com olhos propícios; será nosso Deus e nós seremos Seu povo; saberemos então por uma fé viva quem é o Senhor, e O seguiremos com ânsia e fidelidade, conhecendo-O mais e mais em cada dia.

Ele se nos comunicará, não já entre raios e trovões, como no Sinai, mas como brando rocio da primavera, ou como chuva fecundante do outono, que só cai sobre a terra para a tornar mais fértil em flores e frutos; Seu regresso será semelhante ao da aurora que inspira alegria a todas as coisas: Vivificavit nos per duos dies; in die tértia suscitavit nos. Esta profecia, tomada no sentido próprio e literal, nunca se efetuou entre os hebreus, dizem os intérpretes. Em vão se investigaria na história este número de dois dias, após os quais o povo ou alguém dele recebesse uma nova vida, e o terceiro em que ressuscitasse.

Nisto insinuava Isaías a Ressurreição dos fiéis remidos com o Sangue de Jesus Cristo, e assinalava evidentemente a Ressurreição do Salvador, que segundo diz São Paulo, nos deu a vida, quando estávamos mortos por nossos pecados.1 Também nos ressuscitou com Jesus Cristo, e nos fez sentar no Céu em Sua Pessoa.2 A este lugar do Profeta faz sem dúvida alusão o Evangelista, quando diz que o Salvador ressuscitou ao terceiro dia segundo as Escrituras: Aparecerá o Salvador, continua o Profeta, como a aurora: em Sua Ressurreição foi aquele sol ardente que dissipou todas as trevas do erro e da idolatria, virá a nós como chuva que cai a tempo sobre uma terra seca, que sem ela jamais teria produzido fruto.

A Judeia estava fraccionada em dois reinos depois de Salomão; o de Judá que apenas compreendia duas tribos, e o de Israel que abrangia as outras dez; e como Jeroboão, primeiro rei das dez tribos, era da tribo de Efraim, entende-se que Deus fala a todos os judeus, quando às duas tribos principais diz por seu Profeta: Que me podeis pedir à vista do que acabo de fazer? Como se dissesse: A morte do Messias porá fim a vosso cativeiro, e na Ressurreição vos dará nova vida: Que maior maravilha podeis esperar de minha bondade? Se não houvesse atendido senão as vossas orações, as vossas obras de caridade tão frouxas, à vossa penitência tão superficial, nunca haveria resplandecido tanto minha misericórdia e compaixão para convosco; à minha pura bondade, deveis uma tão grande maravilha. Por mais ameaças que vos haja dirigido por meus Profetas, por mais vaticínios que vos faça dos males com que vou castigar vossas iniquidades, nem por isso sois menos indóceis. Aprende, ingrato; sabe que Eu prefiro o sacrifício do coração e a caridade, a todos os tais sacrifícios, e que a ciência e conhecimento que se tem de Deus pela fé, Me é mais agradável que todos os holocaustos que podeis ofertar.


A segunda Epístola é tirada do Êxodo. Gemiam havia muito tempo os israelitas debaixo da opressão dos egípcios, quando, movido Deus dos clamores de seu povo oprimido, enviou Moisés ao Egito para intimar da sua parte ao Faraó, que pusesse em liberdade o Seu povo. Moisés, acompanhado de seu irmão Aarão, apresentou-se diante do rei, declarou-lhe a ordem de Deus; recusando-se, porém, ao que se lhe mandava, feriu-o a ele e ao seu reino com muitas pragas, conforme o poder e ordem que recebera do Senhor. Endurecendo-se Faraó, obstinou-se em não deixar sair os israelitas; mas Deus, antes de acenar-lhe o último golpe que devia partir-lhes as cadeias, antes de os arrancar àquele longo cativeiro, disse a Moisés que os dispusesse para celebrar a Páscoa, isto é, o trânsito ou a passagem do Senhor. Esta Epístola contém o que Deus ordenou a Moisés referente a este célebre rito.

O mês, em que estais, será daqui em diante para vós o primeiro mês do ano, lhes disse; isto era no equinócio da primavera, no qual desde então se fixou o princípio do ano santo dos israelitas; o ano civil, este começava no equinócio do outono, como entre os egípcios. No décimo dia deste mês, diz o Senhor, tomar-se-á um cordeiro por família; e se a família não for assaz numerosa para comer o comer, junte da parentela ou da vizinhança um número de pessoas que sejam bastantes para cumprir esta cerimônia. Este número determinou-se que fosse pelo menos de dez. O cordeiro pascal não deve ter mais de um ano, não há de ter mancha ou deformidade alguma. A palavra hebreia significa perfeito. Os Apóstolos e os Padres da Igreja fazem-nos advertir o completo acordo entre o cordeiro pascal e Jesus Cristo, que é o único Cordeiro sem mancha, imolado por nós na Cruz, o qual por Seu Sangue nos livrou da escravidão do pecado, nos pôs a coberto do Anjo exterminador, e serve ainda todos os dias de alimento aos fiéis no Sacramento da Eucaristia. Guardá-lo-eis, diz o Senhor, até ao dia catorze deste mês; chama-se este mês Nizan e correspondia ao nosso mês de março; e toda a multidão dos filhos de Israel o imolará pela tarde. Esta imolação do cordeiro pascal era uma figura bem expressa do sacrifício sangrento do Salvador do mundo. Tocar-se-á com Seu Sangue, acrescenta o Salvador, e se ungirão com ele os dois postes, isto é, os lados e o cimo das portas das casas onde o comerem, para que o Anjo que há de matar os primogênitos dos egípcios, não entre nas casas que tiverem este sinal. Não era isto assim, dizem os Padres, porque os Anjos tivessem necessidade deste sinal para distinguirem as casas dos hebreus das dos egípcios, mas era necessário fazer compreender por alguma coisa sensível àquele povo grosseiro a proteção especial que Deus dispensava a suas famílias.

São Jerônimo parece dizer que com aquele sangue se fazia um sinal da cruz: o certo é que o sangue do cordeiro pascal era figura e símbolo do Sangue de Jesus Cristo, que nos livra muito mais eficazmente do poder do Anjo exterminador; e pondo-nos a coberto da indignação de Deus, nos torna dignos de Sua misericórdia.

Fareis assar este cordeiro, continua o Senhor; não comereis dele nada cru, nem cozido em água, mas só assado ao fogo; comer-lhe-eis a cabeça e também os pés e os intestinos; deve consumir-se toda naquela noite, sem que reserveis nada para o dia seguinte; e se ficar alguma coisa, se queimará e reduzirá a cinzas para que não se profane. Comê-lo-eis com pães não fermentados e com leitugas agrestes. Quando o comerdes, tereis cingidos os rins, calçados os pés e com báculos nas mãos, como caminhantes prontos a partir, e comê-lo-eis depressa, porque é a páscoa, isto é, a passagem do Senhor. Tudo é misterioso, e tudo figura nesta famosa cerimônia descrita detalhadamente; nunca houve figura de Jesus cristo por nós imolado na Cruz, e mais expressa, mais significativa e mais simbólica do que esta imolação do cordeiro pascal com todas as suas circunstâncias, feita à saída dos israelitas do Egito: é o trânsito ou passagem que o Senhor ordena que faça Seu povo, do cativeiro em que vivia para o estado livre, do Egito para a terra da promissão: e por Jesus Cristo imolado, do estado servil do pecado para o estado ditoso da graça. É evidente que a milagrosa liberdade que alcançaram os judeus nesta primeira páscoa não era senão figura da alforria do gênero humano da servidão do pecado pela morte de Jesus Cristo, cuja memória celebramos hoje.

O sangue do cordeiro pascal preservou os judeus da mortandade que teve lugar naquela mesma noite nas casas dos egípcios; e o Sangue de Jesus Cristo, diz São Paulo, livrou-nos da indignação de Seu Pai. Ele é, segundo São Pedro, como o cordeiro sem mancha e sem deformidade, cujo Sangue nos salvou. Ele mesmo, para cumprir em Sua Pessoa o que estava predito Dele debaixo da figura do cordeiro pascal, Ele próprio se foi meter nas mãos dos que O haviam de imolar no dia dez da lua, isto é, no mesmo dia, em que deviam, segundo a Lei, prover-se de um cordeiro. Foi imolado no dia catorze e expirou na Cruz à mesma hora em que, naquele mesmo dia, se começava a imolação do cordeiro pascal. Não se lhe partiram as pernas, contra o procedimento usado com todos os que se crucificavam, e isto, como diz São João, para que se cumprisse a Escritura, que proibia que se quebrasse osso algum do cordeiro pascal. Comia-se o cordeiro pascal, para que se lembrassem, diz a Escritura, da passagem ou trânsito do Senhor. Nós comemos a Jesus Cristo depois de O havermos oferecido a Seu Pai no Sacrifício da Missa, que é a continuação real do sacrifício de Jesus Cristo na Cruz. O pão não fermentado, isto é, insípido, as leitugas agrestes e amargas com que se comia o cordeiro pascal, denotam assaz que a mortificação deve acompanhar sempre tanto a Sagrada Comunhão, como a celebração do divino sacrifício; este é um dos frutos que deve produzir a memória do doloroso Mistério da Paixão do Senhor.


Acabadas estas duas Epístolas, lê-se a história da Paixão, segundo São João, o qual, tendo sido testemunha de quanto nela se passou, tem toda a autenticidade de um historiador digno de fé.

Tudo causa pasmo na Paixão de Jesus Cristo; mas, sobremodo, se torna incompreensível a fúria e desumanidade dos judeus, e a paciência e caridade do Salvador.

Em meio daquela tempestade de opróbrios e tormentos, quem não teria acreditado que só a vista daquele Homem-Deus, no espantoso estado a que O reduzira a barbaridade dos que O açoitaram, os quais tinham feito de seu Corpo uma chaga viva; quem não teria acreditado que este espetáculo havia de satisfazer a raiva e furor que aquele povo cruel concebera contra o Homem divino, que não lhe tinha feito senão o bem, e que realizara em seu favor tantas maravilhas?

E no entanto, um objeto tão digno de lástima, só serve para mais acirrar sua crueldade; aquele Sangue que corre de todas as partes, inflama sua raiva em lugar de a extinguir. Mal foi o Salvador condenado à morte contra toda a justiça, logo cada qual porfia em tomar parte na execução daquela sentença. Com que frenesi se arremessam aqueles furiosos sobre este divino Cordeiro! Despojam-no de Seus vestidos; o Sangue colara a Seu Corpo a vestidura de púrpura que lhe tinham posto por escárnio; puxam com violência por esta vestidura, e com ela trazem a Carne aos pedaços; tornam a pôr-lhe seus vestidos para que melhor O conhecessem, e ainda que O veem externamente fraco e extenuado de forças, carregam-no com a Cruz, cujo peso O faz cair repetidas vezes.

Bem se deixa ver, que tudo é extraordinário na Paixão de Jesus Cristo. A quem, por mais bárbaro que fosse, ocorreu a ideia de obrigar O sentenciado a carregar com o próprio instrumento do Seu suplício? E quem muito menos levaria a desumanidade a tais requintes, que impusesse ao Salvador, já tão enfraquecido, um tão pesado lenho?

Mas Jesus quer levar Sua Cruz para nos mostrar a indeclinável necessidade que temos de levar a nossa.

E não levava Ele só à Sua parte todas as nossas? Sai Jesus de Jerusalém com aquela pesada carga aos ombros; titubeia debaixo do seu peso, cede, e cai de joelhos a cada passo; necessita de um novo milagre para não sucumbir debaixo de semelhante peso. Ter-se-ia tido compaixão de uma besta, acabrunhada com o peso da carga; mas para Jesus Cristo não há compaixão, não encontra um sentimento de humanidade; quanto mais O veem sofrer, tanto mais se discorre como há de padecer sem limites.

Chega afinal ao Calvário, que há de servir de Altar ao mais Santo de todos os sacrifícios.

Ali O despojam outra vez de Seus vestidos, abrindo-lhe novamente as Chagas; estendem-No sobre a Cruz, e por um requinte de crueldade inaudita, atravessam-lhe os pés e as mãos com grossos cravos, que a grandes golpes de martelo fazem penetrar até à Cruz, em que descansa e que O sustenta. Ó Deus, basta uma picadura para causar dores insuportáveis; que dores não seriam pois essas causadas por tão grossos cravos, que fendem, rasgam e trituram vossos pés e mãos! Concebamos, se é possível, o que Jesus padece.


Mas que tormentos, meu Deus, e que excesso de dores, quando levantaram a Cruz, e a deixaram cair de golpe em uma saliência de rocha! Que doloroso estremecimento este para aquele Corpo, a quem o próprio peso arrasta para baixo, e os cravos prendem à Cruz! Quanto é verdade que morrer na Cruz é morrer tantas vezes, quantos os momentos que se passam nela!

Triste e cruel estado; e no entanto, Jesus Cristo passa três horas nela! Então foi, como diz São Paulo, quando o Salvador dos homens, estando cravado na Cruz, pregou nela o decreto ou cédula da nossa condenação, apagando-a com Seu Sangue; foi então que desarmou as potestades e os principados, arrebatando-lhes os despojos, e triunfando deles em Sua Pessoa à vista de todo o mundo.

Teria ao menos o lenitivo das lágrimas da multidão, que concorrera ao lúgubre espetáculo? Não. O mesmo foi ver-se levantado ao alto em presença de todo aquele povo, que ver-se insultado, carregado de opróbrios, de ultrajes e maldições: as blasfêmias e as indignidades parece que se fizeram só para Ele. Que padecente se viu jamais carregado de execrações e de injúrias na forca em que expirava?

Tudo é singular, tudo é inaudito, incrível, na morte do Salvador; mas o que mais impressiona ainda, é a Sua mansidão, Sua paciência, Sua caridade; pede a seu Pai pelos que O faziam morrer, morre por eles e solicita-lhes o perdão. É um Deus quem padece e quem morre, mas que padece e morre como Deus.

A Sua paciência, e tão extraordinária mansidão move e enternece um dos criminosos que morre a Seu lado. Ditosa conversão e conversão terrível! Ah, Senhor, o dia de vossas grandes misericórdias, o mesmo dia em que morreis para expiação de todos os pecados e para salvação de todos os homens, de dois pecadores que haviam diferido até àquela hora a sua conversão, ambos a vosso lado, um e outro salpicados de Sangue que corria de vossas Chagas, um só se converte, um só se salva e o outro perde-se. Quem pode diferir até à morte a sua penitência, e lisonjear-se que morrerá penitente?!

A Santíssima Virgem tomava demasiado parte neste Sacrifício, e amava com demasiada ternura a Seu bendito Filho, para O abandonar nestes transes.

Quem poderá conceber a dor de um tal Filho e de uma tal Mãe nestas cruéis circunstâncias? Aqui foi onde o vaticínio de Simeão se verificou à letra; aqui foi a Alma de Maria trespassada da penetrante espada, que lhe fez padecer uma dor mais acerba que a morte. Enfim, vendo o Salvador entre ladrões, em meio de opróbrios e ignomínias de que estava saturado, vendo que os decretos do Céu tinham recebido completa execução, que a justiça divina estava plenamente satisfeita, que os oráculos dos Profetas estavam verificados, a obra da Redenção cumprida, pagas as dívidas de todos os homens, satisfeito o Seu Amor, disse com voz moribunda: Tudo está consumado, e ao mesmo tempo, baixando Sua cabeça para terminar Seu sacrifício, pôs Sua Alma como em depósito nas mãos de Seu Eterno Pai, dizendo: Pai, em tuas mãos encomendo meu espírito, e acabando de dizer isto, expirou. Apenas morto o Salvador, deu-se um tremor de terra universal. O véu que separava as duas partes do templo, rasgou-se ao meio. Esta divisão do véu denota significativamente que as figuras do Antigo Testamento desapareciam diante da realidade, que o Céu ficara de ora em diante aberto pela morte de Jesus Cristo; que se haviam dissipado as sombras da Lei; que a Aliança com o povo judaico, rescindia com o deicídio; que ao povo cristão se ia a inteligência dos maiores Mistérios pelas luzes da fé. Santo Efrém diz que ao rasgar-se o véu do templo se vira sair uma pomba do interior do santuário, como para significar que o Espírito Santo abandonava um templo, em que Deus não havia de ser já adorado em espírito e verdade. Muitos sepulcros se abriram por ocasião da morte do Salvador; mas crê-se que os mortos não ressuscitaram senão por ocasião de Jesus ressuscitar, pois devia ser Ele o primeiro dentre os mortos. E crê-se também que subiram ao Céu em corpo e alma com Ele.


À vista de tantos prodígios, os corações mais endurecidos abrandaram-se. Os judeus retiravam-se do Calvário, batendo no peito, detestando seu erro e endurecimento; o centurião, o oficial encarregado de custodiar com a força armada o Corpo de Jesus, assombrado de um espetáculo tão maravilhoso, não pode deixar de exclamar: Este homem era verdadeiramente Filho de Deus.

Ah, Senhor, que caro vos custa, por que preço remistes minha alma, divino Salvador meu!

Poderei ver-vos na Cruz, e nem sequer misturar minhas lágrimas com vosso Sangue? Poderei recordar-me de que foram meus pecados os que Vos pregaram na Cruz, e não sentirei senão uma dor mediana de minhas culpas?

Os mais duros corações abrandaram-se por fim em vossa morte, e só o meu há de ficar insensível? Não, não, Senhor; eu sinto o efeito de vossa graça; é tempo já de que meu coração se renda a um objeto tão terno. Lembrai-Vos, Senhor, que prometestes que quando fosses levantado sobre a Cruz atrairíeis a vós todas as coisas: aqui me tendes, Senhor, pronto a seguir-Vos, cumpra-se em mim vossa promessa; este coração já não Vos resistirá mais; Vós morrestes por mim; justo é, Senhor, e muito justo que eu não viva senão para Vós.

Tudo é misterioso na história da Paixão; não há circunstância que não encerre um Mistério, e nenhuma que não possa servir-nos de instrução. Procurarei dar o sentido alegórico ou moral de certas passagens desta história sagrada, segundo a explicação dos Santos Padres e dos mais sábios intérpretes. Reservei para aqui estas curtas interpretações para não interromper o fio da história.

Ainda que a Alma de Jesus Cristo gozava continuamente da Bem-aventurança e via a Deus intuitivamente, esta visão beatífica não impediu que sentisse realmente aquela excessiva tristeza, aquele temor e tédio mortal de que falam os Evangelistas.

Todos estes movimentos lhe eram livres, e Ele mesmo os fazia nascer; mas quis sentir todo o rigor e todo o pungir destes movimentos, reservando todo o alívio para aqueles que dali em diante deviam padecer por Seu amor.

Quando Jesus rogou a Seu Pai que, se fosse possível, passasse Dele semelhante cálice, bem sabia que Sua morte estava resolvida nos eternos decretos de Deus; Ele mesmo os firmara de Sua vontade; não se arrepende disso; a vontade humana não se opõe aqui à divina, somente traduz o Salvador a repugnância natural que todo o homem sente ao padecer, a qual em Jesus cristo foi mais viva que em todos os outros homens; a prova disso está no suor de Sangue que escorria até à terra em gotas. O Salvador bem mostra por tudo quanto se passou no Horto, que sentiu todo o rigor e toda a amargura das penas e dos tormentos mais intensamente que algum outro homem.

A repugnância natural da parte inferior faz despontar o desejo natural de não padecer; mas a perfeita submissão da parte superior às ordens de Deus, diz São Leão, triunfa da oposição da parte inferior.

Vendo São Pedro que prendiam a Seu divino Mestre e O amaravam, deixando-se ir atrás de seu natural vivo e ardente, deitou mão da espada para O defender, e descarregou um golpe em um criado do sumo sacerdote, chamado Malco; furtou este o corpo ao golpe, não tanto que não lhe apanhasse uma orelha; foi, porém, curado ali mesmo pelo Salvador, que repreendeu severamente São Pedro por um zelo tão mal entendido: Jesus cristo não ensinara seus discípulos a servirem-se das armas, pois até lhes proibira trazer cajados nas mãos.


E assim aconteceu este incidente pela sua interpretação que deu às palavras do Salvador e por não haver compreendido bem o Seu pensamento.

Depois de ter Jesus Cristo lembrado a seus Apóstolos que, enquanto estivesse com eles, nada lhes havia faltado, que por toda a parte haviam sido bem recebidos, e que tinham tido muito pouco que padecer, advertia-os de que tempo viria em que tudo lhes havia de faltar e em que haviam de ser perseguidos por todo o mundo. Para lhes fazer compreender o estado de perseguição em que vão achar-se, serve-se, como tinha por costume, de um modo de falar alegórico e figurado, representa-lhes o que sucede em tempo de carestia e de guerra; então faz-se provisão de viveres e de dinheiro, e todos andam armados: “Quando vos enviei, lhes disse, sem bolsa, sem saco e sem sandália, faltou-vos porventura coisa alguma?” Nada, lhe disseram. Pois é chegado o tempo, acrescentou, em que vos vai acontecer o que acontece em tempo de fome e de guerra: todos enchem então de dinheiro a bolsa para fazer provisões de boca; e para isto se faltam sacos, buscam-se para os encher de pães; assim como em tempo de guerra se vende até a capa para comprar a espada com que defender-se, vós ides bem depressa ver-vos em tempos tão calamitosos como esses; e por certo tereis necessidade dos mesmos socorros e precauções, se vosso apoio consistisse na ajuda dos homens; mas Eu, Eu mesmo serei todo o vosso apoio e único refúgio; e por isso, não careceis de fazer iguais preparativos para esses tempos de perseguição.

Não manda pois Jesus cristo a seus discípulos que se provejam de armas e de dinheiro, só os adverte das misérias e perigos a que se hão de ver expostos dali em diante. Não tendo compreendido os Apóstolos o pensamento do Salvador, tomaram à letra o que acabava de dizer-lhes: é o que fez que lhe dissessem que tinham ali duas espadas.

O Filho de Deus, vendo que até depois de sua Ressurreição não haviam de compreender o que lhes dissesse, não teve por conveniente dar-lhes uma explicação mais clara de uma coisa que ainda não eram capazes de penetrar.

Interrompeu-lhes, portanto, o discurso, dizendo: “É assaz”. Tempo virá em que hajais de compreender que as únicas armas de que haveis de servi-vos nas perseguições são a mansidão, a confiança em Mim e a paciência.

Depois de todas as humilhações a que se entregou voluntariamente o Salvador, não deve admirar-nos que quisesse ser consolado, para assim dizer, e confortado por um Anjo. Quis com este exemplo ensinar a todos os fiéis a vencerem suas repugnâncias, e a esperar de Deus a consolação na tribulação. Não ignora o Senhor nossas penas; deseja com ânsia aliviar-no-las; nossos Anjos da Guarda fazem invisivelmente conosco o mesmo ofício que fez visivelmente o Anjo que veio consolar ao Salvador em Sua tristeza mortal e em Sua agonia.

Querendo o Salvador fazer-nos compreender a amargura e excesso de dores em que expirava, exclamou antes de dar o último suspiro: Deus meu, por que me desamparaste? Esta queixa não é efeito nem de desconfiança, nem uma recriminação que o Filho dirija a seu Pai, nem uma queixa contra a injustiça de Seu castigo, seria blasfêmia dizer que o Salvador se queixou a seu Pai por haver tratado tão cruelmente Aquele que era a mesma inocência. Nada padeceu Jesus Cristo, que não padecesse voluntariamente. Carregou sobre Si todos os nossos pecados, e quis padecer também toda a pena que lhes era devida. Foi eleição Sua o preferir a mais ignominiosa e dolorosa morte a uma vida deliciosa. Aquelas palavras são apenas a tradução fiel das excessivas dores, em que expirava. Queria o Salvador declarar o excesso de tormentos que padecia, sem que nenhum milagre suavizasse o seu rigor nem lhes embotasse as pontas, para nos dar uma ideia mais adequada do rigor dos juízos de Deus, e o muito que lhe custava a obra de nossa Redenção.


Pode também dizer-se que esta é antes uma oração que Jesus faz a seu Pai, do que uma queixa: Meu Pai, fazei que todos os homens conheçam a causa porque me abandonastes a tão cruciantes dores e a uma morte tão dolorosa como ignominiosa, fazei que todos os homens conheçam a causa porque me tratais com tanto rigor, a qual outra não é senão seus pecados, sobre mim tomados voluntariamente, e se a aparência só de pecado, se o só título de fiador vos forçou a exigir de mim, vosso Filho muito amado, uma satisfação tão rigorosa, que será deles? Se desta sorte se trata ao lenho verde, cheio de seiva, sem mácula, nem ruga, que deverá esperar o lenho seco?

Este dizer parece autorizar esta última interpretação, a qual é uma das mais literais e que mais se aproxima do sentido que a estas palavras dá São Cipriano.

Alguns Santos Padres julgaram que o Filho de Deus quisera antes de expirar cumprir a profecia de Davi, e serviu-se ele próprio das primeiras palavras do Salmo 21, que é todo de Jesus Cristo moribundo, no qual o Profeta faz dizer ao Salvador na Cruz: Deus meu, Deus meu, vê o estado em que me encontro, porque me abandonaste à raiva de meus inimigos? Os pecados que eu tomei a meu cargo te obrigam a tratar-me com tanto rigor.

A Igreja neste dia, a exemplo de Jesus Cristo, ora solenemente por todos os estados e condições assim por seus filhos, como por seus maiores inimigos; estas orações chamam-se solenes ou sacerdotais: a todas precede uma genuflexão (menos quando se ora pelos judeus), para as tornar mais eficazes por um ato de humildade tão profunda. A primeira destas orações, é pela Igreja Universal; a segunda pelo Papa, que é sua cabeça visível; a terceira pelos Bispos, Presbíteros, Diáconos e pelas outras ordens de clérigos inferiores, pelos Confessores da fé, pelas Virgens, pelas Viúvas e por todo o Povo de Deus; a quarta é pelo rei ou soberano do país; a quinta pelos Catecúmenos ou que se preparam para o Batismo; a sexta para pedir a Deus que purgue o mundo de todos os erros que preserve o seu povo da fome e dos demais flagelos; que ponha em liberdade os escravos e possessos; que guie aos caminhantes; que dê saúde aos enfermos, e que faça chegar felizmente ao porto de segurança a todos os que andam nas águas do mar; nada mostra tanto as entranhas de amor e caridade de nossa Mãe a Santa Igreja. A sétima é pelos hereges e pelos cismáticos, para que Deus se digne dissipar as trevas de seu entendimento e de seu coração, e abrir-lhes os olhos para que voltem ao seio da Igreja. A oitava é pelos pérfidos judeus, pedindo a Deus que lhes arranque o espesso véu que os cegam e endurecem, e faça com que afinal reconheçam a Jesus por seu Salvador, ao qual sempre têm recusado reconhecer. Essa oração é a única em que não se genuflete, por causa da ímpia irrisão com que este povo dobrou o joelho diante de Jesus Cristo, insultando-O com genuflexões de escárnio como a rei de teatro e de zombarias. A nona e última é pelos pagãos; nela se pede ao Senhor, que desterre em todo o universo os resquícios da idolatria, que condena ainda a tantos povos retidos pelo Diabo em seus tirânicos grilhões.

Acabada a leitura das profecias e da história da Paixão, em que se contém a primeira parte do Ofício, e lidas estas orações solenes que constituem a segunda, segue-se a Adoração da Cruz, que forma a terceira parte do Ofício deste dia.

O Presbítero, tendo em suas mãos a Cruz coberta com o véu, descobre uma parte dela postado no flanco do altar, ao lado da Epístola; outra parte um pouco mais adiante; e finalmente, chegando ao meio do altar, descobre-a inteiramente, dizendo de cada vez: eis aqui o lenho da Cruz, no qual esteve pendente Aquele que é a salvação do mundo: vinde e adoremo-Lo. Esta santa cerimônia de descobrir a Cruz em três paragens diferentes significa, diz o Abade Ruperto, que o Mistério da Cruz, que foi um escândalo para os judeus e uma loucura para os gentios, mas que para os cristãos é fortaleza e sabedoria de Deus, nos foi revelado depois de ter estado oculto por tantos séculos; e que este adorável Mistério, que ao princípio apenas foi pregado em um canto da Judeia, se anunciou por último em todas as províncias e nações da terra. Na solene Adoração da Cruz fazem-se três genuflexões, como para reparar com estes três atos de religião os três insignes desprezos, e para assim dizer, as três solenes irrisões, as três afrontas que fizeram a Jesus Cristo: a primeira em casa de Caifáz, onde foi tratado como falso profeta e insigne sedutor; a segunda no pretório e na corte de Herodes, onde foi tratado de rei fantástico, e de louco; a terceira no Calvário, onde foi reputado por um pernicioso, como quem arrogantemente se confere o caráter de Messias e de Filho de Deus.

A palavra – adoração – da Cruz é comum a gregos e latinos desde os primeiros séculos da Igreja: depois do nascimento das heresias, os inimigos da da Igreja têm afetado escandalizar-se dela. Coisa alguma no entanto é mais sabida entre os fiéis do que o alcance que deve dar-se ao culto, consoante a quem é dirigido; qua a Deus só é devido o supremo, e que portanto, quando nos prostramos diante da Cruz queremos só adorar a Jesus Cristo, que nela foi cravado. O que faz ali o principal objeto do nosso culto é aquele Corpo adorável, unido hipostaticamente à Divindade, é aquele Sangue precioso de que foi tingida a Cruz. Seria uma idolatria referir a adoração ao lenho em si mesmo e separado de Jesus Cristo, porque este lenho não é Deus, e só Deus é objeto do nosso culto supremo. Quando a Igreja diz, ao mostrar o lenho a todo o povo: Vinde e adoremos; quando canta: Adoremos tua Cruz, Senhor, com tais palavras, não pretende adorar com culto de latria a Cruz, por si mesma, mas a Jesus Cristo pregado na cruz. Bastante se tem explicado a Igreja a tal respeito, sempre que tem tido ocasião, atribuir-lhe outro sentimento é ignorância ou má-fé, e sempre uma das mais atrozes calúnias. De modo que estas palavras não têm outra significação senão esta: Prostremo-nos diante da Cruz para adorar a Jesus Cristo, que esteve cravado nela por nossa salvação. Na verdade, o termo – adorar – em nossa língua parece estar consagrado para significar o culto supremo; mas tanto em latim, em hebreu, como em grego, tem uma significação mais extensa: significa em geral, prostrar-se e manifestar seu respeito: o que convém a outros além de deus, pois todos os dias nos prostramos diante dos homens sem que por isso os adoremos. A Escritura apresenta-nos disto um sem número de exemplos, e assim não devemos ajuizar da fé da Igreja pela palavra adorar, a qual admite muitas exceções, mas pelo sentido que Ela lhe dá, e pela declaração solene que faz de sua crença.


A igreja sempre protestou que não adorava senão a Deus na Cruz, e que toda a adoração quer à Cruz, quer a outras coisas inanimadas, era uma adoração relativa.

Não há dúvida, que a adoração da Cruz na Sexta-feira Santa é de Tradição Apostólica.

Os Padres mais antigos e os Concílios falam dela como de uma cerimônia de piedade estabelecida em toda a Igreja; diz o Diácono Rustino: é uma prática estabelecida em toda a Igreja o adorar a Cruz do Salvador. Era esta uma invectiva que Juliano Apóstata, fazia aos cristãos. Tertuliano, Maximianos, Félix e São Cirilo Alexandrino dizem que os pagãos acusavam os cristãos de adorar a Cruz; encontram-se provas decisivas da Tradição da Igreja sobre este ponto em São João Crisóstomo, em São Jerônimo, São Leão, São Gregório, Teodoreto e em muitos outros. Mas com que sentimento de religião, com que respeito e afetos de amor, de contrição e da mais terna devoção devemos fazer a adoração da Cruz no dia de hoje e beijar as sacratíssimas Chagas de Nosso Senhor, pois fomos nós os que lhas fizemos, e o Senhor as conserva como provas autênticas de Seu infinito amor para conosco?

Em muitas igrejas assistiam com os pés descalços a todo o Ofício de Sexta-feira Santa, e isto não só para Sacerdotes, Monges e demais clerezia, mas para todo o povo: assistiam com os pés descalços ao Ofício, diz Lanfran, em seus estatutos. O santo Abade de Cava nunca oficiava senão com os pés descalços; a mesma prática observam ainda hoje com grande edificação os Condes de Leão de França, e o Arcebispo, quando oficia: todos os que assistem ao altar estão descalços, em quanto dura o Ofício.


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Fonte: Pe. Croiset, S.J., Ano Cristão”, Vol. XIV – Próprio do Tempo (Sexta-feira Santa), pp. 208-222; Tradução do Francês pelo Pe. Matos Soares, Porto, 1923.

1.  Ef. 2.

2.  Idem.


quarta-feira, 5 de abril de 2023

SÃO VICENTE FERRER, O SENHOR DOS MILAGRES.


O Dedo de Deus está aqui1


Taumaturgo por vocação. Antes de São Vicente Ferrer nascer,2 ele operou um milagre, prenúncio dos milhares que em sua vida faria.

Indo Constança (mãe de São Vicente) um dia, visitar uma pobre cega a quem socorria, pediu-lhe que rezasse por ela, para que tivesse um parto feliz. A pobre cega se inclinou sobre o seio de Constança e disse:

Deus vos ajude!

No mesmo instante recuperou a vista do corpo e iluminou-se-lhe a alma conjuntamente, e dizendo, cheia de espírito profético:

Senhora, esse menino é um Anjo. Por sua causa me curei da minha cegueira e afirmo que, ele fará coisas nunca vistas.

Tais foram os prenúncios de santidade desse homem extraordinário cujos milagres deixaram atônita aquela geração.


Sobre alguns milagres operados pelo Santo. Passava São Vicente Ferrer3 por uma rua estreita de Valência, quando ouviu uma voz gritando pragas, blasfêmias e horrores de toda sorte. Entrou no prédio de onde a voz saíra e encontrou, correndo para a rua, o dono da casa, a berrar imprecações. Lá dentro a mulher chorava, lamentando-se e dizia, também, coisas terríveis, desejando a morte ao marido e ameaçando-se suicidar-se, porque o Inferno seria pouco em comparação com as pancadas e maus-tratos que recebia.

Depois de tentar consolá-la com suas boas palavras, o Santo perguntou, por que razão lhe tinha o marido tal ódio, e ela respondeu, soluçando, que era por ser muito feia e desengonçada.

Suspirando São Vicente dizendo: E por causa dessas coisas é que ele ofende tanto a Deus! Depois, tocando no rosto da pobre criatura disse-lhe: Pois bem, minha filha, de agora em diante não serás mais feia. Mas, lembra-te de que deves servir a Deus e viver santamente.

No mesmo instante adquiriram tanta vida e expressão as feições da mulher, que passou a ser considerada a mais formosa da cidade, e o marido se prendeu a ela para o resto da vida.

O dom dos milagres continuava a distingui-lo,4 e estes tornaram-se tantos, mercê do favor de Deus e da caridade em que se abrasava, que o superior do Convento começou a irritar-se com a quantidade de gente que batia à porta e perturbava a vida da Comunidade.

Acabou por proibir Frei Vicente de fazer milagres. Ele, então, por obediência, abstinha-se de olhar para as misérias que lhe apresentavam e negava-se a comparecer na portaria.

Mas, em cada ocasião, houve obras na torre da igreja e aconteceu que, indo São Vicente a passar, despencou-se lá das alturas um pedreiro, grande admirador do Santo, e enquanto caia, gritou por ele, suplicando-lhe que não o deixasse se despedaçar no chão.

Acorrentado pela obediência, mas movido de compaixão, São Vicente gritou:

– Detêm-te no ar, porque eu vou pedir licença ao Superior.

E correu para o Convento.

Meu Padre, disse-lhe o Santo, eu vos peço licença para que me deixeis pedir a Deus mais um milagre. Porque caiu da torre o pedreiro, e pediu-me que o salvasse. Eu, porém, como não tinha a vossa permissão, ordenei-lhe que se detivesse no ar, e vim correndo, pedi-la a vós.

No ar, exclamou o Superior atônito e vencido.

E me pedes licença para fazer milagres! O milagre maior está feito. Vai, filho, e faze o que te ordena a caridade!

Salvou-se o homem e São Vicente Ferrer pode retornar daí em diante a sua gloriosa carreira de taumaturgo.

Perguntaram a São Vicente Ferrer5 alguns anos antes de sua morte: “Mestre Vicente, quantos milagres fizestes em vossa vida?” Respondeu ele: “Quase três mil”.

Para canonizar alguém, requer a Igreja apenas três milagres.6 No Processo de Canonização de São Vicente, os peritos pararam cansados no 873º milagre; e todos sabem a seriedade da Cúria Romana sobre este assunto.


Sobre os sinais da época do Anticristo. "Vendrá un tiempo que ninguno lo habrá visto hasta entonces... Se producirá un estru­endo tan grande, de modo que ni fue ni se espera otro mayor, sino el que se experimente en el juicio.

Llorará la Iglesia... Ahora está lejos; pero llegará sin falta y muy cerca de aquel tiempo en que dos empezarán a hacerse reyes: pero sus días no se alargarán mucho. Veréis una señal y no la conoceréis; pero advertir que en aquel tiempo las mujeres vestirán como hombres y se portarán según sus gustos licenciosamente y los hom­bres vestirán de mujeres".

Esta profecía está sacada de un sermón que predicó San Vicente Fer­rer en Barcelona el 13 de septiembre de 1403, bajo el lema Ti­mete Deum. Así lo afirma el autor de un libro titulado "Profe­cías" impreso en Lérida en 1871 y el de un folleto impreso en 1879 en Barcelona por An­tonio Bosch. Y si esto ha de suceder para cuando las mujeres den en la manía de vestir como hombres y los hom­bres se afeminen hasta pare­cer como mujeres, no indicará ya esto que se aproxima la hora de los acontecimientos profetizados?7



Sobre a Pureza interior e o Zelo nos Paramentos Litúrgicos. Se este exemplo, entretanto, vos parece por demais extraordinário, imitai então a conduta do glorioso São Vicente Ferrer. Diariamente ele celebrava a Santa Missa, antes de pregar a um inumerável auditório.

Ora, duas coisas ele levava ao santo altar: uma soberana pureza de alma e uma extremada compostura exterior. Para conseguir a primeira, confessava-se cada manhã; e eis o que eu quisera de vós, ó Sacerdotes, que buscais a maior honra de Deus, ao celebrar os Santos Mistérios.

É espantoso que alguns empreguem meia hora lendo livrinhos em preparação ao Santo Sacrifício, enquanto que um curto exame e um ato de viva contrição sobre qualquer pecado da vida passada, se não houver outra matéria, bastar-lhe-ia para adquirir grande pureza de coração. Esta é a preparação mais perfeita que poderíeis fazer para a Santa Missa: confessar-vos, o mais que puderdes, todas as manhãs.

Bani todo escrúpulo e não desprezeis o conselho que vos dou. Oh! Que messe abundante de méritos amontoareis então! Como me agradeceríeis ao encontrar-nos na Bem-aventurança eterna!

Para alcançar a segunda, o Santo queria que o altar fosse ornamentado com magnificência; exigia extremo asseio nos paramentos e vasos sagrados. Confesso que a pobreza de muitas igrejas escusa-as de possuir paramentos ricos, bordados a ouro e seda; quem pode, porém, dispensar o asseio e a decência convenientes? Zelo tão ardente pelos Santos Mistérios animava o seráfico São Francisco, que, apesar de seu amor à santa pobreza, queria os altares mantidos em perfeita limpeza, e mais ainda os sagrados paramentos que diretamente servem ao Divino Sacramento. Ele mesmo punha-se muitas vezes a varrer as igrejas.

São Carlos, em suas ordenações, mostra-se tão exigente em coisas que podem parecer mesquinhas minúcias, que, na verdade é de admirar.

Para terminar, a Augusta Mãe de Jesus, nosso Deus, quis pessoalmente fazer-nos compreender esta necessidade, quando em uma aparição a Santa Brígida, disse: Missa dicinon debet nisi in ornamentis mundis. “Não se deve celebrar a Santa Missa senão com paramentos convenientes, que inspirem devoção por seu asseio e decência”.8


Falando do Pequeno Números dos que se Salvam. “A seguinte narrativa de São Vicente Ferrer vai esclarecer o que você pode pensar sobre isso. Ele relata que um Arquidiácono de Lyon desistiu de seu cargo e se retirou para um lugar deserto para fazer penitência, e que morreu no mesmo dia e hora que São Bernardo. Após sua morte, ele apareceu ao seu bispo e disse-lhe: "Sabe, Monsenhor, que na mesma hora em que eu morri, 33.000 pessoas também morreram. Desse total, Bernard e eu fomos para o céu sem demora, três foram para o purgatório, e todos os outros caíram no Inferno."9


Sobre o Dom das Línguas. São Vicente Ferrer “embora falasse corretamente 7 ou 8 línguas, ao pregar, ser­via-se uni­camente do seu dialeto valenciano e dirigia-se nele à gente de todas as na­ções, e que todas as na­ções o compreendiam, tanto pela expressão do rosto, gesto e entono, como mesmo, pelo próprio entendi­mento, que a santidade do pregador tinha o condão de abrir. Assim o ates­tam, entre outras pessoas, vários senhores da Bretanha, como João Ho­dierne”.10

"Não pode duvidar-se que Deus lhe concedeu o Dom das Línguas. O prodigioso núme­ro de judeus, mouros, sarracenos, turcos e escravos, que arrebatou da infidelida­de, sem falar nos milhares de hereges, cismáticos e pecadores obstinados, que conver­teu na Espanha, França, Itá­lia, Alemanha, Países-Baixos e Inglaterra, prova concludente­mente que sem milagre não era possí­vel fazer-se entender de povos tão diferentes".11


Sobre a Vaidade na Vida Espiritual. Na vida de São Vicente Ferrer conta-se que em Toulouse se haviam organizado, para afastar graves flagelos, Procissões de Penitência e Cerimônias de Desagravo. Dessas Procis­sões vieram os pe­nitentes a aproveitar-se para se mostrarem nas suas paradas com trajes apro­priados, chegando em certa sociedade a introduzir-se o costume de se procurarem disciplinas com cabos de prata, a fim de se distin­guirem pelos instrumentos de Penitência, os ricos dos po­bres. Até onde se vai aninhar a vaidade!

A que escravidão não se vota quem se abandona a este espírito de vaidade! 'É costu­me assim. Então? O que se há de fazer?' Se é estúpido ou discordante, pouco importa. O que importa é o Mundo. Não vale a pena discutir.12


Sobre o Carnaval. “O carnaval é um tempo infelicíssimo, no qual os cristãos cometem pecados sobre pecados, e correm à rédea solta para a perdição”. (São Vicente)


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1.  Êx. 8, 19; 31, 18; Salm. 8, 3; Luc. 11, 20.

2.  “São Vicente Ferrer – Santo Prodigioso”, Cap. V, p. 18. Prefácio de Zora Seljam. Sel Editora, Rio de Janeiro, 1981.

3.  “São Vicente Ferrer – Santo Prodigioso”, ob. cit., Cap. V, p. 48.

4.  “São Vicente Ferrer – Santo Prodigioso”, ob. cit., Cap. V, pp. 29-30.

5.  A. Auffray, S.D.B., “Do, Bosco”, Cap. X – O Taumaturgo, p. 248. 2ª Edição, Livraria Editora Salesiana, São Paulo, 1955.

6.  “São Vicente Ferrer – Santo Prodigioso”, ob. cit., Cap. V, p. 122.

7.  Dr. D. Benjamín Martín Sánchez, Professor de Sagrada Escritura, “Los últimos tiempos” – Profecias públicas y privadas, pp. 52-54, 2ª edição, Ediciones Monte Casino, Zamora, 1971.

8.  São Leonardo de Porto-Maurício, O.F.M., “Tesouro Oculto – ou, As Excelências da Santa Missa”, conforme a edição romana de 1737, dedicada a S. S. o Papa Clemente XII.

9.  Este Sermão de São Leonardo de Porto-Maurício, foi pregado durante o reinado do Papa Bento XIV, que tanto amou o grande Missionário. Sermão disponível em: http://www.olrl.org/snt_docs/fewness.shtml

10.  “São Vicente Ferrer – Santo Prodigioso”, Sel Editora, Rio de Janeiro, pp. 44-45.

11.  Pe. Croiset, S.J., “Ano Cristão”, Vol. IV, pp. 75-80, 5 de Abril, Festa de São Vicente Ferrer; Tradução do Francês pelo Pe. Matos Soares, Porto, 1923.

12.  R. Pe. Raul Plus, S.J., “Cristo no Lar”, Liv. II, c, p. 207.


sábado, 25 de março de 2023

A ANUNCIAÇÃO DA SANTÍSSIMA E SEMPRE VIRGEM MARIA.

(25 de Março)


DELEITAÇÃO DESTE MISTÉRIO

O Mistério da Encarnação, que se cumpriu no mesmo instante em que o Anjo o anunciou à Santíssima Virgem, e Ela deu o seu consentimento, deve considerar-se como o princípio de todos os nossos Mistérios, como o fundamento da nossa Religião, como a Obra-prima do Onipotente, como a origem da nossa ventura, e como o Mistério por excelência da bondade e amor de Deus para com os homens, justificado pelo Espírito Santo, admirado dos Anjos, pregado às nações, crido no mundo, recebido na glória. E porque a felicíssima nova, que o Arcanjo São Gabriel trouxe à Santíssima Virgem, do Mistério da Encarnação, é em todo o rigor o sinal mais sensível e a primeira época da nossa Religião, a Igreja exprime todos os Mistérios que ela encerra sob o título de Anunciação da Santíssima Virgem.

Tendo chegado, enfim, o ditoso momento destinado desde toda a eternidade para a reconciliação dos homens com Deus, aquele mesmo Arcanjo Gabriel que 400 anos antes havia predito ao Profeta Daniel o Advento e a Morte do Messias, aquele mesmo também que seis meses antes havia anunciado o nascimento do que devia ser o seu Precursor, foi enviado por Deus a uma virgem chamada Maria, da tribo de Judá e de sangue real, porque era descendente da casa de Davi.

Aquele Senhor que A escolhera para ser a Mãe do Messias, havia-a prevenido, desde o primeiro instante da sua Conceição, com todos os dons celestes e com uma plenitude de graça tão assombrosa, que era o pasmo dos Céus; e como dizem os Santos Padres, excedia em méritos e santidade as mais perfeitas criaturas.

Posto que, por uma virtude até então sem exemplo, havia consagrado a Deus com voto a sua virgindade, quis a divina Sabedoria, que Ela esposasse um varão justo, chamado José, da mesma casa de Davi, para ser guarda da sua honra, testemunha e protetor da sua pureza, tutor e pai putativo do Filho que havia de nascer só dela.

Vivia esta virgem em Nazaré, pequena cidade da Galileia. Foi ali onde lhe apareceu o Arcanjo São Gabriel, no tempo, diz São Bernardo, em que, retirada da vista e comércio das criaturas, se imolava ao seu Deus no fervor da mais sublime contemplação. Este enviado celeste, cheio de respeito e veneração à vista daquela que já considerava como sua Rainha e Soberana, saúda-A por estas palavras: Deus te salve, cheia de graça, o Senhor é contigo, bendito és tu entre as mulheressaudação que compreendia o mais pomposo e magnífico elogio que podia dar-se a uma criatura; porque era assegurar-lhe que estava cheia dos dons do Espírito Santo; que possuía todas as virtudes em supremo grau; e que nem no Céu nem na terra havia criatura mais agradável aos olhos de Deus.

A repentina vista de um Anjo em figura de homem causou a princípio alguma perturbação à mais pura das virgens. Mas o Anjo, que notou aquela perturbação, tranquilizou-A, dizendo: Não temas Maria; porque achaste graça diante de Deus. Conceberás no teu ventre e darás à luz um Filho, e O chamarás pelo seu Nome Jesus. Este será grande e será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus Lhe dará o trono de Davi seu pai, e reinará eternamente na casa de Jacó e o seu reino não terá fim.

É fácil de conceber quais foram então os sentimentos da mais humilde de todas as criaturas. Não podia compreender que Deus tivesse posto os olhos nela para o cumprimento de tão alto e assombroso Mistério. Além disso, a qualidade de mãe assustara-A; – tanto era o apreço em que tinha o puro estado de virgem. Foi isto que a obrigou a perguntar ao Anjo: Como se fará isto? Pergunta, diz Santo Agostinho, que a puríssima Virgem não formulara, se não tivesse feito voto de perpétua castidade.

Então o Anjo para a sossegar, disse-Lhe: O Espírito Santo virá sobre ti e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a Sua sombra. E por isso também, o Santo que há de nascer de ti será chamado Filho de Deus. E eis aí Isabel, tua prima, também esta concebeu um filho na sua velhice; e este é o sexto mês da que se diz estéril, porque a Deus nada é impossível.

Enquanto o Anjo falava, Maria sentiu-se interiormente iluminada por uma luz sobrenatural, que Lhe fez compreender toda a economia e todas as maravilhas deste inefável Mistério; e aniquilando-se diante de Deus, exclamou: Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra.

Logo desapareceu o Anjo, e naquele feliz momento o Espírito Santo formou do sangue puríssimo da Santíssima Virgem, um Corpo soberanamente belo; e criando ao mesmo tempo a mais perfeita das Almas, uniu o Corpo e a Alma substancialmente à Pessoa do Verbo: Et Verbum caro factum est: e o Verbo por meio desta substancial União se fez Carne.

Neste momento todos os Anjos adoraram o Homem-Deus; neste momento converteu-se em Templo do Verbo Encarnado o ventre da mais pura de todas as virgens; neste feliz momento foram cumpridas todas as Profecias que anunciavam a vinda do Messias. – Hodie Davidicum est impletum oraculum, diz São Gregório de Neocesareia. Então se verificou o oráculo de Davi. – Gaudebunt campi, et omnia quae in eis sunt. Tunc exultabunt omnia ligna silvarum a facie Domini, quia venit:1 Toda a natureza saltou de alegria no momento em que o Homem-Deus apareceu sobre a terra: – Hodie, qui est, gignitur, diz São João Crisóstomo: Neste dia foi concebido no tempo o que é ante de todos os séculos; e, ainda que essencialmente imutável, começou a ser o que não era, fazendo-Se homem, sem nada perder do que era na qualidade de Deus: Qui est, fit it quod non erat. Nec cum Deitatis jactura factus est homo. – Neste dia, escreve o sábio Gérson, foram ouvidos os ardentes desejos dos Santos Patriarcas, que suspiravam pela vinda do Messias: Hodie completa sunt omnia desideria. É esta a principal festa da Santíssima Trindade, pois não ouve outro dia em que ela operasse tão grandes maravilhas: Hodie primum est et principale totius Trinitatis festum.

Quantos Mistérios num só e quantas maravilhas neste Mistério! Em Jesus Cristo, um Homem-Deus; em Maria, uma Virgem-Mãe de Deus; e em nós, em favor de quem se fizeram todas estas maravilhas, legítimos filhos de Deus.

Sim, caríssimos irmãos, diz Santo Agostinho: Talis fuit ista susceptio que Deum hominem faceret, et hominem Deum: O efeito da Encarnação foi tal, que em virtude dela, e na Pessoa de Cristo, o homem se elevou a ser Deus, e Deus se abateu à forma de homem. Um Deus verdadeiro homem, e um homem verdadeiro Deus. As duas Naturezas, divina e humana, unidas em uma mesma pessoa; porém, fazendo-se esta União de Pessoas sem confusão de naturezas. O Verbo se fez Carne; e por esta União Real e Substancial do Verbo com a humanidade, o Verbo Encarnado fez Suas todas as misérias naturais do homem, e o homem entrou na participação de todas as grandezas de Deus.

Mistério inefável, a cuja execução se deve render todo o entendimento criado; porque, como diz São João Crisóstomo, não perguntemos por que virtude e de que modo o Verbo Eterno sublimou a natureza humana a uma tão nobre aliança. A ordem da natureza cede sempre a tudo o que Deus quer. Ubi enim Deus vult, ibi naturae ordo cedit. Deus quis fazer-Se homem, Ele o pode fazer, Ele o fez, e salvou os homens: Voluit, potui, descendit, salvavit. Oh, que inesgotável manancial de piedosas reflexões e de sentimentos de admiração, amor e reconhecimento neste inefável Mistério!

Mas se o assombroso abatimento do Verbo, dizem os Santos Padres, é tão grande motivo de admiração, a sublime elevação de Maria à augusta qualidade de Mãe de Deus, não nos patenteia menores maravilhas. Uma virgem que concebe no tempo o mesmo Filho que Deus gerou antes de todos os séculos na eternidade. Maria tornada no sentido próprio e natural Mãe de Deus, e por esta divina Maternidade, diz São Bernardo, com autoridade sobre Deus, e Deus com subordinação a Maria. Utrinque miraculum: Dois grandes prodígios: um deus com todos os deveres de um filho para com sua mãe; e Maria em posse de todos os direitos que uma mãe têm sobre o seu filho, e de todos os bens, por assim dizer, deste filho. Em face disto não nos espante ouvir dizer a Santo Agostinho, que entre todas as puras criaturas, ninguém é igual a Maria. Taceat et contremiscat omnis creatura – exclama o célebre São Pedro Damião – et vix audeat aspicere ad tantae dignitatis immensitatem: Emudeça, possuída de um respeitoso temor, toda a criatura à vista desta imensa dignidade, que não pode compreender. Não se receie de dizer de mais, acrescenta o sábio chanceler de Paris, quando se exaltam as grandezas de Maria; porque, enriquecida com os bens de seu Filho, e só inferior a Deus, está superior aos elogios dos Anjos e dos homens.

Não nos deve surpreender este concurso unânime dos Padres da Igreja, para publicar as grandezas inefáveis da Mãe de Deus no dia da sua Anunciação, porque esta Maternidade divina encerra por si só, todos os elogios. Hoc solum de beata Virgene praedicare, diz Santo Anselmo, quod Dei Mater este, excedit omnem altitudinem, quae post Deum dici est cogitari potest: Só dizer que Maria é Mãe de Deus, é elevá-La acima de todas as grandezas que depois de Deus se podem dizer ou imaginar.

É esta qualidade a origem e o título primordial de todos os seus privilégios. Daqui dimanou aquela Conceição Imaculada, aquela Virgindade sem exemplo, aquela Universalidade de virtudes sem limites; daqui os magníficos, os doces títulos de Rainha do Céu e da terra, de Mãe de misericórdia, de Refúgio dos pecadores.

Tributai a Maria, escreve São Bernardo aos Cônegos de Lião, tributai a Maria os justos louvores que lhe pertencem; dizei que Ela achou para Si e para nós a Fonte das graças; publicai que Ela é a Medianeira da salvação e a Restauradora dos séculos; porque é isto o que a Igreja canta: Magnifica gratiae inventricem, mediatricem salutis, restauratricem saeculorum, haec mihi de illa cantat Ecclesia.

Logo que Maria se tornou Mãe de Deus, diz São Lourenço Justiniano, começou a ser Escada do Paraíso, Porta do Céu, Advogada do mundo, e a verdadeira Mediadora entre Deus e os homens: Paradisi scala, coeli janua, interventrix mundi, Dei atque hominum verissima mediatrix.

Há Apóstolos, exclama Santo Anselmo, há Patriarcas, Profetas, Mártires, Confessores, Virgens; todos estes são poderosos intercessores perante Deus, e eu conto muito com a sua poderosa intercessão; mas, ó Virgem Santa, o que todos estes podem juntos Convosco, Vós só o podeis sem eles: Quod possunt omnes isti tecum, tu sola potes sine illis omnibus. E porque podeis Vós só tanto, e mais que todos juntos? Quare hoc potes? Porque sois Mãe do Salvador, Esposa do próprio Deus, Rainha do Céu e da terra, e Soberana Imperatriz de todo o universo: Quia Mater es Salvatoris nostri, Sponsa Dei, Regina coeli et terrae et omnium elementorum. Enquanto Vós não falais em meu favor, ninguém se atreve a defender-me: Te tacente, nullus orabit, nullus juvabit. Mas logo que Vos pronunciais pela minha causa, terei tantos advogados quantos os cidadãos do Céu: Te orante, omnes orabunt, omnes juvabunt.

Quantas vezes, diz o famoso Abade de Celes, quantas vezes a misericórdia da Mãe obtém a graça da conversão àquele a quem a justiça do Filho estava prestes a condenar ao fogo eternos? Saepe quos justitia Filii potest damnare, Matris misericordia liberat. Que confiança, pois, não devemos ter naquela Senhora, que, pelo mesmo fato de ser Mãe de Deus, foi declarada Dispensadora das graças de seu Filho, e tem nas Suas mãos a nossa salvação! Thesauraria gratiarum ipsius; salus nostra in manu illius est.

Tal tem sido o sentir geral de todos os Santos com relação à Mãe de Deus; tal tem sido desde todos os tempos a fé da Igreja. Só os hereges é que não puderam tolerar nunca que se rendesse à Maria o culto religioso que Lhe é devido. Não houve nem há inimigo do Filho que o não tenha sido ou seja da Mãe. Foi Maria quem esmagou a Cabeça do Dragão; não admira, pois, que por ele seja tão odiada; e como o Mistério da Encarnação é o fundamento da fé, não há blasfêmia que o Inferno não tenha vomitado contra esse Divino Mistério.

Os arianos negavam a Divindade do Verbo; os nestorianos a União Substancial do Verbo com a Carne, admitindo duas Pessoas em Cristo; os eutiquianos não reconheciam Nele senão uma só Natureza; os monotelitas davam-Lhe uma só vontade, e os marcionitas um Corpo fantástico. Todos estes golpes iam dar de ricochete na Augusta qualidade de Mãe de Deus em Maria.

A Igreja fulminou em seus Concílios, tão ímpios erros, e anatematizou os hereges. Entre estes nenhum se declarou com maior furor contra a Maternidade Divina, que o ímpio Nestório. Levado pelo orgulho, este indigno Patriarca de Constantinopla atreveu-se a disputar a Maria a Augusta qualidade de Mãe de Deus; e para colorir ou adoçar a malignidade do seu erro, concedeu à Senhora os mais honrosos títulos que pode encontrar, à exceção do de Theotokos, ou, Mãe de Deus, que é o princípio e a base de todos os outros.

Reconhecendo a Igreja, que negar esta indisputável excelência à Virgem Maria, era lançar por terra o Mistério da Encarnação, tomou a defesa deste ponto com toda a força e ardor do seu zelo. Reuniu o célebre Concílio de Éfeso, no ano de 431, em que Nestório foi excomungado e degradado, e todos os seus erros anatematizados; ficando definido como um dos principais Artigos de Fé, que Maria é verdadeira Mãe de Deus, no sentido natural e rigoroso do termo, sem que este Dogma, tão antigo como a própria Igreja, pudesse sofrer interpretação maligna, declarando-se que o termo Theotokos seria tão consagrado e característico contra a heresia de Nestório, como já o era o termo Consubstancial contra os erros de Ario.

Não se pode imaginar o aplauso e regozijo com que foi recebida esta definição pela Igreja Universal, para glória da Santíssima Virgem. É justo que não deixemos em silêncio as demonstrações de júbilo que se fizeram em Éfeso no dia em que ela se publicou. Chegado este dia, todo o povo abandonou as suas casas e tomou as ruas e praças, aglomerando-se imensa multidão ao redor do famoso templo dedicado a Deus em honra da Virgem, onde estavam reunidos os Padres do Concílio.

Logo que se publicou a decisão e se conheceu que Maria era mantida na justa posse do título de Mãe de Deus, toda a cidade estremeceu com festivas aclamações e gritos de entusiástica e devotíssima alegria; e estes transportes de inexprimível regozijo foram tão vivos e tão universais, que ao saírem os Padres para suas casas, todo o povo os conduziu em triunfo, aclamando-os e cobrindo-os de bênçãos. Pelas ruas por onde seguiam, queimavam-se plantas aromáticas; milhares de archotes os rodeavam; o júbilo atingiu o delírio. Nada faltou à pompa deste regozijo comum, nem ao esplendor da gloriosa vitória, que Maria acabava de alcançar sobre os seus inimigos, que o eram também de seu Santíssimo Filho. Tão verdade é, exclama São Boaventura, que o culto religioso da Mãe de Deus foi sempre comum a todos os verdadeiros cristãos. Nasceu com a Igreja a devoção à Santíssima Virgem, e em todos os tempos foi olhada como um sinal visível de predestinação: Qui acquirunt gratiam Mariae, agnoscentur a civibus paradisi; et qui habuerit hunc caracterem, adnotabitur in libro vitae. Esta não é de modo algum, acrescenta São Bernardo, uma presunçosa confiança, fundada na poderosa proteção da Mãe de Deus e sustentada por uma vida ordenada e cristã.

O fim desgraçado do ímpio Nestório, foi um anúncio do que devem esperar todos os que se declaram inimigos da Santíssima Virgem.

Crê-se que foi neste Santo Concílio de Éfeso, que São Cirilo, que presidia em nome do Papa São Celestino, compôs juntamente com os outros Padres, aquela devota oração à Mãe de Deus, que a Igreja adotou depois: Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pecadores, agora e na hora da nossa morte. Amém.

Foi em todos os tempos muito célebre na Igreja a festa da Anunciação. Quando Santo Agostinho vivia, já estava fixada no dia 25 de Março, no qual, diz este Santo Padre, se crê por antiga e venerável tradição, que Jesus Cristo foi concebido e veio a morrer: Sicut a majoribus traditum suscipiens Ecclesiae custodit actoritas, octavo Kalendas aprilis conceptus creditur quo te passus.

O décimo Concílio de Toledo, celebrado no ano de 656, chama à solenidade deste dia a “Festa por excelência da Mãe de Deus, a Grande Festa da Virgem”: Festum sanctae Virginis, Genitricis Dei, festivitas Matris. Pois que outra festa da Mãe de Deus, dizem os Padres deste Concílio, é maior do que a Encarnação do Verbo? Nam quod festum est Matris, nisi Incarnatio Verbi?

A incompatibilidade do luto da Igreja num tempo de Paixão e Penitência, em que ordinariamente cai a Anunciação, com a alegria e solenidade que convém a esta grande festa, levou os Padres do referido Concílio a transferi-la para o tempo do Advento, em que o Ofício Divino é quase todo do Mistério da Encarnação e da Anunciação da Virgem. A Igreja de Toledo fixou-a no dia 18 de Dezembro, e a de Milão no Domingo que precede imediatamente a festa do Natal.

Mas, como a Igreja Romana a restituísse, no século nono, ao seu dia próprio, quase todas as outras Igrejas se conformaram com ela; se bem que a maior parte não deixou de celebrar também uma festa particular em honra da Santíssima Virgem, no dia 18 de Dezembro, com o título de Expectação de Nossa Senhora, de que ainda se reza.

Na própria Inglaterra, não obstante o funesto cisma, continua a celebrar-se no dia 25 de Março, como dantes, a festa da Anunciação, que é uma das de preceito, e se celebra com jejum, vigília e Ofício público. Começa neste dia o Ano Eclesiástico.

São muitas as Ordens Religiosas que se honram com o distintivo da Anunciação de Maria. Os Servitas ou Servos da Santíssima Virgem, cujo instituto teve princípio em Florença pelos anos de 1232, e que no espaço de quase sete séculos tem dado muitos Santos ao Céu e grandes homens à Igreja, denominaram-se da Anunciada ou da Anunciação; e na verdade, nenhum título convém melhor a uma Ordem, especialmente dedicada a servir e honrar a Virgem do que este, que está significando o feliz momento em que Ela se tornou Mãe de Deus.

Na França e na Itália, há religiosas que têm o mesmo nome, chamadas também Celestes, ou Monjas azuis, por andarem vestidas de azul. O total esquecimento do mundo junto com o profundo silêncio, retiro e solidão que professam, contribui muito para fomentar aquele espírito interior e doce piedade que nesta Ordem reina, tornando-a muito digna do título da Anunciada ou da Anunciação.

No ano de 1460, o Cardeal João de Turrecremata, fundou em Roma, em Nossa Senhora da Minerva, uma piedosa Congregação, com o título de Anunciada, para casar donzelas pobres e dotar as que desejem fazer-se religiosas. Esta Arquiconfraria tornou-se tão rica pelas liberalidades dos Sumos Pontífices e por muitos legados pios, que todos os anos dá estado a quatrocentas donzelas.

Em 1639, a ilustre Madre Joana Chezard, fundou em Avinhão, com aprovação da Santa Sé, a Ordem das Religiosas do Verbo Encarnado, cujo principal fim, é honrar continuamente com fervorosa devoção este divino Verbo feito Carne nas entranhas da mais pura e mais santa entre todas as virgens, e preparar-lhe castas esposas pela piedosa e admirável educação, que segundo o seu instituto ministram às meninas que Deus chama ao estado religioso. Pode-se dizer que o fervor com que edificam a todos, sustenta com esplendor o augusto título que as distingue, e merece-lhes a qualidade de Filhas do Verbo Encarnado.

Amadeu VIII, duque de Sabóia, em 1434, substituiu pelo título da Anunciada o da Ordem Militar Lago de Amor, mandando que em lugar da Imagem de São Maurício, trouxessem os cavaleiros, a da Santíssima Virgem, e em vez dos laços, uns cordões com palavras da Saudação Angélica. Prova disto, que no mundo cristão, não há estado algum que não professe especial veneração a este Mistério, que sendo o primeiro de todos, foi princípio e origem da nossa felicidade.

O mesmo espírito de devoção e reconhecimento levou o Papa Urbano II a ordenar, no ano de 1095, no Concílio de Clermont, a que ele presidio pessoalmente, que todos os clérigos rezassem o Ofício Pequeno de Nossa Senhora, introduzido já entre os Monges por São Pedro Damião; e que três vezes ao dia, pela manhã, ao meio-dia e à noite, se tocasse às orações, vulgarmente chamadas as Ave-Marias, e que em outro tempo se dizia Tocar ao perdão, pelas grandes indulgências que os Papas João XXII, Calisto III, Paulo III, Alexandre VII, Clemente X e outros, procederam aos que as rezassem três vezes ao dia.


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Fonte: Pe. Croiset, “Ano Cristão”, Vol. III, dia 25 de Março, pp. 300-306. Traduzido do Francês e adaptado às últimas reformas litúrgicas pelo Pe. Matos Soares, professor do Seminário do Porto. Tip. “Porto Medico”, Ltda. Porto. 1923.

1.  Ps. 45, 12.


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